quinta-feira, 11 de outubro de 2018

Todas as noites

"- Se eu quisesse, enlouquecia. Sei uma quantidade de histórias terríveis. Vi muita coisa, contaram-me casos extraordinários, eu próprio... Enfim, às vezes já não consigo arrumar tudo isto. Porque, sabe?, acorda-se às quatro da manhã, num quarto vazio, acende-se um cigarro... Está a ver? A pequena luz do fósforo levanta de repente a massa das sombras, a camisa caída sobre a cadeira ganha um volume impossível, a nossa vida... compreende?... a nossa vida apresenta-se ali como algo... como um acontecimento excessivo... Tem de se arrumar muito depressa. Há felizmente o estilo. Não calcula o que seja? Vejamos: o estilo é a maneira subtil de transferir a confusão e violência da vida para o plano mental de uma unidade e significação. Faço-me entender? Não? Bem, não aguentamos a desordem estuporada da vida. E então pegamos nela, reduzimo-la a dois ou três tópicos que se equacionam. Depois, por meio de uma operação intelectual, dizemos que esses tópicos se encontram no tópico comum, suponhamos, do Amor ou da Morte. Percebe? De uma dessas tremendas abstracções que servem para tudo. O cigarro consome-se, não é?, a calma volta. Mas pode imaginar o que seja isto todas as noites, durante semanas ou meses ou anos?" Herberto Helder, in Os passos em volta , Editora Assírio & Alvim, 1980, pp 11,12

terça-feira, 9 de outubro de 2018

"Bérénice" nos 350 anos da Ópera de Paris

Ópera contemporânea "Bérénice" estreia em Paris
A sala de ópera de Paris celebra 350 anos de existência com a estreia mundial de "Berenice". A partir do texto original de Racine, o compositor suíço Michael Jarrell compôs uma ópera para o século XXI.
A soprano canadiana Barbara Hannigan, especialista em ópera contemporânea, veste a pele de uma personagem complexa.
"É muito interessante porque Berenice é uma obra fundamental na cultura francesa. É uma personagem forte. Quando olhei para a partitura, a primeira vez, vi que a obra tinha sido escrita para mim. Contém a virtuosidade que eu gosto de incarnar, com as minhas notas agudas e graves. Mas vê-se sobretudo a marca do compositor. Ele é muito bom e eu tenho de me transformar na personagem que ele criou", explicou Hannigan.
"No início, o canto é calmo mas rapidamente a forma de cantar torna-se nervosa com pequenos elementos que se repetem e representam a angústia. Ela começa a perceber que perdeu o controlo da situação", comentou Michael Jarrell.
A obra de Racine conta o amor trágico entre Berenice, rainha de Judeia, e Tito que abdica da relação amorosa para tornar-se imperador de Roma.
"Tentei mostrar os conflitos interiores dos protagonistas e mergulhar profundamente na alma deles. Queria mostrar que a Berenice, no fundo, sabe, desde o início, que vai cair, que vai perder. Foi por isso que integrei ao longo da obra pequenos flashes que mostram que ela sabe que está condenada", contou o encenador Claus Guth.
"No final, a música desaparece, há algo que se esvai, há ressonâncias... É a música do adeus. O facto de ela não ter outra possibilidade cria uma poesia do amor muito forte, algo puro e sobrenatural", considerou o compositor suiço.
"Ela decide que tem de deixar Tito. Gosto deste efeito de desaparecimento gradual porque o amor não morre. O ser humano não morre. A relação não morre, mas há algo que desaparece, penso que é algo muito poético", concluiu Barbara Hannigan."Euronews
No Palais Garnier ,  de 26 de Setembro a 17 Outubro de 2018

segunda-feira, 8 de outubro de 2018

Os filmes candidatos aos óscares de 2019

Óscares 2019: 25 filmes na corrida
Por  Diogo Vieira
"Faltam cinco meses para a 91.ª cerimónia de entrega dos Óscares, que acontece a 24 de Fevereiro de 2019 em Los Angeles, mas já são muitos os filmes que se preparam para a corrida da temporada de Prémios 2018/2019. A temporada de prémios americanos arranca com os Gotham Awards (em Outubro) e dura até à entrega dos Óscares (em Fevereiro). Mas a pré-temporada já começou com os festivais de cinema de Veneza, Toronto e Telluride, que servem de forte barómetro para a corrida aos Óscares.
O Cinema 7.ª Arte preparou uma lista de 25 filmes que são possíveis candidatos à corrida dos Óscares, seja pelos prémios já adquiridos ou pelo mediatismo junto do público e da crítica de cinema. Esta lista é apenas uma previsão que fazemos, tendo em conta o historial de filmes que chegaram à nomeação pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas. Estes são as nossas grandes apostas para os nomeados aos Óscares de 2019:
“Blackkklansman” – A luta continua. O norte-americano Spike Lee confronta de novo o mundo com o racismo ainda hoje vivido em todo o mundo, mas com especial foco nos Estados Unidos. O filme conta-nos uma história real passada nos anos 70, no Colorado, onde Ron Stallworth (John David Washington), um policial negro, consegue infiltrar-se no Ku Klux Klan local. O filme terá impacto na Academia, e já venceu o Grande Prémio do Júri na última edição do Festival de Cannes.
“Cold War” – Um filme conturbado a nível político e amoroso. É uma história a preto e branco, contada pelo polaco Pawel Pawlikowski, de um amor impossível passado nos anos 50, durante a Guerra Fria, na Polónia, Jugoslávia, Berlim e Paris. O realizador venceu recentemente o prémio de Melhor Realizador no Festival de Cannes com “Cold War”. De lembrar que em 2015, o polaco venceu um Óscar na categoria de Melhor Filme Estrangeiro com “Ida”.
“Roma” – O mexicano Alfonso Cuáron volta à terra natal para retratar a rotina de uma família de classe média, controlada de maneira silenciosa por uma mulher (Yalitza Aparicio), que trabalha como ama e empregada doméstica. Após os Óscares de Melhor Edição, e Melhor Realização em 2014 com o filme “Gravidade”, Alfonso Cuáron promete dar luta em categorias como de Melhor Filme. Venceu o Leão de Ouro no Festival de Veneza 2018 e é o candidato do México ao Óscar de Melhor Filme Estrangeiro.
“First Man”Ryan Gosling é Neil Armstrong, o primeiro homem a caminhar na Lua, num filme realizado pelo jovem norte-americano de 33, Damien Chazelle. Vencedor do Óscar de Melhor Realizador na edição de 2017, com o filme La-La-Land, a parceria com Ryan Gosling voltou a ser aposta para contar os sacrifícios e custos de Neil Armstrong durante uma das mais perigosas missões na história das viagens espaciais.
“A Star Is Born” – É a primeira aventura de Bradley Cooper como realizador. O norte-americano (Jackson Maine) vai contracenar com um dos nomes mais fortes da pop americana, Lady Gaga (Ally), numa história que conta os problemas amorosos de dois artistas no mundo da música, em momentos da carreira bastante díspares. Depois de produzir o filme “Sniper Americano” em 2015, que esteve entre os nomeados para o Óscar de Melhor Produção, Bradley Cooper pode nesta próxima edição estar em várias frentes.
“The Favourite” – O realizador grego Yorgos Lanthimos regressa com uma história passada em Inglaterra, no século XVIII, que conta com Emma Stone (Abigail Masham) e Olivia Colman (Queen Anne). A carreira de Yorgos Lanthimos já conta com “The Lobster” (2016) ou “The Killing Of A Sacred Dear” (2017), que mereceram muita atenção em festivais de cinema passados. Com o Óscar de Melhor Actriz para  Emma Stone em “La La Land”, no ano passado, “The Favourite” vai dar que falar.
“Mary Queen Of Scots” – Outro filme histórico que pode surpreender a Academia. A realizadora é a britânica Josie Rourke, que juntou uma equipa de produtores com extensa carreira em filmes deste género no cinema, como Tim Bevan e Eric Fellner (“The Theory Of Everything”, “Darkest Hour”). O papeis principais serão interpretados pelas actrizes Saoirse Ronan (Mary), e por Margot Robbie (Queen Elizabeth I).
If Beale Street Could Talk” – Depois do sucesso de “Moonlight”, que venceu o Óscar de Melhor Adaptação em 2017, esta produção do norte-americano Barry Jenkins cria várias expectativas na Academia. O filme é baseado no romance de James Baldwin, e acompanha Tish (Kiki Layne), que luta para livrar o seu marido de uma acusação criminal injusta, a tempo de o ter em casa para o nascimento de seu bebé. O tema do racismo volta a estar em foco, tornando o filme de grande apelo popular.
“Beautiful Boy” – O filme do cineasta belga Felix Van Groeningen vai contar com uma das estrelas em ascensão, falamos do jovem norte-americano de 22 anos Timothee Chalamet. Depois do sucesso em “Lady Bird"  e “Chama-me Pelo Teu Nome”, Timothee Chalamet (Nic Sheff) vai ser filho de Steve Carell (David Sheff), que vai ter de saber lutar contra o vício do filho em metanfetaminas. A Academia pode ver com ‘bons olhos’ este drama familiar, sendo mesmo um dos destaques do ano.
“Green Book” – É o grande vencedor do “People’s Choice Award” no Festival de Toronto deste ano. “Green Book” junta Viggo Mortensen (Tony Lip), e Mahershala Ali (Don Shirley) no grande ecrã. O realizador é o norte-americano Peter Farrelly, e este conta-nos a história de um trabalhador ítalo-americano de classe operária (Viggo Mortensen) que se torna motorista de um pianista afro-americano (Mahershala Ali) durante uma tournée pelo sul dos Estados Unidos, nos anos 60.
“Widows”Steve McQueen, vencedor do Óscar de Melhor Filme com “12 Anos Escravo” em 2014, é o “homem forte” por detrás do filme que junta actores como Liam Neeson, Colin Farrell, Viola Davis, e Michelle Rodriguez. O filme do realizador britânico conta-nos a história de quatro viúvas que entram para o mundo do crime, de forma a tentar honrar a missão que os seus ex-maridos não conseguiram completar. Gillian Flynn, que escreveu a história de “Gone Girl”, é também responsável pela escrita de “Widows”, juntamente com Steve McQueen.
“The Ballad Of Buster Scruggs” – É o retorno de Ethan e Joel Coen. Os norte-americanos trazem um western, que conta com a participação de James Franco, Tim Blake Nelson, Liam Neeson, entre outros. Pensado inicialmente como uma mini-série, o filme conta agora com 6 histórias curtas, todas centradas em Buster Scruggs. “The Ballad Of Buster Scruggs” venceu recentemente o prémio de Melhor Guião no festival de Veneza. Os irmãos Coen, durante a sua carreira, venceram quatro Óscares, sendo três  deles com o filme “No Country For Old Men”, de 2007.
“Bohemian Rhapsody” – Demorou, mas chegou. Rami Malek, tão conhecido como “Mr. Robot”, é quem dá vida ao eterno vocalista dos Queen, Freddie Mercury. O realizador do filme é o nova-iorquino Bryan Singer, responsável pela saga “X-Men”. Toda a especulação que se criou até ao início da produção do filme, faz com que as expectativas sejam elevadas. Este vai retratar a ascensão dos britânicos Queen, com foco em Freddie, retratando o desafio de conciliar a fama e o sucesso com o lado pessoal. A história de Freddie Mercury sempre despertou curiosidade entre muitos, o que aliado ao êxito de outras biografias musicais como “Ray”, “Bird”, ou “I’m Not There”, faz de “Bohemian Rhapsody” um filme há muito aguardado.
“Black Panther” – Surpreendeu o público e a crítica, recebendo aclamação mundial. O herói da Marvel é interpretado por Chadwick Boseman, o príncipe de T’Challa, que retorna a Wakanda para a cerimónia de coroação, após a morte do pai. Com o apoio de outra tribos, o Pantera Negra procura Ulysses Klaue (Andy Serkis), que roubou de Wakanda um punhado de vibranium poderoso, e valioso. O realizador é o norte-americano Ryan Coogler (“Creed”), sendo que o filme nas categorias técnicas terá uma presença muito forte.
“Boy Erased” – É o segundo filme, como realizador, do australiano Joel Edgerton, e este conta-nos a história de um rapaz que passa por um programa de “cura gay”. Esse rapaz, de 19 anos, é Lucas Hedges (Garrard), que entrou em filmes como “Lady Bird”, ou “Manchester By The Sea”. O elenco vai contar também com Nicole Kidman (Nancy Conlon), e Russell Crowe (Marshall Conlon), pastor da igreja baptista, como pais de Garrard. O filme passa-se numa pequena cidade conservadora do Arkansas, levantando vários debates, como a homossexualidade em sociedades e meios conservadores. Um filme que terá a atenção da Academia.
“Marry Poppins Returns” – É a grande aposta da Disney, com Emily Blunt a assumir o papel da famosa personagem Marry Poppins. O realizador é o norte-americano Rob Marshall (“Chicago”, “Into The Woods”), não esquecendo também a presença de Meryl Streep (Topsy) no elenco. Numa Londres abalada pela Grande Depressão, Mary Poppins (Emily Blunt) desce dos céus novamente com seu fiel amigo Jack (Lin-Manuel Miranda) para ajudar Michael (Ben Whishaw) e Jane Banks (Emily Mortimer), agora adultos trabalhadores, que sofreram uma perda pessoal. O trailer e as imagens já divulgadas deixaram todos a desejar por mais.
“Backseat” – Ainda pouco foi revelado acerca deste filme, contudo este tem dado muito que falar. Isto porque, Christian Bale é quem assume o papel principal, Dick Cheney, o vice-presidente americano mais influente da história, sendo possível confirmar mais uma grande transformação física do actor, natural do País de Gales. A realização do filme pertence ao norte-americano Adam Mkcay, e consta ainda no elenco Amy Adams, Steve Carell, ou Sam Rockwell.
“Destroyer” – É a história da detective policial Erin Bell, em busca de paz, ao se reconectar com pessoas que fizeram parte do seu passado distante. Essa detective é nada mais, nada menos, que Nicole Kidman. A actriz australiana/norte-americana poderá ser uma das candidatas ao Óscar de Melhor Actriz, elevando assim o filme realizado pela norte-americana Karyn Kusama. O elenco vai contar com actores como Sebastian Stan, ou Bradley Whitford. “Destroyer” estreia a 25 de Dezembro de 2018.
“Ready Player One” – É o mais recente trabalho de Steven Spielberg, vencedor de três Óscares, merecendo assim a atenção da Academia. O filme retrata o personagem Wade Watts (Tye Sheridan), num futuro distópico, em 2045, onde a humanidade prefere a vida virtual em detrimento do real. Trata-se do jogo OASIS, onde o criador do jogo, o excêntrico James Halliday (Mark Rylance) morre, e os jogadores devem descobrir a chave de um quebra-cabeças, de forma a conquistar a sua fortuna inestimável. O filme revela um trabalho de estúdio excelente, com câmaras em primeira pessoa, efeitos especiais, ou a própria imersão do espectador no dito jogo. Nota positiva também para a vibe anos 80, abrangendo assim o público “fora” da realidade dos vídeo-jogos.
“Isle Of Dogs” – É a segunda investida de Wes Anderson neste tipo de animação, e o resultado foi surpreendente – a primeira produção deste género foi “Fantastic Mr. Fox”, de 2009. Com “Isle Of Dogs”, o norte-americano pode ter grandes hipóteses em ser premiado, principalmente nas áreas técnicas. Depois de um político banir todos os cães da cidade, e os condenar a uma ilha de lixo, um jovem de 12 anos, Atari Kobayashi, persegue a busca pelo seu melhor amigo, Spots. Entre os actores que dão voz aos personagens do filme, na maioria cães, estão ​Bryan Cranston, Edward Norton, Bill Murray, ou Scarlett Johansson.
“A Quiet Place” – De novo Emily Blunt no papel principal, mas desta vez num thriller/terror moderno. O filme é realizado pelo norte-americano John Krasinski, que também participou na produção do filme de 2016, “Manchester By The Sea”. Este é o seu primeiro filme de destaque, tendo recebido bastantes elogios por parte da crítica e do público, sendo um possível representante do terror/suspense na luta pelo Óscar.​ O filme conta a história de uma família que é perseguida por uma entidade fantasmagórica e, para se protegerem, eles devem permanecer em silêncio absoluto, pois o perigo é activado pela percepção do som.
“At Eternity’s Gate”Willem Dafoe é Vincent Van Gogh, numa biografia que, pela curiosidade  à volta do pintor holandês, promete dar que falar. O filme irá retratar a viagem dentro do mundo e da mente de uma pessoa que, apesar do cepticismo, do ridículo e da doença, criou algumas das obras de arte mais admiradas e impressionantes do mundo. O cineasta e pintor norte-americano, Julian Schnabel, é quem realiza este filme. Schnabel foi o criador de obras como “Before Night Falls”, ou “The Diving Bell and the Butterfly”.
“The Miseducation of Cameron Post” – Mais um filme que aborda o tema da homossexualidade. Contudo, estamos perante o grande vencedor do prémio Grande Júri, no Festival de Sundance deste ano. Chloe Grace Moretz é Cameron Post, uma jovem adolescente que beija a rainha do baile, e é apanhada pela sua tia conservadora, levando assim Cameron a ser enviada, contra sua vontade, para um  centro de recuperação de jovens gays. A realização da norte-americana Desiree Akhavan foi apontada como um grande sucesso, sendo que o filme fica em boa posição para os Óscares.
“The Old Man And The Gun” – É o último filme de Robert Redford, e só por isso, merece uma atenção especial. Este vai ter como último papel, um criminoso que durante a vida teve várias vezes preso, e conseguiu sempre fugir. Para fugir desta vida, Forrest Tucker (Robert Redford), decide partir para um asilo comunitário. E a forma como este decide festejar esta mudança de vida é… cometendo mais um crime. Cassey Affleck (John Hunt), ou o músico Tom Waits (Waller), são dois exemplos do elenco deste filme. O realizador deste filme é o americano, natural de Wisconsin, EUA, David Lowery. O cineasta tem trabalhos como “A Ghost Story” (2017), ou “Pete’s Dragon” (2016).
“Can You Forgive Me?” – A última sugestão desta lista é mais uma aposta do cinema independente. A californiana Marielle Heller, também ela escritora, é quem realiza o filme, que retrata uma jornalista que decide forjar e vender cartas de personalidades já falecidas. Essa jornalista chama-se Lee Israel, um papel interpretado pela actriz Melissa McCarthy. Esta já deu provas que o seu humor tem muitas linguagens, tal como nos recordamos com o filme de 2015, “Spy”. Este filme será um teste ao lado mais dramático da actriz." 
Diogo Vieira  , Cinema Sétima Arte, Setembro de 2018

domingo, 7 de outubro de 2018

Ao Domingo Há Música


   
           Há uma melodia que habita rente às palavras e sai do que as  prende à morte. 
                                               Vasco Graça Moura


Uma outra grande voz que nos deixa: Montserrat CaballeAcompanhou-nos ao longo de décadas, num percurso grandioso  que nos permitiu momentos de intenso prazer. A sonoridade da sua voz imprimia a cada peça uma singular luminosidade que fazia dela uma grande intérprete em qualquer registo.  Desde inesquecíveis interpretações  do "belo canto" a surpreendentes apresentações de temas de música ligeira , emprestou  o seu talento a grandes espectáculos  que sempre a validaram como um nome maior, uma invulgar soprano.  
Deixou-nos, ontem, 6 de Outubro. Em jeito de longo aplauso,recordamos alguns   registos,  que muito nos tocaram.


Montserrat Caballe, em  Un bel di vedremo, da ópera Madama Butterfly, de Giacomo Puccini. Acompanham-na a London Symphony Orchestra, sob a direccção do Maestro Sir Charles Macker.
Montserrat Caballé in Memoriam (12.4.1933 - 6.10.2018)
A incomparável voz de Montserrat Caballé , em Vissi d'arte, vissi d'amore ,da ópera Tosca, de Giacomo Puccini.

sábado, 6 de outubro de 2018

Para ler


“Há duas tragédias na vida. A primeira é não obter o que seu coração mais deseja. A segunda é obter.”
                                               Bernard Shaw
“O pessimista  queixa-se do vento, o optimista espera que ele mude e o realista ajusta as velas.” 
                                              William George Ward
“Bom senso é a capacidade de ver as coisas como são e fazê-las como devem ser feitas.” 
                                               Josh Billings
“As nossas necessidades são poucas, mas os nossos desejos são infindos.” 
                                               Bernard Shaw
" Dá-nos os bens , tanto quando os pedimos , e afasta  de nós os males , mesmo quando tos pedimos." " Esta oração parece-me bela  e segura. Se tiveres alguma coisa a opor-lhe , não me escondeis." 
                                                Platão

sexta-feira, 5 de outubro de 2018

Há 108 anos

                                                   
                                                           5 de Outubro de 1910
                                                                   
" Toda a noite ouço o estampido brutal do canhão, que por vezes chega ao auge, para depois cair sobre a cidade um silêncio mortal, um silêncio pior.  Que se passa? Distingo o assobio das granadas, e de quando em quando um despedaçar de beiral que cai à rua.  E isto dura até de madrugada. De manhã as tropas do Rossio rendem-se e os marinheiros desembarcam na Alfândega. Às oito e  meia está proclamada a república. Passa aqui na rua de S. Mamede um resto de caçadores 5, soldados exaustos, entre populares que os aclamam,
O rei fugiu. Um genro do Cayola, oficial de infantaria 16, contou ao  Maximiliano: acompanharam-no no parque das Necessidades o Sabugosa,  o  Faial, o Tarouca e o Ravara. Um deles dizia-lhes: - Vossa Majestade  já fez o que tinha de fazer. - O rei estava lívido e num gesto maquinal tirava e metia os anéis nos dedos.
Um farmacêutico da Ericeira assegura que o viu chegar a Mafra  dentro do automóvel. O D. Afonso embarcou no Estoril mostrando, aos que  o acompanharem até ao fim, uma carteira com duzentos mil réis. - É o que levo... - A D. Amélia partiu também de  Sintra para Mafra. Tinha-se espalhado entre o povo que fora a rainha quem mandara assassinar o Dr. Bombarda. Se a apanham matam-na."
Raul Brandão, in  Memórias - Volume II, Quetzal Editores, p.251 

quinta-feira, 4 de outubro de 2018

Da noite ao dia


" Os que têm necessidade de repouso antes de terem experimentado qualquer fadiga , esses terão o consolo do mar, o mar há-de exaltá-los vagamente. (...) No mar nada permanece, tudo por lá passa de fugida e, dos barcos que o percorrem, depressa o rasto se desvanece."
Marcel Proust,in Os prazeres e os dias, Editorial Estampa,  p.145


quarta-feira, 3 de outubro de 2018

Só tenho palavras

Libertação
Menino doido, olhei em roda, e vi-me
Fechado e só na grande sala escura.
(Abrir a porta, além de ser um crime,
Era impossível para a minha altura…)

Como passar o tempo?... E diverti-me
Desta maneira trágica e segura:
Pegando em mim, rasguei-me, abri, parti-me,
Desfiz trapos, arames, serradura…

Ah, meu menino histérico e precoce!
Tu, sim!, que tens mãos trágicas de posse,
E tens a inquietação da Descoberta!

O menino, por fim, tombou cansado;
O seu boneco aí jaz esfarelado…
E eu acho, nem sei como, a porta aberta!
José Régio, in Poemas de Deus e do Diabo, Brasília Editora, Porto



Declaração de Bens

Só tenho palavras
para o indizível.

Só tenho voz
para emudecer.

Só trago nome
para o que nunca nasceu.

Uma única certeza
demora em mim:
o que em nós já foi menino
não envelhecerá nunca.
Mia Couto, in Tradutor de  chuvas, Editorial Caminho, 2013

Somos folhas breves onde dormem
aves de sombra e solidão.
Somos só folhas e o seu rumor.
Inseguros, incapazes de ser flor,
até a brisa nos perturba e faz tremer.
Por isso a cada gesto que fazemos
Cada ave se transforma noutro ser.
Eugénio de Andrade, in “ As mãos e os Frutos”,1948, Portugália Editora

terça-feira, 2 de outubro de 2018

Morreu Charles Aznavour


Morreu, Charles Aznavour (1924 - 2018),  um nome maior da canção francesa
Cantou uma vida inteira. Gravou   mais de mil canções. Compô-las para o seu próprio repertório e também para tantos outros artistas. 
Tinha 94 anos de uma vida dedicada à música. Foi uma voz que nos acompanhou . Cresci  com  ela. 
Shahnour Vaghinag Aznavourian  era o seu verdadeiro nome. Nasceu a 22 de Maio de 1924 , em Paris , filho de emigrantes arménios.  Foi galardoado, com variados prémios, por esse mundo fora. Era um homem simples e talentoso. Partiu , no dia primeiro deste Outubro. 
Merci bien de votre musique , M. Aznavour.
Leia   aqui   a entrevista que Charles Aznavour deu ao Expresso, em 2016        

segunda-feira, 1 de outubro de 2018

Novo livro de Vasco Graça Moura

Publicam-se fados inéditos de Vasco Graça Moura
"Morreu faz quatro anos, e deixou algumas coisas preparadas para edição, entre elas este volume, a que deu o título "A Puxar Ao Sentimento". Um livro constituído na sua larga maioria por letras de fado inéditas.
Há uma melodia que habita rente às palavras e sai do que as prende à morte, escrevia o poeta noutros recortes. Estão contados quatro anos da morte de Vasco Graça Moura, e acaba de chegar às livrarias um pequeno livro de capa dura, feito amuleto para aqueles que amam corpo a corpo, no território vulgar, onde de um travo de amargura, de uma tristeza sem cura se retiram as luas para se andar à noite buscando a doce lei daqueles que quiseram amarrar-se a alguém como se de destino isso lhes bastasse.
Editado pela Quetzal, "A Puxar Ao Sentimento" reúne 35 letras de fado, poemas íntimos do canto, e na sua maioria inéditos, preparados para edição pelo próprio poeta. O título é dele, como o subtítulo, "trinta e um fadinhos de autor". Sendo que para lá dos 31 fados, há variantes para três deles, acrescentando-se uma marcha (quero marchar na avenida), que encerra a obra.
O livro aparece duas décadas após Graça Moura ter editado "Letras do Fado Vulgar", o seu primeiro livro de poemas para fado. Esse volume viria a ser reeditado em 2001, originando mais tarde Mais Fados &Companhia (uma edição do jornal "Público" e da Corda Seca, em 2004).
Como lembra a editora, ao longo da vida o autor tinha escrito vários ensaios sobre a origem deste género musical, e as suas incursões não se ficaram pelo plano teórico, mas teve alguns fados cantados por destacados intérpretes como Mísia, Kátia Guerreiro e Cristina Branco. A Quetzal adianta que este novo volume faz crescer o cancioneiro, e constitui uma homenagem ao fado, que, nestas letras se aproveita do "génio melancólico e pleno de ironia" do poeta."Jornal i ,15/09/2018

Eis uma das letras/poemas que integram o volume:

TOMA LÁ O MEU RETRATO

toma lá o meu retrato
que eu desenhei a cantar
e com sombras musicais
hás-de achar-lhe o traço exacto
não só na expressão do olhar
como em muitos pontos mais

pus nele o meu coração
cordado a ponto de cruz
para que ao vê-lo tu creias
neste amor de perdição
entrecortado de luz
a soluçar-me nas veias

retratei a minha face
no afago dos teus dedos
que hão-de voltar a fazê-lo
ah! quem dera que voltasse
esse tempo dos segredos
a enredarem-me o cabelo

o retrato é tal e qual
o que eu sou e o que pareço
o que penso e o que digo
se aceitas este sinal
se lhe dás algum apreço
guarda-o sempre bem contigo

e sei que não é preciso
mas com meu nome já vês
o assinei e vai datado
do ano do teu sorriso
de qualquer dia do mês
e da hora deste fado.