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sábado, 23 de julho de 2011

Exposição ÁLVARO SIZA

A Árvore vai apresentar a exposição ÁLVARO SIZA – Desenhos no Museu de Santa Maria, Açores, de 1 de Agosto a 30 de Setembro de 2011.
Desenhos de Arquitecto
"A maior parte dos meus desenhos obedece a um fim preciso: encontrar a Forma que responda à Função e da função se liberte – e do esforço – abrindo-se a imprevisível destino.
Simultaneamente ou não, “ao lado”, surge outro desenho.
Desenho de prazer, de ausência, de repouso, cruza-se com o outro, pois de nada nos alheamos por inteiro.
Um ou outro podem surgir na mesma folha de papel, aparentemente estranhos, voluntária ou involuntariamente relacionados.
Pode um retrato minucioso ou um risco ao acaso iluminar no instante a paciente pesquisa, percorrendo os corredores da memória, sem que haja apelo ou consciência disso.
Desenho é projecto, desejo, libertação, registo e forma de comunicar, dúvida e descoberta, reflexo e criação, gesto contido e utopia.
Desenho é inconsciente pesquisa e é ciência, revelação do que não se revela ao autor, nem ele revela, do que se explica noutro tempo.
Liberto, o outro desenho conduz ao desenho consciente."
Álvaro Siza


O desenho são linhas curvas e rectas que se perpetuam no espaço, a linha como objecto único leva-nos a universos inimagináveis.
Não há pontos nem vírgulas no desenho. Em Siza Vieira a espontaneidade das suas linhas fascina quem olha como que hipnotizado pela sequência de curvas e contracurvas que dá forma ao corpo da mulher.
O corpo feminino desdobra-se assim numa miríade de contornos na qual o humano se revê, na sua naturalidade abstracta.
Fugindo à sua vocação a arquitectura Siza Vieira entre por uma outra via, o desenho, onde demonstra a mesma sensibilidade com que desenha um edifício embora de forma mais intimista.
Em que momento podemos dizer que estamos perante um Siza Vieira arquitecto e um Siza Vieira artista?
Apenas no manejo do lápis na sensualidade dos seus desenhos e na capacidade de se dar aos outros através desta peculiar forma de expressão.
João Manuel Santos, Director do Museu de Santa Maria – Açores, in "Textualino", Julho 2011

sábado, 9 de julho de 2011

Espanha sem Códice Calixtino

Desapareceu o  Códice Calixtino da Catedral de Santiago
As chaves  encontravam-se na caixa forte onde se guardava o livro do século XII de valor incalculável  que não estava coberto por qualquer seguro.  Os responsáveis do arquivo da Catedral tardaram vários dias  a  descobrir o furto.
 Trata-se de um  dos livros históricos mais importantes do mundo e constitui  uma espécie de guia para os peregrinos que seguiam o Caminho de Santiago na sua viagem à cidade, com conselhos, descrições da rota, das obras de arte, bem  como dos costumes locais das gentes que viviam  ao longo do Caminho.


A imprensa espanhola noticiou intensamente este atentado ao patrimóniio histórico. O jornal "El país" referiu o roubo com vários artigos  do qual destacamos o excerto que se segue: "El Códice Calixtino o Codex Calixtinus, un libro del siglo XII de valor incalculable, ha desaparecido de la Catedral de Santiago de Compostela, en lo que puede ser uno de los hurtos más importantes de patrimonio histórico y artístico de España. La ausencia del códice, que se guardaba en una caja fuerte del archivo, se descubrió el martes por la tarde, aunque la sustracción se produjo la semana pasada, según fuentes policiales. La pieza no estaba asegurada, según ha confirmado a la prensa el deán, José María Díaz, que reconoce no saber si el seguro general contratado para la Catedral cubre el hurto del libro. El Códice Calixtino se guardaba en una cámara, a la que se "accede continuamente", con otros volúmenes, "lo más valioso", que consultan habitualmente dos investigadores del archivo de la Catedral. Solo estas dos personas y el deán, José María Díaz, pueden entrar con libertad en la sala y consultar el códice, un libro del siglo XII de valor incalculable. Tanto, que no está asegurado. Díaz ha confirmado esta mañana en una comparecencia ante la prensa que el conjunto de pergaminos carecen de un seguro propio y, aunque hay uno general para la Catedral, no saben si cubriría el hurto de un ejemplar tan valioso. Con ocasión de una de las exposiciones de arte religioso de Las Edades del Hombre, en 1990 en Burgos, la organización de la muestra solicitó exponer el códice, pero un seguro ad hoc reclamaba entonces 1.000 millones de pesetas. El volumen, "que nunca se lleva a la sala de investigadores", solo salió en dos ocasiones de la Catedral, para dos exposiciones, la última en 1993 y tan solo permaneció un par de días en la exhibición, ya que después fue sustituido por un facsímil. El deán no ha querido aclarar ningún punto sobre la seguridad de la cámara donde se guardaba el documento "por recomendación" de la policía, aunque sí ha confirmado que la puerta no fue forzada, como se informaba esta mañana cuando se supo que la cámara donde se guardaba tenía las llaves puestas. Díaz ha relatado que el martes a última hora, uno de los investigadores "echó en falta" el códice y dio aviso al propio deán. "Lo buscamos entre cuatro empleados para cerciorarnos que no estaba en la caja fuerte ni tampoco en las estancias adyacentes", ha explicado. A continuación, dieron aviso a la policía, que se personó en la Catedral sobre las 22.00 h. La denuncia oficial se produjo ayer por la tarde. "El cabildo se siente víctima de un robo y una tremenda ilegalidad", ha dicho.
El deán no ha querido verbalizar ninguna sospecha sobre la posible autoría del hurto. "Si lo sé no lo digo, si sospecho de alguien no lo digo. Primero, porque es pecado hacer juicios temerarios y, en este caso, y si es un juicio temerario interior para este fin puedo formularlo pero nunca manifestarlo. El que se lo llevó, sabía de qué se trataba, de su incalculable valor y cómo llegar a él". "El cabildo ha sabido conservarlo durante 800 años, nos sentimos víctimas de un tremendo atentado", finalizó.”In Babelia, El País 7/07/2011

terça-feira, 5 de abril de 2011

Sobre a Poesia IV

Este espaço de reflexão "Sobre a Poesia" já na 4ª edição , vai ser preenchido por uma carta de  Mario Quintana, grande poeta brasileiro, onde desenvolve   livremente  e sem atavismos o seu conceito de arte  poética. Mário Quintana foi além de poeta, tradutor e jornalista . Nasceu em Alegrete  a 30 de Julho de 1906 e faleceu em Porto Alegre, a 5 de Maio de 1994. Autor de uma imensa e valiosa obra poética foi premiado e homenageado  com inúmeras distinções e traduzido em diversas línguas. Homem perspicaz e inteiro marcou-se por uma existência peculiar e avessa  à  sobranceria intelectual. 
O TRÁGICO DILEMA: "Quando alguém pergunta a um autor o que este quis dizer, é porque um dos dois é burro. "Mario Quintana (Caderno H )
CARTA  de Mário Quintana
Meu caro poeta,
Por um lado foi bom que me tivesses pedido resposta urgente, senão eu jamais escreveria sobre o assunto desta, pois não possuo o dom discursivo e expositivo, vindo daí a dificuldade que sempre tive de escrever em prosa. A prosa não tem margens, nunca se sabe quando, como e onde parar. O poema, não; descreve uma parábola tracada pelo próprio impulso (ritmo); é que nem um grito. Todo poema é, para mim, uma interjeição ampliada; algo de instintivo, carregado de emoção. Com isso não quero dizer que o poema seja uma descarga emotiva, como o fariam os românticos. Deve, sim, trazer uma carga emocional, uma espécie de radioatividade, cuja duração só o tempo dirá. Por isso há versos de Camões que nos abalam tanto até hoje e há versos de hoje que os pósteros lerão com aquela cara com que lemos os de Filinto Elísio. Aliás, a posteridade é muito comprida: me dá sono. Escrever com o olho na posteridade é tão absurdo como escreveres para os súditos de Ramsés II, ou para o próprio Ramsés, se fores palaciano. Quanto a escrever para os contemporâneos, está muito bem, mas como é que vais saber quem são os teus contemporâneos? A única contemporaneidade que existe é a da contingência política e social, porque estamos mergulhados nela, mas isto compete melhor aos discursivos e expositivos , aos oradores e catedráticos. Que sobra então para a poesia? - perguntarás. E eu te respondo que sobras tu. Achas pouco? Não me refiro à tua pessoa, refiro-me ao teu eu, que transcende os teus limites pessoais, mergulhando no humano. O Profeta diz a todos: "eu vos trago a verdade", enquanto o poeta, mais humildemente, se limita a dizer a cada um: "eu te trago a minha verdade." E o poeta, quanto mais individual, mais universal, pois cada homem, qualquer que seja o condicionamento do meio e e da época, só vem a compreender e amar o que é essencialmente humano. Embora, eu que o diga, seja tão difícil ser assim autêntico. Às vezes assalta-me o terror de que todos os meus poemas sejam apócrifos!
Meu poeta, se estas linhas estão te aborrecendo é porque és poeta mesmo. Modéstia à parte, as disgressões sobre poesia sempre me causaram tédio e perplexidade. A culpa é tua, que me pediste conselho e me colocas na insustentável situação em que me vejo quando essas meninas dos colégios vêm (por inocência ou maldade dos professores) fazer pesquisas com perguntas assim: "O que é poesia? Por que se tornou poeta? Como escrevem os seus poemas?" A poesia é dessas coisas que a gente faz mas não diz. A poesia é um fato consumado, não se discute; perguntas-me, no entanto, que orientação de trabalho seguir e que poetas deves ler. Eu tinha vontade de ser um grande poeta para te dizer como é que eles fazem. Só te posso dizer o que eu faço. Não sei como vem um poema. Às vezes uma palavra, uma frase ouvida, uma repentina imagem que me ocorre em qualquer parte, nas ocasiões mais insólitas. A esta imagem respondem outras. Por vezes uma rima até ajuda, com o inesperado da sua associação. (Em vez de associações de idéias, associações de imagem; creio ter sido esta a verdadeira conquista da poesia moderna.) Não lhes oponho trancas nem barreiras. Vai tudo para o papel. Guardo o papel, até que um dia o releio, já esquecido de tudo (a falta de memória é uma bênção nestes casos). Vem logo o trabalho de corte, pois noto logo o que estava demais ou o que era falso. Coisas que pareciam tão bonitinhas, mas que eram puro enfeite, coisas que eram puro desenvolvimento lógico (um poema não é um teorema) tudo isso eu deito abaixo, até ficar o essencial, isto é, o poema. Um poema tanto mais belo é quanto mais parecido for com o cavalo. Por não ter nada de mais nem nada de menos é que o cavalo é o mais belo ser da Criação. Como vês, para isso é preciso uma luta constante. A minha está durando a vida inteira. O desfecho é sempre incerto. Sinto-me capaz de fazer um poema tão bom ou tão ruinzinho como aos 17 anos. Há na Bíblia uma passagem que não sei que sentido lhe darão os teólogos; é quando Jacob entra em luta com um anjo e lhe diz: "Eu não te largarei até que me abençoes". Pois bem, haverá coisa melhor para indicar a luta do poeta com o poema? Não me perguntes, porém, a técnica dessa luta sagrada ou sacrílega. Cada poeta tem de descobrir, lutando, os seus próprios recursos. Só te digo que deves desconfiar dos truques da moda, que, quando muito, podem enganar o público e trazer-te uma efêmera popularidade. Em todo caso, bem sabes que existe a métrica. Eu tive a vantagem de nascer numa época em que só se podia poetar dentro dos moldes clássicos. Era preciso ajustar as palavras naqueles moldes, obedecer àquelas rimas. Uma bela ginástica, meu poeta, que muitos de hoje acham ingenuamente desnecessária. Mas, da mesma forma que a gente primeiro aprendia nos cadernos de caligrafia para depois, com o tempo, adquirir uma letra própria, espelho grafológico da sua individualidade, eu na verdade te digo que só tem capacidade e moral para criar um ritmo livre quem for capaz de escrever um soneto clássico. Verás com o tempo que cada poema, aliás, impõe sua forma; uns, as canções, já vêm dançando, com as rimas de mãos dadas, outros, os dionisíacos (ou histriônicos, como queiras) até parecem aqualoucos. E um conselho, afinal: não cortes demais (um poema não é um esquema); eu próprio que tanto te recomendei a contenção, às vezes me distendo, me largo num poema que vai lá seguindo com os detritos, como um rio de enchente, e que me faz bem, porque o espreguiçamento é também uma ginástica. Desculpa se tudo isso é uma coisa óbvia; mas para muitos, que tu conheces, ainda não é; mostra-lhes, pois, estas linhas. Agora, que poetas deves ler? Simplesmente os poetas de que gostares e eles assim te ajudarão a compreender-te, em vez de tu a eles. São os únicos que te convêm, pois cada um só gosta de quem se parece consigo. Já escrevi, e repito: o que chamam de influência poética é apenas confluência. Já li poetas de renome universal e, mais grave ainda, de renome nacional, e que no entanto me deixaram indiferente. De quem a culpa? De ninguém. É que não eram da minha família. Enfim, meu poeta, trabalhe, trabalhe em seus versos e em você mesmo e apareça-me daqui a vinte anos. Combinado?
Mario Quintana
ESPERANÇA
Lá bem no alto do décimo segundo andar do Ano
Vive uma louca chamada Esperança
E ela pensa que quando todas as sirenas
Todas as buzinas
Todos os reco-recos tocarem
Atira-se
E
— ó delicioso vôo!
Ela será encontrada miraculosamente incólume na calçada,
Outra vez criança...
E em torno dela indagará o povo:
— Como é teu nome, meninazinha de olhos verdes?
E ela lhes dirá
(É preciso dizer-lhes tudo de novo!)
Ela lhes dirá bem devagarinho, para que não esqueçam:
— O meu nome é ES-PE-RAN-ÇA...
Mario Quintana

segunda-feira, 21 de março de 2011

Celebrar a Poesia

 Hoje , dia mundial da Poesia, as palavras são todas e apenas dos poetas.À poesia de todo o mundo e aos poetas de todos os tempos um imenso agradecimento.

ARTE POÉTICA II
«A poesia não me pede propriamente uma especialização pois a sua arte é uma arte do ser.Também não é tempo ou trabalho que a poesia me pede. Nem me pede uma ciência nem uma estética nem uma teoria. Pede-me antes a inteireza do meu ser, uma consciência mais funda do que a minha inteligência, uma fidelidade mais pura do que aquela que eu posso controlar. Pede-me uma intransigência sem lacuna. Pede-me que arranque da minha vida que se quebra, gasta, corrompe e dilui uma túnica sem costura. Pede-me que viva atenta como uma antena, pede-me que viva sempre, que nunca me esqueça. Pede-me uma obstinação sem tréguas, densa e compacta. Pois a poesia é a minha explicação com o universo, a minha convivência com as coisas, a minha participação no real, o meu encontro com as vozes e as imagens. Por isso o poema não fala duma vida ideal mas sim duma vida concreta: ângulo da janela, ressonância das ruas, das cidades e dos quartos, sombra dos muros, aparição dos rostos, silêncio, distância e brilho das estrelas, respiração da noite, perfume da tília e do orégão. É esta relação com o universo que define o poema como poema, como obra de criação poética. Quando há apenas relação com uma matéria há apenas artesanato. É o artesanato que pede especialização, ciência, trabalho, tempo e uma estética. Todo o poeta, todo o artista é artesão duma linguagem. Mas o artesanato das artes poéticas não nasce de si mesmo, isto é da relação com uma matéria, como nas artes artesanais. O artesanato das artes poéticas nasce da própria poesia à qual está consubstancialmente unido. Se um poeta diz «obscuro», «amplo», «barco», «pedra» é porque estas palavras nomeiam a sua visão do mundo, a sua ligação com as coisas. Não foram palavras escolhidas esteticamente pela sua beleza, foram escolhidas pela sua realidade, pela sua necessidade, pela seu poder poético de estabelecer uma aliança. E é da obstinação sem tréguas que a poesia exige que nasce o «obstinado rigor» do poema. O verso é denso, tenso como um arco, exactamente dito, porque os dias foram densos, tensos como arcos, exactamente vividos. O equilíbrio das palavras entre si é o equilíbrio dos momentos entre si. E no quadro sensível do poema vejo para onde vou, reconheço o meu caminho, o meu reino, a minha vida.» Sophia Mello Breyner Andresen

Pátria
Por um país de pedra e vento duro
Por um país de luz perfeita e clara
Pelo negro da terra e pelo branco do muro

Pelos rostos de silêncio e de paciência
Que a miséria longamente desenhou
Rente aos ossos com toda a exactidão
Do longo relatório irrecusável

E pelos rostos iguais ao sol e ao vento
E pela limpidez das tão amadas
Palavras sempre ditas com paixão
Pela cor e pelo peso das palavras
Pelo concreto silêncio limpo das palavras
Donde se erguem as coisas nomeadas
Pela nudez das palavras deslumbradas

- Pedra rio vento casa
Pranto dia canto alento
Espaço raiz e água
Ó minha pátria e meu centro

Me dói a lua me soluça o mar
E o exílio se inscreve em pleno tempo.
Sophia de Mello Breyner Andresen,in “ Livro Sexto”, 1962

CÓDIGO
Proclamo um código alternativo:
alheio às palavras,
uma linguagem sem frases,
uma língua que não possa ser condenada à memória,
uma prosa para enganar promessas,
um dialecto mudo sem
listas de preços ou formas de denúncia,
uma fonte gratuita de significados ambíguos,
um modo de expressar tudo quanto não pode ser expresso
MIREN AGUR MEABE(poeta basca),in Six Basque Poets

NOMEIO COM O SILÊNCIO
Posso nomear o inominável com a palavra
posso nomear a pátria
o amor o oiro uma rosa
posso gritar ou calar
posso enunciar as cores
os mares as ilhas os pássaros os frutos.
Digo o nome de minha amada
à pátria chamo-a pelo seu nome
repito duas vezes uma palavra
chamo o inominável com o silencio.
TADEUSZ RÓŻEWICZ (poeta polaco), in Poesia abierta (1944-2003)"

UMA COISA É NECESSÁRIA
Uma coisa é necessária – aqui
neste nosso mundo díficil
de sem-abrigos e desterrados:

Fixares residência em ti.

Entra pela escuridão
e limpa a fuligem da lâmpada.

Para que as pessoas na estrada
possam entrever uma luz
em teus olhos habitados.
HANS BØRLI ,(poeta norueguês) in“We Own the Forests and other Poems


Barco de Papel
Quem sabe por tantos barcos
navegaram a minha infância
herdei essa enorme ânsia
por navios, terras e mares.

Nesse mar dos meus pesares
meu porto é uma ilha perdida
e assim naveguei na vida
passageiro do horizonte.

Hoje pergunto a mim mesmo
se não remei sempre a esmo
a bordo do meu batel...

com meu sonho de criança
navegando na esperança
num barquinho de papel.
Manoel de Andrade,Curitiba, 16/12/2004,in "Cantares",Editora Escrituras 

Se cada dia cai
Se cada dia cai, dentro de cada noite,
há um poço
onde a claridade está presa.

há que sentar-se na beira
do poço da sombra
e pescar luz caída
com paciência.
Pablo Neruda (Últimos Poemas)

 Flor da Liberdade
                       
 Sombra dos  mortos, maldição dos vivos.
 Também nós…Também nós…E o sol recua. 
 Apenas o teu rosto continua
 A sorrir como dantes,
 Liberdade!
 Liberdade do homem sobre a terra,
 Ou debaixo da terra.
 Liberdade!
 O não inconformado que se diz
 A Deus, à tirania, à eternidade.

 Sepultos insepultos,
 Vivos amortalhados,
 Passados e presentes cidadãos:
 Temos nas nossas mãos
 O terrível poder de recusar!
 E é essa flor que nunca desespera
 No jardim da perpétua primavera.
Miguel Torga, in “Orpheu Rebelde “, 1958

SEM DATA
Esta voz com que gritei às vezes
não me consola de só ter gritado às vezes.

Está dentro de mim como um remorso, ouço-a
chiar sempre que lembro a paz de segurança estulta
sob mais uma pedra tumular sem data verdadeira.

Quando acabava uma soma de silêncios,
gritava o resultado, não gritava um grito.

Esta voz, enquanto um ar de torre à beira-mar
circula entre as folhas paradas,
conduz a agonia física de recordar a ingenuidade.

Apetece-me explicar, agora, as asas dos anjos.
Jorge de Sena ,27/Janeiro/1942,in ” Perseguição”, 1942


"ESTÃO PODRES AS PALAVRAS..."  
                                            A JORGE DE SENA
Estão podres as palavras, Jorge.
De passarem por sórdidas mentiras...
Assim o dizes e não pões nem tiras
Ao rio inventário do teu denso alforge
De palavras talhadas em duro corno
A doçura de uma vírgula que pudesse
Iludir a corrupção que aqui comece
Minando de cuspo a pureza em torno.
Mentem os que falam e os que se calam
Mentem os que ficam e os que se vão
Agitam-se os cobardes em fresca encarnação
Da nova coragem com que já abalam.
Que merda de gente ó filho de Camões!
Junto de um seco fero estéril monte
Para onde me retiro, olho e vejo a ponte
Por onde fogem os altos sonoros campeões!
Usá-las puras as palavras—dizes...
Que pureza desta língua envilecida
Por mil flexões de prostituta ardida?
Língua coleante, dupla, rica de matizes...
Possam as palavras ficar enfim erguidas
Um dia como torres entre céu e terra!
Façamos com elas a nossa guerra
Aos heróis que hoje confundem as saídas!
               EUGÉNIO LISBOA
 

quinta-feira, 3 de março de 2011

Recordar Mário Dionísio

"Mário Dionísio é um nome fundamental do neo-realismo, so­bretudo pela sua actividade de teórico, de crítico e de promo­tor. [...] Como ensaísta, deixa sobretudo um monumento durá­vel que é o notabilíssimo ensaio A Paleta e o Mundo, o qual fi­cará, entre nós, no género, como um livro único e uma façanha difícil de repetir. [...]
Parece-nos que o relevo da sua actividade crítica e ensaística ajudou a relegar para uma certa sombra injustamente discreta uma poesia de qualidade musical muito subtil, um canto manso mas que se quer insistente, uma voz fraternal e bem cedo isenta de demagogia, vastamente merecedores de melhor atenção. A «discreta alegria do mundo», de que fala um dos poemas de O Riso Dissonante, é bem uma metáfora desta sedutora música de câmara de um poeta que, tendo começado com as proclama­ções polémicas, sonoras e urbanas da sua «Arte Poética», bebi­da em Álvaro de Campos, bem cedo recolheu a ritmos mais subtis, originados talvez não tanto no seu amor a Éluard, como no seu próprio temperamento reflectido, recolhido e melómano."
Eugénio Lisboa in  "Poesia Portuguesa: do «Orpheu» ao Neo-Realismo"


 ARTE POÉTICA
A poesia não está nas olheiras imorais de Ofélia
nem no jardim dos lilases.
A poesia está na vida,
nas artérias imensas cheias de gente em todos os sentidos,
nos ascensores constantes,
na bicha de automóveis rápidos de todos os feitios e de todas as cores,
nas máquinas da fábrica e nos operários da fábrica
e no fumo da fábrica.
A poesia está no grito do rapaz apregoando jornais,
no vaivém de milhões de pessoas conversando ou prague­jando ou rindo.
Está no riso da loira da tabacaria,
vendendo um maço de tabaco e uma caixa de fósforos.
Está nos pulmões de aço cortando o espaço e o mar.
A poesia está na doca,
nos braços negros dos carregadores de carvão,
no beijo que se trocou no minuto entre o trabalho e o jantar
— e só durou esse minuto.
A poesia está em tudo quanto vive, em todo o movimento,
nas rodas do comboio a caminho, a caminho, a caminho
de terras sempre mais longe,
nas mãos sem luvas que se estendem para seios sem véus,
na angústia da vida.
A poesia está na luta dos homens,
está nos olhos abertos para amanhã.
Mario Dionísio, in “Poemas”, Coimbra, 1941, Col. Novo Cancioneiro nº 2
("Não conhecemos poesia anterior a esta [Poemas] em que haja da parte de qualquer poeta a confissão de uma identidade absolu­ta com a massa dos homens [...] ainda que não com absoluta exclusão do eu que tam­bém é." Alexandre Pinheiro Torres)

O irrecuperável
recuperado ei-lo aqui sorrindo
com a boca torcida mas feliz

com os braços esmagados mas feliz
o que não volta eis volta
por ignoradas mãos
numa hora esquecida
entre as horas marcadas 

possível  o recomeço
possível  o sobressalto
possível  o sonho solto
possível  um mundo novo
possível  o impossível

outro é o destino do homem
 Mário Dionísio, in “ O Riso dissonante” Lisboa: Centro Bibliográfico, 1950, col. Cancioneiro Geral nº4

CONSCIÊNCIA
Cada minuto uma questão
Mil fronteiras que venço ou que não venço
Mas nenhuma de mais dura e duradoura combustão:
ser o que penso

Mário Dionísio
(1916-1993)
in "Poesia Incompleta

Mário Dioníso nasceu em  Lisboa, a 16 de Julho de 1916 e morreu em Lisboa, a 17 de Novembro de 1993. Professor, pintor, ensaísta, crítico,  poeta   foi um resistente, um combatente ao serviço da justiça social e da Liberdade. Toda a sua variada escrita veicula a consciência da Modernidade, a de um homem íntegro  empenhado com o seu tempo.