sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Regresso

REGRESSO

Por toda a parte espectros
Do mapa percorrido em cinco e quarenta
Prolongados anos


A cidade encontra
O espectro do que eu fui
Saído dos horrores da adolescência

Filtra obscuramente
O meu imo
Que não conheço

Vem
irreconhecível
Ao meu encontro

Tacteamo-nos no escuro
Apaixonadamente

O amor é cego
Mas só ele permite
Realmente ver

Londres, 25 de Novembro de 1996
Alberto Lacerda, in   "O Pajem Formidável dos Indícios", Ed.Assírio &Alvim, 2010


LONDRES REENCONTRADA

O passeio do outro lado da rua

Gente
Que não conhecerei nunca


Ninguém mais nesta mesa
De um café milenário –
Raras vezes
Terei estado menos só


A nave espacial chamada terra
Singra comigo tarde adiante


Tudo volve milenário
As pedras da rua
O cimento gasto do passeio
As recordações



Londres, 3 de Novembro de 1996
Alberto Lacerda, in   "O Pajem Formidável dos Indícios", Ed.Assírio &Alvim, 2010

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Os riscos da Escócia




REFERENDO NA ESCÒCIA
Os custos e os benefícios da independência
Por Voxeurop, The Scotsman
"Segundo o vencedor do Prémio Nobel da Economia, Joseph Stiglitz, não há razões para temer a independência da Escócia, dado que apesar de implicar alguns custos, também traria benefícios significativos. Num editorial publicado no The Scotsman, Stiglitz afirma que “existe, na verdade, pouco fundamento para os receios expressos”.
Antes de mais, Stiglitz não tem qualquer dúvida de que uma Escócia independente “continuaria a fazer parte da Europa” e também acredita que a moeda “não é um problema”:
poderia chegar-se a vários acordos cambiais. A Escócia poderia continuar a usar a libra esterlina – com ou sem o consentimento da Inglaterra. […] Uma vez que as economias da Inglaterra e da Escócia são tão parecidas, uma moeda comum provavelmente funcionaria melhor do que o euro, mesmo sem uma política fiscal comum.
“A questão fundamental com que a Escócia se depara é diferente”, escreve Stiglitz:
está claro que, na Escócia, existe uma espécie de visão e valores partilhados: uma visão do país, da sociedade, da política, do papel do Estado; dos valores como a justiça, a equidade e a oportunidade. […] A visão e os valores escoceses são diferentes dos que dominam a sul da fronteira. A Escócia dispõem de uma educação universitária gratuita, enquanto a Inglaterra tem vindo a aumentar as propinas dos estudantes, obrigando os estudantes com pais sem condições financeiras a contrair empréstimos. A Escócia reafirmou várias vezes o seu compromisso para com o sistema nacional de saúde, enquanto a Inglaterra tem vindo a inclinar-se para a privatização.
Desta forma, conclui Stiglitz, “a independência terá os seus custos – ainda que estes tenham de ser demonstrados de forma convincente –, mas também tem os seus benefícios”: a Escócia poderia decidir onde investir e como “obter mais benefícios dos mesmos através da tributação”.
A questão mais complicada que a Escócia tem de enfrentar é
é se o futuro do país – a sua visão e os seus valores partilhados, cada vez mais distantes dos que dominam a sul da fronteira – será melhor através da independência.
O principal problema é, segundo Stiglitz, o que poderia acontecer “se a Escócia permanecesse no Reino Unido e este saísse da UE”. Na minha opinião, “os riscos de deterioração são, de qualquer forma, significativamente maiores”. VoxEurop,"The Scotsman"

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

A ESTRADA DA FELICIDADE

A ESTRADA DA FELICIDADE
                                                               Há muitas estradas para a felicidade, se 
                                                               os deuses estiverem de acordo.
                                                                                         Píndaro, Odes
"No dia 21 de Março, acordei cedo, como de costume , em casa dos meus pais, na Rua Fernandes da Piedade. A cerimónia do casamento civil iria ter lugar no pequeno hall da entrada da casa, vindo o oficial do Registo até nós e não nós até ele. Eu estava vestido a carácter e a MA apareceu num vestido branco lindíssimo. Vinha serena, sorridente e menineira ( na véspera ou  antevéspera tinha estado invulgarmente nervosa).
Havia bastantes convidados, especialmente do lado dos meus pais. Os pais da Antonieta foram mais discretos e comedidos. Assinámos galhardamente o " compromisso", beijámo-nos, recebemos felicitações e fomos todos para um copo de água, servido no 1º andar do "Café Nicola", situado na Baixa, na Praça 7 de Março. ( Este café viria a ser baptizado pela nossa inesquecível Quina - Maria Joaquina Rodrigues - como o " Kremlin", por ali se reunir uma avantajada fatia da gente de esquerda, como suponho já ter dito).
Demorámos o minimamente necessário, no copo-de-água, e escapámo-nos o mais depressa que pudemos, para nos vestirmos de leve e partirmos de viagem ( eu comprara, pouco antes, um pequeno " Ford", visto que não queria levar o carro da Companhia). Seguimos, via Nelspruit, no Transval, para um hotel de montanha, em Kaapsehoop, não longe daquela pequena cidade.
À partida de Lourenço Marques e durante quase toda a viagem, o dia estava de sol, mas, ao entrarmos na estrada ascendente, que nos levava ao hotel, no topo do monte, era já noite e chovia desabridamente. O hotel, que me fora recomendado pelo meu amigo Rui Baptista, foi um choque: era um velhíssimo edifício de madeira e zinco, e rimava em sintonia gótica, com a noite de bruxas e lobisomens que desabara sobre nós. Eu fiquei transido de desapontamento: embora por dentro o hotel não fosse desagradável, não era aquilo com que tinha sonhado...Fora-me recomendado, como disse, por um amigo, em Lourenço Marques, que ali estivera, provavelmente com tempo primaveril e não em lua-de-mel. Era só por uma noite, mas não era o presente que eu gostaria de dar à MA. Mas ela tinha - como ainda tem - um sentido de humor, que surge sempre, quando é necessário. Jantámos e fomos deitar-nos.
No dia seguinte, partimos, via Pretória e Johannesburg, para Durban. Aí, tinha eu escolhido, por bem conhecer a cidade, o "Hotel Claridge", aparatoso e muito mais sofisticado. Ali ficámos cerca de uma semana, explorando Durban e explorando os complicados caminhos de, pela primeira vez, viver a dois.  A MA era - é - uma pessoa extremamente perceptiva, sensível e de uma grande inteligência dos outros. " Mata-os", por assim dizer, muito antes de mim. Estar com ela era, para mim, um encanto - e,  em muitos aspectos uma  aprendizagem. Ela observava, com atenção disponível e fina, "as pequenas coisas" que me escapavam.
Receio não ter sido um grande cicerone, porque andava num grande tumulto de emoções. E tinha um medo enorme de cometer gafes que lhe ferissem a sensibilidade. Se calhar cometi.
Tinha planeado irmos passar uns dias às montanhas de Drakensberg, no Natal, mas não foi possível, por não haver vaga no hotel. De modo que terminámos a lua-de-mel, em Durban e seguimos para Lourenço Marques. ( O pérfido do Noel Coward costumava dizer que a lua-de-mel é uma ocupação cujo valor tem sido sobrestimado, mas é evidente que não sabia do que estava a falar , por nunca ter experimentado...) Era o ano de 1959. Fomos directamente para a casa da Matola, onde várias coisas, como a instalação de água, não estavam a funcionar...Lá nos fomos adaptando à nova vida , eu, tapado de problemas, numa estação terminal cheia de defeitos técnicos - preço de terem poupado demasiado na construção... A MA, adaptando-se à nova vida de dona-de-casa (inexperiente), com a agravante de eu me ensaiar pouco para levar para casa, alguém, sem avisar...
Não me custou muito adaptar-me  à vida a dois, sendo a MA a pessoa que era: mandando, sem dúvida, no seu Marão, mas perceptiva, inteligente e compreensiva. Ao fim da tarde, quando o serviço mo permitia, íamos até à cidade, para um café, um jantar em casa dos meus Pais ou uma matinée no "Scala" ( às 17.05h).
Foi nessa altura que afinei contactos com os amigos do "Kremlin" ("Café Nicola"). Um deles, foi o Rui Knopfli, que aparecia com ar de pássaro predador, boné nada proletário e palavra afiada e maldosa. Adorava dizer coisas que ofendiam a ortodoxia do " Kremlin", mas tudo lhe era perdoado. Gostava de praticar um humor ultrajante, com uma espécie de grosseria de grand seigneur. Se alguém elogiava muito as qualidades de carácter e de trabalho de um bonzo qualquer, o Knopfli interrompia, brutal: "Toma pouco banho!" Se alguém embasbacava liricamente, para os filmes  de Chaplin, o Knopfli cortava, rente: " Prefiro, de longe, o Bucha e o Estica."  Adorava ferroar os neo-realistas, sobretudo em dias de missa de esquerda bem pensante. O cúmulo do gozo era , para si, destoar. Era , sinceramente , amigo do Craveirinha, que, sorrindo, o apelidava de "lacrau". Quando este o visitava, os cães, sempre profundamente racistas, punham-se a ladrar e logo o Knopfli se apressava  a desculpá-los " Sabes, Zé, os gajos não gostam de pretos". O Craveirinha  desarticulava-se a rir e alisava-lhe as costas, com uma patadinha de ternura: " Grande lacrau...".
(...) 
Foi, por esta altura, que soube da doença fulminante do Reinaldo Ferreira. Estava com um cancro  dos pulmões, internado na Casa de Saúde da Ema Machado da Cruz. Andei a ganhar forças para ir vê-lo. Sabia que era um cancro terminal. Viera de Johannesburg, onde o médico lhe tirara toda a esperança. Como não tínhamos relações muito próximas, eu temia que o meu aparecimento  pudesse significar que "eu sabia". Mas, de qualquer maneira, ele também sabia. E lá fui, de coração apertado, sem qualquer experiência destas situações. Ao chegar, verifiquei que estava lá mais gente. Entremeti o nariz na porta e vi o Reinaldo, estendido no leito, imóvel. Acenei-lhe, sorriu-me. Perguntei desastradamente: " Então, Reinaldo?"Encolheu os ombros, com um ar meio resignado, meio indiferente. Acenei-lhe, de novo, e retirei-me à pressa, para ele não ver a minha comoção. Viria a falecer a 3 de Junho, isto é, pouco depois. Esta morte, quase no momento do meu casamento, afectou-me profundamente. Foi uma pavorosa confirmação. De quê? De uma vulnerabilidade, da nossa efemeridade, do imprevisível, do súbito, do brutal e definitivo.
Embora o não mostrasse, sentia-me profundamente atingido. Vinha-me frequentemente , a memória daquele encolher de ombros. Eu tinha, no fim de contas frequentado o Reinaldo, muito pouco. Mas tinha ficado a gostar muito dele: mais da sua generosidade, até, do que do seu grande talento de poeta e de conversador. Lembrava-me dele como de um pássaro injustamente ferido, em pleno voo. Os deuses, não havia dúvida, ou eram arbitrários ou eram estúpidos: feriam às cegas, sem olhar a quem.
Em Agosto desse mesmo ano, num sarau de poesia, organizado na Câmara Municipal, coube-me falar de poesia de Reinaldo, então ainda não reunida em livro. O texto que li, veio posteriormente a servir de prefácio à edição dos Poemas, publicados no ano seguinte, pela Imprensa Nacional de Moçambique. E foi, depois, incluído no 1º volume da minha Crónica dos Anos da Peste."
Eugénio Lisboa, in " ACTA EST FABULA, Memórias -III - Lourenço Marques Revisited (1955-1976), Ed. Opera Omnia, Outubro de 2013

Eugénio Lisboa programou o registo das suas memórias em cinco volumes. Foram já publicados o Volume I que compreende o período entre 1930 e 1947 e o volume III referente aos anos de 1955 a 1976.  A publicação do volume IV está prevista para os próximos meses de Outubro ou Novembro. Aguardamo-la com obstinada impaciência.

terça-feira, 16 de setembro de 2014

Já é dia


Noite de sonhos voada

Noite de sonhos voada
Cingida por músculos de aço,
profunda distância rouca
da palavra estrangulada
pela boca amordaçada
noutra boca,
ondas do ondear revolto
das ondas do corpo dela
tão dominado e tão solto
tão vencedor, tão vencido
e tão rebelde ao breve espaço
consentido
nesta angústia renovada
de encerrar
fechar
esmagar 
o reluzir de uma estrela
num abraço
 e ternura deslumbrada
a doce, funda alegria
noite de sonhos voada que pelos seus olhos sorria
ao romper de madrugada:
-Ó meu amor, já é dia!...
Manuel da Fonseca, in "Poemas dispersos, Obra Poética", Editorial Caminho

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Quem somos nós?

"Who are you?" é uma reflexão proposta por Gangaji através da leitura do seu próprio livro  "The Diamond in Your Pocket" (audio-livro da Soundstrue). A música tem as vozes de Lisa Gerrard e  Patrick Cassidy na canção " Elegy" do álbum "Immortal Memory". As  imagens são da série da  BBC " Planet Earth",no episódio "Mountains ". O autor e produtor  do vídeo é Kosi Freedom.

domingo, 14 de setembro de 2014

Ao Domingo Há Música

"Há palavras que nos beijam
Como se tivessem boca.
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperança louca.

Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto;
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.

De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas inesperadas
Como a poesia ou o amor.

(O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
No mármore distraído
No papel abandonado)

Palavras que nos transportam
Aonde a noite é mais forte,
Ao silêncio dos amantes
Abraçados contra a morte."

                     Alexandre O'Neil
Mariza dá forma e som às palavras. Lança-as para que voem e aportem  onde quer que haja palco para a música. Corre mundo e mundos esta voz portuguesa.Leva a palavra feita em canção. Acaba de vencer mais um prémio: "Womex 2014". Parabéns Mariza.
No comunicado da Womex, que anuncia o prémio pode ler-se: "Desde a edição do seu primeiro álbum, há 13 anos, Mariza tornou-se conhecida como o expoente máximo vivo do Fado, bem como a artista mais visionária e inovadora no estilo. Ela criou o seu próprio som, que é igual nas tabernas de Lisboa ou nas mais prestigiadas salas de espectáculo no Mundo, e é tanto uma estrela em Portugal como no seio da comunidade da World Music ." Acrescenta ainda o comunicado que Mariza venceu o galardão 2014 "por ter trazido o estilo para novos níveis de reconhecimento internacional e por alcançar novos patamares artísticos dentro do género" .
A Womex é uma plataforma internacional em rede para a indústria da world music.O prémio será entregue a Mariza numa cerimónia a realizar a 26 de Outubro, em Santiago de Compostela,  no âmbito da edição 2014 da Feira de World music."
A saudação deste Domingo vai para Mariza com " Há palavras que nos beijam". Um excelente fado com poema de Alexandre O'Neill e música de Mário Pacheco. 

sábado, 13 de setembro de 2014

Arrumar o passado

“Pois tudo era memória, acontecia
     há muitos anos, e quem se lembrava
  era também memória que passava,
              um rosto que entre outros rostos se perdia"
                                               Manuel António Pina
                                                             
                                        “A memória aniquila o tempo: conduz à  unidade                                                                    aquilo que parece ter  acontecido em separado.”                                                                                     Leo Tolstoi
          
"Arrumar o passado não me parece ser  equivalente a invocá-lo. Estive em tantos lugares , ao longo da minha vida, que trazê-lo até mim é quase perder-me por lugares que já não conheço e que se transfiguram no olhar que lhes lanço. Ferreira Gullar , quando inquirido por que não escrevia as memórias, respondeu que lhe era impossível porque perdera a memória desse tempo. Entretanto, já tinha escrito as Memórias do tempo de exílio que justificava recordar  por ter sido uma época marcante da sua vida.
Todos nós, num processo de rememoração, recuperámos momentos que foram gravados para sempre e que retornam, por vezes,  activados por um ocasional estímulo. (As madalenas de Proust são o exemplo mais  notável.) Nítidos, surgem–nos na limpidez  do tempo vivido. Mas esse tempo não é o tempo real. Nunca se recupera o passado. Quando é invocado não transporta  o sujeito real que o viveu.  Esse sujeito passa a ser a memória do sujeito actual. Sujeito que converte em objecto de reconstrução um tempo que viveu e findou.
Recordo ter procurado um local onde passei algum tempo, na infância. Era uma quinta frondosa com uma casa apalaçada de grandes dimensões, no Norte do país. Por mais que a procurasse, não a localizava. Até que, juntamente com os meus pais , rumámos ao encontro da quinta de infância. Nem sequer houve desvios ou qualquer delonga na identificação. Os meus pais localizaram-na de imediato. A casa surgiu-me  muito mais pequena. Deteriorada pela erosão do tempo. Os antigos  muros altos de pedra, que protegiam dos olhares estranhos  eram, agora, grosseiros  e baixos permitindo abarcar  um campo corroído por ervas daninhas e por  vermes. Era um local que apenas existia na memória. Mudara a quinta? Talvez se tenha deteriorado. Não era, porém, essa mudança que a tornava diferente, desigual da imagem da memória. Era eu, sujeito, personagem, que se transformara.  Crescera, vivera  e o tempo invocado era um tempo visto por outro sujeito, agitado e guardado por outra personagem. Descrevê-lo com esse olhar era reinventar um lugar que nunca existira. A memória reproduz memórias que foram reais num tempo  que já não é o mesmo. Por isso, invocá-las é reconstruir um outro passado que foi diferentemente vivido.
Poder-se-á contrapor que, no tempo da infância, viveu uma criança que se fez adulto. Os olhos de uma criança registaram um mundo proporcional à sua dimensão que não corresponde àquele que como adulto reencontra. Mas se a Memória diz respeito ao tempo vivido e sentido  poder-se-á afirmar que é fidedigna ao registo que dela possui e transcreve. Porquê a necessidade de a confrontar no presente? Será que a validade e a  autenticidade desse registo se afirmarão? Ou será a fluidez das  palavras que dará ao registo a actualidade a que se reporta?
Arrumar o passado não corresponde a qualquer invocação que dele se faça. Arrumar o passado é talvez saber quem fomos e onde chegámos. Arrumar o passado talvez seja reconhecer  que o presente terá findado, quando tiver acontecido. Arrumar o passado é aceitar  que  a memória, que dele fica, será sempre parte integrante de uma vivência que foi nossa e que, talvez possa ser invocada."
Maria José Vieira de Sousa, in " O livro que já escrevi".

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

«País padrasto, Pátria madrasta.»


A mistificação democrática
Por  Baptista-Bastos
“Um dos grandes projectos da República foi a instrução. Uma das prioridades deste Governo é a destruição da escola e a liquidação do ensino, através de todos os meios. Os professores são enxovalhados, e seis mil dentre eles não encontram ocupação. Fecham escolas sob a inacreditável afirmação de que os alunos são escassos, e há miúdos que são obrigados a percorrer dezenas e dezenas de quilómetros a fim de receber as primeiras letras. Tribunais fecham, e os técnicos afirmam que o facto acentua a desertificação do País e a sua decadência social e moral. Estas, as terríveis notícias das últimas horas, aplicadas a um povo que parece ter-se despojado das mais elementares noções de integridade.
João de Barros (1496-1570), o das Décadas, o linguista que escreveu a primeira Gramática da Língua Portuguesa, o sábio que morreu na miséria, como o seu contemporâneo Luís de Camões [1524(?)-1580], perseguido pela inveja e pela ignorância, escreveu um desabafo que define Portugal e as suas misérias: «País padrasto, Pátria madrasta.» A nossa história está repleta destas misérias sociais, políticas e éticas. Sophia, sobre Camões: «Vais ao Paço/pedir a tença/ e pedem-te paciência.» Quem manda odeia quem pensa, desdenha de quem cria, acossa o talento e rechina do génio.
O que está a acontecer, na nossa pobre terra, é a repetição das deformidades que nos têm marcado, desde a nascença. Agora, porém, o travo é muito mais amargo porque perpetrado com estudada ciência, e outrora apenas aplicado pela intuição, embora malevolamente. Os do mando financeiro desmoronam-se, na aparência, porém continuam a dar instruções, através de porta-vozes dissimulados. Só não vê quem não quer saber, só não escreve (nos jornais) quem tem a palavra sequestrada pelo estipêndio. O "sistema" garante a liberdade ao prevaricador, desde que este possua três milhões de euros.
Continuamos sem perceber o que é um banco "bom" e um banco "mau", como permanecemos sem conhecimento de onde provêm os milhões de milhões que vão colmatar os buracos do BES.
Sei muito bem que a democracia é um negócio entre poderes que fingem digladiar-se, e os enganos em que vivemos fazem parte destes jogos indecentes admitidos por todos aqueles que se sentam à mesa do Orçamento, ou por quem os admite com negligência culposa. A democracia é, acaso, o melhor dos regimes porque assim têm querido que pensemos. Um livro que, ocasionalmente, tenho citado, Pourquoi nous n"aimons pas la démocracia, de Myriam Révault d"Allonnes, é capaz de explicar a natureza do regime e as constantes das nossas decepções. Afinal, estamos a atribuir responsabilidades do caos - a quem?, e a quê? A Europa "democrática" é-o, de facto, ou trata-se de outro embuste e de outra mistificação? “ Baptista Bastos em Crónica publicada  no DN de 3 de Setembro de 2014

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Cinema: Os Maias

 
Os Maias - Cenas da Vida Romântica de João Botelho

Os Maias - Cenas da Vida Romântica
2014 - Portugal - Realizador João Botelho
Data de estreia: 11-09-2014
Com: Miguel Guilherme, João Perry, Graciano Dias, Pedro Inês, Maria João Pinho

"A história d’Os Maias, ( adaptação do romance de  Eça de Queirós), começa no Outono de 1875, quando Afonso da Maia se instala numa das casas da família, o Ramalhete. Durante vários anos esteve desabitada e servia apenas para guardar as mobílias do palacete de Benfica. Carlos, neto de Afonso e a única família que lhe restava, tinha acabado o curso de Medicina, em Coimbra nesse ano e queria abrir um consultório em Lisboa, razão pela qual Afonso decidiu deixar Santa Olávia, a sua quinta no norte do país, e acompanhar o neto para Lisboa.
Biografia do realizador:
Cineasta português, João Botelho, frequentou a Escola de Cinema do Conservatório Nacional e o Curso Superior de Engenheira Mecânica na Universidade de Coimbra. Iniciou-se na realização com 2 curtas-metragens para a RTP e o documentário de longa metragem “Os Bonecos de Santo Aleixo”. São vários os filmes premiados nos festivais de Figueira da Foz, Antuérpia, Rio de Janeiro, Veneza, Berlim, Salsomaggiore, Pesaro, Belfort, Cartagena, etc. Todos os seus filmes tiveram exibição comercial em Portugal, quase todos em França e alguns em Inglaterra, na Alemanha, em Itália, em Espanha e no Japão. Foi distinguido com a Comenda da Ordem do Infante, de mérito cultural em 2005." Medeia filmes

A teoria da conspiração e o 11 de Setembro

Faz hoje 13 anos que militantes da Al-Qaeda conduziram aviões comerciais contra as Torres Gémeas nova-iorquinas e o Pentágono
“Mais de uma década depois dos atentados em solo norte-americano, as teorias da conspiração em torno dos ataques da Al-Qaeda a 11 de Setembro de 2001 continuam. No mês passado, dois membros da Câmara dos Representantes norte-americana deram início a uma campanha para relançar o processo iniciado em Dezembro, que passa por forçar a administração Obama a tornar público o relatório de 28 páginas produzido por um comité do Congresso em 2002 por ordem do então presidente George W. Bush.
Walter Jones, republicano da câmara baixa do Congresso, e Stephen Lynch, democrata, querem que o actual presidente dos EUA cumpra a promessa feita em Março de retirar ao documento a classificação “top secret”, para que seja publicado e analisado e assim se perceberem alegações como as do envolvimento da Arábia Saudita.
Jones e Lynch prometeram para hoje uma conferência de imprensa com familiares das vítimas dos ataques da Al-Qaeda em Nova Iorque e Washington, para elevarem a importância da Resolução 428, um documento de duas páginas que introduziram no Congresso no final de 2013 para exigir a divulgação do relatório Bush.
Ontem, em vésperas de se marcarem os 13 anos dos atentados que alteraram profundamente a geoestratégia mundial e que, dizem vários analistas, abriram caminho à criação do Estado Islâmico (EI), foi revelado que o antigo ministro do Interior do Egipto avisou “antecipadamente” os EUA de um “ataque em grande escala” a ser planeado pela Al-Qaeda em solo americano.
No seu julgamento por crimes cometidos enquanto funcionário do governo ditatorial de Hosni Mubarak, deposto em 2011, Habib al-Adly declarou que “avisou repetidamente” a administração Bush, mas as mensagens foram ignoradas. “Recebemos informações do ninho da Al-Qaeda de que a América ia ser sujeita a um grande ataque terrorista”, disse Al-Adly, ministro do Interior entre 1997 e 2011, garantindo que o então presidente egípcio deu ordens para que as informações fossem transmitidas aos EUA em Março de 2001, após análise e verificação. Os dados foram passados à CIA e ao FBI “várias vezes” e, mesmo quando o Egipto “alertou que o plano [terrorista] ia passar à fase operacional”, foram “ignorados”. Por Joana Azevedo Viana, publicado em Jornal i,11 Set 2014 - 05:00
Torres Gémeas em 11 de Setembro de 2001

Torre da Liberdade em 11 de Setembro de 2014


quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Música do Mundo

The Serpent's Egg é o quarto Álbum de  Dead Can Dance duo, Lisa Gerrard e Brendan Perry.Gravado em Outubro de 1988, inclui a canção "The Host of Seraphim" que foi utilizada em vários filmes. 

terça-feira, 9 de setembro de 2014

Tolstoi e os Livros de Setembro

Leo Tolstoi
"Pouco importa a forma como os outros te consideram; a eles podes enganá-los, mas a ti não!” – Dimitri Neklioudov, in Ressurreição.
Ressurreição” é  considerada a última grande obra, um extraordinário romance, de Leon Tolstoi, publicado em 1899. Traduz o apogeu e a síntese do ideário tolstoiano. Um hino redentor e de transcendência pessoal.
No dia em que se assinalam o 186º aniversário do nascimento deste grande escritor russo, 9 de Setembro de 1828, transcrevemos um excelente fragmento deste excepcional romance na rubrica “Os Livros de Setembro”.
" Só ao fim de três anos Nekkludow tornou a ver Katucha. E quando, ao cabo desses três anos, ele tornou a vê-la , não era já o mesmo de outrora.
Socialmente era um brilhante oficial das guardas que ia juntar-se ao regimento e que aproveitava o fim de uma licença para visitar as velhas parentes.
Moralmente, diferia muito do ingénuo rapaz  que mantivera com a doce Katucha simples relações de amor.
Outrora era um rapaz leal e desinteressado, pronto a sacrificar-se pelo que julgasse ser o bem; agora era um egoísta depravado preocupando-se unicamente com o seu prazer pessoal.
Outrora o universo parecia-lhe misterioso, e entusiasticamente tentava penetrar nesse mistério;  agora tudo lhe parecia claro e simples; tudo lhe parecia subordinado às condições da sua vida pessoal.
Outrora sentira a importância e a necessidade da convivência com a natureza e com os homens  que tinham vivido, pensado e sentido antes dele, os filósofos e poetas do passado; agora o importante e necessário eram as convivências com os seus camaradas e a sujeição às regras mundanas do seu meio.
Outrora concebera as mulheres como criaturas misteriosas e encantadoras - encantadoras pelo próprio mistério que as envolve, - agora as mulheres - todas as mulheres com excepção das da sua família e das dos seus amigos, - eram limitadas a um fim muito definido: o instrumento de um gozo já experimentado e sobre todos preterido. Outrora não sentia a necessidade de dinheiro e mal gastava a terça parte da sua anuidade; agora mil e quinhentos rublos mensais evaporavam-se e já tivera explicações desagradáveis com sua  mãe sobre o assunto. Outrora era o Eu espiritual que governava: agora imperava o forte Eu animal. " Leão Tolstoi , in " Ressurreição", Volume 1º, Collecção Economica, Edições da Civilização Brasileira S/A, Rio de Janeiro, 1936

ale-confissao
A Alêtheia Editores editou " Confissão" de Lev Tolstoi  na colecção de clássicos da literatura mundial, onde constam  "Coração de Cão", de Mikhail Bulgakov, e "Cartas de Inglaterra ", de Eça de Queiroz. José Milhazes é o autor do Prefácio.
Sobre o livro: «Confrontado com a crise existencial que o acompanhou durante grande parte da vida, Tolstoi refugiou-se na escrita produzindo este testemunho premente sobre a sua infância, fé, filosofia e posição social. Em Confissão, uma súmula do pensamento de Tolstoi, o leitor pode conhecer os conflitos do homem e a arte do escritor.
Na minha busca por respostas às questões da vida senti o mesmo que um homem perdido numa floresta. Lev Tolstoi, in Confissão»


Foto: Hercule Poirot está de volta 38 anos depois pela mão de Sophia Hannah, a escritora escolhida para dar nova vida ao incomparável detetive belga. Lançamento mundial no dia 9 de setembro.

Sentado no seu café preferido, Hercule Poirot prepara-se para mais um jantar de quinta-feira quando é surpreendido por uma jovem mulher. Ela chama-se Jennie e diz estar prestes a ser assassinada. Mais insólita do que esta afirmação é a sua súplica para que Poirot não investigue o crime. A sua morte é merecida, afirma Jennie, antes de desaparecer noite dentro, deixando o detective perplexo e ansioso por mais informação.
Perto dali, o elegante Hotel Bloxham é palco de três assassinatos. Os crimes têm várias semelhanças entre si: os três corpos estão dispostos em linha reta com os braços junto ao corpo e as palmas das mãos viradas para baixo. E dentro das bocas das vítimas, encontra-se o mais macabro dos pormenores: um botão de punho com o monograma PIJ.
Poirot junta-se ao seu amigo Catchpool, detetive da Scotland Yard, na investigação deste estranho caso. Serão os crimes do monograma obra do mesmo assassino? E poderão de alguma forma estar relacionados com a fugidia Jennie que, por uma razão indecifrável, não abandona os pensamentos do detetive belga?

Hercule Poirot está de regresso num mistério diabólico que vai testar ao limite as suas célebres celulazinhas cinzentas.
Hercule Poirot está de volta 38 anos depois pela mão de Sophia Hannah, a escritora escolhida para dar nova vida ao incomparável ddetective belga. Lançamento mundial no dia 9 de Setembro.Em Portugal a edição é da Ed.Asa - Grupo Leya.

"Sentado no seu café preferido, Hercule Poirot prepara-se para mais um jantar de quinta-feira quando é surpreendido por uma jovem mulher. Ela chama-se Jennie e diz estar prestes a ser assassinada. Mais insólita do que esta afirmação é a sua súplica para que Poirot não investigue o crime. A sua morte é merecida, afirma Jennie, antes de desaparecer noite dentro, deixando o detective perplexo e ansioso por mais informação.
Perto dali, o elegante Hotel Bloxham é palco de três assassinatos. Os crimes têm várias semelhanças entre si: os três corpos estão dispostos em linha recta com os braços junto ao corpo e as palmas das mãos viradas para baixo. E dentro das bocas das vítimas, encontra-se o mais macabro dos pormenores: um botão de punho com o monograma PIJ.
Poirot junta-se ao seu amigo Catchpool, detetive da Scotland Yard, na investigação deste estranho caso. Serão os crimes do monograma obra do mesmo assassino? E poderão de alguma forma estar relacionados com a fugidia Jennie que, por uma razão indecifrável, não abandona os pensamentos do detetive belga?
Hercule Poirot está de regresso num mistério diabólico que vai testar ao limite as suas célebres celulazinhas cinzentas."

"Requiem " de  ANTONIO TABUCCHI,
"O livro que o autor escreveu em português.
Como que suspenso entre a consciência e a inconsciência, entre a realidade e o sonho, um homem encontra-se ao meio-dia em ponto, sem perceber porquê, numa Lisboa deserta e tórrida de um domingo de Julho. Sabe vagamente que tem umas tarefas a cumprir – uma última, sobretudo: encontrar-se com um ilustre poeta desaparecido que, como todos os fantasmas, talvez apareça só à meia-noite.
Entrega-se ao fluxo do acaso, segundo a lógica das livres associações do inconsciente, e dá consigo a cumprir um percurso que o leva a reviver aquilo que foi, a tentar desatar os nós cegos da sua vida passada que nunca conseguiu compreender. A alucinação, a errância, o sonho duram doze horas, nas quais o tempo de uma vida se comprime e se dilata: passado e presente confundem-se e os vivos encontram-se com os mortos no mesmo plano.
Com este Requiem, Antonio Tabucchi, ao contar a experiência de uma viagem misteriosa e sapiencial, escreveu um livro que é um acto de amor a um país que lhe pertence profundamente e à língua na qual este livro está escrito.

Antonio Tabucchi nasceu em Pisa(1943-2012), onde fez os seus estudos, primeiro na Faculdade de Letras e depois na Scuola Normale Superiore. Ensinou nas Universidades de Bolonha, Roma, Génova e Siena. Foi Visiting Professor no Bard College de Nova Iorque, na École de Hautes Études de Paris e no Collège de France. Publicou 27 livros, entre romances, contos, ensaios e textos teatrais. As suas obras estão traduzidas em mais de 40 países. Recebeu numerosos prémios nacionais e internacionais. Sozinho, ou com Maria José de Lancastre, traduziu para italiano a obra de Fernando Pessoa. Considerando que a sua pátria é também a língua portuguesa, escreveu um romance em português, Requiem, 1991. O seu teatro foi levado ao palco, entre outros, por Giorgio Strehler e Didier Bezace. O Fio do Horizonte, Nocturno Indiano, Afirma Pereira e Requiem foram adaptados ao cinema respectivamente por Fernando Lopes, Alain Corneau, Roberto Faenza e Alain Tanner".

Découvrez le site de la Rentrée littéraire 2014 des Éditions Gallimard : liste des ouvrages, extraits et résumés, feuilletages, biographies et agendas des auteurs...
La fête de l'insignifiance
Collection Blanche, Gallimard
Parution : 03-04-2014
144 pages, 140 x 205 mm 
Achevé d'imprimer : 01-03-2014
Genre : Romans et récits 
Catégorie > Sous-catégorie : Littérature française > Romans et récits 
Époque : XXe-XXIe siècle
ISBN : 9782070145645 - Gencode : 9782070145645 - Code distributeur : A1456
Autour du livre
Dans les médias
«Quel livre ! Quel langage à double entente, qui serre la gorge du lecteur en même temps qu’il le fait éclater de rire !»
Marc Fumaroli, Le Figaro littéraire
«Il faut lire de toute urgence le nouveau roman de Milan Kundera, magnifique, solaire, profond, drôle.»
François Busnel, L’Express
«Un roman joyeux et cocasse sur l’esprit de sérieux.»
Marie-Laure Delorme, Le Journal du dimanche
«Léger, soyeux et savant, aussi tendu qu’une toile d’araignée.»
Jérôme Garcin, Le Nouvel Observateur
«Une langue éclatante de lumière.»
Philippe Labro, Paris Match
«L’auteur de La Plaisanterie offre à son lecteur une fête de l’intelligence. Un roman qui feint la légèreté pour voler plus haut.»
Raphaëlle Leyris, Le Monde des livres

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Rituais

" Eu olho para ti pelo canto do olho e tu não dizes nada.A linguagem é uma fonte de mal-entendidos. Mas todos os dias te podes sentar um bocadinho mais perto...
O principezinho voltou no dia seguinte.
- Era melhor teres vindo à mesma hora - disse a raposa. Se vieres, por exemplo, às quatro horas, às três, já eu começo a ser feliz. E quanto mais perto for da hora, mais feliz me sentirei. Às  quatro em ponto já hei-de estar toda agitada e inquieta: é o preço da felicidade! Mas se chegares a uma hora qualquer, eu nunca saberei a que horas é que hei-de começar a arranjar o meu coração, a vesti-lo, a pô-lo bonito...São precisos rituais.
- O que é um ritual? - perguntou o principezinho.
- Também é uma coisa de que toda a gente se esqueceu - respondeu a raposa . - É o que faz com que um dia seja diferente dos outros dias e uma hora, diferente das outras horas. Os meus caçadores, por exemplo, têm um ritual. À quinta-feira, vão ao baile com as raparigas da aldeia. Assim, a quinta feira é um dia maravilhoso. Eu posso ir  passear para as vinhas. Se os caçadores fossem ao baile num dia qualquer, os dias eram todos iguais uns aos outros e eu nunca tinha férias.
Foi  assim que o principezinho prendeu a si a raposa." Antoine de Saint-Exupéry, in " O Principezinho",1946, Editora Caravela ,Lda.

domingo, 7 de setembro de 2014

Ao Domingo Há Música

Nova, Nova, Nova

"Não era a minha alma que queria ter.
Esta alma já feita, com seu toque de sofrimento
e de resignação, sem pureza nem afoiteza.
Queria ter uma alma nova.
Decidida capaz de tudo ousar.
Nunca esta que tanto conheço, compassiva, torturada
de trazer por casa.
A alma que eu queria e devia ter…
Era uma alma asselvajada, impoluta, nova, nova,
nova, nova!
Irene Lisboa, (1892-1958)

Nem sempre a mudança é possível. Desejá-la e tentá-la é uma hipótese. A música opera, frequentemente, no território do impossível: aquele que dá forma ao sonho.
Assim aconteceu com  Al van der Beek & Steven Sharp Nelson e Kayson Brown no desenvolvimento do conceito "Beethoven's 5 Secrets" que combina a canção "Secrets" dos  " One Republic" com alguns movimentos da "5 ª Sinfonia, C Minor, Opus 67" de Ludwig van  Beethoven.  
"We used 5 different melodies from the 4 movements of Beethoven's 5th Symphony (not including the "bridge" the orchestra plays in the middle). Try to guess where they are and where they come from!" É o desafio que nos lançam estes músicos.
Ligar o Clássico, a música erudita, com  o moderno, a música pop. Uma orquestra de estudantes , jovens com idades compreendidas entre os 13 e os 18  anos. A cultura da música clássica como inspiração para novos talentos e novas obras. Em Arte,  as mudanças acontecem. Beethoven descobriu muitos dos "segredos"  da Arte. Por isso esta composíção é dedicada pelos seus autores  a  Ludwig van  Beethoven (1770-1827).
Eis  a American Heritage Lyceum Philharmonic, sob a direcção de Kayson Brown. No violino, Julie Ann Nelson & Matthew John Nelson . Steven Sharp Nelson em violoncelo acústico, violoncelos eléctricos, percussão e Al van der Beek na  percussão.



sábado, 6 de setembro de 2014

A falsa guerra humanitária

Intervenção ocidental curto-circuita União Africana
Era necessário matar Kadhafi?
(inédito: Agosto 2014, Le Monde Diplomatique)
por Jean Ping
A eliminação de Muammar Kadhafi, em 20 de Outubro de 2011, significou o fim do seu regime despótico, mas não do caos reinante na Líbia. Os danos colaterais dos ataques aéreos ocidentais afectam hoje todos os que vivem à volta do Sara. A fim de evitar um tal desastre, a União Africana havia proposto uma solução política, que estava prestes a resultar quando se deu a intervenção estrangeira. Um actor de primeiro plano dá aqui testemunho dos acontecimentos.

"Em 2011, no espaço de dezasseis dias, tiveram lugar duas intervenções militares pesadas no espaço soberano de África, sem que a União Africana [1], considerada uma entidade sem importância, tenha sido consultada. Entre 4 e 7 de Abril, as tropas francesas intervieram na Costa do Marfim. Alguns dias antes, a partir de 19 de Março, as forças da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), principalmente francesas e britânicas, tinham começado a bombardear a Líbia. Para o antigo presidente sul-africano Thabo Mbeki, estes acontecimentos mostraram «a impotência da União Africana em fazer valer os direitos dos povos africanos face à comunidade internacional» [2]. O facto foi ignorado pela comunicação social, mas esta organização, a cuja Comissão presidi de 2008 a 2013, havia formulado para os dois conflitos soluções pacíficas concretas que os ocidentais e os seus aliados desautorizaram.
Nos primeiros dias do ano de 2011, tudo começou a agitar-se na África do Norte. A 14 de Fevereiro, o presidente tunisino Zine El-Abidine Ben Ali pôs-se em fuga. A Europa, estupefacta, não interveio. A 10 de Fevereiro, Hosni Mubarak demitiu-se. A 12 de Fevereiro, a contestação atingiu a vizinha Líbia. Para os ocidentais, este último levantamento foi um presente inesperado, pois permitiu-lhes, com poucos custos, fazer o papel de herói humanitário e fazer esquecer o apoio que haviam prestado aos outros regimes ditatoriais. Com a aprovação da resolução 1973 do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU), em 17 de Março, eles pensavam ter obtido autorização para levar a cabo uma dança macabra à volta do dirigente líbio Muammar Kadhafi.
«Afeganistão próximo»
Entre os protagonistas desse conflito figurava, em primeiro lugar, o Conselho Nacional de Transição (CNT) e os seus heteróclitos revolucionários, que tinham como único objectivo comum desembaraçar-se do tirano. Para o conseguir, o apoio exterior era-lhes indispensável [3].
Em segundo lugar intervinha a coligação ocidental e o seu braço armado, a OTAN, que irromperam, quais justiceiros, na nova batalha do deserto. Decidiram reagir ferozmente aos comportamentos de Kadhafi e, como com Saddam Hussein, eliminá-lo definitivamente. Mas será que, para se verem livres de um só homem e parar o massacre de civis, era mesmo necessário desencadear uma guerra punitiva desta dimensão e cometer um novo massacre de civis, igualmente inocentes? Brincaram com o fogo, tornando previsível o caos que, como na Somália, no Iraque, no Afeganistão e noutros lugares, daí resultaria.
O campo ocidental contava naturalmente com o grande irmão americano, a «nação indispensável» segundo a expressão da antiga secretária de Estado Madeleine Allbright. Acontece que, nesse momento, Barack Obama revelava a sua nova doutrina estratégica de deslocação para o eixo Ásia-Pacífico [4]. A América, presa aos problemas internos nascidos da crise económica e financeira, tinha necessidade de se virar um pouco para si própria. Tinha por isso decidido que passaria a exercer a liderança mundial «na retaguarda» (leading from behind). Abandonando as tradições da sua diplomacia, a França assumiu o comando da coligação anti-Kadhafi. Dirigiu as hostilidades na «frente» e por procuração internacional.
Mas quem iria governar a Líbia pós-Kadhafi? Quem poderia apaziguar as tensões inter-regionais, inter-tribais e inter-religiosas que nasceriam inevitavelmente da terrível confrontação que daí adviria? Essas eram as questões essenciais que colocávamos no seio da União Africana.
A resolução 1973 limitava-se a exigir um cessar-fogo e a interditar todos os voos no espaço aéreo líbio para proteger os civis; excluía a intervenção de um exército de ocupação. Sem utilizar o seu direito de veto, a Rússia e a China, na falta de resposta sobre os meios projectados para levar a cabo a resolução, optaram prudentemente pela abstenção (tal como a Alemanha, o Brasil e a Índia). A intervenção militar, com o recurso às forças especiais no terreno, a ajuda aos rebeldes ou os ataques aéreos contra as tropas e os centros de comando, constituiu para as duas potências uma afronta e uma mudança radical de procedimentos. Nunca estivera em questão liquidar Kadhafi ou impor uma mudança de regime.
Os procedimentos ocidentais, considerados ilegais e imorais por muitos, suscitaram numerosas reacções internacionais, particularmente azedas, como a de Mbeki: «Pensávamos ter posto definitivamente termo a cinco séculos de escravatura, de imperialismo, de colonialismo e de neocolonialismo (…) Ora, as potências ocidentais arrogaram-se o direito, de maneira unilateral e descarada, de decidir sobre o futuro da Líbia» [5]. Esta apoplexia ilustrava um sentimento de humilhação largamente partilhado.
Para nós, com toda a evidência, o espectro da guerra civil, da divisão, da «somalização», do terrorismo e do narcotráfico pairava sobre a Líbia. Por que razão só nós o víamos? Iam para lá combater para defender a democracia, pelo controlo do petróleo, em função de sórdidos cálculos eleitoralistas (Nicolas Sarkozy já estava em pré-campanha para as presidenciais do ano seguinte) ou por tudo isso ao mesmo tempo? Não havia, nessa fase, outras vias possíveis antes dos bombardeamentos em massa?
A União Africana estava convencida de que havia. Foi por isso que optou por uma resposta mais política do que militar e concentrou os seus esforços na elaboração de um roteiro, adoptado a 10 de Março. Esse documento comportava essencialmente três pontos: a «cessação imediata das hostilidades»; o diálogo com vista a uma «transição consensual» – quer dizer, excluindo a manutenção no poder de Kadhafi –; e objectivo último de instauração de um «sistema democrático». O Ocidente queria suprimir um homem; a União Africana pretendia mudar o sistema.
A 19 de Março, o comité dos chefes de Estado [6] mandatado pela União para convencer as duas partes do conflito líbio a aceitar os termos de uma solução política reuniu-se em Nuakchott, na Mauritânia, depois de uma primeiro encontro em Addis-Abeba, na Etiópia, no seio da organização. No meio das deliberações, Ban Ki-moon, o secretário-geral da ONU, quis com toda a urgência falar comigo ao telefone. Ele participava nesse sábado, em Paris, numa outra cimeira internacional que reunia os dirigentes árabes, europeus e norte-americanos com o objectivo de «decidir e agir colectivamente sobre a aplicação da resolução 1973». Os governos presentes em Paris, anunciou-me ele, tinham-no expressamente encarregado de me pedir para dissuadir os nossos representantes de irem a Trípoli e a Benghazi. Ele invocava uma razão clara: «As operações militares da OTAN vão começar hoje». Um cenário semelhante, visando a marginalização da ONU e a mediação da União Africana, ocorreu na Costa do Marfim [7], demonstrando que, para certas potências, nenhuma autoridade internacional pode ser superior à sua.
Para nós, apenas significou algum adiamento. A 10 de Abril, os representantes da União Africana apresentaram-se em Trípoli para se encontrarem com Kadhafi. No dia seguinte, em Benghazi, as nossas viaturas foram cercadas desde o aeroporto e nós fomos escarnecidos até à chegada ao hotel onde deviam encontrar-se os porta-vozes. «Bernard-Henri Levy está seguramente a manobrar isto, talvez neste hotel», pensei eu. Mustapha Abdeljalil, presidente do CNT, e a sua equipa entraram nas discussões sob a pressão ininterrupta de uma multidão de manifestantes agressivos, que gritaram até à nossa partida. Resultado: Kadhafi aceitou a nossa proposta, mas a resposta do CNT foi negativa. Os pirómanos levaram a melhor sobre os bombeiros e o confronto venceu a negociação.
Com o passar do tempo, será evidente que a União Africana foi a única organização internacional a propor uma saída política. Sem dúvida porque África já tinha vivido experiências semelhantes, das quais guardava estigmas indeléveis. Basta lembrar o drama da Somália desde há mais de vinte anos, na sequência da desastrosa operação militar americana «Restore Hope», em 1993. E também o caos iraquiano e a desintegração actual deste Estado [8].
Na Líbia, como tínhamos previsto, o sonho europeu também resultou em desastre. Os aparelhos de Estado implodiram em proveito de senhores da guerra, de clãs mafiosos e de islamo-negocistas; a pilhagem de stocks de armas transformou o país num gigantesco arsenal a céu aberto; as fileiras de imigração clandestina multiplicaram-se [9]. A tal ponto que a Líbia se tornou, para usar a expressão de um antigo chefe das informações francesas, «o Afeganistão próximo dos europeus».
Nós tínhamos avisado o mundo inteiro: esta bomba ao retardador acabará por explodir nas mãos dos seus artífices, que não sabiam a história que estavam a escrever. A proposta africana que ninguém quis ouvir falar visava persuadir Kadhafi a seguir a via do exílio para o exterior, como Ben Ali, ou a do exílio interno, como Mubarak. Ele devia renunciar ao que lhe restava do poder para poupar o seu povo às desgraças e à humilhação de uma intervenção estrangeira, bem como aos horrores de uma guerra civil cujo resultado lhe seria fatal.
Por trás do pretexto humanitário
Começámos à procura de possíveis locais de acolhimento. Para o exílio interno, tínhamos proposto Sebha, capital da região de Fezzan, próximo dos países amigos da África negra – nomeadamente o Chade. Para o exílio externo, a Turquia tinha rejeitado a nossa oferta. A Venezuela tinha-se oferecido, mas era muito delicado. O Egipto tinha sido contactado, mas os apoiantes de Kadhafi tinham rejeitado essa proposta…
A diplomacia é a arma principal da nossa União. A nossa lógica é a da «paz preventiva», e não, como demasiadas vezes acontece no caso do Ocidente, a da «guerra preventiva», desprovida de toda a legitimidade. Por que não nos deram a oportunidade de levar a cabo o nosso plano, que Kadhafi teria aceite? Curiosamente, hoje, deixámos de ouvir falar Bernard-Henri Levy, o filósofo hiperactivista e belicista francês, sobre a situação na Líbia. Virou-se para outras frentes: Síria, Ucrânia…
Entre os outros actores estratégicos figuravam os Estados árabes e a sua organização regional. Contrariamente à União Africana, a Liga Árabe estava praticamente alinhada com a posição ocidental, sendo o Qatar o mais belicista. Quanto ao próprio Kadhafi, ele não compreendia que, num mundo transformado numa aldeia global, todos os povos aspirem à liberdade, à dignidade e à justiça. A sua reacção ao levantamento popular vinha de outros tempos: a repressão, apenas a repressão.
A 20 de Outubro, a aviação francesa interceptou o comboio do chefe líbio. Escapando a pé, foi identificado, espancado brutalmente por um grupo de insurrectos e finalmente morto. Descobriu-se que a «guerra humanitária», enroupada com bons e nobres sentimentos do novo princípio da «responsabilidade de proteger» – adoptado pelas Nações Unidas em 2005 –, não era senão uma mistificação. Ela dissimulava uma política de poder clássica visando derrubar um regime e assassinar um chefe de Estado estrangeiro. Desta vez com a cobertura da ONU.
JEAN PING *
* Antigo ministro dos Negócios Estrangeiros do Gabão e antigo presidente da Comissão da União Africana. Autor de Eclipse sur l’ Afrique. Fallait-il tuer Kadhafi?, Michalon, Paris, 2014.
Terça-feira 19 de Agosto de 2014, Le Monde Diplomatique, edição portuguesa

Notas


[1] Em 2002, A União Africana (www.au.int) sucedeu à Organização da União Africana (OUA), fundada em 1963. Ela agrupa cinquenta e quatro países do continente, todos representados na Conferência dos chefes de Estado, sua instância dirigente, enquanto a Comissão é o seu órgão executivo.
[2] Thabo Mbeki, «Union africaine: une decennie d’echecs», Courrier internacional, Paris, 27 de Setembro de 2012.
[3] Ler Serge Halimi, «As armadilhas de uma guerra», Le Monde diplomatique – edição portuguesa, Abril de 2011.
[4] Ler Michael T. Klare, «O Pentágono vira-se para o Pacífico», Le Monde diplomatique – edição portuguesa, Março de 2012.
[5] Thabo Mbeki, «Union africaine: une décennie d’échecs», op. cit.
[6] Jacob Zuma (África do Sul), Mohamed Ould Abdel Aziz (Mauritânia), Denis Sassou Ngueso (Congo), Amadou Toumani Touré (Mali) e Yoweri Museveni (Uganda).
[7] Ler Anne-Cécile Robert, «Origens e vicissitudes do “direito de ingerência”», Le Monde diplomatique – edição portuguesa, Maio de 2011.
[8] Ler Gérard Prunier, «Terrorisme somalien, malaise kényan», Le Monde diplomatique, Novembro de 2013, e Peter Harling, «O que a explosão iraquiana anuncia», Le Monde diplomatique – edição portuguesa, Julho de 2014.
[9] Ler Patrick Haimzadeh, «A Líbia nas mãos das milícias», Le Monde diplomatique – edição portuguesa, Outubro de 2012.