terça-feira, 9 de setembro de 2014

Tolstoi e os Livros de Setembro

Leo Tolstoi
"Pouco importa a forma como os outros te consideram; a eles podes enganá-los, mas a ti não!” – Dimitri Neklioudov, in Ressurreição.
Ressurreição” é  considerada a última grande obra, um extraordinário romance, de Leon Tolstoi, publicado em 1899. Traduz o apogeu e a síntese do ideário tolstoiano. Um hino redentor e de transcendência pessoal.
No dia em que se assinalam o 186º aniversário do nascimento deste grande escritor russo, 9 de Setembro de 1828, transcrevemos um excelente fragmento deste excepcional romance na rubrica “Os Livros de Setembro”.
" Só ao fim de três anos Nekkludow tornou a ver Katucha. E quando, ao cabo desses três anos, ele tornou a vê-la , não era já o mesmo de outrora.
Socialmente era um brilhante oficial das guardas que ia juntar-se ao regimento e que aproveitava o fim de uma licença para visitar as velhas parentes.
Moralmente, diferia muito do ingénuo rapaz  que mantivera com a doce Katucha simples relações de amor.
Outrora era um rapaz leal e desinteressado, pronto a sacrificar-se pelo que julgasse ser o bem; agora era um egoísta depravado preocupando-se unicamente com o seu prazer pessoal.
Outrora o universo parecia-lhe misterioso, e entusiasticamente tentava penetrar nesse mistério;  agora tudo lhe parecia claro e simples; tudo lhe parecia subordinado às condições da sua vida pessoal.
Outrora sentira a importância e a necessidade da convivência com a natureza e com os homens  que tinham vivido, pensado e sentido antes dele, os filósofos e poetas do passado; agora o importante e necessário eram as convivências com os seus camaradas e a sujeição às regras mundanas do seu meio.
Outrora concebera as mulheres como criaturas misteriosas e encantadoras - encantadoras pelo próprio mistério que as envolve, - agora as mulheres - todas as mulheres com excepção das da sua família e das dos seus amigos, - eram limitadas a um fim muito definido: o instrumento de um gozo já experimentado e sobre todos preterido. Outrora não sentia a necessidade de dinheiro e mal gastava a terça parte da sua anuidade; agora mil e quinhentos rublos mensais evaporavam-se e já tivera explicações desagradáveis com sua  mãe sobre o assunto. Outrora era o Eu espiritual que governava: agora imperava o forte Eu animal. " Leão Tolstoi , in " Ressurreição", Volume 1º, Collecção Economica, Edições da Civilização Brasileira S/A, Rio de Janeiro, 1936

ale-confissao
A Alêtheia Editores editou " Confissão" de Lev Tolstoi  na colecção de clássicos da literatura mundial, onde constam  "Coração de Cão", de Mikhail Bulgakov, e "Cartas de Inglaterra ", de Eça de Queiroz. José Milhazes é o autor do Prefácio.
Sobre o livro: «Confrontado com a crise existencial que o acompanhou durante grande parte da vida, Tolstoi refugiou-se na escrita produzindo este testemunho premente sobre a sua infância, fé, filosofia e posição social. Em Confissão, uma súmula do pensamento de Tolstoi, o leitor pode conhecer os conflitos do homem e a arte do escritor.
Na minha busca por respostas às questões da vida senti o mesmo que um homem perdido numa floresta. Lev Tolstoi, in Confissão»


Foto: Hercule Poirot está de volta 38 anos depois pela mão de Sophia Hannah, a escritora escolhida para dar nova vida ao incomparável detetive belga. Lançamento mundial no dia 9 de setembro.

Sentado no seu café preferido, Hercule Poirot prepara-se para mais um jantar de quinta-feira quando é surpreendido por uma jovem mulher. Ela chama-se Jennie e diz estar prestes a ser assassinada. Mais insólita do que esta afirmação é a sua súplica para que Poirot não investigue o crime. A sua morte é merecida, afirma Jennie, antes de desaparecer noite dentro, deixando o detective perplexo e ansioso por mais informação.
Perto dali, o elegante Hotel Bloxham é palco de três assassinatos. Os crimes têm várias semelhanças entre si: os três corpos estão dispostos em linha reta com os braços junto ao corpo e as palmas das mãos viradas para baixo. E dentro das bocas das vítimas, encontra-se o mais macabro dos pormenores: um botão de punho com o monograma PIJ.
Poirot junta-se ao seu amigo Catchpool, detetive da Scotland Yard, na investigação deste estranho caso. Serão os crimes do monograma obra do mesmo assassino? E poderão de alguma forma estar relacionados com a fugidia Jennie que, por uma razão indecifrável, não abandona os pensamentos do detetive belga?

Hercule Poirot está de regresso num mistério diabólico que vai testar ao limite as suas célebres celulazinhas cinzentas.
Hercule Poirot está de volta 38 anos depois pela mão de Sophia Hannah, a escritora escolhida para dar nova vida ao incomparável ddetective belga. Lançamento mundial no dia 9 de Setembro.Em Portugal a edição é da Ed.Asa - Grupo Leya.

"Sentado no seu café preferido, Hercule Poirot prepara-se para mais um jantar de quinta-feira quando é surpreendido por uma jovem mulher. Ela chama-se Jennie e diz estar prestes a ser assassinada. Mais insólita do que esta afirmação é a sua súplica para que Poirot não investigue o crime. A sua morte é merecida, afirma Jennie, antes de desaparecer noite dentro, deixando o detective perplexo e ansioso por mais informação.
Perto dali, o elegante Hotel Bloxham é palco de três assassinatos. Os crimes têm várias semelhanças entre si: os três corpos estão dispostos em linha recta com os braços junto ao corpo e as palmas das mãos viradas para baixo. E dentro das bocas das vítimas, encontra-se o mais macabro dos pormenores: um botão de punho com o monograma PIJ.
Poirot junta-se ao seu amigo Catchpool, detetive da Scotland Yard, na investigação deste estranho caso. Serão os crimes do monograma obra do mesmo assassino? E poderão de alguma forma estar relacionados com a fugidia Jennie que, por uma razão indecifrável, não abandona os pensamentos do detetive belga?
Hercule Poirot está de regresso num mistério diabólico que vai testar ao limite as suas célebres celulazinhas cinzentas."

"Requiem " de  ANTONIO TABUCCHI,
"O livro que o autor escreveu em português.
Como que suspenso entre a consciência e a inconsciência, entre a realidade e o sonho, um homem encontra-se ao meio-dia em ponto, sem perceber porquê, numa Lisboa deserta e tórrida de um domingo de Julho. Sabe vagamente que tem umas tarefas a cumprir – uma última, sobretudo: encontrar-se com um ilustre poeta desaparecido que, como todos os fantasmas, talvez apareça só à meia-noite.
Entrega-se ao fluxo do acaso, segundo a lógica das livres associações do inconsciente, e dá consigo a cumprir um percurso que o leva a reviver aquilo que foi, a tentar desatar os nós cegos da sua vida passada que nunca conseguiu compreender. A alucinação, a errância, o sonho duram doze horas, nas quais o tempo de uma vida se comprime e se dilata: passado e presente confundem-se e os vivos encontram-se com os mortos no mesmo plano.
Com este Requiem, Antonio Tabucchi, ao contar a experiência de uma viagem misteriosa e sapiencial, escreveu um livro que é um acto de amor a um país que lhe pertence profundamente e à língua na qual este livro está escrito.

Antonio Tabucchi nasceu em Pisa(1943-2012), onde fez os seus estudos, primeiro na Faculdade de Letras e depois na Scuola Normale Superiore. Ensinou nas Universidades de Bolonha, Roma, Génova e Siena. Foi Visiting Professor no Bard College de Nova Iorque, na École de Hautes Études de Paris e no Collège de France. Publicou 27 livros, entre romances, contos, ensaios e textos teatrais. As suas obras estão traduzidas em mais de 40 países. Recebeu numerosos prémios nacionais e internacionais. Sozinho, ou com Maria José de Lancastre, traduziu para italiano a obra de Fernando Pessoa. Considerando que a sua pátria é também a língua portuguesa, escreveu um romance em português, Requiem, 1991. O seu teatro foi levado ao palco, entre outros, por Giorgio Strehler e Didier Bezace. O Fio do Horizonte, Nocturno Indiano, Afirma Pereira e Requiem foram adaptados ao cinema respectivamente por Fernando Lopes, Alain Corneau, Roberto Faenza e Alain Tanner".

Découvrez le site de la Rentrée littéraire 2014 des Éditions Gallimard : liste des ouvrages, extraits et résumés, feuilletages, biographies et agendas des auteurs...
La fête de l'insignifiance
Collection Blanche, Gallimard
Parution : 03-04-2014
144 pages, 140 x 205 mm 
Achevé d'imprimer : 01-03-2014
Genre : Romans et récits 
Catégorie > Sous-catégorie : Littérature française > Romans et récits 
Époque : XXe-XXIe siècle
ISBN : 9782070145645 - Gencode : 9782070145645 - Code distributeur : A1456
Autour du livre
Dans les médias
«Quel livre ! Quel langage à double entente, qui serre la gorge du lecteur en même temps qu’il le fait éclater de rire !»
Marc Fumaroli, Le Figaro littéraire
«Il faut lire de toute urgence le nouveau roman de Milan Kundera, magnifique, solaire, profond, drôle.»
François Busnel, L’Express
«Un roman joyeux et cocasse sur l’esprit de sérieux.»
Marie-Laure Delorme, Le Journal du dimanche
«Léger, soyeux et savant, aussi tendu qu’une toile d’araignée.»
Jérôme Garcin, Le Nouvel Observateur
«Une langue éclatante de lumière.»
Philippe Labro, Paris Match
«L’auteur de La Plaisanterie offre à son lecteur une fête de l’intelligence. Un roman qui feint la légèreté pour voler plus haut.»
Raphaëlle Leyris, Le Monde des livres

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Rituais

" Eu olho para ti pelo canto do olho e tu não dizes nada.A linguagem é uma fonte de mal-entendidos. Mas todos os dias te podes sentar um bocadinho mais perto...
O principezinho voltou no dia seguinte.
- Era melhor teres vindo à mesma hora - disse a raposa. Se vieres, por exemplo, às quatro horas, às três, já eu começo a ser feliz. E quanto mais perto for da hora, mais feliz me sentirei. Às  quatro em ponto já hei-de estar toda agitada e inquieta: é o preço da felicidade! Mas se chegares a uma hora qualquer, eu nunca saberei a que horas é que hei-de começar a arranjar o meu coração, a vesti-lo, a pô-lo bonito...São precisos rituais.
- O que é um ritual? - perguntou o principezinho.
- Também é uma coisa de que toda a gente se esqueceu - respondeu a raposa . - É o que faz com que um dia seja diferente dos outros dias e uma hora, diferente das outras horas. Os meus caçadores, por exemplo, têm um ritual. À quinta-feira, vão ao baile com as raparigas da aldeia. Assim, a quinta feira é um dia maravilhoso. Eu posso ir  passear para as vinhas. Se os caçadores fossem ao baile num dia qualquer, os dias eram todos iguais uns aos outros e eu nunca tinha férias.
Foi  assim que o principezinho prendeu a si a raposa." Antoine de Saint-Exupéry, in " O Principezinho",1946, Editora Caravela ,Lda.

domingo, 7 de setembro de 2014

Ao Domingo Há Música

Nova, Nova, Nova

"Não era a minha alma que queria ter.
Esta alma já feita, com seu toque de sofrimento
e de resignação, sem pureza nem afoiteza.
Queria ter uma alma nova.
Decidida capaz de tudo ousar.
Nunca esta que tanto conheço, compassiva, torturada
de trazer por casa.
A alma que eu queria e devia ter…
Era uma alma asselvajada, impoluta, nova, nova,
nova, nova!
Irene Lisboa, (1892-1958)

Nem sempre a mudança é possível. Desejá-la e tentá-la é uma hipótese. A música opera, frequentemente, no território do impossível: aquele que dá forma ao sonho.
Assim aconteceu com  Al van der Beek & Steven Sharp Nelson e Kayson Brown no desenvolvimento do conceito "Beethoven's 5 Secrets" que combina a canção "Secrets" dos  " One Republic" com alguns movimentos da "5 ª Sinfonia, C Minor, Opus 67" de Ludwig van  Beethoven.  
"We used 5 different melodies from the 4 movements of Beethoven's 5th Symphony (not including the "bridge" the orchestra plays in the middle). Try to guess where they are and where they come from!" É o desafio que nos lançam estes músicos.
Ligar o Clássico, a música erudita, com  o moderno, a música pop. Uma orquestra de estudantes , jovens com idades compreendidas entre os 13 e os 18  anos. A cultura da música clássica como inspiração para novos talentos e novas obras. Em Arte,  as mudanças acontecem. Beethoven descobriu muitos dos "segredos"  da Arte. Por isso esta composíção é dedicada pelos seus autores  a  Ludwig van  Beethoven (1770-1827).
Eis  a American Heritage Lyceum Philharmonic, sob a direcção de Kayson Brown. No violino, Julie Ann Nelson & Matthew John Nelson . Steven Sharp Nelson em violoncelo acústico, violoncelos eléctricos, percussão e Al van der Beek na  percussão.



sábado, 6 de setembro de 2014

A falsa guerra humanitária

Intervenção ocidental curto-circuita União Africana
Era necessário matar Kadhafi?
(inédito: Agosto 2014, Le Monde Diplomatique)
por Jean Ping
A eliminação de Muammar Kadhafi, em 20 de Outubro de 2011, significou o fim do seu regime despótico, mas não do caos reinante na Líbia. Os danos colaterais dos ataques aéreos ocidentais afectam hoje todos os que vivem à volta do Sara. A fim de evitar um tal desastre, a União Africana havia proposto uma solução política, que estava prestes a resultar quando se deu a intervenção estrangeira. Um actor de primeiro plano dá aqui testemunho dos acontecimentos.

"Em 2011, no espaço de dezasseis dias, tiveram lugar duas intervenções militares pesadas no espaço soberano de África, sem que a União Africana [1], considerada uma entidade sem importância, tenha sido consultada. Entre 4 e 7 de Abril, as tropas francesas intervieram na Costa do Marfim. Alguns dias antes, a partir de 19 de Março, as forças da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), principalmente francesas e britânicas, tinham começado a bombardear a Líbia. Para o antigo presidente sul-africano Thabo Mbeki, estes acontecimentos mostraram «a impotência da União Africana em fazer valer os direitos dos povos africanos face à comunidade internacional» [2]. O facto foi ignorado pela comunicação social, mas esta organização, a cuja Comissão presidi de 2008 a 2013, havia formulado para os dois conflitos soluções pacíficas concretas que os ocidentais e os seus aliados desautorizaram.
Nos primeiros dias do ano de 2011, tudo começou a agitar-se na África do Norte. A 14 de Fevereiro, o presidente tunisino Zine El-Abidine Ben Ali pôs-se em fuga. A Europa, estupefacta, não interveio. A 10 de Fevereiro, Hosni Mubarak demitiu-se. A 12 de Fevereiro, a contestação atingiu a vizinha Líbia. Para os ocidentais, este último levantamento foi um presente inesperado, pois permitiu-lhes, com poucos custos, fazer o papel de herói humanitário e fazer esquecer o apoio que haviam prestado aos outros regimes ditatoriais. Com a aprovação da resolução 1973 do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU), em 17 de Março, eles pensavam ter obtido autorização para levar a cabo uma dança macabra à volta do dirigente líbio Muammar Kadhafi.
«Afeganistão próximo»
Entre os protagonistas desse conflito figurava, em primeiro lugar, o Conselho Nacional de Transição (CNT) e os seus heteróclitos revolucionários, que tinham como único objectivo comum desembaraçar-se do tirano. Para o conseguir, o apoio exterior era-lhes indispensável [3].
Em segundo lugar intervinha a coligação ocidental e o seu braço armado, a OTAN, que irromperam, quais justiceiros, na nova batalha do deserto. Decidiram reagir ferozmente aos comportamentos de Kadhafi e, como com Saddam Hussein, eliminá-lo definitivamente. Mas será que, para se verem livres de um só homem e parar o massacre de civis, era mesmo necessário desencadear uma guerra punitiva desta dimensão e cometer um novo massacre de civis, igualmente inocentes? Brincaram com o fogo, tornando previsível o caos que, como na Somália, no Iraque, no Afeganistão e noutros lugares, daí resultaria.
O campo ocidental contava naturalmente com o grande irmão americano, a «nação indispensável» segundo a expressão da antiga secretária de Estado Madeleine Allbright. Acontece que, nesse momento, Barack Obama revelava a sua nova doutrina estratégica de deslocação para o eixo Ásia-Pacífico [4]. A América, presa aos problemas internos nascidos da crise económica e financeira, tinha necessidade de se virar um pouco para si própria. Tinha por isso decidido que passaria a exercer a liderança mundial «na retaguarda» (leading from behind). Abandonando as tradições da sua diplomacia, a França assumiu o comando da coligação anti-Kadhafi. Dirigiu as hostilidades na «frente» e por procuração internacional.
Mas quem iria governar a Líbia pós-Kadhafi? Quem poderia apaziguar as tensões inter-regionais, inter-tribais e inter-religiosas que nasceriam inevitavelmente da terrível confrontação que daí adviria? Essas eram as questões essenciais que colocávamos no seio da União Africana.
A resolução 1973 limitava-se a exigir um cessar-fogo e a interditar todos os voos no espaço aéreo líbio para proteger os civis; excluía a intervenção de um exército de ocupação. Sem utilizar o seu direito de veto, a Rússia e a China, na falta de resposta sobre os meios projectados para levar a cabo a resolução, optaram prudentemente pela abstenção (tal como a Alemanha, o Brasil e a Índia). A intervenção militar, com o recurso às forças especiais no terreno, a ajuda aos rebeldes ou os ataques aéreos contra as tropas e os centros de comando, constituiu para as duas potências uma afronta e uma mudança radical de procedimentos. Nunca estivera em questão liquidar Kadhafi ou impor uma mudança de regime.
Os procedimentos ocidentais, considerados ilegais e imorais por muitos, suscitaram numerosas reacções internacionais, particularmente azedas, como a de Mbeki: «Pensávamos ter posto definitivamente termo a cinco séculos de escravatura, de imperialismo, de colonialismo e de neocolonialismo (…) Ora, as potências ocidentais arrogaram-se o direito, de maneira unilateral e descarada, de decidir sobre o futuro da Líbia» [5]. Esta apoplexia ilustrava um sentimento de humilhação largamente partilhado.
Para nós, com toda a evidência, o espectro da guerra civil, da divisão, da «somalização», do terrorismo e do narcotráfico pairava sobre a Líbia. Por que razão só nós o víamos? Iam para lá combater para defender a democracia, pelo controlo do petróleo, em função de sórdidos cálculos eleitoralistas (Nicolas Sarkozy já estava em pré-campanha para as presidenciais do ano seguinte) ou por tudo isso ao mesmo tempo? Não havia, nessa fase, outras vias possíveis antes dos bombardeamentos em massa?
A União Africana estava convencida de que havia. Foi por isso que optou por uma resposta mais política do que militar e concentrou os seus esforços na elaboração de um roteiro, adoptado a 10 de Março. Esse documento comportava essencialmente três pontos: a «cessação imediata das hostilidades»; o diálogo com vista a uma «transição consensual» – quer dizer, excluindo a manutenção no poder de Kadhafi –; e objectivo último de instauração de um «sistema democrático». O Ocidente queria suprimir um homem; a União Africana pretendia mudar o sistema.
A 19 de Março, o comité dos chefes de Estado [6] mandatado pela União para convencer as duas partes do conflito líbio a aceitar os termos de uma solução política reuniu-se em Nuakchott, na Mauritânia, depois de uma primeiro encontro em Addis-Abeba, na Etiópia, no seio da organização. No meio das deliberações, Ban Ki-moon, o secretário-geral da ONU, quis com toda a urgência falar comigo ao telefone. Ele participava nesse sábado, em Paris, numa outra cimeira internacional que reunia os dirigentes árabes, europeus e norte-americanos com o objectivo de «decidir e agir colectivamente sobre a aplicação da resolução 1973». Os governos presentes em Paris, anunciou-me ele, tinham-no expressamente encarregado de me pedir para dissuadir os nossos representantes de irem a Trípoli e a Benghazi. Ele invocava uma razão clara: «As operações militares da OTAN vão começar hoje». Um cenário semelhante, visando a marginalização da ONU e a mediação da União Africana, ocorreu na Costa do Marfim [7], demonstrando que, para certas potências, nenhuma autoridade internacional pode ser superior à sua.
Para nós, apenas significou algum adiamento. A 10 de Abril, os representantes da União Africana apresentaram-se em Trípoli para se encontrarem com Kadhafi. No dia seguinte, em Benghazi, as nossas viaturas foram cercadas desde o aeroporto e nós fomos escarnecidos até à chegada ao hotel onde deviam encontrar-se os porta-vozes. «Bernard-Henri Levy está seguramente a manobrar isto, talvez neste hotel», pensei eu. Mustapha Abdeljalil, presidente do CNT, e a sua equipa entraram nas discussões sob a pressão ininterrupta de uma multidão de manifestantes agressivos, que gritaram até à nossa partida. Resultado: Kadhafi aceitou a nossa proposta, mas a resposta do CNT foi negativa. Os pirómanos levaram a melhor sobre os bombeiros e o confronto venceu a negociação.
Com o passar do tempo, será evidente que a União Africana foi a única organização internacional a propor uma saída política. Sem dúvida porque África já tinha vivido experiências semelhantes, das quais guardava estigmas indeléveis. Basta lembrar o drama da Somália desde há mais de vinte anos, na sequência da desastrosa operação militar americana «Restore Hope», em 1993. E também o caos iraquiano e a desintegração actual deste Estado [8].
Na Líbia, como tínhamos previsto, o sonho europeu também resultou em desastre. Os aparelhos de Estado implodiram em proveito de senhores da guerra, de clãs mafiosos e de islamo-negocistas; a pilhagem de stocks de armas transformou o país num gigantesco arsenal a céu aberto; as fileiras de imigração clandestina multiplicaram-se [9]. A tal ponto que a Líbia se tornou, para usar a expressão de um antigo chefe das informações francesas, «o Afeganistão próximo dos europeus».
Nós tínhamos avisado o mundo inteiro: esta bomba ao retardador acabará por explodir nas mãos dos seus artífices, que não sabiam a história que estavam a escrever. A proposta africana que ninguém quis ouvir falar visava persuadir Kadhafi a seguir a via do exílio para o exterior, como Ben Ali, ou a do exílio interno, como Mubarak. Ele devia renunciar ao que lhe restava do poder para poupar o seu povo às desgraças e à humilhação de uma intervenção estrangeira, bem como aos horrores de uma guerra civil cujo resultado lhe seria fatal.
Por trás do pretexto humanitário
Começámos à procura de possíveis locais de acolhimento. Para o exílio interno, tínhamos proposto Sebha, capital da região de Fezzan, próximo dos países amigos da África negra – nomeadamente o Chade. Para o exílio externo, a Turquia tinha rejeitado a nossa oferta. A Venezuela tinha-se oferecido, mas era muito delicado. O Egipto tinha sido contactado, mas os apoiantes de Kadhafi tinham rejeitado essa proposta…
A diplomacia é a arma principal da nossa União. A nossa lógica é a da «paz preventiva», e não, como demasiadas vezes acontece no caso do Ocidente, a da «guerra preventiva», desprovida de toda a legitimidade. Por que não nos deram a oportunidade de levar a cabo o nosso plano, que Kadhafi teria aceite? Curiosamente, hoje, deixámos de ouvir falar Bernard-Henri Levy, o filósofo hiperactivista e belicista francês, sobre a situação na Líbia. Virou-se para outras frentes: Síria, Ucrânia…
Entre os outros actores estratégicos figuravam os Estados árabes e a sua organização regional. Contrariamente à União Africana, a Liga Árabe estava praticamente alinhada com a posição ocidental, sendo o Qatar o mais belicista. Quanto ao próprio Kadhafi, ele não compreendia que, num mundo transformado numa aldeia global, todos os povos aspirem à liberdade, à dignidade e à justiça. A sua reacção ao levantamento popular vinha de outros tempos: a repressão, apenas a repressão.
A 20 de Outubro, a aviação francesa interceptou o comboio do chefe líbio. Escapando a pé, foi identificado, espancado brutalmente por um grupo de insurrectos e finalmente morto. Descobriu-se que a «guerra humanitária», enroupada com bons e nobres sentimentos do novo princípio da «responsabilidade de proteger» – adoptado pelas Nações Unidas em 2005 –, não era senão uma mistificação. Ela dissimulava uma política de poder clássica visando derrubar um regime e assassinar um chefe de Estado estrangeiro. Desta vez com a cobertura da ONU.
JEAN PING *
* Antigo ministro dos Negócios Estrangeiros do Gabão e antigo presidente da Comissão da União Africana. Autor de Eclipse sur l’ Afrique. Fallait-il tuer Kadhafi?, Michalon, Paris, 2014.
Terça-feira 19 de Agosto de 2014, Le Monde Diplomatique, edição portuguesa

Notas


[1] Em 2002, A União Africana (www.au.int) sucedeu à Organização da União Africana (OUA), fundada em 1963. Ela agrupa cinquenta e quatro países do continente, todos representados na Conferência dos chefes de Estado, sua instância dirigente, enquanto a Comissão é o seu órgão executivo.
[2] Thabo Mbeki, «Union africaine: une decennie d’echecs», Courrier internacional, Paris, 27 de Setembro de 2012.
[3] Ler Serge Halimi, «As armadilhas de uma guerra», Le Monde diplomatique – edição portuguesa, Abril de 2011.
[4] Ler Michael T. Klare, «O Pentágono vira-se para o Pacífico», Le Monde diplomatique – edição portuguesa, Março de 2012.
[5] Thabo Mbeki, «Union africaine: une décennie d’échecs», op. cit.
[6] Jacob Zuma (África do Sul), Mohamed Ould Abdel Aziz (Mauritânia), Denis Sassou Ngueso (Congo), Amadou Toumani Touré (Mali) e Yoweri Museveni (Uganda).
[7] Ler Anne-Cécile Robert, «Origens e vicissitudes do “direito de ingerência”», Le Monde diplomatique – edição portuguesa, Maio de 2011.
[8] Ler Gérard Prunier, «Terrorisme somalien, malaise kényan», Le Monde diplomatique, Novembro de 2013, e Peter Harling, «O que a explosão iraquiana anuncia», Le Monde diplomatique – edição portuguesa, Julho de 2014.
[9] Ler Patrick Haimzadeh, «A Líbia nas mãos das milícias», Le Monde diplomatique – edição portuguesa, Outubro de 2012.

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Os homens nascem sem moral

"Agora deixa que te diga uma coisa - disse, e encostou-se à cómoda, acendeu um cigarro e, num gesto distraído, deitou o fósforo na salva dos cartões-de-visita. - Entre nós sucederam coisas que não podemos calar por mais tempo. Há quem silencie durante toda a vida o que foi mais importante. Às vezes morrem connosco. Mas, às vezes, há maneira de as dizer... e, então, não se pode, não é admissível que continuemos calados. Creio que um silêncio destes pode ter sido o pecado original de que se fala na Bíblia. Há uma mentira ancestral na vida; o homem tarda a dar-se conta dela. Não queres sentar-te? Senta-te, Eszter, e escuta-me. Não, desculpa, mas, desta vez, gostaria de ser eu a elaborar a acusação e a ditar a sentença. Até agora foste tu a sentenciar. Senta-te, por favor.
Falava em tom cortês, mas peremptório.
- Toma - disse, e indicou uma cadeira. - Olha, Eszter, nós falamos sobre tudo há vinte anos. As coisas não são assim tão simples, Tu elencas os meus pecados - tu e os outros -, e esses pecados, infelizmente, são ver­dadeiros. Falas-me de um anel e de mentiras, de promessas que não cumpri, de letras que não paguei. Mas há outras coisas, Eszter. E piores. É supérfluo dizer tudo... não me quero defender... pois não são já esses pormenores a decidir o meu destino. Fui sempre um fraco. Gostaria de ter feito alguma coisa neste mundo, e nem era absolutamente desprovido de talento. Mas intenções e talento tudo isso é muito pouco. Agora já sei que é pouco. Para a criação é preciso algo mais... Uma espécie de força particular, ou de disciplina, ou as duas juntas, e julgo que isso é o que se chama ter carácter… E essa capacidade, ou característica, é que me falta. É uma estranha surdez. É como se alguém conhecesse exactamente a música cuja melodia entoa mas não ouvisse os sons. Quando te conheci, ainda não sabia isto assim, com a precisão com que te conto... nem sabia que tu significavas, para mim, o carácter. Compreendes?
- Não - disse, com franqueza.
Não eram tanto as suas palavras que me surpreendiam, mas o seu tom de voz e a maneira de falar. Nunca o ouvira falar neste tom. Falava como alguém que... não, é-me quase impossível descrever o tom da sua voz. Falava como alguém que entrevê algo, uma verdade, ou uma descoberta, e vai pelo caminho certo, não pode ainda dizer a sua verdade, mas está cada vez mais perto da sua visão e, em espasmos, esforça-se por gritar ao mundo as suas impressões. Falava como alguém que sente algo. Eu não estava habituada a esse tom de voz em Lajos. Observava-o em silêncio.
Que simples - disse. - Depressa compreendes. Tu foste, tu poderias ter sido, para mim, o que me faltava: o carácter. São coisas que se sentem. Uma pessoa que não tem carácter, ou não tem um carácter perfeito, tem o seu quê de inválido, no sentido moral. Há muitas pes­soas assim. Como se fossem criaturas perfeitas, a quem falta uma mão, ou uma perna. Aplica-se-lhes uma prótese e tornam-se logo capazes de trabalhar, de ser úteis à sociedade. Não te ofendas com a analogia, pois tu poderias ter sido uma prótese para mim... Uma prótese moral. Espero não magoar-te -acrescentou, docemente, e inclinou-se para mim.
Não - disse -, só não acredito nisso, Lajos. Um carácter não se pode substituir. O sentido moral não se pode transmitir de uma pessoa para outra como um transplante artificial. São teorias. Não te ofendas.
- Não são só teorias. O sentido moral, vês, não é algo de hereditário, mas uma característica adquirida. Os homens nascem sem moral. O sentido moral dos sel­vagens ou das crianças é diferente da moral de um juiz de sessenta anos do Supremo Tribunal de Viena ou de Amesterdão. Adquire-se o sentido moral durante a vida, tal como se adquirem maneiras e cultura.”
Sándor Márai , in "A Herança de Eszther",  Publ. D.Quixote, 2006

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

O estranho Universo


Uma paisagem espectacular de formação estranha 
"Esta imagem obtida pelo instrumento Wide Field Imager, no Observatório de La Silla do ESO, no Chile, mostra duas regiões de formação estelar na Via Láctea austral. A primeira destas regiões, à esquerda, é dominada pelo enxame estelar NGC 3603 e situa-se a 20 000 anos-luz de distância, no braço em espiral Carina-Sagitário da nossa Via Láctea. A segunda, à direita, trata-se de uma colecção de nuvens de gás brilhante conhecida pelo nome de NGC 3576 e situa-se a apenas metade da distância a que primeira região se encontra da Terra.
O NGC 3603 é um enxame estelar muito brilhante, famoso por ter a mais alta concentração de estrelas massivas descobertas na nossa Galáxia até agora. No seu centro situa-se um sistema estelar múltiplo Wolf-Rayet, conhecido por HD 97950. As estrelas Wolf-Rayet encontram-se num estado avançado de evolução e apresentam massas a partir de 20 vezes a massa solar. No entanto, apesar da sua elevada massa, estas estrelas libertam uma quantidade considerável de matéria, devido a intensos ventos estelares, que enviam o material da superfície estelar para o espaço a velocidades de vários milhões de quilómetros por hora, no que pode ser considerado uma dieta drástica de proporções cósmicas.
O NGC 3603 situa-se numa região de formação estelar muito activa. As estrelas nascem em regiões do espaço escuras e poeirentas, escondidas da vista. À medida que as estrelas muito jovens começam a brilhar e limpam os casulos de material que as rodeiam, tornam-se visíveis e dão origem a brilhantes nuvens de material circundante, conhecidas por regiões HII. As regiões HII brilham devido à interacção entre a radiação ultravioleta emitida pelas estrelas jovens quentes brilhantes e as nuvens de gás de hidrogénio. As regiões HII podem ter um diâmetro de várias centenas de anos-luz e a região HII que rodeia a NGC 3603 tem a particularidade de ser a mais massiva da nossa Galáxia.
Este enxame foi observado pela primeira vez por John Herschel a 14 de Março de 1834 perto da Cidade do Cabo, durante a sua expedição de três anos para mapear o céu austral de forma sistemática. Este astrónomo descreveu o objecto como extraordinário e pensou que poderia tratar-se de um enxame estelar globular. Estudos posteriores mostraram que não se trata de um enxame globular velho, mas sim de um jovem enxame aberto, um dos mais ricos conhecidos.
A nebulosa NGC 3576, situada no lado direito da imagem, encontra-se igualmente no braço em espiral de Carina-Sagitário da Via Láctea, no entanto está apenas a 9000 anos-luz de distância da Terra - muito mais perto que o NGC 3603, mas aparece próximo deste no céu.
A NGC 3576 apresenta dois enormes objectos curvos que parecem os chifres de um bode. Estes estranhos filamentos são o resultado de ventos estelares emitidos por estrelas quentes e jovens que se situam nas regiões centrais da nebulosa e que lançam gás e poeira para o exterior a centenas de anos-luz de distância. Duas regiões escuras, conhecidas por glóbulos de Bok, são também visíveis neste vasto complexo de nebulosas. As nuvens pretas próximo do topo da nebulosa são igualmente potenciais locais de futura formação estelar. 
A NGC 3576 foi também descoberta por John Herschel em 1834, fazendo com que este fosse um ano particularmente produtivo e visualmente recompensador para o astrónomo inglês.

Informações adicionais

O ESO é a mais importante organização europeia intergovernamental para a investigação em astronomia e é o observatório astronómico mais produtivo do mundo. O ESO é financiado por 15 países: Alemanha, Áustria, Bélgica, Brasil, Dinamarca, Espanha, Finlândia, França, Holanda, Itália, Portugal, Reino Unido, República Checa, Suécia e Suíça. O ESO destaca-se por levar a cabo um programa de trabalhos ambicioso, focado na concepção, construção e funcionamento de observatórios astronómicos terrestres de ponta, que possibilitam aos astrónomos importantes descobertas científicas. O ESO também tem um papel importante na promoção e organização de cooperação na investigação astronómica. O ESO mantém em funcionamento três observatórios de ponta, no Chile: La Silla, Paranal e Chajnantor. No Paranal, o ESO opera o Very Large Telescope, o observatório astronómico óptico mais avançado do mundo e dois telescópios de rastreio. O VISTA, o maior telescópio de rastreio do mundo que trabalha no infravermelho e o VLT Survey Telescope, o maior telescópio concebido exclusivamente para mapear os céus no visível. O ESO é o parceiro europeu do revolucionário telescópio ALMA, o maior projeto astronómico que existe atualmente. O ESO encontra-se a planear o European Extremely Large Telescope, E-ELT, um telescópio de 39 metros que observará na banda do visível e do infravermelho próximo. O E-ELT será “o maior olho do mundo virado para o céu”.ESO

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quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Uma "Agradável companhia"

PIETER DE HOOCH - "CONVERSAÇÃO"

Uma Peça do Museu Nacional de Arte Antiga
Conversação 
Pieter de Hooch (assinado)
c. 1663-1665
Óleo sobre tela
64 x 74,5 cm
Proveniência: Palácio Nacional da Ajuda, Lisboa, 1920
Inv. 1620 Pint
" Pieter de Hooch foi um dos pioneiros do naturalismo holandês e destacado expoente da chamada Escola de Pintura de Delft. As razões pelas quais é mais apreciado centram-se no expressivo tratamento do espaço, no domínio magistral da perspectiva e na luz subtil das suas obras. A pintura do Museu de Lisboa, uma «Agradável companhia» num interior ricamente adereçado, é um excelente exemplo do estilo de maturidade do artista revelado durante os seus primeiros anos em Amesterdão. Neste período, os cenários e o mobiliário dos seus interiores em pintura tornaram-se mais sumptuosos, as figuras mais bem vestidas e os temas mais refinados. A tela de Lisboa é uma das três cenas de interior, de composição horizontal, com o tema «Agradável companhia» (vejam-se também as pinturas da Colecção Lehman, no Metropolitan Museum of Art em Nova Iorque, e a do Germanisches Nationalmuseum, em Nuremberga), apresentando guadamecis revestindo as paredes e outro mobiliário luxuoso, tal como o chão e a lareira em mármore e o tapete oriental (Oshak, Medalhão) aqui representados. Estas três telas podem ser datadas de c.1663 ou pouco depois, com base na sua semelhança estilística com duas pinturas datadas desse ano e pertencentes ao Cleveland Museum of Art e ao Rijksmuseum de Amesterdão. Do mesmo modo que o grau de elegância deste grupo de pinturas é um dado novo e parece reflectir a prosperidade de Amesterdão, ao tempo a cidade mais rica do Norte da Europa, a importância conferida à geometria do espaço e às gradações habilmente sugeridas da iluminação natural (note-se a cuidada observação da luz filtrada pelas janelas, à esquerda, e o iluminado vão da porta aberta, à direita) definem-se como características fundamentais da arte de Hooch a partir das suas pinturas do período de Delft, c. 1658. As suas composições com vista a espaços contíguos ou de exteriores (o que se designa, em holandês, doorkijkje) são como que uma assinatura do pintor.
Trata-se de um tema caro à pintura holandesa. Aqui, vêem-se dois jovens casais à mesa, acompanhados por um violinista, enquanto chega um cavalheiro de chapéu na mão, pela porta da direita. Um dos homens levanta-se para puxar a corda de uma sineta, provavelmente para chamar um criado. Mais explicitamente do que na maioria das «composições» de Pieter de Hooch com o mesmo tema, os casais trocam carícias – o homem que ri, na outra extremidade da mesa, coloca a mão no peito da sua companheira sorridente, enquanto ela sugestivamente introduz uma faca no seu copo de vinho. Muito se escreveu sobre os possíveis significados da pintura. Alguns admitem que as figuras à volta da musa personificam e aludem ao conceito dos Cinco Sentidos. Outros crêem que a proeminente representação do Rapto de Ganimedes, sobre o fogão da sala, funciona simbolicamente; de facto, os pintores de género holandeses recorrem, por vezes, à inclusão de pintura dentro da pintura como espécie de comentário ao próprio tema principal da representação. Filho de um rei troiano, o jovem e belo Ganimedes foi raptado por Zeus metamorfoseado em águia, como oferenda para os Deuses. Alguns comentadores do século XVII salientaram as alusões (homo) eróticas desta história, outros consideraram Ganimedes como um símbolo de Aquário, enquanto que os neoplatónicos interpretaram a narrativa como ato de elevação da pura alma humana até Deus, e daí a existência, na pintura holandesa, de retratos de crianças já falecidas enquanto Ganimedes. Karel van Mander, no seu importante comentário às Metamorfoses de Ovídio (Wileggingh op den Metamorphosis Pub. Ovidij Nasonis em Het Schildrbock (1603-1604, p.87) escreveu: «Ganimedes é tido como Alma Humana, aquele que está menos manchado pelas impurezas corporais dos desejos perversos. Foi escolhido por Deus e levado até Ele». Com efeito, esta pintura dentro da pintura baseia-se numa gravura criada a partir de uma composição perdida de Karel van Mander III. Assim, é provável que este pormenor vise intensificar ou, pelo contrário, se oponha simbolicamente à alegria das figuras em primeiro plano. Embora não tenhamos certezas acerca das intenções de Hook relativamente à sua inclusão, a imagem mitológica não é certamente um pormenor inocente ou seleccionado ao acaso; o cachorro spaniel, no canto inferior direito da pintura, que mais parece ladrar para o quadro por cima do fogão de sala que para o recém-chegado, assemelha-se aos frequentemente representados noutras imagens de Ganimedes, indiciando que Pieter de Hooch tomou em consideração tais representações do episódio. Desta forma, o artista insinua habilidosamente a história de Ganimedes na «verdadeira» zona pictórica onde se inscrevem os foliões."CNC

terça-feira, 2 de setembro de 2014

Assim vai o Mundo

Mais de três milhões de sírios fugiram à guerra civil do seu país e tornaram-se refugiados, com o registo de um milhão de pessoas apenas no último ano, revelaram hoje as Nações Unidas.

"O número de refugiados vai ultrapassar os três milhões», refere Agência da ONU para os Refugiados ao salientar que o número não inclui milhares de pessoas que fugiram do conflito sem se registarem como refugiados.
Há menos de um ano, o número de refugiados sírios estava calculado em dois milhões de pessoas, acrescenta o mesmo organismo ao salientar que o aumento se deve à «deterioração das condições no interior do país».
Há «cidades onde a população está cercada, as pessoas enfrentam a fome e os civis são alvo de sevícias ou indiscriminadamente mortos».
A guerra civil na Síria já terá provocado a morte a 191.000 pessoas desde Março de 2011.
As Nações Unidas referem ainda que 6,5 milhões de sírios foram deslocados o que traduz que cerca de 50% da população foi obrigada a abandonar as suas casas.
Mais de metade dos deslocados são crianças.
A maioria dos refugiados sírios encontrou abrigo em países vizinhos com o Líbano a acolher 1,14 milhões de pessoas, a Jordânia 608.000 e a Turquia 815.000." Diário Digital com Lusa

A economia dominou o segundo debate entre os candidatos às presidenciais brasileiras de 05 de Outubro que ficou ainda marcado pela polarização entre Dilma Rousseff e Marina Silva.

"A situação negativa da economia brasileira, que apresentou queda de 0,6% no crescimento no segundo trimestre do ano, segundo números oficiais, foi a principal critica ao actual governo.
Diferentes candidatos criticaram tanto a queda no Produto Interno Bruto como o aumento da taxa de juro e da inflação.
Dilma Rousseff (do Partido dos Trabalhadores, de centro-esquerda), defendeu-se e voltou a culpar a crise económica internacional pela má prestação da economia brasileira e afirmou que não há recessão no país e que os empregos e os salários até estão a subir.
Já a ambientalista Marina Silva, candidata pelo Partido Socialista Brasileiro (PSB), acusou Dilma Rousseff de não reconhecer os seus erros como fez no debate anterior.
A polarização entre Dilma Rousseff e Marina Silva no debate segue o resultado da última sondagem do Instituto Datafolha, liderada pelas duas candidatas na simulação de primeira volta.
A ex-ministra do Meio Ambiente, venceria, no entanto, na segunda volta, segundo os dados da sondagem.
Marina Silva era candidata a vice-presidente no projecto de Eduardo Campos, candidato a Presidente até o último dia 13, quando morreu num acidente de avião.
A ambientalista tinha anunciado a sua filiação ao partido socialista por não ter conseguido fundar o seu próprio grupo político, a Rede Sustentabilidade, a tempo das eleições de 05 de Outubro.
O PSB coloca-se na actual eleição como um partido de terceira via entre as duas maiores forças políticas brasileiras: o PT de Dilma Rousseff e o Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB, de centro-direita), de Aécio Neves, o terceiro candidato "mais votado" nas sondagens.
Marina Silva e o Partido Socialista defendem um governo de união entre pensadores de esquerda e direita, dizem rejeitar essa polarização, e apoiam a autonomia do Banco Central, posição abrangente que acabaria criticada no debate com a acusação de ser contraditória.
Outra crítica feita à ambientalista foi ter retirado do seu programa de governo o apoio explícito ao casamento entre pessoas do mesmo sexo.
Entre os candidatos presidenciais que participaram no debate estavam ainda Pastor Everaldo (Partido Social Cristão), Luciana Genro (Partido Socialismo e Liberdade), Eduardo Jorge (Partido Verde) e Levy Fidelix (Partido Renovador Trabalhista Brasileiro). " Lusa, 2.09.14

Putin diz-se em condições de tomar Kiev em duas semanas
                                                      Damir Sagolj, Reuters

O presidente russo Vladimir Putin terá dito ao presidente da Comissão Europeia, Durão Barroso, que podia tomar Kiev em duas semanas, se assim entendesse. A afirmação terá sido feita num telefonema entre ambos e foi relatada por Barroso na cimeira de chefes de Estado e de Governo da União Europeia.

"Segundo o diário italiano La Repubblica, no sábado passado em Bruxelas, perante os líderes reunidos da UE, e antes ainda das revelações de Barroso, a chanceler alemã, Angela Merkel, tinha intervindo, "furiosa" segundo o diário italiano, para considerar que Putin aposta numa escalada militar e que, depois da Ucrânia, ficarão ameaçadas a Letónia e a Estónia.
Barroso reproduziu as palavras de Putin nos seguintes termos: Se eu quisesse, poderia tomar Kiev em duas semanas". Segundo o diário italiano, Putin terá pretendido avisar Barroso sobre o contraproducente que são as sanções económicas, e sobre o quanto a Rússia se sente "provocada" com essas sanções.
Apaziguamento
Não por acaso, a política de apaziguamento é conhecida principalmente com a palavra britânica "appeasement": o seu principal expoente foi o primeiro ministro britânico Neville Chamberlain, antepassado de Cameron na direcção do Partido Conservador.

Ainda segundo aquele diário, o primeiro ministro britânico David Cameron comentou as palavras de Barroso afirmando que a Europa não deve repetir perante Putin o erro de procurar apaziguá-lo como procurou fazer com Hitler até 1939.
Literalmente, Cameron terá dito: "Desta vez não podemos ir ao encontro das pretensões de Putin. Já tomou a Crimeia e não podemos permitir que tome todo o país. Corremos o risco de repetir os erros cometidos em Munique em 1938".
Em sentido contrário, interveio o primeiro ministro italiano, lembrando o risco de um braço de ferro com a Rússia exacerbar os factores de crise económica internacional, e a necessidade de ganhar a cooperação russa perante as crises humanitárias, políticas e militares da Síria e do Iraque. As sanções económicas poderão ser reforçadas, disse, mas não se deverá fornecer armas à Ucrânia.
Segundo La Reppublica, representantes de várias delegações presentes ao encontro terão confirmado esta versão do debate. Também o site de Der Spiegel obteve junto de um diplomata da Europa ocidental confirmação sobre o relato que Barroso apresentou."RTP e 
 ,01 Set, 2014, 21:07

A capital portuguesa vai ser a anfitriã do congresso "Cities in Europe -- Cities in the Word", que reúne 600 investigadores de todo o mundo para discutirem o desenvolvimento das cidades, aproveitando para conhecerem o potencial de Lisboa.

Entre os dias 3 e 6 de Setembro, a Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade NOVA de Lisboa (FCSH/NOVA) vai ser palco do 12.º congresso organizado pela European Association for Urban History (EAUH), que se realiza de dois em dois anos em diferentes cidades, tendo já passado por Amesterdão, Estrasburgo, Moscovo, Veneza e Praga, referiu Flávio Miranda, membro do comité local de organização do evento.
Durante o congresso, os "600 académicos, vindos de 42 países diferentes, dos quais 15 não europeus", vão ter a oportunidade de participar nas "conferências na Faculdade, assim como de visitas guiadas por Lisboa, um cruzeiro no Tejo e uma excursão até Évora".
Para o responsável pela organização do evento, este encontro de investigadores "vai animar o turismo da região e da cidade de Lisboa", afirmou.
Segundo Flávio Miranda, o congresso é "um fórum multidisciplinar para profissionais dos mais distintos campos de estudo, desde historiadores, arquitectos geógrafos, sociólogos e urbanistas, com interesses profissionais ou trabalhos realizados em torno da cidade".
"Lisboa é cada vez mais uma cidade atractiva não só do ponto de vista turístico, como também científico", considerou o responsável.
Ao longo do congresso vão decorrer 70 sessões de debate, abordando temas como "os problemas e desafios comuns às cidades actuais, desde problemas sanitários, sociabilidade em espaços urbanos, migrações, conflitos, organizações políticas, pobreza, divisão entre os núcleos da cidade, privatização dos recursos públicos e serviços de saúde", disse.
O vírus ébola também vai ser assunto de discussão durante o encontro de investigadores, de forma a "reflectir sobre a propagação e contágio de doenças no mundo".
De acordo com o organizador, o congresso pretende também debater "o desenvolvimento urbano nas cidades planeadas e desenvolvidas ao longo dos anos, e qual foi o cunho de regimes de totalitarismo no desenvolvimento de cidades europeias, com foi o franquismo, o período do salazarismo ou de Mussolini".
O encontro "Cities in Europe -- Cities in the Word" vai levar os investigadores a pensar em "projetos que façam com que as cidades sejam mais eficientes e mais humanas, melhorando a qualidade de vida dos seus habitantes", reforçou.
Com apoio da União Europeia, a EAUH, fundada em 1989, tendo como actual presidente Amélia Aguiar Andrade, docente do Departamento de História da FCSH/NOVA, escolheu Lisboa para esta edição do congresso pois "entendeu-se que a era a cidade ideal para acolher a perspectiva global que se pretende dar a este encontro, ao promover a reflexão sobre cidades europeias e não europeias".
O 12.º encontro da EAUH conta com o apoio da FCSH/NOVA e da Câmara Municipal de Lisboa (CML) entre outras instituições culturais, cujo "orçamento é autossustentável pelas inscrições, com um valor de 270 euros por participante", referiu."Lusa,1.09.14 
O arquitecto de 81 anos ganhou o Prémio Pritkzer (o Nobel da Arquitectura) em 1992. Wang Shu, o único chinês distinguido até hoje com aquele galardão, considera-o "um mestre"
A primeira obra de Siza Vieira na China - um edifício de escritórios, desenhado em parceria com Carlos Castanheira - foi inaugurada hoje na província de Jiangsu, no leste do país, com a presença dos dois arquitectos portugueses.
"Foi uma grande cerimónia, com as autoridades locais e da província, e muitos jornalistas de revistas de arquitectura, disse Carlos Castanheira à agência Lusa, acerca da inauguração.
O mesmo arquitecto contou que Siza Vieira foi objecto de "muitas honras" e "houve até um jornalista que lhe perguntou se ele se sentia 'um embaixador de Portugal'".
A obra inaugurada hoje é um edifício de dois pisos e 300 metros de comprimento, encomendado por uma empresa de Taiwan instalada em Huaian, a Shihlien Chemical Industrial Jiangsu Co.
Está construída num lago artificial adjacente àquela unidade industrial e foi baptizada com o nome de "Edifício sobre a Água".
Além do projecto arquitectónico, o mobiliário, os candeeiros e os tapetes do edifício foram também desenhados em Portugal.
"É uma produção portuguesa e só mostra que Portugal tem capacidade para exportar e há boa receptividade para os nossos produtos", comentou Siza Vieira.
Siza Viera, 81 anos, ganhou o Prémio Pritkzer (o Nobel da Arquitectura em 1992. Wang Shu, o único chinês distinguido até hoje com aquele galardão, considera-o "um mestre".
Em declarações prestadas esta semana à agência Lusa, acerca da sua primeira obra na China, Siza Vieira disse ter encontrado "um ambiente de trabalho muito bom".
"O cliente respeitou escrupulosamente o projecto. Foi um prazer. Ultrapassou tudo o que eu esperava", afirmou.
Siza Vieira e Carlos Castanheira, que se encontram na China desde há semanas, partem no domingo para Macau, para desenvolverem um projecto de renovação de um histórico hotel da cidade, regressando a Portugal na próxima quinta-feira.
Entretanto, em Taiwan, inauguraram um edifício de apoio a um campo de golf e, em Hangzhou, no leste da China, assistiram ao arranque da construção de um museu, dois projectos desenhados pela mesma parceria." Agência Lusa
Cameron sublinhou que a ameaça que “a barbárie” do Estado Islâmico representa exige uma “resposta firme”, com dois objectivos: evitar que extremistas viagem para o estrangeiro e actuar contra os que se encontram dentro do país
"O primeiro-ministro britânico anunciou hoje medidas para conter a ameaça ‘jihadista’ no Reino Unido, entre as quais a possibilidade de a polícia confiscar passaportes e restringir os movimentos de suspeitos de terrorismo.
David Cameron anunciou as medidas na Câmara dos Comuns, depois de na sexta-feira o Reino Unido ter elevado o nível de alerta de ameaça terrorista para “grave”, dado o risco que representam os combatentes radicais de origem britânica que regressam do Iraque e da Síria com experiência de combate.
As medidas reforçadas incluem a possibilidade de polícia confiscar o passaporte a suspeitos de terrorismo, o fornecimento atempado, pelas companhias aéreas, das listas de passageiros para identificar possíveis extremistas e a proibição de entrada no território de ‘jihadistas’ que tenham viajado para o estrangeiro.
Cameron sublinhou que a ameaça que “a barbárie” do Estado Islâmico representa exige uma “resposta firme”, com dois objectivos: evitar que extremistas viagem para o estrangeiro e actuar contra os que se encontram dentro do país.
As autoridades britânicas vão também ter reforçados os poderes para aplicar medidas preventivas de restrição da liberdade de movimentos de presumíveis terroristas que permitam impor um regime de recolher obrigatório e vigilância.
Segundo o governo britânico, pelo menos 500 britânicos são suspeitos de integrarem as fileiras dos ‘jihadistas’ que combatem na Síria e no Iraque, 250 dos quais já terão regressado ao Reino Unido. " Jornal i

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Em Setembro

A Apanha do sargaço ( 1884)  de Silva Porto

Na década de setenta,  dois grandes compositores juntaram-se e compuseram  uma canção que se transformou num sucesso: " C'est en Septembre" para Gilbert Bécaud e "September Morn" para Neil Diamond. 
Setembro chegou .Tempo para  re) escutar  esta bela canção.
- Gilbert Bécaud:

C'est en Septembre

Les oliviers baissent les bras
Les raisins rougissent du nez
Et le sable est devenu froid
Oh blanc soleil
Maitres baigneurs et saisonniers
Retournent à leurs vrais métiers
Et les santons seront sculptés
Avant Noël

C'est en septembre
Quand les voiliers sont dévoilés
Et que la plage, tremblent sous l'ombre
D'un automne débronzé
C'est en septembre
Que l'on peut vivre pour de vrai

En été mon pays à moi
En été c'est n'importe quoi
Les caravanes le camping-gaz
Au grand soleil
La grande foire aux illusions
Les slips trop courts, les shorts trop longs
Les hollandaises et leurs melons
De cavaillon

C'est en septembre
Quand l'été remet ses souliers
Et que la plage est comme un ventre
Que personne n'a touché
C'est en septembre
Que mon pays peut respirer

Pays de mes jeunes années
Là où mon père est enterré
Mon école était chauffée
Au grand soleil
Au mois de mai, moi je m'en vais
Et je te laisse aux étrangers
Pour aller faire l'étranger moi-même
Sous d'autres ciels

Mais en septembre
Quand je reviens où je suis né
Et que ma plage me reconnaît
Ouvre des bras de fiancée
C'est en septembre
Que je me fais la bonne année

C'est en septembre
Que je m'endors sous l'olivier


- Neil Diamond:

"September Morn"

Stay for just a while
Stay and let me look at you
It's been so long, I hardly knew you
Standing in the door

Stay with me a while
I only wanna talk to you
We've traveled halfway 'round the world
To find ourselves again

September morn
We danced until the night
Became a brand new day
Two lovers playing scenes
From some romantic play
September morning
Still can make me feel that way

Look at what you've done
Why, you've become a grown-up girl
I still can hear you crying
In a corner of your room
And look how far we've come
So far from where we used to be
But not so far that we've forgotten
How it was before

September morn
Do you remember
How we danced that night away
Two lovers playing scenes
From some romantic play
September morning
Still can make me feel that way

September morn
We danced until the night
Became a brand new day
Two lovers playing scenes
From some romantic play
September morning
Still can make me feel that way

September morn
We danced until the night
Became a brand new day
Two lovers playing scenes
From some romantic play
September morning
Still can make me feel that way
September morning
Still can make me feel that way