"A coisa mais indispensável a um homem é reconhecer o uso que deve fazer do seu próprio conhecimento" Platão
segunda-feira, 23 de junho de 2014
Poema dos dons
Outro poema dos dons
Graças quero dar ao divino
labirinto dos efeitos e das causas
pela diversidade das criaturas
que formam este singular universo,
pela razão, que não cessará de sonhar
com um plano do labirinto,
pelo rosto de Helena e a perseverança de Ulsses,
pelo amor que nos deixa ver os outros
como os vê a divindade,
pelo firme diamante e a água solta,
pela álgebra, palácio de precisos cristais,
pelas místicas moedas de Angel Silésio,
por Schopenhauer
que decifrou talvez o universo,
pelo fulgor do fogo
que nenhum ser humano pode olhar sem um assombro antigo,
pelo acaju, o cedro e o sândalo,
pelo pão e o sal,
pelo mistério da rosa
que prodiga cor e não a vê,
por certas vésperas e dias de 1955,
pelos duros tropeiros que, na planície,
arreiam os animais e a alba,
pela manhã em Montevideu,
pela arte da amizade,
pelo último dia de Sócrates,
pelas palavras que foram ditas num crepúsculo
de uma cruz a outra cruz,
por aquele sonho do Islão que abarcou
mil noites e uma noite,
por aquele outro sonho do inferno,
da torre do fogo que purifica
e das esferas gloriosas,
por Swendenborg,
que conversava com os anjos nas ruas de Londres,
pelos rios secretos e imemoriais
que convergem em mim,
pelo idioma que, há séculos, falei em Nortúmbria,
pela espada e a harpa dos saxões,
pelo mar que um deserto resplandecente
e uma cifra de coisas que não sabemos
e um epitáfio dos vikings,
pela música verbal da Inglaterra,
pela música verbal da Alemanha,
pelo ouro que reluz nos versos,
pelo épico Inverno,
pelo nome de um livro que não li: Gesta Dei per Francos,
por Verlaine, inocente como os pássaros,
pelo prisma de cristal e o peso de bronze,
pelas riscas do tigre,
pe1as altas torres de São Francisco e da ilha de Manhattan,
pela manhã no Texas,
por aquele sevilhano que redigiu a «Epístola Moral»
e cujo nome, como ele teria preferido, ignoramos,
por Séneca e Lucano, de Córdova,
que antes do espanhol escreveram
toda a literatura espanhola,
pelo geométrico e bizarro xadrez,
pela tartaruga de Zenão e o mapa de Royce,
pelo odor medicinal dos eucaliptos,
pela linguagem, que pode simular a sabedoria,
pelo esquecimento, que anula ou modifica o passado,
pelo costume,
que nos repete e nos confirma como um espelho,
pela manhã, que nos depara a ilusão de um princípio,
pela noite, sua treva e sua astronomia,
pelo valor e a felicidade dos outros,
pela pátria, sentida nos jasmins
ou numa velha espada,
por Whitman e Francisco de Assis, que já escreveram o poema,
pelo facto de que o poema é inesgotável
e se confunde com a soma das criaturas
e jamais chegará ao último verso
e varia segundo os homens,
por Frances Haslam, que pediu perdão a seus filhos
por morrer tão devagar,
pelos minutos que precedem o sonho,
pelo sonho e a morte,
esses dois tesouros ocultos,
pelos íntimos dons que não enumero,
pela música, misteriosa forma do tempo.
Jorge Luís Borges, in "Nova antologia pessoal" Difel, 1983
domingo, 22 de junho de 2014
Ao Domingo Há Música
Despedida
Entre mi amor y yo han de levantarse
trescientas noches como trescientas paredes
y el mar será una magia entre nosotros.
No habrá sino recuerdos.
Oh tardes merecidas por la pena,
noches esperanzadas de mirarte,
campos de mi camino, firmamento
que estoy viendo y perdiendo...
Definitiva como un mármol
entristecerá tu ausencia otras tardes.
Jorge Luis Borges, in "Fervor de Buenos Aires "(1923), Argentina
Há mulheres que nos marcaram e que marcaram para sempre o mundo pelo seu talento e força. Deixaram um rasto que perdura e revivifica nos caminhos da História.
trescientas noches como trescientas paredes
y el mar será una magia entre nosotros.
No habrá sino recuerdos.
Oh tardes merecidas por la pena,
noches esperanzadas de mirarte,
campos de mi camino, firmamento
que estoy viendo y perdiendo...
Definitiva como un mármol
entristecerá tu ausencia otras tardes.
Jorge Luis Borges, in "Fervor de Buenos Aires "(1923), Argentina
Há mulheres que nos marcaram e que marcaram para sempre o mundo pelo seu talento e força. Deixaram um rasto que perdura e revivifica nos caminhos da História.
A 4 de Outubro de 2009, os media anunciavam a morte da cantora argentina Mercedes Sosa. O jornal Público referenciava que Mercedes Sosa, (1935-2009), cantora folk argentina , lutou contra as ditaduras fascistas na América do Sul com a sua potente voz, convertendo-se numa lenda da música latino-americana. Apelidada "La Negra" - devido ao seu cabelo preto e à tez morena – Mercedes Sosa foi igualmente chamada de “voz de uma maioria silenciosa”, tendo sempre lutado pelos direitos dos mais pobres e pela liberdade política. Sosa dizia frequentemente ser uma mulher de esquerda, mas que a sua única vocação era a música. “Eu nasci para cantar”, disse numa entrevista em 2005. “A minha vida é dedicada a cantar, a encontrar canções e a cantá-las (...) Se eu me envolvesse na política, teria que negligenciar aquilo que é mais importante para mim, a canção folk”. Durante a sua carreira, Sosa recebeu uma série de galardões que lhe reconheceram a luta em prol dos direitos humanos, incluindo um Grammy Latino e um prémio da UNESCO."
Em 2001 declarou: “Não sou nova nem bonita, mas tenho a minha voz e a minha alma, que me sai quando canto”.
E todos eles , quando ainda eram novos, se juntaram a esta extraordinária mulher para dar voz a uma das mais belas canções do seu repertório.
Ouçamos, pois, Mercedes Sosa, Chico Buarque, Caetano Veloso, Milton Nascimento e Gal Costa em “Volver a los 17”.sábado, 21 de junho de 2014
Notícias do Mundo e da Cultura
Número de
refugiados supera o da época da 2ª Guerra Mundial
Ao todo,
51,2 milhões de pessoas foram forçadas a deixar as suas casas em vários países
“Beirute, Líbano - O ano de 2013 teve o maior número de refugiados desde
a Segunda Guerra Mundial, informou ontem a ONU. Ao todo, 51,2 milhões de
pessoas foram forçadas a deixar as suas casas em vários países, 6 milhões a
mais do que em 2012. O balanço inclui pessoas que cruzaram as fronteiras de
suas nações e também as deslocadas dentro de seus próprios países. Os dados
foram apresentados em Beirute, no Líbano, na ocasião do Dia Mundial dos
Refugiados. A actual crise no Iraque — onde terroristas sunitas estão a tomar o
controle de várias cidades — pode agravar ainda mais a situação. Só na semana
passada, meio milhão de pessoas fugiu de Mossul, segunda maior cidade do país.
O Alto Comissariado da ONU para Refugiados (Acnur) calcula que a maioria
dos deslocados no mundo (33,3 milhões) é de pessoas que fugiram de suas
residências, mas permaneceram dentro de seus próprios países. Os conflitos na
Síria, Sudão do Sul, República Democrática do Congo e República Centro-Africana
contribuíram muito para o aumento. Somente a guerra civil síria, que já dura
três anos, forçou a fuga de 9 milhões.
“Os conflitos multiplicam-se mais e mais. E, ao mesmo tempo, conflitos
antigos parecem não acabar nunca”, afirmou António Guterres, alto comissário da
ONU.
O país que ‘exporta’ mais refugiados ainda é o Afeganistão. Já o
Paquistão, seu vizinho, é o que mais recebe deslocados — tem hoje cerca de 1,6
milhões. Devido à crise síria, Líbano, Jordânia e Turquia mantiveram suas
fronteiras abertas. O Líbano hospeda no momento mais de 1 milhão de refugiados
sírios, o que representa um quarto de sua população total. A pressão sobre
habitação, educação e saúde tem causado tensões num país cuja história recente foi marcada por
conflitos.
Avanço de
terroristas no Iraque
Mais de um milhão de iraquianos foram obrigados a deixar as casas neste
ano, e a crise tende a agravar-se diante
dos avanços dos rebeldes do Estado Islâmico do Iraque e da Síria, informou a
ONU. Além do meio milhão que fugiu na semana passada, outros 500 mil foram
deslocadas da província de al-Anbar, onde os milicianos sunitas estão no
comando desde o início de 2014.
“Com a crise humanitária, nem sempre é fácil chegar a todos eles”, disse
a porta-voz do Acnur, Ariane Rummery. Algumas famílias em fuga se abrigam em
quartos superlotados de hotéis, e outras vão para campos perto de postos de
controle no Norte do país.
Enviada especial do Acnur, a actriz norte-americana Angelina Jolie
visitou ontem, na Tailândia, um acampamento de refugiados vindos de Mianmar. O
conflito interno no país, com lutas entre forças governamentais e grupos
étnicos, é uma das grandes tragédias actuais."
mais informação:
mais informação:
- GRÁFICO Cuatro décadas de la historia de los refugiados
- Europa cierra la puerta a los refugiados
- Cine y refugio: 12 películas para saber más
- FOTOGALERÍA Desplazados
- España acoge al 0,4% de los refugiados que piden asilo a la UEEl calentamiento global ha desplazado a 144 millones de personas en cinco años
POETAS
XÁNATH CARAZA E NUNO JÚDICE NA CAL
27 de Junho de 2014
17h30
Casa da América Latina
Entrada livre
17h30
Casa da América Latina
Entrada livre
"A Casa da América Latina e o Centro de Literaturas e Culturas Lusófonas e
Europeias da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (CLEPUL) organizam,
para as 17h30 do dia 27 de Julho, uma sessão de poesia com a autora mexicana Xánath Caraza, com apresentação do poeta português Nuno
Júdice e música de Ian Carlo Mendoza.
Pela primeira vez em Portugal, a poetisa e autora de contos recebeu em
2014 o prémio Beca Nebrija para autores. Foi finalista na edição de 2013 dos
International Book Awards na categoria de Ficção Multicultural. O seu livro Conjuro
foi considerado o segundo melhor livro de poesia em língua espanhola nos
International Latino Book Awards de 2013.
Originária de Xalapa, em Veracruz, no México, viveu nos Estados Unidos
(Vermont e Kansas City). É mestre em Linguagens Românticas e é Professora
Assistente de Línguas e Literaturas Estrangeiras na Universidade do Missouri."
Nova
exposição de Edgar Martins
A
Impossibilidade Poética de Conter o Infinito De 27 de Jun a 7 de Set | Edifício Sede, Fundação Calouste Gulbenkian
Exposição
O
Traço e a Cor
Desenhos
e Aguarelas na Colecção Calouste Gulbenkian
Conjunto de desenhos e aguarelas dos séculos XVI a XX que será mostrado
pela primeira vez como um todo.
De 27 Jun a 21 Set | Museu Calouste Gulbenkian
Fados e
Tudo
A fadista
é a comissária do programa 'Fados e Tudo', que começou no Teatro São Luiz, em
Lisboa, e que até sábado junta o fado ao cinema, dança, poesia e humor.
Integrado nas
Festas de Lisboa, o programa Fados e Tudo une nomes que vão dos fadistas
Aldina Duarte, Camané ou Ricardo Ribeiro, ao humor de Ricardo Araújo Pereira,
passando pelo cinema de Bruno de Almeida ou pelo piano de Júlio Resende.
"O
humor, a poesia, a dança e o cinema, redescobrem-se na sua relação com o fado,
património do mundo. Ou então, é o fado que se revê dançado, filmado, dito,
glosado e também, claro, cantado e tocado", pode ler-se em comunicado.
Tanto na sala
principal como no Jardim de Inverno do teatro uma mão cheia de fadistas junta-se
"a um elenco de cúmplices numa série de momentos únicos, numa linguagem
intimista e despojada".
Conheça aqui
este programa, integrado nas Festas de Lisboa, comissariado por Aldina Duarte:
Quinta-feira:
Sala
Principal às 21.00
Humor Livre -
Carlos Vaz Marques e Ricardo Araújo Pereira juntam-se a Camané
Sexta-feira
Sala
Principal às 21.00
Exibição do
vídeo Fado Celeste, de Bruno de Almeida, criado para celebrar os 90 anos
da fadista.
Exibição do
documentário Fado Celeste de Diogo Varela Silva, com a participação de
Celeste Rodrigues
Jardim de
Inverno às 23.30
Júlio Resende
apresenta o concerto Amália por Júlio Resende
Sábado
Sala
Principal às 21.00
Seus amores,
suas paixões - Os fadistas Ricardo Ribeiro e Fábia Rebordão vão unir-se ao
Lisboa String Trio, formado por Bernardo Couto (guitarra portuguesa), José
Peixoto (viola) e Carlos Barretto (no contrabaixo)”DN
A partir
de Outubro, a Capela Sistina terá um novo sistema de climatização e de
iluminação para ajudar a preservar os frescos de Miguel Ângelo. O resultado: em
vez de 700 pessoas, o local passa a poder receber duas mil em simultâneo.
“Os novos
sistemas de climatização e iluminação da Capela Sistina começaram hoje a ser
instalados e as visitas ao local estarão proibidas até ao final das obras, em Outubro,
confirmaram os Museus Vaticanos.
As mudanças
na ventilação da sala visa preservar as pinturas de Miguel Ângelo de elementos
nocivos como o pó, a transpiração e o dióxido de carbono deixados pelos
milhares de turistas que todos os dias visitam a Capela Sistina.”DN
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sexta-feira, 20 de junho de 2014
Chernobyl: crónica do dia depois
(texto publicado em Gazeta do Povo, abril de 2006)
Frederico Füllgraf - Chernobyl: crónica do dia depois
Radioatividade era a maldição. Não tinha forma, cheiro, nem cor. Era o inimigo amoitado, fantasmático, porque onipresente. Medusa gasosa, deus volátil, todo-poderoso, no vicejante jardim de um bairro de Stuttgart a nuvem radioativa de Chernobyl já desencadeava a metamorfose diabólica. Pessegueiros, pereiras e cerejeiras em flor, saltavam das páginas da literatura, do livro de “Génesis” até Baudelaire, como metáforas letais da árvore do pecado, do fruto proibido, das flores do mal... – todos intocáveis.
Radioatividade era a maldição. Não tinha forma, cheiro, nem cor. Era o inimigo amoitado, fantasmático, porque onipresente. Medusa gasosa, deus volátil, todo-poderoso, no vicejante jardim de um bairro de Stuttgart a nuvem radioativa de Chernobyl já desencadeava a metamorfose diabólica. Pessegueiros, pereiras e cerejeiras em flor, saltavam das páginas da literatura, do livro de “Génesis” até Baudelaire, como metáforas letais da árvore do pecado, do fruto proibido, das flores do mal... – todos intocáveis.
Crónica
"Manhã de 26 de Abril de 1986, tingida de laranja esmaecido por acanhados raios de sol primaveril.
Eu caminhava em direcção a uma padaria, em Bremen, noroeste da Alemanha, quando numa banca deparei com as manchetes dos principais jornais, que sacudiram os restos do meu entorpecimento: "Aconteceu o improvável - o acidente do milénio – explode usina nuclear na Ucrânia!“.
Alvoroçado, naquela manhã esqueci um importante compromisso profissional, e o editor que me esperava, relevou, dizendo que estava colado aos noticiários da TV.
Os trens alemães atrasaram - incidente não previsto na agenda de um país regrado, sisudo, que naquele dia se esquecera de seus princípios, narcotizado pela onda de choque. O primeiro balanço advertia: 28 mortos em Chernobyl. E uma nuvem com 40 toneladas de um coquetel de substâncias radioactivas rumava para oeste, na direcção da Europa Central.
Imaginando-me o único brasileiro no olho do furacão, liguei para o Brasil, que dormia o sono dos distraídos. Despertei namorada e amigos, soletrando o nome da catástrofe. Insistiram em que eu voltasse no primeiro avião. Infelizmente eu não podia abandonar minha missão, pois – venenosa ironia - encontrava-me em turnê pela Alemanha, estreando o filme documentário "O veneno nosso de cada dia", co-financiado pelo governo José Richa, sobre o impacto humano e ambiental do uso de agrotóxicos no Brasil.
Um solilóquio sobre o absurdo paralisou-me - quem se importaria com malformações de crianças nascidas nos campos de algodão do Paraná, enquanto o céu, na Europa, vomitava radioactividade sobre a cabeça de centenas de milhões de pessoas?
De posse da estória toda, ruminei sobre crenças que da noite para o dia se fazem pó. Por exemplo: a capciosa estatística conjurada pelas "comunidades científicas", asseverando a “probabilidade 1:1.000 000 000“, de um acidente grave em usinas nucleares. No dia 26 de Abril de 1986, esta fantasia irresponsável jazia por terra, junto com os mortos de Chernobyl.
Lembrei-me de Jane Fonda estrelando o thriller “The Day After”, prenúncio cinematográfico do acidente de Three Miles Island, mas intuí que comprara um ingresso para um “filme“ pior.
Contudo, a tournée agendara compromissos e tinha que continuar.
Durante a longa viagem para Stuttgart transitei por cenários de uma guerra desesperada contra um inimigo invisível. Nas curvas do Reno, imaginei desatados os fantasmas de Wagner. Da janela do trem divisei imagens do colapso, já banalizadas pelos filmes-B de ficção científica: matraqueado metálico de helicópteros no céu; barreiras policiais bloqueando as estradas; carros esvaziados de seus ocupantes por comandos de robocops com roupa de protecção futurista e máscaras de oxigénio; a estridência das sirenes advertindo acidentes; luzes de alarme piscando em azul, vermelho e amarelo; contadores Geiger subindo e baixando sobre corpos humanos; gado cercado nos pastos como “factor de risco”, confinado em estábulos.
No dia seguinte, durante o café da manhã, no hotel, o bombardeio incessante dos boletins de advertência: “elevada dosagem de bequeréis medidos no solo da Floresta Negra. O consumo de lacticínios da região está terminantemente proibido“.
E naquela tarde de domingo, 27 de Abril, confrangido, ali na sala da casa do deputado Verde, Willi Hoss, com as janelas para o jardim hermeticamente fechadas, senti-me prisioneiro de um cenário mais macabro que “Primavera Silenciosa”, o romance documental de Rachel Carson sobre devastação e morte nos campos dos EUA, após seu bombardeio com milhões de toneladas de pesticidas.
Radioactividade, contudo, era a maldição. Não tinha forma, cheiro, nem cor. Era o inimigo amoitado, fantasmático, porque omnipresente. Medusa gasosa, deus volátil, todo-poderoso, no vicejante jardim de um bairro de Stuttgart a nuvem radioactiva de Chernobyl já desencadeava a metamorfose diabólica. Pessegueiros, pereiras e cerejeiras em flor, saltavam das páginas da literatura, do livro de “Génesis” até Baudelaire, como metáforas letais da árvore do pecado, do fruto proibido, das flores do mal... – todos intocáveis.
Aquele medo de respirar, o terror de expor-se ao céu que não mais protegia!
Anoitecia, e o cinza que deitava sobre a linha do horizonte pareceu-me o ocaso dos deuses da máquina infalível.
Vinte anos depois, quatro mil mortos (“oficiais”) em Chernobyl - em Angra dos Reis, seriam quantos?
quinta-feira, 19 de junho de 2014
Vozes que cantam
Penumbra
“Na penumbra dos ombros é que tudo começa
quando subitamente só a noite nos vê
E nos abre uma porta nos aponta uma seta
para sermos de novo quem deixámos de ser”
David Mourão- Ferreira, in "Obra Poética ( 1948-1988)",Editora Presença
Nem só os poetas cantam. Há quem os cante e celebre. Há vozes que dão sons à poesia. Outras transformam os sons em poemas.
Para a penumbra ou para a luminosidade do dia ficam algumas vozes que sabem cantar.
Abbey Lincoln , em " Throw it Away"
Amy Winehouse, em "Will you still love me tomorrow".
“Na penumbra dos ombros é que tudo começa
quando subitamente só a noite nos vê
E nos abre uma porta nos aponta uma seta
para sermos de novo quem deixámos de ser”
David Mourão- Ferreira, in "Obra Poética ( 1948-1988)",Editora Presença
Nem só os poetas cantam. Há quem os cante e celebre. Há vozes que dão sons à poesia. Outras transformam os sons em poemas.
Para a penumbra ou para a luminosidade do dia ficam algumas vozes que sabem cantar.
Abbey Lincoln , em " Throw it Away"
I think about the life I live
A figure made of clay
And think about the things I lost
The things I gave away
A figure made of clay
And think about the things I lost
The things I gave away
And when I'm in a certain mood
I search the house and look
One night I found these magic words
In a magic book
Throw it away
Throw it away
Give your love, live your life
Each and every day
Amy Winehouse, em "Will you still love me tomorrow".
Jeff Buckley, em " Calling you".
quarta-feira, 18 de junho de 2014
Os Livros de Junho
“Do Colonialismo como Nosso Impensado”
Autor: Eduardo Lourenço
Colecção: Obras de Eduardo Lourenço
Ano de edição: 2014
ISBN: 978-989-616-575-8
Capa: Brochado (capa mole)
Editora: Gradiva
Com organização e prefácio de Margarida Calafate Ribeiro e Roberto Vecchi, o livro "Do Colonialismo como nosso impensado" foi apresentado, no Grémio Literário de Lisboa, no dia 12 de Junho.
Sinopse:
«Deste naufrágio de uma raça toda a gente se lembra, excepto os portugueses. Das epopeias que perduram neste país tão folclórico nem uma página o relembra. A História trágico-marítima é a dos portugueses devorados pelo mar e pelos autóctones. Este espantoso silêncio esconde a aventura colonial, a mais pura de toda a história. Tão pura que hesitamos chamá-la colonialista. E, no entanto, ela é certamente uma entre outras, a primeira e a última ainda de pé, sob a indiferença dos trópicos e o esquecimento do mundo. Este esquecimento faz-nos pensar, mas explica-se. Portugal não foi o único país a deixar-se esquecer desta maneira. No tempo das Grandes Descobertas a importância cósmica desta aventura escondia aos olhos da Europa o colonialismo nascente. Mais tarde, a mesma Europa teve também demasiado interesse em esconder, em conjunto, este colonialismo.»Eduardo Lourenço
“Lisboaleipzig” de Maria Gabriela Llansol foi editado pela Assírio & Alvim a 6 de Junho
«Inicialmente publicado em dois volumes, respectivamente com os títulos” Lisboaleipzig I — O encontro inesperado do diverso” e “Lisboaleipzig II — O ensaio de música”, esta é a primeira edição em volume único, profundamente revisto por João Barrento e Maria Etelvina Santos, e com ilustrações de Ilda David’.
Como nos diz Fernando J.B. Martinho, neste livro «[…] tempo, espaço, representação são categorias que o texto anula, errante, como as figuras da narradora e sobretudo Aossê, ser da errância por excelência, de quarto em quarto, de casa em casa. Lisboa em Leipzig, Leipzig em Lisboa, Lisboaleipzig. Nada de surpreendente.
Surpreendente — assim a fixa o texto — será a proposta que Aossê faz a Bach: musicar-lhe um poema, em que está implicado por inteiro o destino do seu povo. Um poema que, assim, se volva “canto”, “cântico” e que se “ouça em toda a Europa, que é a parte mestra do mundo”. […] O que fica é a consolação da escrita, a reiterada insistência nela, para além da dispersão, da loucura, da incompreensão que são o preço a pagar, quando se anda “à procura de um final feliz”.»
Como nos diz Fernando J.B. Martinho, neste livro «[…] tempo, espaço, representação são categorias que o texto anula, errante, como as figuras da narradora e sobretudo Aossê, ser da errância por excelência, de quarto em quarto, de casa em casa. Lisboa em Leipzig, Leipzig em Lisboa, Lisboaleipzig. Nada de surpreendente.
Surpreendente — assim a fixa o texto — será a proposta que Aossê faz a Bach: musicar-lhe um poema, em que está implicado por inteiro o destino do seu povo. Um poema que, assim, se volva “canto”, “cântico” e que se “ouça em toda a Europa, que é a parte mestra do mundo”. […] O que fica é a consolação da escrita, a reiterada insistência nela, para além da dispersão, da loucura, da incompreensão que são o preço a pagar, quando se anda “à procura de um final feliz”.»
"Diários", de George Orwell editados pela Dom Quixote a 24 de Junho.
Sinopse: «Os diários de George Orwell (1931-1949) dão a conhecer a vida do escritor que marcou o pensamento político do século XX.
Escritos ao longo da sua carreira, os onze diários que sobreviveram – sabe-se que haverá outros dois da sua permanência em Espanha guardados nos arquivos da NKVD em Moscovo – registam as suas viagens de juventude entre os mineiros e os trabalhadores migrantes, a ascensão dos regimes totalitários, o horrível drama da Segunda Guerra Mundial, bem como os acontecimentos que inspiraram as suas obras-primas: O Triunfo dos Porcos e 1984.
As entradas de carácter pessoal reportam um dia-a-dia muitas vezes precário, a trágica morte da sua primeira mulher, e o declínio de Orwell, vítima de tuberculose.”
Escritos ao longo da sua carreira, os onze diários que sobreviveram – sabe-se que haverá outros dois da sua permanência em Espanha guardados nos arquivos da NKVD em Moscovo – registam as suas viagens de juventude entre os mineiros e os trabalhadores migrantes, a ascensão dos regimes totalitários, o horrível drama da Segunda Guerra Mundial, bem como os acontecimentos que inspiraram as suas obras-primas: O Triunfo dos Porcos e 1984.
As entradas de carácter pessoal reportam um dia-a-dia muitas vezes precário, a trágica morte da sua primeira mulher, e o declínio de Orwell, vítima de tuberculose.”
"Cláudio e Constantino" de Luísa Costa Gomes , publicado pela Dom Quixote. Saiu a 10 de Junho
«Cláudio e Constantino é uma novela rústica em paradoxos – tem família em Voltaire e na Condessa de Ségur, mas também em Sterne, em Proust, na tradição romântica, nas Mil e Uma Noites… É um texto que usa um dispositivo ficcional paródico e humorístico para apresentar e brincar com alguns dos paradoxos clássicos da história da Filosofia. Dito assim, parece um romance filosófico, mas não… É sobretudo uma ficção que propõe um universo utópico, afectuoso e leve onde dois irmãos se deparam a cada momento com as grandes e pequenas questões que o conhecimento do mundo permanentemente lhes coloca.»
«Cláudio e Constantino é uma novela rústica em paradoxos – tem família em Voltaire e na Condessa de Ségur, mas também em Sterne, em Proust, na tradição romântica, nas Mil e Uma Noites… É um texto que usa um dispositivo ficcional paródico e humorístico para apresentar e brincar com alguns dos paradoxos clássicos da história da Filosofia. Dito assim, parece um romance filosófico, mas não… É sobretudo uma ficção que propõe um universo utópico, afectuoso e leve onde dois irmãos se deparam a cada momento com as grandes e pequenas questões que o conhecimento do mundo permanentemente lhes coloca.»
«A Morte sem Mestre» é o mais recente livro de poesia de Herberto Helder editado pela Porto Editora. Escrito em 2013 e integralmente inédito, «Tudo quanto neste livro possa parecer acidental é de facto intencional» - «[...] peço por isso que um qualquer erro de ortografia ou sentido / seja um grão de sal aberto na boca do bom leitor impuro.», escreve-nos o autor.
Herberto Helder tem por hábito encadernar os seus livros com papel de embrulho castanho, escrevendo por fora com caneta de feltro vermelha o título e o nome do autor. A sobrecapa da presente edição evoca esse hábito, reproduzindo a sua caligrafia. É ainda incluído um CD, com cinco poemas lidos por Herberto.”Porto Editora
“À Beira do abismo”, o primeiro romance de Raymond Chandler, um dos grandes mestres da literatura policial, publicado pela Porto Editora a 23 de Maio,.
Sinopse: «Desencantado com o mundo à sua volta, Marlowe caminha por entre a decadente e rica classe alta de Los Angeles, onde grassam a corrupção e o crime. Investigando um caso de chantagem sobre Carmen Sternwood, uma das filhas de um velho milionário, as suas ilusões de “cavaleiro andante” depressa se desvanecem face a um mundo sórdido onde o dinheiro, o sexo e o jogo juntam forças contra a lealdade e a honra.»
“A Rainha Ginga E de como os africanos inventaram o mundo”, novo romance de José Eduardo Agualusa saiu a 6 de Junho, numa edição Quetzal.
Sinopse: «Personalidade originalíssima da história de África e do Mundo, ao mesmo tempo arcaica e de uma assombrosa modernidade, a rainha Ginga tem fascinado gerações, desde o Marquês de Sade (que via nela um exemplo de luxúria selvagem) até às feministas afro-americanas dos nossos dias.
Neste romance, José Eduardo Agualusa dá-nos a ver, através dos olhos de um dos secretários da rainha, um padre pernambucano em plena crise de fé, o agitado século em que esta viveu.
Misturam-se nestas páginas personagens reais – ainda que fantásticas –, como o almirante Jol, o pirata com uma perna de pau que conquistou Luanda para a Companhia das Índias Ocidentais, com outras fictícias, ainda que mais verosímeis do que as primeiras, como Cipriano Gaivoto, o Mouro, um mercenário português ao serviço da rainha Ginga.
Se é verdade que Angola tem ainda muito passado pela frente – no sentido de que há tanto passado angolano por descobrir e ficcionar –, também é verdade que este romance nos devolve um dos fragmentos mais interessantes, senão o mais interessante, deste mesmo passado.»
Neste romance, José Eduardo Agualusa dá-nos a ver, através dos olhos de um dos secretários da rainha, um padre pernambucano em plena crise de fé, o agitado século em que esta viveu.
Misturam-se nestas páginas personagens reais – ainda que fantásticas –, como o almirante Jol, o pirata com uma perna de pau que conquistou Luanda para a Companhia das Índias Ocidentais, com outras fictícias, ainda que mais verosímeis do que as primeiras, como Cipriano Gaivoto, o Mouro, um mercenário português ao serviço da rainha Ginga.
Se é verdade que Angola tem ainda muito passado pela frente – no sentido de que há tanto passado angolano por descobrir e ficcionar –, também é verdade que este romance nos devolve um dos fragmentos mais interessantes, senão o mais interessante, deste mesmo passado.»
"Dois Hotéis em Lisboa" de David Leavitt tem a chancela da Quetzal. Está nas livrarias desde 6 de Junho.
«Dois casais de forasteiros travam conhecimento na lisboeta e cosmopolita pastelaria Suíça. Estamos no ano de 1940, em plena Segunda Guerra Mundial, e Lisboa fervilha com milhares de refugiados – que esperam pelo visto e pela possibilidade de viagem para a América –, espiões e membros da realeza europeia.
Pete e Julia Winters são expatriados americanos burgueses que viviam em Paris; Edward e Iris Freleng são americanos também, mas mais ricos, sofisticados e boémios. Por coincidência, estão todos hospedados no Hotel Francfort, mas acabam por descobrir que afinal há dois hotéis Francfort, em Lisboa.
É num ambiente de tensão e de total insegurança em relação a tudo, e em especial ao futuro, que a ligação entre os dois homens se desenvolve, acabando por se tornar num arrebatado relacionamento amoroso.
Um romance maravilhosamente escrito, com um forte pendor sexual e político e em que a cidade de Lisboa e a linha do Estoril têm o estatuto de personagem.»
Pete e Julia Winters são expatriados americanos burgueses que viviam em Paris; Edward e Iris Freleng são americanos também, mas mais ricos, sofisticados e boémios. Por coincidência, estão todos hospedados no Hotel Francfort, mas acabam por descobrir que afinal há dois hotéis Francfort, em Lisboa.
É num ambiente de tensão e de total insegurança em relação a tudo, e em especial ao futuro, que a ligação entre os dois homens se desenvolve, acabando por se tornar num arrebatado relacionamento amoroso.
Um romance maravilhosamente escrito, com um forte pendor sexual e político e em que a cidade de Lisboa e a linha do Estoril têm o estatuto de personagem.»
"D. Maria II. A Rainha Submissa" de Luísa V. de Paiva Boléo, publicado pela Esfera dos Livros.
«A 4 de Abril de 1819 nascia no Brasil a princesa D. Maria da Glória, filha de D. Pedro de Bragança herdeiro do trono de Portugal e de D. Leopoldina de Áustria. Com apenas 7 anos foi declarada rainha de Portugal, mas somente aos 15 anos conheceu o país que iria governar. Um reino, bem diferente das terras de Vera Cruz, marcado pela Guerra Peninsular a que se seguiu a guerra civil entre D. Pedro e D. Miguel – liberais contra absolutistas.
O seu reinado foi marcado por transformações sociais e económicas e por uma forte instabilidade política, com constantes mudanças de ministros, intensa actividade parlamentar contra ou a favor da Carta Constitucional ou desta ou daquela Constituição e constantes revoltas populares que atingiam a figura da própria rainha. A tudo isto, D. Maria, marcada por uma forte personalidade, respondeu com coragem e determinação.
Depois de um casamento não consumado com o seu tio D. Miguel, de ter ficado viúva do seu segundo marido, pouco tempo depois do matrimónio, é nos braços de D. Fernando de Saxe-Coburgo-Gotha que encontra a felicidade e a alegria da maternidade. Dos ministros confiou no muito contestado Bernardo da Costa Cabral que acabou por afastar da governação.
Os seus momentos mais felizes passa-os na troca de correspondência com a prima e rainha Vitória de Inglaterra, onde lhe descrevia a felicidade da vida de casada e a maternidade e alguns, poucos, problemas políticos do país. A historiadora Luísa V. de Paiva Boléo, autora de D. Maria I, a Rainha Louca, leva-nos ao conturbado século XIX português para ficarmos a conhecer a biografia da primeira rainha constitucional, que, apesar da sua inexperiência, enfrentou as contrariedades políticas, marcando a história do país, nomeadamente ao criar o ensino primário gratuito, ao desenvolver vias de comunicação terrestres e fluviais e fundando a Academia de Belas-Artes e o teatro com o seu nome, em Lisboa.
No dia 15 de Novembro de 1853, ao dar à luz o seu décimo primeiro filho, faleceu, sem sequer ter tempo de se despedir dos filhos e marido. Para trás deixou uma família e um povo consternados e uma estabilidade política que tinha sabido conquistar a pulso.»
«A 4 de Abril de 1819 nascia no Brasil a princesa D. Maria da Glória, filha de D. Pedro de Bragança herdeiro do trono de Portugal e de D. Leopoldina de Áustria. Com apenas 7 anos foi declarada rainha de Portugal, mas somente aos 15 anos conheceu o país que iria governar. Um reino, bem diferente das terras de Vera Cruz, marcado pela Guerra Peninsular a que se seguiu a guerra civil entre D. Pedro e D. Miguel – liberais contra absolutistas.
O seu reinado foi marcado por transformações sociais e económicas e por uma forte instabilidade política, com constantes mudanças de ministros, intensa actividade parlamentar contra ou a favor da Carta Constitucional ou desta ou daquela Constituição e constantes revoltas populares que atingiam a figura da própria rainha. A tudo isto, D. Maria, marcada por uma forte personalidade, respondeu com coragem e determinação.
Depois de um casamento não consumado com o seu tio D. Miguel, de ter ficado viúva do seu segundo marido, pouco tempo depois do matrimónio, é nos braços de D. Fernando de Saxe-Coburgo-Gotha que encontra a felicidade e a alegria da maternidade. Dos ministros confiou no muito contestado Bernardo da Costa Cabral que acabou por afastar da governação.
Os seus momentos mais felizes passa-os na troca de correspondência com a prima e rainha Vitória de Inglaterra, onde lhe descrevia a felicidade da vida de casada e a maternidade e alguns, poucos, problemas políticos do país. A historiadora Luísa V. de Paiva Boléo, autora de D. Maria I, a Rainha Louca, leva-nos ao conturbado século XIX português para ficarmos a conhecer a biografia da primeira rainha constitucional, que, apesar da sua inexperiência, enfrentou as contrariedades políticas, marcando a história do país, nomeadamente ao criar o ensino primário gratuito, ao desenvolver vias de comunicação terrestres e fluviais e fundando a Academia de Belas-Artes e o teatro com o seu nome, em Lisboa.
No dia 15 de Novembro de 1853, ao dar à luz o seu décimo primeiro filho, faleceu, sem sequer ter tempo de se despedir dos filhos e marido. Para trás deixou uma família e um povo consternados e uma estabilidade política que tinha sabido conquistar a pulso.»
“T. S. Eliot e Ezar Pound – Uma tentativa de aproximação às suas vidas e às suas obras –“ de Fernando Guedes , editado pela Verbo.
«Este volume é constituído por quatro textos sobre dois dos mais significativos poetas da literatura inglesa do século XX.
- T. S. Eliot
The Waste Land — oitenta anos depois
T. S. Eliot — The Waste Land e depois
«Este volume é constituído por quatro textos sobre dois dos mais significativos poetas da literatura inglesa do século XX.
- T. S. Eliot
The Waste Land — oitenta anos depois
T. S. Eliot — The Waste Land e depois
- Ezra Pound
Uma aproximação a Ezra Pound e ao seu processo de criação poética
Uma tentativa de leitura de Os Cantos de Ezra Pound
Uma aproximação a Ezra Pound e ao seu processo de criação poética
Uma tentativa de leitura de Os Cantos de Ezra Pound
Entre 1908 e 1910 partiram dos Estados Unidos para a Europa dois jovens intelectuais que se transformariam cada um à sua maneira, nos dois mais notáveis poetas anglo-americanos do século XX. O mais velho, nascido em 1885, utilizou sempre o escândalo social como forma de estar na vida. Chamava-se Ezra Pound. O segundo, Thomas Stern Eliot, era já a imagem que ainda podemos ter do gentleman inglês, apesar de nascido no Missouri (em 1888), educado na Nova Inglaterra e aluno de Harvard.»
Théâtre : Daniel Pennac en scène
L'auteur de "Journal d'un corps"
a tant de présence au théâtre qu'on en vient à se demander s'il ne serait pas
meilleur acteur qu'écrivain
Le Point.fr- Publié le 14/06/2014 à 14:27
Par Gilles Costaz
« Daniel
Pennac ? Il y a bien Michel
Houellebecq et Christine
Angot qui veulent bien se montrer ça et là, le temps de quelques passages
électriques. Il y a aussi Bernard Pivot qui fait un tour de France avec le
récit de ses souvenirs. Mais Pennac, outre qu'il écrit parfois pour la scène,
ne craint pas de signer pour des séries de représentations depuis qu'il a
interprété, dans la grande salle du Rond-Point, son texte Merci, mis en
scène par Jean-Michel Ribes. Aujourd'hui, tous les soirs de la semaine, il est
dans la petite salle pour une reprise de son Journal d'un corps, dont il
nous dit que c'est une nouvelle version. Donc, un spectacle partiellement neuf,
qu'il assume en solo, selon une mise en scène de Clara Baurer - la complice de
tous ses derniers spectacles, au style délicat et ouaté.
De douze à quatre-vingt-sept ans
Bien que le titre laisse penser le contraire, Journal
d'un corps n'est pas un document autobiographique, mais un roman, une
fiction. Pennac s'est inspiré de l'un de ses grands-oncles qui avait fait la
guerre de 14 et lui racontait ses souvenirs de poilu. Il a imaginé que cet
homme laissait à ses enfants un héritage inattendu, remis par notaire : le
journal de sa vie, une série de notes et d'observations faites, non pas du
point de vue de l'esprit, mais à l'échelle du corps. Depuis l'âge de douze ans,
il a relevé ce que ressentait sa carcasse et aussi comment ses proches ou les
gens qu'il rencontre se débrouillaient avec leur peau et leur squelette. Le
temps défile, il y a la terrible guerre, mais, aussi, les folies de
l'adolescence où la masturbation a une grande importance. Et la protection
d'une merveilleuse femme âgée qui, par sa présence tendre, apporte tant à
l'enfant, mais sera le premier être mort qu'il tiendra dans ses bras
L'âge adulte ne calme rien. Pennac peut faire penser à la
chanson de Léo Ferré "Vingt Ans" : "Pour tout bagage on a sa
gueule/ Quand elle est bath ça va tout seul/ Quand elle est moche/ On
s'habitue/ On dit qu'on n'est pas mal foutu"... Le personnage du grand-oncle
ne paraît pas avoir une "gueule bath", mais il traverse les années
plus ou moins sagement, tout en étant hostile à l'ordre moral qui règne dans sa
société bourgeoise. Il a ses moments de souffrance (chez le docteur, par
exemple) et de bonheur (il se marie et il a ses enfants). Un jour, ce sera à
lui de mourir, à quatre-vingt-sept ans.
Pennac devant une table d'écolier
En chemise rouge et costume brun, Daniel Pennac est assis
devant une table où pousse une série de tiges vertes - sans doute ce décor
d'Oria Puppo évoque-t-il les graines qu'on donne aux écoliers pour qu'ils les
fassent éclore et qu'ils découvrent les surprises de la vie végétale. Derrière
lui, sur une tenture claire, s'affiche régulièrement, en lettres manuscrites,
l'âge du personnage : il a tant d'années, tant de mois et même de jours, au
moment où il conte telle ou telle chose. Pennac a le livre à la main, il en
connaît beaucoup de pages par coeur, mais il en lit beaucoup aussi, quittant de
temps à autre sa table de travail verdoyante pour dégourdir ses jambes et son
récit. Le livre est tout arrondi, tellement il a servi, tellement il s'est mis
en boule dans la main !
Plus une série d'anecdotes qu'un journal intime
Plus sympathique que Pennac, il n'y a pas ! La mine
joyeuse, malicieuse, songeuse, il vous embarque tout de suite dans cette
traversée d'une société jaunie comme les photos d'antan et d'une mémoire qui,
elle, garde toujours son éclat de jeunesse. Mais, plus ça va, plus le titre
perd de sa justification. Est-ce dû aux nombreuses coupes qui ont été faites ?
Ce n'est pas vraiment un corps qui se raconte ; c'est plutôt une série
d'anecdotes dont Pennac tire sur scène encore plus de sel et de drôlerie. Il
fait feu de tout bois, oubliant son personnage et s'intéressant à tout ce qui
passe : par exemple, une personne qui, dans le bus, ne s'assoit pas à la place
du passager précédent tant que le siège n'a pas "refroidi" ! La
narration vagabonde, en perdant parfois de sa nécessité, de sa force compacte.
Pennac est si charmant et charmeur et le récit si
fluctuant qu'on en vient à se demander s'il n'est pas encore meilleur acteur
qu'écrivain. Mais avoir cette pensée et l'écrire serait sans doute une attitude
sacrilège, d'une belle ingratitude après avoir ri si souvent à ce Journal
d'un corps - qu'il aurait sans doute appelé plus justement Journal des
sens ! » Le Point
Journal d'un corps de Daniel Pennac, adaptation et mise
en scène de Clara Bauer. Théâtre du Rond-Point, tél. : 01 44 95 98 21, jusqu'au
5 juillet. Texte aux éditions Gallimard
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Os livros de Junho.
terça-feira, 17 de junho de 2014
As Memórias de Eugénio Lisboa

Eugénio Lisboa, um dos mais activos e notáveis escritores portugueses, propôs-se escrever as suas Memórias . Estão já publicados dois volumes respeitantes aos anos em que viveu em África. Tendo, como plano editorial, a produção de cinco volumes para cobrir uma longa vida de intensa e diversa actividade e de uma excepcional produção literária, está a escrever um novo tomo que sairá este ano.
É com extraordinário prazer que transcrevemos um diferente excerto do terceiro tomo que engloba os anos que vão de 1955 a 1976.
Lourenço Marques: um meio intelectual vivo
"Lourenço Marques estava longe de ser, naquela altura, como já sugeri, um meio intelectual morto. As livrarias estavam sempre apetrechadas e, além disso, tínhamos, como já disse, o recurso às boas livrarias de Johannesburg, para livros ingleses e americanos, mas, também, espanhóis e franceses. Por outro lado, por intermédio da " Livraria Portugal", em Lisboa, encomendava à cobrança, literatura francesa ( Montherlant, Martin du Gard, Valéry, etc.), inglesa e espanhola. Havia ainda o Consulado francês, que também ajudava. Tudo isto alimentava o nosso convívio, os nossos prélios e, até, a nossa zaragata pública. Não nos sentíamos, de modo nenhum, desterrados. Em casa do Adrião, em casa do Knopfli, em minha casa, as ideias voavam, cruzavam-se, tornavam-se vida.
Muito disto ( ou alguma coisa disto) se reflectia nas revistas e jornais onde colaborávamos, o que não contribuía pouco para que fôssemos considerados, sem mais nuances, como " perigosos comunistas" ( que nem eu nem o Knopfli nem o Adrião éramos). Éramos " de esquerda", sim, éramos frontalmente contra o Estado Novo - que considerávamos, além do mais , intelectualmente pelintra e possidónio - mas jamais fomos aliciados pelas sereias do marxismo-leninismo, a que éramos figadalmente avessos. Mas, na pífia paróquia que era o Estado Novo e os seus representantes em Moçambique, qualquer interesse pela política, que não passasse pela União Nacional, era suspeito...O mais que toleravam era que se dissesse: " A mim, a política não interessa." O modo como os do Estado Novo viam a política " que está bem", aquela " que não faz mal seguir ", fazia-me lembrar o aforismo de Valéry: " A política é a arte de impedir as pessoas de se porem alerta para aquilo que lhes diz respeito". A verdade é que nem eu nem o Knopfli nem o Adrião fomos nunca aquilo que são realmente os animais políticos, no sentido profundo do termo. Mas era impossível não nos sentirmos envolvidos cercados - amordaçados , manietados - por aquele regime pelintra, medíocre e nefasto. Não era possível ficar quieto, à espera de que outros fizessem o trabalho todo que havia a fazer. Claro que a política nos interessava, nos dizia respeito, embora não fosse ela o nosso " canto profundo". Porque, parafraseando De Gaulle, a política é uma coisa demasiado séria para ser deixada exclusivamente aos políticos. E que políticos nós tínhamos, do outro lado da barreira!
O que mais revoltava no Estado Novo era a total incapacidade de os seus próceres aceitarem a inteireza e o patriotismo dos que se lhe opunham. Eles eram os únicos detentores da " verdade" e os que dela divergiam eram automaticamente perversos e mal-intencionados. Na questão quente das colónias, a divergência chamava-se " traição". Poder-se-lhes-ia recordar as palavras de Adlai Stevenson, esse grande político e democrata americano : " Do not regard the critics as questionable patriots. What were Washington and Jefferson and Adams but profound critics of the colonial status quo? "
O mais doloroso disto tudo era que, para pessoas como eu , o Rui e o Adrião , tornava-se agónico reconhecer - mas reconhecíamo-lo - que a independência de Moçambique era inevitável. Não que a não considerássemos, também, eticamente boa, mas não tínhamos dúvidas que, quando viesse, a nossa vida iria mudar dramaticamente. O nosso mundo iria desabar, para que outros tivessem direito ao que até aí lhes fora negado. Reconhecíamos o direito à mudança e lutávamos por ela, embora sabendo que de algum modo, iríamos sofrer. Entenda quem puder.
De qualquer modo, o patriotismo estreito e mal compreendido é perigoso e mesmo letal. O Estado Novo advogou sempre uma espécie de " patriotismo" caseiro e patego, que grandes espíritos têm denunciado como nefasto. H.G. Wells, o criador do " homem invisível " e da " guerra dos mundos", um dos escritores de cultura mais vasta e abrangente do século XX, observava: " A democracia ateniense sofria muito da estreiteza do seu patriotismo, que é a ruína de todas as nações. " Portugal tem passado , ao longo da sua História, por períodos em que a mediocridade instalada no poder promove esta espécie de patriotismo envenenado e esterilizante.
(...)
No nº 145, de 6 de Setembro (1964), a VM trazia um editorial intitulado " O jornalismo que Tentamos Fazer", da qual, transcrevo algumas passagens ( para que fique registado, com clareza e claridade, quem éramos e ao que vínhamos:
A Voz de Moçambique procura ser, no
panorama jornalístico da nossa terra, a voz dissonante, a presença incómoda, o
acicate mordaz, a pedrada no charco; isto é, intenta desempenhar a função
salutar de despertador de energias em hibernação e de consciências cobertas de
cinza, buscando para os seu leitores uma informação tão completa quanto
possível das realidades mundiais do presente, que servem de background
a uma problemática moçambicana em suas diversas implicações , a qual nos
preocupa, como é lógico , em primeiro lugar, e nos ocupa, como é evidente,
acima de tudo.
Nesta missão - que todos adivinham difícil e nós dolorosamente sabemos
espinhosa - temo-nos mantido com possíveis e humaníssimas quebras, acima de
interesses particularistas ou de grupo e de conveniências pessoais, que às
vezes escandalosamente desrespeitamos. E isso acontece não só em artigos de
tese, mas até em noticiário que excepcionalmente damos, pisando terrenos que a
chamada grande imprensa tem de considerar tabu por motivos conhecidos. Às
consequências que ganhamos de tais atitudes, deveríamos normalmente chamar dissabores,
se não acontecesse que, por benefício de uma fé que alimentamos e duma
idiossincrasia que criámos cá em casa, as vamos recebendo como condecorações.
Acrescento , apenas, a conclusão, que levava alguns recados a certos tiranetes de serviço, dotados de amplos teores de prosápia e arrogância:
Ora isto veio tudo a propósito de falarmos no jornalismo que tentamos fazer, com os limitados meios de que dispomos mas com uma seriedade de processos em que pomos muito empenho e ( de que) temos grande orgulho; esse jornalismo coloca A Voz de Moçambique em plano invulgarmente elevado no conjunto das manifestações culturais moçambicanas e se não dá a cada um dos seus colaboradores o direito de se considerar um cidadão de casta ou classe superior, impõe-lhe o dever de não se deixar tratar nesta sua actvidade, como servo atento , venerador e obrigado de qualquer peralta com penachos na alma.
A VM dedicava, de facto , um largo espaço a problemas específicos de Moçambique, cobrindo todos os sectores (agro-pecuária, saúde, educação, energia, transportes, etc.) , que eu não tenho particularmente assinalado, na redacção deste volume das minhas memórias, por não serem algumas delas, áreas em que tenha estado directamente envolvido. Mas gostaria de assinalar, como exemplo, o nº 140 de 1 de Agosto, que trazia na capa, " O Dia da Mulher Africana" sendo o editorial também dedicado à mulher africana. Nesta, sublinhava-se, com vigor, " que a luta universal pela desalienação e dignificação da Mulher, que ainda , em nenhuma continente, cessou de se justificar , assume , em África, aspectos particularmente dramáticos e complexos."
Eugénio Lisboa, in "Acta est Fabula, Memórias - III - Lourenço Marques Revisited , (1955-1976)" pags. 293 , 294, 309, 310, Editora Opera Omnia, 2013
segunda-feira, 16 de junho de 2014
Gritarás o meu nome
Gritarás o
meu nome
Gritarás
o meu nome em ruas
desertas e a tua voz será
como a do vento sobre a areia:
um som inútil de encontro ao silêncio.
desertas e a tua voz será
como a do vento sobre a areia:
um som inútil de encontro ao silêncio.
Não
responderei ao teu apelo,
embora ardentemente o deseje.
O lugar onde moro é um obscuro
lugar de pedra e mudez:
embora ardentemente o deseje.
O lugar onde moro é um obscuro
lugar de pedra e mudez:
não
há palavras que o alcancem.
gelam-lhe os gritos por fora.
Serei como as areias que escutam
o vento e apenas estremecem.
gelam-lhe os gritos por fora.
Serei como as areias que escutam
o vento e apenas estremecem.
Gritarás
o meu nome em ruas
desertas e a tua voz ouvirá
o próprio som sem entender,
como o vento, o beijo da areia.
desertas e a tua voz ouvirá
o próprio som sem entender,
como o vento, o beijo da areia.
Teu
grito encontrará somente
a angústia do grito ampliado,
vento e areia. Gritarás o meu
nome em ruas desertas.
a angústia do grito ampliado,
vento e areia. Gritarás o meu
nome em ruas desertas.
Rui
Knopfli in “Memória Consentida: Vinte anos de Poesia”, 1959-1979 ,Imprensa
Nacional-Casa da Moeda, Lisboa
domingo, 15 de junho de 2014
Ao Domingo Há Música
De sob a ré a hélice gera
a amplidão do seu hiato no mar
Só depois
cardumes silenciam
entre as estrelas fundeadas
O real em fuga não se detém mais
Debalde a mão o insinua
na página em branco
a noite chega e vem nua
arfa mas com o cais
sobe sem o meu canto.
Sebastião Alba, in " A noite dividida - Uma pedra Ao Lado da Evidência",Campo das Letras
Um grande poeta que se despojou de tudo para viver na rua. Um sem abrigo que via para além das estrelas .
A voz perfeita de Lisa Gerrard em " On an ocean".
Poesia e canto, num desafio, em partilha, que se quer para este Domingo.
sábado, 14 de junho de 2014
O lobo mau só existe nos livros?
![]() |
| Lince ibérico |
União
Europeia cria plataforma para provar que o lobo mau só existe nos livros
Por Marta
Cerqueira
“Os grandes carnívoros estão de volta. Para evitar o
conflito com o homem, a UE juntou peritos que vão estudar soluções de
convivência.
Nos
contos infantis o animal selvagem serve sempre para criar suspense e não faltam
histórias a descrever os perigos que advinham da sua convivência com seres
humanos. Psicologia infantil à parte, algumas dessas histórias acabaram por
criar mitos e crenças erradas sobre os grandes carnívoros, que, em alguns
casos, partilham espaços próximos com o ser humano. Foi esta noção de conflito
que levou a União Europeia a criar uma plataforma para a coexistência entre
pessoas e grandes carnívoros, na qual participam organizações agrárias,
cientistas, caçadores e todos os outros profissionais que possam estar ligados
à relação homem-animal selvagem.
A
União Europeia é casa de cinco espécies de grandes carnívoros, nomeadamente o
lobo, o urso, o glutão e duas espécies de lince, o euro-asiático e o ibérico,
apesar de este último não entrar na análise. Historicamente, estas espécies
sofreram grandes perdas durante anos como consequência da actividade humana.
Uma legislação mais apertada, a par de um maior cuidado ambiental levou a que o
número de animais estabilizasse e, em alguns casos, registou-se até um aumento
da população. Apesar do regresso das espécies ser visto como um ponto positivo,
traz problemas de convivência com os ser humano que a União Europeia tenta agora
resolver. "Temos que tratar os nossos vizinhos naturais com respeito, mas
também temos que estar atentos às preocupações daqueles cujas vidas são
afectadas pela sua proximidade", explicou o comissário europeu para o
ambiente, Janez Potocnik, durante a apresentação da plataforma, que decorreu
esta semana em Bruxelas.
A
plataforma é composta por um conjunto de organizações europeias, com
representações dos vários países, que se irão reunir anualmente e organizar
encontros sobre temas seleccionados. Na base do projecto está um portal online
que servirá de ferramenta para divulgar informações sobre as actividades da
plataforma, assim como organizar manuais de boas práticas.
Evolução
Embora o quadro geral da
biodiversidade na União Europeia esteja longe do ideal - 25% das espécies estão
em risco de extinção, grande parte devido à perda de habitat natural - algumas
espécies estabilizaram e até aumentaram o número de animais. Os grandes
carnívoros identificados na plataforma estão entre as espécies que já se asseguram
a si próprias, e, nalguns casos, estão a crescer em algumas regiões. Por
exemplo, a população de ursos pardos na União Europeia aumentou 7% nos últimos
sete anos, passando de 15 800 em 2005 para 17 mil em 2012. Já a quantidade de
glutões duplicou no mesmo período, passando de 675 para 1250 indivíduos.
Portugal
De acordo com as análises feitas
pelos investigadores envolvidos no projecto, o lince ibérico continua a ser uma
das espécies mais ameaçadas. Acabou contudo por não ser incluída na plataforma
por não ser considerada uma espécie que gere problemas de convivência com o ser
humano.
Apesar
de considerar que, de facto, o lince não é uma ameaça para o ser humano,
Eduardo Santos da Liga para a Protecção da Natureza, alerta para a necessidade
de um acompanhamento cuidado da espécie. Com apenas um exemplar identificado na
zona de Vila Nova de Milfontes, o biólogo refere que a reintrodução em
território nacional, prevista para este mês, é um processo "especial e
exigente". "As áreas de reintrodução têm que ser devidamente
estudadas para que o risco do contacto com a população seja controlado",
acrescentou ao i. O especialista admite ter dúvidas sobre se esta será a
melhor altura para o regresso da espécie a Portugal, principalmente devido à
doença que atinge o coelho bravo, a principal fonte de alimentação do lince.
"Além dos factores naturais de habitat, tem que se trabalhar no sentido da
aceitação da espécie pela população, para que haja uma convivência mais
tranquila", salientou.
Quanto
ao lobo, a única das quatro espécies estudadas existente em Portugal, o
especialista aponta o conflito com o homem como a principal ameaça à espécie.
"A espécie está concentrada no Norte do país, zona em que são construídas
infra-estruturas que acabam por fragmentar as matilhas", explicou, dando
como exemplo as auto-estradas ou a Barragem do Sabor.
Francisco
Álvares, o representante português na plataforma, defende ainda que o lobo está
envolto em "mitos e crenças que não ajudam à sua preservação". O
biólogo e membro do "Large Carnivore Initiative for Europe", um dos
signatários da plataforma, aponta os ataques à pecuária a como um dos factores
que ajuda a criar uma má imagem do animal. "É preciso trabalhar na
expansão das presas selvagens como o corso ou o javali para que o lobo não
tenha necessidade de atacar gado particular", afirmou, advertindo ainda
para a necessidade de aplicar medidas de prevenção do ataque e de vigilância
dos rebanhos.
A
verificação de danos nos animais domésticos é assegurada por equipas do Instituto
de Conservação da Natureza e está prevista a compensação monetária em caso de
ataque de lobo. No entanto, e tal como refere o documento, o proprietário do
gado deve ser compensado no prazo de 60 dias, mas os atrasos chegam a ser
superiores a um ano.
Um conjunto de 18 organizações apresentou esta semana um Plano de Acção para a Conservação do Lobo Ibérico para para conciliar a protecção da espécie e a salvaguarda das populações. Em comunicado alertam para o facto de o estado de conservação da espécie se continuar a degradar em Portugal, criticando a "recorrente incapacidade das autoridades nacionais em aplicar medidas eficazes". Jornal i in Mundo, publicado em 14 Jun 2014 - 05:00
Um conjunto de 18 organizações apresentou esta semana um Plano de Acção para a Conservação do Lobo Ibérico para para conciliar a protecção da espécie e a salvaguarda das populações. Em comunicado alertam para o facto de o estado de conservação da espécie se continuar a degradar em Portugal, criticando a "recorrente incapacidade das autoridades nacionais em aplicar medidas eficazes". Jornal i in Mundo, publicado em 14 Jun 2014 - 05:00
sexta-feira, 13 de junho de 2014
O ladrão do menor acaba por ser vítima do maior
"O Sermão de Santo António aos Peixes foi pregado em 13 de Junho de 1654 em São Luís
do Maranhão, três dias antes de embarcar escondido para Portugal no
auge da luta dos jesuítas contra a escravização dos índios pelos colonizadores,
procurando o remédio da salvação dos Índios. O sermão revela toda a ironia,
riqueza nas sugestões alegóricas e agudo senso de observação sobre os vícios e
vaidades do homem, comparando-o, por meio de alegorias, aos peixes."
Sermão de Santo António aos peixes
“Notai,
peixes, aquela definição de Deus: Rector maris atque terrae: Governador
do mar e da terra, para que não duvideis que o mesmo estilo que Deus guarda com
os homens na terra observa também convosco no mar. Necessário é logo que olheis
por vós e que não façais pouco caso da doutrina que vos deu o grande doutor da
Igreja Santo Ambrósio, quando, falando convosco, disse Cave nedum alium
insequeris, incidas in validiorem (1). Guarde-se o peixe que
persegue o mais fraco para o comer, não se ache na boca do mais forte, que o
engula a ele. Nós o vemos aqui cada dia. Vai o xaréu correndo após o bagre,
como o cão após a lebre, e não vê o cego que lhe vem nas costas o tubarão com
quatro ordens de dentes, que o há-de engolir de um bocado. E o que com maior
elegância vos disse também Santo Agostinho: Proedo minorisfit proeda majoris
(2).
Mas
não bastam, peixes, estes exemplos, para que acabe de se persuadir a vossa
gula, que a mesma crueldade que usais com os pequenos tem já aparelhado o
castigo na voracidade dos grandes. Já que assim o experimentais com tanto dano
vosso, importa que daqui por diante sejais mais repúblicos e zelosos do bem
comum, e que este prevaleça contra o apetite particular de cada um, para que
não suceda que, assim como hoje vemos a muitos de vós tão diminuídos, vos
venhais a consumir de todo. Não vos bastam tantos inimigos de fora e tantos
perseguidores tão astutos e pertinazes, quantos são os pescadores, que nem de
dia nem de noite deixam de vos pôr em cerco e fazer guerra por tantos modos?
Não vedes que contra vós se emalham e entralham as redes; contra vós se tecem
as nassas; contra vós se torcem as linhas; contra vós se dobram e farpam os
anzóis; contra vós as fisgas e os arpões? Não vedes que contra vós até as canas
são lanças e as cortiças armas ofensivas? Não vos basta, pois, que tenhais
tantos e tão armados inimigos de fora, senão que também vós de vossas portas
adentro o haveis de ser mais cruéis, perseguindo-vos com urna guerra mais que
civil, e comendo-vos uns aos outros? Cesse, cesse já, irmãos peixes, e tenha
fim algum dia esta tão perniciosa discórdia; e pois vos chamei e sois irmãos,
lembrai-vos das obrigações deste nome. Não estáveis vós muito quietos, muito
pacíficos e muito amigos todos, grandes e pequenos, quando vos pregava Santo
António? Pois continuai assim e sereis felizes.
Dir-me-eis
(como também dizem os homens) que não tendes outro modo de vos sustentar. E de
que se sustentam entre vós muitos que não comem os outros? O mar é muito largo,
muito fértil, muito abundante, e só com o que bota às praias pode sustentar
grande parte dos que vivem dentro nele. Comerem-se uns animais aos outros é
voracidade e sevícia, e não estatuto da natureza, Os da terra e do ar, que hoje
se comem, no princípio do mundo não se comiam, sendo assim conveniente e
necessário para que as espécies de todos se multiplicassem. O mesmo foi (ainda
mais claramente) depois do dilúvio, porque tendo escapado somente dois de cada
espécie, mal se podiam conservar, se se comessem. E finalmente no tempo do
mesmo dilúvio, em que todos viveram juntos dentro na Arca, o lobo estava vendo
o cordeiro, o gavião a perdiz, o leão o gamo, e cada um aqueles em que se
costuma cevar; e se acaso lá tiveram essa tentação, todos lhe resistiram e se
acomodaram com a ração do paiol comum, que Noé lhe repartia. Pois se os animais
dos outros elementos mais cálidos foram capazes desta temperança, por que o não
serão os da água? Enfim, se eles em tantas ocasiões, pelo desejo natural da
própria conservação e aumento, fizeram da necessidade virtude, fazei-o vós
também; ou fazei a virtude sem necessidade, e será maior virtude.
Outra
coisa muito geral, que não tanto me desedifica, quanto me lastima, em muitos de
vós, é aquela tão notável ignorância e cegueira que em todas as viagens
experimentam os que navegam para estas partes. Toma um homem do mar um anzol,
ata-lhe um pedaço de pano cortado e aberto em duas ou três pontas, lança-o por
um cabo delgado até tocar na água, e em o vendo o peixe, arremete cego a ele e
fica preso e boqueando, até que assim suspenso no ar, ou lançado no convés,
acaba de morrer. Pode haver maior ignorância e mais rematada cegueira que esta?
Enganados por um retalho de pano, perder a vida! Dir-me-eis que o mesmo fazem
os homens. Não vo-lo nego. Dá um exército batalha contra outro exército,
metem-se os homens pelas pontas dos piques, dos chuços e das espadas, e por
quê? Porque houve quem os engodou, e lhe fez isca com dois retalhos de pano. A
vaidade, entre os vícios, é o pescador mais astuto e que mais facilmente engana
os homens. E que faz a vaidade? Põe por isca nas pontas desses piques, desses
chuços e dessas espadas dois retalhos de pano, ou branco, que se chama hábito
de Malta, ou verde, que se chama de Avis, ou vermelho, que se chama de Cristo e
de Santiago; e os homens, por chegarem a passar esse retalho de pano ao peito,
não reparam em tragar e engolir o ferro. E depois disso, que sucede? O mesmo
que a vós. O que engoliu o ferro, ou ali ou noutra ocasião, ficou morto e os
mesmos retalhos de pano tornaram outra vez ao anzol para pescar outros. Por
este exemplo vos concedo, peixes, que os homens fazem o mesmo que vós, posto
que me parece que não foi este o fundamento da vossa resposta ou escusa, porque
cá no Maranhão, ainda que se derrame tanto sangue, não há exércitos nem esta
ambição de hábitos.
Mas
nem por isso vos negarei que também cá se deixam pescar os homens pelo mesmo
engano, menos honra da e mais ignorantemente. Quem pesca as vidas a todos os
homens do Maranhão, e com quê? Um homem do mar com uns retalhos de pano. Vem um
mestre de navio de Portugal com quatro varreduras das lojas, com quatro panos e
quatro sedas, que já se lhe passou a era e não tem gasto. E que faz? Isca com
aqueles trapos aos moradores da nossa terra; dá-lhe uma sacadela e dá-lhe
outra, com que cada vez lhe sobe mais o preço; e os bonitos, ou os que o querem
parecer, todos esfaimados aos trapos; e ali ficam engasgados e presos, com
dívidas de um ano para outro ano e de uma safra para outra safra, e lá vai a
vida. Isto não é encarecimento. Todos a trabalhar toda a vida, ou na roça ou na
cana, ou no engenho ou no tabacal; e este trabalho de toda a vida, quem o leva?
Não o levam os coches, nem as liteiras, nem os cavalos, nem os escudeiros, nem
os pajens, nem os lacaios, nem as tapeçarias, nem as pinturas, nem as baixelas,
nem as jóias. Pois em que se vai e despende toda a vida? No triste farrapo com
que saem à rua. E para isso se matam todo o ano!
Não
é isto, meus peixes, grande loucura dos homens com que vos escusais? Claro está
que sim; nem vós o podeis negar. Pois se é grande loucura esperdiçar a vida por
dois retalhos de pano quem tem obrigação de se vestir; vós, a quem Deus vestiu
do pé até à cabeça, ou de peles de tão vistosas e apropriadas cores, ou de
escamas prateadas e douradas, vestidos que nunca se rompem nem gastam com o
tempo, nem se variam ou podem variar com as modas, não é maior ignorância e
maior cegueira deixares-vos enganar, ou deixares-vos tomar pelo beiço com duas
tirinhas de pano? Vede o vosso Santo António, que pouco o pôde enganar o mundo
com essas vaidades. Sendo moço e nobre, deixou as galas de que aquela idade
tanto se preza, trocou-as por uma loba de sarja e uma correia de cónego
regrante; e depois que se viu assim vestido, parecendo-lhe que ainda era muito
custosa aquela mortalha, trocou a sarja pelo burel e a correia pela corda. Com
aquela corda e com aquele pano pescou ele muitos, e só estes se não enganaram e
foram sisudos.
(1) «Tem cuidado, não caias nas mãos de um mais potente, quando vais em
perseguição de um outro.»
(2) «O ladrão do menor acaba por ser vítima do maior.»
Padre
António Vieira, in “Sermões”,Círculo dos Leitores
Padre António Vieira
"De padre António Vieira disse Fernando Pessoa ser o «imperador da língua portuguesa». Jesuíta, orador e escritor, nasceu em Lisboa em 1608, e morreu em 1687, no Brasil, mais propriamente na Baía. Ordenado sacerdote em 1635, lutou empenhadamente pela realização de reformas económicas e sociais. Na sua oratória, conjugou visão e pragmatismo, como seria de esperar de um homem de acção. Com uma construção literária e argumentativa notáveis, os seus sermões revelam uma intensa ligação com a vida pública, o que resulta numa prosa eminentemente funcional mas que não perde nunca o nível de universalidade necessário a toda a obra de arte perdurável. Possuidor de uma inteligência poderosíssima, padre António Vieira arquitectou mundos à medida dos seus sonhos e deixou-nos como legado uma obra que se afirmaria como um dos paradigmas da prosa portuguesa." Leya
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