quinta-feira, 18 de outubro de 2018

Porque a música é doce

Porque a música é doce
Dá à alma harmonia  e qual coro divino
Acorda e faz cantar no coração mil vozes

Patricia Janečková canta  W. A. Mozart, em Laudate Dominum, KV 339 / Árie soprán

quarta-feira, 17 de outubro de 2018

Nova obra de Eugénio Lisboa no prelo


Está no prelo  uma nova obra de Eugénio Lisboa , uma outra  "masterpiece" para competir  com a sua antecessora " Acta Est Fabula",  publicada  em sete luminosos volumes.  Este novo  magnum opus constitui um extenso Diário, escrito ao longo de décadas,  cujo primeiro volume sairá em breve, com a chancela  da  Opera Omnia. Espera-nos a singular possibilidade de uma outra aprendizagem do mundo, através do olhar perspicaz e arguto deste  ínclito escritor . Aguardamo-la, com impaciente curiosidade e indelével  regozijo.
Regressamos , hoje, ao V volume das suas Memórias, para recordarmos a  preciosa clareza e a despretensiosa erudição  que caracteriza   o discurso diarístico de Eugénio Lisboa. Com a sagacidade de  intelectual brilhante e  o encanto de  homem simples, regista, interpreta, analisa, formula e repensa  ideias e acontecimentos  que encheram os seus  dias.  



PÁGINAS DO DIÁRIO
(10.01.96 - 27.05.96)

10.01.1996, Lisboa 
"Caem toalhas de chuva sobre uma Lisboa cinzenta e tristonha. As notícias são de desastre e estragos infindáveis. Na televisão, os políticos falam com ar grave e prenhe. “Dizem coisas”, como a irmã (ou tia) Georgina, do Raul Solnado, gostava de dizer. O Jim anda atrás de mim, moendo-me a molécula. Vou dando vazão, sem grande vontade, a alguns compromissos: um prefácio, uns poemas para uma revista e umas provas que vou adiando (onde já vai o tempo em que revia provas com sofreguidão, a ver se o livro saía depressa…)
Portugal é um país pequeno, pobre, tristonho e, frequentemente, mesquinho. Onde se vê, de modo mais duro, impiedoso e desnudo, o “struggle not for life but for territory” é na administração pública. Mas é um velho enredo balzaquiano que já nem sequer me interessa observar. É antigo, gasto, ultra-mesquinho, nada estético. E tão inferior, que me humilha participar nele, mesmo involuntariamente. É os carros para os senhores directores gerais, é os carros para os gabinetes, é os carros para os motoristas e os motoristas para os carros. E há quem viva disto, para isto – nunca contra isto. Estou farto de tudo isto, não estou nisto, não estou sequer para fingir que dou importância a isto. De cada vez que há uma tomada de posse, dá-me vontade de vomitar ver ali, a arejarem a pluma, com ar de infinita importância, dúzias de indivíduos que, amanhã, depois de reformados, ninguém conhecerá e ninguém cumprimentará. A comédia humana, como tudo, gasta-se, repete-se e torna-se sem interesse. Nem para romanceco serve. A luta pelo poder (e pela visibilidade) é um tema que já deu o que tinha a dar. E quando se processa, dentro do contexto pífio de um Portugal infinitesimal e pelintra, o interesse é ainda mais reduzido. A dança das vaidades, nas salas da administração pública, nem sequer atinge a grandeza típica do grotesco: é apenas pequeninamente cocasse.
Leio um belo romance: Birdsong, de Sebastian Faulks. Mergulhado nele, esqueço Portugal e os portugueses. Esqueço-me de mim.
(…)
Ontem, à tarde, reunião com Guilherme d’Oliveira Martins, no Ministério da Educação. Estávamos presentes o embaixador Moya Ribera (embaixador junto da UNESCO, em Paris), a Dra. Maria de Lourdes Paixão, o Dr. Lopes Serrado e eu, pela Comissão Nacional da UNESCO. Falámos de projectos da Comissão para 1996, apesar da falta de dinheiro. Foi uma reunião afável e o Secretário de Estado prometeu o envolvimento e o apoio do ME.
02.02.96, Barcelona 
Há quatro dias na capital da Catalunha. Intervalo na lufa-lufa de Lisboa, onde descobri, para minha não pequena surpresa, que tenho a tensão arterial elevada (coisa que não me acontecera, até há bem pouco tempo).
A mesma impressão de há cerca de um ano: cidade bela e aprazível de largos e atraentes boulevards. E a Sara: autêntica boneca viva e inteligente. A Geninha arranjou emprego num editor de banda desenhada e desembaraça-se admiravelmente por esta Barcelona fora.
No sábado (anteontem), visita a Besalù e Figueras (terra natal de Salvador dali). Visita ao Museu Dali, por si próprio planeado, para sua maior glória. Tudo em grande, tudo à dimensão da sua megalomania e do seu incontestável génio (agudamente patológico e alienado – mas génio; ou génio, bem servido pelo agudamente patológico e alienado).
Em Besalù, no restaurante em que almoçámos, deixei, por esquecimento, duas garrafas de um magnífico vinho catalão, que ali tinha adquirido. O que nos forçou a voltar lá, depois da visita a Figueras.
Hoje de manhã, deambulação desenfastiada pelo Passeio Garcia, visita aos Happy Books, onde comprei Lorca, Galdós, Baroja, Julián Marias e Octavio Paz. De Julián Marias, uma Biografia de la Filosofia e um esplêndido La Educación Sentimental (sem falar num volume de artigos de Larra, de que já li um belo texto sobre a literatura espanhola contemporânea dele). Almoço com a Geninha e a A. e visita a uma exposição de Felix Mas, com a Sara acrescentada ao baralho. Felix Mas: uma espécie de síntese de Klimt com pré-rafaelismo. Sedutor, belo, levitantemente subtil, mas só inovador à rebours: porque, hoje, mais ninguém faz daquilo, fazê-lo é infringir, logo, é andar em frente como quem recua…
A Larra, como a Unamuno, doía-lhe a Espanha. A mim, dói-me Portugal e Moçambique. Mas suspeito que a dor deles era em grande: era uma dor em dimensão que os engrandecia. A minha é mesquinha e humilha-me. Saio dela, mais pequeno, mais avinagrado e mais estragado. Não é, em suma, um sofrimento redentor. É um sofrimento morto. Como o das irmãs religiosas do Port-Royal, de Montherlant.
Enquanto a Sara toma banho (benho, como ela diz, na sua pronunciazita deliciosamente distorcida), oiço sonatas de Beethoven, para violoncelo, escrevo estas notas e vou regressar à Educación Sentimental, do Marias. Como é bom ler esta prosa de ideias, cuja vocação visível é a profundidade e a clareza. Nas mãos de um ensaísta português, toda esta riqueza, abundância e sedução dariam em pretensiosismo, confusão e bagunça.

07.02.96, Barcelona 
A nossa visita chega ao fim. Regressamos amanhã a Lisboa e mal chegado, rumarei para o Porto.
Visitámos ontem o novo Museu de Arte Contemporânea (disse, brincando, que era um Museu de Arte Extremamente Contemporânea). A arquitectura é belíssima, limpa, escorreita, de uma simplicidade genial. O conteúdo… Apetece-me, sobretudo, sublinhar uma obra impressionante de Kieffer, que já em Washington me captara o olho e a imaginação. Construtor de apocalipses? Ou apenas reflector (em avanço) dos apocalipses que se avizinham?
De resto, tem sido tudo preguiça, ramblanços e Sara. E pouco mais.
No dia em que chegámos a Barcelona, cruzei-me, na rua, com o Fernando Pessoa. Ou era ele ou era um duplo. Mas acho que era ele.
Num livro de Francisco Umbral, que hoje comprei, num texto dedicado a Ruben Dario, o autor diz, deste, que vivia “congestionado de transcendência”. O mesmo se poderia dizer de Pascoaes, mas acho que muito menos de Pessoa. Pessoa vivia tolhido de “estranheza”, mas não de “transcendência”. Sá-Carneiro, sim. Régio, sim. Fernando Pessoa, duvido. [2015: Régio, sim, disse eu, embora não vivesse exclusivamente de transcendência: havia, nele, “mais mundos”].
Ortega y Gasset a Julián Marias: “Unamuno para usted es un tema. Para mi es un problema.” Muito do discurso literário português é, para mim, mais um problema do que um tema.
10.02.96, Porto (Matosinhos) 
Aqui desde anteontem. O simpósio sobre o neo-realismo começou ontem. Tem sido divertido. Depois de duas interessantes exposições, uma de António Pedro Pitta  (sobre a reflexão estética de João José Cochofel), outra de Rosa Maria Martelo (sobre João José Cochofel e Carlos de Oliveira), intervim, para dizer – um tanto à laia de provocação, mas não só – que, ao lermos os teóricos mais inteligentes e articulados do neo-realismo (Cochofel, Dionísio) e da presença (Régio), afigura-se-me que o conflito entre ambos os movimentos não é assim tão grande. A música que se ouve [nos melhores textos de uns e dos outros] é muitas vezes a mesma. Como Rosa Maria Martelo se referisse à poesia da presença em termos de uma poesia ocupada com o “transcendente”, tive que lhe observar que isso não era bem assim. Que muita da poesia da presença nada tinha que ver com o transcendente e que, mesmo na de Régio, havia “mais mundos”. De resto, era ver como a Igreja, pela pena de Manuel Antunes, “virara”, na atitude tomada com Régio, a partir de A Chaga do Lado: a violência da sátira regiana aos poderes deste mundo (incluindo o da Igreja Católica) tirou, para sempre, aos que tentavam “apanhá-lo”, quaisquer ilusões a esse respeito. [2014: Poderia, nessa altura, ter acrescentado que toda a obra ficcional de Régio estava cheia de observações sobre a vida bem terrena – nada transcendente – de um grande número de personagens masculinos e femininos; e que a sua poesia, repito, nem só de transcendência se alimentava…]
O curioso é que Alexandre Pinheiro Torres me apoiou e Eduardo Lourenço se levantou para, enfaticamente, me contradizer: nada de casamentos póstumos entre a presença e o neo-realismo. O que levou o Alexandre, não sem humor, a responder-lhe que me dava a mim razão, até porque o casamento fora ântumo e não póstumo… O que era, exactamente, o meu ponto. [2014: Nesta altura do prélio, houve um outro incidente curioso, que, na altura, aqui não registei. Já não sei bem quando, “meti-me” com um conceito do Eduardo Prado Coelho, que falava no “imaginário do neo-realismo” (o “imaginário” era, por então, a tarte-à-la-crème do discurso crítico lusíada, em clássica importação de França…) Nesta altura do campeonato, era obrigatório, em conferência ou conversa, falar-se, irreflectidamente, de “imaginário”: imaginário marxista, imaginário capitalista, imaginário presencista, estadonovista e por aí fora. Eu observei, perfidamente, que talvez fosse mais correcto falar-se no “ideário marxista” ou no “ideário neo-realista”, visto que era de ideias e não de imagens que se tratava… O Eduardo Lourenço ficou visivelmente furioso, mas teve a lisura de não responder…]
O Pedro Calheiros veio dizer-me que as Letras da Universidade de Aveiro aprovavam, por unanimidade, a minha nomeação, ou para Professor Visitante ou Professor Convidado. Vamos agora ver as burocracias. Se assim for, estou tentado a mandar às ortigas a Comissão Nacional da UNESCO. [2014: O que se passara fora isto. Pouco antes, eu fora a Aveiro, fazer uma comunicação sobre “as duas culturas”, integrada num colóquio participado por cientistas portugueses residentes (ou tendo residido) no estrangeiro. Estava presente o reitor, Professor Júlio Pedrosa, que, depois de me ter ouvido, me enviou um convite para leccionar na Universidade de Aveiro, como Professor Catedrático (Visitante ou Convidado). Depois de pensar algum tempo, resolvi aceitar.]"
Eugénio Lisboa, in  Acta Est Fabula, Memórias V - Regresso a Portugal (1995-2015), Editora Opera Omnia, pp. 55, 56,57,58,59

terça-feira, 16 de outubro de 2018

O Livro


Felicidade Clandestina
Por  Clarice Lispector
"Ela era gorda, baixa, sardenta e de cabelos excessivamente crespos, meio arruivados. Tinha um busto enorme, enquanto nós todas ainda éramos achatadas. Como se não bastasse enchia os dois bolsos da blusa, por cima do busto, com balas. Mas possuía o que qualquer criança devoradora de histórias gostaria de ter: um pai dono de livraria.
Pouco aproveitava. E nós menos ainda: até para aniversário, em vez de pelo menos um livrinho barato, ela nos entregava em mãos um cartão-postal da loja do pai. Ainda por cima era de paisagem do Recife mesmo, onde morávamos, com suas pontes mais do que vistas. Atrás escrevia com letra bordadíssima palavras como “data natalícia” e “saudade”.
Mas que talento tinha para a crueldade. Ela toda era pura vingança, chupando balas com barulho. Como essa menina devia nos odiar, nós que éramos imperdoavelmente bonitinhas, esguias, altinhas, de cabelos livres. Comigo exerceu com calma ferocidade o seu sadismo. Na minha ânsia de ler, eu nem notava as humilhações a que ela me submetia: continuava a implorar-lhe emprestados os livros que ela não lia.
Até que veio para ela o magno dia de começar a exercer sobre mim uma tortura chinesa. Como casualmente, informou-me que possuía As reinações de Narizinho, de Monteiro Lobato.
Era um livro grosso, meu Deus, era um livro para se ficar vivendo com ele, comendo-o, dormindo-o. E completamente acima de minhas posses. Disse-me que eu passasse pela sua casa no dia seguinte e que ela o emprestaria.
Até o dia seguinte eu me transformei na própria esperança da alegria: eu não vivia, eu nadava devagar num mar suave, as ondas me levavam e me traziam.
No dia seguinte fui à sua casa, literalmente correndo. Ela não morava num sobrado como eu, e sim numa casa. Não me mandou entrar. Olhando bem para meus olhos, disse-me que havia emprestado o livro a outra menina, e que eu voltasse no dia seguinte para buscá-lo. Boquiaberta, saí devagar, mas em breve a esperança de novo me tomava toda e eu recomeçava na rua a andar pulando, que era o meu modo estranho de andar pelas ruas de Recife. Dessa vez nem caí: guiava-me a promessa do livro, o dia seguinte viria, os dias seguintes seriam mais tarde a minha vida inteira, o amor pelo mundo me esperava, andei pulando pelas ruas como sempre e não caí nenhuma vez.
Mas não ficou simplesmente nisso. O plano secreto da filha do dono de livraria era tranquilo e diabólico. No dia seguinte lá estava eu à porta de sua casa, com um sorriso e o coração batendo. Para ouvir a resposta calma: o livro ainda não estava em seu poder, que eu voltasse no dia seguinte. Mal sabia eu como mais tarde, no decorrer da vida, o drama do “dia seguinte” com ela ia se repetir com meu coração batendo.
E assim continuou. Quanto tempo? Não sei. Ela sabia que era tempo indefinido, enquanto o fel não escorresse todo de seu corpo grosso. Eu já começara a adivinhar que ela me escolhera para eu sofrer, às vezes adivinho. Mas, adivinhando mesmo, às vezes aceito: como se quem quer me fazer sofrer esteja precisando danadamente que eu sofra.
Quanto tempo? Eu ia diariamente à sua casa, sem faltar um dia sequer. Às vezes ela dizia: pois o livro esteve comigo ontem de tarde, mas você só veio de manhã, de modo que o emprestei a outra menina. E eu, que não era dada a olheiras, sentia as olheiras se cavando sob os meus olhos espantados.
Até que um dia, quando eu estava à porta de sua casa, ouvindo humilde e silenciosa a sua recusa, apareceu sua mãe. Ela devia estar estranhando a aparição muda e diária daquela menina à porta de sua casa. Pediu explicações a nós duas. Houve uma confusão silenciosa, entrecortada de palavras pouco elucidativas. A senhora achava cada vez mais estranho o facto de não estar entendendo. Até que essa mãe boa entendeu. Voltou-se para a filha e com enorme surpresa exclamou: mas este livro nunca saiu daqui de casa e você nem quis ler!
E o pior para essa mulher não era a descoberta do que acontecia. Devia ser a descoberta horrorizada da filha que tinha. Ela nos espiava em silêncio: a potência de perversidade de sua filha desconhecida e a menina loura em pé à porta, exausta, ao vento das ruas de Recife. Foi então que, finalmente se refazendo, disse firme e calma para a filha: você vai emprestar o livro agora mesmo. E para mim: “E você fica com o livro por quanto tempo quiser. ”Entendem? Valia mais do que me dar o livro: pelo tempo que eu quisesse ” é tudo o que uma pessoa, grande ou pequena, pode ter a ousadia de querer.
Como contar o que se seguiu? Eu estava estonteada, e assim recebi o livro na mão. Acho que eu não disse nada. Peguei o livro. Não, não saí pulando como sempre. Saí andando bem devagar. Sei que segurava o livro grosso com as duas mãos, comprimindo-o contra o peito. Quanto tempo levei até chegar em casa, também pouco importa. Meu peito estava quente, meu coração pensativo.
Chegando em casa, não comecei a ler. Fingia que não o tinha, só para depois ter o susto de o ter. Horas depois abri-o, li algumas linhas maravilhosas, fechei-o de novo, fui passear pela casa, adiei ainda mais indo comer pão com manteiga, fingi que não sabia onde guardara o livro, achava-o, abria-o por alguns instantes. Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade. A felicidade sempre iria ser clandestina para mim. Parece que eu já pressentia. Como demorei! Eu vivia no ar… havia orgulho e pudor em mim. Eu era uma rainha delicada.
Às vezes sentava-me na rede, balançando-me com o livro aberto no colo, sem tocá-lo, em êxtase puríssimo.
Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com o seu amante."
Clarice Lispector, in Todos os Contos, Relógo D’Água Editores, Março de 2016, pp. 321,322,323

domingo, 14 de outubro de 2018

Ao Domingo Há Música

                  A minha coroa está no meu coração, não na minha cabeça,
                  Não a enfeitam diamantes nem pedras indianas,
                 Nem é para ser vista; a minha coroa chama-se contentamento;
                 É uma coroa de que raramente os reis desfrutam.
                                         Shakespeare, O rei Henrique VI

Haverá contentamento maior? Eis a questão que decorre do registo musical  que se apresenta. A resposta está no ar e no coração de cada um de nós.

Andrea Bocelli e  Matteo Bocelli, em  Fall On Me. Canção com Letra de Ian Axel ,  Chad Vaccarino , Matteo Bocelli e  Fortunato Zampaglion e com Música de Ian Axel e Chad Vaccarino.


Fall on me

I thought sooner or later the lights up above
Will come down in circles and guide me to love
But I don't know what’s right for me, I cannot see straight
I've been here too long and I don't want to wait for it
Fly like a cannonball, straight to my soul
Tear me to pieces and make me feel whole
I’m willing to fight for it and carry this weight
But with every step, I keep questioning what it's true

Fall on me
With open arms
Fall on me
From where you are
Fall on me
With all your life
With all your life
With all your life

Presto una luce ti illuminerà
Seguila sempre, guidarti saprà
Tu non arrenderti, attento a non perderti
E il tuo passato avrà senso per te
Vorrei che credessi in te stesso, ma sì
In ogni passo che muoverai qui
È un viaggio infinito, sorriderò se
Nel tempo che fugge mi porti con te

Fall on me
Ascoltami
Fall on me
Abbracciami
Fall on me
Finché vorrai
Finché vorrai
Finché vorrai
Finché vorrai

I close my eyes
And I'm seeing you everywhere
I step outside
It's like I'm breathing you in the air
I can feel you're there

Fall on me
Ascoltami
Fall on me
Abbracciami
Fall on me
With all your life
With all your life
With all your light
Ian Axel ,  Chad Vaccarino , Matteo Bocelli e  Fortunato Zampaglion

sábado, 13 de outubro de 2018

Atlas

Jorge Luís Borges
Saborear a consciência dos detalhes
Por  Diogo Vaz Pinto
"Das viagens que fez na companhia de María Kodama, Borges compôs um livro de epílogos. São breves apontamentos finais e poemas que o génio memorioso quis salvar do esquecimento, essa “frágil substância de que é feito o universo”Não se rasga impunemente uma página de um livro de Borges, ainda que este seja “Atlas”, o breve volume publicado dois anos antes da sua morte, e onde se recolhem os textos escritos ao longo de uma década, nas viagens que fez na companhia de María Kodama, dependendo dela para lhe contar o que poderia ver se não estivesse já cego. Não se rasga uma ou, então, rasgam-se todas estas páginas. Para as levar nos bolsos, como esses que catam singelos amuletos por toda a parte, jóias trabalhadas demoradamente pela nossa estima, e que são dispersadas com o mesmo cuidado; folhas oferecidas, deixadas na cama sempre desfeita dos desventurados quartos de hotel ou do acaso. É um livro de quem soube tornar-se “digno do sabor de cada dia”, a colecção de anéis arrancados aos dedos de uma mão funesta. Rasando o silêncio, se esta doce súmula perpetuando o encanto que se sente diante do desconhecido tem encalhado num certo menosprezo, isso explica-se menos pela tentativa de entretecer um livro “sabiamente caótico”, do que pelo desânimo desses leitores que chegam sempre tardiamente a Borges, e insistem em encará-lo como um gigante da literatura, falhando em perceber que, se alcançou tamanho prestígio, o fez como o mestre de um fôlego miniaturista, um autor que soube conter as tradições sob o foco do seu microscópio, como aponta Ricardo Piglia.
Como a garrafa de bolso que serve de escudo a esses que andam pelo inferno maninho dos dias, cozendo aos goles a febre que têm por alma, este livro que, por facilidade, foi descrito como um testamento a quatro mãos, recolhe textos decididamente ‘menores’ do autor, mas é desses, precisamente, que tantas vezes os caçadores de tesouros tiram um lucro maior. Buscando neles as grandes afirmações, como diz Jorge Carrión, essas notas de rodapé que mudam o rumo dentro de uma noção que tínhamos antes como certa, e já se desflora numa nova e pregnante dúvida.
Mal se percebe o trabalho, a impressiva firmeza destas anotações, na sua cadência, no efeito culminante das suas sentenças, lembranças, o vício clássico de Borges, esse fascinante apuro de toda uma vida lidando de forma “um pouco delirante com os materiais culturais”. Acompanhados das belas fotografias de Kodama, estas anotações mostram exemplarmente o que notou Piglia a propósito do anti-intelectualismo deste autor: “Em Borges a erudição funciona como sintaxe, é um modo de dar forma aos textos.”
Num texto sobre as ilhas do Tigre, “um secreto arquipélago de verdes ilhas que se afastam e perdem nas duvidosas águas de um rio tão lento que a literatura pôde chamar-lhe imóvel”, Borges recorda que foi numa delas - qual ao certo, não sabe -, que Leopoldo Lugones, outro expoente do conto argentino que muito admirava e que tanto fez por divulgar, se matou. E a morte é vista como um destino por Borges, que escolheu Genebra, onde passou alguns anos na sua juventude, para beijar uma última vez a felicidade e ali morrer. De Lugones diz-nos que “terá sentido, talvez pela primeira vez na sua vida, que estava livre, enfim, do misterioso dever de procurar metáforas, adjectivos e verbos para todas as coisas do mundo”.
Pressente-se neste momento que Borges sente também essa proximidade libertadora do fim, do derradeiro ponto final. Assim, como a visão daquele último lobo de Inglaterra que, sem saber que o faz em vão, “procura a fêmea e sente frio”, também Borges nos surge como uma sombra que está só, alguém que “na ausência do amor, se entregou à amizade”, e que escolheu Kodama como a grande amiga do seu ponto final, depois dos amigos de juventude, como Jacobo Sureda, Simon Jichlinski e Maurice Abramowicz, com quem compartilhou as viagens ao fim da noite, os bordeis, o álcool e as vanguardas, depois de Bioy Casares, que “foi o grande amigo do génio irónico, do Borges que importa”, escreve Carrión. Escolheu María Kodama, uma das suas alunas das aulas de anglo-saxão, que, nos anos 60, começou a acompanhá-lo em viagens e se tornou sua secretária antes de, em abril de 1986, menos de dois meses antes da sua morte, ter sido emitida in absentia a certidão de casamento por um presidente da Câmara de uma pequena cidade Paraguaia.
No doloroso poema que dedica ao lobo, Borges diz-nos: “Não basta ser cruel. Tu és o último.” “Furtivo e pardo na penumbra última,/ vai deixando o seu rasto sobre a margem/ deste rio sem nome que saciou/ a sede da garganta e cujas águas/ já não reflectem estrelas.”
Voltando ao texto sobre as ilhas que havia descoberto primeiro nos livros de Conrad, Borges lembra-se de Horácio, “que continua a ser para mim o mais misterioso dos poetas, pois as suas estrofes cessam e não terminam, e além disso são desconexas”. E como se antecipasse o desdém que um livro como este “Atlas” poderia despertar nos habituais leitores das suas intricadas e labirínticas ficções, adianta: “Não é impossível que a sua mente clássica se abstivesse deliberadamente da ênfase.” E como se o espelho que lhe permite deter as feições de Horácio lhe devolvesse um olhar perscrutador, o argentino deixa-nos esta reveladora nota de rodapé sobre a sua própria obra: “Releio o que escrevi e comprovo com uma espécie de agridoce melancolia que todas as coisas do mundo me levam a uma citação ou a um livro.”
Se os recenseadores profissionais sempre tiram proveito da facilidade de cozinhar previsíveis inventários a partir das fixações de Borges, temperando desse modo algumas das poucas linhas que têm e com que sempre se desculpam da inanidade dos seus juízos, seria certamente mais produtivo perceber os motivos que levaram Borges, numa nota carregada de ironia, a descrever-se como um homem semi-instruído.
Para se ir mais fundo na apreciação deste autor, não só é importante perceber, como sublinha Piglia, que Borges exaspera e leva ao limite, quase à irrisão, o uso que faz da cultura, e o converte em puro procedimento. É preciso ler mais vezes um texto como “O beco de Bollini”, que pode passar despercebido na leitura de “Atlas”, entre aqueles dedicados a Istambul, Veneza, o labirinto de Creta, uma viagem de balão entre as nuvens da Califórnia, um encontro com um tigre verdadeiro... Um texto cujo propósito parece ser o de corrigir os erros de perspetiva que nos causa essa familiaridade que a modernidade trouxe com as narrativas grandiosas, de uma escala quase desumana, e que pretendem ver ao longe, dar-nos vastidões e traçar largos quadros históricos, mas que sempre falham no detalhe. “Contemporâneos do revólver, da espingarda e das misteriosas armas atómicas, contemporâneos das imensas guerras mundiais, da Guerra do Vietname e da do Líbano, sentimos a nostalgia das modestas e secretas pelejas que aqui se passaram por volta de mil e oitocentos e noventa e tal a uns passos do Hotel Rivadavia. À zona entre as traseiras do cemitério e o amarelo paredão da cadeia chamava-se às vezes a Terra do Fogo; as pessoas daquele bairro escolhiam (contam-nos) este beco para os duelos à facada. Isso talvez acontecesse uma vez, mas logo se terá dito que foram muitas. Não havia testemunhas, excepto talvez algum observador curioso que repararia e apreciaria as idas e vindas das lâminas (...)”
Depois de dotar o verosímil quadro de mais algumas particularidades, Borges encerra o texto com esta longa e elegante frase: “Fosse como fosse, é agradável estar nesta casa, de noite, sob os altos céus rasos, e saber que lá fora estão as casas baixas que ainda restam, os hoje ausentes bairros pobres e os terreiros e as talvez apócrifas sombras dessa pobre mitologia.”
É uma despedida, mais uma, num livro de viagens que, afinal, se faz menos de descobertas do que de últimos encontros, mesmo que, por algum acaso, o princípio e o fim coincidam, como acontece quando Borges e Kodama visitam o poeta Robert Graves moribundo, em Maiorca. Depois de permanecerem em silêncio durante todo o encontro, à saída da porta do jardim ouvem gritar: “Têm de voltar! Isto aqui é o Céu!” E voltaram um ano depois, encontrando o poeta a ser alimentado por uma colher enquanto, à volta, “todos estavam muito tristes à espera do fim”. Borges diz que isto aconteceu em 1981, e da segunda vez em 1982, e adianta a seguinte nota: “Sei que as datas que indiquei são para ele um só instante eterno.”
Nestas páginas, Borges parece sugerir que toda a cultura que maneja na sua obra, as referências e alusões, citações e livros, nunca foram outra coisa que a tentativa de recuperar uma distância íntima, e por isso nos diz no prólogo que “não há um só homem que não seja um descobridor” - “Começa por descobrir o amargo, o salgado, o côncavo, o liso, o áspero, as sete cores do arco-íris e as vinte e tal letras do alfabeto; passa pelos rostos, os mapas, os animais e os astros; conclui pela dúvida ou pela fé e pela certeza quase total da sua própria ignorância.” E, nisto, com maior ou menor génio, aquilo de que nenhum homem abdica é de deixar a sua marca, o monumento breve do seu espanto no decurso da sua residência na Terra.
Para fechar, neste ponto, podemos servir-nos da leitura do escritor argentino Alan Pauls, em “El factor Borges”, dando-se conta de como “na obra de Borges abundam esses personagens subalternos, algo obscuros, que, como sombras, seguem o rastro de uma obra ou um personagem mais luminosos. Tradutores, exegetas, anotadores de textos sagrados, interpretes, bibliotecários...”  E, considerando isto, vinca como “Borges define uma autêntica ética da subordinação. Para concluir: “Ser uma nota de rodapé que é a vida de outro: não é essa vocação parasitária, ao mesmo tempo irritante e admirável, mesquinha e radical, a que prevalece quase sempre nas melhores ficções de Borges?” Diogo Vaz Pinto, Jornal i ,04.10.2018

sexta-feira, 12 de outubro de 2018

Literatura e cinema

Ces romans , quel cinéma!
Le 31 Août 2018, La République des Livres
"Nul besoin d’être gardnerologue pour savourer Les nuits d’Ava (304 pages, 20 euros, Actes sud) de Thierry Froger puisque ce n’est ni un biopic ni une biographie. Ava Gardner n’est qu’un prétexte pour exprimer bien d’autres choses. C’était un peu la démarche de Laurent Binet avec HhHhh dans lequel le narrateur parlait autant de son passion pour Prague, pour sa petite amie etc que de l’assassinat du gauleiter Heydrich par deux résistants tchèques venus de Londres, le « sujet ». Bref rappel du détail de l’existence de Gardner qui sert de fil d’Ava : un jour à Rome en août 1958, en marge du tournage de La Maja nue, navet américano-franco-italien d’Henry Koster dans lequel elle s’ennuyait à jouer la duchesse d’Albe, modèle et maitresse de Goya, elle a posé nue pour le chef opérateur Giuseppe Rotunno (qui deviendra le directeur de la photographie attitré de Visconti et Fellini), leur projet étant de reproduire en photo quatre tableaux célèbres (La maja desnuda, bien sûr, mais aussi l’Origine du mondeetc). Ava Gardner nue à 36 ans…
Elle a déjà derrière elle le chef d’œuvre d’Albert Lewin Pandora, Les Neiges du Kilimandjaro, Mogambo, La Comtesse aux pieds nus, Le Soleil se lève aussi… Une filmographie déjà bien fournie, et une réputation tout aussi établie de fêtarde, couche-tard, séductrice « aimant beaucoup mais jamais raisonnablement », d’alcoolique aussi qu’elle pondèrera :
« Lorsque je buvais, c’étaient les effets de l’alcool que je recherchais. De tous les verres que j’ai bus, je ne me rappelle pas avoir pris plaisir à un seul. La seule raison qui me faisait boire était l’envie de surmonter ma timidité »écrivit-elle dans ses Mémoires (1990).
Une femme hantée par le désespoir et dominée par la fatalité a pu dire d’elle George Cukor, avant d’ajouter un mot qui lui alla droit au cœur, comme le plus beau des compliments :
« Ava, c’est un monsieur »
Le narrateur des Nuits d’Ava du nom de Jacques-Pierre (toute ressemblance avec un critique et écrivain français connu ne serait que pure coïncidence encore que, Rome…) se met en quête de retrouver ces clichés légendaires dont beaucoup parlent sans les avoir vus. L’Histoire vraie l’intéresse moins que les histoires. Il faut espérer que les historiens du cinéma ne comptent pas sur lui car il n’obéit qu’à sa fantaisie et à ses rêves de chercheur sans contrainte. Cette quête d’un fantasme est une ode aux images, surtout lorsqu’elles sont fantomatiques et suscitent des apparitions. Poursuite d’une inaccessible étoile, elle est imprégnée de ce que Pascal Quignard a écrit sur l’image que l’on ne verra jamais car elle manque à la source, celle de notre origine, de notre conception (voir Sur l’image qui manque à nos jours, Arléa, 2014). Et rien n’est stimulant pour un esprit curieux que l’image manquante (ce n’est pas Rithy Panh qui nous démentira, lui qui en a fait le titre et l’argument de son époustouflant documentaire sur le génocide khmère). Le narrateur craint de la voir autant qu’il la désire. Quel rapport entretient-on avec les images lorsqu’on est soi-même une icône ? Plus que jamais avec Les nuits d’Ava, il y a ce que raconte un roman et ce qu’il dit d’autre que ce qu’il raconte. Et là, c’est beaucoup, partout, grâce à une écriture aussi fluide que trépidante, avec de temps en temps avec des envolées inouïes sur l’amour, la perte, le cinéma, la dolce vita, les stars… Ca m’a emporté, emballé car j’oubliais l’essentiel : c’est vraiment très drôle.
Le livre de Jean-Marc Parisis Un Problème avec la beauté (268 pages, Fayard) est lui aussi plein d’humour, construit autour d’une icône du cinéma et de sa beauté. Mais c’est une prouesse car l’absence d’humour et de sens du second degré est le grand défaut de son héros. Là non plus, pas de malentendu, il ne s’agit en rien d’une biographie. Plutôt un récit qui tend vers le portrait, épatant car le ton est juste, celui d’un Gabin qui raconterait un polar au galop, sans trainer en route. Le titre annonce la couleur, mais le livre vaut beaucoup plus que cela car le personnage est passionnant. Par son itinéraire, par sa carrière, par la richesse de sa filmographie.
Par moments, en lisant ce récit, on a l’étrange sensation d’entendre le critique François Chalais dans l’une de ses fameuses interviews télévisées. Question de rythme dans la voix, de goût de la formule, de dilection pour les raccourcis. Cela nous vaut nombre d’anecdotes mais qui n’ont rien d’anecdotiques car jamais gratuites, et ne l’empêche pas, par exemple, de comparer la gamme chromatique du noir et blanc en couleurs chez Melville et chez Losey. On se souviendra qu’en 1976, le palmarès du Festival de Cannes a ignoré M. Klein de Joseph Losey, grand film que nul ne voulait se risquer à produire et que Delon a personnellement financé tant il y croyait. Il a trop souvent été jugé sur des attendus extracinématographiques alors que seul l’acteur compte. Lui-même le dit souvent : vous pouvez critiquer et moquer l’homme tant vous voulez mais l’acteur, lui, est incontestable (acteur pas comédien, il y tient bien qu’il se soit aussi promené sur les planches). Ce qui n’est pas faux dès lors que l’on met de côté les nanars de sa dernière période où il se dirigeait lui-même, le réalisateur commis eut-il réalisé à temps le caractère fictif de son propre emploi. D’un côté la marionnette d’Alain Deloin qui parle de lui à la troisième personne tel un Van Damme sans l’autodérision, de l’autre Tom Ripley, Rocco Parondi, Françis Verlot, Tancrède Falconeri, Guillaume de Saint-Preux, Jacques Chaban-Delmas, le capitaine Philippe Esclavier, Manu Borelli, Jef Costello, Jean-Paul Leroy, Roger Sartet, Corey, Ramon Mercader, Robert Klein, Pierre Niox, Alain Delon…
Pas le genre Actor’s studio, Delon. Plutôt du genre à apprendre sur tas. Et encore… Il aura suivi toute sa vie le conseil donné par Yves Allégret :
« Parle comme tu me parles. Regarde comme tu me regardes. Écoute comme tu m’écoutes. Ne joue pas, vis » »
Nature à l’écran comme dans la vie. Il faut le voir déambuler il y a peu dans les rues de Palerme au bras de Léa Salamé pas encore touchée par la grâce hulotienne, puis sous les lambris du palais Gangi ressuscitant par son émerveillement les fastes du bal du Guépard cinquante trois ans après ,le voir et l’écouter s’exclamer : « Putain, que c’est beau ! ». Il a une telle nostalgie du monde d’avant qu’on se demande s’il ne compte pas encore en anciens francs. Nul doute que, contrairement à nombre d’intellectuels, lui n’aura aucun complexe à dire que c’était mieux avant. Son itinéraire d’enfant pas gâté, du tablier de l’apprenti-charcutier de Bourg-la-Reine à la silhouette sanglée dans le Trench Old England du Clan des siciliens, vaut le détour car Parisis en fait un récit épatant.
Tout cela est évoqué par sauts et gambades et aussi la rivalité avec Belmondo, le refus du maquillage à l’écran, les mauvaises manières de la presse, les rumeurs, la pègre, les voyous, les voitures de sport devenues vintage avec le temps, les femmes, surtout Romy Schneider, à qui un lien indéfectible, secret, puissant l’attacha jusqu’à son suicide. Cette histoire-là, la leur, si quelqu’un l’écrivait, il faudrait la lire en écoutant Delon’s Blues composé et joué par Jimmy Smith à l’orgue Hammond…
Un scorpion, destructeur, et surtout un homme aux colères irrépressibles. De ce côté-là, ca ne s’est pas arrangé même si ça s’est banalisé en colère permanente contre la connerie généralisée (les occasions ne manquent pas), l’état du monde, l’absurdité des décisions politiques, la société lorsqu’elle marche sur la tête. Quand on prend cette pente, on finit par vivre loin des hommes, dans la compagnie des animaux. Ce qu’il fait. Maintenant et pour l’éternité : sa chapelle funéraire l’attend dans sa propriété de 55 ha aux côtés du cimetière privé où il a enterré ses trente-cinq chiens.
C’est avant tout un solitaire étant entendu que sa solitude relève de l’amitié de soi avec soi-même, et que demeurer seul est l’unique moyen de n’être jamais trahi. Un taiseux. Comme dans Le Samouraï. François Mauriac l’avait tôt compris en écrivant dans son Bloc-notes :
« Alain Delon ne parle jamais aussi bien que quand il se tait ».
D’autres, habitués aux vacheries du sus-nommé, y ont vu un sarcasme alors que c’était un compliment. C’est ce qu’il préfère en lisant les scénarios qu’on lui propose : quand ses dialogues sont réduits a minima. Ca tombe bien car pour Parisis, tout Delon est réfugié dans ses yeux (d’ailleurs, son livre est sous-titré « Delon dans les yeux »). Un certain regard. Ce qui le gouverne et le reflète le mieux, plus encore que le corps, la gestuelle, la démarche. Les metteurs en scène l’ont bien compris qui ne lui ont jamais marchandé les plans serrés. Pas que pour le bleu. Moins une question de couleur que d’intensité, Visconti l’avait bien compris dès Rocco et ses frères en noir et blanc.
Quelques reproches tout de même à ce livre si entrainant. L’évocation de l’affaire Markovic, fait divers sans grand intérêt dont la presse a fait une montagne en faisant monter la mayonnaise politique, prend trop de place, trop de pages, et ce n’était pas du cinéma ou alors du mauvais, quand l’analyse des grands films est réduite, elle, au minimum syndical. D’autre part, Parisis n’insiste pas assez sur l’engagement volontaire à 17 ans dans la marine nationale et dans la guerre d’Indochine : du propre aveu de Delon, c’est là qu’il est né à 20 ans, qu’il a tout appris de la vie et il n’en est jamais sorti. Cela dit, Un problème avec la beauté, je l’ai lu d’un trait.

Pas le cas de Série noire (176 pages, Pol) de Bertrand Schefer. Ce n’est pas une question d’écriture mais de conception. En fait, je n’ai toujours pas bien compris de quoi il s’agissait dans ce roman qui démarre sur le cinéma (ce qui m’avait attiré de prime abord) et se poursuit par une intrigue autour du kidnapping du petit Eric Peugeot, issu de la dynastie automobile bien connue, inspiré par Rapt, un titre de la Noire chez Gallimard époque Marcel Duhamel, je suppose. Entre les deux se noue une idylle entre un escroc de faible envergure et une jeune danoise candidate au titre de Miss Monde. A la toute fin, on comprend (enfin, c’est beaucoup dire) que ladite danoise s’est mariée avec un certain Schaefer, presque l’auteur –ça me rappelle une irrésistible brève de comptoir dans laquelle un leveur de coude disait :

« Proust, dommage qu’il y ait ce « u » : à une lettre près, il aurait été célèbre »…
Pour ce qui est du cinéma, l’histoire s’ouvre au XIIIème festival de Cannes. Un temps où, d’année en année, la moitié du jury était constitué d’écrivains : Achard, Genevoix, Paulhan, Giono etc C’était en 1960. Georges Simenon était président du jury, Henry Miller membre, tout s’annonçait bien avec l’ouverture en fanfare grâce à Ben-Hur. Mais l’auteur fait grand cas du scandale déclenché par la voix caverneuse de l’acteur Alain Cuny, outré que L’Avventura, son réalisateur Antonioni et son actrice Monica Vitti aient été sifflés, hués, conspués, injuriés, et que le chanteur Dario Moreno « ce pitre ! » se soit produit dans le temple du cinéma. Les délices de Cannes…
Mais enfin, Anna Karina passe par là et aussi un certain Simy Assouline, ou plutôt une certaine, là aussi ce n’est pas très clair. C’est plein de bagnoles de l’époque, comme chez Jean-Marc Parisis avec Alain Delon : Thunderbird, Impala, Studebaker, Dauphine, DS, 403, 404, berline, coupé, cabriolet ! Ici une scène d’A bout de souffle, là une autre de Cléo de 5 à 7. Plus loin un portrait de la danoise où il est dit qu’elle ressemble à Corinne Marchand dans le film d’Agnès Varda, mais à quoi celle-ci pouvait bien ressembler. Voilà ce qu’on appelle de la cinéphilie pour happy few.  Tout cela n’a rien d’antipathique. C’est juste que l’on ne voit pas où ça mène. Ah oui, le rapt du petit Peugeot tandis que la plus belle fille du Danemark se balade au bras de l’homme le plus recherché de France et qu’Alain Cuny laisse éclater sa colère pour défendre L’Avventura, ce qui, avec le recul, n’est pas très raccord car l’évènement du festival, ce fut l’audace du jury et de son président, dont le roman Lettre à mon juge (1947), qu’il tient en haute estime (ce n’est pas moi qui le démentirais) entrerait en résonance selon Bertrand Schefer avec L’Avventura, des jurés donc, contre le professionnels de la profession, osèrent couronner La Dolce vita de Fellini.
Vers la fin, l’auteur offre une clé (enfin…) :
Notre enquête se tient sur un seuil où l’on est mal à l’aise. Qui nous fait dire aujourd’hui ce n’est rien, nous en avons vu tellement davantage depuis, de plus rouge, noir, de plus certainement innommable. Nous avons même oublié tout ce que nous avons vu et ingurgité de faits réels et divers, horribles, qui nourrissaient on ne sait plus bien quoi, lorsqu’on s’est mis à parler de fiction, de réalité, à tour de bras, sans savoir ce qu’on disait, pour nous empêcher de voir, de penser, mélangeant tout, plus malléables désormais que nous étions devenus. Notre enquête porte sur cet oubli-là, sur des figures destinées à l’oubli, effaces par un temps qui, s’il n’est pas dans la nuit de l’histoire, est dans un clair-obscur, ou mi-ombre mi-lumière, comme ne sachant pas, ne parvenant pas à se déterminer. Ce sera donc aussi l’histoire de la disparition d’un événement.
Là, tout s’explique, même si c’est un peu tard. Série noire n’est pas en soi un mauvais livre. C’est juste qu’il m’est apparu confus. Au fond, j’en veux surtout à Schefer de présenter Simenon comme « le plus véritable des auteurs de romans policiers », cliché qui a la vie dure : les enquêtes de Maigret, dont l’écriture était sa récréation, ne représentent qu’un tiers de son œuvre !
(« Ava Gardner dans La Comtesse aux pieds nus de Joseph Mankiewicz ; « Alain Delon avec Monica Vitti dans L’Eclipse d’Antonioni » ; « Simenon et Fellini au festival de Cannes en 1960 » photos D.R.)" 

quinta-feira, 11 de outubro de 2018

Todas as noites

"- Se eu quisesse, enlouquecia. Sei uma quantidade de histórias terríveis. Vi muita coisa, contaram-me casos extraordinários, eu próprio... Enfim, às vezes já não consigo arrumar tudo isto. Porque, sabe?, acorda-se às quatro da manhã, num quarto vazio, acende-se um cigarro... Está a ver? A pequena luz do fósforo levanta de repente a massa das sombras, a camisa caída sobre a cadeira ganha um volume impossível, a nossa vida... compreende?... a nossa vida apresenta-se ali como algo... como um acontecimento excessivo... Tem de se arrumar muito depressa. Há felizmente o estilo. Não calcula o que seja? Vejamos: o estilo é a maneira subtil de transferir a confusão e violência da vida para o plano mental de uma unidade e significação. Faço-me entender? Não? Bem, não aguentamos a desordem estuporada da vida. E então pegamos nela, reduzimo-la a dois ou três tópicos que se equacionam. Depois, por meio de uma operação intelectual, dizemos que esses tópicos se encontram no tópico comum, suponhamos, do Amor ou da Morte. Percebe? De uma dessas tremendas abstracções que servem para tudo. O cigarro consome-se, não é?, a calma volta. Mas pode imaginar o que seja isto todas as noites, durante semanas ou meses ou anos?" Herberto Helder, in Os passos em volta , Editora Assírio & Alvim, 1980, pp 11,12

terça-feira, 9 de outubro de 2018

"Bérénice" nos 350 anos da Ópera de Paris

Ópera contemporânea "Bérénice" estreia em Paris
A sala de ópera de Paris celebra 350 anos de existência com a estreia mundial de "Berenice". A partir do texto original de Racine, o compositor suíço Michael Jarrell compôs uma ópera para o século XXI.
A soprano canadiana Barbara Hannigan, especialista em ópera contemporânea, veste a pele de uma personagem complexa.
"É muito interessante porque Berenice é uma obra fundamental na cultura francesa. É uma personagem forte. Quando olhei para a partitura, a primeira vez, vi que a obra tinha sido escrita para mim. Contém a virtuosidade que eu gosto de incarnar, com as minhas notas agudas e graves. Mas vê-se sobretudo a marca do compositor. Ele é muito bom e eu tenho de me transformar na personagem que ele criou", explicou Hannigan.
"No início, o canto é calmo mas rapidamente a forma de cantar torna-se nervosa com pequenos elementos que se repetem e representam a angústia. Ela começa a perceber que perdeu o controlo da situação", comentou Michael Jarrell.
A obra de Racine conta o amor trágico entre Berenice, rainha de Judeia, e Tito que abdica da relação amorosa para tornar-se imperador de Roma.
"Tentei mostrar os conflitos interiores dos protagonistas e mergulhar profundamente na alma deles. Queria mostrar que a Berenice, no fundo, sabe, desde o início, que vai cair, que vai perder. Foi por isso que integrei ao longo da obra pequenos flashes que mostram que ela sabe que está condenada", contou o encenador Claus Guth.
"No final, a música desaparece, há algo que se esvai, há ressonâncias... É a música do adeus. O facto de ela não ter outra possibilidade cria uma poesia do amor muito forte, algo puro e sobrenatural", considerou o compositor suiço.
"Ela decide que tem de deixar Tito. Gosto deste efeito de desaparecimento gradual porque o amor não morre. O ser humano não morre. A relação não morre, mas há algo que desaparece, penso que é algo muito poético", concluiu Barbara Hannigan."Euronews
No Palais Garnier ,  de 26 de Setembro a 17 Outubro de 2018

segunda-feira, 8 de outubro de 2018

Os filmes candidatos aos óscares de 2019

Óscares 2019: 25 filmes na corrida
Por  Diogo Vieira
"Faltam cinco meses para a 91.ª cerimónia de entrega dos Óscares, que acontece a 24 de Fevereiro de 2019 em Los Angeles, mas já são muitos os filmes que se preparam para a corrida da temporada de Prémios 2018/2019. A temporada de prémios americanos arranca com os Gotham Awards (em Outubro) e dura até à entrega dos Óscares (em Fevereiro). Mas a pré-temporada já começou com os festivais de cinema de Veneza, Toronto e Telluride, que servem de forte barómetro para a corrida aos Óscares.
O Cinema 7.ª Arte preparou uma lista de 25 filmes que são possíveis candidatos à corrida dos Óscares, seja pelos prémios já adquiridos ou pelo mediatismo junto do público e da crítica de cinema. Esta lista é apenas uma previsão que fazemos, tendo em conta o historial de filmes que chegaram à nomeação pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas. Estes são as nossas grandes apostas para os nomeados aos Óscares de 2019:
“Blackkklansman” – A luta continua. O norte-americano Spike Lee confronta de novo o mundo com o racismo ainda hoje vivido em todo o mundo, mas com especial foco nos Estados Unidos. O filme conta-nos uma história real passada nos anos 70, no Colorado, onde Ron Stallworth (John David Washington), um policial negro, consegue infiltrar-se no Ku Klux Klan local. O filme terá impacto na Academia, e já venceu o Grande Prémio do Júri na última edição do Festival de Cannes.
“Cold War” – Um filme conturbado a nível político e amoroso. É uma história a preto e branco, contada pelo polaco Pawel Pawlikowski, de um amor impossível passado nos anos 50, durante a Guerra Fria, na Polónia, Jugoslávia, Berlim e Paris. O realizador venceu recentemente o prémio de Melhor Realizador no Festival de Cannes com “Cold War”. De lembrar que em 2015, o polaco venceu um Óscar na categoria de Melhor Filme Estrangeiro com “Ida”.
“Roma” – O mexicano Alfonso Cuáron volta à terra natal para retratar a rotina de uma família de classe média, controlada de maneira silenciosa por uma mulher (Yalitza Aparicio), que trabalha como ama e empregada doméstica. Após os Óscares de Melhor Edição, e Melhor Realização em 2014 com o filme “Gravidade”, Alfonso Cuáron promete dar luta em categorias como de Melhor Filme. Venceu o Leão de Ouro no Festival de Veneza 2018 e é o candidato do México ao Óscar de Melhor Filme Estrangeiro.
“First Man”Ryan Gosling é Neil Armstrong, o primeiro homem a caminhar na Lua, num filme realizado pelo jovem norte-americano de 33, Damien Chazelle. Vencedor do Óscar de Melhor Realizador na edição de 2017, com o filme La-La-Land, a parceria com Ryan Gosling voltou a ser aposta para contar os sacrifícios e custos de Neil Armstrong durante uma das mais perigosas missões na história das viagens espaciais.
“A Star Is Born” – É a primeira aventura de Bradley Cooper como realizador. O norte-americano (Jackson Maine) vai contracenar com um dos nomes mais fortes da pop americana, Lady Gaga (Ally), numa história que conta os problemas amorosos de dois artistas no mundo da música, em momentos da carreira bastante díspares. Depois de produzir o filme “Sniper Americano” em 2015, que esteve entre os nomeados para o Óscar de Melhor Produção, Bradley Cooper pode nesta próxima edição estar em várias frentes.
“The Favourite” – O realizador grego Yorgos Lanthimos regressa com uma história passada em Inglaterra, no século XVIII, que conta com Emma Stone (Abigail Masham) e Olivia Colman (Queen Anne). A carreira de Yorgos Lanthimos já conta com “The Lobster” (2016) ou “The Killing Of A Sacred Dear” (2017), que mereceram muita atenção em festivais de cinema passados. Com o Óscar de Melhor Actriz para  Emma Stone em “La La Land”, no ano passado, “The Favourite” vai dar que falar.
“Mary Queen Of Scots” – Outro filme histórico que pode surpreender a Academia. A realizadora é a britânica Josie Rourke, que juntou uma equipa de produtores com extensa carreira em filmes deste género no cinema, como Tim Bevan e Eric Fellner (“The Theory Of Everything”, “Darkest Hour”). O papeis principais serão interpretados pelas actrizes Saoirse Ronan (Mary), e por Margot Robbie (Queen Elizabeth I).
If Beale Street Could Talk” – Depois do sucesso de “Moonlight”, que venceu o Óscar de Melhor Adaptação em 2017, esta produção do norte-americano Barry Jenkins cria várias expectativas na Academia. O filme é baseado no romance de James Baldwin, e acompanha Tish (Kiki Layne), que luta para livrar o seu marido de uma acusação criminal injusta, a tempo de o ter em casa para o nascimento de seu bebé. O tema do racismo volta a estar em foco, tornando o filme de grande apelo popular.
“Beautiful Boy” – O filme do cineasta belga Felix Van Groeningen vai contar com uma das estrelas em ascensão, falamos do jovem norte-americano de 22 anos Timothee Chalamet. Depois do sucesso em “Lady Bird"  e “Chama-me Pelo Teu Nome”, Timothee Chalamet (Nic Sheff) vai ser filho de Steve Carell (David Sheff), que vai ter de saber lutar contra o vício do filho em metanfetaminas. A Academia pode ver com ‘bons olhos’ este drama familiar, sendo mesmo um dos destaques do ano.
“Green Book” – É o grande vencedor do “People’s Choice Award” no Festival de Toronto deste ano. “Green Book” junta Viggo Mortensen (Tony Lip), e Mahershala Ali (Don Shirley) no grande ecrã. O realizador é o norte-americano Peter Farrelly, e este conta-nos a história de um trabalhador ítalo-americano de classe operária (Viggo Mortensen) que se torna motorista de um pianista afro-americano (Mahershala Ali) durante uma tournée pelo sul dos Estados Unidos, nos anos 60.
“Widows”Steve McQueen, vencedor do Óscar de Melhor Filme com “12 Anos Escravo” em 2014, é o “homem forte” por detrás do filme que junta actores como Liam Neeson, Colin Farrell, Viola Davis, e Michelle Rodriguez. O filme do realizador britânico conta-nos a história de quatro viúvas que entram para o mundo do crime, de forma a tentar honrar a missão que os seus ex-maridos não conseguiram completar. Gillian Flynn, que escreveu a história de “Gone Girl”, é também responsável pela escrita de “Widows”, juntamente com Steve McQueen.
“The Ballad Of Buster Scruggs” – É o retorno de Ethan e Joel Coen. Os norte-americanos trazem um western, que conta com a participação de James Franco, Tim Blake Nelson, Liam Neeson, entre outros. Pensado inicialmente como uma mini-série, o filme conta agora com 6 histórias curtas, todas centradas em Buster Scruggs. “The Ballad Of Buster Scruggs” venceu recentemente o prémio de Melhor Guião no festival de Veneza. Os irmãos Coen, durante a sua carreira, venceram quatro Óscares, sendo três  deles com o filme “No Country For Old Men”, de 2007.
“Bohemian Rhapsody” – Demorou, mas chegou. Rami Malek, tão conhecido como “Mr. Robot”, é quem dá vida ao eterno vocalista dos Queen, Freddie Mercury. O realizador do filme é o nova-iorquino Bryan Singer, responsável pela saga “X-Men”. Toda a especulação que se criou até ao início da produção do filme, faz com que as expectativas sejam elevadas. Este vai retratar a ascensão dos britânicos Queen, com foco em Freddie, retratando o desafio de conciliar a fama e o sucesso com o lado pessoal. A história de Freddie Mercury sempre despertou curiosidade entre muitos, o que aliado ao êxito de outras biografias musicais como “Ray”, “Bird”, ou “I’m Not There”, faz de “Bohemian Rhapsody” um filme há muito aguardado.
“Black Panther” – Surpreendeu o público e a crítica, recebendo aclamação mundial. O herói da Marvel é interpretado por Chadwick Boseman, o príncipe de T’Challa, que retorna a Wakanda para a cerimónia de coroação, após a morte do pai. Com o apoio de outra tribos, o Pantera Negra procura Ulysses Klaue (Andy Serkis), que roubou de Wakanda um punhado de vibranium poderoso, e valioso. O realizador é o norte-americano Ryan Coogler (“Creed”), sendo que o filme nas categorias técnicas terá uma presença muito forte.
“Boy Erased” – É o segundo filme, como realizador, do australiano Joel Edgerton, e este conta-nos a história de um rapaz que passa por um programa de “cura gay”. Esse rapaz, de 19 anos, é Lucas Hedges (Garrard), que entrou em filmes como “Lady Bird”, ou “Manchester By The Sea”. O elenco vai contar também com Nicole Kidman (Nancy Conlon), e Russell Crowe (Marshall Conlon), pastor da igreja baptista, como pais de Garrard. O filme passa-se numa pequena cidade conservadora do Arkansas, levantando vários debates, como a homossexualidade em sociedades e meios conservadores. Um filme que terá a atenção da Academia.
“Marry Poppins Returns” – É a grande aposta da Disney, com Emily Blunt a assumir o papel da famosa personagem Marry Poppins. O realizador é o norte-americano Rob Marshall (“Chicago”, “Into The Woods”), não esquecendo também a presença de Meryl Streep (Topsy) no elenco. Numa Londres abalada pela Grande Depressão, Mary Poppins (Emily Blunt) desce dos céus novamente com seu fiel amigo Jack (Lin-Manuel Miranda) para ajudar Michael (Ben Whishaw) e Jane Banks (Emily Mortimer), agora adultos trabalhadores, que sofreram uma perda pessoal. O trailer e as imagens já divulgadas deixaram todos a desejar por mais.
“Backseat” – Ainda pouco foi revelado acerca deste filme, contudo este tem dado muito que falar. Isto porque, Christian Bale é quem assume o papel principal, Dick Cheney, o vice-presidente americano mais influente da história, sendo possível confirmar mais uma grande transformação física do actor, natural do País de Gales. A realização do filme pertence ao norte-americano Adam Mkcay, e consta ainda no elenco Amy Adams, Steve Carell, ou Sam Rockwell.
“Destroyer” – É a história da detective policial Erin Bell, em busca de paz, ao se reconectar com pessoas que fizeram parte do seu passado distante. Essa detective é nada mais, nada menos, que Nicole Kidman. A actriz australiana/norte-americana poderá ser uma das candidatas ao Óscar de Melhor Actriz, elevando assim o filme realizado pela norte-americana Karyn Kusama. O elenco vai contar com actores como Sebastian Stan, ou Bradley Whitford. “Destroyer” estreia a 25 de Dezembro de 2018.
“Ready Player One” – É o mais recente trabalho de Steven Spielberg, vencedor de três Óscares, merecendo assim a atenção da Academia. O filme retrata o personagem Wade Watts (Tye Sheridan), num futuro distópico, em 2045, onde a humanidade prefere a vida virtual em detrimento do real. Trata-se do jogo OASIS, onde o criador do jogo, o excêntrico James Halliday (Mark Rylance) morre, e os jogadores devem descobrir a chave de um quebra-cabeças, de forma a conquistar a sua fortuna inestimável. O filme revela um trabalho de estúdio excelente, com câmaras em primeira pessoa, efeitos especiais, ou a própria imersão do espectador no dito jogo. Nota positiva também para a vibe anos 80, abrangendo assim o público “fora” da realidade dos vídeo-jogos.
“Isle Of Dogs” – É a segunda investida de Wes Anderson neste tipo de animação, e o resultado foi surpreendente – a primeira produção deste género foi “Fantastic Mr. Fox”, de 2009. Com “Isle Of Dogs”, o norte-americano pode ter grandes hipóteses em ser premiado, principalmente nas áreas técnicas. Depois de um político banir todos os cães da cidade, e os condenar a uma ilha de lixo, um jovem de 12 anos, Atari Kobayashi, persegue a busca pelo seu melhor amigo, Spots. Entre os actores que dão voz aos personagens do filme, na maioria cães, estão ​Bryan Cranston, Edward Norton, Bill Murray, ou Scarlett Johansson.
“A Quiet Place” – De novo Emily Blunt no papel principal, mas desta vez num thriller/terror moderno. O filme é realizado pelo norte-americano John Krasinski, que também participou na produção do filme de 2016, “Manchester By The Sea”. Este é o seu primeiro filme de destaque, tendo recebido bastantes elogios por parte da crítica e do público, sendo um possível representante do terror/suspense na luta pelo Óscar.​ O filme conta a história de uma família que é perseguida por uma entidade fantasmagórica e, para se protegerem, eles devem permanecer em silêncio absoluto, pois o perigo é activado pela percepção do som.
“At Eternity’s Gate”Willem Dafoe é Vincent Van Gogh, numa biografia que, pela curiosidade  à volta do pintor holandês, promete dar que falar. O filme irá retratar a viagem dentro do mundo e da mente de uma pessoa que, apesar do cepticismo, do ridículo e da doença, criou algumas das obras de arte mais admiradas e impressionantes do mundo. O cineasta e pintor norte-americano, Julian Schnabel, é quem realiza este filme. Schnabel foi o criador de obras como “Before Night Falls”, ou “The Diving Bell and the Butterfly”.
“The Miseducation of Cameron Post” – Mais um filme que aborda o tema da homossexualidade. Contudo, estamos perante o grande vencedor do prémio Grande Júri, no Festival de Sundance deste ano. Chloe Grace Moretz é Cameron Post, uma jovem adolescente que beija a rainha do baile, e é apanhada pela sua tia conservadora, levando assim Cameron a ser enviada, contra sua vontade, para um  centro de recuperação de jovens gays. A realização da norte-americana Desiree Akhavan foi apontada como um grande sucesso, sendo que o filme fica em boa posição para os Óscares.
“The Old Man And The Gun” – É o último filme de Robert Redford, e só por isso, merece uma atenção especial. Este vai ter como último papel, um criminoso que durante a vida teve várias vezes preso, e conseguiu sempre fugir. Para fugir desta vida, Forrest Tucker (Robert Redford), decide partir para um asilo comunitário. E a forma como este decide festejar esta mudança de vida é… cometendo mais um crime. Cassey Affleck (John Hunt), ou o músico Tom Waits (Waller), são dois exemplos do elenco deste filme. O realizador deste filme é o americano, natural de Wisconsin, EUA, David Lowery. O cineasta tem trabalhos como “A Ghost Story” (2017), ou “Pete’s Dragon” (2016).
“Can You Forgive Me?” – A última sugestão desta lista é mais uma aposta do cinema independente. A californiana Marielle Heller, também ela escritora, é quem realiza o filme, que retrata uma jornalista que decide forjar e vender cartas de personalidades já falecidas. Essa jornalista chama-se Lee Israel, um papel interpretado pela actriz Melissa McCarthy. Esta já deu provas que o seu humor tem muitas linguagens, tal como nos recordamos com o filme de 2015, “Spy”. Este filme será um teste ao lado mais dramático da actriz." 
Diogo Vieira  , Cinema Sétima Arte, Setembro de 2018