sábado, 17 de maio de 2014

Meu país

Meu país desgraçado

Meu país desgraçado!…
E no entanto há Sol a cada canto
e não há Mar tão lindo noutro lado.
Nem há Céu mais alegre do que o nosso,
nem pássaros, nem águas …


Meu país desgraçado!…
Por que fatal engano?
Que malévolos crimes
teus direitos de berço violaram?


Meu Povo
de cabeça pendida, mãos caídas,
de olhos sem fé
— busca, dentro de ti, fora de ti, aonde
a causa da miséria se te esconde.


E em nome dos direitos
que te deram a terra, o Sol, o Mar,
fere-a sem dó
com o lume do teu antigo olhar.


Alevanta-te, Povo!
Ah!, visses tu, nos olhos das mulheres,
a calada censura
que te reclama filhos mais robustos!


Povo anêmico e triste,
meu Pedro Sem sem forças, sem haveres!
— olha a censura muda das mulheres!
Vai-te de novo ao Mar!
Reganha tuas barcas, tuas forças
e o direito de amar e fecundar
as que só por Amor te não desprezam!


Sebastião da Gama, in “Cabo da Boa Esperança”,1ª Edição, Portugália, 1947.

sexta-feira, 16 de maio de 2014

A Política Do Dia


A Política  Do Dia

Hoje a vida tem o sorriso
dentífrico dos candidados
e pelas ruas nos aponta
o céu em múltiplos retratos

céu não póstumo ou merecido
em cruel sala de espera
mas entre parêntesis de fogo
festiva véspera de guerra.

Teor de montras a vida
com democrático amor
a todos deixa gozar
sua dose de consumidor.

Publicitária a vida faz
sua campanha eleitoral:
É entrar meus senhores, quem dá mais
por princípios que não têm final?

Televisor férias de verão
tira a vida do seu discurso
e um partido providencial
que nos domestica o urso.

Popular a vida é toda
pétalas de apertos de mão.
Que meus versos me salvem
de cair nesse alçapão!
Natália Correia, in " A Mosca Iluminada"(1972), in "O Sol Nas Noites e O Luar Nos Dias", Círculo de Leitores, Março de 1993
"O democrático calça seu aperto de mão de camurça anti-séptica e tira macacos do nariz da criança para os comer em público. Delirantes os pais servem-lhe as crias numa travessa azul andorinha com um requerimento espetado na boca. O democrático que fez constar que a liberdade é o democrático gostar de leitão ingere a criança tostada numa mastigação que os microfones traduzem numa língua para falar às baratas e dá finalmente um arroto. «Cheira a futuro» dizem os pais com a mão na algibeira acariciando seu órgão de continuidade. E cantam hinos até a polícia vir. Chegou a altura do democrático tirar sua jovial dentadura falsa para se entregar à mágica do inúmero monstro parado. Põe bigodeira soviética pingona da lavagem que azedou na baixela do czar. Entra no fraque de cangalheiro lusíada e dedica-se à caridade sepultando os vivos para adubar os ciprestes desvalidos. Dá pulos de alegria americana até ficar um símio bestialmente obcecado pela pichota que manuseia como uma metralhadora. Mandarina-se manipanço de Mao e pede ao feng shui que transforme os homens em pragas de gafanhotos.
Felizmente o democrático não é outra coisa além do que não é. Se o democrático fosse uma oleografia de Nosso Senhor Jesus Cristo, encimava as camas de todos os bordéis latinos, cristianissimamente pendurado pelo fervoroso mau gosto das prostitutas. Se o democrático fosse verdade, a Terra era a peta mais descarada do sistema planetário que a consente porque sabe em sua cósmica sabedoria que o democrático há-de passar como susto que é de termos os pés vermelhos em Marte e as têmporas floridas em Vénus, lindíssimos passos da dança em que se alargará o nosso círculo de ossificadas interjeições quando o democrático se fatigar de ser uma diligente mentira.
Minuto a minuto conheço os milénios sombrios do democrático a fazer recuar o tempo para nos desfigurar. Porque como todos aqueles que engolem a espada em chamas do amor eu conheço o medo e digo-vos que o democrático é o nosso medo de haver democracia. Ah, creiam-me, o democrático é, no centro da nossa crisólita de feridas abertas para a liberdade, a sufocação que não deixa haver democracia.
Atenção. Não vos falo da política das políticas. Mas, tanto dá, da musculada democracia solar deste dia que arrombou com um murro a lua, impressora de preciosas estampas prometidas no sonho, para conduzir o formigueiro do folclore consumista ao santuário da Síbaris do Efémero. Querem exemplo mais cabalmente triunfante do democrático?" 
Natália Correia, in " A Mosca Iluminada"(1972), in "O Sol Nas Noites e O Luar Nos Dias", Círculo de Leitores, Março de 1993

quinta-feira, 15 de maio de 2014

Eu sou uma parte daquilo que li

EU SOU UMA PARTE DAQUILO QUE LI
Por EUGÉNIO LISBOA
"Os livros – a escrita – não existiram sempre. Só há vinte mil anos é que o homem traçou, na rocha , os seus primeiros desenhos. E só  três mil anos depois ensaiou os primeiros sinais que estariam na origem do que hoje chamamos escrita. O livro tal como hoje o concebemos, nasce já só no século XV (1450), com a famosa Bíblia Latina, impressa por Gutenberg. De aí em diante, a produção de livros não cessou de crescer, proporcionando aos humanos a fruição fácil desse vício impune: a leitura.
Descoberto o prazer ( e a utilidade) do livro, o homem não tem cessado de lhe cantar as virtudes. O célebre jornalista e melómano inglês Bernard Levin, leitor omnívoro e comentador encantado de livros de todas as espécies e formatos, exclamou um dia: « Livro – o som mais nobre que o homem jamais emitiu.» E o não menos célebre  Logan Pearsall Smith propunha, no modo desbocado que lhe era peculiar: « Dêem-me um livro e uma cama e fico perfeitamente feliz.»
Todos nós, em maior ou menor medida, temos memória , ao longo da nossa vida, de momentos inesquecíveis de encontro com um livro determinado: momentos em que nos parece que a nossa vida, de algum modo, mudou. Nós não somos, depois dessa leitura, os mesmos que éramos antes. Ou , por outras palavras : ao lermos o livro, descobrimos que nos estamos a ler a nós próprios: estamos perante uma descoberta que é também uma transformação. E o mais interessante é que isto não tem necessariamente de acontecer com um «grande livro» . Quando ainda muito novo, li a Família sem Nome, de Júlio Verne, não senti uma emoção menor  do que aquela que me apanhou quando, um pouco mais tarde, li Humilhados e Ofendidos ou Está Morta!, de Dostoiewsky, ou, também ainda adolescente, fui submetido à magia cintilante do teatro de Oscar Wilde. Em qualquer destes momentos, senti, com grande intensidade e fulgor, que nada ficava na mesma. Podia citar outros livros  que nesses anos de formação deslumbrada, igualmente me atingiram: Le Rouge et le Noir , de Stendhal ( apaixonei-me  perdidamente pela Senhora de Rênal) , Codine de Panait Istrati, Assia, de Ivan Turguenev,  Quo Vadis?, de Henry Sienkiewicz, Tonio Kroger , de Thomas Mann, Les Thibault, de Roger Marin du Gard, A Velha Casa , de José Régio, Adeus às Armas, de Ernest Hemingway, Candide, de Voltaire, A Vida Inteira, de Sally Salminenn,  A Aventura em Budapeste, de Ferenc Kormendi, sem falar nas  Vidas Paralelas, de Plutarco, no teatro de Eugene O’Neill, ou nos romances de Charlotte Bronte … De todos estes livros  (e de outros que vieram depois) fiquei eterno devedor e eterno amigo. Dizia um escritor americano de romances policiais que são também ( e mais simplesmente) grandes romances de sondagem da sociedade americana,  que    «um bom livro na prateleira da nossa estante é um amigo que nos volta as costas  e continua a ser nosso amigo». Todos estes livros que lemos e nos quais  nos lemos ficaram a ser uma parte de nós e do nosso despertar. Por isso dizia John Kieran :   « Eu sou uma parte de tudo o que li ».  André Gide  confessava a dívida profunda que na sua formação e no seu autoconhecimento, ficaria a ter para com livros tão diferentes como a Bíblia e As Mil e uma Noites: com livros tão contraditórios um do outro e que tão bem exprimem as profundas contradições que estiveram na origem da obra tão sedutoramente diversa e de pulsões tão divergentes como é a do autor de Les Faux Monnayeurs. E também Henry de Montherlant nunca escondeu o fascínio que sobre si teve o mundo romano tal como o conheceu, pela primeira vez, no romance Quo Vadis? E nos textos de Tito Lívio, de Suetónio, de Tácito e de Plutarco.
O grande leitor torna-se quase sempre um leitor compulsivo: Somerset Maugham, o grande contista inglês que veio na esteira de Maupassant, confessava: “ Prefiro ler um horário ou um catálogo a ficar sem ler”. Mas esta leitura compulsiva e imparável pode também ser um sinal negativo. Ler  de mais é tão mau ou pior do que não ler: dizia Oscar Wilde que “ vivemos numa época em que se lê de mais para se poder ser sábio”. Porque, não tenhamos dúvidas, o ler  demasiado é quase sempre um sintoma de preguiça mental. “ Quem sabe”, perguntava com malícia, Edward Young, “ se Shakespeare não teria pensado menos, se tivesse lido mais?”. O nosso ensaísta António Sérgio chamou, com grande ênfase, a atenção para o facto de que o homem culto não é aquele que leu muito, mas sim aquele que leu o que leu ( que até pode não ser demasiado) com uma intensa atenção crítica. “ Ler  sem reflectir é como comer sem digerir “, observava Edmund Burke. Só a leitura crítica nos pode realmente transformar, isto é, só uma colaboração animada entre o leitor e o livro pode levar àquilo que constitui a verdadeira cultura. “ Quando lemos um clássico não vemos mais em nós do que víramos antes”, dizia Clifton Fadiman. É verdade mas, para que isso aconteça, é necessário que a leitura se faça com investimento crítico intenso.
Ler criticamente bons livros é sempre um percurso de descoberta, mas a leitura torna-se mais interessante se for partilhada. Era isso mesmo que dizia  essa grande contista neozelandeza, Katherine Mansfield, a autora do célebre The Garden Party :“ O prazer de qualquer  leitura é redobrado quando se vive com outra pessoa que partilha os mesmos livros.”
A leitura deve ser inteligente e crítica, não tem de ser voraz, mas também não precisa de ser fanaticamente organizada. Todos os grandes leitores são um pouco erráticos, saltando, com prazer e proveito, de um romance de Stendhal para um ensaio de Montaigne e, deste, para um poema de Keats ou uma peça de teatro de Garrett. Por isso, o poeta galês Dylan Thomas não tinha pejo de declarar: " A minha educação foi  a liberdade que tive de ler indiscriminadamente e constantemente, com os olhos a saltarem-me das órbitras. “
Só uma leitura assim – apaixonada, intensa, inteligentemente crítica – poderá conduzir a que vivamos mais vidas e descubramos mais mundos – lá fora e dentro de nós – do que as pessoas que não leiam deste modo. O professor universitário canadiano Samuel Hayakawa, homem de convicções e de acção forte e decidida, disse isto com que termino este modesto convite à descoberta e à metamorfose através da leitura : “ Em sentido muito real, as pessoas que leram boa literatura viveram mais do que as pessoas que não sabem ler ou não se querem dar ao trabalho de ler…Não é verdade que tenhamos uma só vida para vivermos; se soubermos ler, poderemos viver tantas vidas e tantas variedades de vida quantas desejarmos. “ Ler é transformarmo-nos de um em muitos – de singular em plural.”
Eugénio Lisboa, in ”Miscelânea – INDÍCIOS DE OIRO II”, Imprensa Nacional - Casa da Moeda, Lisboa, 2009

quarta-feira, 14 de maio de 2014

Livros para Ler em Maio

Escuroé o novo livro de poesia de Ana Luísa Amaral, publicado pela Assírio & Alvim.
Sinopse: «Neste livro, Ana Luísa Amaral reflecte sobre a literatura e sobre as inquietações do nosso tempo e do nosso quotidiano. Surge aqui, com grande fulgor, um diálogo polifónico com Fernando Pessoa e o seu drama em gente. Porque «O lume que as sustenta, / a estas vozes, / é mais de dentro, e eu não o sei dizer».
"(…)
Deixai-me o escuro, o meu.
Porque ao lado da minha,
a vossa ausência, essa que em mim plantastes,
nada é.
Tomáreis vós saber o que é ausência
Ausência eu: demorada nestas linhas.
Dizer com quanto escuro
a noite se desfaz
e se constrói —
(...)". Ana Luisa Amaral, in " Escuro", Assírio & Alvim, 2014
Leia as primeiras páginas de "Escuro": aqui
“É a Guerra “, o Diário de Aquilino Ribeiro, que ressurge com um  Prefácio de Mário Cláudio, numa reedição  da  Bertrand.
«No ano em que se assinala o centenário do início da Primeira Guerra Mundial, a Bertrand Editora reedita É a Guerra, o diário de Aquilino Ribeiro, composto na fase inicial do conflito, em Paris, onde o autor então residia.
Um retrato pessoal e íntimo de Aquilino Ribeiro sobre um dos mais importantes acontecimentos da História mundial recente, com a qual a Bertrand dá continuidade à publicação das obras do grande escritor português. O livro integra também um conjunto de edições através do qual a Bertrand revisita a Primeira Guerra Mundial e o contexto em que a mesma se desenrolou.
“Assumindo-se como um ‘diário’ dos quase dois primeiros meses da Grande Guerra, Aquilino Ribeiro procede ao trabalho original, e porventura árduo, de historiar na retaguarda parisiense um conjunto de lances, e de estados emocionais que lhes vão conexos. Com idêntica legitimidade rotularíamos de «reportagem» essa tarefa, uma vez que nela se descortina a palpitação da imprensa que cobre os acontecimentos, interpretando-os sempre, ou prevendo-os até, com a diligência que se insere na prodigalidade dos órgãos de comunicação social, editados em França, e de que o nosso autor não deixa de nos dar a devida notícia. Publicada duas décadas decorridas sobre o rebentamento das hostilidades, a obra sinistramente augura aquilo que o diarista não se coíbe de apontar, a emergência de uma segunda, e não menos catastrófica conflagração.”» Mário Cláudio
“O Ocaso dos Pirilampos”,  romance de Adriano Mixingue, sai a 21 de Maio, com a chancela da Editora Guerra e Paz.
Sinopse:
"Em "O Ocaso dos Pirilampos", romance angolano de todas as interrogações, ouve-se uma voz que se confessa. É a voz do protagonista, senhor de um poder absoluto sobre a vida e morte dos seus súbditos: «A vontade de possuir o outro é rectangular como o íman, o desejo e a cola. A vontade de agredir é quadrada como o martelo…»
Vencedor do Prémio Literário Sagrada Esperança 2013, segundo romance de Adriano Mixinge, o primeiro publicado em Portugal, O Ocaso dos Pirilampos não teme visitar os lugares do crime: «Os lugares do crime são sempre lugares de pressa, de inquietação, de arrepio e eu adoro-os.»
Um romance angolano com uma dimensão universal. Estão aqui todas as angústias do homem contemporâneo.
«O narrador-protagonista é um ser arrogante […] Ele é o grande demiurgo: as cidades nascem do interior do seu corpo para depois serem excretadas através dos seus vómitos. […] E os habitantes vivem sob o signo do grande-chicote, simbolizado no falo omnipresente do todo-poderoso personagem-narrador.» Isaquiel Cori, escritor angolano, sobre "O Ocaso dos Pirilampos".
Sobre o autor:
Adriano Mixinge, nasceu em Luanda, em 1968. É autor do romance Tanda (Edições Chá de Caxinde, Luanda, 2006) e do livro de ensaios Made in Angola: arte contemporânea, artistas e debates (Editions L’armattan, Paris, 2009).
Aos onze anos viajou para Cuba. Passou toda a sua adolescência na Ilha da Juventude. Formou-se em História de Arte pela Universidade de Havana. Em 1993, regressou a Angola. Foi investigador no Museu Nacional de Antropologia de Luanda, editor cultural do Jornal de Angola e comissário de diversas exposições de arte, em Angola e no estrangeiro, sendo a mais importante «Entre a guerra e a paz», exibida na primeira Bienal de Arte contemporânea de Joanesburgo, em 1995.
Em 2002, foi nomeado conselheiro cultural na Embaixada de Angola em França e, nesta condição, organizou o projecto artístico e cultural «Angola, mon amour» (Musée du Quay Branly, Paris, 2008) e esteve na origem da exposição «Angola, figuras de Poder» (Musée Dapper, Paris, 2011), entre outras.
Actualmente, é conselheiro cultural na Embaixada de Angola em Espanha.
Retrato de Rapaz”,  de  Mário Cláudio, estará disponível, nas Livrarias, a partir de 20 de Maio,  editado pela Publicações Dom Quixote.
Sinopse: «
Farto do descaminho de Giacomo, o pai vem deixá-lo ao estúdio de banho tomado, mas ainda com andrajos e piolhos, para que o artista que exuma cadáveres e constrói máquinas voadoras o endireite e faça dele seu criado. A beleza do rapaz impressiona Leonardo, que logo pensa nele para um anjo, concluindo porém que lhe assentam melhor corninhos de diabrete, e assim o rebaptizando como Salai. Serão, de resto, os pecadilhos do rapaz que o farão cair nas boas graças do amo e o elevarão à categoria de aprendiz sem engenho mas com descaramento para emitir opiniões, borrar a pintura, traficar pigmentos e até surripiar desenhos. E, num jogo de pequenas traições mútuas, vai-se criando entre Salai e o pintor uma cumplicidade que os aproximará como se fossem pai e filho.
Retrato de Rapaz é uma novela fulgurante sobre a relação entre mestre e discípulo, nem sempre isenta de drama e decepção, e sobre a criatividade de um artista genial em tudo, mesmo na gestão dos seus afectos.»
Peter Englund escreveu “A Beleza e a Dor da Guerra – História Íntima da Primeira Guerra Mundial” , agora, editado, em Portugal, pela Bertrand. 
«Há muitos livros sobre a Primeira Guerra Mundial, mas o premiado historiador Peter Englund, Secretário Permanente da Academia Sueca, que atribui o Prémio Nobel da Literatura, aborda-a de uma forma inédita e espantosa: através da experiência de homens e mulheres comuns oriundos de várias partes do globo, explorando os aspectos quotidianos da guerra, não só a tragédia e o horror, mas também o absurdo, a monotonia e até a beleza.
Entre as muitas histórias, há um jovem na infantaria do exército britânico, que considerara a hipótese de emigrar até a guerra lhe ter oferecido “a sua grande promessa de mudança”, um funcionário francês de meia-idade, socialista e escritor, cuja “fé simplesmente ruiu” com o início da guerra. Há uma menina alemã de doze anos que está entusiasmada com as notícias das vitórias do exército porque isso significa que ela e as suas colegas de sala poderão gritar na escola. Há uma americana casada com um aristocrata polaco, que vivia uma vida recatada e de luxo quando a guerra começou e que, em última instância, será levada a declarar: “Ao olhar a Morte nos olhos, perde-se-lhe o medo.”
A Beleza e a Dor da Guerra é um brilhante mosaico de perspectivas que reconstrói sentimentos, impressões, experiências e flutuações de humor de vinte pessoas específicas, deixando-as falar não apenas por si próprias, mas também por todos aqueles que foram de alguma forma moldados pela guerra, mas cujas vozes foram esquecidas e ignoradas, ou simplesmente não foram ouvidas.»


A editora Opera Omnia publicou o novo livro de poesia de João Almeida : " As Condições Locais " .

Trata-se de “ um livro de Poesia de um dos mais prometedores Poetas da poesia portuguesa contemporânea.
João Almeida, para além de uma obra que conta já com cinco títulos, é um Autor que está presente em algumas das mais prestigiadas revistas literárias em Portugal e em Espanha.

Com As Condições Locais, João Almeida volta ao convívio dos leitores com uma Poesia depurada, mas carregada de simbolismos.”


Novo livro de Philip Roth ,” Os Factos, Autobiografia de um romancista”, publicado em Maio, por Publicações Dom Quixote.
"Os Factos" é a autobiografia nada convencional de um escritor que mudou o nosso modo de ver a ficção – uma obra de irresistível franqueza e criatividade, particularmente instrutiva na revelação das interacções entre a vida e a arte. Em Os Factos, Philip Roth concentra-se em cinco episódios da sua vida: a infância urbana e protegida, nos anos trinta e quarenta; a preparação para a vida americana numa universidade conservadora, nos anos cinquenta; o envolvimento tumultuoso, quando era jovem e ambicioso, com a pessoa mais colérica que conheceu em toda a sua vida (a «rapariga dos meus sonhos», como Roth lhe chama); o choque frontal com um influente grupo de judeus indignados com o seu "Goodbye, Columbus"; e a descoberta, nos excessos dos anos sessenta, de um lado inexplorado do seu talento que o levou a escrever "O Complexo de Portnoy". O livro termina surpreendentemente – à boa maneira de Roth – com um ataque feroz do romancista às suas competências como autobiógrafo.”

terça-feira, 13 de maio de 2014

Na lembrança ficam as emoções

"Deixe que eu te ame sem palavras
A não ser aquelas que na lembrança ficarão
Pulsando para sempre
Como se o amor e a vida
Fossem um discurso
De impronunciáveis emoções."
Affonso Romano de Sant'Anna, in “Silêncio amoroso"- " Os dias do Amor, um poema para cada dia do ano”; recolha, selecção e organização de Inês Ramos; Prefácio de Henrique Manuel Bento Fialho; Ministério dos Livros

Angela Gheorghiu & Roberto Alagna  em "Vogliatemi bene", (Love duet) do Acto I da Ópera Madame Butterfly de Puccini, sob a direcção do maestro  Giuseppe Sinopoli. O registo foi efectuado no Concerto de Gala, em  Dresden , 2000. 

Maria  Callas em " Un bel di vedremo" da ópera "Madame Butterfly " de Puccini. Um dos trechos musicais mais belos deste compositor.

segunda-feira, 12 de maio de 2014

A nova diáspora grega

A nova diáspora grega
"Dos emigrantes dos anos 60 à nova geração que agora é obrigada a sair do país,  a Grécia tem sido um dos países mais afectados pela crise económica dos últimos anos e milhares de pessoas perderam o trabalho.
Muitas delas jovens e com boa formação, deixaram o país à procura de um emprego, principalmente nos países do norte. A euronews veio à Suécia, onde encontrou alguns dos milhares de gregos que vieram para cá nos últimos anos à procura do seu próprio paraíso perdido.
Eleftheria Gerofoka é actriz e encenadora. Deixou a Grécia há três anos e veio para Gotemburgo quando a crise atingiu o meio artístico.
Quando veio trabalhar no teatro Angereds, o teatro público da cidade sueca, não começou como actriz: chegou mesmo a fazer limpezas e a lavar a roupa dos actores. Mas agora, três anos depois, aprendeu a língua e está a encenar o próprio espectáculo. Mas não esquece o primeiro ano aqui na Suécia.
Eleftheria explica que “muitas vezes quando vinha para o teatro, nos transportes públicos vinha a chorar. Porque não sabia como conseguiria ultrapassar esta fase. A pressão para os imigrantes é enorme.”
A comunidade grega em Gotemburgo está a crescer.
Conhecemos George Zapartas. Veio para a Suécia há apenas seis meses com a mulher e os dois filhos. Foi Director de marketing, na área da comunicação social mas ficou sem emprego por causa da crise.
Passou por vários trabalhos nos últimos anos, mas nenhum lhe garantia dinheiro suficiente para sobreviver. Por isso tomou a decisão de mudar de país. Está a aprender a língua e espera encontrar um trabalho compatível com as qualificações que tem.
George Zapartas garante que “nunca se imaginou a deixar o país aos 40 anos. Não era de todo a minha escolha. Mas fui forçado a fazê-lo. Todos os dias havia uma insegurança maior. Não sabia o que iria acontecer no dia seguinte, no mês seguinte. Aqui é possível prever o que se vai fazer no próximo mês . Agora consigo prever o que vou estar a fazer dentro de seis meses. É possível fazer planos. Na Grécia, nunca se sabe o que vai acontecer amanhã e esta insegurança consome-nos, transforma-se num cancro que nos come por dentro.”
George Tsikantilakis é um cirurgião ortopédico. Deixou a Grécia um pouco antes da fase mais dura da crise porque na sua área há muito que se sentiam dificuldades. Além disso, há uma enorme procura de médicos na Suécia, ou seja, uma enorme oportunidade para os milhares de médicos desempregados da Grécia. Mas para George agora já não se trata de uma questão de escolha, mas de uma questão de sobrevivência.
O médico lembra que “escolhemos uma especialização, mas depois não a podemos exercer. Depois tinha de esperar 7 ou 8 anos. E se não se encontra outra coisa para fazer entretanto para conseguir algum dinheiro, não resta outra alternativa senão esperar.
Em 2012, entraram no país escandinavo 2254 gregos, 252% a mais que em em 2006 e 45,4 % a mais que em 2011 . As últimas estimativas dizem que cerca de 1,4 milhão de gregos deixaram o país nos últimos três anos. Os principais países de destino são Alemanha , Inglaterra, Bélgica , Suécia e Suíça.
Charles Woolfson, professor de Estudos do Trabalho da Universidade de Linköping , na Suécia salienta que o custo destas saídas para os países do sul é muito grande.
Charles Woolfson defende que “a mobilidade do trabalho como é descrita em termos europeus não é necessariamente boa para os países de origem. A Europa social não funciona apenas para os países ricos da Europa e se continua a ser destruída nos países da periferia do sul e da Europa de Leste, como tem acontecido durante a crise, acho que se vai tornar num verdadeiro problema para a política europeia.”
Todos admitem que sentem falta do próprio país. Mas alguém pensa em voltar regressar um dia?
George Tsikantilakis, o médico, garante que “não ia conseguir integrar-se no sistema de saúde pública. Se voltasse iria trabalhar no sector privado, mas mesmo para os privados não estão bem na Grécia.”
George Zapartas, o ex-Director de marketing, diz que “não consegue perceber como é que um país que está afundando em dívidas antes das eleições, de repente consegue ter dinheiro e consegue voltar aos mercados mesmo quando está endividado até o pescoço.
Eleftheria Gerofoka,a actriz, garante que “não fecha qualquer porta. Vivemos na Europa. Podemos trabalhar na Suécia , na Grécia, na Alemanha. Agora estou a morar aqui, mas não sei onde vou estar amanhã . É assim que temos de pensar a vida. Podemos voar como os pássaros…" . " Euronews (redacção de Bruxelas), Abril, 2014

domingo, 11 de maio de 2014

Ao Domingo Há Música

Praia da Rocha - Portimão 
Instante
"Que faria eu sem este mundo sem rosto sem perguntas
Onde o ser só dura um instante e onde cada instante
Transborda para o vazio o esquecimento de ter existido
Sem esta onda onde por fim
Corpo e sombra juntos se anulam
Que faria eu sem este silêncio poço fundo de murmúrios
Curvando-se a pedir socorro pedir amor
Sem este céu posto de pé
Sobre o pó do seu lastro

Que faria eu eu faria como ontem e como hoje
Olhando para a minha janela vendo se não estou sozinho
A errar e a mudar distante de toda a vida
preso num espaço incontrolável
Sem voz no meio das vozes
Que se fecham comigo."
Samuel Beckett

"Que faria eu sem este silêncio poço fundo de murmúrios/Curvando-se a pedir socorro pedir amor" . Num mês florido, de sol brilhante e dias prolongados, o amor é a esperança que sempre se pode acender em cada um e em qualquer lugar.
Há vozes que o sublimam primorosamente. Há outras que o cantam diferentemente. Neste segundo Domingo de Maio, ficam duas canções e dois intérpretes com o tema " I can't make you love me".

1 - A voz funda  e insinuante de Adele, numa  excelente actuação.



2- Bon Iver, um cantor original, numa óptima interpretação

sábado, 10 de maio de 2014

O sorriso de Karenine


"Tereza acaricia a cabeça de Karenine mansamente deitada no seu colo. Faz mais ou menos o seguinte raciocínio: Não há mérito nenhum em portarmo-nos bem com os nossos semelhantes. Tereza é forçada a ser correcta com os outros habitantes da aldeia, porque senão deixaria de poder lá viver, e, até com o próprio Tomas, é obrigada a portar-se como uma esposa desvelada porque ela precisa dele. Será sempre impossível determinar  com um mínimo de segurança em que medida é que as nossas relações com outrem resultam dos nossos sentimentos, do nosso amor, do nosso desamor, da nossa benevolência ou do nosso ódio, e em que medida é que estão previamente condicionadas pelas relações de forças existentes entre os indivíduos.
A verdadeira bondade do homem só pode manifestar-se em toda a sua pureza, e em toda a sua liberdade com aqueles que não representam força nenhuma. O verdadeiro teste moral da humanidade ( o teste mais radical, aquele que por se situar a um nível tão profundo nos escapa ao olhar) são as suas relações com quem se encontra à sua mercê: isto é, com os animais. E foi aí que se deu o maior fracasso do homem, o desaire fundamental que está na origem de todos os outros.
Uma vitela aproxima-se de Tereza, estaca ao pé dela e fica a observá-la demoradamente com os seus grandes olhos castanhos. Tereza conhece-a bem . Chama-lhe  Margarida. Gostava de ter baptizado todas as vitelas, mas não conseguiu. Não havia nomes que chegassem. Há trinta anos, pelo menos, com certeza que ainda era assim, com certeza que todas as vacas da aldeia tinham nome. ( E se o nome é sinal da alma , pode bem dizer-se , custe o que custar a Descartes, que as vacas tinham alma.) Mas, depois , a aldeia tornou-se uma fábrica cooperativa e as vacas nunca mais saíram , durante toda a vida, dos seus dois metros quadrados de estábulo. Deixaram de ter alma e passaram a não ser mais do que " machinae animatae". O mundo deu razão a Descartes. 
Ainda tenho nos olhos a imagem de Tereza sentada num tronco, a afagar  a cabeça de Karenin, e a meditar no fracasso da humanidade. Ao mesmo tempo, aparece-me outra imagem: a de Nietzsche  a sair de um hotel de Turim.Vê um cocheiro a vergastar um cavalo. Chega-se ao pé  do cavalo e,  sob o olhar do cocheiro, abraça-se à sua cabeça e desata a chorar. 
A cena passava-se em 1889, e Nietzsche, também ele, já se encontrava muito longe dos homens. Ou, por outras  palavras,foi precisamente nesse momento que a sua doença mental se declarou  . Mas, na minha opinião,  é justamente isso que reveste o seu  gesto de um profundo significado. Nietzsche foi  pedir perdão por Descartes ao cavalo  A sua loucura (e portanto o seu divórcio da humanidade) começa no instante em que se põe a chorar  abraçado ao cavalo. 
E é este Nietzsche que eu gosto , tal como gosto da  Tereza que tem ao colo a cabeça de um cão mortalmente doente  e que a afaga.Ponho-os um ao lado do outro: tanto um como o outro se afastam da estrada  em que a  humanidade, "dona  e senhora  da natureza", prossegue a sua marcha sempre em frente." Milan Kundera, in ” A insustentável leveza do ser”, Publicações D. Quixote

sexta-feira, 9 de maio de 2014

Música que vem da Argentina


Casa da América Latina
9 de Maio, 22h00
Entrada livre

A Casa da América Latina recebe no dia dia 9 de Maio, às 22h00, o duo Nuna, num concerto de raiz folclórica, com música de várias regiões da Argentina. A entrada é gratuita, sujeita à lotação de sala, e as portas da CAL abrirão às 21h30.
O duo Nuna, formado por Mayra Benitez (voz, quena, sikus e charango) e Román Lacrouts (voz, guitarra e charango), apresentará pela primeira vez em Lisboa obras de autores reconhecidos e composições próprias. O repertório inclui, entre outras, música crioula, andina e tango.

Mayra Benitez é uma cantora argentina que se especializou em instrumentos de vento da região andina. Hoje trabalha como artista freelancer. Graduou-se em Ensino de Música na Academia de Música Pedro Esnaola (Conservatório), em Buenos Aires, onde lecciona o nível inicial de Estudos de Música. Mayra possui ainda uma formação de três anos em tango e folclore na Academia de Música Manuel de Falla.
Román Lacrouts é professor universitário, especializado em guitarra, e graduado em tango e folclore pela Academia de Música Manuel de Falla, fundada e dirigida por Juan Falú. Junto com Mario Corredera, participou em vários festivais pela província de Buenos Aires e em palcos como o do Congresso Nacional. Foi membro da banda “Huellas – Música de los Andes” (2007-2009), com quem gravou e editou o álbum “El círculo” e esteve presente em inúmeros palcos, entre eles The Morón Theatre, Galpón de la Estación, Bares Notables e Radio Nacional

Imigração e Lusofonia


Observatório: Estudo identifica 680 imigrantes sem-abrigo, maioria em Lisboa
Um estudo sobre imigrantes sem-abrigo a viver em Portugal identificou 680 pessoas, a maioria das quais em Lisboa, sobretudo homens oriundos dos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP).
“Os dados pertencem ao estudo 'Imigrantes sem-abrigo em Portugal', coordenado por Teresa Líbano Monteiro e editado pelo Observatório da Imigração, e mostram que foi possível identificar 680 pessoas imigrantes a viver na condição de sem-abrigo.
Os autores sublinham que «o acesso a estes indivíduos é particularmente difícil» pelo facto de estarem em causa dois tipos de população que normalmente são consideradas «ocultas» e «escondidas».
O levantamento foi, por isso, feito através dos técnicos que trabalham nas instituições que prestam apoio a estas pessoas, tendo sido possível conhecer 680 imigrantes sem-abrigo, um número que, não sendo representativo, «é a aproximação possível a um universo de contornos indefinidos».
Segundo o estudo, a maioria dos imigrantes sem-abrigo está na cidade de Lisboa, onde foram identificados 514 (75,6%), um fenómeno espectável, segundo as autoras, «tendo em conta a relação existente entre os fenómenos de urbanização, atracção de mão-de-obra migrante e intensificação de pobreza».
Em termos de caracterização sociodemográfica, a grande maioria (90,3%) destas pessoas são homens, havendo apenas 66 mulheres, sobretudo oriundos dos PALOP (40,3%), com idade entre os 36 e os 45 anos. Há também uma percentagem elevada (23,7%) entre os 26 e os 35 anos e entre os 46 e os 55 anos (27,3%).
Em termos de país de origem, a Ucrânia surge em segundo lugar (16%), logo seguida pela Roménia (6%).
As investigadoras apontam que «apesar da nacionalidade brasileira ser a mais representada na imigração actual, os sem-abrigo brasileiros representam apenas 6% dos  indivíduos em análise», fenómeno explicado pela «maior empregabilidade e integração social» dos cidadãos brasileiros.
De destacar que 34 dos 680 imigrantes vêm de países da Europa Ocidental, nomeadamente Itália, Espanha, Alemanha, França, Áustria, Dinamarca, Noruega, Reino Unido, Bélgica, Grécia e Irlanda.
No entanto, não foi possível compreender melhor o perfil destas pessoas, de modo a perceber que características do seu percurso de vida fizeram com que, apesar de serem oriundos de países com maior índice de desenvolvimento que Portugal, tenham acabado na condição de sem-abrigo.
Em relação à escolaridade, a maioria (cerca de 42%) tem o nível básico ou menos, sendo que destes, 6% não possui qualquer qualificação.
Por outro lado, há 17% que têm o ensino secundário concluído e 6% com uma licenciatura.
Os indivíduos dos PALOP são aqueles que têm menos qualificações, enquanto no lado oposto (com ensino superior ou formação profissional) estão os cidadãos da Ucrânia e de outros países de Leste.
Metade das pessoas não tem documentação legal, enquanto apenas 30% tem um visto ou uma autorização de residência, sendo que na maioria destes casos (79,1%), a autorização de residência destina-se ao exercício de actividade profissional subordinada.
Estes 79,1% representam 91 pessoas, sendo que destas, 74 estão desempregadas.
Aliás, no que diz respeito à situação laboral, o estudo demonstra que "a esmagadora maioria" dos inquiridos (544) está desempregada.
Em matéria de saúde, praticamente metade (49%) encontra-se doente e a condição de saúde mais referida (35%) foi o alcoolismo.
O estudo, coordenado por Teresa Líbano Monteiro, foi realizado por Verónica Policarpo, Vanda Ramalho e Isabel Santos.” Diário Digital com Lusa, em 09.05.14

Cidades Capitais de Língua Portuguesa reúnem-se hoje em Coimbra
A criação dum Gabinete de Cooperação Económica, que permita apresentar soluções para as necessidades das cidades, é um dos temas em debate hoje na XXX Assembleia-geral da União das Cidades Capitais de Língua Portuguesa (UCCLA), em Coimbra.
“No actual contexto de crise, as questões económicas vão dominar a agenda do encontro anual da UCCLA, em que participam representantes de 22 municípios e 18 empresas, disse à Lusa o secretário-geral da organização, Vítor Ramalho.
A UCCLA pretende criar um Gabinete de Cooperação Económica para «atender às necessidades das cidades», disse o responsável, exemplificando: «Luanda precisa de uma empresa de canalização. Nós podemos responder a isso, beneficiando do contacto próximo com os Presidentes de Câmara».
Por outro lado, as cerca de 40 empresas associadas da UCCLA vão passar a mostrar-se nas feiras internacionais de Maputo e de Luanda, já este ano, no âmbito de um protocolo celebrado com a Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal (AICEP).
«Isto possibilita uma divulgação das nossas empresas e uma chamada de atenção de que a UCCLA pode ser um instrumento para as cidades chegarem às empresas e encontrarem as respostas de que precisam», explicou Vítor Ramalho.
Os membros da UCCLA vão ainda discutir uma proposta cultural: a homenagem aos antigos estudantes da Casa dos Estudantes do Império, que durante a ditadura de Salazar estudaram nas universidades portuguesas.
«Todos os homens de cultura do mundo lusófono e os grandes políticos que logo a seguir às independências dirigiram os partidos e os movimentos africanos, mas também os próprios Estados, formaram-se politica e culturalmente em Lisboa. Isso não ocorreu em nenhum outro país colonizador de África», afirmou o secretário-geral da organização.
Na reunião, que decorrerá a partir das 15:00, no Salão Nobre da Câmara Municipal de Coimbra, serão debatidos ainda «assuntos internos da organização, projectos em curso e futuros, envolvendo relações institucionais com entidades congéneres».
A discussão e votação do Relatório e Contas relativos ao ano de 2013 e apresentação do Programa de Actividades para 2014 também fazem parte da agenda de trabalhos do encontro, adianta uma nota da UCCLA.
Fundada em Junho de 1985, pelas cidades de Bissau, Lisboa, Luanda, Macau, Maputo, Praia, Rio de Janeiro e São Tomé/Água Grande, a UCCLA, que actualmente reúne 40 cidades de oitos países de língua portuguesa, vive do co-financiamento dos seus membros e conta com projectos financiados por organizações como o Banco Mundial e a União Europeia.
A XXIX Assembleia-geral da UCCLA realizou-se em Maio de 2013, em Cabo Verde, na cidade da Praia.” Diário Digital com Lusa, em 09.05.14

quinta-feira, 8 de maio de 2014

Falamos dos versos que ofuscam

"A um livro, por vezes, crescem-lhe raízes para dentro do próprio leitor. É, então, possível vê-lo assentar a estacaria minuciosa, encenar-se, senão mesmo deitar lume. Dê-se-lhe voltas, e não se lhe compreende a fonte, a subtil força que o anima, nos perturba.
Por vezes, há ocasionais, discretos versos suspensos da página, que maturam sombriamente por fora, que se anicham entre os parietais. Como que redivivos. Quando falamos de livros, não chegamos, sequer a falar de livros. Falamos dos versos que se pegam ao corpo – que ofuscam. Por que há versos que trazemos ignorados como um nome. Outros: já lá estão, desde sempre, ao fundo, à nossa espera."
Luís Miguel Nava, in  "Poesia Completa"1979-1994, Lisboa: Publicações Dom Quixote,(2002)
Sketch
“Vem o rapaz à página, é o sketch, a luz às vezes é de tal intensidade que a página fica em branco,outras porém mais fraca, o rapaz põe o poema em perspectiva, a água ainda mal alinhavada nas bainhas dela depois lavase, a tensão no poema é tanta que as imagens saltam em descargas, é assim colhido em planos vários, há alturas em que apenas um pormenor do rosto vem à página outras em que ela aflui a nudez toda, um nó de imagens avolumase, o rapaz leva o silêncio ao máximo, acelerao, é onde ele se ergue que há no poema uma pequena confluência de astros e a rebentação da luz é idêntica à das ondas, as imagens esticadas sob a pele irrompem pelas mãos, abrem janelas sobre os rins, a intensidade do rapaz é então tal que é ele quem põe em branco a página. “Luís Miguel Nava, in  "Poesia Completa"1979-1994, Lisboa: Publicações Dom Quixote, (2002)
Nos teus ouvidos

Nos teus ouvidos isto explode
de amor, palavra ampola sob
os astros funcionando abril à boca das cidades, dos
imperturbáveis muros as quais as crianças
que de cristais nos punhos acontecem passam,
seus chapéus brevíssimos, os indícios
de nada, o modo de ler, de acender um texto
de amor nos ouvidos, isto explode e entra
nesta página o mar da minha infância, meigo
no modo de lembrálo, lêlo, de acender
de carícias um texto na memória. De astros
as ruas eram cheias que os cuspiam hoje
na minha mãe de outrora, nas crianças de água, nos
pensamentos nenhuns que eu punha em seus joelhos, em
seus amáveis joelhos a que os astros acorriam,
minha mãe que arranco ao sono, às areias virgens
das palavras, que amanhecido eu gero, as mãos
tão de repente em pânico nos muros.”
Luis Miguel Nava, “Películas (1979)” in “Poesia Completa”,1979-1994,  Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2002.

Sobre Luís Miguel de Oliveira Perry Nava, ( Viseu, 29 Setembro 1957-Bruxelas,10 de Maio 1995) poeta  e escritor, Gastão Cruz escreveu: 
"O percurso de Luís Miguel Nava, ao longo de quinze anos, é, simultaneamente, o obsessivo aprofundar da pseudoanálise de um mundo sinalizado por um conjunto de imagens que nos dá, por vezes, a sensação, porventura ilusória, de se fechar sobre si próprio e o progressivo obscurecimento da visão desse mundo, desde a claridade brutal, insuportável, que banha Películas («a luz às vezes é de tal intensidade que a página fica em branco» – «Sketch»; «Não atentava então na claridade em que a casa e a terra a essa hora faleciam, nos fragmentos vários do horizonte de que a luz fazia um jogo insuportável» – «Olhando o muro»), até à treva total, que insistentemente atravessa as páginas de Vulcão («Começamnos as trevas a romper/ a carne» – «As trevas»; «As trevas engolfamselhe através da boca e dos ouvidos» – «Crepúsculo»)." Gastão Cruz (2002) in  «Dos relâmpagos às trevas na poesia de Luís Miguel Nava»,  in “Poesia Completa”, 1979-1994, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2002

quarta-feira, 7 de maio de 2014

Pergunta


Pergunta
Talvez eu viesse de dentro da noite
com fundos segredos nos olhos fechados.

Talvez meu sorriso
estivesse marcado por cima dos lagos.

Talvez minhas mãos,
talvez meus cabelos,
talvez eu inteira trazendo recados
por outros caminhos errados.
Glória de Sant’Anna, in " Música Ausente ", 1954

Um mestre no fixar do instante mágico

O repórter esquecido
Por Baptista-Bastos
"Revejo-lhe o sorriso claro, o sentido religioso da vida, a beleza sem mácula de gostar dos outros, a capacidade de compreender a grandeza dos desventurados, essa reserva no sofrimento e essa total deposição de glória. José Antunes, meu camarada, meu parceiro de andejos por montes e vales, no varejo da reportagem, no garimpo do oiro da notícia. E ouço-o: "Vamos a isto, amigo Bastos!, vamos a isto!" Sempre me tratou assim, amigo, num laço de afecto que durou até ao fim da sua vida. "Como é que está o amigo Bastos?", perguntou à mulher, sabedor de que eu fora internado, pela mesma ocasião em que, a ele próprio, a cirurgia tentava extrair um tumor no cérebro. Dias trágicos, dramáticos ou radiosos, esses, em que, no Diário Popular, oferecemos tudo o que havia a oferecer. Ele com a máquina fotográfica sempre pronta a disparar; eu com o coração sem rugas a procurar descobrir o que se escondia, nos outros, para lá do meu olhar.
Percorro, agora, os jornais, as revistas e as televisões que recuperam muitas e muitas imagens obtidas pelo meu amigo, há quarenta anos, na festa de Abril. Nem uma leva o nome do autor, num anonimato obsceno, que tem muito que ver não só com ignorância, mas também com inveja e com o desprendimento ético do meu amigo. Durante esses dias tumultuosos e febris o Zé Antunes fotografou tudo o que era imprescindível fotografar. Uma tarde, revelou-me que tinham "desaparecido", do laboratório do jornal, três rolos de negativos por ele considerados "históricos." Disse-o sem lamúria nem queixume, acentuando, apenas, que desconfiava de quem fora o usurpador.
Um mestre no fixar do instante mágico; um artista que apreciava a incomparável ternura humana, e detestava a brutalidade da fome, da miséria e do infortúnio marcante nas classes pobres de onde ele e eu provínhamos. Era, acaso, essa origem que nos aproximava, dois feitios opostos, ele calmo, sereno e conciliador; eu, brigão, agitado, mas também cheio de compaixão pelos outros.
O Pedro Foyos, da mesma, já rara, estirpe antiga, chegou a organizar um livro de fotos do amigo comum. Mas o grande acervo de imagens talvez a família ainda o retenha: um modo diferente, mas muito belo, de olhar a cidade e de a cidade falar como quem olha e fala da coisa amada.
Anda por aí um bulício de aplausos e uma cerimónia de entrega de louros imerecidos, a quem somente tem sabido sobreviver às contingências do momento. O Zé Antunes foi um dos maiores repórteres fotográficos deste país; um jornalista cujo génio se escondia numa modéstia elegante. Mergulhou no tempo que lhe coube viver com a consciência de quem quer dizer dos outros a natureza da sua pessoal grandiosidade. Com uma máquina fotográfica que, nas mãos dele, possuía alma e coração." Baptista-Bastos em Artigo de Opinião, publicado no DN, em 30.04.2014

domingo, 4 de maio de 2014

Ao Domingo Há Música

CANÇÃO

Hoje venho dizer-te que nevou
no rosto familiar que te esperava.
Não é nada, meu amor, foi um pássaro,
a casca do tempo que caiu,
uma lágrima, um barco, uma palavra.
(...)
Eugénio de Andrade, " Canção", in " As Palavras interditas", Assírio&Alvim


A Música será sempre a " Precious Thing". Os sons, as vozes, o ritmo, a magia da interpretação, o prazer que  toma e transcende. Os momentos de grande deleite podem ser fugazes, mas intensos quando invocados.
Invocámos a poesia de Eugénio de Andrade e as vozes imperecíveis  de quatro grandes talentos: Ray Charles, Dee Dee Bridgewater, Diane Schuur e Tina Turner. Precious Thing, It Had to be You, Say no more e Let's stay together , quatro excelentes canções, quatro precious interpretações.





Let's say together

Let me say that since
Since we've been together
Oh Loving you forever
Is all I need
Let me be the one you come running to
I'll never be untrue

Let's, let's stay together
Loving you whether, whether
Times are good or bad, happy or sad

I'm so in love with you
Whatever you want to do
Is alright with me
You make me feel so brand new
I want to spend my whole life with you

Let me say that, since
Since we've been together
Oh Loving you forever
Is all I need
Let me be the one you come running to
I'll never be untrue

Let's, let's stay together
Loving you whether, whether
Times are good or bad, happy or sad

Why, oh tell me, why do people break up
Turn around and make up
I just can't see
You'd never do that to me, would you baby?
Cause being around you is all I see

So baby let's we all stay together
Loving you whether, whether
Times are good or bad, happy or sad.

(W. Mitchell, A. Green, A. Jackson)
Producers: Martyn Ware and Greg Walsh
Albums: Private Dancer (84), Simply The Best (91),
The Collected Recordings (94)
Grammy Nomination: Best R&B vocal performance (84)

sábado, 3 de maio de 2014

Obscuro Domínio

Amar-te assim desvelado
entre barro fresco e ardor.
Sorver o rumor das luzes
entre os teus lábios fendidos.

Deslizar  pela vertente
da garganta, ser música
onde o silêncio aflui
 e se concentra.

Irreprimível queimadura
ou vertigem desdobrada
beijo a beijo,
brancura dilacerada.

Penetrar na doçura da areia 
ou do lume,
na luz queimada
da pupila mais azul,

no oiro anoitecido 
entre  pétalas cerradas,
no alto e navegável
golfo do desejo,

onde a ternura habita 
crispada de agulhas,
onde faça sangrar
as tuas águas nuas.
Eugénio de Andrade, in " Obscuro Domínio" , Editorial Inova Limitada