sábado, 10 de setembro de 2011

Assim vai o Mundo em Setembro

“Setembro ou seca as fontes ou leva as pontes.”


Situação de emergência em Santa Catarina, Brasil.
Prefeitura de Rio do Sul decretou estado de calamidade pública.Cidade mais atingida é Blumenau, com 280 mil afectados, diz Defesa Civil.
As fortes chuvas que atingem Santa Catarina deixam 14 municípios em situação de emergência, segundo boletim da Defesa Civil divulgado às 22h desta quinta-feira (8). No boletim anterior, divulgado às 21h, a Defesa Civil indicava que eram 12 os municípios em situação de emergência. Ao todo, mais de 489 mil pessoas foram afectadas pelas chuvas que atingem o estado desde a quarta-feira (7).São 18.369 desalojados (pessoas que estão em casas de amigos e parentes) e 1.314 desabrigados (aquelas que perderam suas casas), e um total de 489.903 foram afectadas pelas enchentes.
A Prefeitura de Rio do Sul decretou estado de calamidade pública em razão das inundações e deslizamentos de terra.
A cidade mais atingida é Blumenau, onde 15 mil estão desalojados e 280 mil foram afectados pelas enchentes, seguida de Brusque, com 105 afectados. Também há desabrigados e desalojados em Ilhota e Florianópolis. As 14 cidades que estão em situação de emergência desde o início da niote são Angelina, Bocaina do Sul, Brusque, Caçador, Correia Pinto, Ituporanga, Leoberto Leal, José Boiteux, Navegantes, Pouso Redondo, Rio das Antas, Rio dos Cedros, Tijucas e Witmarsum. Outras 36 cidades apresentaram notificação preliminar de desastre, que podem também entrar em emergência. Do G1, em São Paulo
Veja mais em: VC no G1.


793 milhões de pessoas não sabem ler nem escrever
Segundo estudos do Instituto de Estatística da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) 793 milhões de pessoas em todo o mundo não sabem ler nem escrever. O resultado do estudo foi publicado por ocasião da celebração do Dia Internacional da Alfabetização. Segundo os dados, a maioria dessas pessoas são meninas e mulheres.
De acordo com a Unesco, outras 67 milhões de crianças em idade escolar não lêem ou escrevem, e 72 milhões de adolescentes em idade escolar também não não usufruem do  seu direito à educação. Em todo o mundo, 11 países têm mais de 50% de adultos analfabetos: Benin, Burkina Fasso, Chade, Etiópia, Gâmbia, Guiné, Haiti, Mali, Níger, Senegal e Serra Leoa.
Por regiões, o sul e o oeste da Ásia abrigam mais da metade da população analfabeta mundial (51,8%), tanto que na África Subsaariana vivem 21,4% dos adultos analfabetos. Na Ásia Oriental e no Pacífico estão 12,8% dos analfabetos, nos países árabes, 7,6%, na América Latina e no Caribe, 4,6%. América do Norte, Europa e Ásia Central somam cerca de 2% dos adultos analfabetos, acrescentou a Unesco.
A directora geral deste órgão da ONU, Irina Bokova, declarou em comunicado que o mundo precisa urgentemente de um compromisso político mais firme com a alfabetização respaldado pelos recursos adequados para ampliar os programas eficazes.
"- É indispensável aos governos, as organizações internacionais, a sociedade civil e o sector privado fazer da alfabetização uma prioridade política, para que todas as pessoas possam desenvolver seu potencial e participar activamente na formação de sociedades mais sustentáveis, justas e pacíficas",- afirmou.
O E-9 reúne nove países muito povoados que concentram mais de dois terços dos analfabetos adultos e mais da metade das crianças não escolarizados do mundo, e é formado por Bangladesh, Brasil, China, Índia, Indonésia, México, Nigéria e Paquistão. Começou nesta quinta-feira, 8 de Setembro, Dia Internacional da Alfabetização, em Nova Délhi, na Índia, a conferência internacional "Alfabetização feminina para um desenvolvimento integrador e sustentável", organizada pelo governo indiano na abertura da "Iniciativa E-9".A celebração do Dia Internacional da Alfabetização, no dia 8 de Setembro, presta atenção especial à relação entre a alfabetização e a paz, segundo a organização. A Unesco entregará, em Nova Déli, os prémios internacionais de alfabetização Confúcio e Rei Sejong, que recompensam projectos do Burundi, Estados Unidos, México e da República Democrática do Congo.
O prémio Unesco-Rei Sejong será entregue ao Instituto Nacional para a Educação dos Adultos do México (Inea), por seus programas de alfabetização bilíngues. Segundo a Unesco, estes programas demonstraram sua eficácia para reduzir os índices de analfabetismo entre as povoações indígenas do México, em particular das mulheres, e para melhorar sua capacidade de exercer seus direitos.

México em prevenção
Cidade do México, 09 set (Lusa) -- A tempestade tropical "Nate", no sul do Golfo do México levou as autoridades mexicanas a colocarem em alerta seis estados no sul do país.
A tempestade tropical, que poderá converter-se esta sexta-feira em furacão de categoria um, na escala Saffir Simpson em que o máximo é cinco, encontra-se a 180 quilómetros a oeste de Campeche, no Golfo do México.

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Caem limos, também ondas


Sítios, caindo

O que abisma
é ser capaz de chorar cem vezes,
afastando os braços do corpo
porque, sem ele,
os joelhos caem no chão
e à terra tornam, tornados terra.
Ou ainda encostar os olhos às nuvens,
como estrelas que passassem pelos sentidos despertos.
Caem corpos, pelo medo,
caem mansos fogos no deserto,
caem tributos já perdidos,
caem corpos e lugares,
gente e coisas mais, como estilhaços e pontes.
Caem limos, também ondas,
a maré foi que desce e sobe pela escada
da nossa testa em sonhos.
Caem risos, mesmo gestos,
a noite invade os olhos como esconsos gatos os vãos,
escapando-se em redor, surpreendida,
caem paixões e outros tempos,
mil coisas sobre a terra escura,
as romãs e outras coisas de viver,
o homem em cuja pele adormecemos,
a luz apagada quando é tarde,
a voz quando cansada,
os dedos quando em sangue,
caem mil coisas, em pedaços,
do corpo que fazemos ambulante.
O que abisma é,
tendo fugazes os olhos,
ter olhos fugazes a relembrar as palavras,
sem pô-las de lado como coisas impolutas.
Entender o sol sobre a curva dos ombros,
afagando o que na estrada se cumpre e é imenso:
um grito, uma ruína,
uma unida janela.

Helena Carvalhão Buescu in "De onde nascem os rios", Editorial Presença,
Lisboa, 1998

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

O império da certeza não faz parte da minha geografia

Herdeiros famélicos
Por Lêdo Ivo *
"Poeta e escritor, jamais me atrevo a falar em nome da tribo a que pertenço. E, de quatro em quatro anos, assisto ao movimento de cineastas gulosos, confrades frenéticos, apetitosas beldades electrónicas, patéticas donas de casa, vetustos professores inaposentáveis, instaladores de instalações e até jogadores de futebol e bola ao cesto que se reúnem buliçosamente para apresentar aos candidatos presidenciais um rol de reivindicações artísticas e monetárias.
Todos se proclamam intelectuais — o que não deixa de juncar-me de inveja, já que não sei onde começa e onde termina o intelecto, e o império da certeza não faz parte de minha geografia.
Nas reuniões tumultuosas, esse trivial fino das letras e artes, e prendas domésticas, exige aquilo que todo brasileiro, do mendigo ao banqueiro, reclama do Poder Público: dinheiro. Querem a pecúnia do Erário para custear filmes, exposições, sonetos, peças teatrais, jogos, viagens ao exterior (de preferência na classe executiva). Em nome da Pátria, pleiteiam um bom financiamento para as suas fantasias e pesadelos.
Descabe discutir aqui se ao Estado compete ou não sustentar tantos sonhos e ambições, se o seu papel deve ser o do mecenas esfuziante ou o de verdugo implacável. Desejo apenas notar, nesse catálogo de reivindicações, a ausência de um item que me parece relevante. Refiro-me ao problema do direito de imagem — nesta época da imagem e dos espectáculos vertiginosos — engastado na lei dos direitos autorais.
A actual legislação me proíbe de publicar as incontáveis fotos que possuo de Manuel Bandeira. Proíbe-me até mesmo de usar aquelas em que estou ao seu lado. Proíbe-me ainda de divulgar as cartas de Clarice Lispector, Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Lúcio Cardoso ou qualquer outro integrante do meu universo afectivo. Pela lei, elas não me pertencem, embora dirigidas a mim. Por 70 anos, pertencem a parentes de quem as enviou. Caso ouse expô-las ao sol, serei processado judicialmente. Para divulgá-las, a legislação me aponta o caminho da negociação monetária. Terei de pagar aos herdeiros, através de judiciosos agentes literários que não dormem de touca.
Fui amigo de Manuel Bandeira durante trinta anos. Ele era solteiro e solitário e não deixou nenhum descendente directo. Que herdeiros são esses, que jamais o visitaram em sua solidão? Não os conheci nem de vista nem de chapéu. E a sua situação é a mesma de outros poetas e escritores mortos.
Tenho uma reivindicação a fazer à enérgica Presidente Dilma Rousseff. Peço-lhe que incorpore a obra de Manuel Bandeira ao património nacional. Livre-a dos herdeiros famélicos, dos fominhas póstumos, e a entregue ao nosso povo."
Lêdo Ivo , in O Globo, 30/1/2011
*Lêdo Ivo é o quinto ocupante da Cadeira nº 10 da Academia Brasileira de Letras, eleito em 13 de Novembro 1986, na sucessão de Orígenes Lessa e recebido em 7 de Abril de 1987 pelo académico Dom Marcos Barbosa. Nasceu no dia 18 de Fevereiro de 1924, em Maceió (AL).Poeta, jornalista, ficcionista, ensaísta, crítico literário é um dos maiores vultos da Literatura brasileira. Tem a sua obra traduzida em várias línguas e publicada em diversos países.
No Brasil, foi galardoado com o Prémio Olavo Bilac, da Academia Brasileira de Letras, o Prémio de Romance da Fundação Graça Aranha, o Prémio Carlos de Laet da Academia Brasileira de Letras, o Prémio de Memória da Fundação Cultural do Distrito Federal e , em 2004, foi-lhe outorgado o Prémio Golfinho de Ouro do Governo do Estado do Rio de Janeiro, pelo conjunto da obra.
No plano internacional, Lêdo Ivo é detentor do Prémio de Poesia del Mundo Latino Victor Sandoval (México, 2008), do Prémio de Literatura Brasileira da Casa de las Américas (Cuba, 2009) e do Prémio Rosalía de Castro, do PEN Clube da Galícia (Espanha, 2010).
Lêdo Ivo tem representado internacionalmente a sua pátria, o Brasil, quer em Encontros culturais , quer em Congressos e Colóquios literários.


Minha Pátria
Minha pátria não é a língua portuguesa.
Nenhuma língua é a pátria.
Minha pátria é a terra mole e peganhenta onde nasci
e o vento que sopra em Maceió.
São os caranguejos que correm na lama dos mangues
e o oceano cujas ondas continuam molhando os meus pés quando
[sonho.
Minha pátria são os morcegos suspensos no forro das igrejas
[carcomidas,
os loucos que dançam ao entardecer no hospício junto ao mar,
e o céu encurvado pelas constelações.
Minha pátria são os apitos dos navios
e o farol no alto da colina.
Minha pátria é a mão do mendigo na manhã radiosa.
São os estaleiros apodrecidos
e os cemitérios marinhos onde os meus ancestrais tuberculosos
[e impaludados não param de
[tossir e tremer nas noites frias
e o cheiro de açúcar nos armazéns portuários
e as tainhas que se debatem nas redes dos pescadores
e as résteas de cebola enrodilhadas na treva
e a chuva que cai sobre os currais de peixe.
A língua de que me utilizo não é e nunca foi a minha pátria.
Nenhuma língua enganosa é a pátria.
Ela serve apenas para que eu celebre a minha grande e pobre pátria
[muda,
minha pátria disentérica e desdentada, sem gramática e sem dicionário,
minha pátria sem língua e sem palavras.
Lêdo Ivo, In “As imaginações”, 1944.

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

No meu País

MORTE AO MEIO-DIA

No meu país não acontece nada
à terra vai-se pela estrada em frente
Novembro é quanta cor o céu consente
às casas com que o frio abre a praça

Dezembro vibra vidros brande as folhas
a brisa sopra e corre e varre o adro menos mal
que o mais zeloso varredor municipal
Mas que fazer de toda esta cor azul

que cobre os campos neste meu país do sul?
A gente é previdente cala-se e mais nada
A boca é pra comer e pra trazer fechada
o único caminho é direito ao sol

No meu país não acontece nada
o corpo curva ao peso de uma alma que não sente
Todos temos janela para o mar voltada
o fisco vela e a palavra era para toda a gente

E juntam-se na casa portuguesa
a saudade e o transístor sob o céu azul
A indústria prospera e fazem-se ao abrigo
da velha lei mental pastilhas de mentol

Morre-se a ocidente como o sol à tarde
Cai a sirene sob o sol a pino
Da inspecção do rosto o próprio olhar nos arde
Nesta orla costeira qual de nós foi um dia menino?

Há neste mundo seres para quem
a vida não contém contentamento
E a nação faz um apelo à mãe,
atenta a gravidade do momento

O meu país é o que o mar não quer
é o pescador cuspido à praia à luz
pois a areia cresceu e a gente em vão requer
curvada o que de fronte erguida já lhe pertencia

A minha terra é uma grande estrada
que põe a pedra entre o homem e a mulher
O homem vende a vida e verga sob a enxada
O meu país é o que o mar não quer


Ruy Belo, in “Boca Bilingue” (1966)

RUY BELO, poeta e ensaísta, nasceu em São João da Ribeira, Rio Maior a 27 de Fevereiro de 1933 e morreu em Queluz a 8 de Agosto de 1978. O seu nono e último livro de poesia," Despeço-me da Terra da Alegria”, foi publicado em 1977, um ano antes de morrer.

terça-feira, 6 de setembro de 2011

XV Bienal do Livro do Rio de Janeiro

Bienal do Livro Rio celebra cultura brasileira.O Brasil é o país homenageado
Na sua 15ª edição, a Bienal do Livro Rio segue com a proposta de aproximar o público de um universo de livros e autores, formando novos leitores e celebrando o mercado editorial com uma programação cultural variada e dinâmica.
Uma das novidades tem relação com o bom momento pelo qual o Brasil e, especialmente, a cidade do Rio atravessam: em tempos de crescimento económico e uma enorme exposição mundial, a Bienal deste ano é marcada por acções que se debruçam sobre a cultura brasielira.
“Tradicionalmente escolhemos um país estrangeiro para ser homenageado na Bienal do Rio. Este ano inovamos e optamos por celebrar a cultura brasileira, nos antecipando à Feira de Frankfurt, que terá o país como convidado de honra em 2013. O Brasil, sede da Copa 2014 e das Olimpíadas 2016, está na moda internacionalmente, e nada mais pertinente do que discutir e revelar ao público aspectos belos e importantes da nossa incrível diversidade cultural”, afirma Sonia Jardim, presidente do SNEL (Sindicato Nacional dos Editores de Livros), instituição que organiza o evento em parceria com a Fagga | GL exhibitions.
Além da presença de 150 escritores brasileiros estão também presentes  23 estrangeiros, entre os quais, como convidados especiais, os autores angolanos Pepetela e Ondjaki e o luso-angolano Gonçalo M. Tavares.
A 15ª Bienal do Livro do Rio de Janeiro já levou 200 mil pessoas para os pavilhões do Riocentro, em Jacarepaguá, zona oeste, nos primeiros quatro dias do evento. O recorde de público ultrapassou o número de visitantes do primeiro fim de semana da feira literária de 2009, que contou com cerca de 180 mil pessoas.
Os organizadores esperam receber 640 mil visitantes nos 11 dias de evento, que termina no próximo Domingo, dia 11. A programação, voltada para todas as idades, é distribuída em espaços temáticos com oficinas culturais, conversa com os escritores e actividades interactivas para jovens e crianças.Notícia da  imprensa brasileira
Veja programação completa

Eventos culturais e literários

A rentrée literária da Porto Editora
"A Porto Editora apresentou as novidades editoriais para a rentrée literária. A principal novidade do catálogo é Isabel Allende. No entanto, autores como Patrick Modiano, Emma Donoghue e Eduardo Mendoza também justificam destaque.O evento, que decorreu na Mãe d’Água das Amoreiras, começou com uma retrospectiva da actividade editorial da Porto Editora no primeiro semestre. Foram destacadas as publicações de: “A Mentira Sagrada”, de Luís Miguel Rocha; “A Questão Finkler”, de Howard Jacobson; “O Homem que gostava de Cães”, de Leonardo Padura; “O Executor”, de Lars Kepler; “Uma vida à sua frente”, de Romain Gary e “A Cidade de Ulisses,” de Teolinda Gersão.
Numa segunda parte da sessão, os responsáveis editoriais Cláudia Gomes, Manuel Alberto Valente e João Rodrigues apresentaram as novidades para o período Setembro-Dezembro.
Cláudia Gomes colocou em evidência o mais elogiado dos finalistas das últimas edições do Man Booker Prize e do Orange Prize, “O Quarto de Jack”, de Emma Donoghue, e ainda, naturalmente, “El Cuaderno de Maya “(título original), de Isabel Allende.
Da intervenção de Manuel Alberto Valente, destacaram-se “O Horizonte”, de Patrick Modiano, talvez o mais importante escritor francês da actualidade, e “Pensa num Núm3ro”, de John Verdon.
No que toca à Sextante, João Rodrigues enfatizou as publicações de ” Rixa de Gatos”, de Eduardo Mendoza, com o qual o escritor catalão venceu o Prémio Planeta 2010, e de Macedo: uma biografia da infâmia, o mais recente romance de António Mega Ferreira.
No total, entre Setembro e Dezembro de 2011, mais de trinta títulos vão ser publicados em três chancelas – Porto Editora, Albatroz e Sextante." In e-cultura
Jornais Republicanos 1848-1926
NOTÍCIA | Junho 2011 | Edição BNP/Assembleia da República
A Biblioteca Nacional de Portugal apresenta, no âmbito do Centenário da República e da Constituição de 1911 e com o Alto Patrocínio da Assembleia da República, um repositório de mais de 1100 títulos de jornais republicanos publicados em Portugal Continental, nos arquipélagos dos Açores e da Madeira, nas antigas colónias africanas e asiáticas e nas comunidades portuguesas no Brasil, entre 1848 e 1926, confirmando o papel fundamental que a imprensa desempenhou na difusão do ideário republicano entre os portugueses.
Os primeiros jornais, impressos clandestinamente, resultaram da iniciativa de algumas das figuras mais relevantes do setembrismo de esquerda como José Estêvão, Rodrigues Sampaio ou Oliveira Marreca, em 1848, em Lisboa. Vinte e um anos mais tarde, surgem novos títulos, também de duração efémera e sempre na capital. Mas desde os primórdios e até final da I República encontramos jornais editados por todo o País – continente e ilhas –, muitos em pequenas vilas e alguns nas colónias e nas comunidades lusas no Brasil, contrariando a visão de que a influência do Partido Republicano Português se circunscreveu apenas às principais cidades (Lisboa, Porto e Coimbra).
A BNP disponibiliza, assim, aos investigadores, aos apaixonados pela Historia da República e ao público em geral uma obra que se revela da maior utilidade para o aprofundamento da investigação, designadamente, do Republicanismo, da História da Imprensa e da História Regional e Local.
Amato Lusitano - Centúrias de Curas Medicinais
APRESENTAÇÃO DE EDIÇÃO | 8 Setembro | 18H30 | Auditório da BNP | Entrada livre
No ano em que se celebram 500 anos do nascimento do célebre médico português, o Centro Editor Livreiro da Ordem dos Médicos realizou uma edição, em dois volumes, das Centúrias de Curas Medicinais, que será apresentada publicamente, numa iniciativa conjunta da Ordem e da BNP. A sessão de apresentação desta obra paradigmática de Amato Lusitano dividir-se-á em duas partes:
♦ O Primado da Clínica em Amato Lusitano
por Victor Machado Borges
♦ A parasitologia nas Centúrias de Curas Medicinais
por David de Morais
Seguir-se-á uma visita acompanhada à mostra sobre Amato Lusitano que está patente na BNP até ao dia 30 de Setembro. Até essa data, a Livraria Babel situada no átrio da BNP estará a vender as obras do Centro Editor Livreiro da Ordem dos Médicos, nomeadamente esta reedição das "Centúrias de Curas Medicinais".

No curso da vida de Amato Lusitano e depois postumamente, foi publicada a sua experiência médica em “Curationum medicinalium “(Veneza, 1557-1560; Lyon, 1580).
“Sempre tratei os meus doentes com igual cuidado, quer fossem pobres ou nascidos em nobreza, sem procurar saber se eram hebreus, cristãos ou sequazes da lei Maometana; Sempre fui parcimonioso nos honorários e muitas vezes sem qualquer paga, tendo sempre mais em vista que os doentes recobrem a saúde do que tornar-me rico pelos seus dinheiros; Como autor de escritos médicos e ao publicar os meus livros quis só promover que a fé intacta das coisas chegasse ao conhecimento dos vindouros, sem outra ambição que não fosse contribuir de qualquer modo para a saúde da humanidade, sem nada fingir, acrescentar ou alterar em minha honra.” Amato Lusitano, Juramento médico

*Victor Machado Borges é médico, assistente de psicologia médica da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Nova de Lisboa, ex-presidente da Secção de História da Medicina da Sociedade de Geografia e ex-vogal do Conselho Directivo do INSA, membro da Comissão Instaladora do Museu da Saúde e do Núcleo de História da Medicina da Ordem dos Médicos.
*David de Morais, com doutoramento e agregação em Medicina, especializou-se, sucessivamente, em Medicina Interna, Infecciologia, Medicina Tropical e Saúde Pública. Chefe de Clínica e Director de Serviço no Hospital do Espírito de Évora, aposentado. Foi Professor da Universidade de Évora, durante 30 anos, leccionando as disciplinas de Ecologia Humana, Parasitologia Humana e Antropologia Aplicada. Publicou cerca de 120 trabalhos científicos e vários livros, nas áreas da Medicina, Epidemiologia, Ecologia Humana, Antropologia Social e História.
Cesário Verde (1855-1886) na vida e na obra
Uma excelente retrospectiva sobre este grande poeta português para ler no site da BNP.
Consulte aqui: Mais informações
TIO WEB | BND

15.º ANIVERSÁRIO DA COMPANHIA DO CHAPITÔ
De 19 a 23 de Setembro, às 22H, a Companhia do Chapitô leva a cabo um conjunto de iniciativas que têm como objectivo a comemoração de 15 anos dedicados ao teatro físico e do gesto.
A 24 de Setembro do corrente ano, a partir das 19H, tem lugar a festa comemorativo do aniversário em causa, sendo o acesso restrito a uma guest list onde se incluem várias figuras do mundo da Cultura e do Espectáculo.
Na mesma data será lançada a primeira edição do catálogo comemorativo do 15.º Aniversário da Companhia do Chapitô, bem como inaugurada uma exposição/ instalação alusiva ao percurso desta quinzenária companhia.
Entre 08 de Setembro e 08 de Outubro, nas estações do Metropolitano de Lisboa do Marquês de Pombal, Entre Campos e São Sebastião, fotografias do repertório de 15 anos de criações dão a conhecer ao público um conceito de criação viva, directa e que se quer presente no dia a dia de cada cidadão.
Conceito:
No 15.º Aniversário da Companhia do Chapitô o objectivo passa por envolver o público no universo da criação, convidando-o a escolher o espectáculo que quer ver e partilhando com o mesmo a montagem do cenário.
De 19 a 23 de Setembro “Drakula” (2008), “Cão que Morre não Ladra” (2010) e “Cemitério dos Prazeres” (2011) serão os três espectáculos apresentados ao público que votará naquele que pretende assistir.
Segmento cultural do Chapitô, a mais itinerante companhia de Portugal orgulha-se de, pelos 4 continentes - 11 países e 157 cidades – por onde viajou, ter conquistado um total de 125.000 espectadores.
Programação completa: clique aqui

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Freddie Mercury , the golden boy

Freddie Mercury com Montserrat Caballé, uma voz que celebrou o canto com magia e magnânima mestria. Morreu há 20 anos, mas deixou-nos muitos e grandes momentos musicais que perdurarão. Passaram 65 anos sobre o seu nascimento.   

Mas o céu não cairá

" Milhões de norte-americanos trabalham a tempo inteiro, todo o ano, para ganharem um salário de miséria. A jornalista Barbara Ehrenreich decidiu ir juntar-se às suas fileiras para descobrir como é possível subsistir”
Por cá a miséria já grassa há muito e a iniquidade de um salário baixo obriga a malabarismos desumanos.O ciclo crísico que se desenvolve vai  acentuar e aumentar as clivagens numa sociedade que tende a  bipolarizar-se apenas em pobres e ricos.

Quando as mães solteiras pobres tinham a opção de não entrarem no mercado de trabalho e continuarem a subsistir à custa da assistência social, as classes média e alta encaravam-nas geralmente com uma certa impaciência, se não mesmo repugnância. Os pobres dependentes da assistência social eram criticados pela sua preguiça, a sua persistência em se reproduzirem em circunstâncias desfavoráveis, os seus presumíveis vícios e, acima de tudo, a sua “dependência”. Aqui estavam eles, contentando-se com viver de “esmolas do Estado” em vez de buscarem a sua “auto-suficiência”, como todas as outras pessoas, através de um emprego. […] Mas agora que o Estado suspendeu em grande medida as suas “esmolas”, agora que a esmagadora maioria dos pobres labuta no Wal-Mart ou no Wendy’s – bem, agora o que havemos de pensar deles? A reprovação e a condescendência já não têm cabimento; qual é a forma de os encarar que faz sentido?
Com um sentimento de culpa, estareis talvez a pensar com desânimo. Mas a culpa não chega, de forma nenhuma; o sentimento apropriado é a vergonha – vergonha da nossa própria dependência, neste caso, dependência do trabalho mal pago de outros. Quando alguém trabalha por menos dinheiro do que necessita para viver – quando, por exemplo, passa fome para que nós possamos comer de forma económica e conveniente – então essa pessoa faz um enorme sacrifício por nós, concedeu-nos a dádiva de uma parte das suas capacidades, da sua saúde e da sua vida. Os “pobres que trabalham”, como são referidos de forma apreciativa, são de facto os principais filantropos da nossa sociedade. Negligenciam os seus próprios filhos para cuidarem dos filhos dos outros; vivem em casas sem condições para que as casas dos outros sejam reluzentes e perfeitas; aguentam privações para que a inflação continue baixa e os preços das acções subam. Pertencer ao grupo dos pobres que trabalham é ser um doador anónimo, um benfeitor não identificado de todas as outras pessoas. […]
Um dia, evidentemente – e não vou fazer aqui previsões sobre a data exacta – cansar-se-ão de obter tão pouco em troca e exigirão que lhes paguem o que merecem. Quando esse dia chegar haverá muita raiva e greves e perturbações. Mas o céu não cairá, e no fim de contas todos acabaremos por beneficiar.”
Barbara Ehrenreich, Salário de Pobreza, Ed. Caminho, 2007


 O Anticristo
             Por Friedrich Nietzsche

Os primeiros a cair, num terramoto,
são os ídolos de pedra, livrando-nos
do peso, não da culpa, que sentíamos
nos ossos. Mas já Deus não era um ídolo
nem nada, nesse tempo:
uma presença,
quando muito, embaraçosa, semelhante
ao napperon oferecido pela tia preferida,
e que corremos a sacar duma gaveta
quando vemos, aos domingos, sua gorda,
generosa silhueta projectada na vidraça
do almoço;
ou as quatro, cinco latas
de conserva de absurdo que guardamos
na despensa (apesar de caducada a validade)
para o dia, eventual, em que alimentos
estragados nos pareçam preferíveis ao jejum.

domingo, 4 de setembro de 2011

Ao Domingo há Música

"Don't Let Go " nas vozes de  Bryan Adams e  Sarah McLachlan legendando uma paleta de excelentes  imagens deste nosso mundo tão diverso e tão igual. Momentos retratados sob um harmonioso fundo musical cujo repto primordial  está ao alcance de todos e de cada um de nós: "Don't let go of  the things you believe in / Don´t let go of the things you're feeling...".

sábado, 3 de setembro de 2011

Poemas do Amanhecer

Madrugada

Vens dos baluartes do silêncio
e de silêncio em silêncio tu caminhas
apalpando as horas
como uma esfinge acuada pela noite.

Véspera de todos os destinos
chegas vestida pela aragem e a penumbra
pelo farol das constelações e a figuração dos signos
pois só  os astros conhecem teus segredos
e eis porque são inconfessáveis os teus vultos
gestos sem ribalta num teatro de amantes
e de conspiradores.

És o remanso da criatura
o  repouso das palavras
o murmúrio dos elementos
um felino que caminha sobre a relva
um pio solitário
um latido na distância. 

Marchas pelo ventre da noite
na cadência inexorável do tempo
passo a passo rumo ao alvorecer
e é tão sutil tua chegada
porque caminhas na melodia mágica do silêncio
no rastro e no sigilo dos teus passos...
Uma telúrica canção és tu
um surdo cantochão
uma elegia que a luz ofuscará.

Teu corpo de orvalho e de enigmas
é uma vestal sagrada
aceso santuário
ungindo a luz e o movimento.
Negros são teus olhos
clareando lentamente sobre a relva
e sobre as águas.
                                                                
Colhida no noturno imenso
és imensa ao ressurgir raiada
das abissais aldeias da sombra e do mistério.
Chegas enfim para morrer na aurora palpitante
taça de luz
cântaro de fogo
arquétipo planetário da esperança
no esplendor de todo amanhecer.
Manoel de Andrade,  Curitiba, Abril de 2004, in “ Cantares” Ed. Escrituras, S. Paulo, Brasil

Aurora

Não direi que me encantas mais do que o silêncio
porque é assim que despertas as aves e os caminhos.
Meus olhos também nascem pelo parto da esperança
porque vivo na imortalidade
renascendo em cada dia.

Deixa-me rever em prece tua face ressurgida
porque tua luz é sempre uma catarse.
Teu olhar estende as linhas  do horizonte
e toda a paisagem é  então uma ventura
e já não és mais nada
porque desfaleces no seio da beleza.

Repara como sou pequeno diante do teu rosto amanhecido
mas como é grande o que em mim te contempla.
Para renascer basta-me apenas  teu momento
tua humilde majestade
tuas pétalas de fogo
e essa corola ardente
porque não  peço nada mais que a tua luz
inaugurando o mundo em cada alvorecer
e que nunca me encontres cego ou vencido.
Manoel de Andrade,  Curitiba, Abril de 2004, in “ Cantares” Ed. Escrituras, S. Paulo, Brasil

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Sobre o MEDO

O PINTOR E OS SEUS MEDOS
Por Varela Pires

Se houve pintor que – para além do muito que pintou - apenas ficasse reconhecido mundialmente por um só dos seus quadros esse foi Edvard Munch (1863.1944).
O seu famoso quadro “o Grito”, cujo original se encontra actualmente na Galeria Nacional de Oslo, na Noruega, fascinou e continua a fascinar vivamente quem o olha repetidamente e o sente.
Sente que todo o impressionismo que transmite nos ultrapassa como viventes e mortais. Nesta pintura, sugere-se que o medo e a solidão no homem podem escoar-se apenas por um aterrador grito, um terrível grito, um profundo e duradoiro grito, ecoando por todo o espaço, naquele cais, em fim de tarde ou em começos de madrugada.
Só esse grito envolve a baía, os barcos à vela, as pessoas passeando no pontão, outras correndo ao longo do resguardo longilíneo, tudo inserido nos poentes vermelhos e no negrume da imensa dimensão terreste.
Munch, o pintor, já adoentado, no seu “Diário” escrito em Nice (1892), expressa na qualidade de autor do quadro o seu sentir que pode ter algo a ver com a génese deste famoso quadro. Um quadro de um valor incalculável, que não se livrou de ser roubado do Museu por ladrões de arte e pouco tempo depois felizmente recuperado pela polícia.
Uma pintura que ainda é citada no mundo da Medicina, especialmente pela especialidade da Psiquiatria, como a mais cruenta e real representação da obsessão do medo, do sentimento universal do medo.
Escutemos o próprio Munch. “ Eu estava a passear cá fora com dois amigos e o sol começava a pôr-se… De repente, o céu ficou vermelho, cor de sangue. Eu parei, senti-me exausto e apoiei-me a uma cerca. Havia sangue e línguas de fogo por cima do fiorde azul-escuro e da cidade, de toda a cidade. Os meus amigos continuaram a andar e eu ali fiquei em pé, a tremer de medo e senti um grito infindável atravessar a natureza.”
O grito. O grito infindável… O medo. O pavor. O horror de algo que o devorava.
Quem viveu ou assistiu, como nós, na região nórdica a alguns poentes de cores enigmáticas, a tons surreais, a pinceladas que alastravam o firmamento e mudavam de cambiante em curtos espaços de tempo, principalmente no verão norueguês, em Tromso, na alta Noruega, sabe quanto esta descrição de Munch possuí a sua própria carga de autenticidade e o seu quê de dramático.
E não deixa de ser curioso e oportuno relembrar sobre a mesma pintura – que sugestionou, impressionou gerações sucessivas – a observação do sensível e genial poeta alemão Rainer Marie Rilke (1875-1926):
“ As linhas de Munch já incluem este poder construtivo de terror, mas existe muito mais natureza nele do que em Koloschke e assim ele foi sempre capaz de reconciliar os opostos de preservação e destruição puramente em termos espaciais, para neutralizar a sua subtileza numa imagem ou pintura… “
Quantos gritos de terror, quantos gritos de pavor, vindos a maior parte deles do nosso subconsciente não nos atravessam e revolvem todo o nosso ser, todas as nossas habituais atitudes?!...
Munch expressou dramaticamente, e com engenho e uma arte inigualável, no seu quadro “O Grito” o que muitos de nós já sentimos e revelámos aos outros em especial aos que nos estão próximos, sob as mais díspares e controversas formas, e se calhar até no divã de algum psicanalista.
Através dos tempos, “ O Grito” de Eduard Munch continuará a ser a mais fiel expressão artística do medo dilacerante, do terror abrupto, do pânico inevitável, do pavor tangível, absorvente.
E volto aos confins da memória.
Lembro-me perfeitamente. Teria os meus 7 ou 8 anos de idade… Ia-me deitar naquela cama de madeira de castanho, que minha mãe tinha preparado. A luz do candeeiro de petróleo colocado na mesa de cabeceira do meu quarto projectava instantaneamente a minha própria sombra enorme, gigante (nunca eu naquela minha pouca idade… a supusera tão grande!...), a minha própria sombra cobrindo grande parte da parede branca do quarto e estendendo-se, estendendo-se, até alcançar o tecto!...
Depois…
Quantas sombras?!... Quantos gritos descobertos nas profundezas desconhecidas das noites da nossa infância ainda vêm até nós, obrigando-nos a revivê-los, agora, à distância de tantos anos?!... Quantos?!...

VARELA PIRES

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Sobre a Poesia IX

Entardecer

Vejo as vermelhas caudas do crepúsculo
e o verde fulgor do mar.
Lenta é a tarde
e quero demorá-la em densas pálpebras,
consagrando-a à companheira imóvel
na melancólica quietude do casario
em que as consoantes são de espessa pedra e surda plenitude.
Neste murmúrio de sombra ainda tão solar
quero envolver-me cúmplice dos muros
e da côncava expansão do tempo,
até às praias distantes de um sossegado azul.
Assim me alongarei nas mãos da sombra imóvel
com o fogo do silêncio e a melancolia das colinas,
vivendo o instante de um dinamismo lento
em que estar é ser seguro na igualdade.
António Ramos Rosa , in  “Facilidade do Ar”

 A IX edição de "Sobre a Poesia" é feita com as palavras de António Ramos Rosa, um dos nossos maiores poetas da actualidade. Num texto excelentemente construido , o poeta reflecte, na 1ª pessoa, sobre a Arte Poética.

A poesia permite o acesso a uma dimensão essencial do homem
                                                                                   Por  António Ramos Rosa
"A palavra “Poesia” não é para mim uma palavra densa, plena, isto é, uma palavra de significação inteiramente positiva. Há nela um vazio, uma névoa e uma tenuidade que se sobrepõe ao seu significado e o torna vago e quase imperceptível. Posso comparar esta impressão à sensação que sinto quando, à distância, olho os prédios altos e percepciono não a densidade dos seus moradores mas o vazio infinito que anula todo o pretensiosismo da vida humana. A palavra “poesia” parece-me afogada irremediavelmente num vazio que dilui a sua significação e a torna longínqua e apagada, quase desprovida de sentido.
Mas não será essa diluição semântica, observou Mário, o que a torna extremamente poética, uma vez que, assim, é mais aberta e susceptível de nos transmitir o que há de inexprimível na poesia?
Sim, talvez tenhas razão, admiti, mas essa palavra confrange-me não sei porquê. Sinto uma espécie de pudor ou vergonha, como se a poesia fosse uma matéria interdita e, de algum modo, inadmissível.
Se é assim, objectou Mário, o que há de vago nessa palavra anula a pretensão ou imposição de um sentido dominante. Assim, o que há nela de impreciso vela o seu conteúdo e deixa-o indefinido. Por isso, essa palavra parece-me que não deveria suscitar nenhuma relutância pudica, porque é vaga e desprovida de um sentido positivo e determinado.
Olha, Mário, esta questão parece-me destituída de sentido, como se estivéssemos a discutir o sexo dos anjos. Porque não aceitar simplesmente que o nome de poesia é um nome que nos transmite o seu conteúdo sem suscitar qualquer problema? E já agora, para contrabalançar a tendência teorizante dos nossos diálogos, proponho-te que falemos de assuntos mais circunstanciais e mais ligados à realidade imediata e particular. Estou a referir-me à minha experiência de poeta e não tanto no seu processo específico como no que respeita às suas determinações externas e a algumas circunstâncias ou episódios da minha biografia enquanto poeta. Mário disse-me então:
 Estou perfeitamente de acordo contigo. E, se me permites, colocar-te-ei algumas questões relativas à tua biografia de poeta. Em primeiro lugar, quero perguntar-te como se processou em ti o início da prática da escrita poética? Foi um processo fácil e espontâneo ou uma elaboração difícil e dolorosa? Respondi-lhe:
Tenho uma certa dificuldade em explicar o que me levou à prática da poesia. O que sei de uma forma clara é que comecei a escrever porque amava os poetas que lia e com os quais me identificava ao ponto de os querer imitar. Este processo de identificação e de imitação determinou não só os primeiros poemas que escrevi mas também todos ou quase todos os poemas que até agora escrevi. Não tenho qualquer receio em afirmar que a originalidade dos meus poemas, sobre a qual, aliás, não tenho dúvidas, não é resultante apenas da singularidade do sujeito que sou mas também da confluência de inúmeras leituras que me estimularam e foram sempre decisivas na minha formação poética. Naturalmente, os meus primeiros poemas não possuíam nível poético e só mais tarde, depois dos vinte e cinco anos, logrei escrever poemas de uma certa qualidade, como, por exemplo, “O Boi da Paciência”, que escrevi de um jacto, no primeiro andar do café Chave de Ouro. Esse poema nasceu, inesperadamente, com uma violência e uma espontaneidade que me surpreenderam, e foi então que o poeta que sou, deu o seu primeiro passo. Esse poema, como, aliás, outros que escrevi posteriormente, não poderia surgir se eu não tivesse lido deslumbradamente a obra de Carlos Drummond de Andrade, que foi um dos primeiros poetas a influenciar-me juntamente com Paul Éluard. Seria uma questão impertinente pretender saber o que seria especificamente meu e o que seria a contribuição do autor de “A Rosa do Povo”. Esse poema foi o resultado imediato de uma dolorosa experiência humana que veio a encontrar a sua formulação graças à influência libertadora desse grande poeta brasileiro. Supor que a influência e a originalidade constituem uma dicotomia é um erro solipsista e uma perfeita idiotice. As influências são, já por si, resultantes de uma receptividade pessoal em relação a tal ou tal obra e não indiscriminadamente a qualquer autor. Ninguém poderia escrever um poema sem ter lido outro poeta. Supor o contrário é admitir que o poeta é um ser isolado no mundo e, por conseguinte, sem o conhecimento do mundo literário ou, no caso dos poetas populares, sem a existência de uma tradição oral. Mas se é assim, perguntou-me Mário, por que é que os escritores têm tanto receio das influências e de serem acusados de as sofrerem?
Penso, respondi, que esse receio se deve a uma falsa noção de originalidade que não tem em conta a sua relação com a confluência das obras que todo o escritor lê, a que não pode deixar de ser sensível e em relação às quais é sempre devedor. No que me diz respeito, esse receio não existe. Considero-me um poeta extremamente influenciável e até um pouco plagiador. Sobre alguns pequenos plágios que cometi em alguns dos meus livros, falar-te-ei daqui a pouco. Aliás, digo-te já que, sendo autor de alguns milhares de versos, me posso permitir cometer um ou outro plágio ou empregando outra palavra, talvez mais justa, uma ou outra incorporação, como o faziam os clássicos e, como por exemplo, Camões logo no primeiro verso de Os Lusíadas. Na verdade, sou extremamente receptivo em relação aos poetas que amo e admiro e os meus livros de poemas não seriam o que são, sobretudo alguns deles, se eu não tivesse lido determinados poetas que exerceram sobre mim uma atracção e um fascínio irresistíveis, tão irresistíveis como o desejo de os imitar e de integrar o que de novo eles traziam na minha escrita poética.
Verifico, porém, que esta fascinação que exercem certos poetas sobre mim e o decorrente desejo de os imitar não se traduz objectivamente numa obra destituída de originalidade e de cunho pessoal. Entre a obra que imitei ou tentei imitar e a obra que escrevi subsiste uma diferença essencial e é essa diferença que me leva a pensar que o meu livro possui a autonomia e a originalidade que considero imprescindíveis numa obra literária e que, de modo algum, foram prejudicadas pela influência que sobre ela exerceu outra obra. Pelo contrário, a influência pode ser decisiva para a descoberta da voz original do poeta que procura o seu caminho ou que, tendo-o encontrado, aspira a novos rumos para que a identidade se renove e se intensifique.
Estive todo este tempo a ouvir-te sem te interromper, disse-me Mário, porque quis ouvir a tua argumentação até ao fim, tão interessado estava nela. Estou de acordo contigo, embora tenha ficado um pouco surpreendido, porque nunca pensei que a originalidade e a influência pudessem ser compatíveis. E há muita gente, tanto poetas como leitores, que não pensa assim. E até em Estocolmo, se se soubesse que tu, de vez em quando, cometes um plágio, não te atribuíam o Nobel.
Sim, há muita gente que não estará de acordo comigo, porque acharia que a minha argumentação é paradoxal. Quanto ao Nobel, embora te pareça insincero, espero e desejo não vir a ganhá-lo, porque se isso acontecesse seria uma grande catástrofe para o meu sistema nervoso. O mundo da informação, e não só, cair-me-ia em cima, e lá se ia toda a minha tranquilidade, que tanto prezo. Além disso, penso que outros escritores seriam mais dignos desse prémio do que eu, como, por exemplo, Vergílio Ferreira, para só citar aquele que, além da originalidade e riqueza do seu estilo, possui uma dimensão filosófica que fez dele um grande pensador, e que nenhum outro escritor português possui. Reconheço a grandeza desse escritor e a de outros, que merecem o Prémio Nobel, mas, no que me diz respeito, embora seja suficientemente consciente do meu mérito, julgo que a grandeza não cabe a mim, sempre pensei assim, talvez por excessiva modéstia, e assim continuarei a pensar.
Voltando aos teus pequenos plágios, sugeriu Mário, porque não me dás um exemplo ou dois desses plágios ou “incorporações”, como também tu lhes chamas.
 Sim, concordei, não receio fazê-lo. Referirei dois casos interessantíssimos e sumamente engraçados. Estava a trabalhar com um tradutor, aliás excelente, na tradução de um livro que foi editado em França. A certa altura, o nosso trabalho incidiu sobre três ou quatro versos de um poema do meu livro Volante Verde. A versão que o tradutor fizera não me pareceu satisfatória e sugeri-lhe então que traduzisse literalmente aqueles versos para francês. Objectou-me ele, peremptoriamente, que nenhum poeta francês escreveria aqueles versos assim. Retorqui-lhe então: Mas foi um poeta francês que os escreveu: Yves Bonnefoy. Efectivamente, eu incorporara esses versos desse poeta e traduzira-os literal-mente, de tal modo que a retroversão literal para francês coincidia exactamente com o original. Assim, os versos que incorporara no meu poema voltaram à origem sem perderem a sua identidade. O outro caso não é menos interessante, mas é um tanto humilhante para mim. Estava um dia a ler um texto de um poeta francês, Pierre Dhainaut, na revista Gradiva, num número de homenagem a Octavio Paz, quando deparei com uma frase que me deslumbrou, por ser extremamente poética. Imediatamente a traduzi e transformei num pequeno poema que publiquei mais tarde num livro. Curiosamente, o editor, para dar uma amostra da poesia contida nesse livro, inseriu esse poema na contracapa dessa obra. Achei graça, mas senti que essa escolha significava uma desqualificação da minha poesia. No entanto, parece-me que a meia dúzia de plágios que fiz (o maior deles foi uma tradução literal de cinco versos) se justificavam na medida em que, e desse modo, actualizam virtualidades implícitas no contexto original. Mas eu sei que há quem não aceite esta explicação…
Voltando à primeira parte da nossa conversa, atalhou Mário, parece-me que, embora de uma maneira não explícita, tu deprecias a poesia e ao mesmo tempo deprecias-te a ti próprio como poeta e parece-me que estas duas atitudes talvez se relacionem uma com a outra.
Bom, retorqui, a minha noção de poesia nunca foi depreciativa. Pelo contrário… Sempre achei que a poesia permite o acesso a uma dimensão essencial do homem, que está atrofiada na sociedade actual, mas que é necessário manter viva para que o homem não seja reduzido à sua escravatura no sistema e para que possa um dia libertar-se dela e viver uma vida mais humana e mais livre. Parece-me que é a mais alta noção que se pode ter de poesia. Mas é, precisamente, por isso que a poesia não se circunscreve ao âmbito literário e aponta a uma realidade que é mais vasta e mais essencial do que ela própria. Digamos que a essência da poesia é revolucionária ou subversiva porque visa a mudança radical da vida. “Il faut changer la vie”, como dizia Rimbaud. No que me diz respeito, devo dizer-te que a minha auto-estima sempre foi deficiente, embora nos últimos tempos tenha subido um pouco devido a várias circunstâncias, talvez a uma certa maturidade e a uma melhor compreensão do meu próprio valor, para o que contribuiu, de algum modo, o reconhecimento de que tenho sido objecto. Mas isto é um problema pessoal que pouco ou nada interessa aqui. O essencial é a criação poética e é ela que me proporciona a mais profunda satisfação e me recompensa todas as vicissitudes e infortúnios, independentemente das homenagens e dos prémios, que têm vindo por acréscimo e, embora gratificantes, se situam na periferia e não no cerne da minha vida poética.”

António Ramos Rosa, in “Prosas Seguidas de Diálogos”,4 Águas


O Boi da Paciência
Noite dos limites e das esquinas nos ombros
noite por de mais aguentada com filosofia a mais
que faz o boi da paciência aqui?
que fazemos nós aqui?
este espectáculo que não vem anunciado
todos os dias cumprido com as leis do diabo
todos os dias metido pelos olhos adentro
numa evidência que nos cega
até quando?
Era tempo de começar a fazer qualquer coisa
os meus nervos estão presos na encruzilhada
e o meu corpo não é mais que uma cela ambulante
e a minha vida não é mais que um teorema
por demais sabido!

Na pobreza do meu caderno
como inscrever este céu que suspeito
como amortecer um pouco a vertigem desta órbita
e todo o entusiasmo destas mãos de universo
cuja carícia é um deslizarr de estrelas?
Há uma casa que me espera
para uma festa de irmãos
há toda esta noite a negar que me esperam
e estes rostos de insónia
e o martelar opaco num muro de papel
e o arranhar persistente duma pena implacável
e a surpresa subornada pela rotina
e o muro destrutível destruindo as nossas vidas
e o marcar passo à frente deste muro
e a força que fazemos no silêncio para derrubar o muro
até quando? até quando?

Teoricamente livre para navegar entre estrelas
minha vida tem limites assassinos
Supliquei aos meus companheiros.Mas fuzilem-me!
Inventei um deus só para que me matasse
Muralhei-me de amor e o amor desabrigou-me
Escrevi cartas a minha mãe desesperadas
colori mitos e distribuí-me em segredo
e ao fim ao cabo
recomeçar
Mas estou cansado de recomeçar!
Quereria gritar:Dêem árvores para um novo
recomeço!
Aproximem-me a natureza até que a cheire!
Desertem-me este quarto onde me perco!
Deixem-me livre por um momento em qualquer parte
para uma meditação mais natural e fecunda
que me limpe o sangue!
Recomeçar!

Mas originalmente com uma nova respiração
que me limpe o sangue deste polvo de detritos
que eu sinta os pulmões com duas velas pandas
e que eu diga em nome dos mortos e dos vivos
em nome do sofrimento e da felicidade
em nome dos animais e dos utensílios criadores
em nome de todas as vidas sacrificadas
em nome dos sonhos
em nome das colheitas em nome das raízes
em nome dos países em nome das crianças
em nome da paz
que a vida vale a pena que ela é a nossa medida
que a vida é uma vitória que se constrói todos os dias
que o reino da bondade dos olhos dos poetas
vai começar na terra sobre o horror e a miséria
que o nosso coração se deve engrandecer
por ser tamanho de todas as esperanças
e tão claro como os olhos das crianças
e tão pequenino que uma delas possa brincar com ele

Mas o homenzinho diário recomeça
no seu giro de desencontros
A fadiga substituiu-lhe o coração
As cores da inércia giram-lhe nos olhos
Um quarto de aluguer
Como perservar este amor
ostentando-o na sombra
Somos colegas forçados
Os mais simples são os melhores
nos seus limites conservam a humanidade
Mas este sedento lúcido e implacável
familiar do absurdo que o envolve
como uma vida de relógio a funcionar
e um mapa da terra com rios verdadeiros
correndo-lhe na cabeça
como poderá suportar viver na contenção total
na recusa permanente a este absurdo vivo?

Ó boi da paciência que fazes tu aqui?
Quis tornar-te amável ser teu familiar
fabriquei projectos com teus cornos
lambi o teu focinho acariciei-te em vão

A tua marcha lenta enerva-me e satura-me
As constelações são mais rápidas nos céus
a terra gira com um ritmo mais verde que o teu passo
Lá fora os homens caminham realmente
Há tanta coisa que eu ignoro
e é tão irremediável este tempo perdido!
Ó boi da paciência sê meu amigo!
- António Ramos Rosa, in “ Viagem através duma Nebulosa” 1960