quarta-feira, 18 de abril de 2018

Sintra

Vila de Sintra, um verdadeiro Tesouro Histórico
País: Portugal
Distrito: Lisboa
Concelho: Sintra
Tipo de Património
Centro Histórico
Classificação
UNESCO - Património da Humanidade
Protecção Jurídica
Sintra foi classificada Património Mundial, no âmbito da categoria 'Paisagem Cultural', no dia 6 de Dezembro de 1995, durante a 19.ª Sessão do Comité do Património Mundial da UNESCO realizada em Berlim.

Descrição
O micro clima da Serra de Sintra, a proximidade do mar e do estuário do Tejo, e a fertilidade das terras em redor, favoreceram a presença humana nesta região desde épocas muito recuadas. São disso testemunho os povoados neolíticos de S. Pedro de Penaferrim e da Rua das Padarias, o povoado calcolítico de Penha Verde, a tholos da Bela Vista e o povoado da Idade do Bronze do Castelo dos Mouros.
Mais tarde, os romanos da tribo Galéria estabeleceram aqui villae; numerosos vestígios foram encontrados na área compreendida entre Sintra e Mafra, principalmente pedras epigrafadas (cipos e aras) que se podem observar no Museu Arqueológico de Odrinhas e que constituem uma das mais ricas colecções do país, no seu género.
Na Vila de Sintra detectaram-se vestígios que apontam para a presença de um povoado ocupado desde o séc. II-I a.C. ao séc. V d.C..
O período muçulmano está bem documentado, sendo vulgares ainda hoje, os topónimos de origem árabe em Sintra e no seu termo, que nos recordam a influência que teve aqui aquela cultura.
Existem   referências   de autores  árabes, como a do  geógrafo  Al-Bacr  (séc. X),  que mencionam a povoação dependente de Lisboa no Andaluz, e próxima do mar; outras definem-na como o núcleo populacional mais importante desta região, logo a seguir a Lisboa. São também referidos os seus excelentes pomares que produziam frutos de assinalável tamanho.


Dois castelos existiam em Sintra neste período: um, que ainda subsiste, conhecido por Castelo dos Mouros (ou de Sintra) aproveitou um dos pontos altos e estratégicos da Serra; o outro, no sopé, sobre o provável povoado proto-histórico romanizado, onde se localizaria a vila e alcáçova muçulmana, foi bastante transformado ao longo dos tempos, dando origem ao Paço da Vila.
O primeiro, é uma construção provavelmente do séc. IX, destinado a servir de atalaia e defesa de uma região que foi disputada até ao séc. XII por mouros e cristãos. No seu interior encontram-se silos árabes escavados na rocha.
Recorde-se que o castelo dominava férteis várzeas agrícolas onde trabalhavam os habitantes do campo - çahroi -, palavra que derivou em "saloio" e que ainda hoje serve para designar as populações rurais dos arredores de Lisboa que tradicionalmente cuidam das hortas e pomares.
Pouco tempo depois da conquista de Lisboa (1147), com a ajuda dos cruzados o castelo de Sintra rende-se ao primeiro rei português D. Afonso Henriques. Uma pequena ermida românica foi edificada por ordem deste monarca no perímetro das muralhas, a fim de assinalar a tomada do castelo. Muito cedo ficou em estado de ruína, em parte devido à construção no séc. XVI, da nova matriz de S. Pedro na base da Serra e mais próxima do núcleo populacional.
Com o objectivo de incentivar o povoamento do aglomerado, em 9 de Janeiro de 1154, foi outorgada Carta de Foral à Vila de Sintra, cujos privilégios seriam confirmados por D. Sancho I em 1189. O concelho viria a ter quatro freguesias, respectivamente: S. Pedro de Penaferrim, cuja matriz ficava junto do castelo; S. Martinho, com a matriz no centro da Vila; e posteriormente, Santa Maria e S. Miguel, com sedes paroquiais no Arrabalde. Após a Reconquista coabitavam no município, judeus, mouros e cristãos. Sabe-se que existiu uma Judiaria, e que um importante núcleo de mouros libertos se havia fixado em Colares, pelo menos até ao reinado de D. Dinis.
A Vila foi por diversas vezes propriedade de rainhas, mas esta situação deixou de se verificar a partir da dinastia de Avis. D. João I (1385-1433) realizou importantes remodelações no Paço de Sintra, transformando-o numa construção gótico-mourisca onde se destacam duas imponentes chaminés cónicas.
As experiências arquitectónicas complementares feitas neste Paço Real de raiz árabe, espelham uma nova realidade - a de um monarca que é o senhor de Ceuta após a tomada da praça marroquina em 1415, cuja data marca o início da expansão portuguesa e da formação do império.
Foi também no Paço que nasceu e morreu D. Afonso V (1433-1481) monarca que conquistou diversas praças do Norte de África, e que foi aclamado rei D. João II (1481-1495) cuja visão política e estratégia permitiram o desenvolvimento das Descobertas.
A Vila e o seu termo sofrem um novo impulso com D. Manuel I (1495-1521). O Paço teve obras e constituiu até finais de seiscentos, um dos principais lugares de residência de reis e Corte. Sintra durante esta época torna-se um centro visitado por artistas e humanistas que espelham uma vida palaciana culta. O Paço de Sintra está também ligado à queda do império; foi aqui que D. Sebastião decidiu empreender o combate aos mouros em Alcácer Quibir (1580), fatídica empresa da qual este rei não regressaria, deixando vago o trono português e que teve como consequência a perda da independência face à Espanha.
Depois da Restauração da Independência em 1640, Sintra deixa de ser o núcleo onde era habitual a estadia do rei, passando a ser no período barroco, o Palácio de Mafra, e mais tarde o Palácio de Queluz, ambos relativamente próximos de Sintra.
Outros factos da História de Portugal desenrolaram-se no Paço - o desditoso rei D. Afonso VI foi deposto e passou ali os restos dos seus dias encarcerado.
Com o terramoto de 1755, grande parte da Vila Velha necessitou ser reconstruída, tendo sido feitas no antigo traçado urbano várias alterações.
Nos finais do séc. XVIII e o séc. XIX, viajantes, escritores, aristocratas e burgueses instalam-se em Sintra e desenvolvem nela um ambiente romântico pejado de exóticos jardins, palácios e chalets, que fazem do lugar um sítio único e referencial.
No séc. XIX, os diversos planos de desenvolvimento agrícola e a criação de eixos viários - estrada para Cascais e caminho-de-ferro para Lisboa -, originam uma significativa expansão urbana na Vila. O Bairro da Estefânia, construído já neste século é um dos núcleos principais que adquire importância após a inauguração da linha férrea. Entre este bairro e a Vila Velha foi construída, no início do séc. XX, a Câmara Municipal. Esta área apesar de constituir um centro cívico e administrativo, contudo não fez desaparecer como espaço social o antigo largo do Paço. Actualmente são três os principais núcleos habitacionais- a Vila Velha, a Estefânia e S. Pedro."CNC

terça-feira, 17 de abril de 2018

Interlúdio Musical

Sem meios de defesa contra a música, estou obrigado a sofrer seu despotismo e, segundo seu capricho, ser deus ou farrapo
                               E. M. CioranSilogismos da amargura
 Overture  de Le nozze di Figaro de W. Mozart e  a  Sinfonia nº 4 de L. Beethoven, pela Göteborgs Symfoniker , dirigida pelo Maestro  Martin Fröst.

segunda-feira, 16 de abril de 2018

Turismo cultural

Monumento a Eça de Queiroz
no Largo Barão de Quintela, Lisboa
PROMOVER A LITERATURA PORTUGUESA
Por Eugénio Lisboa
"Leio nos jornais que Portugal será convidado de honra na Feira do Livro de Leipzig, em 2021, pensando-se que, com isso, se possa dar um pequeno passo no sentido de se captar um pouco mais o interesse dos alemães para a literatura portuguesa. Para isso se providenciaria, nessa altura, que algumas novas traduções, para o alemão, de obras literárias portuguesas, estivessem disponíveis, bem assim como a presença física de alguns dos autores traduzidos.
Estes momentos de intensa “festa” têm, sem dúvida, a sua importância, embora, como sublinha a conselheira cultural da nossa embaixada, em Berlim, conviesse que nos preocupássemos também com o pós-2021, com o objectivo de fazer com que o momentâneo interesse pela cultura portuguesa não esmoreça, a seguir ao foguetório da Feira.
Gostaria de aqui fazer duas observações que vêm, acho eu, muito a propósito. Portugal – sobretudo Lisboa, mas não só Lisboa – parece, neste momento, cavalgar uma onda alta no sector do turismo. Os estrangeiros estão a “descobrir” que Lisboa é uma bela e atraente cidade e que Portugal e os portugueses são um destino turístico especialmente aprazível e amistoso. Julgo que teríamos a obrigação, que até seria vantajosa, de alargar o nosso conceito de turismo para áreas que transcendem a boa culinária, o bom vinho, o bom sol, algum fado e o bom feitio dos lusíadas. Há todo um sector – o turismo cultural – que conviria ser profundamente trabalhado, cavalgando esta onda de simpatia de que Portugal, de momento, desfruta.
O valor do turismo cultural, com circuitos turísticos organizados tematicamente e envolvendo, por exemplo, a Lisboa de Fernando Pessoa ou de Eça de Queirós ou a Trás-os-Montes de Miguel Torga ou de Teixeira de Pascoaes, entre muitos outros que não custa muito congeminar – é incontestável. Este turismo cultural visa uma fatia especial de turistas: é um turismo que fixa mais profundamente o turista à nossa terra e à nossa cultura e o torna, eventualmente, um frequentador mais assíduo e persistente do nosso país. A este turista, seria propiciada sempre a aquisição, na sua língua, de obras literárias ou de outra natureza, para as quais se sentiria seduzido pelo próprio interesse que encontra nos sítios, nos monumentos, nas pessoas. E nem seria muito de admirar que esta espécie de conquistado novo amigo da nossa terra e da nossa cultura acabasse por desejar aprender a nossa língua, não só para melhor comunicação, mas também para um contacto mais directo – sem o intermediário da tradução – e mais eficaz com a nossa literatura e cultura.
Há hoje, em Portugal, alguns bons especialistas em turismo cultural e não seria difícil aos nossos serviços de turismo, com o apoio de tais especialistas, organizar bons e apelativos circuitos culturais que vendessem aos turistas interessados. Seria um bom e duradouro investimento e a captação de amigos permanentes de Portugal.
E, por falar na aprendizagem da língua, venho agora ao meu segundo tópico: precisamente, o ensino da língua portuguesa. Falámos atrás na propiciação de traduções de obras de bons autores portugueses, destinadas aos utentes dos circuitos culturais centrados na figura dos autores traduzidos. É uma primeira aproximação à nossa literatura, esta que se faz por intermédio de traduções. Mas não chega a ser muito satisfatória. Nenhuma obra traduzida – sobretudo se for de um grande escritor – dá nunca medida justa do talento ou do génio desse escritor. Fernando Pessoa traduzido não é Fernando Pessoa: é apenas uma pálida alusão ao grande poeta. Eça de Queirós traduzido perde grande parte do fulgor, da picante maldade, da mordedura do estilo, que se patenteiam nos seus romances admiráveis. Com a poesia é talvez muito pior do que com a prosa. Dizia o poeta sul-africano Roy Campbell que poesia é aquilo que fica de fora, quando se traduz um poema. Isto é: a tradução de poesia propicia tudo … menos poesia. Dificilmente concebo O’Neill, Herberto Helder ou Sophia em traduções que transmitam, mais ou menos intacto, o fulgor do original. Toda a tradução é mais ou menos infiel. Dá tudo menos o essencial. Não concebo, facilmente, uma boa e eficaz tradução de A Confissão de Lúcio, de Sá-Carneiro, para dar só mais um exemplo de versão de extrema dificuldade. Portanto, o nosso objectivo último deve ser convencer os estrangeiros a lerem os nossos poetas, os nossos ficcionistas, os nossos dramaturgos, na língua original deles, que é o português. Se quisermos que o seu génio seja realmente apreciado, só há, em última análise, uma via: promover que o maior número de estrangeiros estudem a nossa língua. Deverá pois ser essa a política do Instituto Camões: considerar que a promoção de obras portuguesas traduzidas é apenas uma etapa provisória e relativamente insatisfatória, enquanto se não habilita o estrangeiro ao contacto com a realidade viva da língua portuguesa. Este esforço deve ser levado a efeito nos próprios países onde se pretende que o português seja aprendido. E não só a nível universitário, com a proverbial ajuda dos “leitores” de língua portuguesa. Eu diria mais: e, sobretudo, a nível não universitário, até porque este será sempre subsidiário do afluxo de alunos que já venham preparados, do ensino primário e secundário e que irão abastecer os cursos do superior. Não se trata, convenho, de uma tarefa fácil – integrar o Português nos currículos das escolas – e nisto têm de se empenhar com persistência as embaixadas portuguesas acreditadas nos países que se visa sensibilizar para o ensino do Português. Enquanto este não fizer parte integrante dos cursos primários e secundários – não como disciplina “outsider”, mas como cadeira inserida no currículo escolar – a batalha não estará ganha. Isto pressupõe um persistente esforço diplomático, uma tarefa de persuasão, uma insistente luta com os ministérios de educação dos diferentes países, seduzindo-os, eventualmente, com contrapartidas aliciantes (por exemplo: cursos de formação, em Portugal, para docentes estrangeiros de português que iriam depois ensinar nos seus países). Mas é à conquista da disseminação da língua portuguesa que devemos partir. Enquanto não trouxermos o estrangeiro até à nossa língua, teremos ficado apenas a meio do caminho. Vender a nossa literatura em tradução é apenas a primeira metade da tarefa que nos incumbe. Os nossos grandes escritores são para serem lidos em toda a força da sua própria língua. Dá-los traduzidos é propiciar apenas uma sombra do que são. O picante de Eça, as sinestesias e metáforas de Sá-Carneiro, a malícia peculiaríssima de O’Neill não são ofertáveis em pálidas versões que pouco mais serão do que contrafacções. No dia em que pudermos oferecer percursos culturais fortes, apoiados em obras aliciantes que o turista estrangeiro possa manusear na sua frescura original, estaremos a percorrer um bom e seguro caminho. Não se fará em dias, em meses, em poucos anos. Será uma longa conquista. Mas é o caminho. Portugal está na moda: saibamos aproveitar a ocasião para começar a vender, de par com outras capitosas iguarias, a língua portuguesa, veículo essencial para uma melhor aproximação à literatura e à cultura."
Eugénio Lisboa, em Crónica publicada no JL nº 1240, de 11 a 24 de Abril de 2018

domingo, 15 de abril de 2018

Ao Domingo Há Música

Há uma música do povo

Há uma música do povo,
Nem sei dizer se é um fado —
Que ouvindo-a há um chiste novo
No ser que tenho guardado...

Ouvindo-a sou quem seria
Se desejar fosse ser...
É uma simples melodia
Das que se aprendem a viver...

E ouço-a embalado e sozinho...
É essa mesma que eu quis...
Perdi a fé e o caminho...
Quem não fui é que é feliz.

Mas é tão consoladora
A vaga e triste canção...
Que a minha alma já não chora
Nem eu tenho coração...

Se uma emoção estrangeira,
Um erro de sonho ido...
Canto de qualquer maneira
E acaba com um sentido!
                9-11-1928
Fernando Pessoa, Poesias Inéditas (1919-1930).  (Nota prévia de Vitorino Nemésio e notas de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1956 (imp. 1990). - 102.

O Fado é a vaga e triste canção que  comove  muita da gente da minha terra. Tecido com a melodia das palavras , que  só os  poetas conhecem, ora  consola, ora embala. 
Hoje,  esta música do povo  chega nas vozes de Mariza e Camané, dois nomes maiores do Fado.

Camané, em Sei de um rio.

Sei de um rio…
Sei de um rio
Em que as únicas estrelas
Nele, sempre debruçadas
São as luzes da cidade

Sei de um rio…
Sei de um rio
Rio onde a própria mentira
Tem o sabor da verdade
Sei de um rio

Meu amor, dá-me os teus lábios!
Dá-me os lábios desse rio
Que nasceu na minha sede!
Mas o sonho continua…

E a minha boca (até quando?)
Ao separar-se da tua
Vai repetindo e lembrando
"Sei de um rio…
Sei de um rio…”

Sei de um rio
Ai!
Até quando?
Poema: Pedro Homem de Mello/Música : Alain Oulman


Mariza, em  Chuva.

Chuva
As coisas vulgares que há na vida
Não deixam saudades
Só as lembranças que doem
Ou fazem sorrir

Há gente que fica na história
da história da gente
e outras de quem nem o nome
lembramos ouvir

São emoções que dão vida
à saudade que trago
Aquelas que tive contigo
e acabei por perder

Há dias que marcam a alma
e a vida da gente
e aquele em que tu me deixaste
não posso esquecer

A chuva molhava-me o rosto
Gelado e cansado
As ruas que a cidade tinha
Já eu percorrera

Ai... meu choro de moça perdida
gritava à cidade
que o fogo do amor sob chuva
há instantes morrera

A chuva ouviu e calou
meu segredo à cidade
E eis que ela bate no vidro
Trazendo a saudade
Jorge Fernando

sábado, 14 de abril de 2018

Sabedoria

Portalegre, 3 de Maio de 1966
"Pedem-me uma definição de Poesia para um pequeno jornal cujos leitores são de muita modesta cultura!
Não consigo senão isto: 
«Limitar-me-ei aqui  a dizer que Poesia é o que há  de mais íntimo, secreto, misterioso, em todas as coisas,  - ou o sentimento que nós temos de isso. Pelo que há de mais íntimo, secreto, misterioso em todas as coisas,  se estabelecem entre elas relações que os Poetas captam, e procuram exprimir por meio da palavra."
José Régio, in "Páginas do Diário Íntimo", Círculo de Leitores", 1994,
p 397

SABEDORIA

Desde que tudo  me cansa,
Comecei eu a viver.
Comecei a viver sem esperança...
E venha a morte quando Deus quiser.

Dantes, ou muito ou pouco,
Sempre esperara:
às vezes, tanto, que o meu sonho louco
Voava das estrelas à mais rara;
Outras, tão pouco,
Que ninguém mais com tal se conformara.

Hoje , é que nada espero.
Para quê, esperar?
Sei que já nada é meu senão se o não tiver;
Se quero, é só enquanto apenas quero;
Só de longe, e secreto, é que inda posso amar...
E venha a morte quando Deus quiser.

Mas, com isto, que têm as estrelas?
Continuam brilhando, altas e belas.
José Régio, in "A Chaga do Lado", Portugália Editora, pp.67,68

sexta-feira, 13 de abril de 2018

Prémio Literário Eugénio Lisboa

Obras distinguidas com o Prémio INCM/Eugénio Lisboa serão apresentadas em Maputo

"As obras distinguidas na 1.ª edição do Prémio Literário INCM/Eugénio Lisboa – Mundo Grave, de Pedro Pereira Lopes (obra vencedora), e Bebi do Zambeze, de António Manna (menção honrosa) – vão ser apresentadas em Maputo, Moçambique, no dia 17 de Abril, às 18 h (hora local).
O galardão, destinado a trabalhos em prosa inéditos de autores moçambicanos, foi instituído em 2017 pela Imprensa Nacional-Casa da Moeda (INCM), com o apoio do Camões, I. P., dando corpo à sua missão de promoção e preservação da língua portuguesa.
Além de procurar incentivar a criação literária moçambicana, através da edição das obras distinguidas e da atribuição de 5 mil euros ao vencedor, o Prémio presta ainda homenagem à figura de Eugénio Lisboa, enquanto cidadão e homem de cultura nascido em Moçambique.
A promoção da criação literária em língua portuguesa, acolhendo novos títulos e autores do mundo, faz parte das atribuições da INCM, que, além do Prémio INCM/Eugénio Lisboa, instituiu em 2010 o Prémio INCM/Ruy Cinatti, para Timor-Leste, e criou, em parceria com a Imprensa Nacional de Cabo Verde, o Prémio Literário Arnaldo França, que irá distinguir anualmente autores cabo-verdianos." INCM

Pablo Picasso




quinta-feira, 12 de abril de 2018

Fernande Picasso

" Antes de decidir escrever este livro sobre os meus vinte e cinco anos com Gertrude Stein, dizia muitas vezes que ia escrever " As esposas de Génios a quem fiz companhia". Fiz companhia a tantas. Fiz companhia a esposas que não eram esposas, de génios que eram verdadeiros génios. Fiz companhia a esposas de verdade , de génios que não eram verdadeiros génios. Fiz companhia a esposas de génio, de quase génios, de pretensos génios, ou seja fiz companhia muitas vezes e durante muito tempo, a diversas esposas e a esposas de diversos génios.
(...) Fernande , que então vivia com Picasso e já estava com ele havia muito tempo, isto é, tinham ambos vinte e quatro anos mas estavam juntos havia muito tempo, foi a primeira esposa de um génio a quem fiz companhia e não era nada divertida. Falámos de chapéus. Fernande tinha dois assuntos, chapéus e perfumes. Nesse primeiro dia falámos de chapéus. Ela gostava de chapéus, tinha a verdadeira sensibilidade francesa por um chapéu, se ele não provocasse qualquer dichote de um homem na rua, é porque não era um sucesso. Mais tarde, uma vez eu e ela seguíamos juntas por Montmartre. Ela levava um grande chapéu amarelo, e eu um azul, muito mais pequeno. Enquanto caminhávamos, um operário parou e exclamou, ali vão o Sol e a Lua a brilhar em conjunto. Ah, disse-me Fernande com um sorriso radiante, como vê, os nossos chapéus são um sucesso."
Alice Toklas, in "Autobiografia de Gertrude Stein", Relógio D'Água Editores, Setembro 2017 , pp. 22,23

quarta-feira, 11 de abril de 2018

José Régio


JOSÉ RÉGIO 45 ANOS DEPOIS
Por Eugénio Lisboa
“Falecido, fez há escassas semanas 45 anos, poucos grandes escritores portugueses terão legado à posteridade uma herança tão poliédrica, tão diversa, tão rica, tão contraditoriamente provocante ou desafiante, como o autor desse poderoso romance que se intitula Jogo da Cabra Cega. De não muito lhe tem valido tal riqueza, numa república das letras onde impera, como nunca, a leviandade, o atrevimento provinciano, a glo-glória gulosamente abocanhada ao sair do ovo, as obras completas e encadernadas aos quarenta e pouco e uma máquina publicitária bem montada e bem oleada, que impõe reputações como quem promove automóveis topo de gama. Quando penso em certas glórias hoje trombeteadas, promovidas, televisionadas e multiplamente apaparicadas, ocorre-me a asserção do inestimável Daniel Boorstin: “Alguns nascem grandes, alguns ascendem à grandeza e ainda alguns contratam oficiais de relações públicas.” Estas, as relações públicas, substituem, com assinalada vantagem, os clássicos aferidores de mérito. A glória tornou-se um “produto” do mercado: inventa-se, promove-se, vende-se e compra-se. Nisso tudo, o mérito é o menos relevante. Tornar alguém famoso e vendável, da noite para o dia, é uma profissão nova e rendosa.
Nascido, mal acabara de acabar o século XIX, José Maria dos Reis Pereira, que se celebraria literariamente com o nome de José Régio, entrou ambiguamente num século XX que, a um tempo, perscrutou, assimilou e questionou. Pouco dado a modas e a “ismos”, embora empurrado a contragosto, por alguns, para o modernismo, José Régio iria, desde muito cedo, tornar-se dono de si mesmo, asperamente e insubornavelmente independente, visitando as artes modernas e os seus vários “ismos”, mas não se deixando nunca inserir, redutoramente, em escolas, movimentos ou “lobbies”, fossem estes de que cariz fossem. Aliás, nenhum verdadeiro criador cabe nunca, inteiro, numa escola ou movimento, isto é, jamais se deixa reduzir às coordenadas limitadoras de um qualquer “ismo”: nem Flaubert cabe, completo, no realismo, nem Stendhal no romantismo, nem Pessoa no Orpheu(ismo). Ao agredir-se os da presença, tem-se tentado confiná-los num alegado “psicologismo”, no qual abundantemente se cospe. Ora, em primeiro lugar, se a psicologia assenta bem em Proust, não se vê por que assentará mal em Régio ou Branquinho ou Simões. Em segundo lugar, reduzir a criação presencista ao reino do psicológico é pura e simplesmente tresler ou não ler os textos em apreço. Na obra de Régio, há psicologia, sociologia, política, misticismo, mitologia, observação minuciosa da realidade exterior (incluindo a caricatura e a sátira), compaixão com a miséria humana, filosofia da arte e por aí fora. Nem só de psicologia viveu a presença, como nem só de realismo ou de naturalismo vivem as obras de Flaubert ou Zola. Pessoa não teve que ver apenas com o Orpheu e Almada excedeu folgadamente as zaragatas anti-Dantas (aliás bem piores do que o Dantas) e outras do mesmo gosto. Todo o grande criador transcende sempre a pífia medalha em que gostam de o fixar. O problema de Régio e de outros grandes escritores portugueses não é um problema dele – é um problema nosso, de nós, seus herdeiros. A maioria das pessoas – mesmo os críticos e os emissores de opinião – não lêem de um modo geral os textos sobre que se pronunciam: lêem, de preferência, o que outros disseram deles. E estes, por sua vez, fizeram exactamente o mesmo, numa eterna leitura em segunda, terceira ou quarta mão. De modo que os mal-entendidos se perpetuam ao sabor do tempo. Dizia Rilke que “a fama é o agregado de todos os mal-entendidos que se coligem à volta de um nome.” Neste gosto de simplificar, para uso rápido e mais ou menos mundano, Régio é “psicólogo”, Torga é “telúrico”, Aquilino é “palavroso” e Pessoa “heteronímico”. Simplesmente, cada um deles é muito mais e mais complicadamente do que aquilo a que o querem reduzir. O nosso problema com qualquer destes figurões é termos que os ler, se os quisermos conhecer. Como têm, por outro lado, uma obra vasta, rica e contraditória, lê-los em diagonal ou de ouvido não dá. É mesmo preciso lê-los, no seu todo, com atenção e minúcia. Mas, neste mundo de informação aos baldes, navegase, de preferência, à superfície das obras e a grande velocidade, o que não é bem o mesmo que frequentá-las a sério. Resumindo muito e com alguma crueldade, Régio não se serve em pastilhas para consumo fácil e distraído. E nem sequer é ele o único esquecido e mal lido. Quem lê, hoje, o que se chama ler, Teixeira-Gomes, Sá-Carneiro, Teixeira de Pascoaes, Raul brandão, Afonso Duarte, Marmelo e Silva, Domingos Monteiro, João de Araújo Correia, Maria Judite de Carvalho, Irene Lisboa, José Rodrigues Miguéis e por aí fora? Os nossos jovens génios pensam que a literatura portuguesa começou no mês passado, com o aparecimento surpreendente de um romance de um amigo talentoso e só um nadinha analfabeto ou com um livrinho de poemas muito infractores de uma amiga com imenso ímpeto e só um bocadinho inculta, tudo gente que um prémio qualquer apaparicou e catapultou para a glo-glória. Ora, uma ideia luminosa, em matemática ou em física, pode ter.se aos vinte e poucos anos, mas a cultura leva muitas décadas a adquirir. O que falta nas avaliações irresponsáveis e hiperbólicas - e quase sempre amnésicas – que por aí pululam é uma sólida base cultural (com alguma saudável formação filosófica, pelo meio) que, por isso mesmo que não existe, catapulta para a ribalta mediocridades e inépcias que só a ignorância pode apadrinhar.  
José Régio, uma das grandes figuras da cultura portuguesa, não só do século XX, mas de toda a nossa história literária, é hoje quase totalmente ignorado por uma geração à qual o “surfing” leviano pelas informações sem dono, na Internet, tornou inapta para as sondagens em profundidade, a que a obra do autor de Histórias de Mulheres naturalmente convida.
Grande poeta, grande ficcionista, grande dramaturgo, grande ensaísta e crítico literário, o autor paciente e obstinado de A Velha Casa, de Benilde ou A Virgem-Mãe, de Mas Deus É Grande e de tantas páginas seminais consagradas a Camões, Camilo, SáCarneiro, Florbela, Pascoaes, Raul brandão, António Botto, Fernando pessoa, Eça, António Sérgio, Aquilino e tantos outros, configura uma riqueza de sondagens, de
ideias, de emoções plasmadas numa linguagem de uma clareza perturbante e perturbada por sombras abissais, que só uma superficialidade militante pode desdenhar. Mas a desatenção, o palrar inconsequente, a vaidade provinciana de se exibir o último produto da feira cultural “lá de fora”, o contentismo primário com a glo-glória misteriosamente surgida e promovida pelo departamento de imagem em vigor – tudo isto foi ampla e certeiramente castigado pelo autor de Jacob e o Anjo. Também por isso tem pago um preço alentado.
 Régio deixa-nos um legado de muitas componentes, uma das quais, talvez a mais valiosa, é também a mais incómoda: foi-o para ele e sê-lo-á, por certo, para quem a receber como testemunho e ideário – refiro-me ao seu inegociável espírito de independência: ao seu ser capaz de dizer “não” quando isso foi o que sentiu ter que dizer, mesmo quando lhe não conviesse dizê-lo. Régio, por outras palavras, nunca lisonjeou os “lobbies” de serviço, em cada momento da sua trajectória: nem os neorealistas – de quem até nem desgostava – no tempo em que estes dominavam o mercado cultural, nem os surrealistas, nem os dos Cadernos de Poesia, nem os concretistas, nem os católicos, nem os ateus, nem os jovens que o adulavam e a quem ele sempre recusou adular, nem nenhum dos diversos “ismos” que invariavelmente apareciam armados da convicção de terem finalmente encontrado a “pedra filosofal”. Dotado de uma “razão” forte, que, aliás, não pouco o incomodava, Régio acantonava-se num cepticismo desconfiado, sabendo muito bem o que duram, em termos de “solução definitiva”, todos esses fulgores, raios e disparos, frequentemente pouco apoiados num sério reflectir.”
Eugénio Lisboa , em “Comunicação apresentada no Instituto de Estudos Académicos para Séniores no ciclo Literatura Portuguesa: Leituras do Século XXI, a 19 de Janeiro de 2015”

terça-feira, 10 de abril de 2018

Vissi d'amore

María Callas , em  "Vissi d'arte", da Ópera Tosca de Giacomo Puccini.

"Vissi d'arte, vissi d'amore,
non feci mai male ad anima viva!
Con man furtiva
quante miserie conobbi aiutai.
Sempre con fè sincera
la mia preghiera
ai santi tabernacoli salì.
Sempre con fè sincera
diedi fiori agli altar.
Nell'ora del dolore
perché, perché, Signore,
perché me ne rimuneri così?
Diedi gioielli della Madonna al manto,
e diedi il canto agli astri, al ciel,
che ne ridean più belli.
Nell'ora del dolore,
perché, perché, Signore,
ah, perché me ne rimuneri così?"

Luigi Illica e Giuseppe Giacosa

segunda-feira, 9 de abril de 2018

Herói positivo

Berlim, 1972 - herói positivo

"Jurgen Gruner, director da Verlag Volk und Welt me escreve narrando o drama que passou a viver após a reunificação da Alemanha. Aquela que foi a monumental editora de literatura estrangeira da finada República Democrática Alemã, a Alemanha do Leste, está ameaçada de não sobreviver à transformação de empresa estatal em empresa privada, de não poder superar as dificuldades nascidas da livre concorrência.
A notícia deixa-me penalizado, da Volk und Welt só posso falar bem. Detentora dos direitos de tradução dos meus livros na RDA, ela os publicou, a todos eles, boas traduções, belas edições, gráfica primorosa, tiragens enormes, pagou-me os direitos autorais, tudo nos conformes.
Minto quando digo que publicou todos os meus livros, houve uma excepção, um livro que a Volk und Welt não traduziu nem publicou. 
Em 1972  recebi carta do responsável literário (sic)  da  editora: recusava-se a editar  Tereza Batista, Cansada de Guerra, dava-me  a razão ideológica: uma puta não pode ser herói  positivo de um romance. 
Herói positivo, sabem o que isso significava na literatura do mundo do socialismo real, esse que se acabou? Se não sabem não procurem saber, não paga a pena." 
Jorge Amado , in Navegação de Cabotagem, Publicações Europa América, pp. 237, 238

domingo, 8 de abril de 2018

Ao Domingo Há Música

É outra vez abril
– e tão perfeito é o azul
que o estendo
ao longo do meu corpo.
Não sei de ninguém tão bem vestido!
                     Eugénio de Andrade 


A música também chega em Abril . Estende-se em perfeita harmonia.
Na Avant Première de 2018, a Göteborgs Symfoniker explora e evidencia  a capacidade que a música tem de se   vestir  de sons vários, diferentes e belos.

sábado, 7 de abril de 2018

Escrevo em apagados muros

Escrevo sobre um muro

J'ecris sur un mur au fond du noir
Guillevi

Escrevo e as portas não se abrem.
Os rios existem, e o mar da rua
existe. Escrevo. E o que espero?
Escrevo em apagados muros, na branca
superfície do muro. Escrevo.

São palavras, palavras. São
palavras.
Não respiram. Não falam.
São desertas.
Não rodam, não batem nos meus pulsos.
E escrevo. Como se esperasse.

Como. Se desertas abrissem.
Para. Para.
Uma vida outra aberta.
Esta e mais nenhuma, a que só temos
sem nunca tê-la, a que seria vida
o que é, e nós sem ela.

Escrevo no muro palavras,
para respirar, quando não posso,
quando o desejo de viver se tornou ténue,
que não sinto senão na ténue página,
na brancura rara que me tenta,
na água sem jardins ao rés da página
ó sede à beira de nascer, ó água!

Escrevo palavras neste muro. Um muro.
Umas palavras. O mar da rua existe.
As portas não se abrem. E não espero.
Escrevo sobre o muro. Umas palavras.
São as palavras que escrevem esse muro.
São as palavras que escrevem esse muro.
O muro existe. Resiste É bem um muro.
As palavras saltam além do muro.

António Ramos Rosa, in Vagabundagem na poesia de António Ramos Rosa,seguido de uma Antologia, Casimiro de Brito, Quasi, 2001

sexta-feira, 6 de abril de 2018

A fenda da divisão

"As fortes chuvas de Março causaram estragos no Quénia. Derrubaram muros de hospitais, inundaram bairros inteiros e fecharam as principais estradas nacionais. Contudo, a maior surpresa foi as chuvas terem evidenciado a fenda que existe no solo africano — que, segundo os geólogos, é a evidência de que o continente africano se vai dividir em dois ao longo das próximas dezenas de milhões de anos.

As chuvas abriram uma fenda no Quénia — e fizeram relembrar que África se vai dividir em dois

As cheias criaram uma fenda que se estende por vários quilómetros perto da cidade de Mai Mahiu, no Rift Valley (Vale da Fenda), rasgando uma estrada e vários terrenos agrícolas.
Segundo o The Quartz, alguns cientistas apontam os tremores sísmicos como a causa da divisão do continente . Contudo, Stephen Hicks, professor na Rockford University, diz, na sua conta de Twitter, que é errado estabelecer uma relação directa entre a actividade sísmica e a fenda na estrada.
Por outro lado, alguns cientistas consideram que ao invés de ser causada pela actividade sísmica, esta falha forma-se através de “tubulações”, uma actividade geológica que ocorre quando as chuvas fortes fazem com que as camadas mais macias do subsolo fiquem sob pressão.
Independentemente das causas, as chuvas fortes evidenciaram uma questão que nada tem de novo. A fenda aconteceu precisamente na East African Rift System (EARS), o lugar onde as placas tectónicas se estão separar e que se estende por cerca de 3 mil quilómetros, desde a zona norte do Golfo de Áden até ao sul de Moçambique.O EARS é a fissura em desenvolvimento que vai separar o continente africano nas próximas dezenas de milhares de anos.

A litosfera da Terra é dividida em várias placas tectónicas, que não são estáticas. As placas não só se podem mover em velocidades variadas como podem “romper”, fazendo que exista uma fenda e levando à possível criação de novos limites de placa. A East African Rift System é um exemplo de como isto pode acontecer.
Os geólogos já atribuíram nomes às placas. Após a divisão, a maior parte de África fica na  placa núbia, enquanto a placa menor é chamada de Placa da Somália (nesta ficará parte do Quénia, Etiópia e Tanzânia).
Esta não é a primeira vez que se abrem fendas no solo africano. Já tinham sido registadas divisões no triângulo de Afar, que atravessa a Etiópia, Eritreia e Djibuti. O processo da divisão foi o mesmo que levou ao desmembramento da África e da América do Sul há cerca de 138 milhões de anos.
Tal como o The Quartz aponta, só porque não conseguimos ver a fenda na sua totalidade, não quer dizer que o continente africano não se esteja a dividir a um ritmo leonino. “Os eventos dramáticos, como falhas repentinas que dividem autoestradas ou grandes terramotos, podem causar uma sensação de urgência, mas, na maioria das vezes, a divisão de África acontece sem que ninguém perceba”, diz Lucia Perez Dias, investigadora na Universidade de Londres." Sapo

quarta-feira, 4 de abril de 2018

Beethoven

Beethoven´s Violin Concerto, pelo violinista James Ehnes, acompanhado pela Gothenburg Symphony, dirigida pelo Maestro Kent Nagano. O registo foi realizado a 23 de Fevereiro de 2018, no Gothenburg Concert Hall.

terça-feira, 3 de abril de 2018

Escrever

UM ESCRITOR NASCE
I
"Nasci numa tarde de Julho, na pequena cidade onde havia uma cadeia, uma igreja e uma escola bem próximas umas das outras, e que se chamava Turmalinas. A cadeia era velha, descascada na parede dos fundos. Deus sabe como os presos lá dentro viviam e comiam, mas exercia sobre nós uma fascinação inelutável (era o lugar onde se fabricavam gaiolas, vassouras, flores de papel, bonecos de pau). A igreja também era velha, porém não tinha o mesmo prestígio. E a escola, nova de quatro ou cinco anos, era o lugar menos estimado de todos. Foi aí que nasci.
Nasci na sala do 3o ano, sendo a professora D. Emerenciana Barbosa, que Deus a tenha. Até então, era analfabeto e despretensioso. Lembro-me: nesse dia de Julho, o sol que descia da serra, era bravo e parado. A aula era de Geografia, e a professora traçava no quadro-negro nomes de países distantes. As cidades vinham surgindo na ponte dos nomes, e Paris era uma torre ao lado de uma ponte e um rio. A Inglaterra não se enxergava bem no nevoeiro, um esquimó, um condor surgiam misteriosamente, trazendo países inteiros. Então, nasci. De repente nasci, isto é, senti necessidade de escrever. Nunca pensara no que podia sair do papel e do lápis, a não ser bonecos sem pescoço, com cinco riscos representando as mãos. Nesse momento, porém, minha mão avançou para a carteira à procura de um objecto, achou-o, apertou-o irresistivelmente, escreveu alguma coisa parecida com a narração de uma viagem de Turmalinas ao Polo Norte.É talvez a mais curta narração no género. Dez linhas, inclusive o naufrágio e a visita ao vulcão. Eu escrevia com o rosto ardendo, e a mão veloz tropeçando sobre complicações ortográficas, mas passava adiante. Isso durou talvez um quarto de hora, e valeu-me a interpelação de D. Emerenciana.
– Juquita, que que você está fazendo?
O rosto ficou mais quente, não respondi. Ela insistiu:
– Me dá esse papel aí… me dá aqui.
Eu relutava, mas os seus óculos eram imperiosos. Sucumbido, levantei-me, o braço duro segurando a ponta do papel, a classe toda olhava para mim, gozando o espectáculo da humilhação. D. Emerenciana passou os óculos pelo papel e, com assombro para mim, declarou à classe:
– Vocês estão rindo do Juquita. Não façam isso. Ele fez uma descrição muito chique, mostrou que está aproveitando bem as aulas.
Uma pausa, e rematou:
– Continue, Juquita. Você ainda será um grande escritor.
A maioria, na sala, não avaliava o que fosse um grande escritor. Eu próprio não avaliava. Mas sabia que no Rio de Janeiro havia um homem pequenino, de cabeça enorme, que fazia discursos muito compridos e era inteligentíssimo. Devia ser, com certeza, um grande escritor, e em meus nove anos achei que a professora me comparava a Rui Barbosa.
A viagem ao Pólo foi cuidadosamente destacada do caderno onde se esboçara, e conduzida em triunfo para casa. Minha mãe, naturalmente inclinada à sobrestimação de meus talentos, julgou-me predestinado. Meu pai, homem simples, de bom-senso integral, abriu uma excepção para escutar os vagidos do escritorzinho. Ganhei uma assinatura do Tico-Tico, presente régio naqueles tempos é naquelas brenhas, e passei a escrever contos, dramas, romances, poesias e uma história da guerra do Paraguai, abandonada no primeiro capitulo para alívio do Marechal Lopez.

II

Escrevi. Escrevi. Deixei Turmalinas. No internato, fui redactor da Aurora Ginasial, onde um padre introduziu criminosamente, em minha descrição da primavera, a expressão "tímidas cecéns", que me indignou. Cá fora, revistas literárias passaram a abrigar-me com assiduidade. Em uma delas meu retrato apareceu, com adjectivos. Não me pagavam nada, nem eu podia admitir que literatura se vendesse ou se comprasse. Quantas vezes meu coração bateu quando os dedos folheavam, trémulos, o número de sábado, ainda cheirando a tinta de impressão ! Publicou... Não publicou... E sempre a descoberta do meu trabalho, ainda em plena rua, despertava a sensação incómoda do homem que foi encontrado nu e não teve tempo de cobrir as partes pudendas. Eu escondia meu crime, orgulhoso de tê-lo cometido, fazendo da literatura um segredo de masturbação. Havia semanas em que o Fon-Fon!, o Para Todos, a Careta e a Revista da Semana publicavam simultaneamente trabalhos de minha humilde lavra, todos ou quase todos poemas em prosa, em que me especializara. Nem sempre havia numerário suficiente para adquirir todas as revistas, e então o copo de leite quente, com pão e manteiga, à noite, antes de ir para a pensão, sacrificava-se com galanteria às belas-letras.
Escrevi muito, não me pejo de confessá-lo. Em Turmalinas, gozei de evidente notoriedade, a que faltou, entretanto, para duração, certo trabalho de jardinagem. É verdade que Turmalinas me compreendia pouco, e eu a compreendia menos. Meus requintes espasmódicos eram um pouco estranhos a uma terra em que a hematita calçava as ruas, dando às almas uma rigidez triste. Entretanto, meu nome em letra de fôrma comovia a pequena cidade, e dava-lhe esperança de que o meu talento viesse a resgatar o melancólico abandono em que, anos a fio, ela se arrastava, com o progresso a 50 quilómetros de distância e cabritos pastando na rua.
Não houve resgate, e a cidade esqueceu-me. Nunca mais voltei lá. De lá ninguém me escreveu, pedindo para fazer uma página sobre o Pico do Amor ou a Fonte das Sempre-Vivas. Meus parentes espalharam-se ou morreram. 0 escritor tornou-se urbano.

III

Publiquei três livros, que foram extremamente louvados por meus companheiros de geração e de pensão, e que os críticos académicos olharam com desprezo. Dois volumes de contos e um de poemas. Distribuí as edições entre jornais, amigos, pessoas que me pediram, e mulheres a quem eu desejava impressionar.
Sobretudo entre as últimas. Minha táctica, de resto bem simples, consistia em jamais pronunciar ou sugerir a palavra literatura. Eu não era um literato que se anunciava, mas um homem que, no fundo, sofria por saber-se literato. Minha literatura assumia feição estranha, com alguma coisa de nativo e contrariado na origem, mas vegetando não obstante.

- O senhor escreve coisas lindíssimas, eu sei...

- Calúnia de meus inimigos. Infelizmente, é impossível viver sem fazer inimigos. Eles é que espalham isso, não acredite...

Meu sorriso ambíguo, de dentes não suficientemente íntegros (ganhei fama de irónico por causa do sorriso envergonhado) sublinhava a intenção discreta da negativa.
O sujeito afastava-se, impressionado. Muitas reputações nacionais não se estabelecem de outro modo. Eu escrevia.

IV

Escrevia realmente para que, escrevia por quê? Autor, tipógrafo e público não saberiam responder. Eu não tinha projectos. Não tinha esperanças. A forma redonda ou quadrada do mundo me era indiferente. A maior ou menor gordura dos homens, sua maior ou menor fome não me preocupavam. Sabia que os homens existem, que viver não é fácil, que para mim próprio viver não era fácil, e nada disso contaminava meus escritos. Dessa incontaminação brotara, mesmo, certa vaidade. "Artista puro", murmurava dentro de mim a vozinha orgulhosa. "Não traia o espírito", acrescentava outra voz interior (borborigmo, talvez). Como o espírito não protestasse, eu me atribuía essa dignidade exemplar, feita de gratuidade absoluta. E escrevia. Rente a meu ombro, outros rapazes faziam o mesmo. E não queríamos nada, não esperávamos nada. Éramos muito felizes, embora não soubéssemos, como acontece geralmente.
O meu, o nosso individualismo fundamental proibia-nos o aconchego das igrejinhas. Éramos ferozmente solitários. Em cada Estado do Brasil, uma academia de letras reunia os gregários, distribuía louros inofensivos. Esses louros repugnavam-me, e os académicos, geralmente pessoas sem complexidade, eram a meus olhos monstros de intolerância, inveja, malícia e incompreensão, intensamente misturadas. O facto de terem quase todos mais de 45 anos apenas adoçava esse sentimento de repulsa, para introduzir nele um grão de piedade triste. Em verdade, ter mais de 45 anos era não somente absurdo como prova de extrema infelicidade. Até certo ponto, os académicos mereciam simpatia. Como os dromedários, animais estranhos que não podem ser responsabilizados pelo género de vida que lhes impõe o vício de nascença.
Fugindo aos mais velhos, seria natural que nos ligássemos uns aos outros, os de 20 a 25 anos. Cultivávamos mais ou menos os mesmos preconceitos. As mesmas fobias em cada um de nós. Desgraçadamente, elas nos impunham o cauteloso afastamento recíproco, e nossas conversas de bar, noite afora, tinham traços de ferocidade e autoflagelação. Entretanto...
Licurgo, que compusera comigo o "Poema do Cubo de Éter", descobriu certa noite o tomismo, e eu o expulsei de minha convivência. Mas, sua voz, continuou pregando os novos tempos, perturbando almas sedentas de verdade e metafísica.
Aleixanor, tendo comprado num sebo as Cartas aos Operários Americanos, de Lenine, e começando a colaborar no Grito Proletário, sofreu de minha parte uma campanha de descrédito intelectual. Voltou-se para a acção política, fundou sindicatos, escreveu e distribuiu manifestos, e desfrutou de certa notoriedade até o golpe de 35, quando emudeceu.
A poetisa Laura Brioche fundou um Clube de Psicanálise, que procurei desmoralizar na primeira reunião, introduzindo sub-repticiamente entre os sócios, antes da votação dos estatutos, volumosa quantidade de uísque, genebra e gim. A sessão dissolveu-se em álcool, mas restaram aqui e ali grupos de bem-aventurados que se entretinham na interpretação onírica e confrontavam gravemente seus respectivos complexos, recalques e ambivalências.
Fundaram-se sucessivamente, a Associação dos Amigos dos Livros de História, a Academia dos Gramáticos de Ouro Preto, um Curso de Alimentação Racional, a Sociedade de Aculturação Ário-Africana, o Grupo Deus-Pátria-Justiça-Ensino Profissional, o Clube Esperantista Limitado, o Instituto de Genética.
Todos, em redor de mim, se iam afirmando, fixando.
Todos optavam. Nos jornais, passavam do suplemento de domingo à página editorial. Alguns recebiam manifestações de apreço, outros eram chamados a trabalhar em gabinetes de secretários de Estado. Vários compraram lotes, começaram a edificar. Um deles, extraordinário, conquistou um cartório. A floração de filhos, vitoriosos em concursos de puericultura, afirmava o rumo seguro de minha geração.
Eu perseguia o mito literário, implacavelmente, mas, sem fé. Nunca meus poemas foram mais belos, meus contos e crónicas mais fascinantes do que nesse tempo de crescente solidão. Solidão, solidão... Era só o que havia em torno a mim, dentro em mim. Era como se eu morasse numa cidade que, pouco a pouco, fosse ficando deserta. Algum tempo mais, não haveria ninguém para dirigir os sinais luminosos nas esquinas, dar corda aos relógios, velocidade aos bondes, carne, pão e fruta às casas. De resto, para que bondes, relógios?... Já não havia ninguém, todos se haviam mudado para as cidades em frente, ao norte, ao sul, e eu passeava lugubremente minha solidão nas ruas que ressoavam a meu passo, ruas que outrora me eram familiares, e agora pareciam escurecer, mudar de forma, de cheiro: de tal modo estavam ligadas a uma época, uma geração, um estado de espírito que se decompunham... Tudo ia escurecendo... escurecendo... Mas eu andava, eu continuava, eu não queria acreditar...
Risquei um fósforo, já sob a escuridão absoluta, e na lâmpada que minhas mãos em concha formavam, percebi que tinha feito 30 anos. Então morri. Dou minha palavra de honra que morri, estou morto, bem morto."
Carlos Drummond de Andrade, in  Contos de Aprendiz, Editora Record

segunda-feira, 2 de abril de 2018

Citando


“Os infelizes são ingratos; isso faz parte da infelicidade deles.”
                                                     Victor Hugo
“Onde o amor impera, não há desejo de poder; e onde o poder predomina, há falta de amor. Um é a sombra do outro.”
                                                    Carl Jung
“Eu aprendi que tudo o que precisamos é uma mão para segurar e um coração para nos entender.” 

                                                      William Shakespeare

domingo, 1 de abril de 2018

No Domingo de Páscoa Há Música




"Era a época da Páscoa que se enchia de muitos momentos de grande assombro. Momentos que nunca me abandonaram e que me trazem odor , cor e ternura.
Era o tempo da Primavera e, com ela, acordava o jardim numa festa de cor e de fragância. Com sabedoria, E.M. Cioran já afirmara: Se cheirássemos uma rosa até sentir a sua música, que outra marcha fúnebre nos abriria com maior delicadeza uma tumba no céu? E não perde o céu o seu próprio brilho, dissolvido numa melodia que baixa até nós? O jardim era isso: o reino encantado da minha mãe. Perdia-se nele todos os dias. Plantava, semeava, podava e acariciava cada jovem flor que brotava. (...) Entre elas, encantavam-me as tulipas. Eram singulares, majestosas e belas. Havia de todas as cores . Nesse tempo, eram, para mim, o prenúncio da Páscoa. Não havia festa pascal na Quinta sem o adorno dessas flores. Exerciam, sobre os meus olhos, um fascínio que me levava a contemplá-las , cada manhã da sua curta existência. Media-lhes o tamanho, a cor e a altivez erecta com que se apresentavam. Amarelas, vermelhas, lilases, pretas, brancas, azuis resplandeciam em exuberante sequência cromática. Essa profusa e intensa paleta capturava-me. Todo esse esplendor se perdeu, quando cresci e me fiz adulta. As tulipas das floristas não tinham qualquer resquício da beleza fulgurante desse jardim de infância: o reino encantado da minha mãe.
Nem os campos da florida Holanda, com uma inédita profusão de tulipas, foi capaz de rivalizar ou substituir esse encanto . A memória teima em corroborar que só na infância me foi possível esse deslumbramento. Experiência única que permanece inalterável num dos seus recônditos cantos."
Maria José Vieira de Sousa, in O livro que já escrevi

E porque é Páscoa, talvez a Música possa também provocar, em nós, o encanto e o deslumbramento ímpares dos dias a memorar.
A notável voz de Barbara Hendricks numa magnífica interpretação de Laudate Dominum  de Vesperae Solennes de Confessore, KV 339, de Wolfgang Amadeus Mozart a Capella Istropolitana interpretando  'Hallelujah" de "Messiah",  de Georg Friedrich Händel.