terça-feira, 20 de janeiro de 2015

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

MÃE

MÃE
Por António Lobo Antunes
"Era muito bonita, a mãe. Ensinou-nos a ler e ensinou-nos a dançar, talvez as duas coisas mais importantes do mundo. E lembro-me de a ver andar de bicicleta na Praia das Maçãs, um pouco indignado porque andar de bicicleta era uma coisa para nós, não era uma coisa para ela Quando eu era pequeno, à noite, e já estava sentado na cama, a mãe dizia

com Deus me deito
com Deus me acho
aqui vai o Tóino
pela cama abaixo

eu ia, ela apagava a luz, e logo a seguir manhã. Hoje sonhei que estava sentado no parapeito do Viaduto Duarte Pacheco, a minha mãe chegava, dizia

com Deus me deito
com Deus me acho
aqui vai o Tóino
pela cama abaixo

eu ia e logo a seguir nada. Um dia destes vai ser assim, desejo que um dia destes seja assim.
O meu irmão Pedro morreu muito depressa no dia 21 de Dezembro, como era costume nele sem prevenir ninguém, mas tenho a certeza que, em qualquer ponto seu

com Deus me deito
com Deus me acho
aqui vai o Pedro
pela cama abaixo

só que, se calhar, ninguém tomou atenção a estas palavras. No dia seguinte fomos, os irmãos, dizer à mãe. Estava sentada na cadeira do costume e portou--se com a imensa dignidade com que sempre viveu. As suas palavras foram
- Tenham misericórdia de mim.
Era muito bonita, a mãe. Ensinou-nos a ler e ensinou-nos a dançar, talvez as duas coisas mais importantes do mundo. E lembro-me de a ver andar de bicicleta na Praia das Maçãs, um pouco indignado porque andar de bicicleta era uma coisa para nós, não era uma coisa para ela.
Depois de
- Tenham misericórdia de mim
que foi a única vez que a vi usar essa palavra, passado um bocado acrescentou
- Uma mãe não tem o direito de estar viva quando um filho morreu
e morreu de lhe ter morrido o filho, com uma discrição e uma elegância exemplares. Não tinha nenhuma doença especial: apenas a obrigação de cumprir um dever e foi juntar-se ao Pedro. Não comia quase, sentada na cadeira em que recebeu a notícia. Às vezes dizia-lhe versos porque ela gostava muito de poesia. Na igreja disse-lhe um dos seus sonetos preferidos, de António Sardinha, que aprendi com o pai. Costumava contar que o pai, enquanto se arranjava de manhã, na casa de banho, recitava poemas e ela ficava a um canto, a ouvi-lo.
- O que é que a seduziu no pai, mãe?
- A inteligência
ela que começou a namorá-lo aos catorze anos. Isso e a voz do pai, tão sensual:
- Nenhum dos filhos herdou a voz do pai. Talvez o António, um bocadinho.
A sensualidade e a inteligência, ela que era uma mulher muito inteligente. Falava, por exemplo, de Bento de Jesus Caraça que tinha conhecido menina, lá na Beira Alta, com o entusiasmo com que uma adolescente fala de um actor de cinema. Durante os meses ?em que esteve a preparar-se para se reunir ao filho às vezes pegava--lhe na mão e os dedos tão suaves e doces. Não éramos ricos, teve muitos filhos, tinha de tomar conta daquilo tudo, costurava, trabalha bastante em casa e quando se arranjava, assim para jantares mais de cerimónia, ficava uma brasa e pêras. Também não era especialmente terna mas contava-me, por exemplo, que, era eu bebé, lhe doía a boca de me dar beijos. Entre tantas mulheres apenas ela me declarou isso. Deve ser tão bom doer a boca de beijar. Há alturas em que me sinto culpado pelos problemas que lhe atirei para cima: doenças (uma meningite aos oito meses durante a qual estive em coma, tuberculose aos três anos), o meu mau feitio
(- Assim tão mau, mãe?)
o meu completo desinteresse pelos estudos
(Só se preocupa em escrever e ler)
o seu receio de me ver acabar a vender pensos rápidos e Bordas d'Água nas esplanadas porque a literatura não dá de comer a ninguém, esquecida que a culpa era dela dado que nos ensinou a ler antes de entrarmos para a escola e, em mim, a doença pegou:
- Só liga a livros e a raparigas.
Eu perguntava-lhe
- Existe alguma coisa para além disso, mãe?
e o facto de não responder significava, talvez, que até certo ponto estava de acordo.
Às vezes, ao zangar-se
- Não sorrias porque estou a ralhar-te
e, quando eu sorria, era-lhe difícil ralhar-me
- Sobretudo não faças essa carinha
e eu lá mudava a carinha para o resto da descompostura. Julgo que só compreendi bem o que sentia por mim quando estava com o cancro e ela veio visitar-me. Não era mulher de lágrimas mas a cara encontrava-se cheia delas, escondidas. Agora tenho o seu retrato ali e sou eu que as escondo. Pior do que você, mãe, visto que sou mais chorão. A Zézinha nasceu quando eu na guerra e escreveu-me a contar: "não sei se estás vivo ou morto porque há um mês e meio que não sei nada de ti". Estava vivo. Não assim muito vivo, mas vivo, ao passo que quanto a si, mãe, nunca esteve tão viva como agora.

Com Deus me deito
com Deus me acho
aqui vai o Tóino
pela cama abaixo.

Tanta coisa que eu podia contar a seu respeito, e não conto, e jamais contei. Não sou capaz, tenho pudor. Enquanto a metiam debaixo da terra e não aguentei, fui-me embora. Fazia um dia de sol muito bonito. E tive a certeza de ver o Pedro ao longe. Não precisámos de falar. Quase nunca precisávamos de falar para nos entendermos. Mas a palavra mãe ia de um para o outro. E somos nós que vamos pela cama abaixo. A mãe será a última pessoa a ficar, olhando para a gente. Nascemos de si, não tem o direito de se ir embora. Não concorda? Olhe que eu ponho-me a sorrir aquele sorrisinho parvo até escutar que sim.”
António Lobo Antunes, em Crónica publicada na VISÃO 1140, de 8 de Janeiro

domingo, 18 de janeiro de 2015

Ao Domingo Há Música



Com grandes esperanças já cantei,

Com que os deuses no Olimpo conquistara;

Depois vim a chorar porque cantara,

E agora choro já porque chorei.

Se cuido nas passadas que já dei,

Custa-me esta lembrança só tão cara,
Que a dor de ver as mágoas que passara,
Tenho por a mor mágoa que passei.
Pois logo, se está claro que um tormento
Dá causa que outro na alma se acrescente,
Já nunca posso ter contentamento.


Mas esta fantasia se me mente?
Oh ocioso e cego pensamento!
Ainda eu imagino em ser contente?

Luís de Camões, in " Sonetos", ´Bertrand editora

Portugal é um país de gente  que  partiu e  reparte todos os dias em  demanda de melhores mundos. E fica-se, sem partir, de coração dorido pelos que vão. É gente nossa. Gente que faz Portugal. Gente que chora, labuta e sorri. Gente de coragem. Gente que sai porque Portugal não lhes abriu os braços. E quando partem, levam-nos também. A saudade marca-nos a todos. E, por isso, são cantadas, em português, as lágrimas  de todos nós, repartidas por esse mundo fora.
E Dulce Pontes fá-lo magistralmente com Lidia Pujol e Mayte Martin em "Lágrima" durante um espectáculo para recolha de fundos para a Fundación Vicki Bernadet que auxilia vitimas de abusos sexuais na infância.


Dulce Pontes com Estrella Morente, em "Canção do Mar" na Gala de entrega dos Prémios Ceres de Teatro 2013 , no Teatro Romano de Mérida.

sábado, 17 de janeiro de 2015

Finge-se quase até ao esquecimento

Está-se a fingir muito bem
(…)
Está-se a fingir muito bem.
Finge-se quase até ao esquecimento.
Há paisagens, ruas, cinemas, amores, dinheiro,
pensamentos, palavras, estações do ano
e obras de arte.

Diz-se: a vida.

Ou: o tempo.

E um dia abre-se o livro
e vê-se de novo a fotografia.
E já não se recomeça a leitura no mesmo ponto.
O que se roubou foi o tempo,
sim, mas não naquele primeiro sentido suposto.
A antiquíssima imagem fixa
serve para se roubar ao tempo a sua qualidade de perdão.

Porque a idade não ensina a anuência aos bons
e fáceis sentimentos.
A idade é: cada vez mais atenção.
Só te resta isso, caminhador:
o perigo.
O perigo que é o conhecimento,
o conhecimento ganho na atenção.

Um homem que conquistou a sua idade
não pára diante da fotografia antiga
para se comover e murmurar:
a mãe com o seu filho ou o filho com a sua mãe.

Ele pensa: quem são?
o que fazem um ao outro?
Ele ouve:
vou morrer, e vou deixar-vos descansados.
E ouve a sua própria voz:
então morra.

E as mãos inocentes.

De uma delas sabe que se moveu
como se agarrasse um punhal
— a pequena mão inocente registada com oito anos.

Descanso?
Mas isso conhecia ela bem que seria impossível.
O que ela dizia era assim:
morro para que tu, tu, tu,
não tenhas nenhuma espécie de descanso.

Um pouco mais, um pouco mais
— é para isso que as imagens são imóveis.
Tu próprio não és uma criatura móvel,
a menos que fales em atenção,
em profundidade.

Desce àquilo em que te encontras imóvel.

Mas em vez disso saímos para a rua,
à procura dos velhos companheiros:
os que se vão suicidar,
os que se encontram à entrada do seu irrevogável romance de esquizofrenia,
os que de longe escreverão uma carta
pedindo para os ajudarmos a virem morrer nesta cidade branca
que, do outro lado,
quando se está com o fígado desfeito e a cabeça a tremer,
a gente imagina metaforicamente aérea,
varrida por ventos puros.

Saímos em busca dos bêbados.

Pretende-se a ilusão de espaços dinâmicos,
figuras que se propaguem através deles,
o empolgante cinetismo das visões,

E que haja tempo, o tempo, o tempo.

Que as coisas avancem,
desfazendo os nós ferozes onde a angústia se concentrou.

Uma semana de bebedeira ininterrupta
— e aparecem as amiguinhas,
vamos todos de um lado para outro,
bando apocalíptico,
animado por um furor malsão, uma alegria brutal.

Arranjamos um quarto,
despimo-nos,
e depois estamos noutro quarto,
e estamos a despir-nos,
e de novo a fazer amor,
quatro, seis, oito em cima do tapete —
o terrível milagre de uma alucinação de pernas,
braços, seios, mãos, sexos, coxas, cabeças, vestidos, camisas.

E uma madrugada, só,
vagueando pelos cais desertos,
no meio da luz suja e trémula,
ressurge o horror da inteligência.

Vê-se tudo, e seria preciso morrer.

E então volta-se para casa,
procura-se a fotografia no livro,
no fundo de uma gaveta,
e está lá isto: o tempo não existe.

Seria possível uma pequena piedade por nós próprios,
mas somos tão pouco sentimentais,
nós.

Não gostamos da piedade.

Descobre-se que a mãe não era para piedades.
A perversa cabeça infantil
entra nela como um punhal,
e a mãe, sem conhecer o peso do braço do cavalheiro,
olha o espaço, de lado, neutra,
ligada àquela espécie de enigmático crime,
à obscura vingança
no outro lado da sua profecia do descanso para eles, para ele, ele
— para ti.

Decifrando a metáfora,
percorrendo os caminhos para descobrir as deslocações das partes
e, assim, recompor a verdade do texto
— a fotografia, a realidade, a vida
— ele descobre que toda a gente tem as mãos cheias
de sangue.

Que nada foi criado
que o não fosse no abismo das destruições.
E entendendo enfim a linguagem das fotografias,
ele assume a sua desgraça,
e a insignificância dela,
e supõe poder avançar,
liberto,
para a sua própria morte,
algures num tempo.
(…)
Herberto Helder, in Apresentação do Rosto, Editora Ulisseia, 1968


sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Conectados , mas ausentes ...

Plus connecté, tu meurs !
"Le spectacle est quotidien. Dans la rue, dans les transports en commun, femmes, hommes, les enfants à peine moins, silencieux, muets, absents aux autres, vont ou se tiennent les yeux baissés, fixés sur leur vision : ils sont connectés. Par Alain Rey
Si on le dit ainsi, c'est à cause d'un verbe latin qui réunit cum, « avec », et nectere, « lier, nouer ». Belle connexion qui nous attache à tout et à n'importe quoi. Tant qu'il n'y avait pas la fée électricité, on connectait fort peu. On se contentait de lier, d'attacher, de coller, de ficeler... Mais vinrent les fils électriques, avant l'univers du sans-fil et des ondes. Aubaine pour le verbe connecter, et son participe connecté, qui allait révéler, avec l'informatique, des millions d'« adhérents ». Après avoir connecté des appareils et des machines, dans un labyrinthe de fils que maîtrise la connectique, on inventa de petites machines sournoises, cachées sous le nom innocent de téléphone ou de tablette, sans plus de fil à la patte qu'un célibataire chez Feydeau. Du coup, la connexion changea de nature, passant des appareils, objets techniques, aux sujets, présumés pensants. Et chacun de se connecter, par l'entremise de ces objets magiques, l'ordinateur où règne le désordre, et plus encore le téléphone, devenu plus smart que ses maîtres, s'étant, sans perdre la parole, approprié l'écriture et l'image. Mais, on l'a vu, se connecter, c'est se « necter » avec. Avec quoi, je vous le demande ? Avec un inter-locuteur, comme un bon vieux bigophone du passé ? Plutôt avec ces entités mystérieuses qui ont nom «serveur», «réseau», avec cette «ligne» où grouillent mots et images «en ligne», justement, avec messire Google et ses concurrents, derrière quoi on soupçonne ce démon majeur qu'un romancier inspiré baptisa «Big Brother».
Certes, être connecté permet de parler et d'écrire «au loin», d'envoyer textes et images et de les transférer (pour montrer qu'on l'est, connecté, on va plutôt dire forwarder), croyant alors connaître et l'émetteur, soi-même, et le destinataire. Mais, ce faisant et outre cela, on reçoit un univers chaotique de messages, d'informations, de vérités et de mensonges, de sollicitations; on est saisi, distrait du réel, emporté, perdu, bien plus que par un journal ou un livre, parce que tout cela bouge, sautille, clignote, faisant en sorte que les connectés s'angoissent: «Suis-je bien connecté?» devient «la» question.
On pourrait croire que le contraire de «connecté» est «isolé», mais je constate que, dans le monde internautique, l'unité non connectée est dite «autonome». C'est peut-être un clin d'oeil que l'outil adresse aux humains connectés : n'ayez pas peur, bien chers frères et soeurs, la déconnexion, c'est plus d'autonomie. Ce pourrait être aussi une façon de redescendre sur terre et d'échapper à l'appel du «cloud» : les nuages, les merveilleux nuages... portés par Baudelaire, sont merveilleux sans doute, mais le monde et nos proches peuvent l'être aussi."
Par Alain Rey, Le Magazine Littéraire,La vie des Lettres, daté janvier 2015 à la page 98 .

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

"Floresça, fale, cante... a portuguesa língua"

Odysseus un die Sirenen, Gerard de Lairesse(1640-1711)
Viajar com Ulisses
(A propósito de Camões)
Por Eugénio Lisboa
“Um verso célebre do poeta francês do século XVI, Joachim du Bellay, reza assim, na densidade austera da sua infinita riqueza:  “Feliz quem, como Ulisses, fez uma boa viagem”.  Na verdade profunda que contém, o verso esconde um facto notório e algo perturbante: é que a famosa odisseia de Ulisses esteve emperrada nove alongados anos, com o herói encalhado nos braços sedutores de Calypso.  E, quando deles se libertou, foi menos para se dar de novo aos prazeres da viagem do que para regressar, obediente e provavelmente cansado, a Ítaca e se abandonar à rotina da vida doméstica (com, pelo meio, também é verdade, um derradeiro urrah! de vigoroso guerreiro votado à chacina dos atrevidos pretendentes de Penélope).  Esqueçamos, no entanto, como dizia a inesquecível Suze, de António Patrício, estes “pormenores” e erijamos, sem escrúpulos de maior, Ulisses como símbolo da viagem.  Fazer como Ulisses uma boa viagem!  Quem não passou por sonhar isto, sobretudo os da minha geração – que pouco ou nada viajava, antes de uma certa idade – e os que, como eu, adolescentes, viviam confinados num Moçambique, remoto e esquecido, ainda que vivificado pelo sol e pelo Índico, omnipresentes, obsessivos e fecundos.  Vivendo literalmente dentro do Índico, em que nos banhávamos diariamente, como quem carrega baterias, sentíamo-nos sensual e misticamente ligados aos mundos a que o mar – aquele mar – conduzia.  “A voz do mar”, dizia a grande romancista norteamericana, Kate Chopin, “fala-nos à alma.  O toque do mar é sensual, envolvendo-nos o corpo no seu abraço apertado e macio”. O mar, “cúmplice do desassossego humano”, como dizia Conrad, que nele viveu e sobre ele magistralmente escreveu, simultaneamente nos aplacava, nos seduzia e nos inquietava.  Vivíamos nele e com ele, mas seria despropositado dizer que falávamos com ele de igual para igual.  O mar acariciava-nos e fazia-nos ilimitadas promessas mas, por outro lado, sentíamos que nos ameaçava com a sua irresponsável enormidade.  Os poetas sabem destas coisas, quero eu dizer que sabem vê-las e sabem dizê-las para que nós delas tenhamos, depois, mais clara consciência.  Carl Sandburg, poeta audacioso dessa América desmedida e um pouco brutal, observava que “o mar fala uma língua que as pessoas educadas nunca repetem.  É um colossal calão de abutre e não respeita coisa nenhuma.”  Era nesse intemperado e temível calão, forte e selvaticamente poético, que o Índico, nos anos quarenta, nos fazia ameaças, mas nos aliciava também com inesgotáveis promessas.  A alguns de nós ele prometia, sobretudo, uma viagem.  Nesse tempo, não havia ainda Universidade naquelas margens do Índico em que se falava português.  Estudar implicava mudar, isto é, viajar.  Viajar, isto é, ir descobrir – ir ver, claramente vistos, outros horizontes, outros sóis, outras gentes.  Ir fazer, em sentido inverso, grande parte da viagem que fizera Vasco da Gama em 1498 e Camões cantara nos Lusíadas em que os nossos quinze anos se tinham, quase deslumbradamente, iniciado  O “largo mar”, “o longo mar”, “o duvidoso mar” e, também, hélas!, “o irado mar”, entre Lourenço Marques e o Cabo das Tormentas, e, depois, o resto, mais calmo, até Lisboa, ia ser nosso durante um mês de viagem.  Nele iríamos saudável e, por vezes, penosamente, aprender e desaprender.  Deixar lastro velho e ardido (preconceitos, crenças, falsos conhecimentos) e adquirir, ao sopro fresco do observado em primeira mão, conhecimentos novos.  Enquanto líamos sobre a Europa nos romances que apaixonadamente devorávamos (O Lírio Vermelho oferecia-nos Florença, Os Thibault abriam-nos as portas de Paris, do mesmo modo que Lawrence nos ofertava a Inglaterra e o México, ou Panait Istrati os cardos do Baragan romeno, ou, ainda, Eça de Queirós nos iniciava em Lisboa e nos seduzia com Sintra), enquanto líamos, sonhávamos com a longa viagem que nos levaria da Ítaca lourenço-marquina à Europa onde lançaríamos o nosso cerco de que resultaria a conquista final e inevitável!  Seria, como ensinava Gide, uma longa viagem de desinstrução que nos garantiria, subsequentemente, uma nova (mas também provisória) instrução.  Toda a viagem – e a do Gama, nos Lusíadas e na realidade, não foi excepção – é simbolicamente, uma busca da verdade ou de uma verdade melhor, ou da sabedoria ou de uma sabedoria melhor, ou da paz, ou de um bom comércio ou da imortalidade ou de uma maior simplicidade ou simplificação das nossas vidas (Gide notava que ia muitas vezes viajar apenas para fugir ao peso dos seus bens).  O viajar bom e produtivo é sempre um fugir à rotina, ao que já se sabe muito bem, ao onde se está demasiado bem.  Viajar deve ser um abandono do que já nos não excita, uma desinstrução necessária a bem de uma nova instrução que nos recria e nos faz viver de novo.  Nesse livro de um lirismo arrebatador, que perturbou e agitou jovens de todas as latitudes e longitudes do Globo terrestre, no final do século passado e sobretudo no primeiro quartel do nosso século – refiro-me a Les Nourritures Terrestres – André Gide proclamava com provocante despudor: “Enquanto outros publicam ou trabalham, eu passei três anos de viagem a esquecer, pelo contrário, tudo o que tinha aprendido de cabeça.  Essa desinstrução foi lenta e difícil; foi-me mais útil do que todas as instruções impostas pelos homens e foi, verdadeiramente, o começo de uma educação”.  Mais adiante, dirigindo-se a um discípulo imaginário, exorta-o nestes termos:  “Nataniel, eu quero aprender o fervor.  [...] não te demores ao pé daquilo que se parece contigo; não permaneças nunca, Nataniel.  Desde que um ambiente se começou a parecer contigo ou tu com ele, deixou de ser, para ti, proveitoso.  É preciso deixá-lo.  Nada é mais perigoso para ti do que a tua família, do que o teu quarto, do que o teu passado.”  Era este mesmo André Gide que afirmava ter escolhido como seu herói favorito não Ulisses – por causa de Ítaca que definitivamente o roubou à viagem – mas, sim, Sindbad, o marinheiro, de uma das histórias de Scheerazade, n’As Mil e Uma Noites; porque, conforme explicava Klaus Mann, na célebre biografia que consagrou ao autor das Nourritures, “Sindbad não tem Ítaca à sua espera, nem esposa, nem filho, nem cão.  Nem existem nele sentimentos capazes de extinguir-lhe o fervor.”
Sindbad era, em suma, a disponibilidade absoluta para a viagem, a aventura – a aprendizagem.  Como a marinhagem de Vasco da Gama, que se fez ao mar disponível para aprender do que seus olhos vissem “claramente visto”, em flagrante desrespeito da cultura oficiosa que Aristóteles por tantos séculos legara, assim nós, ainda que a medo, largávamos em Lourenço Marques e caminhando em sentido inverso, casa, quarto, família, passado e cão – ao encontro de conhecimentos novos que pudéssemos ver claramente vistos.  Equipados unicamente de abertura de espírito, audácia e olhos, os marinheiros do Gama exercitavam-se, com orgulho quase triunfalista e não pouca euforia, a ver os fenómenos que a natureza generosamente lhes propiciava:
Vi, claramente visto, o lume vivo
Que a marítima gente tem por santo,
Em tempo de tormenta e vento esquivo,
De tempestade escura e triste pranto.
Não menos foi a todos excessivo
Milagre, e cousa, certo, de alto espanto
Ver as nuvens do mar, com largo cano,
Sorver as altas águas do Oceano.

Neste orgulho de confiar no que os olhos viam – o Renascimento começava a estar em vigor – Camões põe na boca do Gama, em pouquíssimas estrofes, nada menos que oito vezes o verbo ver.  Ver, acreditar no que se via e não no que diziam as escrituras (fossem elas religiosas, filosóficas ou científicas) tornava-se, por fim, postura normal do cientista ou do estudioso tout-court.  Ver, antes de sentenciar.  Por isso observou Bertrand Russell, alguns séculos depois e com não pouco humor, que Aristóteles teria podido evitar a afirmação de que as mulheres têm menos dentes do que o homem, pelo expediente fácil de pedir à Senhora Aristóteles que abrisse a boca.  O Gama e os seus marinheiros não pediam exactamente à natureza que lhes abrisse a boca, mas solicitavam-lhe, isso sim, que se abrisse, com os seus infinitos segredos, à perscrutação que sobre ela, gostosa e assombradamente, iam exercitando.  Fazer confiança na observação é um tópico que Camões canta com vigor e algum panache: na boca do Gama, põe estas palavras que quase intersectam um justificado orgulho ou até arrogância:

Eu o vi certamente (e não presumo
Que a vista me enganava) levantar-se
No ar um vaporzinho e sotil fumo
E, do vento trazido, rodear-se;
De aqui levado um cano ao polo sumo
Se via, tam delgado, que enxergar-se
Dos olhos facilmente não podia;
Da matéria das nuvens parecia.
...”E não presumo que a vista me enganava”.  Eis o emblema triunfal de um novo homem: o homem do saber de experiências feito, o homem que confia no que a natureza lhe diz e não no que lhe sopram as escrituras e... os inquisidores.  Há no canto de Camões um petulante e matinal desafio às chamadas “autoridades”:

Vejam agora os sábios na escritura
Que segredos são estes da Natura!

Se os antigos filósofos, que andaram
Tantas terras por ver segredos delas,
As maravilhas que eu passei passaram,
A tam diversos ventos dando as velas,
Que grandes escrituras que deixaram!
Que influição de signos e de estrelas,
Que estranhezas, que grandes qualidades!
E tudo sem mentir, puras verdades.
Nos Lusíadas, Camões canta a história de Portugal, por intermédio de Vasco da Gama que a conta ao Rei de Melinde, mas canta, sobretudo – e com que energia, claridade, alegria e abençoada arrogância – o nascimento de um homem novo e de um mundo novo – a exigirem cuidados de manipulação carinhosa e de cautelosa gestão de que o honrado velho do Restelo duvidara já que fôssemos totalmente capazes.  O velho do Restelo e, com o decorrer do tempo, certamente, o próprio Camões.  Um império se fundou que, melhor ou pior, foi durando.  Mas a decadência instala-se cedo.  Sobrecarregadas de produtos, de ganância e do frenesi de enriquecer depressa e mal, mal mantidas e superficialmente reparadas, as naus da História Trágico-Marítima indicam que o fim do Império começara cedo – a dar razão ao “honrado velho” – e se foi arrastando por quase quatro séculos: morrer, sim, mas devagar, emblematizara D. Sebastião que, pelos vistos, era louco mas não era parvo...  No “Camões na Ilha de Moçambique”, escrito em 20 de Julho de 1972, de visita à “Isle Joyeuse”, Jorge de Sena pinta já, na altura do interrompido regresso à pátria do poeta d’Os Lusíadas, o início da decadência, a mesquinha pelintrice de um império mal gerido e mal “fichu”, em que os vadios e pedintes comem d’amigos ou das migalhas parcas que o Rei vai, apesar de tudo, deixando cair...:
Não é de bronze, louros na cabeça,
nem no escrever parnasos, que te vejo aqui.
Mas num recanto em cócoras marinhas,
soltando às ninfas que lambiam rochas
o quanto a fome e a glória da epopeia
em ti se digeriam. (...)

Embora com a pátria morrendo, o poeta, em 1580, a sua obra foi ficando e inspirando outros poetas, do mesmo passo que o império, com mais ou menos sobressaltos de vida artificial, se foi finando: as suas duas finais e minúsculas parcelas em breve se irão para novas vidas e novos destinos.  Mas os impérios são uma coisa e quem os canta outra muito diferente.  Camões tem ficado, no mundo de fala portuguesa, como referência capital.  Tenho encontrado, por todo o mundo, em África, no Brasil, na América, gente não portuguesa que recita, de cor e com paixão, estrofes dos Lusíadas, sonetos, canções, odes do grande poeta português.  No fundo, todo o grande poeta de língua portuguesa sofre, saudavelmente, da angústica de não ser Camões: uns tentam igualá-lo ou superá-lo, do mesmo passo que ensaiam diminui-lo, com qualificativos redutores;  outros julgam tê-lo, de facto, igualado ou superado: a paranóia é a virtude cartesianamente mais bem distribuída – mais ainda do que o bom senso, de que é saborosa antípoda... Fernando Pessoa, por exemplo, imaginou-se supra-Camões, sugerindo, contraditoriamente, não ser isso grande feito, porque o “italianizado” autor de “Alma Minha” pouco mais lhe merecia do que desprezo;  Jorge de Sena ter-se-á mesmo perguntado se tal projecto –supra-camonear-se – seria sequer digno da sua (de Sena) magnitude; Régio, que admirava sem reservas o bardo renascentista seguiu-lhe, simplesmente, e sem bravata, o estro e a toada, nas oitavas escaldantes da “Sarça Ardente”:
Assim, mãe, mãe de enigmas e de assombros,
Natureza!, me achei a ti alçado;
Assim, por entre os cúmulos e escombros
Dos teus cenários, me perdi, jogado;
E assim, mãe, me surgiste, o azul aos ombros,
Ofertando e premindo o seio inchado
De aragens, néctares, hálitos, eflúvios,
Himalaias, Atlânticos, Vesúvios...
Ilha de Moçambique
Rui Knopfli, moçambicano da Terra da Boa Gente, menos atrevido, mais modesto, abertamente fascinado pelo bardo de Sôbolos Rios, limitou-se a querer prolongá-lo para além da glória até ao momento exacto do fim, num Roteiro melancólico da Ilha de Moçambique, que nos entregou como quem se despede do Império e da sua intoxicante vastidão (que criticou mas amou) e da vida, de que nunca gostou por aí além:

Uma humidade escura [diz, referindo-se à Ilha] e pegajosa, alastrará
                                                                                       de novo
sobre o teu dorso de brancos e amarelos, desenhando
nele estranhos, esquálidos arquipélagos fantásticos.
A gangrena e a lepra do tempo minarão

encarniçadamente o teu arcaboiço atarracado,
modelando-te à imagem e semelhança do bizarro
solo osteoporoso em que – memória cristalizada –
repousas entorpecida de mar e ausência,

esmerilado e exacto monumento à vã cobiça
aos erros graves e à grandeza desmedida que os gerou.
Sob a metálica indiferença de um céu anil,

porto de olvido na rota perdida das Índias,
volverás assim um ressentimento da areia,
soluço de pedra ao sabor da monção.

Assim cantam os grandes poetas o nascimento, crescimento, decadência e morte dos impérios: morrem as estruturas materiais mas salva-se o canto.  De resto, dizia já o velho Mestre de Santiago, da grande peça de Montherlant, que “as colónias são feitas para serem perdidas.  Nascem com a cruz da morte estampada na fronte”.  A poucos meses de se desligarem de Portugal as duas minúsculas parcelas de um império que foi grande, mesmo quando mal governado, e atracadas que forem as naus portuguesas no cais do regresso definitivo, restar-nos-á fazermos como os marinheiros do Gama, que se foram desinstruindo para melhor se instruirem de fresco, e desaprendermos todo um modo de viver e estar no mundo para podermos aprender uma nova maneira de abrirmos espaço à nossa volta – um espaço que não será físico mas espiritual, cultural, científico – e mais fraterno.  Arrumadas as caravelas no museu do património de que não temos só que nos envergonhar – porque muito há de positivo e até de grande a celebrar -, compete-nos aprender a viajar noutro veículo que herdámos, com um esplendor nunca depois excedido, de Camões – a língua portuguesa, que ele manipulou com astúcia, subtileza, inteligência, intuição e – não sejamos modestos – génio e inventiva e emoção, dela fazendo um instrumento de peculiar eficácia com que nós e outros que por esse mundo visitámos pudéssemos explorar o nosso comum e vário assombro: aquele assombro que é motor de arranque para tudo quanto o homem tem produzido de inconfundivelmente grande.  Se Camões outra coisa não fosse – e foi um grande e inimitável poeta, isto é, um promotor e decifrador de espantos – ficaria sempre como o patrono privilegiado de uma língua que só é grande na medida em que é partilhada e trabalhada e saborosamente modificada por tantos que se distribuem pelas mais desvairadas latitudes e longitudes, fecundados por sóis diferentes e batidos por ventos diversos.
Em três versos densos e tersos, o poeta António Ferreira, contemporâneo de Camões, cometeu à língua portuguesa, o seguinte e audacioso caderno de encargos:

Floresça, fale, cante, ouça-se e viva
a portuguesa língua, e lá onde for
Senhora vá de si, soberba e altiva.
Em memória de Camões e a pensar nos que hoje, em todo o mundo, dele herdam o esplendor da língua, resta-me desejar que o mandato de António Ferreira possa ter, pelos séculos dos séculos, cabal cumprimento."

                                                                                              Eugénio Lisboa
                                                                                                 Junho de 1999

Eugénio Lisboa, em ” Viajar com Ulisses,( a propósito de Camões)”,  Ensaio publicado em “ Pro Memoria”, Jornal de Letras

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Lugares da Terra para visitar em 2015

Destinos para ir em 2015
Ao longo dos próximos 12 meses não faltam motivos para vencer a inércia, "fintar" o orçamento familiar e explorar alguns dos lugares mais fascinantes da Terra. E, dessa forma, cumprir o verdadeiro sentido da viagem: ganhar uma nova visão do mundo que nos rodeia. E de nós próprios
Rui Tavares Guedes (artigo publicado na VISÃO 1139, de 1 de Janeiro)


COLÔMBIA - Regresso à opulência

Durante anos, a Colômbia foi uma espécie de buraco negro no mapa dos viajantes: as notícias diárias de sequestros, homicídios, ajustes de contas, atentados terroristas e perseguições a narcotraficantes afastavam rapidamente o desejo de visitar o país, apesar dos relatos sobre a beleza colonial de Cartagena das Índias, a vibração de Bogotá, o pitoresco de Medellín e tudo o que os romances de Gabriel García Márquez podiam fazer despertar no espírito dos seus leitores. Agora, tudo está diferente.
O terrorismo e o narcotráfico foram, aparentemente, derrotados, e o país conhece uma espécie de renascimento, muito mais de acordo com a sua tradição cultural riquíssima, assente numa natureza opulenta e uma situação geográfica ímpar. Prova disso mesmo é a cidade de Medellín - durante anos associada ao tráfico de droga e à acção de gangues violentos.
Hoje, a segunda maior cidade da Colômbia é quase uma metrópole modelo, com jardins (muitos!), uma rede de transportes moderna (e muito bem vigiada pela polícia), tudo pontuado com estátuas de Fernando Botero (artista local) e uma série de museus que valem mesmo a pena. Vantagem adicional: a TAP tem voos directos para Bogotá.
Quando ir? - De Dezembro a Fevereiro chove menos, mas em Agosto a Feira das Flores atrai muitos visitantes a Medellín?.
ÁUSTRIA - Nos passos da família von Trapp
Mesmo os nascidos muito depois de 1965 sabem entoar o início da canção - "The hills are alive, with the sound of music" - e visualizar, facilmente, o rosto sorridente de Julie Andrews na paisagem alpina. Quando se celebram os 50 anos da estreia de Música no Coração, é natural que essa imagem - e a música - ganhem uma nova aactualidade
As celebrações do meio século do filme de Robert Wise incluem um festival em Salzburgo, em Junho, e vários agentes turísticos estão a preparar programas especiais nessa cidade e em Viena, passando por alguns dos cenários mais reconhecíveis de Música no Coração.
Quando ir? - O verão vai ser aproveitado, em toda a Áustria, para celebrar o filme que deu uma imagem internacional ao país.
HOLANDA - Sob o génio de Van Gogh
A 29 de julho de 2015, celebra-se o 125.º aniversário da morte de Vincent van Gogh, um dos pintores mais influentes e marcantes dos últimos séculos. Naturalmente, a Holanda não vai deixar escapar a oportunidade e organiza, ao longo do ano, uma série de iniciativas com as características necessárias para atrair milhares de visitantes.
Assim, quem visitar Eindhoven pode pedalar numa ciclovia muito especial, construída com milhares de pedras luminosas, pelo artista plástico Daan Roosegaarde, que se carregam de energia durante o dia e se iluminam à noite, numa homenagem ao quadro Noite Estrelada (1889).
Em Amesterdão, o Museu Van Gogh alterou já a sua exposição permanente, de forma a proporcionar ao visitante um percurso sobre a obra do mestre. Em Setembro inaugura uma exposição especial em que mostra as semelhanças e diferenças entre as obras de dois génios da pintura: Van Gogh e Munch.
As comemorações vão decorrer um pouco por toda a Holanda, nomeadamente na região de Brabante, onde o artista nasceu, cresceu e pintou a sua primeira grande obra, Comedores de Batatas (1885).
Quando ir? Qualquer época do ano é boa?. Claro que o inverno é rigoroso, mas pode compensar, visto que os preços nessa altura também são mais baixos.
SINGAPURA - Mudança em movimento
A pequena cidade-estado celebra, em 2015, os 50 anos da sua independência, com um extenso programa de comemorações que promete atrair muitos visitantes para uma nação que, entre outras coisas, possui uma das melhores - e mais confortáveis - companhias de aviação do mundo.
Esta pode ser, de facto, a grande oportunidade de apreciar a enorme transformação que a cidade sofreu no último meio século: hoje disputa com Xangai e Tóquio o título de metrópole mais avançada do mundo, com os seus edifícios futuristas, um sistema de transporte moderno e a proliferação, cada vez maior, de equipamentos culturais e desportivos. Em 2015, a cidade vai receber os Jogos do Sudeste Asiático (de 5 a 16 de Junho) e as comemorações do dia nacional (9 de Agosto) prometem bater todos os recordes em termos de fogo de artifício. As celebrações incluem ainda a inauguração do Passeio do Jubileu, um percurso pedestre pelos locais históricos da cidade, onde se incluem alguns edifícios de origem portuguesa, da época da expansão marítima.
Quando ir? O clima não tem grandes variações ao longo do ano: espere encontrar sempre calor, muita humidade e períodos de chuva. Entre Maio e Julho há, no entanto, uma época especial e imperdível para os amantes das compras: a Great Singapore Sale, oito semanas de saldos em toda a cidade!
TUNÍSIA - A joia (barata) africana
Foi aqui que começou, em 2011, a chamada Primavera Árabe e foi também aqui a que, poucos anos passados, essa esperança de democracia se confinou. Depois de uma série de revoluções e mudanças de poder - muitas vezes violentas - nos vários países do Norte de África, apenas a Tunísia parece ter confirmado essa esperança, assumindo-se como uma nação democrática aparentemente imune ao contágio dos vírus do radicalismo islâmico dos seus vizinhos. Por isso, tem sido beneficiada com a procura crescente de turistas - sector? absolutamente vital para a economia do país.
Essa tendência vai continuar a crescer em 2015, com os tunisinos a prepararem uma série de iniciativas e programas capazes de atrair os visitantes estrangeiros. Com um argumento muito especial: preços mais baixos do que os do Sul da Europa (atenção Algarve!!!).
E o que tem a Tunísia mais para oferecer? Uma enorme variedade de experiências: praias mediterrânicas de areia branca e água quente; desertos, ruínas romanas, uma rica cultura berbere, pequenas joias cosmopolitas como Sidi Bou Said e até os cenários naturais de Star Wars, agora que está prestes a chegar mais um novo filme da saga.
Quando ir? No final do verão, princípio de outono, quando as multidões já desapareceram, os preços baixam ainda mais... mas a água do mar está ainda mais quente!
AÇORES - Terras verdes em céu aberto
Nos últimos anos, os Açores têm surgido com grande relevo em quase todas as listas dos locais a não perder compiladas pelas principais revistas de viagens, bem como na avaliação dos agentes turísticos. As ilhas ?foram eleitas pela National Geographic, pela sua natureza selvagem e intacta, e, em 2014, receberam a distinção de "destino preferido" por parte da associação europeia de agentes de viagens.
Em 2015 vão ficar "mais perto": a liberalização do seu espaço aéreo leva a que, durante o próximo ano, mais companhias passem a voar para o arquipélago, nomeadamente as low-cost EasyJet e RyanAir (já a partir de final de Março, num total de 20 voos semanais, a ligar o continente a Ponta Delgada).
Fazer férias no arquipélago ou uma escapada de alguns dias para uma primeira exploração é, sem dúvida, uma das grandes ideias para o próximo ano, por um preço "amigo". E há motivos de sobra para cativar as crianças numa viagem em família, mas que inclui também ingredientes de aventura: seja à descoberta da natureza vulcânica, seja pela observação de cetáceos.
Quando ir? Qualquer época do ano é boa, mas convém ficar atento às promoções, em especial das tarifas de lançamento com que cada companhia aérea vai querer presentear os seus primeiros clientes nestes voos.
MILÃO - Ano de Expo
Para muitos, a ideia de uma Exposição Mundial parece já uma coisa do passado, que nada tem a ver com os tempos globalizados em que vivemos. Para quê juntar os pavilhões de vários países quando podemos fazer isso, todos os dias, através da internet. A verdade é que a experiência de percorrer os diferentes espaços de uma Exposição Mundial deixa sempre marca no visitante. E em 2015, a cidade italiana de Milão vai estar nas bocas do mundo precisamente por isso - e com um argumento forte na disputa de turistas com as suas compatriotas e históricas Roma, Veneza e Florença.
De 1 de maio a 31 de Outubro, a Exposição Mundial de Milão espera acolher mais de 20 milhões de visitantes, que poderão percorrer os pavilhões de cerca de centena e meia de países, que tentam responder ao lema Alimentar o Planeta - Energia para a Vida. Nessa medida, a exposição pretende assumir-se como uma experiência gastronómica ímpar, já que cada país apresentará a sua culinária, dentro de princípios saudáveis e sustentáveis - de tal modo que o pavilhão austríaco, por exemplo, vai ser comestível...
A Expo promete também alterar a experiência do turista habitual de Milão: erguida numa espécie de ilha, pretende-se que os visitantes acedam ao recinto através dos antigos canais da cidade, que foram recuperados para esse efeito.
Entre os países lusófonos, apenas dois não marcaram ainda presença na Expo: Timor-Leste e... Portugal.
Quando ir? De maio a Junho, nos primeiros ?meses da Expo - quando ainda está pouco calor e há menos visitantes.
ILHAS FAROE - Eclipse entre os vikings
As ilhas Faroe só costumam aparecer no radar noticioso quando a sua selecção de futebol joga nas fases de qualificação para um qualquer Europeu ou Mundial. E a imagem que o resto do mundo tem deste pequeno arquipélago, entre a Noruega e a Islândia, resume-se a isto: um grupo de jovens amadores, quase todo louros, que jogam com grande determinação, embora com pouco jeito para a bola - mas também isso está a mudar: em Novembro, foram a Atenas derrotar a Grécia.
Para mudar de ideias sobre as ilhas Faroe não há nada como arranjar um pretexto para descobrir o que escondem estas 18 pequenas ilhas, aparentemente perdidas no Atlântico Norte, mas que foram, no passado, estratégicas para as expedições vikings. Em 2015 há um excelente motivo para voar até a esta região autónoma da Dinamarca: é um dos raros locais do mundo onde se poderá ver, a 20 de Março, o eclipse total do Sol, o último observável na Europa na próxima década. Depois, por lá, pode descobrir um arquipélago que parece ser uma mistura do melhor dos Açores, da Nova Zelândia e da Islândia: paisagens verdejantes junto ao mar, montanhas de onde a água escorre em quedas cenográficas, fiordes monumentais, além de uma variedade incrível de espécies de aves. Tudo isto, num local com criminalidade zero, com uma capital, Tórshavn, com apenas 19 mil habitantes, mas onde todos o vão encorajar a fazer caminhadas. Sempre em cenários inesquecíveis.
Quando ir? Em Março, por causa do eclipse de dia 20, naturalmente, mas os bons dias são mesmo entre junho e Agosto. Pode comprar um passe que, por 90 euros, lhe dá direito a andar em todos os ferries e autocarros das ilhas, durante sete dias.
ALENTEJO - O cante e o vinho
Na atual redescoberta de Portugal como destino turístico, as estatísticas não deixam margem para enganos: os estrangeiros acorrem, em massa, para Lisboa, para o Porto, vão para o Algarve e para a Madeira. Qual é o próximo destino interno que promete sobrelotar? O Alentejo parece partir como favorito, especialmente agora que o "cante" das suas gentes ascendeu a Património Mundial da UNESCO e, em 2015, Reguengos de Monsaraz vai ser a capital europeia do vinho.
Enquanto a invasão não acontece, vale a pena tentar aproveitar os "últimos momentos de tranquilidade", nomeadamente os locais menos explorados, como os da margem esquerda do Guadiana (o P?ulo do Lobo ainda é um sítio distante...), muitas aldeias e castelos do n?orte alentejano, as muralhas de Portalegre, bem como certas praias que, depressa, deixarão de ser desertas.
Quando ir? Qualquer época do ano, mas a beleza das cores da paisagem apreciam-se melhor na primavera e no outono.
NAMÍBIA - Aventura 'on the road'
Com algumas das paisagens mais belas do planeta, uma sociedade surpreendentemente pacífica e bem organizada, a Namíbia oferece uma das melhores experiências de viagem que qualquer viajante pode aspirar - em especial para quem goste de conduzir em espaços amplos, aprecie a vida selvagem e tenha gosto pela aventura.
O contágio é conhecido há muito: não há quem venha de uma viagem na Namíbia a dizer que foi "uma desilusão". Todos falam, isso sim, do maravilhoso céu estrelado que se repete todas as noites; da beleza avassaladora da Costa dos Esqueletos, onde as dunas do deserto chocam de frente com as ondas do Atlântico; do pôr do Sol na savana, com a silhueta do elefante para a fotografia perfeita; da emoção que é ver os animais selvagens no parque Etosha, e, naturalmente, a sensação de segurança e tranquilidade que acompanha toda a viagem - bem cada vez mais precioso nos dias que correm.
Quando ir? De maio a Outubro é o melhor para ver os animais, mas, se quiser diversão, a cidade de Windhoec ganha animação, em Setembro e Outubro, com a germânica Oktoberfest!
ASTÚRIAS - Picos, história e gastronomia
É a melhor sensação de alta montanha... o mais perto possível. O Parque Natural dos Picos da Europa é um dos mais bonitos da Península Ibérica e ideal para quem gosta de caminhadas na natureza. Convém, desde já, fixar alguns dos locais mais icónicos da montanha: Bulnes, Garganta do Cares, Collado Jermoso, Fuente Dé. A experiência pode ser prolongada, ali perto, nos parques de Somiedo e de Redes.
Para além da natureza no seu estado mais puro, as Astúrias têm ainda outros fortes motivos de interesse. A começar, desde logo, pela História, muito ligada, aqui, ao berço da reconquista cristã da Península. Essa memória é bem visível em Cangas de Onis, mas também nas cidades de Oviedo (Património Mundial da UNESCO), Gijón e Avilés.
A gastronomia asturiana exerce também o seu apelo, cruzando as influências galegas e francesas. A feijoada com enchidos (a fabada), lembra a nossa, e é um dos pratos famosos da região. Queijos, doces como os frixuelos (semelhante a um crepe) e a sidra são outros dos expoentes asturianos.
Quando ir? Na primavera e verão, mas evitando as "pontes" dos feriados espanhóis, quando a região fica absolutamente superlotada.
NICARÁGUA - A "nova' Costa Rica
Até há bem poucos anos, quando se falava de América Central, apenas a Costa Rica emergia como destino - ajudando a criar, até, o chamado ecoturismo, hoje uma das grandes tendências turísticas mundiais. Agora, a nova joia é a Nicarágua, até porque é muito mais barato viajar por lá.
Apagados os ecos da guerra, que assolou o país no final do século passado, a Nicarágua caminha, a passo firme, com o propósito de atrair turistas às praias, aos vulcões e grandes lagos, aos misteriosos rios lendários e às belas cidades coloniais. É aqui que se encontra o segundo maior lago do continente americano: o lago Cocibolca, também conhecido por lago Nicarágua. Uma das excursões incontornáveis, a partir de Granada, é à Reserva Natural do Vulcão Mombacho, uma joia em biodiversidade. E o coração da cidade de Granada é, por si só, uma experiência sensorial inesquecível: carruagens de cavalos, meninos de bicicleta, cambistas, mulheres com grandes chapéus coloridos vendendo frutos exóticos. Uma soberba cidade colonial, com ruas amplas de maravilhosas casas coloridas. Apesar de ter cerca de 200 mil habitantes (é a terceira cidade do país), Granada lembra uma capital de província. Respira a um ritmo lento, mas sedutor.
Quando ir? De Dezembro a Abril é a estação alta, tanto em número de turistas... como de preços. Uma alternativa aceitável é entre Maio e Outubro.
RIO MEKONG - O pulsar do mundo
O planeta está repleto de rios míticos, cursos de água que atravessam nações, mas definem culturas e, por via disso, acabam por unir povos de uma forma que os políticos jamais conseguirão. Mas embora não tenha a dimensão do Amazonas, do Nilo ou do Danúbio, poucos rios têm, ao longo do seu curso e nas suas margens, a força magnética e a fonte de culturas que o Mekong exibe no seu serpentear pelo Sudeste Asiático.
Percorrer o Mekong é hoje uma forma de viajar por algumas das mais vibrantes culturas e civilizações do Oriente. E é, por si só, um programa turístico cada vez mais popular e verdadeiramente alucinante. Embora não seja possível percorrer toda a extensão do rio desde a nascente até à foz, qualquer troço que se faça nas suas águas barrentas permite perceber como estamos na presença de uma das vias de comunicação mais importantes do mundo. E que se está a tornar cada vez mais popular entre os viajantes, tanto para os mochileiros como para os mais endinheirados, graças aos novos barcos-hotéis que o cruzam.
A viagem é, de facto, uma das mais mágicas que se pode fazer. Ao começarmos a subir o Mekong, desde o seu delta, em Ho Chi Min, no Vietname, entramos num mundo sem paralelo. E, se o aproveitarmos bem como via de comunicação, temos então a oportunidade de "desembarcar" em alguns dos lugares que, sem qualquer margem para dúvidas, deveriam estar na lista de qualquer viajante: mercados flutuantes de Chai Doc e Cantho, no Vietname; o arquipélago de Si Phan Don e a cidade mágica de Luang Prabang, no Laos; Phnom Penh, o lago Tonlé e as ruínas de Angkor, no Camboja?, talvez o lugar mais inesquecível do planeta!
Quando ir? De maio a Outubro, durante a época das chuvas, e quando há garantia de que o rio tem caudal suficiente.
IRÃO - Desfazer os preconceitos
"Nunca conheci ninguém que tenha estado no Irão e que não tenha gostado." Tony Wheeler não diz este tipo de coisas por acaso. Ele é um apaixonado assumido pelo Irão, desde que, em 1973, juntamente com a mulher Maureen, foi, por terra (e mar...), de Inglaterra até à Austrália - a viagem que daria origem aos guias Lonely Planet. Nesse longo e variado percurso, a simpatia das pessoas da antiga Pérsia, a sua atenção para com os viajantes e a beleza tranquila das suas cidades e aldeias, foi o que mais o impressionou. Para sempre.
Os tempos mudaram, entretanto, mas quem viaja pelo Irão diz sempre que continua a sentir o mesmo carinho e hospitalidade que Tony Wheeler elogia há mais de quatro décadas. O poder autocrático do regime dos ayatollahs transformou o país numa espécie de pária do mundo, mas não conseguiu destruir a essência civilizacional das suas gentes: um povo habituado, durante séculos, a conviver com caravanas de mercadores e viajantes, aberto ao mundo, curioso pela ciência e a natureza, pátria de escritores e poetas.
Vencido o preconceito "noticioso" tantas vezes colado ao Irão, este é um país que merece ser descoberto. E não faltam motivos para isso: as ruínas de Persepolis, os antigos abrigos das caravanas da Rota da Seda, as casas de chá de Shyraz e Esfahan, a imponência da Praça Iman (património da Humanidade), os mercados, os tapetes e, claro, a simpatia do povo.
Quando ir? De Abril a Junho e, depois, de Setembro a Novembro, quando o tempo é mais ameno.
MARROCOS - O vizinho desconhecido
Há coisas que, por vezes, são de difícil compreensão. Como é possível que um dos países mais próximos de Portugal seja, em simultâneo, um dos mais desconhecidos para os portugueses? A História de uma nação fundada na luta contra os mouros ajuda a explicar alguma coisa, mas não é suficiente, oito séculos depois, para manter os dois países tão afastados.
A verdade é que Marrocos é um dos países mais fascinantes que um viajante ou um turista podem encontrar, devido à sua imensa diversidade: cidades magníficas como Marraquexe, Fez, Tânger, Agadir e Ouarzazate, montanhas de uma beleza rara, praias mediterrânicas e atlânticas, cultura berbere e nómada, hotéis e alojamentos sofisticados, desertos "esmagadores", mercados coloridos, aldeias com carácter...
O mundo começa agora a descobrir Marrocos, que se aproveita também da sua imagem de tranquilidade numa região às vezes complicada. Está na hora dos portugueses aproveitarem a oportunidade de descobrir o seu vizinho "perdido". Antes que sejam os últimos a chegar...
Quando ir? A primavera e o outono são as melhores estações para descobrir e explorar o país." Revista Visão 

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Canto a onda

A Onda

Canto a onda...
amazona das águas e dos ventos
a cavalgar esbelta sobre o dorso do oceano
pelas planícies tropicais dos mares
a cavalgar sob o sol e sob a lua
até a longínqua  solidão dos hemisférios
a cavalgar  sua cadência fugidia
pelo imenso território dos silêncios.

Canto a onda
salgada crista
verde brancura sempre erguida
e sempre despejada
canto teus canteiros  borbulhantes de frescor e de açucenas
teu sorriso derramado  em pétalas de espuma
canto teu beijo sugado ardentemente pela Terra
úmida fragrância espalhada nas areias do tempo
ritmo incessante dessa dança milenar.

Canto a onda
guardiã do mar e dos mistérios
atlética miragem que caminha sem descanso
vigiando as inumeráveis multidões de vidas
a caminhar sobre a imensa solidão das águas
a caminhar nos passos de lépida  gazela
ou no galope da vaga majestosa.
Canto a onda
a grande onda
potência elementar
coluna insustentável que anuncia o precipício
súbita cascata, túnel e turbilhão
força imbatível,  peso imponderável
filha do ventre ancestral das águas
vulto encoberto que avança obstinado
até surgir qual serpente coleante
galgando o planalto submarino
empinando a cabeça para o bote
tentáculo de sal, insólita medusa
invencível lâmina cortada por afiadas proas
sedução e pavor dos navegantes.

Longe... longe sobre as águas,
pairando  na  calmaria,
surge no céu um negrume...
e tudo é brusco e fantástico na paisagem que ressurge
são nuvens redesenhadas num borrão assustador
vem alargando seus passos
invadindo o horizonte
desterrando as claridades
turvando as ondas vadias
vem vindo no verde mar qual corcel em disparada
assanhando os elementos sobre a linha do horizonte
é o céu baixando à Terra
chegando na ventania, na rajada, no aguaceiro.

Um raio risca a penumbra e mergulha no oceano
e num frêmito aquoso se enruga  a  superfície.
Há uma tensão sob as águas
há um prenúncio nos ventos
as vagas  se levantando
ressurgindo  poderosas
no punho emerso do abismo
nos bramidos da procela colossal
na indomável fúria da tormenta
na invasão que avança.
                                                       
Eis onda...
ora calma e deslumbrante
e agora o  vulto apavorante
a galopar, qual indomável centauro sobre o mar,
avançando em sua marcha soberana
qual extensa muralha em movimento
alçando seu punho inumerável
exibindo seu pesado látego de espumas
chicoteando a muralha, o arbusto e a penedia
bramindo no poder dos elementos
chegando no estrondo, no vendaval, na fantástica sinfonia
invadindo, inundando e espalhando seus despojos.

praias varridas
orlas de vida e de sonhos afogados
os imensos litorais tragados
os restos desfigurados da invasão
pedaços de barcos destroçados
lágrimas que ainda esperam
pescadores que não mais voltarão.

Contém, ó mar
teus passos sobre a Terra
tua reconquista
teu apocalíptico destino.
Já são tantos os sinais dos tempos
tanta irreverência ante tantos pressentimentos.

Ó mar...
são tão grandes teus domínios
escavados na origem desta concha planetária.
Deixa intacta esta nossa única terça parte
este verde agonizante que nos resta
esta solitária relva de esperança.                                      
                                            Curitiba, Março de 2004
 Manoel de Andrade, in “ Cantares”,Escrituras Editora , São Paulo,2007