segunda-feira, 14 de julho de 2014

O Perfeito Diplomata e a “Realpolitik”

Charles Maurice de Talleyrand-Périgord
(1754-1838)
O Perfeito Diplomata e a “Realpolitik”
Por Eugénio Lisboa
                                                                             A palavra foi dada ao homem para
                                                                              disfarçar o seu pensamento.
                                                                                               Talleyrand
"Tem-se, de longa data, tentado definir as qualidades e qualificações essenciais a um “perfeito diplomata” ou, sendo menos exigente, a um diplomata tão perfeito quanto possível. Ottavio Maggi, por exemplo, publicou, em 1596, uma tese intitulada De Legato, na qual defende que um enviado diplomático – ou, para o caso, um ministro dos negócios estrangeiros -  deveria ter formação teológica, conhecimento dos filósofos gregos e ser especialista nas ciências matemáticas, incluindo-se, nestas, a astronomia e a física; deveria, ainda, ser competente em direito, música e poesia e ser especialmente conhecedor de ciência militar; sem esquecer proficiência em grego, latim, francês, alemão, espanhol e turco; deveria, além disso, ser aristocrata, de nascimento, ser rico e bem parecido.
Ora bem, eu não vou ao ponto de pensar que o nosso emérito Ministro dos Negócios Estrangeiros ou os nossos diplomatas de carreira acreditados por esse mundo fora tenham que satisfazer este exigentíssimo e bizantino caderno de encargos: teologia, astronomia, física, grego, turco – os deuses nos protejam: não, de modo nenhum!
Aristocrata, bem parecido – re-Não! Os aristocratas deixaram de existir, no nosso país, desde o dia 18 de Outubro de 1910: temos, pois, queiramo-lo ou não, que viver sem eles, mesmo no aparatoso Palácio das Necessidades, ali ao Largo do Rilvas! E não é bem parecido quem quer, mesmo indivíduos com uma indiscutível e irresistível vocação para a arte de Richelieu ou de Talleyrand! O saber de Maquiavel não foi inventado para ser manipulado exclusivamente por borrachos! Valham-nos os deuses todos do Olimpo!
Eu aceito, perfeitamente, que o Dr. Rui Machete não saiba turco, não toque piano nem flauta, não seja conde e não componha, nas suas horas de lazer, um soneto bem boleado ou uma ode impetuosa. Até aceito que não seja um pêssego! Não será isso que fará dele um ministro menos astuto, menos eficaz, menos competente! E também acho que o desconhecimento do segundo princípio da Termodinâmica ou das Leis de Kepler não vai afectar, de maior, a inteligência matreira com que defenda, em prélios diplomáticos aquecidos, os interesses da lusa pátria! Não, não exijo nada disso! Vou mais longe, na minha descontracção curricular: não vejo grande necessidade de o Dr. Rui Machete se pôr a queimar as pestanas, em leituras tardiamente nocturnas, de calhamaços de teologia ou em aprofundamentos desnecessários de remotas filosofias gregas. Nem sequer me parece justo exigir ao actual detentor da pasta dos Estrangeiros a leitura empolgante dos relatos que Júlio César fez das suas campanhas na Gália ou o manuseamento de pedregulhos de estratégia militar, daqueles que saboreadamente devorava o inesquecível general Patton! Quanto a mim, o Dr. Rui Machete pode perfeitamente dispensar estes exercícios fatigantes e destruidores de energia anímica, cunhando uma frase de um político célebre.
Ao que o Dr. Rui Machete já não pode ou não deve furtar-se é ao estudo de uns quantos clássicos da diplomacia “real politik”, sempre de útil maneio, em situações de entaladela difícil de gerir: Maquiavel, Richelieu, Talleyrand, Bismarch, Kissinger (Adolfo Hitler, se quiser, mas às escondidas, tendo o cuidado de não o citar!)
Muitos pensam que a “realpolitik” foi inventada por Bismark, o Chanceler de Ferro, que existiu e actuou muitas décadas antes da Dama de Ferro britânica. Mas não foi assim: o termo “realpolitik” foi cunhado pelo escritor e político alemão Ludwig von Rochau, em 1853, no seu livro de título deliciosamente comprido, à alemã: Grandsätze der Realpolitik angewendet nauf die strtlichen Zustände Deutschlands. Digo bem: o termo. Porque o conceito, em si, vem de longe e nem sequer começou com Talleyrand ou Richelieu. Eu diria que toda a diplomacia, com maior ou menor grau de subtileza, vive, alimenta-se de – é realpolitik. O termo, tal como foi inventado na Alemanha, até não quis ter um teor negativo por aí além: opõe “realismo”  (pragmatismo) a “idealismo”. Na “realpolitik”, engolem-se sapos (às vezes, elefantes), para se levar a nossa água ao nosso moinho. A ideia é fazer a outra parte engolir um sapo (ou um elefante) ainda maior. No exercício da “realpolitik”, mandam-se pela borda fora os princípios e a ética (manda-se, tenhamos fair-play, o mínimo possível deles, mas manda-se o que for necessário, para que os objectivos visados sejam atingidos). Os grandes mestres da “realpolitik”, como Richelieu ou Talleyrand disseram coisas afrontosas, porque isso fazia parte do seu “equipamento”. Talleyrand, por exemplo, não se acanhava muito para proferir coisas como esta: “No zelo, entram sempre três quartas partes de estupidez.” Isto não anda muito longe de outro aforismo dele: “Sobretudo, nada de zelo em excesso” (máxima muito útil quando se trabalha nos serviços públicos portugueses, onde o zelo é mal visto). Outro aforismo, também de Talleyrand, não menos “fresco”: “Uma mulher perdoará a um homem tentar seduzi-la, mas não ao homem que perde essa oportunidade, quando lhe é oferecida.” Ou ainda este aforismo célebre, que pus em epígrafe desta crónica: “A palavra foi dada ao homem para disfarçar o seu pensamento.”
Com tudo isto, quis apenas significar que não foi o exercício da “realpolitik” feito pelo Dr. Rui Machete, ao dar o seu assentimento à entrada da Guiné Equatorial no seio da CPLP – não foi esse exercício de “realpolitik”, em si, como exercício, que me surpreendeu ou perturbou. Como já insinuei, ou, mesmo, disse, a “realpolitik” é o próprio miolo da diplomacia. Muito embora esta também às vezes exija, como recomendou o conhecido diplomata e escritor Harold Nicholson, quatro qualidades, nem sempre dispensáveis: veracidade, precisão, calma e despretensiosidade. Mas fiquemo-nos pela “realpolitik”: não se trata de o Dr. Machete ter ou não ter usado deste instrumento diplomático. Trata-se, isso sim, da dimensão do elefante engolido! O Dr. Rui Machete e os seus antecessores, até há pouco tempo, exigiam determinadas condições, para que se permitisse o acesso daquele “reino das trevas” – a Guiné Equatorial -  ao seio da CPLP: em resumo, teria que adoptar a língua portuguesa como uma das línguas oficiais em curso, abolir a pena de morte e não violar de modo demasiado flagrante os mais elementares direitos humanos. Só, apresentando provas de estar a dar cumprimento a este caderno de encargos, se poderia começar a considerar a entrada do país de Obianga – “the heart of darkness” – na comunidade dos países de língua portuguesa. Ora o Sr. Obianga não deu cumprimento a nada disto: prometeu fazê-lo. E nem sequer acabou com a pena de morte: suspendeu-a, para poder voltar a ela, quando lhe convier. E o Dr. Rui Machete, com grande panache, afirma não ter razão para duvidar da palavra dada por Obianga, como se aquele senhor fosse um “honourable gentleman”. Mas, precisamente, isso é que ele não é: todo o seu sinistro curriculum de opressão, atropelo, genocídio e apropriação indevida das riquezas do país, nos convidam a ficarmos de sério sobreaviso contra a palavra dele. Dali, só factos, não palavras. Eis o que um verdadeiro mestre da “realpolitik” deveria ter feito: não vender princípios valiosos por um prato de lentilhas (um pífio cheque para o BANIF? Mas que interesse tem o BANIF para o povo português?)
E já que estamos no reino da “realpolitik”, sempre gostaria de deixar aqui, para benefício do actual detentor dos negócios estrangeiros, um aforismo de ouro de mestre Talleyrand. Reza assim: “ Sim e não são as palavras mais fáceis de serem pronunciadas e também as que exigem maior reflexão.” Talvez o Dr. Rui Machete devesse ter reflectido um pouco mais, antes de ter dito “sim” ao Imperador Jones* da Guiné Equatorial. Ter-nos-ia dado a todos menos vergonha de sermos portugueses.
*Emperor Jones é o título de uma das mais famosas e impressionantes peças de teatro do grande dramaturgo americano, Eugene O’Neill. Recomendo vivamente a sua leitura ao Dr. Rui Machete.” Eugénio Lisboa em Ensaio publicado no Jornal de Letras ( JL), Março de 2014

domingo, 13 de julho de 2014

Ao Domingo Há Música

A Palavra

"Falo da natureza.
E nas minhas palavras vou sentindo
A dureza das pedras,
A frescura das fontes,
O perfume das flores.
Digo, e tenho na voz
O mistério das coisas nomeadas.
Nem preciso de as ver.
Tanto as olhei,
Interroguei,
Analisei
E referi, outrora,
Que nos próprios sinais com que as marquei
As reconheço, agora."
Miguel TorgaDiário X (1968), Ed. Círculo dos Leitores

O assombro , quando nos toma , é sempre inesperado e vinculativo.  Sentimo-lo fortemente. Reconhecemos os próprios sinais porque nos marcam. A invasão é compulsória. Entra, instala-se e comanda. 
Ao ouvir Natalie Dessay em "Oú va la jeune hindoue..." ou  "Air des clochettes", uma ária da ópera “ Lakmé" (1883), de Leo Delibes, ficamos definitivamente em estado de pleno deslumbramento. A voz exige rendição total. Seduz e arrebata pela excepcional maleabilidade e pela grandeza vocálica.

sábado, 12 de julho de 2014

Viagens e Turismo

New York
O verão é tido como a estação das grandes férias. Viajar pelo Mundo e por Portugal pode ser apenas um sonho  nestes tempos de impertinência crísica.  Como nos é impossível dar fim à crise, apresentamos  sugestões que podem dar forma ao sonho de partir.
Veja  imagens fantásticas do nosso mundo.  Exuberante  nos pequenos pormenores e majestoso nos grandes espaços, o mundo deslumbra-nos pela beleza que ostenta  e que nos faz respirar.


PORTUGAL: lugares para visitar


1- Fortaleza de Sagres
"Situada numa posição dominante que coroa a Ponta de Sagres, esta fortaleza terá sido mandada construir pelo infante Dom Henrique (o percursor dos Descobrimentos portugueses) no século XV e depois severamente destruída pelo pirata inglês Francis Drake e pelo terramoto de 1755. O restauro actual descaracterizou o que restava da antiga fortaleza, mas o espaço mantém ainda parte do espírito do passado e vários locais de interesse que sobreviveram ao passar dos anos. Entre eles está a Igreja de Nossa Senhora da Graça, bem como uma gigantesca rosa-dos-ventos (com cerca 43 metros de diâmetro) desenhada no solo com pedras, que poderá ter servido de relógio de Sol. No local foram também criados um centro de exposições, uma sala multimédia e uma loja. Destaque ainda para a fantástica vista que se obtém desta falésia (permanentemente batida pelo vento) sobre a enseada da Mareta e para o cabo de São Vicente. (Monumento Nacional)".Revista Lifecooler
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2- Azenhas do Mar
"Verdadeira obra-prima da arquitectura popular, esta aldeia estende-se em socalcos pela arriba acima, como um presépio. O casario, quase todo pintado de branco, enquadra uma pequena baía onde foi construída uma piscina oceânica. Situa-se 3 km a norte da Praia das Maçãs e a 14 km do centro histórico de Sintra."Revista Lifecooler
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3- Monsaraz 
Monsaraz é a povoação mais antiga do concelho de Reguengos e conserva as características ancestrais burgalenses de morro fortificado, estando classificada como Monumento Nacional. A sua ocupação data da pré-história, existindo nos seus arredores inúmeros monumentos megalíticos. Foi mais tarde ocupada pelos romanos e depois pelos visigodos. Em 1157 foi conquistada aos mouros por Geraldo Geraldes "O Sem Pavor" e em 1167 foi doada aos Templários e posteriormente à Ordem de Cristo (1319). Três alcaides celebrizaram a vila: o condestável D. Nuno Álvares Pereira, Mem Rodrigues de Vasconcelos, comandante da "Ala dos Namorados", em Aljubarrota, e Diogo de Azambuja, construtor do Castelo de São Jorge da Mina, em África. Foi até 1840 sede de concelho tendo, nesta data, sido transferida para a vila de Reguengos. Para além da riqueza do seu património histórico, Monsaraz está envolvida por uma paisagem natural de grande beleza. " Revista Lifecooler
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4- Alto Douro Vinhateiro 
A área classificada do Alto Douro Vinhateiro engloba 25 mil hectares, o que representa dez por cento da Região Demarcada do Douro, que desde há cerca de 250 anos produz aquele que é considerado um dos melhores vinhos do mundo: o Vinho do Porto. A região classificada pela UNESCO como Património da Humanidade é dominada pela geometria dos vinhedos e socalcos recortados nas encostas. É um verdadeiro prodígio da Natureza, conjugado com a intervenção regrada do Homem que, ao longo dos tempos, aqui foi desenvolvendo a actividade vinícola, dando origem a um cenário único e irrepetível. A área consagrada por esta imensa riqueza paisagística e cultural, engloba os municípios de Mesão Frio, Peso da Régua, Santa Marta de Penaguião, Vila Real, Alijó, Sabrosa, Carrazeda de Ansiães, Torre de Moncorvo, Lamego, Armamar, Tabuaço, São João da Pesqueira e Vila Nova de Foz Côa." Revista Lifecooler
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5 - Paisagem cultural da Serra e da Vila de Sintra
A atribuição da UNESCO visou a paisagem cultural da Serra e da Vila de Sintra. Trata-se de um local onde a simbiose entre a natureza e a obra do homem se confundem, num ambiente romântico, de grande misticismo. Local eleito pelas elites de diferentes épocas, Sintra foi sendo marcada pelas atitudes culturais dos que por ela passavam. Repleta de interessantes casas, rodeadas por luxuriantes jardins, o seu isolamento era suficiente para atrair monges e ermitas, que dão a Sintra uma dimensão religiosa-cultural. Foi também o lugar eleito por várias dinastias para fixar moradia (permanente ou de recreio), pelo que conserva em excelente estado os dois palácios. No cume da serra podemos observar o castelo tomado aos mouros pela Reconquista. O seu carácter magnético tem, desde sempre, vindo a atrair gentes sendo por isso um local de especial interesse arqueológico." Revista Lifecooler
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6 - Paisagem protegida das sete cidades - Açores
"Classificada como paisagem protegida em 1980, abrange uma área de 2067 hectares, sendo caracterizada como uma zona de elevada sensibilidade paisagística, com crateras vulcânicas onde se situam várias lagoas e a pitoresca povoação das Sete Cidades. A área compreende a Lagoa Verde e Azul, a Lagoa do Canário, as Lagoas Empadadas, entre outras." Revista Lifecooler
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Dar palco a quem procura “um lugar onde existir”

"A Secretaria de Turismo do Município argentino de Ushuaia veio à Casa da América Latina (CAL), no dia 17 de Junho de 2014, apresentar as novas propostas de turismo da Patagónia aos representantes da Embaixada da Argentina e a agentes de turismo portugueses.
A apresentação foi precedida das palavras de boas-vindas da Secretária-Geral da CAL, Manuela Júdice, que reforçou o apoio da instituição à divulgação da região e, de um modo mais amplo, à Rede Mundial de Cidades Magalhânicas, em que Ushuaia se junta a Lisboa e Sabrosa, cidades pelas quais Fernão de Magalhães passou na sua viagem de circum-navegação do planeta.
Por sua vez, o Embaixador da Argentina, Jorge Argüello, afirmou que a sua Embaixada está empenhada em dar a conhecer a Argentina aos portugueses e Portugal aos argentinos. Relativamente à Rede Mundial de Cidades Magalhânicas, Argüello antecipou um evento promocional em Outubro próximo, em Sabrosa, e lembrou que em 2019 se comemoram 500 anos do início da viagem de Fernão de Magalhães.
Karina Pace, responsável de marketing e promoção da Secretaria de Turismo de Ushuaia, justificou com o carácter “único” da região a escolha da designação Patagonia Fantástica para a estratégia de promoção. E deu 10 razões para que a região seja visitada por turistas europeus (que, nas palavras do seu colega Daniel Leguizamón, são necessariamente de classe média-alta): uma delas é a quantidade de mitos, lendas e fantasias que a Patagónia tem despertado, sendo inclusive notória em obras literárias como as de Júlio Verne e Antoine de Saint-Exupéry.
De acordo com Karina Pace, a Península Valdés é “o santuário da fauna” da Argentina, onde é possível estar a cerca de 300 metros de animais desconhecidos noutros pontos do planeta. A localidade de Calafate, por sua vez, é a “jóia da Patagónia”, notória pelos seus glaciares que podem ser calcorreados pelos visitantes. Ushuaia “dá a sensação de que se está no fim do mundo, ou no começo de tudo”; é “uma cidade-postal” cujos visitantes são surpreendidos pela aproximação de pinguins e outras espécies animais habituadas aos humanos. Para além disso, Ushuaia tem um posicionamento estratégico, tendo ligação rápida às principais localidades vizinhas e à Antárctida.
A Patagónia é também “a capital hemisférica de cruzeiros” e “tem conexão tri-oceânica”, referiu Karina Pace. A promotora salientou ainda a hospitalidade dos seus habitantes, a segurança, os bares e casinos, a oferta cultural crescente, a gastronomia peculiar e a conectividade aérea, com aeroportos internacionais a que se pode chegar não só através de Buenos Aires, como até recentemente, mas também já em viagens directas a partir de algumas cidades europeias."
Karina Pace mostrou ainda o spot promocional da Patagonia Fantástica:



Londres vai ser a cidade mais visitada do mundo em 2014. E Lisboa, a 15ª da Europa
09/07/2014 | 16:32 | Dinheiro Vivo
"Londres encontra-se no 1º lugar do ranking mundial das cidades do mundo que serão mais visitadas em 2014, com uma estimativa de 18,7 milhões de visitantes, enquanto Lisboa ocupa o 38º lugar com 3,15 milhões
De acordo com os resultados da 4ª edição do Global Destination Cities Index, com as previsões para 2014, apresentados esta quarta-feira pela MasterCard, Londres vai liderar a lista das cidades mais visitadas do mundo. A cidade, que será eleita pela terceira vez em quatro anos, retirou o 1º lugar do ranking mundial a Banguecoque, que desce uma posição. Dos 18,7 milhões de visitantes previstos para 2014, estima-se que 67% provenham de cidades europeias.
Ainda no top 5 das cidades que serão mais visitadas a nível mundial, encontramos Banguecoque na segunda posição, seguida de Paris, Singapura e Dubai. Relativamente à Europa, o top 5, para além de Londres, é constituído por Paris, Istambul, Barcelona e por fim Amesterdão.
O estudo refere que os principais destinos mundiais "estão a beneficiar do forte crescimento nas viagens internacionais que resulta da expansão da classe média, das inovações no segmento das viagens de luxo e da crescente necessidade de viagens de negócios".

sexta-feira, 11 de julho de 2014

Interlúdio Musical

"(...) cisnes desaguam
do teu olhar em fio
e vogam ao redor , pelo estuário da sala" Sebastião Alba, in " Uma Pedra ao Lado Da Evidência", Campo das Letras

“O cisne” de Camille Saint-Saens numa excelente interpretação de Han-Na Chang, jovem sul-coreana , num encore no final de um concerto. Han-Na Chang é uma destacada violoncelista e directora de orquestra.


Um homem, uma Família

Crónica familiar
Por Baptista-Bastos

Na terça-feira, dia 1 de Julho, o meu filho Miguel fez anos, e eu tive a casa cheia da família que sempre desejei, da família que fui fazendo ao longo destes anos todos. Sou o chefe nominal de uma linhagem que nunca enriqueceu, e que transformou o trabalho numa especial moral em acção. Provenho dessa gente e dessa moral, e esta, que reuni aqui, mulher, três filhos, dois netos, duas noras, são, no fundo, o rescaldo, feliz rescaldo, de uma vida que se vai concluindo.
O Miguel completou 43 anos, escolheu a profissão que quis; o Pedro faz 45, no dia 14 de Julho, o da Tomada da Bastilha; e o Filipe, em 18 de Outubro, entra nos 39. Os meus netos, Francisco e Manuel, têm nomes de imperadores, e são a luz dos meus olhos. Disse, mais ou menos o que digo agora, em 6 de Fevereiro, lançamento do meu livro, "Tempo de Combate", e faço estas públicas confissões (se se considera confissões a narrativa de um homem comum), porque, como repete a Isaura, nunca desisti, mesmo quando as circunstâncias pareciam um convite à demissão. Não desisti, e não desisto, podem estar tranquilos.
Não desisti é, pois, uma norma de vida que sigo sem presunção nem soberba. Já me armadilharam algumas vezes, não muitas, mas as suficientes para deitar um homem abaixo. Contudo, não sou o único nesta esquadria. Foi o exemplo de muitos mais homens que me ajudou a não capitular. Vejo, agora, da janela, o meu vizinho que teve uma trombose, caminha com dificuldade, apoiado numa bengala, mas também não desiste. Há dias perguntei-lhe se não sentia um certo constrangimento com as manifestações, mesmo discretas, que, no bairro lhe faziam, quando caminhava levemente de lado. "Quero que eles se lixem!", vozeirou, e foi à vida. O desapego ao que os outros possam pensar é, também, uma forma de superioridade moral. Eu penso de maneira diferente: não gosto daquilo que os outros, eventualmente, possam pensar de mim.
Olho para a minha família reunida, vem o Manuel e pede-me os braços. O sorriso dele ilumina-me. Vem o outro, o Francisco, e quer sentar-se ao meu colo. Tenho por hábito apertá-los e beijá-los muito, o que não é, propriamente, um modo de estar que os alegre. "Já chega!", diz o Francisco e corre para o corredor, o irmão atrás. Os adultos conversam uns com os outros, sobre futebol. Olho para a fieira de fotografias expostas no rebordo das estantes. Quando casei com a Isaura, éramos dois miúdos; quando estava na meia-idade, e desempregado; e, agora, esta, de há meses, oito pessoas numa unidade que me deixa feliz e orgulhoso. Quando éramos novos, e a Isaura caminhava, com os nossos três miúdos, eu ficava inchado de vaidade, como se quisesse dizer: são meus e ela é minha. Tínhamos muito cuidado com protegê-los, eu talvez mais pressuroso: ficara sem mãe com cinco anos, o meu pai trabalhava de noite, no jornal "A Voz", e as ruas constituíam o meu reino. A época era favorável ao descuido e à negligência, e não sei como me consegui safar às ciladas que as ruas armavam a cada instante. Dei-me com gente do piorio que, no entanto, obedecia a regras de honra que me ficaram para sempre. Foi talvez essa aprendizagem rude e desamparada que me ajudou no jornalismo. O jornalismo já não é o mesmo, e acaso é bom que assim seja. Gosto muito de jornalistas, e vêm muitos cá a casa, e ofereço-lhes café e eles saem com outra dimensão da Imprensa e das coisas.
Os meus filhos não tiveram inclinação para os jornais. Seguiram outras pistas e outros caminhos. Não sei se ainda bem, se ainda mal; no íntimo, talvez ficasse feliz. Aqui estão eles, tratam-se uns aos outros por "manos" e, quando toca a reunir, parecem membros de um clã. E, afinal, são-no mesmo.
Vem a hora do bolo e de acender as velas do aniversário. Os meus netos adoram a cena, cantam o "Parabéns a você", o Francisco sopra as velas duas e três vezes, os dois batem palmas, acompanhando os adultos. Digo à Isaura: hoje estou menos cansado do que é costume. Ouve-se o silvo de um carro de bombeiros. Sou um homem feliz.”Baptista-Bastos em Crónica publicada no Jornal de Negócios,04.07.2014

quinta-feira, 10 de julho de 2014

Dar voz à Cultura

"A Fundação Cupertino de Miranda em parceria com a Câmara Municipal de Vila Nova de Famalicão vai realizar, nos próximos dias 11 e 12 de julho, CARMINA 1, encontro de poesia coordenado por Tolentino Mendonça e Pedro Mexia.
CARMINA pretende reunir um grupo de especialistas em literatura, fazendo deste um evento único no universo da poesia. Nomes como Sousa Dias, Alex Villas Boas, Fernando J. B. Martinho, Maria João Reynaud, Rosa Maria Martelo, Maria João Costa, Frederico Lourenço, Jorge Sousa Braga, Rui Lage e Pedro Sobrado fomentarão conversas com o intuito de nos aproximarem das interrogações de Deus na poesia.
No dia 12 será apresentada a antologia Verbo — Deus como interrogação na poesia portuguesa publicada pela Assírio & Alvim.
“Deus como interrogação, assim se chama a antologia, porque Deus existe, na poesia como na vida, em modo interrogativo, mesmo para quem tem fé. Esta não é uma antologia para crentes ou para não-crentes, é uma antologia de poesia que dá exemplos de um tema, de um motivo, de uma obsessão, exemplos portugueses, numa época que também nos deu Claudel, Eliot, Luzi ou Milosz, poetas com uma questão, com uma pergunta que nunca está respondida.”
Dos poetas antologiados estarão presentes Armando Silva Carvalho, Carlos Poças Falcão e Fernando Echevarría que promoverão uma conversa moderada por Pedro Mexia e Tolentino Mendonça."
22 de Julho de 2014
18h00
Auditório da Reitoria da Universidade Nova de Lisboa
Entrada mediante convite

"O escritor Mário Vargas Llosa vai receber do Reitor da Universidade Nova de Lisboa, António Rendas, o grau de Doutor Honoris Causa, proposto por Nuno Júdice, docente do Departamento de Línguas, Culturas e Literaturas da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da universidade. Com o apoio da Casa da América Latina, a cerimónia vai ter lugar no dia 22 de Julho, às 18h00, no Auditório da Reitoria da UNL, no Campus de Campolide. A entrada no evento está condicionada a inscrição após convite.
A atribuição do título justifica-se pela relevância da obra no contexto da literatura ibero-americana, reconhecida, em 1994, pelo Prémio Cervantes, e, num plano mundial, pelo Nobel da Literatura, recebido em 2010. A estes adicionam-se ainda o Prémio PEN/Nabokov, o Prémio Príncipe das Astúrias e o Prémio Grinzane Cavour.
Nascido em 1936, Mário Vargas Llosa é conhecido pela sua crítica à hierarquia de castas sociais e raciais vigente ainda hoje no Peru – seu país de origem – e na América Latina. Docente universitário e político, Vargas Llosa é uma personalidade intelectual de grande vulto e um dos mais importantes escritores da América Latina e do mundo.
De acordo com o poeta Nuno Júdice, “tendo como cenário, nos primeiros romances, o Peru e o espaço social em que decorre a primeira fase da sua vida, tratando questões ligadas à iniciação e maturação do homem, Vargas Llosa criou personagens que ficam inscritos na História literária dos séculos XX e XXI. Mas vai para além da sua pátria, a que sempre se dedicou nomeadamente quando, num momento difícil, foi candidato à Presidência do Peru, os seus romances são imprescindíveis para conhecermos a História do continente sul-americano, os seus conflitos e a sua sociedade, sendo exemplos maiores ‘As guerras do fim do mundo’, em que descreve a guerra dos Canudos no Brasil, e o seu penúltimo romance de 2010, ‘O sonho do Celta’, em que traça um retrato impiedoso da colonização europeia da África negra, para além de obras que o afirmaram na transformação da linguagem romanesca do século XX, ao lado de García Márquez.”.CAL


Ano Cortázar prossegue com concerto
26 de Julho
21h30
Teatro da Trindade

"No centenário do nascimento de Júlio Cortázar, o compositor e músico Daniel Schvetz apresenta O Tango e Cortázar. A primeira parte, intitulada O tango tradicional e o novo tango, tem como convidada especial a fadista Mísia. Na segunda parte, Schvetz apresenta Misatango, uma obra em texto latino e com a estrutura original de uma missa e a musicalidade do tango. A Misatango será interpretada pelo Coro de Câmara de Lisboa, sob a direcção musical da maestrina Teresita Marques."
Para além de Mísia, O tango tradicional e o novo tango conta com Ana Pereira (1º violino), Filipa Serrão (2º violino), Joana Cipriano (viola), Cláudia Serrão (violoncelo), Pedro Wallenstein (contrabaixo) e Pedro Santos (acordeão).
O evento, inserido no Ano Cortázar, é uma iniciativa da Casa da América Latina com a Fundação José Saramago, e conta com o apoio da Embaixada da Argentina em Portugal".CAL

Dar palco a quem procura “um lugar onde existir”
"O dramaturgo chileno Juan Radrigán foi o convidado da última sessão do Ciclo sobre Teatro na América Latina. No dia 1 de Julho de 2014, no Teatro D. Maria II, Radrigán – que escreve para teatro desde os 42 anos e produziu já 42 guiões – juntou-se à actriz e encenadora Natália Luiza numa conversa sobre a sua obra. Mas antes assistiu a uma curta encenação da sua obra Factos Consumados (Hechos Consumados no original), pelos actores José Neves, Manuel Coelho e Paula Mora.
Natália Luiza começou por introduzir a obra de Radrigán como dando destaque a situações trágicas, ainda que desconstruindo-as com humor. Mais do que isso, reagiu o dramaturgo, na sua obra está patente a vivência de quem busca “um lugar onde existir” no seio da sociedade, algo muito forte em contexto ditatorial, como o do regime de Augusto Pinochet. De acordo com Radrigán, as suas personagens “querem viver, coisa muitas vezes difícil em ditadura. Há muitos obstáculos, sobretudo quando [as pessoas] são pobres”. “O poder não tem rosto”, acrescentou.
A dramaturgia de Radrigán é, assim, “muito existencial” (nas palavras de Natália Luiza), aborda o tema do amor e, mais recentemente, metafísica. É também tendencialmente triste: “Sinto-me melhor com a tristeza. Sei que a alegria existe, mas não a encontro muito por aí”. No Chile, onde vive, “o espaço humano mais povoado, onde há mais gente, é a solidão”. Os chilenos são em geral pessoas com “poucos desejos e objectivos” de vida, alegou, referindo ainda que na sociedade chilena é muito forte o tema da “ausência do pai, a ausência de alguém a quem amar ou odiar”.
Radrigán disse ainda que “para uma obra final de 40 páginas” escreve, ainda e sempre à mão, “umas 300″. As personagens, que cria a partir de retalhos de várias pessoas com quem se cruzou pessoal ou profissionalmente ao longo dos anos, podem ser compreensíveis por pessoas “de qualquer lugar do mundo”. CAL


Academia Latina distingue Carlos do Carmo com Grammy pela sua obra
“Carlos do Carmo, um dos nomes históricos do fado, vai receber em Novembro um Grammy pela sua obra. A decisão foi tomada por unanimidade pelo Conselho Directivo da Academia Latina (Latin Academy of Recording Arts and Sciences) e foi comunicada directamente ao cantor na tarde de segunda-feira, 30 de Junho. É a primeira vez que um português recebe tal distinção.
No comunicado da Academia, que refere Carlos do Carmo como “um dos maiores fadistas do seu tempo” — realçando a influência da mãe, Lucília do Carmo, na sua carreira —, diz-se que as afinidades pessoais do cantor com a canção francesa e a bossa nova criaram nele “um inequívoco e definitivo estilo que o distingue como uma das mais icónicas vozes da música portuguesa”. A Academia refere ainda o papel-chave de Carlos do Carmo na bem-sucedida candidatura do Fado a Património da Humanidade.
Esta notícia é conhecida num momento em que ainda se celebram os 50 anos de carreira do cantor, comemorados com reedições históricas, concertos, um disco de parceria com fadistas das novas gerações (Fado É Amor) e uma exposição na Cordoaria Nacional.
O Grammy Lifetime Achivement Award, anunciou hoje a agência do cantor, será entregue a Carlos do Carmo no MGM de Las Vegas, EUA, no dia 19 de Novembro, mês em que, segundo a mesma fonte, se estreará um documentário sobre a sua vida.” Público

quarta-feira, 9 de julho de 2014

Essa aurora

A mulher e a sombra
Tentei, um dia, descrever o mistério da aurora marítima.

Às cinco da manhã a angústia se veste de branco
E fica como louca, sentada espiando o mar...

Eu a vira, essa aurora. Não havia cor nem som no mundo. Essa aurora, era a pura ausência. A ânsia de prendê-la, de compreendê-la, desde então me perseguiu. Era o que mais me faltava à Poesia:

E um grande túmulo veio
Se desvendando no mar...

Mas sempre em vão. Quem era ela de tão perfeita, de tão natural e de tão íntima que se me dava inteira e não me via; que me amava, ignorando-me a existência?

És tu, aurora?
Vejo-te nua
Teus olhos cegos
Se abrem, que frio!
Brilham na treva
Teus seios tímidos...

O desespero inútil das soluções... Nunca a verdade extrema da falta absoluta de tudo, daquele vácuo de Poesia: 

Desfazendo-se em lágrimas azuis
Em mistério nascia a madrugada...

Lembrava uma mulher me olhando do fundo da treva:

Alguém que me espia do fundo da noite
Com olhos imóveis brilhando na noite
Me quer.

E fora essa a única verdade conseguida. A aurora é uma mulher que surge da noite, de qualquer noite - essa treva que adormece os homens e os faz tristes. Só a sua claridade é amiga e reveladora. Ao poeta mais pobre não seria dado desvendá-la em sua humildade extrema. O poeta Carlos, maior, mais simples, a revelaria em sua pulcritude, a aurora que unifica a expressão dos seres, dá a tudo o mesmo silêncio e faz bela a miséria da vida: 

Aurora,
entretanto eu te diviso, ainda tímida,
inexperiente das luzes que vais acender
e dos bens que repartirás com todos os homens.

Sob o úmido véu de raivas, queixas e humilhações,
Adivinho-te que sobes, vapor róseo, expulsando a treva noturna.
O triste mundo facista se decompõe ao contato de teus dedos,
teus dedos frios, que ainda não se modelaram
mas que avançam na escuridão como um sinal verde e peremptório.
Minha fadiga encontrará em ti o seu termo,
minha carne estremece na certeza de tua vinda.
O suor é um óleo suave, as mãos dos sobreviventes se enlaçam,
os corpos hirtos adquirem uma fluidez,
uma inocência, um perdão simples e macio...
Havemos de amanhecer. O mundo
se tinge com as tintas da antemanhã
e o sangue que escorre é doce, de tão necessário
para colorir tuas pálidas faces, aurora.

A aurora dos que sofrem, a única aurora. Aquela mesma que eu vira um dia, mas cujo segredo não soubera revelar. Uma mulher que surge da sombra... 
Bem haja aquele que envolveu sua poesia da luz piedosa e tímida da aurora! “
Vinicius de Moraes, in "Para uma menina com uma flor”, Editora do Autor,1966 - Brasil

terça-feira, 8 de julho de 2014

Os abraços de Galeano

“Foi na entrada da aldeia de Ollantaytambo, perto de Cuzco. Eu tinha-me livrado de um grupo de turistas e estava sozinho, olhando de longe as ruínas de pedra, quando um menino do lugar, esquelético, esfarrapado, se aproximou para me pedir que lhe desse como presente uma caneta. Eu não podia dar a caneta que tinha, porque estava a usá-la para fazer sei lá que anotações, mas ofereci-me para desenhar um porquinho na sua mão. Subitamente, correu a notícia. E de repente vi-me cercado por um enxame de meninos que exigiam, aos berros, que eu desenhasse nas suas mãozinhas, rachadas de sujidade e de frio, pele de couro queimado: havia os que queriam um condor e uma serpente, outros preferiam periquitos ou corujas, e não faltava quem pedisse um fantasma ou um dragão.
E então, no meio daquele alvoroço, um desamparadozinho que não chegava a mais de um metro do chão, mostrou-me um relógio desenhado com tinta negra no seu pulso:
Quem me mandou o relógio foi um tio meu, que mora em Lima —disse ele.
E funciona bem? —perguntei.
Atrasa um pouco —reconheceu.”
Eduardo Galeano, in “O livro dos abraços”,  L&PM Editores


Pobres,
lo que se dice pobres,
son los que no tienen tiempo para perder el tiempo.

Pobres,
lo que se dice pobres,
son los que no tienen silencio ni pueden comprarlo.

Pobres,
lo que se dice pobres,
son los que tienen piernas que se han olvidado de caminar,
como las alas de las gallinas se han olvidado de volar.

Pobres,
lo que se dice pobres,
son los que comen basura y pagan por ella como si fuese comida.

Pobres,
lo que se dice pobres,
son los que tienen el derecho de respirar mierda, como si fuera aire, sin pagar nada por ella.

Pobres,
lo que se dice pobres
son los que no tienen más libertad de elegir entre uno y otro canal de televisión.

Pobres,
lo que se dice pobres,
son los que viven dramas pasionales con las máquinas.

Pobres,
lo que se dice pobres,
son los que son siempre muchos y están siempre solos.

Pobres,
lo que se dice pobres, son los que no saben que son pobres.

Eduado Galeano

segunda-feira, 7 de julho de 2014

Sob o signo do fogo


"Joana

Tudo acontece agora sob o signo do fogo e da transformação e da luz.
Vou lembrar-me destes dias, desde a tarde de ontem, como de um incêndio: Quando saímos do carro o ar era um braseiro e o sol  batia contra nós  e cegava-nos. Foi por isso que decidimos parar, porque o sol nos batia nos olhos  como facas e não serviam de nada os óculos escuros.
- Vamos tomar um café, enquanto o sol não desce.
E a seguir dissemos qualquer coisa sobre o pára-brisas, que deveria ter uma zona em que filtrasse a luz.
Foi por isso que parámos, o Hugo e eu, na beira da auto-estrada. Mas ambos sabíamos que o sol era uma desculpa porque o incêndio era dentro de nós, parávamos porque havia ali um pequeno hotel, pediríamos um quarto e subiríamos sem palavras e sem bagagem, como se quiséssemos apenas fazer uma pausa na estrada.
Nenhum de nós se interrogava como era possível, desde a infância que nos conhecíamos, depois tínhamo-nos perdido de vista muitos anos, fui estudar para Inglaterra, casei com o Eric e o Hugo com a Isabel, este ano, inesperadamente, reencontrámo-nos a trabalhar no mesmo hospital, onde, depois da surpresa alegre e do reencontro, nunca passámos de conversas breves, porque nenhum de nós tinha tempo de parar. E no entanto agora tínhamos parado  e ali estávamos  subindo no elevador  sem pensar em nada a não ser um no outro, no corpo um do outro,
na tarde de sol em que nos sentámos no carro, o Hugo ao volante e eu ao lado, deixando-me enredar no que dizíamos, confiante na sua condução segura apesar da velocidade, sentindo que estava bem entregue nas suas mãos que manejavam os instrumentos cirúrgicos com gestos rigorosos e sem hesitações. Confiava nele, se precisasse de ser operada era a ele que escolhia,
aliás acho que foi isso que lhe disse, a certa altura – era a ti que escolhia - , como se falasse comigo mesma.
- Entregavas-te sem hesitar nas minhas mãos?
A pergunta estava lá e respondi que sim,
e então soube que era isso o que desejava, entregar-me sem hesitar nas suas mãos,
mas não foi ele que me fez uma incisão no corpo, para me ver por dentro,
tinha sido eu a fazer no corpo dele uma incisão, com palavras que dissera muito antes, sem pensar, aquela era uma tarde sem pensamentos, apenas emoções e sensações. Desde há muitos quilómetros eu me sentia entrar na sua intimidade.
É raro que os homens se abandonem, em geral mantêm uma distância com que se protegem, mas nenhum de nós mantinha agora distância, falávamos como se nos despíssemos, talvez todos precisemos disso, de vez em quando. Somos sempre nós, os médicos, que cuidamos dos outros, dos que vêm, fragilizados pela doença, pedir uma solução qualquer ( tenho amor à vida, doutor, não me deixe morrer),
no entanto agora ali estávamos, jovens e saudáveis, e querendo que alguém se debruçasse sobre nós e nos ouvisse e tocasse e fizesse por nós tudo o que pudesse, absolutamente tudo,
estávamos vivos e tínhamos a certeza de que não íamos morrer, provavelmente nunca, porque se é imortal , na nossa idade,

Hugo
Temos trinta e oito anos e estamos despidos na cama de um qualquer hotel, a meio da estrada,
lá fora o sol é um braseiro mas aqui dentro está fresco, ouvimos o zumbido do ar condicionado ainda um instante antes de deixar de ouvi-lo, depois é como se ambos estivéssemos debaixo de uma droga, não de uma anestesia que nos adormece mas de um excitante que nos leva de êxtase em êxtase,

Joana
sem espaço para sentimento, não há qualquer espanto nem surpresa, nem sequer nos interrogamos: Porquê? Ou:  Porquê só agora isto nos acontece, e não antes, muito antes?
Essas perguntas ocorrer-nos-ão talvez depois mas não terão resposta, aliá nenhuma resposta importa,  é isto que queremos e ninguém nos vai impedir de querer , estendemos a mão e colhemos um fruto doce e aparecido, sem perguntar o seu nome nem querer saber se é um fruto proibido ou não.
Quero ficar aqui contigo para sempre, mesmo que “sempre” seja só um instante, enquanto o sol desce mais no horizonte, ama-me outra vez, quero que me ames outra vez, enquanto o ar arde lá fora e um vermelho de incêndio alastra pelo céu,”
Teolinda Gersão, in “ Passagens”, Sextante Editora, 1º edição: Março de 2014, pags. 133 a 136

Teolinda Gersão
"Escritora portuguesa, nascida em 1940, formada em Filologia Germânica em Coimbra. Doutorada em 1976 e professora catedrática da Universidade Nova de Lisboa, foi leitora de Português na Universidade de Berlim e assistente na Faculdade de Letras de Lisboa. Autora de vários trabalhos de crítica literária, recebeu duas vezes o prémio de ficção PEN Clube, atribuído ao seu livro de estreia, O Silêncio, em 1981, e ao romance O Cavalo de Sol, em 1989. Foi também galardoada com o Grande Prémio da Associação Portuguesa de Escritores em 1995  e, na Roménia, com o Prémio de Teatro Marele do Festival de Bucareste (adaptação da obra ao teatro) com o romance A Casa da Cabeça de Cavalo. O Prémio Fernando Namora com o romance Os Teclados,1999. Em Maio de 2003, o seu livro Histórias de Ver e Andar foi galardoado com o Grande Prémio do Conto Camilo Castelo Branco, da Associação Portuguesa de Escritores. O Prémio Máxima Literatura com  A mulher que prendeu a chuva e outras histórias , 2008. O Prémio da Fundação Inês de Castro, 2008 , o Prémio Ciranda e o Prémio da Fundação António Quadros em A cidade de Ulisses, 2011. À edição inglesa de A árvore das palavras (The Word Tree, Dedalus, 2010) foi atribuído o Prémio de Tradução 2012."
Passagens é a sua obra mais recente, de Março de 2014. O romance versa sobre «Os segredos das famílias. As mentiras, as histórias falsas, que dão origem a memórias falsas.Os grandes erros que alguém comete, e são pagos pelas gerações seguintes. Mesmo que se queira apagá-los, silenciá-los, estão lá. E voltam à superfície para serem pagos." 
Teolinda Gersão faz parte da lista dos escritores maiores. Daqueles que se tocam e nunca mais se deixam. A sua escrita tem aquela  sedução que nos enreda e prende. Ler Teolinda Gersão é ler a vida.

domingo, 6 de julho de 2014

Ao Domingo Há Música


WHAT THE WORLD NEEDS NOW IS LOVE

"What the world needs now is love, sweet love
It's the only thing that there's just too little of
What the world needs now is love, sweet love,
No, not just for some but for everyone.

Lord, we don't need another mountain,
There are mountains and hillsides enough to climb
There are oceans and rivers enough to cross,
Enough to last till the end of time.

What the world needs now is love, sweet love
It's the only thing that there's just too little of
What the world needs now is love, sweet love,
No, not just for some but for everyone.

(...)
No, not just for some, oh, but just for everyone." Hal David


Stacey Kent é uma cantora de jazz norte-americana com uma voz melodiosa e quente. Dá aos sons a tonalidade limpa dos dias luminosos que crescem no Verão.
Num cinzento Domingo de Verão, apresentamo-la com eufónicos convites em jeito de exortação ao retorno do esquivo Sol. 

1 - "What the world needs now is love", uma composição de 1965 de Burt Bacharach e poema de Hal David. Foi  a voz de  Jackie DeShannon que a tornou célebre. A interpretação de Stacey  Kent empresta-lhe um novo fôlego.



2 - “You’ve got a frienduma canção escrita e interpretada por Carole King ,em 1971. Mais tarde, atingiu um enorme sucesso  na versão de James Taylor. Stacey reveste-a de  outras cores.


3 -"Que reste-t-il de nos amours?", uma canção de 1942  cantada por  Charles Trenet, autor do poema com  música de Léo Chauliac. Em 1972, Dalida  apresentou uma nova versão. A voz de Stacey Kent dá-lhe uma diferente claridade.

sábado, 5 de julho de 2014

O Mundo em Cartoon

Henricartoon

Henricartoon

The daily cartoon, The Independent

The daily cartoon, The Independent

Erlich, El País

El Roto, El País

Kroll, Le Soir

Kroll, Le Soir

Le vignette di Italiaoggi

Le vignette di Italiaoggi

Peridis, El País

Cartoon ELIAS O SEM ABRIGO; DER: REIMÂO E ANÌBAL F,JN

sexta-feira, 4 de julho de 2014

O princípio do Universo



The beginning of everything
Scientists from the Centre for Astrophysics have found evidence of gravitational waves created mere moments after the dawn of the Universe. These waves were created in a period of rapid expansion called cosmic inflation. This new evidence could prove the definitive confirmation of the inflation theory. It seems that finally, scientists can claim to understand the goings on at the beginning of everything.
18 March 2014


A virtual Universe  
Scientists at MIT have traced 13 billion years of galaxy evolution, from shortly after the Big Bang to the present day. Their simulation, named Illustris, captures both the massive scale of the Universe and the intriguing variety of galaxies – something previous modelers have struggled to do. It produces a Universe that looks remarkably similar to what we see through our telescopes, giving us greater confidence in our understanding of the Universe, from the laws of physics to our theories about galaxy formation.
Read the research paper: Properties of galaxies reproduced by hydrodynamic simulation.
08 May 2014

quinta-feira, 3 de julho de 2014

Eugénio Lisboa – mais vívidas memórias

Eugénio Lisboa – mais vívidas memórias
por Onésimo Teotónio Almeida
"Voltei a ser apanhado pela leitura do novo volume de Fabula Acta Est, o III das memórias laurentinas de Eugénio Lisboa (repito aqui para os mais novos uma explicação que já dei na minha recensão ao primeiro volume: ‘laurentinas’ é um arcaísmo. Lourenço Marques era o antigo nome de Maputo. Eugénio Lisboa nasceu em Lourenço Marques e não em Maputo, daí que faça perfeito sentido indicar aquele nome como o da sua cidade natal. Uma questão de rigor cronológico. E de coerência também).
Depois daquela primeira magnífica viagem pela Lourenço Marques da sua infância e adolescência, Eugénio Lisboa optou por saltar para os anos de 1955 a 1976 e, sem quebrar o intenso ritmo a que submete o leitor, leva-o aos anos de maturação política, dele e da sua geração, num Moçambique prestes a desligar-se do império para fazer a sua caminhada independente.
É sempre a voz de Eugénio Lisboa, clara e preclara, forte e sem peias, chamando as coisas pelos seus próprios nomes, que nos acompanha neste percurso de 500 páginas e onze anos. Sabe bem ler essa narrativa contra o pano de fundo que a nossa memória guarda das notícias que sobre Moçambique eram veiculadas pela comunicação social, e apercebermo-nos de como se desenrolava de facto, por detrás da fachada oficial ou oficiosa, tudo aquilo que depois se veio a saber. Eugénio Lisboa viaja pelos anos dando a conhecer ao leitor um universo especial, obviamente o de uma minoria particularmente culta, mas que em Moçambique nem foi assim tão minoria, se atentarmos na plêiade de nomes que mais frequentemente ressaltam nas páginas do livro por se cruzarem na vida do autor: Maria de Lourdes Cortez, José Craveirinha, Reinaldo Ferreira, António de Figueiredo, Ascêncio Freitas, Luís Bernardo Howana, Rui Knopfli, Alberto de Lacerda, Virgílio de Lemos, Alfredo Margarido, Hermínio Martins, António Quadros (pintor), Glória de Sant’Ana, Noémia de Sousa, são só alguns exemplos. E claro que havia outra gente interveniente e activa nessa Lourenço Marques que produziu uma notável elite ainda hoje marcante na cultura portuguesa. Não se trata de modo nenhum de uma história intelectual do período mas tão só de uma “crónica dos anos da peste” (para roubar o título a um livro de Eugénio que, por sinal, lhe foi oferecido por Rui Knopfli), embora o termo “crónica” não capte devidamente a intensidade dinâmica que infiltra a narrativa e a transporta  para um patamar quase fílmico onde as imagens se sobrepõem incessantemente, acumulando tensão e colando à tela a atenção do espectador. Nesse sentido, o livro funciona como um romance à clef, mas cujos enredo e desfecho são antecipadamente conhecidos do leitor, apanhado este pela avidez de conhecer os meandros do caso particular do autor, de como ele viveu a experiência da independência de Moçambique, a descolonização e a partida para a pátria que não era sua, porque essa ficara na Lourenço Marques que o tempo enterrou. Por isso as oitenta páginas da última parte do livro atingem um ritmo e uma densidade dramática empolgantes. São páginas fortes, duras, relatadas com contensão, sem arroubos demagógicos nem laivos de tragédia, mas também sem rodeios nem subterfúgios politicamente correctos. Os leitores de Eugénio Lisboa conhecem-lhe bem o estilo e não ficarão surpreendidos com a transparência da linguagem; familiarizados que estão com a sua prosa certeira, poderão agora deleitar-se com esta oferta de uma narrativa de grande fôlego, de um quase-romance.
Sem ter aparentemente tido a pretensão de escrever uma história cultural de Moçambique, ou nem sequer a sua própria biografia intelectual, Eugénio deixa esboçado nos seus contornos o seu próprio universo ideológico e literário. As apetitosas citações e referências pescadas em quilométricas leituras, com que EL profusamente condimenta e salpica as suas crónicas e ensaios, dão aqui lugar a uma sequência interminável de factos servidos por uma memória portentosa, como se eles fossem demasiados para o espaço e tempo de que dispõe. Voraz leitor e amante da grande literatura, Eugénio viveu no longínquo hemisfério sul de ouvido e olhar atentos ao norte, aonde ia regularmente abastecer-se. Nestas páginas apenas ressaltam, incontrolada e inevitavelmente, por aqui e por ali, alusões aos seus autores de cabeceira e coração, aqueles que formaram o ensaísta, o cronista e o homem que hoje tanto apreciamos, habituados que estamos a vê-lo navegar com um imenso à-vontade e uma familiaridade impressionante (agora diz-se impressiva em tradução do inglês) pelas estantes do cânone ocidental. EL deve muito aos seus autores-do-peito e gosta de reconhecê-los e publicitá-los a ver se atrai compinchas que lhe queiram fazer companhia. A constelação é vasta e brilhante: Montherlant e José Régio (tinha de referi-los primeiro), Voltaire, Swift, Anatole France, Gide, Proust, Valéry, Thomas Mann, Laclos, Bertrand Russell, Pessoa, Stendhal, Jean Anouilh, Gide, Flaubert, Dostoievsky, Tolstoi, Turgueney, George Eliot, Balzac, Mishima, Marcel Aymé, Eça, T. S. Eliot, Shakespeare… e a lista continuaria mas já basta para um mapeamento de estrelas que dão bem para configurar um universo.
As farpas que habitualmente lhe saltam das linhas na sua escrita são aqui quase sempre dirigidas ao status quo politico e não aos correligionários das letras, como se Eugénio estivesse mais interessado em evocar boas memórias e esquecer ou ignorar tricas inevitáveis num qualquer percurso. Uma que outra vez, a verve não perdoa, como naquele desvio provocado por uma menção de Gyorgy Lukacs  - e lá vem a faca afiada – “que, durante algum tempo, se aninhou, quentinho, no sovaco do Eduardo Prado Coelho […] antes de [este] se desgostar dos seus amores juvenis e passar a mudar de “maître-à-penser”, como quem muda de camisa (e sempre sem dor)” (pp. 393-4).
Estamos perante uma obra de envergadura que vem desassombradamente marcar o ponto na nossa literatura memorialista, para a qual de repente parece termos despertado. Um livro vertical e nobre, frontal e humano, demasiado humano. Se tivesse de seleccionar um exemplo demonstrativo da justeza dos adjectivos que derramei sobre a frase anterior, creio que escolheria esta passagem: “[…] esta estúpida lei [da Frelimo] das nacionalidades, no seu fundamentalismo primário e demagógico, ignorava uma realidade: para muitos europeus nascidos em África, como eu, o nosso universo cultural (e este engloba afectos) era mesmo duplo: éramos profundamente europeus e profundamente africanos. Mas precisamente: éramos portugueses e moçambicanos. Nenhuma dessas vivências profundas podia ser irradicada por decreto. Dessem-me ou não me dessem passaporte, era moçambicano; dessem-me ou não me dessem passaporte, era português. O que eu era, em profundidade, era o que eu sentia e não o que qualquer burocrata vestido de político efémero (e iletrado) decidisse que eu era. E ainda hoje penso assim. Quem decide a minha nacionalidade autêntica sou eu e mais ninguém.” (p. 465).
Quem escreve assim sabe da língua e da vida. Se ainda por cima sabe de literatura e nos faz, à distância, viver vicariamente páginas de uma experiência rica, enriquece a literatura, como os leitores enriquecem com o capital que os bons livros geram."
Onésimo Teotónio Almeida, in JL