domingo, 10 de agosto de 2014

Ao Domingo Há Música

"Vaso de Flores", 1956, Manabu Mabe
Lembrança

Ponho um ramo de flores
na lembrança perfeita dos teus braços;
cheiro depois as flores
e converso contigo
sobre a nuvem que pesa no teu rosto;
dizes sinceramente
que é um desgosto.

Depois,
não sei porquê nem porque não,
essa recordação
desfaz-se em fumo;
muito ao de leve foge a tua mão,
e a melodia já mudou de rumo.

Coisa esquisita é esta da lembrança!
Na maior noite,
na maior solidão,
sem a tua presença verdadeira,
e eu vejo no teu rosto o teu desgosto,
e um ramo de flores, que não existe, cheira!
Miguel Torga,in " Diário I", (1941), Círculo de Leitores

"(...)muito ao de leve foge a tua mão,/e a melodia já mudou de rumo (...)". Os  amores de verão são como os êxitos musicais que  marcam a estação. Soam, ressoam, passam e repassam onde quer que se vá. Enchem os momentos com tal intensidade que fazem acreditar que o encantamento de um amor estival possa ser duradouro. Quem se alimenta do calor de acordes tão repetidos soçobra logo que a melodia muda de rumo tal como o verão aos primeiros ventos do Outono. 
Há canções que marcaram épocas. Sustentaram paixões e muitas sobreviveram.
Do arquivo do tempo, recuperámos duas famosas composições para este Domingo de um Agosto tão carenciado de AMOR.

- Merle Haggard & Tammy Wynette em " Today I started love you again ".


- Aretha Franklin em " Ain't No Way ".

sábado, 9 de agosto de 2014

A Actualidade em Cartoon

Cartoon Bandeira, DN

Cartoon Bandeira, DN
Forges, El País
Peridis, El País
Kroll, Le Soir
Kroll, Le Soir
Le vignette di ItaliaOggi
Le vigenette di ItaliaOggi

The New Yorker Cartoons from the issue

"Politics are the art of nothing is possible" The New Yorker
Henry cartoon

Henry cartoon

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Manoel de Andrade

A Revista brasileira " IDEIAS" realizou uma longa entrevista a Manoel de Andrade, um notável  poeta brasileiro, que publicou , em Março último, um excelente livro de Memórias, " Nos Rastros da Utopia, uma memória crítica da América Latina nos anos 70" . Relato ímpar e prodigioso do seu tempo de exílio forçado no início dos anos  setenta, tempo negro da Ditadura Brasileira. 
Pelo interesse que reveste esta entrevista,  passamos a transcrevê-la:

 A América Latina nos rastros de Manoel de Andrade
Levando em conta o histórico do autor, é coerente considerar que um livro de poesia pode representar mais do que uma reunião de poemas. Com a publicação de seus versos, Andrade sofreu perseguição política e enfrentou resistência militar em vários países da América Latina nos anos 1970. Com a publicação de Saudação a Che Guevara o poeta teve que deixar o Brasil.
A luta e a obra de Andrade fizeram com que o autor percorresse 16 países da América Latina. A jornada está agora reunida em seu mais recente livro Nos Rastros da Utopia (2014). Antes, já havia publicado Poemas para a Liberdade (1970) – com tiragem esgotada em diversos países, e Cantares (2007) – seu retorno à poesia.
Em entrevista concedida à revista Ideias, o poeta falou sobre a luta contra a ditadura, contou um pouco da sua obra e relembrou sua jornada pela América Latina, que, para o autor, é o melhor lugar para se viver.
Com a publicação de Cantares (2007), você retomou a publicação de poesia depois de um longo período. Por que este intervalo?
Realmente, foi um longo intervalo. Mais de 30 anos. Algo estranho na vida de um escritor. Meu último poema, da fase latino-americana, chamado Liberdade, foi escrito em 1971, no México. Depois disso, começa um intenso período de viagens com palestras, conferências e recitais nos Estados Unidos e depois no Equador, no caminho de minha longa volta ao Chile, em dezembro de 1971 e, meses depois, para o Brasil, em meados de 1972.
Somente voltei a escrever poesia em 2002. Ou seja, depois de 31 anos. Por quê? Fortes razões de ordem familiar me fizeram voltar, justamente na época mais perversa do regime ditatorial, obrigando-me a entrar no anonimato literário, social e profissional.
A luta contra a ditadura foi um dos motivos por esse intervalo?
De 1972 a 1975, as operações militares para acabar com a Guerrilha do Araguaia, bem como a crueldade com que os DOI-Codi iam aniquilando os quadros da guerrilha urbana, geraram o pânico entre todos aqueles militantes ou intelectuais que haviam se posicionado, na ação ou no ideário, contra a ditadura. As detenções, torturas, execuções e desaparecimentos entraram em sua fase aguda em todo o país.
Alguns meses depois de minha chegada, estava sendo procurado pelo DOPS. Transferi meu registro da OAB para Santa Catarina, com o objetivo de advogar em meu Estado. Mas também lá senti que não poderia assumir publicamente qualquer trabalho. Foi neste contexto que encontrei, em Curitiba, uma forma de trabalhar sem que os agentes da ditadura nunca soubessem onde eu estava. Fui vender a Enciclopédia Delta Larousse, numa atividade itinerante, de cidade em cidade, de Estado em Estado. Tornei-me campeão estadual e nacional de vendas, cheguei ao topo na hierarquia dos títulos, à classe gerencial e palestrante em técnicas de marketing.
De que forma isso mudou o rumo de sua vida?
Tive um grande sucesso financeiro, adquiri bens, casei pela terceira vez, e nesse torvelinho incessante de viver sempre viajando, fui perdendo o interesse, não pela leitura, mas pela literatura em si, esquecendo-me que era poeta, e dos rastros que deixei pelos longos caminhos da América Latina. Em 1987, deixei a Delta Larousse, convidado a criar um setor comercial de uma empresa de medicina de grupo, onde permaneci na área gerencial até o ano passado. Quero também dizer que, apesar do meu desinteresse pela literatura, durante todos esses anos fui um leitor constante da filosofia, da história e das religiões, tornando-me um profundo estudioso do kardecismo e adepto praticante da doutrina espírita.
Como foi o processo de retomada?
Minha retomada à criação poética aconteceu numa misteriosa circunstância. Já expliquei algures que minha volta à poesia deu-se por uma intrigante inspiração das musas. Na campanha eleitoral para governador do Paraná, em 2002, Roberto Requião – velho amigo, colega da Faculdade de Direito e companheiro de ideais na juventude –, foi covardemente acusado de inverdades e calúnias pelos seus inimigos políticos. Indignado, comecei a escrever alguns versos, relembrando o tempo em que saíamos em passeatas de protesto contra a ditadura, dos sonhos de justiça e liberdade que partilhávamos e que ele brilhantemente colocava na sua afiada oratória, e eu no lirismo dos meus versos.
Lembrei-me também do caminho que me indicou, e dos amigos a quem me recomendou, no Paraguai, quando, em março de 1969, tive que sair do Brasil, num dos momentos mais difíceis de minha vida. Todo este gesto solidário se transformou no poema Tributo, tornado público num jornal da época e que consta do meu livro Cantares.Foi com este poema que voltei a escrever poesia, em setembro de 2002, depois de 31 anos de abstinência literária.
Você consegue enxergar uma marca na literatura produzida nesses países? O que caracteriza a poesia latino-americana?
Meu interesse naqueles anos e ainda hoje pela literatura latino-americana sempre foi dirigido para os autores comprometidos, sobretudo com o indigenismo e as lutas sociais, e o que caracteriza essa literatura, na prosa e na poesia, é a denúncia e a resistência.
Este espaço não me permite nominar todos os autores, cujas obras estudei – e tudo isso está amplamente analisado Nos Rastros da Utopia– e que se comprometeram com essas lutas, mas me lembro aqui de Mariano Melgar, Pablo Neruda, Armando Tejada Gómez, Ariel Danton Santibañez Estay, Eliodoro Aillón Terán, Javier Heraud, Cesar Vallejo, Luis Nieto, Leonel Rugama, Tirso Canales, Roque Dalton e Otto René Castillo entre os poetas, e Oscar Soria Gamarra, José María Arguedas, Roa Bastos, Ciro Alegria, Manuel Scorza, Jorge Icaza, Miguel Angel Astúrias e Carlos Fuentes entre os prosadores.
Poemas para a liberdade teve grande repercussão, com edições esgotadas em vários países. A que você atribui esse alcance?
Este livro nasceu espontaneamente pelas mãos dos estudantes peruanos de Arequipa, em janeiro de 1970, que propuseram gratuitamente uma edição mimeografada de 1.500 exemplares. Dois meses depois, os estudantes de Cusco lançaram duas edições, respectivamente de 700 e 1.000 exemplares mimeografados e em junho daquele ano, em La Paz, meu livro tem sua primeira edição, de 2.000 exemplares, lançada graficamente, e sem nenhum custo para mim, pelo Comitê Central Revolucionário da Universidad Mayor de San Andrés.
Na verdade, os fatos que levaram à edição boliviana de Poemas para la libertad é uma história espiritualmente misteriosa e inacreditável do ponto de vista editorial e que é contada com todos os seus detalhes no meu livro Nos Rastros da Utopia, envolvendo o jornalista brasileiro Paulo Canabrava Filho, na época militante da ALN – Aliança Renovadora Nacional – e correspondente da France Press, exilado na Bolívia, e o poeta e jornalista boliviano Jorge Suárez.
E as edições em outros países, como aconteceram?
Na Colômbia, a obra foi editada pela Nova Era, cujos 1.500 exemplares se esgotaram em poucas semanas nas livrarias de Cali e Bogotá; duas edições norte-americanas editadas em 1971, em San Diego, pela Grandma´s Camera; a edição equatoriana editada pela Universidade Central do Equador, em 1971 e, finalmente, em 2009, a edição bilíngue brasileira editada pela Escrituras.
Meus Poemas para lalibertad também tiveram edições parciais na Nicarágua, em plena ditadura de Somoza, editadas pela Universidade de El Salvador e publicados, declamados e debatidos em Tampico, no México, em fevereiro de 1971, durante as comemorações do 37º aniversário de morte de Augusto Cesar Sandino, onde participei, a convite dos sandinistas exilados no México. Dois de seus poemas –Canção para homens sem face e Canção de amor à América – foram publicados pela Revista Civilização Brasileira e o último foi comentado pelo crítico Wilson Martins ao afirmar que “é, com certeza, um dos belos poemas do nosso tempo”.
Quanto ao seu alcance e repercussão, creio que se deve ao caráter libertário dos meus versos, à imagem revolucionária que se criou em torno de minha pessoa como um poeta desterrado e expulso de vários países por minhas convicções políticas, assim como pela minha incansável militância poética, peregrinando ao longo de toda a América Latina, num tempo em que a juventude estava mobilizada ideologicamente e, diferentemente da juventude dos nossos dias, amava realmente a poesia.
Além do sucesso editorial, o livro teve grande influência política. Essa repercussão política já era esperada?
Na década de 70, o continente estava semeado de sonhos e esperanças. A revolução cubana, a imagem heroica do Che, as repercussões das revoltas estudantis de 1968 na França, no Brasil e em quase todo o mundo eram os ingredientes que contagiavam politicamente a juventude. Meu livro não era apenas um livro de poesia. Era um documento histórico, porque todos os seus poemas trazem uma consigna geopolítica de luta e, paradoxalmente, uma mensagem de paz e esperança.
Há um poema chamado Requien a um poeta guerrilheiro, dedicado ao jovem poeta peruano Javier Heraud, assassinado pelo exército em 1965, e que também foi uma das causas da minha expulsão do Peru, em 1969. Depois veio minha expulsão da Colômbia e por aí vai, para dizer que meu livro, muito mais que um livro de poesia, foi um gesto de convocação e resistência, uma trincheira de luta e uma bandeira desfraldada por um mundo melhor, tendo seus versos sido publicados em panfletos, jornais, grandes revistas, cartazes, publicações acadêmicas, livros e antologias, ao lado de Mario Benedetti, Juan Guelmann, Jaime Sabines e outros grandes poetas hispano-americanos.
Há também um poema chamado Saudação a Che Guevara, que foi a causa da minha saída precipitada do Brasil, em 1969. Um outro poema, chamado O guerrilheiro, foi dedicado a Inti Peredo, lugar-tenente de Che Guevara na guerrilha boliviana, escrito em 1969, em Cochabamba, alguns dias depois do seu assassinato por militares em La Paz, e que foi um dos motivos porque fui “convidado” a deixar a Bolívia em 48 horas.
Conte um pouco mais sobreesse episódio de Saudação a Che Guevara.
Este poema foi escrito em outubro de 1968 para comemorar o primeiro ano da morte de Che Guevara. Por iniciativa do livreiro José Ghignone (o Dude) foram mimeografadas 3.000 cópias e distribuídas, pelo pessoal do Partidão, em universidades, centros acadêmicos, sindicatos e organizações de classe. A distribuição foi feita gradativamente entre o fim de outubro e o começo de dezembro, até o dia 13, quando foi publicado o AI-5. E daí tudo mudou. O que fazer se o poema já fora quase totalmente distribuído e pregava a luta armada?
Nos primeiros dias de março de 1969, viajei ao Rio de Janeiro para um encontro com o poeta Moacyr Félix e o editor Ênio Silveira, a fim de entregar os originais para a publicação da série Poesia viva, que a editora Civilização Brasileira estava lançando e para a qual eu fora convidado, depois da boa repercussão que teve meu poema Canção para os homens sem face, recém-publicado no n° 21/22 da Revista Civilização Brasileira.
Ao voltar para Curitiba, no dia 12 de março, encontrei, no bar Velha Adega alguns amigos e entre estes o escritor e publicitário Jamil Snege e a estudante de sociologia Elci Susko. Ela me relatou, angustiada, que, por duas vezes, fora abordada na Faculdade, levada por agentes de segurança e interrogada pelo delegado regional da Polícia Federal sobre o meu paradeiro. Ele tinha em seu poder um exemplar do panfleto “Saudação a Che Guevara” onde constava a autoria do poema e me acusava de “comunista”, de “pregar a luta armada” e ser “um inimigo da pátria”.
Naquela época, a dois meses da publicação do AI-5, já havia começado a “caça às bruxas”, no Brasil inteiro. Os suspeitos de subversão eram presos, mantidos incomunicáveis e muitos começaram a sumir. Naquela mesma noite, já em pânico com o relato da Elci e preocupado com minha esposa e minha filha, fui aconselhado pelo Jamil a sair da cidade. No dia seguinte, pela manhã, fui à casa do Requião, e, como já adiantei, ele abriu o caminho para que, no dia 15 de março de 1969, eu rumasse para Assunção recomendado para seus amigos, o pintor e escultor Angel Higinio Iegros Semidei e os irmãos Francisco e Mario Rojas.
O poema repercutiu em outros países também?
Sim, em fins de setembro de 1969, depois de passar pelo Paraguai, Argentina e Chile, eu já estava em Cochabamba (BOL), como convidado a um Congresso Nacional de Poetas. Um dia, no Hotel Boston, onde a Comissão do Congresso me hospedou, apareceu um casal pedindo uma cópia do meu poema ao Che, para ser publicado num cartaz, em comemoração ao segundo ano de sua morte.
Este casal era o já então conhecido jornalista chileno Elmo Catalán Avilés (Ricardo) e a jovem boliviana Genny Köller Echallar (Victoria), dois quadros guerrilheiros do ELN (Ejército de Liberación Nacional), como fiquei sabendo, posteriormente, quando ambos foram assassinados por um militante do próprio ELN (Anibal Crespo Ross), ante a decisão do casal de abandonar a Organização, em razão da gravidez de Genny.
O poema foi publicado num grande cartaz ilustrado por Atílio Carrasco, um dos grandes pintores bolivianos, que havia sido aluno do célebre pintor muralista David Alfaro Siqueiros, no México. Como eu já tinha sido interrogado e ameaçado de expulsão do país, pelo delegado da DIC (Diretoria de Investigações Criminais), decidi entrar no anonimato e o cartaz, com a imagem e o poema do Che, foi publicado como Saludo al Che Guevara e assinado como El Poeta. O poema-cartaz, editado pela FUL, (Federación Universitaria Local) de Cochabamba, passou a ser vendido no meio estudantil e distribuído para todas as FUL da Bolívia.
Dias depois, como a polícia política conseguiu descobrir a minha autoria, fui detido e intimado a sair do país em dois dias. Pela segunda vez, meu poema ao Che me obrigava a buscar novos caminhos.
Como você analisa o papel que a literatura teve na luta contra a ditadura?
Ela não teve o papel que deveria ter. Os comprometimentos foram poucos. Acho que o teatro foi o grande palco dessa luta e onde se destacaram o Grupo Opinião do Rio de Janeiro e o Teatro de Arena de São Paulo. Lembro-me que, em 1965, o Grupo Opinião chegou a Curitiba com a peça Liberdade, Liberdade, trazendo em seu elenco Jairo Arco e Flecha, Tereza Raquel e Paulo Autran, de quem me tornei amigo.
A peça marcou época no teatro brasileiro e citava textos em prosa e poesia de autores famosos, para protestar contra a repressão imposta pela ditadura. Depois de minha volta ao Brasil me afastei da vida cultural e da literatura, mas percebi que, sobretudo depois do AI-5, a criação literária vivia amordaçada e desiludida de seus próprios objetivos.
Não se editavam muitos romances naquela época e, apesar do meu distanciamento, li algumas obras como Quarup e Bar Don Juan, de Antonio Callado, e Pessach: A Travessia, de Carlos Heitor Cony.
O texto de apresentação do livro Nos rastros da utopia – uma memória crítica da América Latina dos anos 70, apresenta você como um caminhante incansável que fez uma fantástica peregrinação por 16 países da América. Fale um pouco dessa jornada.
É uma jornada que teve a dimensão gráfica de 912 páginas. É difícil resumir em poucas linhas essa imensa aventura. O que posso dizer é que na década de 70 tudo estava no ar e bastava o compromisso de sonhar para que os caminhos se abrissem magicamente. Contudo, nem todas as portas da realidade se abriram aos ideais e nem todos os visionários que lutaram por uma nova sociedade conseguiram sobreviver às suas trincheiras.
Sinto-me um privilegiado por ter trilhado esse venturoso tempo e de poder resgatar num livro essa imensa memória colhida em tantos caminhos, numa profunda identificação com a história e as bandeiras revolucionárias desfraldadas pelo continente.
O meu livro é também uma reflexão sobre os sentimentos e as emoções que marcaram a agenda daqueles anos, dizendo da ventura de ter sido jovem nesse tempo e do desencanto de ver, atualmente, as utopias desterradas. Falo da trágica herança dos nossos dias, de um mundo sem norte, sem porto e de um tempo marcado pela perplexidade e os pressentimentos. Mas ainda que nesse impasse, minha alma de poeta não abdica de sonhar, imaginando que a misteriosa dialética do tempo nos reconduza a um amanhecer, a uma aldeia de esperança, a um mundo possível e melhor.
Nos anos 70, o que diferenciava o Brasil dos outros países vizinhos?
No plano político não havia grandes diferenças. Eram regimes de exceção e não estados de direito. Não falarei da economia, porque essa não é a minha paixão. O único fato que diferenciou o Brasil dos demais foi o regime militar que se instaurou no Peru, em 1968, sob o comando do general Juan Velasco Alvarado, propondo mudanças estruturais, amparo aos oprimidos, reforma agrária e colocando barreiras aos interesses imperialistas. Apesar de militares de tradição conservadora, sonharam com um socialismo nacional e reataram relações diplomáticas com Cuba, com a União Soviética e com a China maoísta.
No entanto, esta bem intencionada revolução dos coronéis não sobreviveu a uma grave doença do seu idealizador, em 1975, e, quando Velasco morreu, em 1977, seu sonho de redenção social do Peru também já estava morto.
Entre as ditaduras militares, a grande diferença foi o golpe e a repressão sanguinária de Pinochet, no Chile, por certo o fato mais marcante dos anos 70, assim como a ditadura argentina, cujas estatísticas da crueldade fizeram seus comparsas parecer santos. Enquanto no Brasil tivemos, segundo os dados da Secretaria Especial dos Direitos Humanos, 475 mortos e desaparecidos, na Argentina estima-se que foram 30.000. Por outro lado, a lamentável diferença que sobreveio com o julgamento da História, é que os nossos vizinhos julgaram e puseram na cadeia os verdugos da repressão e aqui no Brasil eles continuam impunes, ironizando as nossas comissões da verdade.
E qual semelhança havia entre essas nações?
A semelhança é que nos anos 70 todo o sul do continente ostentava também suas ditaduras, coordenadas pelo mesmo imperialismo. Tivemos o Paraguai a partir de 1954, o Brasil em 64, em 71 a Bolívia, o Uruguai e o Chile em 73, e a Argentina em 1976. Em nenhuma havia democracia nem garantias constitucionais. Em todas elas, seus oficiais soletraram o be-a-bá da repressão, nas cartilhas da contrainsurgência da Escola das Américas, mantida pelos norte-americanos no Panamá.
No Brasil, os agentes civis aprenderam muito com as técnicas do suplício ensinadas por Dan Mitrione, o mestre norte-americano da tortura, cuja sinistra carreira foi encerrada pelo Tupamaros em 1970, e cujos ensinamentos foram levados para o Chile pelos torturadores brasileiros. Embora cada ditadura tivesse o seu perfil nacional, a Operação Condor associou a todas no mesmo grau de cumplicidade, nos métodos de crueldade e no planejamento dos assassinatos.
De lá para cá, o que mudou na América?
Creio que mudou muito. Os EUA já não conseguem violentar nossa liberdade e nem estrangular nossa economia como fez com Cuba. Nossos povos aprenderam a resistir e a decidir nossos destinos. Os movimentos sociais e a consciência política são hoje os agentes da nossa história e isso possibilitou que governos populares ascendessem ao poder no Brasil, Uruguai, Bolívia, Peru, Equador, Venezuela, Nicarágua, El Salvador, Guatemala e, recentemente, no Chile. Já não somos vítimas do FMI.
Creio que fatos como a invasão da República Dominicana pelos Estados Unidos, em 1965, bem como sua intervenção direta no golpe militar que derrubou Allende em 1973, são agora improváveis de acontecer.
Para você, o que é a América Latina?
Para mim, diante dessa crise global, creio que a América Latina é ainda o melhor lugar para se viver. Enquanto a Europa parece desagregar-se, abatida pela própria ganância dos seus mercados especulativos, aqui sentimos que estamos nos integrando. Ainda que, no mundo ocidental, vivamos sob a feroz imposição ideológica do neoliberalismo, ensejando uma cultura de consumismo que atinge a todos, creio que aqui ainda não fomos contaminados pela desesperança.
Na verdade, para mim, que sou um poeta, não é com a linguagem geopolítica que posso definir a América Latina. Creio que posso defini-la melhor com os versos de um poema que escrevi, há alguns meses, descrevendo seus encantos e suas lágrimas:

AMÉRICA, AMÉRICA
Manoel de Andrade

Trago ainda na alma o mapa dos caminhos...
Meus versos riscam teu dorso para cantar um tempo único e perfumado.
América, América,
ali, entre os ramos e o penhasco, o abismo florescido,
acolá, o milho semeado e a colheita rumorosa.
Entre serras e quebradas vai o colla dedilhando sua flauta,
é seu hino à pachamama modulando o silêncio do altiplano.

Canto meu enredo de viandante,
passo a passo rumo ao norte e à alvorada.
Quantos atalhos, meu Deus, quantas fronteiras!
A travessia ao entardecer no Titicaca,
O Illimani batido pelo sol,
e aquela noite sob as estrelas em Macchu Picchu!
Ah! este aguaceiro vem agora molhar minha saudade,
e tudo me chega como um recanto do passado...
e se hoje digo amigos e digo hermanos,
ouço nossos passos ecoar pelas vielas seculares de Quito e de La Paz.

Ai, América, ainda não disse de ti quanto quisera,
abre teu cântaro, ó Poesia, e dá-me o frescor do rocio,
dá-me a magia e o lirismo...,
que canção para mim soará mais bela que tuas sílabas de encanto?
América, América,
Lembro-me do fulgor do teu rosto renascido da utopia,
tuas bandeiras de sonhos
feitas de plumas e veias transparentes.
Os campos todos semeados
e o porvir tatuado em cada gesto.
Tudo era aroma na gleba cultivada,
nos brotos germinava a esperança
e nossas pálpebras se abriam para o amanhã.

Canto a América que vivi,
entre alegrias e lágrimas, canto o continente ao sul de Anahuác.
Falo de uma América primeira,
asteca, quiché, chibcha, quéchua, mapuche e guarani,
essa América materna,
botânica e mineral,
sangrada por Cortez, Pizarro e por Valdivia.
Falo de uma só pátria,
a grande pátria de Bolívar,
pilhada e violentada,
submetida pelas garras perversas do Império.
Vi tuas trincheiras abertas
e depois as densas trevas caírem sobre o sul.
Sobreveio o chumbo cruel,
os labirintos da dor e as atrocidades.
Na penumbra gemiam os cravos, gemiam as rosas,
e agonizava a vida ainda em botão.

Canto para denunciar a verdade sufocada,
e eis que mancho este verso para nomear Garrastazu, Bordaberry, Videla, Pinochet
e seus rastros genocidas num tempo silenciado.
Canto para dizer das valas clandestinas,
das ossadas do Atacama
e dos “voos da morte” para o mar,
Meu réquiem para trinta mil argentinos,
meu canto para as “crianças da ditadura”,
para os sobreviventes e suas cicatrizes,
para a viuvez e a orfandade
para las Madres de Plaza de Mayo e suas lágrimas perenes.

América, América,
quarenta anos se passaram
e tuas feridas ainda emergem da tragédia!
E aqui declino a “operação” perversa dos “condores”
e os seus generais malditos.
Canto por ti, América,
por tuas aldeias de bravos e por teus calvários,
por teu nevado esplendor tantas vezes torturado,
América de tantos massacres e patíbulos,
ouço-te ainda na voz melancólica dos charangos, quenas e zamponhas,
chorando por la matanza de San Juan, em Potosi.
Uma América de martírios,
estrangulada em Cajamarca,
esquartejada em Cusco,
sacrificada em La Higuera.
executada em Trelew e El Frontón,
e nos rituais da morte em Villa Grimaldi e no Dói-Codi.

Por tanta dor nessas memórias
eu vos peço perdão pelo meu canto.
Ele é também assim: um áspero clarim no entardecer.
Distante, tão distante,
no tempo e nos andares,
e hoje, em busca de mim mesmo,
ainda abrigo o mesmo combativo coração.
Não sei o que te espera, América,
os anos correram inquietantes e velozes
restando um mundo com seu som intolerável.

Busco meu íntimo silêncio,
e, por um momento, digo basta...,
meu pensamento em prece, e num lampejo, viaja ao sul do Chile.
Lá, muito além do Bio-Bio, há um golfo deslumbrante.
Vou em busca de Arauco,
lá lutaram meus heróis, Caupolicán e Galvarino.
Foi lá onde viveu Lautaro e onde vive Frederico.
Vou para rever o cone nevado do Antuco
rever o vale e a Cordilheira,
o seu dossel verdejante, onde se gesta a vida.
Vou para relembrar uma baía de barcos,
para construir uma paisagem na alma,
uma tenda de luz para um amigo

Entrevista publicada pela Revista IDEIAS, em 6 de Agosto de 2014, Paraná , Brasil

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Roteiros de Lisboa

PÁTIOS E VILAS DE LISBOA (Graça)


Descrição
"Desta vez vamos percorrer alguns recantos tão lisboetas, cuja origem se perde no tempo. Não há registo histórico do aparecimento dos primeiros pátios em Lisboa, mas sabe-se terem origem na civilização Árabe. Sendo esta uma sociedade de fortes laços comunitários, os pátios não só permitiam convivência entre vizinhos mas também, ler e ensinar o Corão num ambiente intimista. No séc. XII, aquando da conquista de Lisboa os pátios são transformados em quintas ou pequenas hortas. Lisboa era uma cidade que crescia sem planificação, para além das muralhas dispersando-se pelos vales do sopé da colina do Castelo e Alfama, com construções ao sabor das necessidades, sinais do tempo que haveriam de perdurar durante toda a Idade Média, e se prolongariam até ao Terramoto de 1755. O pátio medieval é um sucedâneo do pátio árabe, mantém os mesmos traços físico-urbanísticos e os mesmos propósitos sócio-comunitários, sendo as quintas e hortas de novo transformados em pátios.
A partir do séc. XV são vários os factores que levam ao aparecimento de novos espaços. A instalação da Corte no Terreiro do Paço altera o tecido social da colina, promovendo a deslocação dos grandes senhores constroem os seus palácios junto da Corte Real. Como consequência os pátios perdem o seu estatuto intimista para fazer parte da grande azáfama das cidades portuárias e comerciais. No entanto, é na parte mais antiga da cidade que se dão as alterações mais significativas: os pátios são ocupados por uma franja de população mais pobre, tornando-os menos próprios para habitação, aparecendo também novos tipos de pátios resultantes da ocupação de antigos pátios de palácios deixados no esquecimento.
Até ao século XX estes espaços irão funcionar como habitação assim como o próprio edifício, que por sua vez irá dar nome ao pátio. Com o surgimento da industrialização, a cidade de Lisboa recebe uma franja de população de operários. Procurando sítio para se alojarem, estas acomodações, geralmente fornecidas pelos próprios proprietários fabris, adquirem o nome de "vilas", que não são mais que pátios da era contemporânea, normalmente constituídas por dois ou três andares separadas por uma rua e isoladas do exterior por um portão. É neste século que a devida importância é dada aos pátios como espaço social importante no meio arquitectónico português, eles são feitos de figuras reais, de tristezas e alegrias à semelhança de quem os habita, mas é, enfim, na alegria que se potencia todo o valor destes organismos vivos.

Vila Berta
Localizada na Rua do Sol à Graça, trata-se de um conjunto constituído por rua larga com casas dos dois lados, proporcionando uma agradável sensação de luz e de espaço aberto. As casas, de um lado, são de dois pisos e do outro, de três pisos, com balcões de ferro. Os moradores deram-lhe um cunho bastante intimista decorando-os com plantas e flores.


Pontos de Interesse


Pátio do Barbosa
Sito na Travessa das Mónicas e Calçada da Graça, fica num dos poucos edifícios que não ruíram com o terramoto - o Palácio dos Senhores da Trofa - cuja fachada principal mantém apesar de algumas transformações, o traçado do séc. XVII. O portal de entrada desemboca por um corredor sob o palácio e é sustentado por um arco de volta perfeita.

Pátio Estrela de Ouro
Localizado entre a Rua da Graça e a Rua da Senhora do Monte, é tipicamente operário, tendo sido mandado construir pelo proprietário da unidade fabril, Agapito da Serra Fernandes, para acomodar os seus trabalhadores, mediante o pagamento de renda. O edifício em si é constituído por dois pisos, alguns com galeria e escadas de acesso ao exterior, sendo ainda de notar a moradia do proprietário, vivenda com espaço ajardinado, afastada convenientemente do núcleo do bairro.


Vila Rodrigues
Situada na Rua da Senhora da Glória, 142, a vila apresenta casas de dois e três pisos interligados por um conjunto de escadas e galerias, e amplo pátio que convida à vida comunitária.


Vila Sousa
Localizada no Largo da Graça, 82, foi construída em 1890. O edifício de grande imponência, ocupa uma área substancial do largo e apresenta a fachada exterior decorada de azulejos. O acesso faz-se por intermédio de um portão de ferro e, no seu interior, o largo é cercado por casas contíguas de dois e quatro pisos." in CNC
Entidade do Roteiro Cultural: Centro Nacional de Cultura

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Do Diário de Miguel Torga

Praia da Oura - Algarve
Miguel Torga escreveu desde 1941 a 1993 um Diário que define com as seguintes palavras: “Este diário (…) não é uma crónica dos meus dias, mas a parábola deles.”
Revisitar a obra de Torga é um exercício de imenso prazer. O Diário é, entre tantos géneros que cultivou,  um dos grandes monumentos que construiu. Dele retirámos o registo deste dia de um  Agosto de 1987.

"Oura, 6 de Agosto de 1987 - Às vezes fico-me a pensar se esta descaracterização do Algarve seria possível nas restantes províncias de Portugal. Se não teria  sido a sua débil integração na pátria que a permitiu. De Portugal e dos Algarves - intitulavam-se os nossos reis, distinguindo nos títulos o cerne  do borne da nação. E aqui difundiram a língua, a religião e os costumes. Mas à tona da realidade. Quando novos conquistadores vieram, tudo se perdeu . Ou está em vias disso. E nenhum dos naturais parece lamentá-lo. Pelo menos com a força da indignação de quem se sente colonizado."
Miguel Torga, in " Diário XV", Círculo de Leitores

terça-feira, 5 de agosto de 2014

Sons do Mundo

A Música não necessita de intérpretes. Se a excelência a veste, tem tradução imediata, instantânea . A  linguagem que a enforma é universal.
Fareed Ayaz & Abu Muhammad, em "Kangna" no Coke Studio Pakistan, Season 4,
(Coke Studio Sessions), evidenciam excelentemente esta singularidade.
E kangana
E kangana
E kangana
E kangana
E kangana
De de ri chail mero
E kangana de de ri chail mero
Kangana de de
Tori binti karoon
Tore payyaan paroon

E kangana
E kangana
Tori binti karoon
Tori binti karoon
Tori binti karoon
Tore payyaan paroon
E kangana
E kangana
Kangana kangana
(...)

A Arte grátis em Londres

Una visitante posa junto a la obra 'Casa Tomada',
de Rafael Gomezbarros, en la muestra 'Pangaea: Arte Nuevo de África y América Latina'
 en la galería Saatchi de Londres. / ADRIAN DENNIS (AFP)
El abecedario del arte gratis en Londres
Una ruta por museos sin pagar por la entrada
"Si está usted este verano en Londres y es amante del arte y la cultura, tiene dos opciones: gastarse un montón de dinero viendo las grandes exposiciones del momento o buscar exhibiciones más modestas pero quizás con más intríngulis y, sobre todo, gratuitas.
Si el dinero no es un problema y le gusta presumir de la gran cultura de consumo, Malevich y Mattise le esperan en la Tate Modern, Virginia Woolf en la National Portrait Gallery, Dennis Hooper en la Royal Academy y Bill Viola en la catedral de San Pablo, por citar cinco posibilidades. Pero sepa que a un matrimonio con dos hijos y la abuela, ese baño de cultura le saldría por 333 euros, descuentos incluidos.
Otra opción es ir a los cuatro puntos cardinales de Londres y visitar exhibiciones que no le costarán ni un duro en el Imperial War Museum, la National Gallery, la Saatchi, la Whitechapel y la Wellcome Collection. Por supuesto, también puede visitar gratis las colecciones permanentes de los grandes museos y galerías.
Nuestro recorrido, solo una posibilidad entre muchísimas otras y no necesariamente la más interesante o la más a la última, podría empezar a primera hora de la mañana en el Imperial War Museum, en el sur de Londres, para ver las nuevas salas dedicadas a la I Guerra Mundial coincidiendo con el centenario de su inicio, que se cumple precisamente estos días. Conviene llegar temprano porque se puede encontrar uno con la sorpresa de tener que esperar varias horas para poder entrar debido a las colas.
Dentro le esperan todo tipo de recuerdos de la guerra, desde uniformes y armas cortas y largas a cuchillos, bayonetas, algún cañón de considerables dimensiones y numerosas pantallas de todas dimensiones que le transportarán en la penumbra hasta el frente del Oeste. Como ocurre casi siempre en Europa occidental, es una visión de la I Guerra Mundial centrada en las trincheras del frente del Oeste. Y, como no podía ser de otra manera, con el denominador común de la presencia británica por todas partes.
Pero tendrá ocasión de sentirse en el barro del Somme, calibrar el tamaño de una tanqueta o comprender pequeños detalles de la vida cotidiana en el frente, desde el sistema de censura de las cartas de los soldados a las latas de comida o las pequeñas tarjetas de visita que repartía un burdel especializado en servir a las tropas británicas, a las que atraía con la leyenda: “Où irons-nous ce soir? Chez Madame Juliette, 7 rue Héronval, ARRAS, English Spoken”. La calle aún existe en Arras, 180 kilómetros al norte de París y escenario en 1917 de una de las grandes batallas de la ofensiva británica en el norte de Francia. El burdel, seguramente ya no.
Para dejar atrás la pesadilla de la guerra nos podemos dirigir a la cercana estación de Lambeth North y viajar con la Bakerloo Line hasta Charing Cross, en el corazón de la capital. Son solo dos estaciones y el metro nos dejará a un paso de la National Gallery. Una vez dentro, no se deje amilanar por los rebaños de turistas que trasuntan por los largos pasillos de la gran pinacoteca londinense discutiendo a gritos si van a ir a comer a un pub o a un restaurante. Si quiere, déjese tentar por la gran exhibición del momento, Making colour. No es de las caras (los tres adultos pueden entrar por 23 libras en total y los menores de 16 años no pagan si van acompañados) pero difícilmente encontrará allí el recogimiento que se respira en la Sunley Room, donde se exhibe la minúscula pero deliciosa exposición Building the picture: Arquitectura en la pintura del renacimiento italiano.
Ahí podrá descubrir cómo el a veces anodino trasfondo arquitectónico de los cuadros renacentistas esconde claves sobre el lugar, la fecha o el simbolismo de la escena representada. En La Anunciación, con San Emidio (1486), Carlo Crivelli nos da numerosas claves de la época a partir de la arquitectura, pero por encima de todo utiliza el edificio para dar una visión privilegiada de María al observador externo que no tienen ni el Espíritu Santo ni el resto de personajes del lienzo. Otros autores se basan en los edificios para dar una idea del tiempo en que sitúan una escena. O pintan un edificio real para situarnos geográficamente.
La segunda jornada de este recorrido podría empezar en Chelsea, en el Oeste de Londres. En la Saatchi Gallery se exhibe Pangaea: Arte Nuevo de África y América Latina. La visita vale la pena aunque solo fuera por las hormigas gigantes del colombiano Rafael Gomezbarros que reciben al visitante y que ya invadieron en el pasado la fachada del Congreso Nacional en Bogotá o el Altar de la Patria en la Quinta Bolívar, en Santa Marta.
Si es su primera visita a la Saatchi, no se pierda 20:50, la genial instalación de Richard Wilson creada en 1987. Por desgracia, en su actual emplazamiento no se permite al público utilizar la pasarela que penetra en la obra misma (“para evitar incidentes”) anulando el 95% del encanto de la instalación. Pero, aún y así, no se lo pierda.
Luego vaya a Sloane Square y tome la District Line hacia el Este, hasta Aldegate East. En la puerta contigua a la estación se encuentra la mítica Whitechapel Gallery. Allí podrá poner a prueba sus dotes de intelectual zambulléndose en el mundo conceptual de Giulio Paolini, turinés de adopción nacido en Génova en 1940, y su exhibición To Be or Not to Be, que toma el nombre de una de sus obras clave. Si no le convencen sus montajes en plexiglás o sus fotografías con imágenes yuxtapuestas, tome de nuevo el metro y viaje hacia Noroeste con la Hammersmith and City Line hasta Euston Square. Allí, muy cerca, está la Wellcome Collection, un centro que combina arte, ciencia, pedagogía y actividades lúdicas puesto en marcha por el Wellcome Trust, una organización benéfica que explora las conexiones entre la medicina, la vida y el arte.
Allí puede visitar ABC idiosincrático de la condición humana, una exhibición que toma cada letra del alfabeto para explorar nuestra idiosincrasia. Desde la D de Deleite a la H de Hereditario, la M de Música o la Y de Yawn (bostezo), el visitante puede expresar sus emociones, compartirlas con el resto del mundo, probar su memoria o simplemente pensar e interactuar. Una forma de encontrarse con uno mismo si su baño de arte le ha hecho antes sentirse algo tonto o le ha hecho dudar de su lugar en el mundo." El País, 05.08.2014

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Imagens da Terra vista do espaço

Península Ibérica iluminada e vista do espaço
"A península Ibérica luzia, a 27 de Julho, como uma galáxia cheia de estrelas, numa foto tirada a partir da Estação Espacial Internacional, a 400 quilómetros da Terra.
A foto mostra a iluminação nocturna de Portugal e Espanha, sul de França, Andorra e uma porção de Marrocos.
Na imagem é possível distinguir as capitais, cidades grandes e pequenas, a concentração de edifícios juntos da costa litoral, assim como o despovoamento do interior.” JN

Imagens fantásticas
"A Nasa ,agência espacial americana, reuniu, num vídeo, imagens feitas por astronautas da Expedition 30, que participam na missão da Estação Espacial Internacional. O vídeo é uma série de sequências de lapso de tempo com trilha sonora de "Walking in the Air", de Howard Blake." MGN

domingo, 3 de agosto de 2014

Ao Domingo Há Música


" Era verdade que um preto e um branco, mesmo sendo conhecidos , não tinham probabilidades de se encontrarem por acaso em Joanesburgo. As suas rotinas podiam desenrolar-se paralelamente durante a maior parte do tempo, mas era surpreendente como eram eficientes os sistemas que evitavam um encontro. " Nadine Gordimer, in  " Um Mundo de Estranhos", 1958, Difel, S.A.

Era este o apartheid que reinava na África do Sul. Feroz, horrendo, brutal, inclemente. Separava o branco dos não brancos. 
Nadine Gordimer, escritora sul-africana, morreu a 13 de Julho findo, na sua casa de Joanesburgo, com 90 anos  O apartheid e os movimentos de libertação foram alguns dos temas que explorou. 
Foi galardoada com o Prémio Nobel da Literatura em 1991. Numa entrevista, declarou que o "dia em que se sentira mais orgulhosa na sua vida não fora quando recebeu o Nobel, mas quando, em 1986, testemunhara num julgamento para salvar a vida de 22 membros da ANC, acusados de traição ".
Nadine Gordimer dizia que "a censura nunca acaba para aqueles que já passaram por isso. É uma marca no imaginário que afecta a pessoa que a sofreu, para sempre."
The Soweto Gospel Choir  tal como Nadine Gordimer é sul-africano, a maioria proveniente do Soweto, bairro pobre de Johannesburg. Agrega um conjunto de vozes que tem representado a África do Sul com um repertório de excepcional musicalidade.
Neste primeiro Domingo de Agosto, escolhemos um registo de um concerto  ao vivo, em 2005,  onde imperam a alegria , a força harmoniosa numa explosão  exuberante.
- Em " Tsepa Thapelo"   os corpos e as vozes  soltam-se  para  lançar uma  canção forte e viva.


-"Seteng Sediba", uma  outra excelente e alegre composição, interpretada com excepcional vivacidade.O colorido das vestes  enche o palco.

sábado, 2 de agosto de 2014

Os Factos

"Caro Zucherman
No passado , como sabes, os factos sempre foram anotações em blocos, o meu modo de saltar para a ficção. Para mim, como para a maioria dos romancistas, qualquer acontecimento autenticamente imaginário começa aí, com os factos, com o específico, e não com o filosófico, com o ideológico ou com o abstracto. 
Todavia , para minha surpresa, parece que desta vez me deu para escrever um livro absolutamente ao contrário, pegando naquilo que já imaginei, por assim dizer, dissecando-o, para assim devolver a minha experiência à sua factualidade original pré-ficcionalizada. Para quê? Para provar que existe um fosso importante entre o escritor autobiográfico que as pessoas pensam que eu sou e o escritor autobiográfico que sou? Para provar que a informação que colhi da minha vida estava, na ficção, incompleta? Se fosse só para isso, não creio que me tivesse dado a este trabalho, uma vez que os leitores atentos, se estivessem interessados a ponto de se preocupar com isso, podiam  ter chegado a essa conclusão sozinhos. Além disso, este livro era desnecessário; ninguém o encomendou, ninguém pediu uma autobiografia de Roth. A encomenda, se alguma vez existiu, foi feita há trinta anos, quando uns certos judeus veneráveis exigiram saber quem era afinal o rapazinho que andava a escrever estas coisas.
Não , parece que a coisa surgiu de outras necessidades e o facto de te enviar este manuscrito - e de te pedir , como estou a fazer , que me digas se achas  que devo publicá-lo - obriga-me a explicar o que talvez me tenha levado a apresentar-me em prosa desta maneira , sem disfarces. Até hoje, sempre usei o passado como base para transformação, para, entre outras coisas, uma espécie  de explicação intrincada do meu mundo a mim mesmo. Para quê apresentar-me sem retoques diante das pessoas quando por norma , no mundo não imaginado, sempre me abstive de divulgar de forma nua a minha vida pessoal ( e impingir uma personalidade televisiva) junto de um público sério?  No pêndulo da exposição pessoal que oscila entre um mailerismo agressivamente exibicionista e um salingerismo (1) de clausura, diria que ocupo um lugar intermédio, tentando resistir à coscuvilhice gratuita e à vaidade na praça pública sem fazer do secretismo e do isolamento um amuleto exageradamente sagrado. Então porquê reivindicar agora visibilidade biográfica, principalmente considerando que fui educado a acreditar que a ficção como realidade independente é tudo o que interessa e que os escritores devem permanecer na sombra?
Pois bem, como esboço de resposta direi que a pessoa perante a qual pretendi tornar-me visível aqui foi, em primeiro lugar, eu próprio. Quando passamos dos cinquenta temos necessidade de encontrar formas de nos tornarmos visíveis aos nossos próprios olhos. Chega um momento, como aconteceu comigo há uns meses, em que de repente uma pessoa fica num estado de confusão e desamparo e deixa de compreender aquilo que até então era óbvio: por que razão faço o que faço, porque vivo onde vivo, porque partilho a minha vida com quem a partilho? A minha mesa de trabalho tinha-se transformado num lugar estranho e, ao contrário de momentos semelhantes em fases anteriores da minha vida em que as velhas estratégias deixavam de funcionar - fosse nas questões práticas do quotidiano, naqueles problemas com que toda gente  depara, fosse nos problemas específicos da escrita - e eu optava decididamente por uma via de renovação, convenci-me de que não era capaz de me reconstruir mais uma vez. Longe de me sentir capaz de me reconstruir, senti que estava a desmoronar-me.
Estou a falar de um esgotamento nervoso. Não vale a pena entrar em pormenores, mas sempre te digo que na primavera de 1987, no auge de um período de dez anos de criatividade, aquilo que estava para ser uma pequena intervenção cirúrgica transformou-se num prolongado calvário físico de que resultou uma depressão extrema  que me deixou à beira da dissolução emocional e mental. Foi no período de meditação pós-depressão, com a clareza que acompanha a remissão de uma doença , que comecei, de modo perfeitamente involuntário, a concentrar praticamente toda a minha atenção vígil em mundos de que vivia afastado há décadas - recordando o ponto de onde tinha partido e a forma como tudo tinha começado. Quando perdemos alguma coisa, dizemos :" Pronto, vamos lá reconstituir os passos. Cheguei a casa, despi o sobretudo , entrei na cozinha", etc., etc. Eu , para recuperar o que tinha perdido, tive de voltar ao momento de origem. Não encontrei um momento de origem único mas sim uma série de momentos , uma história de origens múltiplas, e foi isso que aqui escrevi na tentativa de me reapossar da vida (...)." Phillip Roth, in "Os factos, autobiografia de um romancista", Publicações Dom Quixote, Maio 2014
(1) Alusão a Norman Mailer e a J.D. Salinger. ( N. do T.)


"Os Factos" é a autobiografia nada convencional de um escritor que mudou o nosso modo de ver a ficção – uma obra de irresistível franqueza e criatividade, particularmente instrutiva na revelação das interacções entre a vida e a arte. Em Os Factos, Philip Roth concentra-se em cinco episódios da sua vida: a infância urbana e protegida, nos anos trinta e quarenta; a preparação para a vida americana numa universidade conservadora, nos anos cinquenta; o envolvimento tumultuoso, quando era jovem e ambicioso, com a pessoa mais colérica que conheceu em toda a sua vida (a «rapariga dos meus sonhos», como Roth lhe chama); o choque frontal com um influente grupo de judeus indignados com o seu "Goodbye, Columbus"; e a descoberta, nos excessos dos anos sessenta, de um lado inexplorado do seu talento que o levou a escrever "O Complexo de Portnoy". O livro termina surpreendentemente – à boa maneira de Roth – com um ataque feroz do romancista às suas competências como autobiógrafo.”

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Poema del Cante Jondo

La guitarra.

Empieza el llanto
de la guitarra.
Se rompen las copas
de la madrugada.
Empieza el llanto
de la guitarra.
Es inútil callarla.
Es imposible
callarla.
Llora monótona
como llora el agua,
como llora el viento
sobre la nevada
Es imposible
callarla,
Llora por cosas
lejanas.
Arena del Sur caliente
que pide camelias blancas.
Llora flecha sin blanco,
la tarde sin mañana,
y el primer pájaro muerto
sobre la rama
¡Oh guitarra!
Corazón malherido
por cinco espadas 

Frederico García Lorca, in " Poema del Cante Jondo", 1921


No " Poema del Cante Jondo", Frederico García Lorca  pretendeu produzir  "una obra misteriosa y clara que sea como una flor: arbitraria y perfecta como una flor".  Penetrar no espírito da Andaluzía captando a cultura popular primitiva e misteriosa, marcada pela dor. 
O resultado é  uma obra  prodigiosa  na voz poética de Frederico Garcia Lorca semelhante em tudo ao que o próprio poeta  atribui ao "cantaor": "cuando canta, celebra un solemne rito, saca las viejas esencias dormidas y las lanza al viento envueltas en su voz..., la raza se vale de él para dejar escapar su dolor y su historia verídica".
O Ballet Flamenco de Andalucia  apresentou  "El Poema del Cante Jondo",  em Julho de 2009 , nos Jardins del Generalife de Granada.