quarta-feira, 19 de novembro de 2014

O imperativo categórico

A ética de Kant
Por James Rachels
"Como muitos outros filósofos, Kant pensava que a moralidade pode resumir-se num princípio fundamental, a partir do qual se derivam todos os nossos deveres e obrigações. Chamou a este princípio “imperativo categórico”. Na Fundamentação da Metafísica dos Costumes (1785) exprimiu-o desta forma:
Age apenas segundo aquela máxima que possas ao mesmo tempo desejar que se torne lei universal.
No entanto, Kant deu igualmente outra formulação do imperativo categórico. Mais adiante, na mesma obra, afirmou que se pode considerar que o princípio moral essencial afirma o seguinte:
Age de tal forma que trates a humanidade, na tua pessoa ou na pessoa de outrem, sempre como um fim e nunca apenas como um meio.
Os estudiosos têm-se perguntado desde então por que razão pensava Kant que estas duas regras são equivalentes. Parecem exprimir concepções morais diferentes. Serão, como Kant pensava aparentemente, duas versões da mesma ideia básica, ou são simplesmente ideias diferentes? Não nos vamos deter nesta questão. Vamos, em vez disso, concentrar-nos na crença de Kant de que a moralidade exige que tratemos as pessoas “sempre como um fim e nunca apenas como um meio”. O que significa exactamente isto, e que razão há para pensar que é verdade?
Quando Kant afirmou que o valor dos seres humanos “está acima de qualquer preço” não tinha em mente apenas um efeito retórico, mas sim um juízo objectivo sobre o lugar dos seres humanos na ordem das coisas. Há dois factos importantes sobre as pessoas que apoiam, do seu ponto de vista, este juízo.
Primeiro, uma vez que as pessoas têm desejos e objectivos, as outras coisas têm valor para elas em relação aos seus projectos. As meras “coisas” (e isto inclui os animais que não são humanos, considerados por Kant incapazes de desejos e objectivos conscientes) têm valor apenas como meios para fins, sendo os fins humanos que lhes dão valor. Assim, se quisermos tornar-nos melhores jogadores de xadrez, um manual de xadrez terá valor para nós; mas para lá de tais objectivos o livro não tem valor. Ou, se quisermos viajar, um carro terá valor para nós; mas além de tal desejo o carro não tem valor.
Segundo, e ainda mais importante, os seres humanos têm “um valor intrínseco, isto é, dignidade”, porque são agentes racionais, ou seja, agentes livres com capacidade para tomar as suas próprias decisões, estabelecer os seus próprios objectivos e guiar a sua conduta pela razão. Uma vez que a lei moral é a lei da razão, os seres racionais são a encarnação da lei moral em si. A única forma de a bondade moral poder existir é as criaturas racionais apreenderem o que devem fazer e, agindo a partir de um sentido de dever, fazê-lo. Isto, pensava Kant, é a única coisa com “valor moral”. Assim, se não existissem seres racionais a dimensão moral do mundo simplesmente desapareceria.
Não faz sentido, portanto, encarar os seres racionais apenas como um tipo de coisa valiosa entre outras. Eles são os seres para quem as meras “coisa” têm valor, e são os seres cujas acções conscientes têm valor moral. Kant conclui, pois, que o seu valor tem de ser absoluto, e não comparável com o valor de qualquer outra coisa.
Se o seu valor está “acima de qualquer preço”, segue-se que os seres racionais têm de ser tratados “sempre como um fim e nunca apenas como um meio”. Isto significa, a um nível muito superficial, que temos o dever estrito de beneficência relativamente às outras pessoas: temos de lutar para promover o seu bem-estar; temos de respeitar os seus direitos, evitar fazer-lhes mal, e, em geral, “empenhar-nos, tanto quanto possível, em promover a realização dos fins dos outros”.
Mas a ideia de Kant tem também uma implicação um tanto ou quanto mais profunda. Os seres de que estamos a falar são racionais, e “tratá-los como fins em si” significa respeitar a sua racionalidade. Assim, nunca podemos manipular as pessoas, ou usá-las, para alcançar os nossos objectivos, por melhores que esses objectivos possam ser. Kant dá o seguinte exemplo, semelhante a outro que utiliza para ilustrar a primeira versão do seu imperativo categórico: suponha que precisa de dinheiro e quer um empréstimo, mas sabe que não será capaz de devolvê-lo. Em desespero, pondera fazer uma falsa promessa de pagamento de maneira a levar um amigo a emprestar-lhe o dinheiro. Poderá fazer isso? Talvez precise do dinheiro para um propósito meritório — tão bom, na verdade, que poderia convencer-se a si mesmo de que a mentira seria justificada. No entanto, se mentisse ao seu amigo, estaria apenas a manipulá-lo e a usá-lo “como um meio”.
Por outro lado, como seria tratar o seu amigo “como um fim”? Suponha que dizia a verdade, que precisava do dinheiro para um certo objectivo mas não seria capaz de devolvê-lo. O seu amigo poderia, então, tomar uma decisão sobre o empréstimo. Poderia exercer os seus próprios poderes racionais, consultar os seus próprios valores e desejos, e fazer uma escolha livre e autónoma. Se decidisse de facto emprestar o dinheiro para o objectivo declarado, estaria a escolher fazer seu esse objectivo. Dessa forma, o leitor não estaria a usá-lo como um meio para alcançar o seu objectivo, pois seria agora igualmente o objectivo dele. É isto que Kant queria dizer quando afirmou que “os seres racionais […] têm sempre de ser estimados simultaneamente como fins, isto é, somente como seres que têm de poder conter em si a finalidade da acção”.
A concepção kantiana da dignidade humana não é fácil de entender; é provavelmente a noção mais difícil discutida neste livro. Precisamos de encontrar uma forma de tornar a ideia mais clara. (...) Kant pensava que se tomarmos a sério a ideia da dignidade humana seremos capazes de entender a prática da punição de crimes de uma forma nova e reveladora. "James Rachels, in “ Elementos de Filosofia Moral” Gradiva, Lisboa  2004

terça-feira, 18 de novembro de 2014

Kalinine, a cidade de Kant

Alain descobre a ternura desconhecida de Estaline
" Quando ao fim de uma semana Alain reviu os seus companheiros numa tasca ( ou em casa de Charles, já não sei), interrompeu-lhes de imediato a tagarelice:
- Queria dizer-vos que para mim não é de todo inexplicável que Estaline tenha dado o nome de Kalinine à célebre  cidade de Kant. Não sei que explicações vocês terão podido encontrar, mas eu não vejo senão esta: Estaline sentia uma excepcional ternura por Kalinine.
A surpresa jovial que leu nos rostos dos amigos agradou-lhe e até o inspirou:
- Eu sei, eu sei... A palavra ternura não condiz com a reputação de Estaline, é o Lucifer do século, eu sei, a sua vida foi preenchida por conspirações, traições, guerras, prisões, assassinatos, massacres. Não o contesto; pelo contrário, quero mesmo sublinhá-lo para que se torne evidente, com a maior clareza, que , diante desse imenso peso de crueldades que ele devia suportar, cometer e viver, lhe seria impossível dispor de uma quantidade igualmente imensa de compaixão. Isso teria ultrapassado as capacidades humanas! Para poder viver a sua vida tal como era, ele não poderia senão anestesiar, e depois esquecer completamente a sua faculdade de se condoer. Mas face a Kalinine, nessas pequenas pausas distantes dos massacres, nesses doces momentos de um repouso tagarela, tudo mudava: era confrontado com uma dor totalmente diferente, uma dor pequena, concreta, individual, compreensível. Olhava o camarada sofredor e, com um doce espanto, sentia revelar-se em si um sentimento fraco, modesto, quase desconhecido, em todo o caso esquecido: o amor por um homem que sofre. Na sua vida feroz, este momento era como uma trégua. A ternura aumentava no coração de Estaline ao mesmo ritmo que a pressão da urina na bexiga de Kalinine. A redescoberta de um sentimento que há muito tempo cessara de experimentar era para ele de uma indizível beleza.
 " É aí - continuou Alain - que vejo a única explicação possível para este curioso rebaptismo de Königsberg como Kaliningrado. Isso passou-se trinta anos antes do meu nascimento, e no entanto posso imaginar a situação: terminada a guerra, os russos agregaram ao seu império uma célebre cidade alemã e foram obrigados  a russificá-la através de um nome novo. E não um nome qualquer! Era preciso que o rebaptismos se apoiasse sobre um nome famoso em todo o planeta e cujo estrondo fizesse calar os inimigos! Esses grandes nomes, os russos têm-nos amplamente! Catarina, a Grande! Pushkin! Tchaikovsky! Tolstoi! E não falo dos generais que venceram Hitler e que , nessa época, eram adulados por toda a parte! Como compreender então que Estaline tivesse escolhido o nome de alguém tão destituído? Que tivesse tomado uma decisão tão evidentemente idiota? Para isso não podem existir senão razões íntimas e secretas. E nós conhecemo-las: ele pensa com ternura no homem que sofreu por ele, diante dos seus olhos, e quer agradecer-lhe pela sua fidelidade, premiá-lo pela sua dedicação. Se não me engano - Ramon, podes corrigir-me! -, durante este breve momento da História, Estaline é o homem de Estado mais poderoso do mundo e sabe-o. Experimenta uma alegria maliciosa por ser, entre todos os presidentes e réis, o único que pode estar-se nas tintas para a seriedade dos grandes gestos políticos cinicamente calculados, o único que pode permitir-se tomar uma decisão absolutamente pessoal, caprichosa, irracional, esplendidamente bizarra, soberbamente absurda,
Sobre a mesa exibia-se uma garrafa aberta de vinho tinto. O copo de Alain estava já vazio; encheu-o e continuou:
- Ao contá-la agora diante de vós, vejo nesta história um sentido cada vez mais profundo. - Engoliu um gole, e depois continuou: - Sofrer para não sujar as cuecas... Ser o mártir da limpeza...Combater a urina que nasce, que cresce, que avança, que ameaça, que ataca, que mata...Existirá um heroísmo mais prosaico e mais humano? Estou-me  nas tintas para os supostos grandes homens cujos nomes coroam as nossas ruas. Tornaram-se célebres graças às suas ambições , à sua vaidade, às suas mentiras, à sua crueldade. Kalinine é o único cujo nome permanecerá na memória como recordação de um sofrimento que todos os seres humanos conheceram, como recordação de um combate desesperado que não causou tristeza a ninguém excepto a ele mesmo.
Acabou o seu discurso e todos ficaram comovidos. Após um silêncio. Ramon disse;
- Tens toda a razão, Alain. Depois da minha morte, quero despertar de dez em dez  anos para verificar se Kaliningrad permanece Kalinigrad. Enquanto for esse o caso, poderei experimentar um pouco de solidariedade com a humanidade e, reconciliado com ela, tornar a baixar ao meu túmulo." Milan Kundera, in " A Festa da Insignificância", Publicações Dom Quixote, Outubro de 2014
Sobre o livro: " Milan Kundera volta ao romance depois de treze anos.
Lançar luz sobre os problemas  mais sérios e, ao mesmo tempo, não proferir uma única frase séria, estar fascinado pela realidade do mundo contemporâneo e , ao mesmo tempo evitar qualquer realismo, eis A Festa da Insignificância.
A insignificância, meu amigo, é a essência da existência. está connosco sempre e em toda a parte. Está presente mesmo onde ninguém a quer ver : nos horrores, nas lutas sangrentas, nas piores infidelidades. Exige-se-nos muitas vezes coragem para a reconhecer em condições tão dramáticas e para a chamar pelo seu nome.. Mas não se trata  apenas de a reconhecer, é preciso  amá-la, à insignificância, é preciso aprender a amá-la. 
  NA Festa da Insignificância, Kundera coloca em cena quatro amigos parisienses que vivem numa deriva inócua, característica de uma existência contemporânea esvaziada de sentido."

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Estratégias de Manipulação

Noam Chomsky e as 10 Estratégias de Manipulação dos Media
A manipulação existe e aumenta voraz e multiforme. Os Media são o seu melhor veículo.
Avram Noam Chomsky , linguista, filósofo e activista político norte-americano, professor de Linguística , elaborou a lista das “10 estratégias de manipulação” através dos Media:
"1- A ESTRATÉGIA DA DISTRACÇÃO.
O elemento primordial do controle social é a estratégia da distracção que consiste em desviar a atenção do público dos problemas importantes e das mudanças decididas pelas elites políticas e económicas, mediante a técnica do dilúvio ou inundações de contínuas distracções e de informações insignificantes. A estratégia da distracção é igualmente indispensável para impedir ao público de interessar-se pelos conhecimentos essenciais, na área da ciência, da economia, da psicologia, da neurobiologia e da cibernética. “Manter a atenção do público distraída, longe dos verdadeiros problemas sociais, cativada por temas sem importância real. Manter o público ocupado, ocupado, ocupado, sem nenhum tempo para pensar; de volta à granja como os outros animais (citação do texto ‘Armas silenciosas para guerras tranquilas’)”.
2- CRIAR PROBLEMAS, DEPOIS OFERECER SOLUÇÕES.
Este método também é chamado “problema-reacção-solução”. Cria-se um problema, uma “situação” prevista para causar certa reacção no público, a fim de que este seja o mandante das medidas que se deseja fazer aceitar. Por exemplo: deixar que se desenvolva ou se intensifique a violência urbana, ou organizar atentados sangrentos, a fim de que o público seja o mandante de leis de segurança e políticas em prejuízo da liberdade. Ou também: criar uma crise económica para fazer aceitar como um mal necessário o retrocesso dos direitos sociais e o desmantelamento dos serviços públicos.
3- A ESTRATÉGIA DA GRADAÇÃO.
Para fazer com que se aceite uma medida inaceitável, basta aplicá-la gradativamente, a conta-gotas, por anos consecutivos. É dessa maneira que condições socioeconómicas radicalmente novas (neoliberalismo) foram impostas durante as décadas de 1980 e 1990: Estado mínimo, privatizações, precariedade, flexibilidade, desemprego em massa, salários que já não asseguram ingressos decentes, tantas mudanças que haveriam provocado uma revolução se tivessem sido aplicadas de uma só vez.
4- A ESTRATÉGIA DO DEFERIDO.
Outra maneira de se fazer aceitar uma decisão impopular é a de apresentá-la como sendo “dolorosa e necessária”, obtendo a aceitação pública, no momento, para uma aplicação futura. É mais fácil aceitar um sacrifício futuro do que um sacrifício imediato. Primeiro, porque o esforço não é empregado imediatamente. Em seguida, porque o público, a massa, tem sempre a tendência a esperar ingenuamente que “tudo irá melhorar amanhã” e que o sacrifício exigido poderá ser evitado. Isto dá mais tempo ao público para acostumar-se com a ideia de mudança e de aceitá-la com resignação quando chegar o momento.
5- DIRIGIR-SE AO PÚBLICO COMO CRIANÇAS DE BAIXA IDADE.
A maioria da publicidade dirigida ao grande público utiliza discurso, argumentos, personagens e entonação particularmente infantis, muitas vezes próximos à debilidade, como se o espectador fosse um menino de baixa idade ou um deficiente mental. Quanto mais se intente buscar enganar ao espectador, mais se tende a adoptar um tom infantilizante. Porquê? “Se você se dirige a uma pessoa como se ela tivesse a idade de 12 anos ou menos, então, em razão da sugestão, ela tenderá, com certa probabilidade, a uma resposta ou reacção também desprovida de um sentido crítico como a de uma pessoa de 12 anos ou menos de idade (ver “Armas silenciosas para guerras tranquilas”)”.
6- UTILIZAR O ASPECTO EMOCIONAL MUITO MAIS DO QUE A REFLEXÃO.
Fazer uso do aspecto emocional é uma técnica clássica para causar um curto circuito na análise racional, e por fim ao sentido critico dos indivíduos. Além do mais, a utilização do registo emocional permite abrir a porta de acesso ao inconsciente para implantar ou enxertar ideias, desejos, medos e temores, compulsões, ou induzir comportamentos…
7- MANTER O PÚBLICO NA IGNORÂNCIA E NA MEDIOCRIDADE.
Fazer com que o público seja incapaz de compreender as tecnologias e os métodos utilizados para seu controle e sua escravidão. “A qualidade da educação dada às classes sociais inferiores deve ser a mais pobre e medíocre possível, de forma que a distância da ignorância que paira entre as classes inferiores às classes sociais superiores seja e permaneça impossível para o alcance das classes inferiores (ver ‘Armas silenciosas para guerras tranquilas’)”.
8- ESTIMULAR O PÚBLICO A SER COMPLACENTE NA MEDIOCRIDADE.
Promover ao público a achar que é moda o facto de ser estúpido, vulgar e inculto…
9- REFORÇAR A REVOLTA PELA AUTOCULPABILIDADE.
Fazer o indivíduo acreditar que é somente ele o culpado pela sua própria desgraça, por causa da insuficiência de sua inteligência, de suas capacidades, ou de seus esforços. Assim, ao invés de rebelar-se contra o sistema económico, o individuo se auto-desvalida e culpa-se, o que gera um estado depressivo do qual um dos seus efeitos é a inibição da sua acção. E, sem acção, não há revolução!
10- CONHECER MELHOR OS INDIVÍDUOS DO QUE ELES MESMOS SE CONHECEM.
No transcorrer dos últimos 50 anos, os avanços acelerados da ciência têm gerado crescente brecha entre os conhecimentos do público e aquelas possuídas e utilizadas pelas elites dominantes. Graças à biologia, à neurobiologia e à psicologia aplicada, o “sistema” tem desfrutado de um conhecimento avançado do ser humano, tanto de forma física como psicologicamente. O sistema tem conseguido conhecer melhor o indivíduo comum do que ele mesmo conhece a si mesmo. Isto significa que, na maioria dos casos, o sistema exerce um controle maior e um grande poder sobre os indivíduos do que os indivíduos a si mesmos.” Noam Chomsky


domingo, 16 de novembro de 2014

Ao Domingo Há Música

Amanhecer no rio Arade ( P.Rocha)
                                                            
                                                           " A música acontece quando o silêncio explode"
                                                                                                  Anónimo

A música é sempre uma fonte de inspiração para dar ao dia mais cor, mais brilho, mais luz e o mais  que, no momento, aspiramos...
Nem sempre nos falha a alegria. Nem sempre a tristeza nos quer tomar. Nem sempre o sol brilha. Nem sempre a chuva fustiga. Nem sempre o vento magoa . Nem sempre  a neve entorpece. Nem sempre. 
Tudo muda . Não por  nós, mas em nós. E de nós para nós. 
Deixar os acordes sorrir. Permitir  ao ritmo entrar.  Ceder ao fascínio das vozes. Sucumbir à sedução da melodia  é criar o tal  momento que transforma o dia. 
Que seja assim . 
E que assim seja com as três obras que têm em comum o virtuosismo de Chris Botti no trompete.

- " The look of love" na voz de Paula Cole,  acompanhada pelo autor da canção, Burt Bacharach,   e por Chris Botti , em Los Angeles , 2005. 


- "A  song for you" por Michael Bublé e Chris Botti.


- A espantosa voz de Barbra Streisand e o trompete de Chris Botti,  em "What I'II do my funny Valentine"

sábado, 15 de novembro de 2014

Direi que vivi

O QUE DIREI

Direi que nasci
se fores água
em minha boca desaguada.

Direi que cheguei
se o teu peito
em mim abrir o seu leito.

O rio se espraia
para se perder do chão,
e eu de mim saberei
quando me afogar na tua mão.

Direi, então, que vivi
sem precisar de ter nascido.

Mia Couto, in " Lumes, em  vagas e lumes" , Editorial Caminho, Outubro de 2014
Egoísmo

Que me importa
amor
que seja dia
ou que seja noite iluminada


Que me importa
amor
que seja a chuva
ou um novelo de paz a madrugada


Que me importa
amor
que seja o vento
ou a flor o fogo mais aceso


Que me importa
amor
que seja a raiva


Que me importa
amor
que seja o medo


Maria Teresa Horta, in «MINHA SENHORA DE MIM», Editorial Futura, Lisboa 1974

A indiferença pode matar

A indiferença perante a violência doméstica
“Uma experiência sociológica realizada por um colectivo sueco veio revelar a indiferença das pessoas quando se deparam com uma situação em que uma mulher está a ser vítima de violência física e verbal. Veja o vídeo:

A organização sueca STHLM Panda filmou, com recurso a uma câmara oculta, dois casais em elevadores com mais pessoas.
A dado momento, os casais começam a discutir. Em todos os casos, a discussão vai subindo de tom, com as duas mulheres a serem vítimas de violência verbal e física.
O vídeo publicado no Youtube mostra que quase todas as pessoas que partilham o elevador com os dois casais reagiram passivamente, limitando-se a mostrar algum incómodo e impaciência para sair do elevador.
Apenas uma mulher, entre as 53 pessoas que presenciaram as discussões dos casais, interveio e avisou o homem: "Vou chamar a polícia se lhe tocar novamente". Todas as outras pessoas ignoraram a discussão e saíram do elevador sem comentar.
Uma outra mulher só reage para fazer um pedido ao casal: "Desculpe, pode deixar-me sair daqui antes de fazer isso".
Numa das situações, a mulher é empurrada pelo companheiro contra a parede e agarrada pelo pescoço. Em outra, o homem parece que vai bater na companheira, ameaçando-a, de forma audível, de morte.
Citado pelo "The Independent", Konrad Ydhage, co-criador do STHLM Panda, afirmou que realizou esta experiência para aumentar a consciencialização sobre a violência doméstica e para ver se as pessoas iam intervir "quando realmente era necessário".
"Falamos depois com quase todas as pessoas que estiveram no elevador. A maioria disse que sentia vergonha por não ter reagido e disse que estava contente por ser uma experiência", disse Konrad Ydhage.
"Algumas pessoas afirmaram que iam chamar a polícia, mas pensamos que isso é mentira. Filmamos durante dois dias e a polícia nunca apareceu", concluiu.
Um estudo da Agência dos Direitos Fundamentais (FRA, na sigla em inglês), o maior sobre violência de género alguma vez realizado na União Europeia (UE), com 42 mil inquiridas (entre as quais 1.500 portuguesas) nos 28 Estados-membros, concluiu que uma em cada três mulheres europeias foi ou será vítima de pelo menos um episódio de abuso sexual, físico ou psicológico.
No início deste mês, e por ocasião das III Jornadas Nacionais Contra a Violência Doméstica e de Género, a secretária de Estado da Igualdade portuguesa, Teresa Morais, afirmou que a comunidade deve despertar para o problema da violência doméstica e denunciar estes casos, que constituem "uma grosseira e grave violação" dos direitos humanos.
Na mesma ocasião, Teresa Morais lembrou as mulheres assassinadas em contexto familiar, que este ano já eram 32.
Citando os dados do Relatório Anual da Segurança Interna, a secretária de Estado dos Assuntos Parlamentares e da Igualdade referiu ainda que, em 2013, houve 40 homicídios conjugais, dos quais 30 foram de mulheres.” JN, 14.11.2014 - 21:36

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Morreu um poeta: Manoel de Barros

 O poeta Manoel de Barros morreu nesta quinta-feira, aos 97 anos
"RIO — O escritor cuiabano Manoel de Barros morreu nesta quinta-feira, aos 97 anos. Foi internado no dia 24 de Outubro no Proncor, em Campo Grande (MS). De acordo com o boletim médico assinado pela doutora Carmelita Vilela, o falecimento ocorreu às 8h05m, por falência múltipla dos órgãos.  O escritor completaria 98 anos em 19 de Dezembro.
Mesmo sendo considerado um dos maiores autores brasileiros, sua reclusão por tantas décadas em terras pantaneiras e a timidez acabaram dificultando a divulgação de sua obra. Nos anos 1980, admiradores famosos de seus versos, como Millôr Fernandes e Antônio Houaiss, começaram a divulgar poemas de Manoel de Barros, ou a citá-lo em colunas de jornais.O filólogo, que admirava o poeta desde o seu primeiro livro, via nele um “visionário da humildade e solidariedade humanas”. Já Carlos Drummond de Andrade chegou a declarar que o cuiabano era o “maior poeta brasileiro” vivo. O sucesso do filme “Caramujo-flor” (1989), do cineasta sul-matogrossense Joel Pizzini, ensaio visual baseado na vida e na obra de Manoel, também responsável pelo reconhecimento tardio.
Com tantos elogios, Manoel começou a chamar atenção das editoras e do público. Ganhou dois prémios Jabutis (por “O guardador de águas”, em 1989, e “O fazedor do amanhecer”, em 2002) e teve livros publicados em Portugal, França, Espanha e Estados Unidos. Em 1998, recebeu o Prémio Nacional de Literatura do Ministério da Cultura, pelo conjunto do seu trabalho.
A sua obra mais conhecida é “O livro sobre o nada”, lançada em 1996, no qual aperfeiçoou o seu autodeclarado “idioleto manoelês archaico” — uma linguagem própria criada para transmitir o desregramento dos sentidos. O autor, contudo, considerava seu primeiro livro, “Poemas concebidos sem pecado”, de 1937, o melhor.
(...)Em 1998, o autor explicou seu processo de escrita em entrevista ao GLOBO:
— Eu estou trabalhando com a palavra e aí me vem uma ideia. E por isso não acredito em inspiração, acredito em trabalho.Mas sei também que transformar palavra em verso, combinar o ritmo com a ressonância verbal, é um dom linguístico. Tenho frases poéticas que são versos. Sei fazer frases."
RS Rio de Janeiro (RJ) 26/01/2010 Filme "só 10% é mentira".
Foto Divulgação
 - Terceiro / Agência O Globo
No documentário “Só dez por cento é mentira”, lançado em 2008 por Pedro Cezar, ao ser indagado sobre como gostaria de ser lembrado, Manoel ri, coça o peito, diz que a pergunta é cruel; já mais sério, fala que o único jeito é pela poesia. “A gente nasce, cresce, amadurece, envelhece, morre. Pra não morrer, tem que amarrar o tempo no poste. Eis a ciência da poesia: amarrar o tempo no poste”. Jornal Globo

Retrato do Artista Quando Coisa
A maior riqueza
do homem
é sua incompletude.
Nesse ponto
sou abastado.
Palavras que me aceitam
como sou
— eu não aceito.
Não aguento ser apenas
um sujeito que abre
portas, que puxa
válvulas, que olha o
relógio, que compra pão
às 6 da tarde, que vai
lá fora, que aponta lápis,
que vê a uva etc. etc.
Perdoai. Mas eu
preciso ser Outros.
Eu penso
renovar o homem
usando borboletas.

Manoel de Barros,in "Poesia Completa Bandeira”, editora Leya

O livro sobre nada
É mais fácil fazer da tolice um regalo do que da sensatez.
Tudo que não invento é falso.
Há muitas maneiras sérias de não dizer nada, mas só a poesia é verdadeira.
Tem mais presença em mim o que me falta.
Melhor jeito que achei pra me conhecer foi fazendo o contrário.
Sou muito preparado de conflitos.
Não pode haver ausência de boca nas palavras: nenhuma fique desamparada do ser que a revelou.
O meu amanhecer vai ser de noite.
Melhor que nomear é aludir. Verso não precisa dar noção.
O que sustenta a encantação de um verso (além do ritmo) é o ilogismo.
Meu avesso é mais visível do que um poste.
Sábio é o que adivinha.
Para ter mais certezas tenho que me saber de imperfeições.
A inércia é meu ato principal.
Não saio de dentro de mim nem pra pescar.
Sabedoria pode ser que seja estar uma árvore.
Estilo é um modelo anormal de expressão: é estigma.
Peixe não tem honras nem horizontes.
Sempre que desejo contar alguma coisa, não faço nada; mas quando não desejo contar nada, faço poesia.
Eu queria ser lido pelas pedras.
As palavras me escondem sem cuidado.
Aonde eu não estou as palavras me acham.
Há histórias tão verdadeiras que às vezes parece que são inventadas.
Uma palavra abriu o roupão pra mim. Ela deseja que eu a seja.
A terapia literária consiste em desarrumar a linguagem a ponto que ela expresse nossos mais fundos desejos.
Quero a palavra que sirva na boca dos passarinhos.
Esta tarefa de cessar é que puxa minhas frases para antes de mim.
Ateu é uma pessoa capaz de provar cientificamente que não é nada. Só se compara aos santos. Os santos querem ser os vermes de Deus.
Melhor para chegar a nada é descobrir a verdade.
O artista é erro da natureza. Beethoven foi um erro perfeito.
Por pudor sou impuro.
O branco me corrompe.
Não gosto de palavra acostumada.
A minha diferença é sempre menos.
Palavra poética tem que chegar ao grau de brinquedo para ser séria.
Não preciso do fim para chegar.
Do lugar onde estou já fui embora.

Manoel de Barros, in "Poesia Completa Bandeira”, editora Leya

O apanhador de desperdícios

Uso a palavra para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras
fatigadas de informar.
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água pedra sapo.
Entendo bem o sotaque das águas
Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim um atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos
como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato
de canto.
Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor meus silêncios.

Manoel de Barros, in "Poesia Completa Bandeira”, editora Leya

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Recordar Lou Reed

Lou Reed 
"Lançou alguns dos mais respeitados trabalhos da história do rock, viveu em cima do palco, mas nunca embarcou no circo mediático que acompanha esta cultura. O "génio eléctrico" deixou-nos a 27 de Outubro de 2013. Recorde-o aqui.
Em 1990, Lou Reed recordou o princípio de tudo quando questionado por Christian Fevret, da revista francesa Les Inrockuptibles: "aprendi a tocar piano clássico quando era miúdo. Tinha jeito, mas não gostava muito. Pus-me depois a ouvir discos na rádio e foi então que quis ter uma guitarra eléctrico, que os meus pais me ofereceram. Arranjaram-me um professor que me queria ensinar pelo método de um livro. Eu dizia-lhe: "Não, não, não, ensina-me antes a tocar este disco!". "Mas isso só tem três acordes", respondia-me ele. "Ok, então ensina-me esses três acordes". Ensinou-mos e eu fui-me embora e nunca mais tive lições".
Lou ingressou na universidade de Syracuse em 1960 para estudar jornalismo, realização cinematográfica e escrita criativa. No ano seguinte, começou a fazer rádio numa estação chamada WAER. Excursions on a Wobbly Rail, programa cujo título se inspirava num tema do pianista de jazz de vanguarda Cecil Taylor, misturava jazz avançado, rhythm'n'blues e rock and roll e que funcionou como uma verdadeira escola para Reed. Por outro lado, o aspirante músico haveria de ter aulas com Delmore Schwartz, a inspiração de "European Son", do primeiro álbum dos Velvet Underground. Rock and roll e literatura séria, as duas mais fortes influências de um homem que em 1979 confessou as suas ambições ao jornalista do New Musical Express, Paul Morley: "não sei se as minhas expectativas são muito altas, sei que são muito difíceis. Quero ser o maior escritor que alguma vez viveu nesta terra de Deus. Falo de Shakespeare, Dostoiévski... Quero ser um escritor que faça rock and roll que se possa comparar a Os Irmãos Karamazov... quero começar a construir um corpo de obras. Sei que posso soar pretensioso e é por isso que normalmente nem digo nada. Prefiro ficar calado".
Formado com distinção pela universidade de Syracuse em 1964, Reed mudou-se para Nova Iorque e não tardou a encontrar trabalho na Pickwick, uma editora de projetos "budget" que normalmente editava discos de imitação - era comum haver discos de imitações dos grupos e canções populares da época a um preço mais em conta do que os originais. "The Ostrich", uma canção que parodiava a mania das danças da época - como o twist, por exemplo - gerou alguma atenção. O grupo montado para tocar o tema, os Primitives, incluía o galês John Cale, que se encontrava em Nova Iorque para estudar com o compositor de vanguarda La Monte Young." Rui Miguel Abreu, Blitz

Leia mais: AQUI

Lou Reed, em " Perfect day"



Lou Reed , em " See that my grave is kept clean".


- Lou Reed, em "Sweet Jane"

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

As novas Memórias de Eugénio Lisboa

Escrever sobre Eugénio Lisboa ou sobre a sua obra é um exercício de grande coragem. Não pelo temor que possa advir desse acto, mas antes pela audácia de pretender analisar a escrita deste grande escritor, o maior crítico literário da actualidade. Não o pretendo fazer. Nomear Eugénio Lisboa  decorre do enorme prazer e privilégio que me confere a condição de leitora fiel.
Eugénio Lisboa acaba de publicar o volume IV das suas Memórias,“Acta est fabula, Memórias–IV-Peregrinação:Joanesburgo.Paris.Estocolmo.Londres.(1976-1995).
Transcrevemos,  em 27 de Outubro, as últimas páginas do volume III. Eugénio Lisboa fora obrigado a escolher uma nacionalidade, por imposição de uma lei absurda.  Num adeus pungente, partia da  sua terra natal, Lourenço Marques - Moçambique, para Joanesburgo - África do Sul. As primeiras páginas do novo tomo, (volume IV) , que vamos apresentar , dão continuidade a essa sofrida  e dilacerante despedida.  
Retomar a narração prodigiosa  destas Memórias continua a fazer-nos esquecer de que estamos perante um singular registo memorialístico , mas a descobrir, com autêntico fascínio , um excepcional romance de um fôlego intenso e brilhante

“(…) Moçambique, o que estava a verificar-se era um verdadeiro vento de loucura destruidora, que varria o pobre país onde eu nascera e, em grande parte, me fizera. As patacoadas aforísticas de Mao eram repetidas e aclamadas por gente supostamente culta e com obrigação de usar, com algum cuidado, os apetrechos críticos com que uma formação universitária alegadamente os equipara. Tudo isto passava no meu espírito exausto, a caminho de Joanesburgo, na tarde e na noite de viagem, de combóio, depois da dilacerante despedida, em Lourenço Marques. A viagem foi um autêntico pesadelo. A nossa gata, a esplendorosa “Generala”, reagiu mal à dose forte de tranquilizante que o veterinário lhe administrara, isto é, reagiu ao contrário: em vez de se acalmar e dormir, quase enlouqueceu de excitação e de medo: atirou-se desesperadamente à janela, querendo fugir, trepava, dementada, por todo o lado, miando lancinantemente e não se deixando agarrar. Dava gritos atrozes, que nos trespassavam. Ao fim de algumas horas, exausta, sossegou, por fim. Chegou a Joanesburgo, exangue e completamente desidratada. Tivemos de a levar a uma clínica, onde ficou internada durante alguns dias. Felizmente,  recuperou e voltou completamente à normalidade, ficando a residir, por algumas semanas, em casa dos nossos amigos Coombs, onde tinham ficado também, durante uns meses, a Geninha e a Manucha. Eu e a Antonieta hospedámo-nos, durante pouquíssimos dias, no “hotel President”, em plena baixa de Joanesburgo. Era um hotel sumptuoso e impessoal. Mas serviu para uma terapêutica de repouso, para nos refazermos dos últimos dias tumultuosos e desgastantes de Moçambique. Fruímos então uma paz, fisicamente agradável, mas um pouco inquietante. Os últimos dois anos, em Moçambique, tinham sido anos de emoções intensas e contraditórias: exaltação, receio, decepção, medo, rejeição… Vivêramo-los com intensidade, mesmo os sentimentos negativos e as amargas desilusões. O mundo ruíra, mas, mesmo o desmoronar, fora intenso e ocupara espaço emotivo dentro de nós. A paz que agora desfrutávamos contrastava demasiado com esse viver intenso, tornando-se desmobilizadora. O descanso tornava-se uma espécie de vazio. O sossego enfim alcançado era uma espécie de morte. Começávamos a experimentar uma estranha saudade: a saudade do perigo e da ameaça… No “hotel President” foi só o tempo de tratarmos de algumas pequenas coisas (papéis, dinheiro) e logo partimos para umas necessitadas e merecidas férias na Europa. Ia ser uma viagem, desde a partida, já sem o sabor das anteriores; nessas, partia-se de casa (Lourenço Marques) e regressava-se a casa: aos familiares e amigos. Agora, partíamos de terra estranha e regressaríamos a terra estranha, sem ter a quem contar, com alegria, o que tínhamos vivido na mítica Europa. Toda a magia da viagem tinha desaparecido.
(…)
Joanesburgo ( vista aérea)
A MORTE DO PAI
                                                      
Associer à l’image paternelle l’idée quotidienne  de cadavre,
c’était quelque chose de nouveau, de déroutant   […]
Son père, cette chose inanimée…
Roger Martin du Gard,“La Mort du Père”,in Les Thibault         
O tempo foi passando mas, em Junho, começou novo sobressalto. Mais ou menos em meados deste mês, minha mãe  telefonou-me de Lourenço Marques, dizendo-me que iam enviar o meu pai, de avião, para Joanesburgo. A arteriosclerose tomara conta dele, de forma profunda, tivera um AVC e encontrava-se  suficientemente mal para ter que vir a Joanesburgo ser visto e tratado como devia ser (o estado em que se encontrava o “hospital Miguel Bombarda”, depois da precipitada, absurda e criminosa “nacionalização” dos serviços de saúde, não era compatível com o tratamento decente que o estado do meu pai requeria).
Falei, em Joanesburgo, com o Dr. Alberto Reis Costa, excelente médico, filho do meu ex-professor de Francês, no liceu, e, já no aeroporto, a Maria Antonieta organizou, à pressa, a vinda de uma ambulância, porque ninguém nos tinha prevenido de que ia ser necessária. E foi ela que a acompanhou ao hospital, na cidade. O meu pai ficou ali cerca de uma semana, com momentos de lucidez e grandes períodos de confusão. Teve visitas de amigos e familiares, nessa altura a viverem em Joanesburgo, e, por momentos, animava-se a conversar e mesmo a galhofar. O Dr. Alberto Reis Costa, que acompanhava o caso, dizia-me que o coração se encontrava muito dilatado, mas que estava optimista quanto ao resultado. Meu pai falava em partir para Portugal, o que me parecia uma boa solução, embora quase inconcebível: o meu pai adoptara África muito mais profundamente do que eu, que lá nascera e a considerava minha, não pensando, nunca, em de lá sair… Depois de um domingo, com muitas visitas e bastante conversa bem disposta, já à noite, regressámos a casa, na hengilcon Avenue. Levávamos boas esperanças, depois da conversa com o Dr. Alberto Reis Costa. Deitámo-nos, descansados, embora, no fundo, sempre um pouco apreensivos. O que iria ser a vida dos meus pais, naquele Portugal desarrumado e inquieto, uma terra em que eles nunca tinham concebido viver? Onde? A reforma permitir-lhe-ia viver com um mínimo de conforto? Como poderia eu ajudá-los? Acabei por adormecer. Mas o sono não foi longo: de madrugada, acordou-me a campainha do telefone. Quase me parou o coração: àquela hora, numa terra em que eu conhecia tão pouca gente que me telefonasse, aquele toque de campainha era ominoso. Levantei o telefone, sentindo-me esvaziar por dentro: era alguém, do hospital, a anunciar o falecimento do meu pai. Ataque cardíaco. Porque o coração estava grande demais? Era, em qualquer dos casos, para mim, a confirmação de que prosseguia a débacle: primeiro, a desagregação do nosso mundo, em Lourenço Marques, agora, o desaparecimento daquela força da natureza, que fora o meu pai. Ele estivera sempre perto, prestável, mesmo quando eu estivera ausente, em Portugal, durante mais de sete anos. Era um apoio óbvio, forte, omnipresente. Podia-se contar com ele. Estava lá, sempre. Mas afinal, quebrara, partira, cedera, não aguentara mais. O meu pai, afinal, não era imortal! Enterrámo-lo em Joanesburgo – a ele, que vivera quase toda a sua vida em Moçambique, de norte a sul, de fora para dentro… Um enterro simples, acompanhado por quase ninguém – ele, que ajudara tanta gente, uns agora mortos, outros dispersos, outros a tratarem simplesmente da sua própria sobrevivência.Em Joanesburgo, improvavelmente, ficou. No estado em que estava tudo,em Moçambique, incluindo uma burocracia sufocante, incompetente e desconfiada, não quis sujeitar o caixão e o corpo do meu pai a humilhações desnecessárias. (A propósito de burocracias, não posso deixar de contar aqui o que se segue, até para manifestar, por escrito, a minha gratidão a quem a devo. Aqui vai. Não seria, em princípio, fácil, naquela altura, em Moçambique, ao meu pai, doente, deslocar-se  a Joanesburgo. Foi então que a nossa amiga Quina, mulher do Adrião Rodrigues, pôs o seu instinto fortemente imaginativo a funcionar. Dirigiu-se a um médico amigo, o Meneses, meu contemporâneo no liceu, que dirigia ou estava na direcção do hospital, em Lourenço Marques, pedindo-lhe que fabricasse uma autorização devidamente justificada para o meu pai ir tratar-se na África do Sul. O Meneses – todos os deuses do Olimpo lhe sejam propícios! – não hesitou. Dotado de sentido de humor e tendo, provavelmente, lido Kafka, redigiu uma autorização qualquer e, a seguir, encheu-a de tudo quanto eram carimbos, que andavam por cima das secretárias. Perante o espanto da Quina, explicou: “Estes tipos ficam impressionadíssimos com os carimbos. Têm por eles um grande respeito! Quantos mais, melhor! Dão um ar de grande venerabilidade ao papel…” E foi assim que o meu pai, grande e eficiente burocrata da administração dos CTT, em Moçambique, ficou a dever a sua rápida saída de Moçambique, à Quina, ao soberbo Meneses e, sobretudo, à indiscutível omnipotência do CARIMBO! Não lhe salvou a vida mas ajudou-o a tentá-lo! Fica aqui registada a minha imorredoira gratidão à inteligência kafkiana do meu amigo e ex-colega do liceu, Meneses!) Por um equívoco relativo à hora do funeral, a nossa amiga Val, apareceu em nossa casa, com um bonito ramo de flores, já depois de termos saído para o cemitério. O ramo ficou em casa: o meu pai já não precisava dele. Não foi um enterro religioso, porque o meu pai não era crente, como o não sou eu também. Sei, como ele sabia, que tudo acaba de vez, durando apenas um pouco mais na memória dos familiares e amigos. Os não-crentes são gente humilde, em termos de eternidade. Os dias que se seguiram ao falecimento de meu pai foram dias sombrios. Pouco depois, fui a Lourenço Marques, com o fim de dar apoio a minha mãe e ver como estavam as coisas com ela, relativamente à sua anunciada ida para Portugal. À chegada ao aeroporto de Mavalane, em Lourenço Marques, deu-se uma cena curiosa. Como tinha passaporte português, fui para a fila dos estrangeiros. O moço africano que me atendeu, reconheceu o meu nome, sorriu, mas fez um ar embaraçado… “O Sr. Engenheiro não é estrangeiro… A gente não pode tratá-lo como estrangeiro…” Observei-lhe que era uma pura questão administrativa, sem grande importância… Tendo eu passaporte português, era estrangeiro para todos os efeitos. Não havia qualquer problema. Não cedeu: “Não, não podemos tratá-lo como estrangeiro…” A fila atrás de mim crescia… Acabou, em desespero, por ir falar com um superior seu, para lhe manifestar o seu desconforto, pelo facto indelicado de eu poder ser tratado como estrangeiro, enfiado numa fila que nada tinha a ver comigo. Em suma, para ele, eu era reconhecidamente moçambicano, por mais que o passaporte dissesse o contrário… O chefe dele pareceu partilhar do desconforto e acenou com a cabeça, compreendendo o embaraço. Eu, por um lado, estava comovido com tanta subtileza de sensibilidade da parte daqueles meus patrícios, por outro lado, tinha pessoas à minha espera, lá fora, e aquela ternura moçambicana estava a atrasar-me a vida. Estava, em suma, comovido e impaciente, o que era terrivelmente ingrato da minha parte. Enfim, para resolver aquilo, pedi-lhes que se não preocupassem, que eu não ficava nada ferido com o tratamento, que gostava, na mesma, de Moçambique e que um papel não significava nada. O que valia eram os sentimentos. Não adiantou nada. Estavam mesmo dispostos a não me ferirem, custasse o que custasse! Foram ambos à procura de um chefe um bocadinho mais chefe, isto é um nadinha mais acima, na hierarquia, para verem se se podia arranjar uma solução para o embaraçoso problema: não estava certo eu ser recebido na minha terra, como estrangeiro! Não se fazia! Eram estes os meus moçambicanos genuínos, aqueles com quem tinha brincado, com quem tinha convivido e trabalhado. Estavam ali, no estado puro de seres humanos, com sensibilidade e sem ronha. Do melhor que havia! Porém, ao fim de um longo conciliábulo, acabaram, com grande tristeza, por ter que se resignar. Por mais absurdo que lhes parecesse – e, a mim, também parecia – naquela terra que era minha, de nascença e de ali me ter feito, eu era estrangeiro. E lá me deram, com relutância e montes de sorrisos apologéticos, os papéis a serem preenchidos por “estrangeiros”. Estrangeiro, na minha própria terra! Realmente, doía, mas doía menos, ao ver o esforço denodado daqueles funcionários para que me não doesse nada! Havia muita gente boa, naquela boa terra moçambicana, mas, infelizmente, não era necessariamente essa que detinha, de momento, as rédeas do poder. (A burocracia é quase sempre infernal, mas torna-se praticamente insuportável, quando, em nações emergentes, se pretende reorganizar, de alto a baixo e depressa. Dizia Petrónio – o impecável “árbitro das elegâncias” do tempo de Nero – que “viria a aprender, mais tarde, na vida, que tendemos sempre a encarar uma nova situação, reorganizando… e que método maravilhoso este pode ser, de criar a ilusão de progresso, do mesmo passo que se produz ineficiência e desorganização.” Que bem que esta luva assentava ao filme que se estava a desenrolar em Moçambique…E que bem nos serve, às vezes, a leitura dos clássicos!)

Enfim, fui deixar as malas no “hotel Polana”, onde iria ficar hospedado, por três ou quatro dias e, a seguir, fui ver a minha mãe, a tia Maria e as tias (irmãs do meu pai). Encontrei-as todas bastante abatidas, porque o meu pai fora sempre um esteio muito forte da família. A morte dele deixava-as como que num buraco: sem o meu pai e sem o Tio Tropa, falecido anos antes, o barco ficava sem “homem do leme”. Felizmente, para aqueles primeiros momentos de burocracia da morte – leia-se: “papelada” – havia a ajuda da Leonette e do marido, o Vasco, este último, bastante competente, na manipulação minuciosa dos labirintos kafkianos que a burocracia lusa sempre acarinhou. Senti-me transido, naquela Lourenço Marques, subitamente tão desfigurada, a meus olhos. Passei pela casa da Massano de Amorim, onde vivera tantas emoções de tanta natureza, tantas descobertas, tantos momentos de convívio bem aceso! Tornara-se, agora, uma casa morta, desabitada, despejada, anunciando ruina. As ruas eram as mesmas, mas já não eram as mesmas: tudo me parecia parado, inanimado, caricatura triste do que tinha sido bulício, noutro tempo. O poeta, romancista e contista Ernest Dowson, representante de um decadentismo literário, ficou célebre sobretudo por um verso e a metade de outro. O verso que, melancolicamente, gostaria de aqui recordar é este: “They are not long the days of wine and roses” (o meio verso – “gone with the wind” – seria aproveitado para título do romance de Margaret Mitchell, que o cinema celebrizaria). O verso que citei exprime, de modo agudo e de grande beleza sonora, o que eu senti, nesses três ou quatro dias em que divaguei pelas ruas de Lourenço Marques: “Não duram muito os dias de vinho e rosas”. E o meio verso – “gone with the wind” – diz o resto: tudo tinha ido com o vento, após um breve, ainda que intenso fulgor. Tinha de facto sido tudo tão bom e tão breve (o título do livro de Dowson, a que o verso pertence, é: Vitae Summa Brevis). Os dias de convívio, os dias de anos e de festa, os dias de criação literária, de praia, de amor e de amizade, os dias de vinho e rosas – tudo tinha fugido tão depressa, levado por um vento desatento e indiferente! E ali estava aquela carapaça grotesca, feita de casas desabitadas, de cariz cinzento, mortiço, despido de vida… Revi alguns amigos, algumas das minhas alunas, a Maria de Lourdes Cortez, o Adrião Rodrigues. Mas já nada sabia ao mesmo, porque já nada era o mesmo. Se, ao menos, os desapossados de antes, estivessem agora a trincar o seu justo quinhão e a serem finalmente livres e felizes… Mas estaria a ser assim? Apertados naquele espartilho ideológico, de um hediondo puritanismo? Enfim, tudo flui, nada permanece, dissera-o já o velho heráclito. A minha própria vida passara já por muita mudança, alguma dela, profundamente dolorosa – como foi o caso da minha mudança, de Lourenço Marques para Lisboa, em 1947. Mas, agora, fora tudo muito brusco, muito brutal, muito desarrumador. E eu já não tinha dezassete anos, tinha feito, havia pouco, quarenta e seis e as “bases” não estavam intactas: o meu pai morrera (inconcebível) e a minha tia Maria (outro pilar) acusara, nos últimos tempos, fragilidades de saúde. Os “avisos” estavam por todo o lado. Para onde iria a minha mãe, com a pensão de viúva ainda a resgatar da infernal teia burocrática, que se assarapantava no Consulado português, em Maputo? O processo acabaria por se extraviar, entre o Maputo e Lisboa… E a tia Maria, nossa mãe sempre mais à mão, a envelhecer a olhos vistos… E o meu irmão? E as tias, sem vencimento, sem reforma e sem nada de material a que se agarrarem? (A casa do Alto Mahé, literalmente construída, pedra a pedra, degrau a degrau, pelo Tio Tropa, grande artista da madeira, que morreu pobre, fora, como tudo, “nacionalizada” – rima com “roubada” e rima com fundamento). Era o fim desordenado e feio de um mundo! De tudo isto ia congeminando, para arrumos e soluções que, não demoraria muito, haveria que tomar. E nós, numa África do Sul, no cú do mundo, e assente num vulcão, que não parava de emitir avisos… Estive, como disse, com algumas das minhas alunas de eleição, com a Maria de Lourdes, com a minha mãe e com a minha cidade, que deixara de ser minha! E regressei a Joanesburgo, desconsolado e com uma terrível sensação de perda irrecuperável.”
Eugénio Lisboa, in “ Acta est fabula, Memórias–IV-Peregrinação:Joanesburgo.Paris. Estocolmo.Londres. (1976-1995), pp. 19,20,35-41, Editora Omnia Opera, Outubro de 2014
Eugénio Lisboa tem uma longa obra publicada que foi distinguida  com diversos galardões:
Prémio da Cidade de Lisboa, 1985, pelo livro de Poesia A Matéria Intensa
Prémio Jacinto Prado Coelho ( Associação Internacional dos Críticos Literários) em 2000, pelo livro Portugaliae Monumenta Frivola
Grande Prémio de Literatura Biográfica 2012/2013, pelo livro “Acta Est Fabula – Memórias I – Lourenço Marques (1930-1947)”. Este galardão foi atribuído pela Associação Portuguesa de Escritores (APE), na categoria de Biografia, Autobiografia e Diário. 
Eugénio Lisboa é Doutor Honoris Causa pela Universidade de Nottingham, do Reino Unido (1988) e pela Universidade de Aveiro (2002). Foi distinguido com o grau Oficial da Ordem do Infante D. Henrique. Usou os pseudónimos Armando Vieira de Sá, John Land e Lapiro da Fonseca.
Em 8 de Novembro, a RDP Internacional  apresentou uma Entrevista de Germano Campos  a Eugénio Lisboa.    
Ouça a Entrevista  AQUI

Alguns Livros de ensaios,  recensões  e poesia  de Eugénio Lisboa para além de "Acta Est Fabula - Memórias":
José Régio, Antologia, bibliografia, introdução e notas,Livraria Martins, 1957, Porto
Crónica dos Anos da Peste – I e II (1973, 1975),Livraria Académica-Lourenço Marques
Versos e Alguma Prosa de Jorge de Sena, antologia e introdução,Arcádia e Moraes,1978, Lisboa
O Segundo Modernismo em Portugal, Ensaio, ICALP,1977, Lisboa
José Régio – Uma Literatura Viva, Ensaio, ICALP, 1978, Lisboa
Poesia Portuguesa – do «Orpheu» ao Neo-Realismo,Ensaio, ICALP, 1980, Lisboa
Jorge de Sena , Antologia, introdução, antolgia crítica e bibliográfica,Presença,1984,Lisboa
Estudos sobre Jorge de Sena, selecção e introdução, Imprensa Nacional, 1984,Lisboa
As Vinte e Cinco Notas do Texto, Ensaios e recensões. Imprensa Nacional -Casa da Moeda,1988
Matéria Intensa, Poesia. Baden: Peregrinação,1985 ( 2º edição, Lisboa:Instituto Camões,1999
José Régio ou A Confissão Relutante, Ensaio, antologia e bibliografai,Rolim,1989, Lisboa.
O Objecto Celebrado , Ensaios e estudos. Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra,1999
Portugaliae Monumenta Frivola, Ensaios e Crónicas, Universitária, 2000, Lisboa
O Ilimitável Oceano, Poesia, Quasi, 2001, Vila Nova de Famalicão
O Essencial sobre José Régio, Ensaio,Imprensa Nacional, 2001, Lisboa
No Eça nem como uma Flor se toca- Eça visto por José Régio (organização, selecção e introdução de Eugénio Lisboa),Instituto Camões, 2002, Lisboa
Indícios de Oiro - I e II, Imprensa Nacional, 2009,Lisboa 
Ler Régio,Imprensa Nacional, 2010,Lisboa 

terça-feira, 11 de novembro de 2014

Angola, 39 anos de independência

Angola celebra 39º aniversário da independência num momento impar - MPLA
Eis o que escreve a Agência de notícias de Angola:
10-11-2014 | Fonte: Angop
"Angola celebra, no dia 11 de Novembro de 2014, o 39º aniversário da proclamação da sua Independência Nacional, num momento ímpar, em que a paz se consolida todos os dias, graças ao espírito de tolerância, de compreensão, de reconciliação e de perdão de todos os angolanos, que viraram, para sempre, a página da guerra e caminham, decididamente, rumo a um nível superior de bem-estar e de progresso social. 
Esta consideração está expressa na declaração do Bureau político do MPLA tornada pública, hoje, segunda-feira, em alusão ao 39º aniversário da Independência Nacional de Angola que se assinala esta terça-feira. 
De acordo com o documento, nesta tão importante data, o Bureau Político do Comité Central do MPLA, em nome dos militantes, simpatizantes e amigos do Partido, endereça as suas mais vivas e calorosas felicitações ao Povo Angolano, certo de que ele continuará a ser o garante da manutenção, valorização e ampliação de todas as conquistas até aqui alcançadas, com muito sacrifício.
Há apenas 12 anos, a República de Angola conquistou a paz efectiva e, neste momento, está a consolidar o seu processo de desenvolvimento, num contexto mundial e regional de crescente instabilidade, em que se têm multiplicado focos de tensão e de ruptura, em várias zonas do Mundo, onde surgiram novos conflitos militares, com forte impacto na região em que se inserem, alguns dos quais com prováveis consequências globais. 
A declaração realça que “ é nesta conjuntura que o Executivo está a aplicar o Plano Nacional de Desenvolvimento 2013/2017, subjacente ao Programa de Governo do MPLA, que o povo angolano aprovou nas Eleições Gerais de 2012, que está focado no combate à fome e à pobreza e no aumento da qualidade de vida dos angolanos, transformando a riqueza potencial, que constituem os recursos naturais de Angola, em riqueza real e tangível”.
Nesta fase histórica, cheia de grandes desafios e adversidades, o MPLA está ciente de que o Plano Nacional de Desenvolvimento 2013/2017, cuja ideia -força é a estabilidade, o crescimento e o emprego, constitui o instrumento fundamental, que abrange um período de grande importância para o futuro do país, por se situar no meio do processo de implementação da Estratégia de Desenvolvimento de Longo Prazo “Angola 2025”.
O MPLA considera ser gratificante assinalar que, após o grande esforço de conquista da paz definitiva e, também, de reconstrução nacional, Angola entrou já na fase de modernização e de sustentabilidade do seu desenvolvimento, centrada na valorização de todos os seus filhos. 
Agora, como indicou José Eduardo dos Santos, Presidente da República de Angola e Titular do Poder Executivo, na sua Mensagem sobre o Estado da Nação, proferida a 15 de Outubro último, na abertura do Ano Parlamentar 2014/2015 da Assembleia Nacional, “o grande desafio, que se coloca perante nós, é o do crescimento”, para que a economia angolana seja mais robusta e possa produzir mais bens e serviços, competindo com as outras da região e fazendo distribuir melhor a riqueza nacional.
Numa altura, em que está em análise, na Assembleia Nacional, a Proposta de Orçamento Geral do Estado, para o exercício económico do ano de 2015, o MPLA manifesta o seu total apoio às políticas de gestão macroeconómica, adoptadas pelo Executivo, para garantir o cumprimento dos indicadores estabelecidos neste instrumento indispensável da governação, mormente no que respeita à diversificação da economia e à redução da dependência da exportação do petróleo bruto. 
Nestas circunstâncias, o MPLA reconhece que um dos principais ingredientes, para melhorar a qualidade da governação, é a transparência e o sentido de missão dos servidores públicos.
Por este facto, para que se verifique o aumento da eficácia e da eficiência da Administração Pública, o partido no poder em Angola defende o combate à corrupção e ao desperdício de recursos públicos, visando o aumento da produtividade nos serviços e o reforço do papel fiscalizador da sociedade, através dos mecanismos estabelecidos pela Constituição da República de Angola e pelas leis ordinárias em vigor no país.
Não obstante os inúmeros ganhos obtidos nestes 39 anos da Independência Nacional, cujo realce vai, sem sombra de dúvidas, para o fim do conflito armado, os angolanos, ao lado dos estrangeiros que laboram legalmente em Angola, têm de continuar com as mangas arregaçadas, para que cada um, no seu posto de trabalho, possa honrar, condignamente, a memória dos heróis da Pátria, em especial a de António Agostinho Neto, Fundador da Nação.”Angop

ANGOLA
Barra do Dande - Angola

o henda i xalá

A loucura tocou as nossas mãos.
Súbitas luzes passam nos teus olhos.
O excessivo pudor nos aproxima;
Riqueza dos segredos revelados!

Não importa a incerteza e o impossível:
Deles e nós, conscientes, nos sorrimos.
Para além do momento, nós sabemos:
O amor ficará - O HENDA I XALA.
26.01.1957
Mário António , in " amor ", Editorial Minerva

Revolução

Revolução: testemunho
Por Miguel Portas
"A cada um a sua revolução. A minha iniciou-se ainda no tempo da outra senhora, uma expressão que caiu em desuso. E coincidiu com outra, obrigatória pela lei da vida, a da passagem à adolescência. 
A minha revolução tinha, por isso, razões de urgência inusitada.
No meu país os estudantes do ensino secundário estavam separados entre liceus e escolas técnicas. Os primeiros chegariam às universidades, os segundos ficar-se-iam por um ofício qualificado. Não viria daí mal ao mundo, se tal representasse uma escolha. Acontece que era um destino. Filho de operário, operário serás. Filho de rico, garantia de doutor. Eu estava no segundo grupo, mas nem por isso sentia menos a injustiça.
No meu país os estudantes do ensino secundário estavam separados por sexos. Havia liceus para rapazes e liceus para raparigas. Alguns tinham mesmo muretes de separação, seguramente para estimular a imaginação. Elas estavam obrigadas a usar bata, a bata das escolas delas. Nós não, que éramos candidatos a homens.
No meu país as universidades já eram mistas. Elas eram bem menos do que eles. Elas sentavam-se, por ordem alfabética, nas primeiras filas do anfiteatro. Eles, também por ordem alfabética, ocupavam o restante. Assim era fácil marcar faltas: os alunos não tinham nome, na realidade tinham número.
No meu país havia, como em qualquer outro, bons e maus professores. Mas, com excepções, aquilo não era ensino, eram exames de memória. Um colega não perguntava ao outro «já estudaste aquilo?», invectivava-o com um «já decoraste?»
No meu país os nossos pais estavam condenados a entenderem-se sempre e para sempre. Casavam pela igreja, não tinham direito a divórcio. Há quem diga que o hábito faz o monge, mas a máxima nem sempre se aplica. Esta obrigatoriedade sobrava para muitos filhos, principalmente sobrava para muitas filhas.
O papel da igreja era omnipresente. Quem não fosse à missa era olhado de soslaio. Mas nem isso evitava as crises de fé, que geravam hecatombes familiares, ou vice-versa. Naquele tempo havia filhos e meio-filhos, não havia apenas filhos. Eu tinha uma meia-irmã, adivinhem lá o que isso seja. Durante anos não pôde visitar parte da família alargada. Culpada por ter nascido à margem da lei que os homens atribuíam a Cristo.
E depois, no meu país havia ainda o espectro de uma condenação antecipada: a guerra. Mais cedo ou mais tarde, iríamos lá bater com os costados. Em nome da Pátria e da nossa missão civilizadora no mundo dos cafres, assim era legítimo classificar os africanos.
Ah! E havia política. Lembro-me de ver Marcelo Caetano na televisão.
A emissão chamava-se “Conversas em família”. O patriarca falava e a plateia escutava. Parece que esta forma de comunicação foi então uma novidade absoluta no pacato mundo dos lusitanos, uma modernice. Adivinhem como seria antes...
A revolução, portanto. E nada menos do que a revolução.
A revolução começa por ser uma construção contra a realidade, um mundo como o que os primeiros cristãos escavaram para se protegerem das forças do Império romano.
No mundo onde me envolvi, os rapazes e as raparigas eram iguais. Não aprendíamos o que a escola nos dava, mas exactamente o que ela nos escondia. Outras leituras, outras músicas, outra conversa. E outra História.
Outra vida, também. Com maior ou menor tolerância das famílias, conquistávamos o tempo. Tempo para reuniões, agitações ou manifestações-relâmpago de alta adrenalina. Mas tempo também para acampamentos e namoros, tempo até para, à boleia, se conhecer Paris ou visitar a meca das liberdades, Amesterdão. No fundo, tempo para se confirmar como Portugal ficava mesmo muito longe do mundo. Do mundo e do nosso mundo.
Depois a revolução é a própria revolução, quando a nossa «contra-realidade» emerge como realidade. Há imagens que ficam para uma vida. A minha é a de um velho contínuo do Liceu Passos Manuel, homem corajoso que nunca denunciara as acções de agitação que, amiúde, se faziam. Foi ele quem, no dia 26 de Abril, se colocou na frente dos estudantes, hino nacional saindo da sua boca, antes da invasão das instalações do Secretariado para a Juventude (antiga Mocidade Portuguesa) do liceu. Esperara uma vida por aquele gesto e era comunista.
Lembro-me também da noite em que ficou claro que havíamos perdido. Da preocupação nos rostos, no desespero de alguns porque não era assim que estava escrito. E recordo-me também do alívio com que ouvi Melo Antunes nessa noite. Perdera-se, mas não se perdia tudo.
Perdemos? Uma revolução incompleta é uma revolução falhada? Talvez a História venha a dizer-nos que sim, ou talvez esta não seja a boa pergunta. Com ou sem revolução estaríamos hoje onde estamos, como diz Saramago? Mas como é possível não se ter superado ainda na cultura da esquerda a submissão estalinista aos resultados como critério de verdade? Como é possível continuar a desvalorizar o modo – neste caso, a revolução – face às finalidades? No limite, revolução é atitude, atitude de vida. O que ela, quando ocorre, tem de extraordinário, de único e insubstituível, é que marca quantos com ela se travam de razões.
*Crónica de Miguel Portas de Abril de 1999, retirada do livro “E o resto é paisagem”