terça-feira, 19 de agosto de 2014

O espelho quebrado de Moscovo



A UE e a Rússia: O espelho quebrado de Moscovo
18 Agosto 2014
El País Madrid
Os europeus pensavam que a Rússia pós-soviética iria transformar-se numa democracia liberal e aproximar-se da União Europeia. Mas, desde a sua reeleição em 2012, Vladimir Putin bloqueou qualquer iniciativa de modernização do seu país, como o comprova a recente crise na Ucrânia.
Na última década, a Europa democrática construiu uma imagem da Rússia que correspondia à de um país envolvido num processo intenso e irreversível de modernização política, económica e social. Esta pensava que o desenvolvimento económico iria criar uma sociedade de classe média onde, como em muitos outros locais da Europa do pós-Guerra Fria, cada indivíduo aspiraria à sua realização pessoal num ambiente de liberdade, de direitos e de prosperidade. Muitos sonharam, se não com a adesão da Rússia à União Europeia, com o estabelecimento de uma esfera tão estreita de relações na qual caberia “tudo menos as instituições”.
Este espelho russo quebrou-se em 2009, quando Vladimir Putin, que acabara de completar dois mandatos na chefia do país, anunciou a sua intenção de concorrer à presidência da Rússia nas eleições de 2012. [O antigo presidente soviético] Mikhaïl Gorbachev, que saudou o papel modernizador de Putin, manifestou publicamente a sua preocupação quanto ao rumo que a política russa estava a tomar e pediu a Putin para voltar atrás na sua decisão.
Ainda não passaram cinco anos, mas já é possível constatar até que ponto Gorbachev não se tinha enganado. Desde a sua eleição, em 2012, Putin dedicou-se de forma consciente e meticulosa a implementar este espelho e a bloquear qualquer perspectiva de modernização do país.

Amigos oligarcas

Pode falar-se numa “elite extractiva”, que bloqueia o progresso económico e político do país por motivos cada vez menos relacionados com a ideologia e cada vez mais com razões puramente pessoais
Assim sendo, em vez de abrir a economia ao resto do mundo e procurar criar uma classe empreendedora independente, preferiu concentrar o poder político, económico e mediático nas mãos de uma elite restrita de amigos, oligarcas e antigos camaradas do KGB. Pode falar-se numa “elite extractiva”, que bloqueia o progresso económico e político do país por motivos cada vez menos relacionados com a ideologia e cada vez mais com razões puramente pessoais: com as estruturas económicas actuais, esta elite tem perfeitamente consciência de que a modernização do país implica a sua saída do poder.
Através de uma concentração do poder económico e mediático sem precedentes, o regime de Putin conseguiu um feito inédito que ficará na história do autoritarismo: obter a legitimação democrática e popular (porque Putin é muito popular) de uma oligarquia extractiva que deve precisamente a sua existência à sobreposição de um forte autoritarismo político, de uma desigualdade social extrema e de uma concentração excessiva da riqueza.
A Rússia converteu-se, pouco a pouco, num “petro-Estado”, uma entidade pública que não só baseia o seu poder em matérias-primas como pode, com base nisto, ignorar os pedidos de modernização política, económica e social provenientes da sociedade. A chamada “maldição dos recursos naturais” deu origem a um híbrido invulgar na Rússia: um meio-termo entre a Venezuela, onde o rendimento dos recursos petrolíferos e do gás são utilizados para construir a base de apoio social de que o regime precisa para manter a fachada democrática, e uma monarquia petrolífera que baseia a sua legitimidade num nacionalismo ranço que se alimenta na religião, na cultura e nos mitos históricos belicistas.

Obcecado

Da manipulação dos meios de informação à pressão exercida nas organizações independentes da sociedade civil ou dos movimentos sociais (incluindo o movimento LGBT), passando pelo controlo rigoroso da influência estrangeira ou pela reivindicação tanto do czarismo como da sua antítese, a época soviética, Putin ficou obcecado com a identidade e a construção nacional.
Se há uma crítica que se pode fazer a Gorbachev, é a sua visão demasiada optimista. Putin não se limitou a gerir a estagnação da Rússia de uma forma directa e aborrecida que faz lembrar Brezhnev. Esforçou-se para construir uma Rússia irredentista e revisionista que acabou por gerar um imenso problema de segurança à porta dos seus vizinhos europeus. Ao tratar estes últimos como se fossem vassalos obrigados a colaborar na criação de uma esfera de influência que garante a viabilidade de uma Rússia independente e distinta do ocidente, Putin ligou o seu destino ao da Ucrânia, porque não se pode dar ao luxo de perder o elemento fundamental do seu projecto euro-asiático.
Encontra-se, portanto, entre a espada e a parede: se avançar, terá de entrar num confronto económico com o Ocidente que afectará o seu petro-Estado, enfraquecerá os oligarcas e irritará a opinião pública. Se recuar, terá de abandonar os seus acólitos do Este da Ucrânia e será criticado por ter vendido a alma e a identidade russa em troca de uma quantia irrisória de dinheiro.
Seja qual for o desfecho, o que é evidente é que, um dirigente que construiu a sua carreira política no desejo de vingar as humilhações sofridas pela Rússia, não tolerará sair do poder humilhado." Vox europ

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Viajar pela Patagónia Chilena

Passeio por ilha da Patagônia chilena tem pinguins e "churrasco" de mariscos
Por Victor Farinelli | Santiago - 01/05/2014 - 06h00
No caminho de 2,2 quilómetros até a Ilha Grande de Chiloé, o viajante é escoltado por golfinhos e focas
"Ao chegar ao quilómetro 1093 da Rodovia 5 Sur – cujo início é em Santiago e leva ao sul do país –, na pequena localidade de Pargua, já é possível sentir outro Chile, menos seco, mais verde, resfriado pelos fortes ventos patagônicos.
O povoado de Pargua somente bordeia o trecho da estrada que é literalmente interrompido pelo mar, onde uma balsa está pronta para transportar os visitantes ao outro lado da rodovia. Nos 2,2 quilómetros do Canal Chacao, há uma tensa e bela travessia, sacudida pela ventania, onde o viajante é escoltado por golfinhos, focas e pinguins, até a Ilha Grande de Chiloé.
                                                                                                                   Victor Farinelli/Opera Mundi
Vista geral da Ilha Grande de Chiloé, local com diversificada flora e fauna, embora suas principais atracções naturais estejam no mar

O arquipélago é o salão de visitas da Patagónia Chilena, e o acesso difícil passa ao turista a sensação de cruzar um portal e entrar num mundo alternativo, ou ao menos bastante diferente das extremas paisagens andinas e dos áridos desertos do norte.
Um mundo de diversificada flora e fauna, embora suas principais atracções naturais estejam no mar. A maior parte dessa diversidade está ao redor da Ilha Grande, com seus 8,4 km2, mas também é possível encontrar surpresas nas quarenta ilhotas – todas de menos de 100 km2, e algumas que são verdadeiras rochas vulcânicas gigantes erguidas entre as ondas.
O lado oeste do arquipélago é habitado por pinguins, focas, leões marinhos, lontras e diversas outras espécies. Os que podem se aventurar mar adentro encontrarão inclusive algumas espécies de baleias, como as azuis e cachalotes. As graciosas aves marinhas são mais acessíveis, e também as mais procuradas pelos turistas.
Entre Setembro e Fevereiro, durante seu período de acasalamento e procriação, os pinguins costumam ocupar a região nos arredores da cidade de Ancud (no norte da Ilha Grande, cerca de 20 km após a travessia da balsa), as chamadas praias ou ilhas “pinguineiras”. A mais procurada delas é a Praia de Puñihuil, onde os pinguins montam seus ninhos nas margens das pequenas ilhotas vulcânicas que formam uma barreira natural.
                                                                                                               Victor Farinelli/Opera Mundi
   Palafitas sustentam casas na comunidade de Castro que, al lado da de Ancud, é uma das maiores e mais habitadas da ilha de Chiloé

Porém, aquele que for a Puñihuil em Fevereiro, verá os últimos pinguins acompanhando seus recém-nascidos, antes de iniciarem a migração ao sul da Ilha Grande. A melhor época para fazer a visita é em Novembro, quando nascem as primeiras crias e há um número maior de pinguins na zona, e de mais variadas espécies.
Nas cidades de Ancud e Castro, as maiores e mais habitadas da Ilha Grande, se destacam as casas de madeira e as palafitas erguidas sobre os pequenos golfos dessas cidades, mostrando que essa é uma das regiões mais pobres do país. Longe delas, chamam a atenção os mistérios e a culinária típica chilota, a mais surpreendente do Chile.
O folclore regional é bem peculiar e alimentado por histórias de bruxos e outras figuras da mitologia huilliche – povo indígena originário do arquipélago, os huilliche são ligados aos mapuche, mas possuem seus costumes e tradições peculiares. A culinária também é bastante pitoresca, e convida a uma aventura por sabores que não se podem encontrar em nenhum outro lugar do Chile.

“Churrasco de mariscos”
“Nada é mais tipicamente chilote do que comer uma bela chochoca no café da manhã”, diz a senhora Mirta Guinao, que trabalha no Mercado da Rua Yumbel, em Castro, capital da província de Chiloé. Mirta é uma mulher chilota (nascida no arquipélago), e é dona de uma lanchonete que vende salgados típicos da região, na entrada do mercado. A chochoca é a estrela do seu cardápio, preferida tanto pelos locais quanto por turistas.
                                                                                                                   Victor Farinelli/Opera Mundi
              A chochoca é a estrela do cardápio de Chiloé, preferida tanto pelos locais quanto por turistas. Massa é feita a base de batatas

Os salgados de dona Mirta são especiais porque é possível vê-la os fazendo de forma quase artesanal, num pátio ao lado do comércio. No caso da chochoca, ela prepara a massa, de farinha e batata, usando um imenso rolo conhecido como “palo chochoquero”, que gira sobre uma churrasqueira durante meia hora, até a massa adquirir um tom meio dourado. Em seguida, a massa é retirada do rolo, e recheada com chicharrones, espécie de torresmo feito na região, e enrolada como um rocambole. “É excelente para esquecer as preocupações com o colesterol e saborear a vida”, brinca um cliente da dona Mirta, mostrando um pouco do particular humor chilote.
Grande parte das iguarias típicas de Chiloé é feita com batata. Até o estudioso britânico Charles Darwin, que visitou o arquipélago em meados do século XIX, chegou a acreditar que o alimento era originário da ilha.
Em todo caso, a chochoca é uma das receitas que nasce em Chiloé a partir da troca de influências entre os huilliche (povo originário do arquipélago) e os primeiros colonos espanhóis. Outros salgados menos pedidos, como o chapalele (uma batata amassada revestida de farinha) e o milcao (feito com batata ralada farinha, ganhando um aspecto redondo e esponjoso) são puramente huilliche.
Ambos integram aquele que é o mais representativo prato chilote e que, assim como a chochoca, não pode ser encontrado em nenhum lugar fora do arquipélago: o curanto. A iguaria reúne todos ingredientes de um verdadeiro “churrasco de mariscos”, incluindo o ritual de preparação e o carácter comunitário de degustação. Para encontrar um bom curanto em Chiloé é preciso sair das principais cidades da província (Ancud e Castro) e buscar os pequenos povoados – especialmente os que estão escondidos em pequenas ilhotas periféricas à Ilha Grande, a poucos quilómetros de Castro.
                                                                                                               Victor Farinelli/Opera Mundi
          Curanto, prato típico de Chiloé que leva mariscos, frango, linguiça e costela de porco, além de porções de massa com batatas

A cozinheira huilliche Sonia Catepillán vive no povoado de Dalcahue, dentro de uma dessas ilhotas. Diariamente, ela recebe turistas esfomeados e curiosos. As excursões chegam cedo para que os visitantes possam acompanhar o minucioso processo de preparação. Os mariscos da região, utilizados para fazer o curanto, são enormes. Um choro maltón chilote pode chegar a medir o mesmo que uma mão humana estendida. Também a variedade de mariscos é bem grande, e alguns deles são desconhecidos dos brasileiros – como as machas, almejas e ostiones.
Aos mariscos, são acrescentados pedaços de frango, linguiça e costela de porco, e por fim as massas feitas de batata, como o chapalele e o milcao, levados à fogueira como massa crua, para serem assados. O toque final: todas as porções são cobertas por enormes folhas de pangue – planta ornamental típica da região –, para depois serem literalmente enterradas.
“Os ingredientes ficam uma hora debaixo da terra, para adquirir o sabor defumado que vocês experimentarão logo mais”, explica dona Sonia. Uma hora depois, a terra e as folhas são descartadas, liberando uma densa nuvem com cheiro de churrasco.
Algumas agências de turismo de Ancud e Castro fazem excursões para degustar o curanto em fogueira nas pequenas ilhas de Chiloé, por valores que partem dos 10 mil pesos chilenos por pessoa (cerca de R$ 40). Os grupos levam entre 15 e 30 pessoas, e incluem visitas às típicas igrejinhas de madeira do arquipélago, a maioria delas perdidas nas estradas que ligam as pequenas cidades da Ilha Grande ou nas maiores entre ilhotas periféricas.
Vale a pena visitar as feiras de artesanato local, onde se pode comprar um poncho chilote, feito com lã de alpaca, ou completar a aventura de sabores degustando um copo de mistela chilota, mais púrpura mais forte que a tradicional mistela espanhola, ou do suave e doce licor de oro, uma bebida típica da região feita com aguardente e gordura do leite, que lhe dá o tom amarelo claro que inspira o seu nome." Victor Farinelli , Opera Mundi

domingo, 17 de agosto de 2014

Ao Domingo Há Música

Nunca saberemos

Nunca saberemos se os dias felizes
eram feitos de sol, estrelas ou luar
Nunca saberemos se os dias felizes
chegavam na manhã intensa de luz
Nunca saberemos se os dias felizes
se fechavam  na espessura da noite.
Nunca saberemos se os dias felizes
brilhavam na opacidade do tempo.
Nunca saberemos se os dias felizes
tinham   espaço, tempo ou forma. 
Nunca saberemos se os dias felizes
vinham no sopro da  brisa ou do vento
Nunca saberemos se os dias felizes
cresciam no mar, na terra ou em nós
Nunca saberemos se os dias felizes
incendiavam os corpos ou os corações. 

Nunca saberemos se os dias felizes
nasceram, cresceram, aconteceram
Nunca saberemos.
Nunca saberemos se os dias felizes
foram dias  de um ignoto calendário 
Nunca saberemos.

Nunca saberemos
se os dias felizes que nunca saberemos
se perderam, se esfumaram, se aluíram
Nunca saberemos.
                                         MJVS, 2014

Enquanto não descobrimos, Mozart entrega-nos uns acordes de infinda e soberba arte. E se felicidade tem som, este é um momento feliz.

sábado, 16 de agosto de 2014

Na companhia de Van Gogh

“Wheat Field with Cypresses” (1889)
Credit Courtesy Metropolitan Museum of Art
A Visit with Vincent
By Peter Schjeldahl
A rare sight drew me, last week, to the Metropolitan Museum: all seventeen of the museum’s paintings by van Gogh on view at once, for the first time in more than a decade. (Some are nearly always out on loan to other museums.) I wasn’t alone with them. You seldom are with van Goghs. Dozens of people were looking, while, in a neighboring room, one or two or no viewers at a time paused among twenty-two paintings by Cezanne. Art historians affirm that Cezanne is the most important forebear of twentieth-century painting, but you wouldn’t know it by this head count. What makes van Gogh so magnetic? Picasso nailed it: “The drama of the man,” he said.
The seventeen canvases sample a career of which all the phases—from “early” to “late”—span barely six years. They start with the darkling “Peasant Woman Cooking by a Fireplace” (1885), whose muddy tones secrete a budding feel for color like a seismic tremor. (The artist wrote, “If a peasant painting smells of bacon, smoke, potato steam—fine.”) The woman appears grotesque, but the work expresses an anguished compassion. The artist feels his subject’s circumstances more keenly than she may have. (Van Gogh wasn’t appreciated as an aspiring Protestant minister to the poor in Belgium.) By the end—with floral still-lifes painted on Auvers-sur-Oise, where he lived under a doctor’s care after his breakdown, in Arles, and his commitment to the mental asylum of Saint-Rémy—the “torments” that Picasso noted in van Gogh had been transmuted, hundreds of times, into ecstatic art.
There are masterpieces. “La Berceuse” (1889), a majestic and blazing portrait, coincided with the moment of van Gogh’s self-mutilation. “Wheat Field with Cypresses” (1889) relates in style to the Museum of Modern Art’s redoubtable “The Starry Night” and, to my eye, is even better. Fields, trees, hills, and clouds symphonically undulate, surge, and churn. (Look closely: there’s no frenzy in the brushwork but, rather, nimble exactitude.) Tours de force include a prescient, small, explosive “Sunflowers” (1887) and a curious reworking, from 1890, of a genre scene by Millet, “First Steps,” in pale blues and green and almost subliminal yellows. But I was especially riveted, on this visit, by two unsuccessful paintings.
“The Flowering Orchard” (1888) catches van Gogh on the upslope of a learning curve, inspired by Japanese prints. His struggle to master the exotic manner clashes with his observation of the subject, and the picture falls apart—with an effect, for me, of affording lucky access to the kitchen of his genius. The intensely discomfiting “Bouquet of Flowers” (1890) hints at a new, tragically truncated departure, with innumerable blooms and wriggling foliage densely packed against a ground of vertical striations, like dark rain. The nearly abstract mass crowds forward, as if to turn pictorial space inside out. What might van Gogh have gone on to achieve from this start? (Would that he hadn’t borrowed* a damn gun!)
Like some other art mavens I know, I thrilled to van Gogh when I was young, and then, with the snobbery of the insecure tyro aesthete, I took to disdaining him for his popularity. Art that wasn’t difficult couldn’t be serious. (Cezanne, whose drama Picasso identified as “anxiety,” was serious.) In fact, there is no end of difficulty in van Gogh—his own, surmounted. I came back to him by stages, and not just because I tired of resisting his fantastic talent for composition, drawing, and color in touch-by-touch, visceral unity. What I had glimpsed in him at first turned out to be lying in wait for me. It was the value of joy, irrespective of happiness and, certainly, of intellectual pride. All good art teaches some variant of that consoling and humbling truth, which anyone might recognize. Van Gogh is its saint." Peter Schjeldahl, in The New Yorker, 12.08.14
Peter Schjeldahl has been a staff writer at The New Yorker since 1998 and is the magazine’s art critic. 
*Correction: An earlier version of this post mistakenly suggested that van Gogh owned a gun. 

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Os Livros

Maria Teresa Horta
Leitora

Confesso o vício de ler
afago
cada palavra
Bebo o feitiço das histórias
cada rosa cada asa
por onde a busca se enlaça
Revolvo-me na ruptura
ou na ternura descalça
onde a caneta sutura
Tomo o corpo da leitura
enredo-me no seu abraço
ora vestida ora nua
Ao longo deste prazer
não há nada que eu não faça
em entrega e em devassa
Indo mais longe no ler
encontro o cisne e a rola
na tocaia do prazer
Tenho a paixão da leitura
teima na escrita do perigo
e estremeço de prazer ao entreabrir um livro
Corro as mãos nas suas espáduas
desnudo frases de feltro
afloro as suas pálpebras
Entrelaço as consoantes
com as vogais e o enredo
diante das fantasias no sobressalto do medo
Descubro escusas passagens
pelas cisternas dos livros
ao desfolhar suas páginas
Na entrega e no sustido
nas lágrimas e no sorriso
entre o ardil e o tigre
Ora cumprindo
a harmonia
ora querendo a transgressão
Sou uma leitora voraz
tenho um trato com a audácia
e outro com o perdimento
Entre a leitura e a escrita
existe um espaço sedento
rebeldia e firmamento
Digo tempo e confissão
das cartas das bibliotecas
das literaturas secretas
Corro nas linhas dos livros
tropeçando
de avidez

Na cama quero as palavras
Enoveladas errantes
com elas sou viajante
No rumo da minha
vida
estão os livros e as estantes
Gosto de beber o cheiro
do interior da leitura
temperado com canela e as coisas obscuras
Deleito-me com a poesia
endoideço com o romance
esquivamento das mulheres
com a sua escrita de leite
de linho e alquimia
de aço rumorejante
Encontro a rima cismada
dobo a palavra a vapor
na teima de quem porfia
Vou em busca do fulgor
corro atrás da literatura
dos textos e da leitura
Sou dependente dos livros
sem eles posso morrer
perco-me de tão perdida se proibida de ler
Maria Teresa Horta, in "Pessoa: Revista de Ideias", Nº 4 (Setembro de 2011)



Nas estantes os livros ficam
(até se dispersarem ou desfazerem)
enquanto tudo
passa. O pó acumula-se
e depois de limpo
torna a acumular-se
no cimo das lombadas.
Quando a cidade está suja
(obras, carros, poeiras)
o pó é mais negro e por vezes
espesso. Os livros ficam,
valem mais que tudo,
mas apesar do amor
(amor das coisas mudas
que sussurram)
e do cuidado doméstico
fica sempre, em baixo,
do lado oposto à lombada,
uma pequena marca negra
do pó nas páginas.
A marca faz parte dos livros.
Estão marcados. Nós também.
Pedro Mexia, in "Duplo Império"


Os Livros

Os livros. A sua cálida,
terna, serena pele. Amorosa
companhia. Dispostos sempre
a partilhar o sol
das suas águas. Tão dóceis,
tão calados, tão leais,
tão luminosos na sua
branca e vegetal e cerrada
melancolia. Amados
como nenhuns outros companheiros
da alma. Tão musicais
no fluvial e transbordante
ardor de cada dia.
Eugénio de Andrade, in “ Ofício de Paciência”, Hiperión

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Cinema

Uma agenda repleta de filmes está programada para os dias que nos esperam. Eis alguns:
-  "O salão de Jimmy", filme de Ken Loach com Barry Ward, Simone Kirby, Andrew Scott. Estreia a 21 de Agosto de 2014.



- "Jersey Boys : Em busca da Música", filme de Clint Eastwood, com John Lloyd Young, Erich Bergen, Michael Lomenda, Vincent Piazza e Christopher Walken. Estreia a 4 de Setembro de 2014.


- "Magia ao Luar", filme de Woody Allen, com Colin Firth e Emma Stone. Estreia a 4 de Setembro de 2014.


- "Interstellar", filme de Christopher Nolan, com Matthew McConaughey, Anne Hathaway, Jessica Chastain. Estreia a 6 de Novembro de 2014.


- "Into the Woods", de Rob Marshall com Johnny Depp, Anna Kendrick, Emily Blunt, Chris Pine e Meryl Streep. Estreia internacional a 25 de Dezembro de 2014.

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

No mito de orfeu

O Ballet de l'Opéra National de Paris apresentou " Orphée et Eurydice", uma ópera de Christoph Willibald Gluck baseada no mito de Orfeu, com libreto de Ranieri de Calzabigi. O bailarino Yann Bridard representa Orfeu e Marie-Agnès Gillot interpreta  Eurydice. Pina Bausch ao dirigir  e coreografar a partitura de  Gluck instaura um diálogo permanente entre o canto e a dança. Para além da mitologia, o bailado evoca a fragilidade e a condição humana numa perturbadora introspecção.
O acompanhamento musical é de  Balthasar Neumann & Choir sob a direcção de Thomas Hengelbrock.
- Le Deuil


Um outro grande momento de Orphée et Eurydice, na Opera National de Paris ainda com a bailarina  Marie-Agnès Gillot e a voz da soprano Yun Jung Choi.
-La Paix

terça-feira, 12 de agosto de 2014

O Ilimitável Oceano


A Criação do Mundo

O ponto não tem dimensões, disse-o o grego,
assim descobrindo a geometria que havia
antes que houvesse criação: por isso, cego,
mas rigoroso, já tudo se construía.
Eugénio Lisboa, in "O Ilimitável Oceano" , Edições Quasi

Galileu

As  leis  do movimento perscrutaste,
com paciência e cândido olhar
com o mesmo olhar o vasto céu sondaste
humilde mas altivo no ousar.
Eugénio Lisboa, in "O Ilimitável Oceano" , Edições Quasi


Somos o que somos. Um pequeno ponto entre muitos. Carl Sagan em "Humility"

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Um festim literário

Un festín literario
Coinciden en las librerías diferentes obras en las que la cocina tiene un papel central. La novela negra se ha convertido en el mejor refugio literario de la gastronomía
"En dos de los momentos cumbre de la literatura universal, la comida tiene un papel central: el principio de El Quijote —"Una olla de algo más vaca que carnero, salpicón las más noches, duelos y quebrantos los sábados, lentejas los viernes, algún palomino de añadidura los domingos, consumían tres partes de su hacienda"— y la Magdalena de Proust: la cadena de recuerdos que surgen al principio de En busca del tiempo perdido se desata cuando el narrador prueba el sabor del bollo mezclado con el té. "Todas las literaturas hablan de comida. No conozco ninguna que evite el tema", explica el sabio de los libros Alberto Manguel, autor Una historia de la lectura. Desde el Satiricón de Petronio hasta El Gran Gatsby, de Francis Scott Fitzgerald; desde Alicia en el país de las maravillas, de Lewis Carroll, hasta el Cuento de Navidad de Dickens, desde la picaresca hasta Gargantúa y Pantagruel, de Rabelais, comida y literatura siempre han ido unidas. No es de extrañar. Como escribe el periodista y escritor argentino Martín Caparrós en Comí (Anagrama): "Supongamos que se puede suponer que desde que cumplí dos años comí con cierta regularidad dos comidas principales al día: en tal caso llevaríamos comidas, en estos cincuenta y siete años, cuatro meses, seis días, unas 41.910 principales". Tras diferentes cálculos, Caparrós concluye que "el total se elevaría a 59.456 comidas comidas" a lo largo de su existencia.
La cocina se ha convertido en una parte imprescindible de las novelas del siciliano Andrea Camilleri o de la estadounidense Donna Leon
Más allá de cualquier moda relacionada con la alta cocina, la comida es importante en los libros porque lo es en la vida. El ensayista John Dickie demuestra en ¡Delizia!, que acaba de publicar Debate, que se puede contar la historia de Italia a través de la cocina, y Guillaume Long prueba con A comer y a beber. Con las manos en la masa (Salamandra Gráfica) que se puede dibujar un libro de recetas en forma de cómic, mientras que Predrag Matvejevic relata en Nuestro pan de cada día (Acantilado) el poder simbólico y cultural de ese elemento esencial de la cocina. En las mesas de novedades se han multiplicado en los últimos meses los libros en los que la comida tiene un papel importante: La cocinera de Himmler (Alfaguara), una gran novela histórica con una cocinera como protagonista del francés Franz-Olivier Giesbert; Una cocina a prueba de ratones (Salamandra), un relato de Saira Shah en la estela de Un año en Provenza o Bajo el sol de Toscana; El último banquete (Alevosía), en el que el maltés Jonathan Grimwood construye un relato de aventuras y sabores en la Era de las Luces; o Comí, de Martín Caparrós, una narración provocadora e inteligente sobre el papel de la comida en la sociedad.
"La comida es importante en mi vida y en mi trabajo, como en la vida de cualquier ser humano", explica la escritora siciliana Simonetta Agnello Hornby, que acaba de publicar El veneno de las adelfas (Tusquets). Residente en Londres y prestigiosa jurista, Agnello Hornby ha desarrollado una doble carrera literaria, como narradora de historias ambientadas en su Sicilia natal como la magistral La mennulara, pero también como autora de libros sobre cocina como La cucina del buon gusto, Un filo d'olio o Il pranzo di Mose, que sale en noviembre. "Es una parte de nuestra cultura porque, a diferencia de otras criaturas, cocinamos los alimentos, nos da placer y es el último de los placeres humanos del que disfrutamos hasta la muerte. Al escribir sobre la gente no podemos excluir lo que comen y como lo comen", explica.
Caparrós, que acaba de publicar en América Latina El hambre (en España saldrá en febrero), un largo reportaje sobre la falta de alimentos en el mundo, cree, en cambio, que "no es fácil hacer literatura con esa actividad tan aparentemente rutinaria como es comer". "Las presencias fuertes de la comida en la literatura clásica tienen que ver con lo extraordinario, la fiesta, la desmesura. Lo primero que uno piensa es en Rabelais, el desenfreno por excelencia. En castellano, en cambio, la característica más notoria de la comida es que no hay: el Buscón y su hambre memorable, que sirve de modelo a tantos después. Y en estos días la comida no aparece mucho más, creo. Hasta que alguien se decida a escribir una gran farsa sobre la comida como 'arte fácil' en nuestras sociedades y se divierta como un perro", afirma.
Pese a que es casi una tradición del género que los policías, como el comisario sueco Kurt Wallander, se alimenten de una forma que pondría los pelos de punta al endocrino más curado de espantos, el gran refugio literario de la cocina en la actualidad está en la novela negra. Siguiendo la senda abierta por Manuel Vázquez Montalbán y su detective gourmet Pepe Carvalho, la cocina se ha convertido en una parte imprescindible de las novelas del siciliano Andrea Camilleri —su comisario se llama Montalbán en homenaje al escritor catalán— o de la estadounidense residente en Venecia, Donna Leon. "Al comisario Montalbano le encanta comer. Las descripciones de los platos de pescado y de las pastas son deliciosas y son capaces de reflejar todos los sabores de la cultura culinaria de la costa sur de Sicilia", asegura Simonetta Agnello Hornby. 
"Sherlock Holmes tocaba el violín. Yo cocino", decía el detective de Vázquez Montalbán, cuya sabiduría gastronómica fue reunida en Carvalho Gourmet (Planeta). Donna Leon también ha publicado su propio libro de recetas, El sabor de Venecia (Seix Barral), escrito a medias con Roberta Pianaro. Sin embargo, Montalbano no tiene todavía su recetario pese a que a sus lectores nos encantaría tener a mano los secretos de la Trattoria de Enzo, en la que el comisario se da unos atracones monumentales, o ser capaces de reconstruir los platos que Adelina le deja en la nevera o el horno siempre que Livia no se encuentre en Marinella. Los arancini (una especie de croqueta de arroz rellena, típica de Sicilia que puede ser un mazacote infame o un manjar inolvidable), la caponata (un pisto de berenjena con piñones, vinagre y sin pimiento), los espaguetis negros o con almejas, los salmonetes fritos, la pasta al horno o a la Norma, las sardinas rellenas, la merluza con salsa de anchoas y vinagre, el estofado de ternera a la siciliana huelen y saben en las novelas de comisario Montalbano —toda la serie está editada por Salamandra, la última entrega publicada en castellano es Juego de espejos—. Eso sí, hay que comer todos estos en manjares en riguroso silencio.
La autora de libros de cocina Inés Ortega, que está trabajando en un ensayo sobre la relación entre la literatura y la comida y que publicará en octubre en Siruela Bienvenidos a la cocina. 114 recetas para jóvenes y no tan jóvenes, recuerda a otro detective clásico en el que la gastronomía juega un papel muy importante: el comisario Maigret, de Georges Simenon, cuyos libros está reeditando Acantilado. "He aprendido muchas recetas leyendo literatura que han enriquecido mi acervo gastronómico, de la esposa del comisario Maigret he practicado varias", explica Inés Ortega, que acaba de reeditar en forma de aplicación para tabletas y teléfonos móviles uno de los grandes clásicos de la cocina española, 1.080 recetas, de su madre, Simone Ortega. "Me acuerdo de unas caballas al horno, gallina hecha en una cazuela, brandada de bacalao o el famosísimo pollo al horno. Fueron recogidas por el periodista gastronómico francés Robert J. Courtine en el libro Las recetas de Madame Maigret (Ediciones B)", explica.
Caparrós, que acaba de publicar El hambre, un largo reportaje sobre la falta de alimentos en el mundo
No es exactamente literatura policiaca, aunque se acerca mucho: los periodistas Jacques Kermoal y Martine Bartolomei escribieron un libro estupendo sobre un tema que el cine ha explotado hasta la saciedad, la relación entre la criminalidad organizada y la comida. La mafia se sienta a la mesa (Tusquets) parte de un planteamiento muy original: cuenta una comida muy importante en la historia de la mafia y luego ofrece la receta de lo que se puso sobre la mesa. En sus páginas se pueden encontrar platos tan contundentes como la pasta con garbanzos o el bolito, el cocido italiano; postres como el helado de sandía o la tarta al café, o clásicos de la pasta como a la tinta de sepia o con sardinas, que resumen la historia de Sicilia.
Resulta casi imposible escoger para cerrar un momento que una la literatura con la comida. Alberto Manguel recuerda "el té del Sombrero Loco, donde la manteca sirve para reparar relojes y se ofrece un vino inexistente" en Alicia en el País de las Maravillas; el italiano Ugo Cornia, autor de Sobre la felicidad a ultranza (Periférica), que reside en Módena, en el norte de Italia, uno de los lugares del mundo que más en serio se toman la comida, se queda con la historia del cocinero Chichibio, en el Decamerón de Boccaccio —¿tienen las garzas una o dos patas?—. Giuseppe Tomasi di Lampedusa ofrece en El Gatopardo (Alianza, en traducción de Fernando Gutiérrez), con el timbal de macarrones, una buena forma para despedir estas líneas: "El oro bruñido de la costra tostada, la fragancia de azúcar y canela que trascendía, no eran más que el preludio de la sensación de deleite que se liberaba del interior cuando el cuchillo rompía la tostadita capa: surgía primero un vapor cargado de aromas y asomaban luego los menudillos de pollo, los huevecillos duros, las hilachas de jamón, de pollo y el picadillo de trufa en la masa untuosa, muy caliente, de los macarrones cortados, cuya extracto de carne daba un precioso color gamuza". Babelia, El País,09/08/2014

domingo, 10 de agosto de 2014

Ao Domingo Há Música

"Vaso de Flores", 1956, Manabu Mabe
Lembrança

Ponho um ramo de flores
na lembrança perfeita dos teus braços;
cheiro depois as flores
e converso contigo
sobre a nuvem que pesa no teu rosto;
dizes sinceramente
que é um desgosto.

Depois,
não sei porquê nem porque não,
essa recordação
desfaz-se em fumo;
muito ao de leve foge a tua mão,
e a melodia já mudou de rumo.

Coisa esquisita é esta da lembrança!
Na maior noite,
na maior solidão,
sem a tua presença verdadeira,
e eu vejo no teu rosto o teu desgosto,
e um ramo de flores, que não existe, cheira!
Miguel Torga,in " Diário I", (1941), Círculo de Leitores

"(...)muito ao de leve foge a tua mão,/e a melodia já mudou de rumo (...)". Os  amores de verão são como os êxitos musicais que  marcam a estação. Soam, ressoam, passam e repassam onde quer que se vá. Enchem os momentos com tal intensidade que fazem acreditar que o encantamento de um amor estival possa ser duradouro. Quem se alimenta do calor de acordes tão repetidos soçobra logo que a melodia muda de rumo tal como o verão aos primeiros ventos do Outono. 
Há canções que marcaram épocas. Sustentaram paixões e muitas sobreviveram.
Do arquivo do tempo, recuperámos duas famosas composições para este Domingo de um Agosto tão carenciado de AMOR.

- Merle Haggard & Tammy Wynette em " Today I started love you again ".


- Aretha Franklin em " Ain't No Way ".

sábado, 9 de agosto de 2014

A Actualidade em Cartoon

Cartoon Bandeira, DN

Cartoon Bandeira, DN
Forges, El País
Peridis, El País
Kroll, Le Soir
Kroll, Le Soir
Le vignette di ItaliaOggi
Le vigenette di ItaliaOggi

The New Yorker Cartoons from the issue

"Politics are the art of nothing is possible" The New Yorker
Henry cartoon

Henry cartoon

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Manoel de Andrade

A Revista brasileira " IDEIAS" realizou uma longa entrevista a Manoel de Andrade, um notável  poeta brasileiro, que publicou , em Março último, um excelente livro de Memórias, " Nos Rastros da Utopia, uma memória crítica da América Latina nos anos 70" . Relato ímpar e prodigioso do seu tempo de exílio forçado no início dos anos  setenta, tempo negro da Ditadura Brasileira. 
Pelo interesse que reveste esta entrevista,  passamos a transcrevê-la:

 A América Latina nos rastros de Manoel de Andrade
Levando em conta o histórico do autor, é coerente considerar que um livro de poesia pode representar mais do que uma reunião de poemas. Com a publicação de seus versos, Andrade sofreu perseguição política e enfrentou resistência militar em vários países da América Latina nos anos 1970. Com a publicação de Saudação a Che Guevara o poeta teve que deixar o Brasil.
A luta e a obra de Andrade fizeram com que o autor percorresse 16 países da América Latina. A jornada está agora reunida em seu mais recente livro Nos Rastros da Utopia (2014). Antes, já havia publicado Poemas para a Liberdade (1970) – com tiragem esgotada em diversos países, e Cantares (2007) – seu retorno à poesia.
Em entrevista concedida à revista Ideias, o poeta falou sobre a luta contra a ditadura, contou um pouco da sua obra e relembrou sua jornada pela América Latina, que, para o autor, é o melhor lugar para se viver.
Com a publicação de Cantares (2007), você retomou a publicação de poesia depois de um longo período. Por que este intervalo?
Realmente, foi um longo intervalo. Mais de 30 anos. Algo estranho na vida de um escritor. Meu último poema, da fase latino-americana, chamado Liberdade, foi escrito em 1971, no México. Depois disso, começa um intenso período de viagens com palestras, conferências e recitais nos Estados Unidos e depois no Equador, no caminho de minha longa volta ao Chile, em dezembro de 1971 e, meses depois, para o Brasil, em meados de 1972.
Somente voltei a escrever poesia em 2002. Ou seja, depois de 31 anos. Por quê? Fortes razões de ordem familiar me fizeram voltar, justamente na época mais perversa do regime ditatorial, obrigando-me a entrar no anonimato literário, social e profissional.
A luta contra a ditadura foi um dos motivos por esse intervalo?
De 1972 a 1975, as operações militares para acabar com a Guerrilha do Araguaia, bem como a crueldade com que os DOI-Codi iam aniquilando os quadros da guerrilha urbana, geraram o pânico entre todos aqueles militantes ou intelectuais que haviam se posicionado, na ação ou no ideário, contra a ditadura. As detenções, torturas, execuções e desaparecimentos entraram em sua fase aguda em todo o país.
Alguns meses depois de minha chegada, estava sendo procurado pelo DOPS. Transferi meu registro da OAB para Santa Catarina, com o objetivo de advogar em meu Estado. Mas também lá senti que não poderia assumir publicamente qualquer trabalho. Foi neste contexto que encontrei, em Curitiba, uma forma de trabalhar sem que os agentes da ditadura nunca soubessem onde eu estava. Fui vender a Enciclopédia Delta Larousse, numa atividade itinerante, de cidade em cidade, de Estado em Estado. Tornei-me campeão estadual e nacional de vendas, cheguei ao topo na hierarquia dos títulos, à classe gerencial e palestrante em técnicas de marketing.
De que forma isso mudou o rumo de sua vida?
Tive um grande sucesso financeiro, adquiri bens, casei pela terceira vez, e nesse torvelinho incessante de viver sempre viajando, fui perdendo o interesse, não pela leitura, mas pela literatura em si, esquecendo-me que era poeta, e dos rastros que deixei pelos longos caminhos da América Latina. Em 1987, deixei a Delta Larousse, convidado a criar um setor comercial de uma empresa de medicina de grupo, onde permaneci na área gerencial até o ano passado. Quero também dizer que, apesar do meu desinteresse pela literatura, durante todos esses anos fui um leitor constante da filosofia, da história e das religiões, tornando-me um profundo estudioso do kardecismo e adepto praticante da doutrina espírita.
Como foi o processo de retomada?
Minha retomada à criação poética aconteceu numa misteriosa circunstância. Já expliquei algures que minha volta à poesia deu-se por uma intrigante inspiração das musas. Na campanha eleitoral para governador do Paraná, em 2002, Roberto Requião – velho amigo, colega da Faculdade de Direito e companheiro de ideais na juventude –, foi covardemente acusado de inverdades e calúnias pelos seus inimigos políticos. Indignado, comecei a escrever alguns versos, relembrando o tempo em que saíamos em passeatas de protesto contra a ditadura, dos sonhos de justiça e liberdade que partilhávamos e que ele brilhantemente colocava na sua afiada oratória, e eu no lirismo dos meus versos.
Lembrei-me também do caminho que me indicou, e dos amigos a quem me recomendou, no Paraguai, quando, em março de 1969, tive que sair do Brasil, num dos momentos mais difíceis de minha vida. Todo este gesto solidário se transformou no poema Tributo, tornado público num jornal da época e que consta do meu livro Cantares.Foi com este poema que voltei a escrever poesia, em setembro de 2002, depois de 31 anos de abstinência literária.
Você consegue enxergar uma marca na literatura produzida nesses países? O que caracteriza a poesia latino-americana?
Meu interesse naqueles anos e ainda hoje pela literatura latino-americana sempre foi dirigido para os autores comprometidos, sobretudo com o indigenismo e as lutas sociais, e o que caracteriza essa literatura, na prosa e na poesia, é a denúncia e a resistência.
Este espaço não me permite nominar todos os autores, cujas obras estudei – e tudo isso está amplamente analisado Nos Rastros da Utopia– e que se comprometeram com essas lutas, mas me lembro aqui de Mariano Melgar, Pablo Neruda, Armando Tejada Gómez, Ariel Danton Santibañez Estay, Eliodoro Aillón Terán, Javier Heraud, Cesar Vallejo, Luis Nieto, Leonel Rugama, Tirso Canales, Roque Dalton e Otto René Castillo entre os poetas, e Oscar Soria Gamarra, José María Arguedas, Roa Bastos, Ciro Alegria, Manuel Scorza, Jorge Icaza, Miguel Angel Astúrias e Carlos Fuentes entre os prosadores.
Poemas para a liberdade teve grande repercussão, com edições esgotadas em vários países. A que você atribui esse alcance?
Este livro nasceu espontaneamente pelas mãos dos estudantes peruanos de Arequipa, em janeiro de 1970, que propuseram gratuitamente uma edição mimeografada de 1.500 exemplares. Dois meses depois, os estudantes de Cusco lançaram duas edições, respectivamente de 700 e 1.000 exemplares mimeografados e em junho daquele ano, em La Paz, meu livro tem sua primeira edição, de 2.000 exemplares, lançada graficamente, e sem nenhum custo para mim, pelo Comitê Central Revolucionário da Universidad Mayor de San Andrés.
Na verdade, os fatos que levaram à edição boliviana de Poemas para la libertad é uma história espiritualmente misteriosa e inacreditável do ponto de vista editorial e que é contada com todos os seus detalhes no meu livro Nos Rastros da Utopia, envolvendo o jornalista brasileiro Paulo Canabrava Filho, na época militante da ALN – Aliança Renovadora Nacional – e correspondente da France Press, exilado na Bolívia, e o poeta e jornalista boliviano Jorge Suárez.
E as edições em outros países, como aconteceram?
Na Colômbia, a obra foi editada pela Nova Era, cujos 1.500 exemplares se esgotaram em poucas semanas nas livrarias de Cali e Bogotá; duas edições norte-americanas editadas em 1971, em San Diego, pela Grandma´s Camera; a edição equatoriana editada pela Universidade Central do Equador, em 1971 e, finalmente, em 2009, a edição bilíngue brasileira editada pela Escrituras.
Meus Poemas para lalibertad também tiveram edições parciais na Nicarágua, em plena ditadura de Somoza, editadas pela Universidade de El Salvador e publicados, declamados e debatidos em Tampico, no México, em fevereiro de 1971, durante as comemorações do 37º aniversário de morte de Augusto Cesar Sandino, onde participei, a convite dos sandinistas exilados no México. Dois de seus poemas –Canção para homens sem face e Canção de amor à América – foram publicados pela Revista Civilização Brasileira e o último foi comentado pelo crítico Wilson Martins ao afirmar que “é, com certeza, um dos belos poemas do nosso tempo”.
Quanto ao seu alcance e repercussão, creio que se deve ao caráter libertário dos meus versos, à imagem revolucionária que se criou em torno de minha pessoa como um poeta desterrado e expulso de vários países por minhas convicções políticas, assim como pela minha incansável militância poética, peregrinando ao longo de toda a América Latina, num tempo em que a juventude estava mobilizada ideologicamente e, diferentemente da juventude dos nossos dias, amava realmente a poesia.
Além do sucesso editorial, o livro teve grande influência política. Essa repercussão política já era esperada?
Na década de 70, o continente estava semeado de sonhos e esperanças. A revolução cubana, a imagem heroica do Che, as repercussões das revoltas estudantis de 1968 na França, no Brasil e em quase todo o mundo eram os ingredientes que contagiavam politicamente a juventude. Meu livro não era apenas um livro de poesia. Era um documento histórico, porque todos os seus poemas trazem uma consigna geopolítica de luta e, paradoxalmente, uma mensagem de paz e esperança.
Há um poema chamado Requien a um poeta guerrilheiro, dedicado ao jovem poeta peruano Javier Heraud, assassinado pelo exército em 1965, e que também foi uma das causas da minha expulsão do Peru, em 1969. Depois veio minha expulsão da Colômbia e por aí vai, para dizer que meu livro, muito mais que um livro de poesia, foi um gesto de convocação e resistência, uma trincheira de luta e uma bandeira desfraldada por um mundo melhor, tendo seus versos sido publicados em panfletos, jornais, grandes revistas, cartazes, publicações acadêmicas, livros e antologias, ao lado de Mario Benedetti, Juan Guelmann, Jaime Sabines e outros grandes poetas hispano-americanos.
Há também um poema chamado Saudação a Che Guevara, que foi a causa da minha saída precipitada do Brasil, em 1969. Um outro poema, chamado O guerrilheiro, foi dedicado a Inti Peredo, lugar-tenente de Che Guevara na guerrilha boliviana, escrito em 1969, em Cochabamba, alguns dias depois do seu assassinato por militares em La Paz, e que foi um dos motivos porque fui “convidado” a deixar a Bolívia em 48 horas.
Conte um pouco mais sobreesse episódio de Saudação a Che Guevara.
Este poema foi escrito em outubro de 1968 para comemorar o primeiro ano da morte de Che Guevara. Por iniciativa do livreiro José Ghignone (o Dude) foram mimeografadas 3.000 cópias e distribuídas, pelo pessoal do Partidão, em universidades, centros acadêmicos, sindicatos e organizações de classe. A distribuição foi feita gradativamente entre o fim de outubro e o começo de dezembro, até o dia 13, quando foi publicado o AI-5. E daí tudo mudou. O que fazer se o poema já fora quase totalmente distribuído e pregava a luta armada?
Nos primeiros dias de março de 1969, viajei ao Rio de Janeiro para um encontro com o poeta Moacyr Félix e o editor Ênio Silveira, a fim de entregar os originais para a publicação da série Poesia viva, que a editora Civilização Brasileira estava lançando e para a qual eu fora convidado, depois da boa repercussão que teve meu poema Canção para os homens sem face, recém-publicado no n° 21/22 da Revista Civilização Brasileira.
Ao voltar para Curitiba, no dia 12 de março, encontrei, no bar Velha Adega alguns amigos e entre estes o escritor e publicitário Jamil Snege e a estudante de sociologia Elci Susko. Ela me relatou, angustiada, que, por duas vezes, fora abordada na Faculdade, levada por agentes de segurança e interrogada pelo delegado regional da Polícia Federal sobre o meu paradeiro. Ele tinha em seu poder um exemplar do panfleto “Saudação a Che Guevara” onde constava a autoria do poema e me acusava de “comunista”, de “pregar a luta armada” e ser “um inimigo da pátria”.
Naquela época, a dois meses da publicação do AI-5, já havia começado a “caça às bruxas”, no Brasil inteiro. Os suspeitos de subversão eram presos, mantidos incomunicáveis e muitos começaram a sumir. Naquela mesma noite, já em pânico com o relato da Elci e preocupado com minha esposa e minha filha, fui aconselhado pelo Jamil a sair da cidade. No dia seguinte, pela manhã, fui à casa do Requião, e, como já adiantei, ele abriu o caminho para que, no dia 15 de março de 1969, eu rumasse para Assunção recomendado para seus amigos, o pintor e escultor Angel Higinio Iegros Semidei e os irmãos Francisco e Mario Rojas.
O poema repercutiu em outros países também?
Sim, em fins de setembro de 1969, depois de passar pelo Paraguai, Argentina e Chile, eu já estava em Cochabamba (BOL), como convidado a um Congresso Nacional de Poetas. Um dia, no Hotel Boston, onde a Comissão do Congresso me hospedou, apareceu um casal pedindo uma cópia do meu poema ao Che, para ser publicado num cartaz, em comemoração ao segundo ano de sua morte.
Este casal era o já então conhecido jornalista chileno Elmo Catalán Avilés (Ricardo) e a jovem boliviana Genny Köller Echallar (Victoria), dois quadros guerrilheiros do ELN (Ejército de Liberación Nacional), como fiquei sabendo, posteriormente, quando ambos foram assassinados por um militante do próprio ELN (Anibal Crespo Ross), ante a decisão do casal de abandonar a Organização, em razão da gravidez de Genny.
O poema foi publicado num grande cartaz ilustrado por Atílio Carrasco, um dos grandes pintores bolivianos, que havia sido aluno do célebre pintor muralista David Alfaro Siqueiros, no México. Como eu já tinha sido interrogado e ameaçado de expulsão do país, pelo delegado da DIC (Diretoria de Investigações Criminais), decidi entrar no anonimato e o cartaz, com a imagem e o poema do Che, foi publicado como Saludo al Che Guevara e assinado como El Poeta. O poema-cartaz, editado pela FUL, (Federación Universitaria Local) de Cochabamba, passou a ser vendido no meio estudantil e distribuído para todas as FUL da Bolívia.
Dias depois, como a polícia política conseguiu descobrir a minha autoria, fui detido e intimado a sair do país em dois dias. Pela segunda vez, meu poema ao Che me obrigava a buscar novos caminhos.
Como você analisa o papel que a literatura teve na luta contra a ditadura?
Ela não teve o papel que deveria ter. Os comprometimentos foram poucos. Acho que o teatro foi o grande palco dessa luta e onde se destacaram o Grupo Opinião do Rio de Janeiro e o Teatro de Arena de São Paulo. Lembro-me que, em 1965, o Grupo Opinião chegou a Curitiba com a peça Liberdade, Liberdade, trazendo em seu elenco Jairo Arco e Flecha, Tereza Raquel e Paulo Autran, de quem me tornei amigo.
A peça marcou época no teatro brasileiro e citava textos em prosa e poesia de autores famosos, para protestar contra a repressão imposta pela ditadura. Depois de minha volta ao Brasil me afastei da vida cultural e da literatura, mas percebi que, sobretudo depois do AI-5, a criação literária vivia amordaçada e desiludida de seus próprios objetivos.
Não se editavam muitos romances naquela época e, apesar do meu distanciamento, li algumas obras como Quarup e Bar Don Juan, de Antonio Callado, e Pessach: A Travessia, de Carlos Heitor Cony.
O texto de apresentação do livro Nos rastros da utopia – uma memória crítica da América Latina dos anos 70, apresenta você como um caminhante incansável que fez uma fantástica peregrinação por 16 países da América. Fale um pouco dessa jornada.
É uma jornada que teve a dimensão gráfica de 912 páginas. É difícil resumir em poucas linhas essa imensa aventura. O que posso dizer é que na década de 70 tudo estava no ar e bastava o compromisso de sonhar para que os caminhos se abrissem magicamente. Contudo, nem todas as portas da realidade se abriram aos ideais e nem todos os visionários que lutaram por uma nova sociedade conseguiram sobreviver às suas trincheiras.
Sinto-me um privilegiado por ter trilhado esse venturoso tempo e de poder resgatar num livro essa imensa memória colhida em tantos caminhos, numa profunda identificação com a história e as bandeiras revolucionárias desfraldadas pelo continente.
O meu livro é também uma reflexão sobre os sentimentos e as emoções que marcaram a agenda daqueles anos, dizendo da ventura de ter sido jovem nesse tempo e do desencanto de ver, atualmente, as utopias desterradas. Falo da trágica herança dos nossos dias, de um mundo sem norte, sem porto e de um tempo marcado pela perplexidade e os pressentimentos. Mas ainda que nesse impasse, minha alma de poeta não abdica de sonhar, imaginando que a misteriosa dialética do tempo nos reconduza a um amanhecer, a uma aldeia de esperança, a um mundo possível e melhor.
Nos anos 70, o que diferenciava o Brasil dos outros países vizinhos?
No plano político não havia grandes diferenças. Eram regimes de exceção e não estados de direito. Não falarei da economia, porque essa não é a minha paixão. O único fato que diferenciou o Brasil dos demais foi o regime militar que se instaurou no Peru, em 1968, sob o comando do general Juan Velasco Alvarado, propondo mudanças estruturais, amparo aos oprimidos, reforma agrária e colocando barreiras aos interesses imperialistas. Apesar de militares de tradição conservadora, sonharam com um socialismo nacional e reataram relações diplomáticas com Cuba, com a União Soviética e com a China maoísta.
No entanto, esta bem intencionada revolução dos coronéis não sobreviveu a uma grave doença do seu idealizador, em 1975, e, quando Velasco morreu, em 1977, seu sonho de redenção social do Peru também já estava morto.
Entre as ditaduras militares, a grande diferença foi o golpe e a repressão sanguinária de Pinochet, no Chile, por certo o fato mais marcante dos anos 70, assim como a ditadura argentina, cujas estatísticas da crueldade fizeram seus comparsas parecer santos. Enquanto no Brasil tivemos, segundo os dados da Secretaria Especial dos Direitos Humanos, 475 mortos e desaparecidos, na Argentina estima-se que foram 30.000. Por outro lado, a lamentável diferença que sobreveio com o julgamento da História, é que os nossos vizinhos julgaram e puseram na cadeia os verdugos da repressão e aqui no Brasil eles continuam impunes, ironizando as nossas comissões da verdade.
E qual semelhança havia entre essas nações?
A semelhança é que nos anos 70 todo o sul do continente ostentava também suas ditaduras, coordenadas pelo mesmo imperialismo. Tivemos o Paraguai a partir de 1954, o Brasil em 64, em 71 a Bolívia, o Uruguai e o Chile em 73, e a Argentina em 1976. Em nenhuma havia democracia nem garantias constitucionais. Em todas elas, seus oficiais soletraram o be-a-bá da repressão, nas cartilhas da contrainsurgência da Escola das Américas, mantida pelos norte-americanos no Panamá.
No Brasil, os agentes civis aprenderam muito com as técnicas do suplício ensinadas por Dan Mitrione, o mestre norte-americano da tortura, cuja sinistra carreira foi encerrada pelo Tupamaros em 1970, e cujos ensinamentos foram levados para o Chile pelos torturadores brasileiros. Embora cada ditadura tivesse o seu perfil nacional, a Operação Condor associou a todas no mesmo grau de cumplicidade, nos métodos de crueldade e no planejamento dos assassinatos.
De lá para cá, o que mudou na América?
Creio que mudou muito. Os EUA já não conseguem violentar nossa liberdade e nem estrangular nossa economia como fez com Cuba. Nossos povos aprenderam a resistir e a decidir nossos destinos. Os movimentos sociais e a consciência política são hoje os agentes da nossa história e isso possibilitou que governos populares ascendessem ao poder no Brasil, Uruguai, Bolívia, Peru, Equador, Venezuela, Nicarágua, El Salvador, Guatemala e, recentemente, no Chile. Já não somos vítimas do FMI.
Creio que fatos como a invasão da República Dominicana pelos Estados Unidos, em 1965, bem como sua intervenção direta no golpe militar que derrubou Allende em 1973, são agora improváveis de acontecer.
Para você, o que é a América Latina?
Para mim, diante dessa crise global, creio que a América Latina é ainda o melhor lugar para se viver. Enquanto a Europa parece desagregar-se, abatida pela própria ganância dos seus mercados especulativos, aqui sentimos que estamos nos integrando. Ainda que, no mundo ocidental, vivamos sob a feroz imposição ideológica do neoliberalismo, ensejando uma cultura de consumismo que atinge a todos, creio que aqui ainda não fomos contaminados pela desesperança.
Na verdade, para mim, que sou um poeta, não é com a linguagem geopolítica que posso definir a América Latina. Creio que posso defini-la melhor com os versos de um poema que escrevi, há alguns meses, descrevendo seus encantos e suas lágrimas:

AMÉRICA, AMÉRICA
Manoel de Andrade

Trago ainda na alma o mapa dos caminhos...
Meus versos riscam teu dorso para cantar um tempo único e perfumado.
América, América,
ali, entre os ramos e o penhasco, o abismo florescido,
acolá, o milho semeado e a colheita rumorosa.
Entre serras e quebradas vai o colla dedilhando sua flauta,
é seu hino à pachamama modulando o silêncio do altiplano.

Canto meu enredo de viandante,
passo a passo rumo ao norte e à alvorada.
Quantos atalhos, meu Deus, quantas fronteiras!
A travessia ao entardecer no Titicaca,
O Illimani batido pelo sol,
e aquela noite sob as estrelas em Macchu Picchu!
Ah! este aguaceiro vem agora molhar minha saudade,
e tudo me chega como um recanto do passado...
e se hoje digo amigos e digo hermanos,
ouço nossos passos ecoar pelas vielas seculares de Quito e de La Paz.

Ai, América, ainda não disse de ti quanto quisera,
abre teu cântaro, ó Poesia, e dá-me o frescor do rocio,
dá-me a magia e o lirismo...,
que canção para mim soará mais bela que tuas sílabas de encanto?
América, América,
Lembro-me do fulgor do teu rosto renascido da utopia,
tuas bandeiras de sonhos
feitas de plumas e veias transparentes.
Os campos todos semeados
e o porvir tatuado em cada gesto.
Tudo era aroma na gleba cultivada,
nos brotos germinava a esperança
e nossas pálpebras se abriam para o amanhã.

Canto a América que vivi,
entre alegrias e lágrimas, canto o continente ao sul de Anahuác.
Falo de uma América primeira,
asteca, quiché, chibcha, quéchua, mapuche e guarani,
essa América materna,
botânica e mineral,
sangrada por Cortez, Pizarro e por Valdivia.
Falo de uma só pátria,
a grande pátria de Bolívar,
pilhada e violentada,
submetida pelas garras perversas do Império.
Vi tuas trincheiras abertas
e depois as densas trevas caírem sobre o sul.
Sobreveio o chumbo cruel,
os labirintos da dor e as atrocidades.
Na penumbra gemiam os cravos, gemiam as rosas,
e agonizava a vida ainda em botão.

Canto para denunciar a verdade sufocada,
e eis que mancho este verso para nomear Garrastazu, Bordaberry, Videla, Pinochet
e seus rastros genocidas num tempo silenciado.
Canto para dizer das valas clandestinas,
das ossadas do Atacama
e dos “voos da morte” para o mar,
Meu réquiem para trinta mil argentinos,
meu canto para as “crianças da ditadura”,
para os sobreviventes e suas cicatrizes,
para a viuvez e a orfandade
para las Madres de Plaza de Mayo e suas lágrimas perenes.

América, América,
quarenta anos se passaram
e tuas feridas ainda emergem da tragédia!
E aqui declino a “operação” perversa dos “condores”
e os seus generais malditos.
Canto por ti, América,
por tuas aldeias de bravos e por teus calvários,
por teu nevado esplendor tantas vezes torturado,
América de tantos massacres e patíbulos,
ouço-te ainda na voz melancólica dos charangos, quenas e zamponhas,
chorando por la matanza de San Juan, em Potosi.
Uma América de martírios,
estrangulada em Cajamarca,
esquartejada em Cusco,
sacrificada em La Higuera.
executada em Trelew e El Frontón,
e nos rituais da morte em Villa Grimaldi e no Dói-Codi.

Por tanta dor nessas memórias
eu vos peço perdão pelo meu canto.
Ele é também assim: um áspero clarim no entardecer.
Distante, tão distante,
no tempo e nos andares,
e hoje, em busca de mim mesmo,
ainda abrigo o mesmo combativo coração.
Não sei o que te espera, América,
os anos correram inquietantes e velozes
restando um mundo com seu som intolerável.

Busco meu íntimo silêncio,
e, por um momento, digo basta...,
meu pensamento em prece, e num lampejo, viaja ao sul do Chile.
Lá, muito além do Bio-Bio, há um golfo deslumbrante.
Vou em busca de Arauco,
lá lutaram meus heróis, Caupolicán e Galvarino.
Foi lá onde viveu Lautaro e onde vive Frederico.
Vou para rever o cone nevado do Antuco
rever o vale e a Cordilheira,
o seu dossel verdejante, onde se gesta a vida.
Vou para relembrar uma baía de barcos,
para construir uma paisagem na alma,
uma tenda de luz para um amigo

Entrevista publicada pela Revista IDEIAS, em 6 de Agosto de 2014, Paraná , Brasil