sexta-feira, 13 de junho de 2014

O ladrão do menor acaba por ser vítima do maior

"O Sermão de Santo António aos Peixes foi pregado em 13 de Junho de 1654 em São Luís do Maranhão, três dias antes de embarcar escondido para Portugal no auge da luta dos jesuítas contra a escravização dos índios pelos colonizadores, procurando o remédio da salvação dos Índios. O sermão revela toda a ironia, riqueza nas sugestões alegóricas e agudo senso de observação sobre os vícios e vaidades do homem, comparando-o, por meio de alegorias, aos peixes."
 Sermão de Santo António aos peixes
“Notai, peixes, aquela definição de Deus: Rector maris atque terrae: Governador do mar e da terra, para que não duvideis que o mesmo estilo que Deus guarda com os homens na terra observa também convosco no mar. Necessário é logo que olheis por vós e que não façais pouco caso da doutrina que vos deu o grande doutor da Igreja Santo Ambrósio, quando, falando convosco, disse Cave nedum alium insequeris, incidas in validiorem (1). Guarde-se o peixe que persegue o mais fraco para o comer, não se ache na boca do mais forte, que o engula a ele. Nós o vemos aqui cada dia. Vai o xaréu correndo após o bagre, como o cão após a lebre, e não vê o cego que lhe vem nas costas o tubarão com quatro ordens de dentes, que o há-de engolir de um bocado. E o que com maior elegância vos disse também Santo Agostinho: Proedo minorisfit proeda majoris (2).
Mas não bastam, peixes, estes exemplos, para que acabe de se persuadir a vossa gula, que a mesma crueldade que usais com os pequenos tem já aparelhado o castigo na voracidade dos grandes. Já que assim o experimentais com tanto dano vosso, importa que daqui por diante sejais mais repúblicos e zelosos do bem comum, e que este prevaleça contra o apetite particular de cada um, para que não suceda que, assim como hoje vemos a muitos de vós tão diminuídos, vos venhais a consumir de todo. Não vos bastam tantos inimigos de fora e tantos perseguidores tão astutos e pertinazes, quantos são os pescadores, que nem de dia nem de noite deixam de vos pôr em cerco e fazer guerra por tantos modos? Não vedes que contra vós se emalham e entralham as redes; contra vós se tecem as nassas; contra vós se torcem as linhas; contra vós se dobram e farpam os anzóis; contra vós as fisgas e os arpões? Não vedes que contra vós até as canas são lanças e as cortiças armas ofensivas? Não vos basta, pois, que tenhais tantos e tão armados inimigos de fora, senão que também vós de vossas portas adentro o haveis de ser mais cruéis, perseguindo-vos com urna guerra mais que civil, e comendo-vos uns aos outros? Cesse, cesse já, irmãos peixes, e tenha fim algum dia esta tão perniciosa discórdia; e pois vos chamei e sois irmãos, lembrai-vos das obrigações deste nome. Não estáveis vós muito quietos, muito pacíficos e muito amigos todos, grandes e pequenos, quando vos pregava Santo António? Pois continuai assim e sereis felizes.
Dir-me-eis (como também dizem os homens) que não tendes outro modo de vos sustentar. E de que se sustentam entre vós muitos que não comem os outros? O mar é muito largo, muito fértil, muito abundante, e só com o que bota às praias pode sustentar grande parte dos que vivem dentro nele. Comerem-se uns animais aos outros é voracidade e sevícia, e não estatuto da natureza, Os da terra e do ar, que hoje se comem, no princípio do mundo não se comiam, sendo assim conveniente e necessário para que as espécies de todos se multiplicassem. O mesmo foi (ainda mais claramente) depois do dilúvio, porque tendo escapado somente dois de cada espécie, mal se podiam conservar, se se comessem. E finalmente no tempo do mesmo dilúvio, em que todos viveram juntos dentro na Arca, o lobo estava vendo o cordeiro, o gavião a perdiz, o leão o gamo, e cada um aqueles em que se costuma cevar; e se acaso lá tiveram essa tentação, todos lhe resistiram e se acomodaram com a ração do paiol comum, que Noé lhe repartia. Pois se os animais dos outros elementos mais cálidos foram capazes desta temperança, por que o não serão os da água? Enfim, se eles em tantas ocasiões, pelo desejo natural da própria conservação e aumento, fizeram da necessidade virtude, fazei-o vós também; ou fazei a virtude sem necessidade, e será maior virtude.
Outra coisa muito geral, que não tanto me desedifica, quanto me lastima, em muitos de vós, é aquela tão notável ignorância e cegueira que em todas as viagens experimentam os que navegam para estas partes. Toma um homem do mar um anzol, ata-lhe um pedaço de pano cortado e aberto em duas ou três pontas, lança-o por um cabo delgado até tocar na água, e em o vendo o peixe, arremete cego a ele e fica preso e boqueando, até que assim suspenso no ar, ou lançado no convés, acaba de morrer. Pode haver maior ignorância e mais rematada cegueira que esta? Enganados por um retalho de pano, perder a vida! Dir-me-eis que o mesmo fazem os homens. Não vo-lo nego. Dá um exército batalha contra outro exército, metem-se os homens pelas pontas dos piques, dos chuços e das espadas, e por quê? Porque houve quem os engodou, e lhe fez isca com dois retalhos de pano. A vaidade, entre os vícios, é o pescador mais astuto e que mais facilmente engana os homens. E que faz a vaidade? Põe por isca nas pontas desses piques, desses chuços e dessas espadas dois retalhos de pano, ou branco, que se chama hábito de Malta, ou verde, que se chama de Avis, ou vermelho, que se chama de Cristo e de Santiago; e os homens, por chegarem a passar esse retalho de pano ao peito, não reparam em tragar e engolir o ferro. E depois disso, que sucede? O mesmo que a vós. O que engoliu o ferro, ou ali ou noutra ocasião, ficou morto e os mesmos retalhos de pano tornaram outra vez ao anzol para pescar outros. Por este exemplo vos concedo, peixes, que os homens fazem o mesmo que vós, posto que me parece que não foi este o fundamento da vossa resposta ou escusa, porque cá no Maranhão, ainda que se derrame tanto sangue, não há exércitos nem esta ambição de hábitos.
Mas nem por isso vos negarei que também cá se deixam pescar os homens pelo mesmo engano, menos honra da e mais ignorantemente. Quem pesca as vidas a todos os homens do Maranhão, e com quê? Um homem do mar com uns retalhos de pano. Vem um mestre de navio de Portugal com quatro varreduras das lojas, com quatro panos e quatro sedas, que já se lhe passou a era e não tem gasto. E que faz? Isca com aqueles trapos aos moradores da nossa terra; dá-lhe uma sacadela e dá-lhe outra, com que cada vez lhe sobe mais o preço; e os bonitos, ou os que o querem parecer, todos esfaimados aos trapos; e ali ficam engasgados e presos, com dívidas de um ano para outro ano e de uma safra para outra safra, e lá vai a vida. Isto não é encarecimento. Todos a trabalhar toda a vida, ou na roça ou na cana, ou no engenho ou no tabacal; e este trabalho de toda a vida, quem o leva? Não o levam os coches, nem as liteiras, nem os cavalos, nem os escudeiros, nem os pajens, nem os lacaios, nem as tapeçarias, nem as pinturas, nem as baixelas, nem as jóias. Pois em que se vai e despende toda a vida? No triste farrapo com que saem à rua. E para isso se matam todo o ano!
Não é isto, meus peixes, grande loucura dos homens com que vos escusais? Claro está que sim; nem vós o podeis negar. Pois se é grande loucura esperdiçar a vida por dois retalhos de pano quem tem obrigação de se vestir; vós, a quem Deus vestiu do pé até à cabeça, ou de peles de tão vistosas e apropriadas cores, ou de escamas prateadas e douradas, vestidos que nunca se rompem nem gastam com o tempo, nem se variam ou podem variar com as modas, não é maior ignorância e maior cegueira deixares-vos enganar, ou deixares-vos tomar pelo beiço com duas tirinhas de pano? Vede o vosso Santo António, que pouco o pôde enganar o mundo com essas vaidades. Sendo moço e nobre, deixou as galas de que aquela idade tanto se preza, trocou-as por uma loba de sarja e uma correia de cónego regrante; e depois que se viu assim vestido, parecendo-lhe que ainda era muito custosa aquela mortalha, trocou a sarja pelo burel e a correia pela corda. Com aquela corda e com aquele pano pescou ele muitos, e só estes se não enganaram e foram sisudos.

(1) «Tem cuidado, não caias nas mãos de um mais potente, quando vais em perseguição de um outro.»
(2) «O ladrão do menor acaba por ser vítima do maior.»
Padre António Vieira, in “Sermões”,Círculo dos Leitores

Padre António Vieira
"De padre António Vieira disse Fernando Pessoa ser o «imperador da língua portuguesa». Jesuíta, orador e escritor, nasceu em Lisboa em 1608, e morreu em 1687, no Brasil, mais propriamente na Baía. Ordenado sacerdote em 1635, lutou empenhadamente pela realização de reformas económicas e sociais. Na sua oratória, conjugou visão e pragmatismo, como seria de esperar de um homem de acção. Com uma construção literária e argumentativa notáveis, os seus sermões revelam uma intensa ligação com a vida pública, o que resulta numa prosa eminentemente funcional mas que não perde nunca o nível de universalidade necessário a toda a obra de arte perdurável. Possuidor de uma inteligência poderosíssima, padre António Vieira arquitectou mundos à medida dos seus sonhos e deixou-nos como legado uma obra que se afirmaria como um dos paradigmas da prosa portuguesa." Leya

quinta-feira, 12 de junho de 2014

Notícias do Mundo

O presidente do Centro de Estudos Espeleológicos e Arqueológicos do Algarve (CEEAA) alertou hoje para a vandalização e o estado de abandono em que estão parte das mais de 200 grutas existentes no barrocal algarvio.
“Restos de fogueiras que tingiram o interior das grutas de negro, inscrições nas paredes, garrafas de vidro partidas, lixo e estalactites e estalagmites partidas são alguns dos vestígios da vandalização visíveis na gruta da Salustreira Menor, na Fonte da Benémola, Loulé, que em tempos acolhia uma comunidade de morcegos, praticamente extinta.
Segundo contou à agência Lusa o espeleólogo João Varela, as grutas algarvias que estão em maior risco de conservação são as da Fonte da Benémola, em Querença, a de Algar dos Mouros, em Salir, que está em risco de derrocada, a da Igrejinha dos Soídos, em Alte (as três no concelho de Loulé) e ainda a gruta de Ibne Amar, em Lagoa.”Diário Digital / Lusa
OCDE: menos crescimento nas economias emergentes
“As principais economias emergentes do mundo estão a crescer menos, enquanto o desempenho dos países da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Económico (OCDE) se mantém estável, revelou um relatório publicado esta terça-feira,10 de Junho, pela OCDE.
Segundo o relatório, o índice geral de indicadores antecedentes da China, Índia, Coreia do Sul, Japão e Indonésia tem diminuído de forma consecutiva, ao longo dos últimos cinco meses, e chegou a 99,0 no mês de Abril. Os índices da China, Brasil e Rússia são todos inferiores a 100.
Comparado com os países emergentes, os índices dos países-membros da OCDE e da Zona Euro atingiram 100,6 e 101,1, respectivamente, o que mostra a estabilidade do crescimento económico das duas regiões. Os Estados Unidos também mantiveram o valor de 100,5, nos últimos cincos meses. O desempenho da economia japonesa foi classificado como irregular. “

Mosquitos geneticamente modificados abrem nova frente no combate à malária
AFP - Agence France-Presse
Biólogos anunciaram nesta terça-feira ter desenvolvido uma nova arma contra a malária, ao criarem mosquitos geneticamente manipulados para produzir principalmente descendentes machos, levando, eventualmente, ao desaparecimento de uma população inteira de insectos.
A técnica de selecção sexual produz uma geração de mosquitos em que 95% são do sexo masculino, enquanto nas populações normais este percentual corresponde a 50%, reportaram os cientistas em artigo publicado, na revista Nature Communications.
Restam tão poucas fêmeas que a população de mosquitos eventualmente desaba, reduzindo o risco de que os humanos entrem em contacto com o parasita da malária, transmitido pelas fêmeas que se alimentam de sangue.
"A malária é uma doença debilitante, com frequência fatal, e nós precisamos encontrar novas formas de combatê-la", afirmou o chefe do estudo, Andrea Crisanti, professor do Imperial College de Londres.
"Achamos que nossa abordagem inovadora representa um enorme avanço. Pela primeira vez, fomos capazes de inibir a produção de descendentes fêmeas em laboratório e isto nos dá novas formas de eliminar a doença", continuou.
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a malária mata mais de 600.000 pessoas ao ano, sendo as principais vítimas as crianças pequenas da África subsaariana.
Resultado de seis anos de trabalho, o método  concentra-se nos mosquitos "Anopheles gambiae", os transmissores mais perigosos do parasita da malária.
Os cientistas injectaram uma parte de enzima de DNA no código genético dos embriões de mosquitos machos. Basicamente, a modificação parte em pedaços o cromossomo X durante a produção de espermatozoides na idade adulta.
Como resultado, quase nenhum espermatozoide funcional continha o cromossomo X, que determina descendentes fêmeas. Ao contrário, a maior parte dos espermatozoides carregava o cromossomo Y, que produz machos.
Os mosquitos modificados foram testados em cinco jaulas, cada uma contendo 50 machos geneticamente modificados e 50 fêmeas silvestres normais.
Em quatro das cinco jaulas, toda a população desapareceu em seis gerações devido à falta cada vez maior de fêmeas.
Os mosquitos machos modificados produziram apenas herdeiros machos modificados, que tiveram o mesmo tipo de descendentes até que não sobraram mais fêmeas.
"A pesquisa ainda está no começo, mas estou muito esperançoso de que esta nova abordagem possa, enfim, levar a uma forma barata e eficaz de eliminar a malária de regiões inteiras", declarou um colega de Crisanti, Roberto Galizi.
Num  comentário independente, o especialista Michael Bonsall, da Universidade de Oxford, referiu-se à pesquisa como um "trabalho muito legal".
"Isto tem implicações importantes para limitar a disseminação da malária", declarou à Science Media Centre britânica. "Será muito empolgante ver o avanço desta tecnologia específica", continuou.
Os cientistas já estão a fazer experiência na natureza com mosquitos "Aedes aegypti", que transmitem a dengue, e que foram modificados para gerar descendentes que não chegam à idade adulta.
Eles sobrevivem durante apenas uma semana, enquanto mosquitos normais vivem um mês.
O Brasil e a Malásia já soltaram nuvens desses insectos, e em Janeiro o Panamá anunciou que também fará o mesmo.
No entanto, estes programas despertam a preocupação de ambientalistas, que chamam atenção para o impacto desconhecido de animais geneticamente modificados no equilíbrio da biodiversidade.
Eles argumentam que se uma espécie de mosquito for eliminada de uma região, isto abriria a oportunidade para uma espécie concorrente - e potencialmente perigosa - vir à tona.”
Macau, uma ponte que interliga as culturas, ocidental e oriental

"Hoje, os turistas passeiam pelas ruas em Macau, e tudo que eles vêem, construções, calçadas, comidas, placas de estrada, etc, foi feito sob influência nitidamente ocidental, com excepção dos habitantes com rostos orientais e falando o cantonês. Dá uma sensação de que estamos num lugar europeu. Na realidade, tudo isso constitui o cunho cultural ocidental deixado pelas actividades portuguesas ao longo dos últimos 500 anos. Há 500 anos, as culturas orientais e ocidentais coexistem, conflituam-se e combinam-se em Macau, formando a maior particularidade da região. Jin Guoping, professor catedrático do Centro de Sinologia Exterior da Universidade de Estudos Estrangeiros de Beijing, definiu que Macau é um centro de combinação das culturas do Ocidente e Oriente."

Espanha: Deputados aprovam lei que regulamenta a sucessão no trono
“Os deputados espanhóis aprovaram, por grande maioria, uma nova lei para que o príncipe Felipe seja coroado rei a 18 de Junho, apesar dos pedidos de alguns partidos políticos para que seja realizado um referendo sobre o futuro da monarquia no país.
O rei Juan Carlos, de 76 anos, disse na semana passada que abdicaria da coroa a favor do filho, após quase quatro décadas no trono. A sua inesperada decisão colocou em debate em Espanha o papel da família real, e forçou o Parlamento a acelerar a aprovação da legislação para permitir a sucessão.
A ampla maioria dos deputados espanhóis votou pela lei, com 299 favoráveis, 19 contrários e 23 abstenções. A legislação vai agora para o Senado para aprovação final.
Juan Carlos, que teve problemas de saúde e usa uma bengala após diversas operações no quadril, perdeu popularidade nos últimos anos após uma série de escândalos envolvendo a sua família.
Felipe, que tem um índice de aprovação melhor que o do pai e não teve o nome incluído nas investigações de corrupção na sua família, deve ser coroado a 18 de Junho no Congresso, perante os parlamentares.
Milhares de pessoas pelo país têm defendido a instauração da república. Uma sondagem publicada no domingo pelo jornal El País mostrou que 62% dos espanhóis votaria a favor de um referendo pela mudança de modelo de governo do país.” Diário Digital
Violência doméstica: quase 200 mulheres usam «botão de pânico»
Sistema de teleassistência existe há cinco anos e nunca ajudou tantas vítimas
"Há 186 mulheres em Portugal, vítimas de violência doméstica, a usar o chamado «botão de pânico», um sistema de teleassistência equipado com GPS que permite pedir apoio imediato, 24 horas por dia. Trata-se de um sistema de comunicações móveis e de telelocalização, que a vítima acciona se o agressor se aproximar. 
O sistema, que as vítimas apelidaram de «botão de pânico», existe há cinco anos e nunca ajudou tantas mulheres como agora. Em 2011, estavam activos treze sistemas e, em 2012, 47. O serviço é gratuito e garante comunicação 24 horas por dia com técnicos especializados. Está ligado ao Centro de Atendimento Telefónico da Cruz Vermelha, que integra, na sua maioria, psicólogos. São eles que fazem a ligação às autoridades policiais para prestarem auxílio às vítimas, quando o sistema é accionado. 
De acordo com o «Diário de Notícias» (DN), é em Lisboa onde o sistema tem sido mais utilizado. Em 2013, foram usados 34 sistemas na região (29% do total no país nesse ano, que chegou aos 117). Fernanda Alves, a procuradora do DIAP responsável pela aplicação da medida, reconhece-lhe inúmeros benefícios: «atenua níveis de ansiedade, aumentando e reforçando o sentimento de protecção e de segurança das vítimas». 
«Representa uma segurança para a vítima que está mais fragilizada. Sabe que há sempre alguém que está do outro lado. É uma resposta para situações de emergência», resume a responsável, em declarações ao DN."
Fotografia © Sara Matos/ Global Imagens
Entrevista a Suzanne Jabbour
"A tortura é hoje uma das principais armas numa guerra"
por Abel Coelho de Morais
#Distinguida com o Prémio Norte-Sul de 2013, com o príncipe Aga Khan, Suzanne Jabbour, médica e activista libanesa, de 54 anos, disse ao DN que nem as crianças deixam de ser torturadas nos conflitos da actualidade. Para a psicóloga libanesa, "é uma clara mensagem política" destacar o papel de uma mulher libanesa e da sua acção, uma mulher do Médio Oriente, "uma região a atravessar um dos seus momentos mais negros, com milhões de deslocados e refugiados.
De que forma este prémio do Conselho Norte-Sul pode ajudar o seu trabalho e os das entidades a que está ligada?
O Prémio será de valor incalculável para a minha vida profissional, para as organizações a que estou ligada, mas também no plano nacional. Penso que me vai dar maior capacidade e potencial para atrair novos apoios e é, principalmente, uma mensagem muito forte para o meu país...
Para os seus dirigentes?
Sim. É uma clara mensagem política um prémio desta natureza destacar o papel de uma mulher libanesa e da sua acção, porque é uma mulher libanesa e do Médio Oriente, que é hoje uma região a atravessar um dos seus momentos mais negros, com milhões de deslocados e refugiados, mulheres, idosos, crianças.
A acção da organização que dirige, a Restart, está dirigida para o apoio a vítimas de tortura. Esta é uma situação cada vez mais generalizada na actualidade?
Quando comecei com a Restart, em 1996, a grande maioria das vítimas de tortura eram homens, agora até crianças são vítimas de tortura, vítimas principais e directas de tortura. A tortura tornou-se uma das principais armas de combate numa guerra. A utilização da tortura é hoje para infundir medo nas pessoas, para que não reajam, para que não resistam. E não só na Síria.” DN

terça-feira, 10 de junho de 2014

Celebrar Portugal com Camões

Que me quereis, perpétuas saudades?

Que me quereis, perpétuas saudades?
Com que esperança ainda me enganais?
Que o tempo que se vai não torna mais,
e se torna, não tornam as idades.

Razão é já, ó anos, que vos vades,
Porque estes tão ligeiros que passais,
Nem todos para um gosto são iguais,
Nem sempre são conformes as vontades.

Aquilo a que já quis é tão mudado
que quási é outra cousa; porque os dias
têm o primeiro gosto já danado.

Esperanças de novas alegrias
não mas deixa a Fortuna e o Tempo errado,
que do contentamento são espias.
Luis de Camões, in “ Poemas Portugueses Antologia da Poesia Portuguesa do Séc. XIII ao Séc. XXI”, Porto Editora
Luís Vaz de Camões (nasceu em 1524; morreu em Lisboa, a 10 de Junho de 1580).




Com que voz chorarei meu triste fado,
que em tão dura paixão me sepultou.
Que mor não seja a dor que me deixou
o tempo, de meu bem desenganado.

Mas chorar não estima neste estado
aonde suspirar nunca aproveitou.
Triste quero viver, pois se mudou
em tristeza a alegria do passado.

Assim a vida passo descontente,
ao som nesta prisão do grilhão duro
que lastima ao pé que a sofre e sente.

De tanto mal, a causa é amor puro,
devido a quem de mim tenho ausente,
por quem a vida e bens dele aventuro.

Poema de Luís Vaz de Camões, música de Alain Oulman
Alain Oulman  (15 de Junho de 1928, em Cruz Quebrada-Dafundo, 29 de Março de 1990 em Paris )

segunda-feira, 9 de junho de 2014

Eu queria embalar-te e cantar-te


PARA RECITAR ANTES DE ADORMECER

Eu queria cantar para dentro de alguém,
sentar-me junto de alguém e estar aí.
Eu queria embalar-te e cantar-te mansamente
e acompanhar-te ao despertares e ao adormeceres.
Queria ser o único na casa
a saber: a noite estava fria.
E queria escutar dentro e fora
de ti, do mundo, da floresta.
Os relógios chamam-se anunciando as horas
e vê-se o fundo o tempo.
E em baixo ainda passa um estranho
e acirra um cão desconhecido.
Depois regressa o silêncio. Os meus olhos,
muito abertos, pousaram em ti;
e prendem-te docemente e libertam-te
quando algo se move na escuridão.

Rainer Maria Rilke (1875-1926), in “O Livro das Imagens”, Relógio d’Água Editores, Lisboa, 2005

domingo, 8 de junho de 2014

Ao Domingo Há Música



"Na primavera quando as tardes se arredondam
e já nas praias nascem as primeiras ondas
e volta sobre o mar a ave solitária
o homem enche de ar o peito vespertino
arranca o corpo à chuva e às nuvens do inverno
e chega a ter desejos de ficar.”

Ruy Belo, “ Homem perto do Chão” ,in “ Todos os Poemas” Assírio&Alvim

Vivemos, por vezes, cegos e adormecidos num rodopiar de vãs ilusões que nos impede de olhar a beleza primária de um  despertar da Primavera. O renascer da Natureza não acontece porque estamos enclausurados na nossa própria natureza. A onda que se espraia na areia dourada de uma manhã, o botão que adorna o emergente roseiral de um jardim, a tarde que se alonga em arcos multicolores não colmatam a  saciedade que nos inquieta. Mas se o mundo treme e a dor da perda se desenha , regressamos à verdadeira  essência que nos define: o amor. E esse amor apenas valoriza o que é autêntico: a vida. E pela vida celebramos os heróis que amamos e que sempre renascem porque são maiores do que nós. Eles são a Primavera que nos arredonda e nos arranca do Inverno. Bem vindos sejam.
A música deste Domingo clama por um  herói. Na voz de Bonnie Tyler fica a célebre canção " I need a hero".

"I need a hero
I'm holding out for a hero 'til the end of the night
He's gotta be strong
And he's gotta be fast
And he's gotta be fresh from the fight
I need a hero
I'm holding out for a hero 'til the morning light
He's gotta be sure
And it's gotta be soon
And he's gotta be larger than lifE..."

sábado, 7 de junho de 2014

Esta Lisboa que eu amo

Os jornalistas do site norte-americano Global Post estão fascinados com a cidade de Lisboa. O deslumbramento é tal que Paul Ames publicou , em 19 de Maio último, um artigo com 31 razões para se viver na capital portuguesa, a segunda mais antiga da Europa.
Comida boa e barata, praia a 20 minutos, cultura e pastel de nata são alguns dos destaques.
1. Clima: “Há mais sol do que em Madrid, Roma ou Atenas”, lê-se no site. Mas a grande vantagem, segundo os jornalistas, é que há sempre uma brisa vinda do Atlântico que funciona como ‘ar condicionado natural’.
2. Cervejaria Ramiro: O melhor sítio para comer marisco, refere o artigo
3. Praia: Está a apenas 20 minutos de distância e existem ‘aos molhos’. “Em menos de uma hora podemos surfar no Guincho ou relaxar na areia branca da Arrábida”, descreve o artigo.
4. Eléctrico: “O 28 existe e deixa todos felizes” é o título desta secção da notícia. O eléctrico leva-o a todos os pontos históricos da cidade de uma forma “cool” e barata.
5. Rio Tejo: Repleto de vida animal e vegetal, o Tejo é um rio “que mais parece mar”.
6. Ritmos africanos e latinos: É a capital europeia que mais proximidade tem com estes géneros musicais. “Dezenas de bares põe Bossa Nova e servem caipirinhas e as discotecas passam música coladeiras e kizombas”.
7. Vista: “A vista de Lisboa não chega aos pés das de Roma”. Para a apreciar melhor, o site recomenda uma ida aos miradouros das Portas do Sol, São Pedro de Alcântara, Graça e Santa Catarina.
8. LX Factory: Este espaço trouxe vida “a um espaço esquecido na cidade”, com “lojas arrojadas, restaurantes e galerias”.
9. Ruas e ruelas: Uma das melhores coisas que se pode fazer em Lisboa é “perdermo-nos nos seus bairros mais antigos, como Alfama, Mouraria, Bica ou Madragoa” e apreciar as suas ruas “cheias de alma”.
10. Futebol: Lisboa não está dividida pela língua, religião ou política, mas sim por preferência clubística, lê-se no site. “Poucos desportos são seguidos com tanta paixão quanto um jogo entre as duas equipas [Benfica e Sporting]”.
11. Café: Segundo os jornalistas americanos, as ‘bicas’ são dos melhores cafés do Mundo.
12. Cultura: Desde São Carlos até à Gulbenkian, passando pelo Museu Colecção Berardo e as dezenas de festivais ao ar livre, são múltiplas as opções de escolha.
13. Ginjinha: “Portugal é conhecido pelo seu vinho do Porto, mas a melhor bebida de Lisboa é este rico e doce licor”, descreve o site.
14. Não matam o touro: Ao contrário do que se passa em Espanha, os touros não são mortos na arena no final de uma corrida de touro. Para além deste facto, o artigo elogia ainda as ‘pegas’ e a beleza do Campo Pequeno.
15. Bairros modernos: Basta andar umas estações de metro para passarmos do lado mais velho da cidade para “as modernas avenidas de Alvalade”, com “lojas ‘cool’ e esplanadas apetitosas”.
16. Comida boa e barata: “É fácil comer comida tradicional por cerca de 7 dólares (5 euros) em várias tascas”, lê-se no artigo, que refere ainda o facto de os restaurante finos da cidade serem mais baratos do que os do resto da Europa.
17. Fado: É Património Cultural e Imaterial da Humanidade e, para os americanos, assemelha-se ao Blues. “O Fado deve acompanhar qualquer viagem por Lisboa”, afirmam os jornalista, que destacam Ana Moura, Gisela João e Cristina Branco como alguns dos nomes a reter.
18. Oceanário: “Deve ser o maior aquário do Mundo”, lê-se no título desta secção. O site considera que estava deve ser a “maior atracção “ da capital.
19. Pastel de Belém: São considerados os melhores bolos de Lisboa, lê-se na notícia.
20. Casas: “São mais coloridas que uma caixa de Lego”, descreve o artigo. Apesar de ser conhecida lá fora como ‘A Cidade Branca’, os apartamentos amarelos, cor-de-rosa e azuis-bebé deixaram os jornalistas impressionados com as cores da capital portuguesa.
21. Legendas: Ao contrário da maior parte dos países europeus, Portugal não faz dobragens de filmes estrangeiros, mantendo os diálogos originais, o que é visto como uma mais-valia por este site.Cinemateca
22. Lojas antigas: Lisboa está cheia de pequenos estabelecimentos de meados do século XX, o que é considerado uma raridade em comparação com as restantes capitais ocidentais, que se renderam às grandes superfícies.
23. “Cheira bem…”: “…Cheira a Lisboa”. O artigo do Global Post faz questão de fazer referência a uma das mais conhecidas cantigas populares portuguesas. No entanto, o site refere que tanto pode cheirar “a roupa lavada, acabada de pendurar, e a canela”, como “a bacalhau ou a lixo acumulado após um dia de greve”. Segundo o mesmo “faz tudo parte da experiência olfactiva”.
24. Bares: A Pensão Amor e o Pavilhão Chinês são dois dos estabelecimentos que são destacados no artigo, para além dos bares mais pequenos e típicos do Bairro Alto e do Cais do Sodré.
25. Chiado: Tal como a Fénix, esta parte da cidade ‘renasceu’ das cinzas após o incêndio que a assolou em 1988. Mesmo assim, consegue ser uma das áreas de Lisboa que mais gente atrai, devido às suas lojas, cafés e espaços culturais. No artigo, os jornalistas fazem questão de sublinhar a importância da Livraria Bertrand e do café A Brasileira, fundado em 1905.
26. Comida goesa: Os restaurantes Jesus é Goês e Cantinho da Paz são os únicos sítios no continente onde se pode comer pratos inspirados na gastronomia de Goa que fazem jus aos originais.
27. Contos de Fada: Se já falaram em Cascais, os norte-americanos não podiam deixar de fora “a mágica vila de Sintra” e os seus palácios.
28. Mercados: Tudo o que é fresco está nos mercados de Lisboa. O artigo dá destaque ao Mercado da Ribeira, o mais conhecido da capital.
29. Natureza: “Desde os jardins públicos até Monsanto, Lisboa está cheia de refúgios verdes”, lê-se na notícia, que enaltece a quantidade de árvores existentes na cidade.
30. Gelado: Os autores do artigo não podiam deixar de fora o Santini, a gelataria que, apesar de ter nascido em Cascais, tem um espaço no Chiado. “Vale sempre a pena esperar na fila”, escrevem.

31. Engraxar sapatos: Segundo o site, estes profissionais já desapareceram em quase toda a Europa, mas em Lisboa ainda existem homens “munidos de escovas, farrapos e potes de graxa”.Sol

sexta-feira, 6 de junho de 2014

Dia D, o início do fim

“Há sete décadas, a 6 de Junho de 1944, a Europa assistia ao desembarque das forças aliadas nas praias da Normandia, em França. Começava, assim, a derrocada do poderio alemão.
O “Dia D” colocou em marcha a ofensiva aliada que colocaria fim à II Guerra Mundial.
Mais de 150 mil soldados, de várias nacionalidades, desembarcaram na Normandia. Mais de 10 mil pereceram…
Para aqueles que participaram na operação “Overlord” a memória continua viva.
Será que o sacrifício valeu a pena? Os veteranos de guerra afirmam que sim. Hoje mais de 500 milhões de europeus vivem em paz… Uma harmonia conquistada pelos milhares de soldados que perderam a vida naquelas praias da Normandia, a 6 de Junho de 1944.” Euronews
“A cidade de Portsmouth, no sul de Inglaterra, tem um museu dedicado às operações de desembarque na Normandia, durante a segunda guerra mundial.
O evento é conhecido como “Dia D”, que é também o nome do museu inglês.
O historiador Andrew Whitmarsh afirma que a cidade de Portsmouth não foi escolhida ao acaso.
“A preparação para o dia D decorreu em toda a costa sul do Reino Unido e noutros sítios. Mas houve muitas coisas que se passaram localmente. Muitas das tropas envolvidas no desembarque reuniram-se nesta área e embarcaram em navios e descolaram em aviões a partir daqui. Os comandantes dos aliados reuniram-se em Southwick, algumas milhas a norte de Portsmouth, poucos dias antes do Dia D. Eles observavam o estado de tempo e tomavam decisões sobre o dia certo para lançar a operação.”, explicou o historiador Andrew Whitmarsh.
O museu destaca várias aspectos do desembarque, entre eles o papel desempenhado pelas mulheres durante a guerra. O trabalho fabril e outras actividades produtivas foram fundamentais para o sucesso da operação militar.
Frank Rosier participou no desembarque a 6 de Junho de 1944.
Aos 88 anos vem frequentemente ao museu para partilhar as suas memórias com as gerações mais jovens para que o passado não se repita.
“Há uma atitude de indiferença em relação à liberdade. No nosso país não estivemos sobre jugo exterior desde Guilherme de Inglaterra em 1066 e às vezes pensamos que isso cai do céu. É algo difícil de definir. Não tem cheiro, nem sabor mas se alguém nos tira a liberdade sentimo-lo imediatamente”, sublinhou o veterano de guerra.
Além da exposição permanente, este verão, o museu organiza um conjunto de actividades e homenagens em torno daquela que é considerada a maior invasão da história militar moderna.” euronews

En Direct, Le Débarquement
"Le débarquement allié a commencé dans la nuit. Après l'arrivée des parachutistes britanniques et américains, après le bombardement naval et aérien des défenses allemandes, les premières vagues de soldats, américains, ont atteint les plages de Normandie sous la mitraille (voir la première partie de notre direct). Pendant que les Britanniques, les Canadiens et les Français s'apprêtent à débarquer à leur tour sur Omaha Beach, le carnage est tel que le commandant de la force O demande l'arrêt des opérations..." Le Point

quinta-feira, 5 de junho de 2014

Eduardo Gageiro

O Gageiro da nossa História
Por Baptista-Bastos
“Um programador insensível e néscio fez projectar, para domingo último, às 22 e 20, no segundo canal da RTP, um admirável documentário de António-Pedro Vasconcelos sobre Eduardo Gageiro. Nesse mesmo tempo, a SIC exibia os Globos de Ouro, e comentadores preocupados discreteavam, filosoficamente, sobre a Taça de Portugal. Para quem ignora, para quem não quer saber, para os ressentidos e despeitados, Eduardo Gageiro é um dos maiores repórteres-fotográficos do mundo, cuja sensibilidade vive a par de um carácter amiúde combativo porque decente e asseado. António-Pedro viu muito bem a natureza rara deste grande artista, e conseguiu pô-lo a falar com límpida transparência, fornecendo-nos, e outros deponentes, a grandeza de um homem que, através da fotografia, tem revelado, como nenhum outro, a História de Portugal das seis últimas décadas. E que História! Eis a dor, o sofrimento, a fome e a miséria, a morte sem remorso nem remissa de um povo amado, comovidamente amado, por uma câmara que escolhe, selecciona, toma partido nítido e sem reserva pelos pés-descalços. É o Portugal que há, a pátria que temos e que Gageiro, com muitos mais, quis transformar. Tristemente, no final do documentário, diz: e chegámos a isto! O encontro de Vasconcelos com Gageiro é um momento extraordinário da nossa vida moral e cultural. O cineasta, não o esqueçamos!, é um intelectual extremamente culto (stendhaliano de mão diurna e mão nocturna), e as relações que estabelece entre a obra de Gageiro e a literatura e o cinema não são inócuas. Por exemplo: na parte final, quando o fotógrafo fala da doença que o assaltou e das imagens palustres que fixou, como se dissesse adeus à vida, as semelhanças entre o Tarkovsi de "Nostalghia" não são referências fortuitas. Essa correspondência faz parte de toda a obra de António-Pedro, e recordou-me o belíssimo documento que filmou, há muitos anos, sobre Lopes-Graça, ou o "Jaime", o melhor filme português de infância já realizado em Portugal; ou o "Aqui d"El Rei!", cuja discreta ironia passou, lamentavelmente, despercebida.
"Eduardo Gageiro: Um Século Ilustrado" era para ser exibido em 25 de Abril, e condizia com um projecto de documentários sobre portugueses ilustres, que António-Pedro se propusera realizar. Ficou no cesto. Os donos dos nossos destinos preferem a aldeia endomingada, com Nossa Senhora a protegê-la da insídia dos que pensam, do que os sobressaltos da imaginação dos que opõem a razão e o talento à treva.
Mas o que importa é que continua a haver pessoas como o Gageiro e o António-Pedro, mais alguns outros, que enfrentam os adamastores de todos os medos. A memória faz parte desse combate. E este documentário faz parte dessa memória. Ao falar de Gageiro, António-Pedro fala de Portugal.” Baptista-Bastos,em Crónica publicada no DN de 21 de Maio de 2014

quarta-feira, 4 de junho de 2014

Não sei de amor

NÃO SEI DE AMOR SENÃO
Não sei de amor senão o amor perdido
o amor que só se tem de nunca o ter
procuro em cada corpo o nunca tido
e é esse que não pára de doer.
Não sei de amor senão o amor ferido
de tanto te encontrar e te perder.

Não sei de amor senão o não ter tido
teu corpo que não cesso de perder
nem de outro modo sei se tem sentido
este amor que só vive de não ter
o teu corpo que é meu porque perdido
não sei de amor senão esse doer.

Não sei de amor senão esse perder
teu corpo tão sem ti e nunca tido
para sempre só meu de nunca o ter
teu corpo que me doi no corpo ferido
onde não deixou nunca de doer
não sei de amor senão o amor perdido.

Não sei de amor senão o sem sentido
deste amor que não morre por morrer
o teu corpo tão nu nunca despido
o teu corpo tão vivo de o perder
neste amor que só é de não ter sido
não sei de amor senão esse não ter.

Não sei de amor senão o não haver
amor que dure mais que o nunca tido.
Há um corpo que não pára de doer
só esse é que não morre de tão perdido
só esse é sempre meu de nunca o ser
não sei de amor senão o amor ferido.

Não sei de amor senão o tempo ido
em que o amor era amor de puro arder
tudo passa mas não o não ter tido
o teu corpo de ser e de não ser
só esse é meu por nunca ter ardido
não sei de maor senão esse perder.

Cintilante na noite um corpo ferido
só nele de o não ter tido eu hei-de arder
não sei de amor senão amor perdido.
Manuel Alegre, , in “Livro do Português Errante", Fevereiro de 2001, Publicações Dom Quixote

terça-feira, 3 de junho de 2014

A nação é de todos

“A nação é de todos. A nação tem de ser igual para todos. Se não é igual para todos, é que os dirigentes, que se chamam Estado, se tornaram quadrilha. Se não presta ouvido ao que eu penso e não me deixa pensar como quero, se não deixa liberdade aos meus actos, desde que não prejudiquem o vizinho, tornou-se cárcere. Não, os serranos, mil, cinco mil, dez mil, têm tanto direito a ser respeitados como os restantes senhores da comunidade. Era a moral de Cristo: por uma ovelha... Se os sacrificam, cometem uma acção bárbara, e eles estão no direito de se levantar por todos os meios contra tal política.” Aquilino Ribeiro, in “Quando os Lobos Uivam”, Livraria Bertrand, 1958
Aquilino Ribeiro nasceu a 13 de Setembro de 1885 no concelho de Sernancelhe, freguesia de Carregal, e morreu a 27 de Maio de 1963. "Publicou em vida 69 livros distribuídos por áreas tão diversas como a ficção, jornalismo, crónica, memórias, ensaio, estudos de etnologia e história, biografias, crítica literária, teatro, literatura infantil, polémicas a que nunca se furtava e traduções (às vezes muito livremente recriadas) do latim, grego, espanhol (o D. Quixote, por exemplo), francês e italiano.
Com uma vida pessoal rica e intensa, Aquilino estudou no Liceu de Lamego, depois iniciou os estudos de filosofia em Viseu. A pedido da mãe foi para os seminário de Beja, mesmo se o que menos se lhe conhecia era vocação religiosa.
Acusado de bombista em 1907, devido à explosão em sua casa de uns caixotes de explosivos que levaram à morte de dois correligionários, acabou detido por fazer parte do Partido Republicano.
Não descansou enquanto não se evadiu da cadeia e encontrou refúgio em Paris. Depois de proclamada a República veio a Portugal, mas frequentara já na Sorbonne os cursos de Filosofia e Sociologia.
O escritor morreu há meio século. Um homem que se assumia como uma força da natureza, e para quem a natureza era o palco maior da vida que em cada instante imaginava e reconstruía.”

Flip, a Festa Literária de Paraty

Vem aí uma Flip mais latina
Ares de mudança sopram em Paraty, anunciando boas tempestades literárias 
"Tudo começa com um novo curador, o jornalista Paulo Werneck, de 35 anos, que foi responsável pelo caderno Ilustríssima, do jornal Folha de S. Paulo, até Agosto do ano passado - e agora ocupa o lugar que foi de Miguel Conde no último biénio. E passa por um bem-vindo esforço de recuperar certo “tiempo perdido”, sem que nos 11 anos anteriores da Flip (Festa Literária Internacional de Paraty) a literatura latino-americana tenha tido presença expressiva.
A actual edição, que acontecerá entre os dias 30 de Julho e 3 de Agosto, começou a ser divulgada no começo de Abril justamente com esse objectivo: mudar a ideia de que a feira, que se tornou uma das mais importantes da região, não se interessa pelos vizinhos. Por isso e pela inegável qualidade de suas obras, o chileno Jorge Edwards, a argentina Graciela Mochkofsky, o mexicano Juan Villoro e o peruano-americano Daniel Alarcón já são nomes confirmados.
Para quem acompanha os rumos da produção literária contemporânea na América Latina, o menu é absolutamente atraente. Mas quem não sabe tanto a respeito ou não se atém a geografias literárias ou utopias regionais, também há muito o que  descobrir e aproveitar.
O veterano do grupo, Jorge Edwards, de 83 anos, é um dos ícones da chamada Geração de 50 chilena, com uma vasta e sólida carreira como escritor de romances e de poesia - ainda que no Brasil tenha só um de seus mais de 20 livros publicados.É um embaixador chileno (actualmente na França), assim como foi o amigo Pablo Neruda, e pelo livro “Persona non grata” (1973), em que relatou a sua experiência como embaixador do governo de Salvador Allende em Cuba durante três meses e meio, fazendo observações pessoais e pouco favoráveis ao regime castrista,  às vezes, visto como um “esquerdista de direita”. Quem edita o autor - prémio Cervantes em 1999 - no Brasil, actualmente, é a Cosac Naify que  lançou (em pré-venda, por enquanto) “A origem do mundo”, que fala sobre a decadência e o renascimento do amor e do desejo, o fracasso dos sonhos políticos e a ficção como elemento de resistência indispensável à vida.Já Juan Villoro é provavelmente o escritor de maior destaque no México nos dias actuais. Com mais de 30 títulos publicados, é um autor prolífico e de interesses variados, que usa as paixões “pop” (rock, futebol, quadrinhos...) como inspiração para uma literatura de qualidade, que  encaixa nos mais variados géneros - inclusive no infantil. É jornalista premiado, dono de uma coluna publicada às sextas-feiras no jornal mexicano “Reforma” e colaborador assíduo de revistas de jornalismo narrativo como a colombiana El “malpensante” e a peruana “Etiqueta Negra”.
Por seu romance “El testigo”, recebeu o prémio Herralde em 2004, e aqui no Brasil é editado pela Companhia das Letras, que já lançou “O livro selvagem” e, para a FLIP, prepara o lançamento de “Arrecife”, sobre a violência no México, vista a partir de um olhar fetichista, explorada em parques turísticos. Outro título seu, “La cancha de los deseos” (“O estádio dos desejos” é o título provisório), que tem a ver com crianças e futebol, será publicado pela Editora Terceiro Nome com tradução de Eric Nepomuceno.
Autora de não ficção, Graciela Mochkofsky é um dos grandes talentos do jornalismo argentino, intensa pesquisadora das relações entre Media e poder em seu país. Seu livro mais famoso é “Pecado original” (2011), uma reportagem literária sobre a disputa do casal Kirchner e o jornal “Clarín”, expondo interesses políticos e económicos de ambos os lados. Ainda é autora inédita em português, mas já colaborou algumas vezes com a revista Piauí. É editora da revista online “El puercoespín”.
Finalmente, o peruano Daniel Alarcón, radicado nos Estados Unidos desde os oito anos, é um autor de 37 anos que figura em várias listas de melhores escritores latino-americanos, como a da Granta em espanhol. Escreve em inglês, mas seus temas passam quase sempre pelo Peru de sua infância e também pelas ruas de sua Lima imaginada - como ele mesmo diz. É jornalista, editor associado da revista Etiqueta Negra, colaborador da revista The New Yorker e produtor executivo de uma rádio online especializada em crónicas de personagens latino-americanos.
No Brasil, tem publicado pela Rocco o romance “Rádio Cidade Perdida”, em que lança um olhar sobre o terrorismo numa nação indefinida e conflituosa. Durante a Flip, ele lançará seu trabalho mais recente, “À noite andamos em círculos”, com, novamente, a violência política de pano de fundo, pela Alfaguara.” Artigo de Camila Moraes, in Opera Mundi, São Paulo ( adaptado)

Em Portugal, na Casa da América Latina:

segunda-feira, 2 de junho de 2014

O poeta e a poesia

"O poeta é uma árvore
com frutos de tristeza
e com folhas murchas
de chorar o que ama.

O poeta é o médium
da Natureza
que explica sua grandeza
por meio de palavras.

O poeta compreende
todo o incompreensível
e as coisas que se odeiam,
ele, amigas as chama.

Sabe que as veredas
são todas impossíveis,
e por isso de noite
vai por elas com calma.

Nos livros de versos,
entre rosas de sangue,
vão passando as tristes
e eternas caravanas

que fizeram ao poeta
quando chora nas tardes,
rodeado e cingido
por seus próprios fantasmas.

Poesia é amargura,
mel celeste que emana
de um favo invisível
que as almas fabricam.

Poesia é o impossível
feito possível. Harpa
que tem em vez de cordas
corações e chamas.

Poesia é a vida
que cruzamos com ânsia,
esperando o que leva
sem rumo a nossa barca.

Livros doces de versos
sãos os astros que passam
pelo silêncio mudo
para o reino do Nada,
escrevendo no céu
suas estrofes de prata.

Oh ! que penas tão fundas
e nunca remediadas,
as vozes dolorosas
que os poetas cantam !

Deixaria neste livro
toda a minha alma..."
Federico Garcia Lorca, in  "Este é o Prólogo"- "Antologia Poética", Editora Relógio D'Água

Poesia
Por Henry Miller
"Se a missão da poesia é despertar, há muito tempo que deveríamos ter acordado. É inegável que alguns acordaram. Mas agora são todos que devem despertar - e imediatamente -, senão pereceremos. Só que o homem jamais perecerá, fiquem tranquilos. O que corre o risco de perecer é a cultura, a civilização, o estilo de vida. Quando esses mortos despertarem, e é certo que despertarão, a poesia será a própria essência da vida. Podemos arcar com a perda do poeta se em troca preservarmos a poesia. Não se precisa de papel nem tinta para criar ou disseminar a poesia. De modo geral, os povos primitivos são poetas da acção, poetas da vida. Embora não nos comovam, ainda estão fazendo poesia. Se fôssemos susceptíveis ao poético, não seríamos imunes a seu modo de vida: teríamos incorporado essa poesia à nossa, teríamos impregnado nossas vidas da beleza que permeia as deles. A poesia do homem civilizado sempre foi exclusiva, esotérica. Isso acarretou a sua própria extinção".Henry Miller , in  "A Hora dos Assassinos (Um estudo sobre Rimbaud)",1956 ,L&PM ed.