quinta-feira, 20 de setembro de 2018

Um mapa das casas dos escritores do UK

Keats House, London

© Robert Estall Photo Agency/Alamy


The TLS Map of Writers’ Homes
A literary map of the United Kingdom
RODERICK NIEUWENHUIS
TLS Map of Writers’ Homes is ​far from complete. Help us to populate it with the houses of (deceased) writers.​ Email the author’s name, the location of the house, and a maximum of 50 words to: writershomes@the-tls.co.uk
The map will be updated every week.

In the early morning of November 16, 1940, a German air raid laid waste to great parts of Bournemouth, killing fifty-three people and damaging more than 2,000 properties in three separate areas of the city. One of the houses that fell to the German bombs was Skerryvore. From 1885–7, this house was owned by Robert Louis Stevenson, who relocated to the Victorian coastal town in the hope of restoring his health. He named the house after the tallest lighthouse in Scotland, built by his uncle around 1840. It was in Skerryvore that he wrote The Strange Case of Dr Jekyll and Mr Hyde (1886), and began Treasure Island.
Today Skerryvore is a symbol of Britain’s love for its literary heritage. Although completely destroyed in 1940, the plot of land on which the house stood has been intentionally left vacant, and is decorated with numerous commemorative plaques. The site was turned intro a memorial garden, “designed and constructed by the Bournemouth corporation in 1957 as a memorial to Robert Louis Stevenson”.
“A public appetite for places of literary interest has shown no signs of abatement”, reports the most recent edition of The Oxford Guide to Literary Britain and Ireland, and visitor numbers prove the point. The five former homes of William Shakespeare attract around 750,000 people each year. The Jane Austen Museum in Chawton is annually visited by 40,000 people. When Greenway, Agatha Christie’s summer house in Devon, opened in 2000, visitor numbers were so great that people had to be turned away.
London was the world’s first capital to honour the homes of writers with commemorative plaques. Since 1866, more than 900 Blue Plaques have been planted on culturally important London buildings. The first marked the home of Lord Byron, which was eventually demolished in 1889. But residences of Oscar Wilde and Vincent van Gogh were saved from destruction because they bore the signal of cultural significance.
A hundred years ago, Edward Thomas was perhaps the first to shine a light on British writers’ homes when he published A Literary Pilgrim in England, in which he described the houses of more than twenty British writers, from Charlotte Brontë to Walter Scott. The book was published in 1917, the year in which Thomas died of injuries sustained during the Battle of Arras. Though buried in France, England has not forgotten Thomas. Many of his own former dwellings bear a commemorative plaque, and in 1985 he was honoured as a war poet with a place in  Poet’s Corner. Thomas, like Skerryvore, was destroyed in war. But neither are forgotten.

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quarta-feira, 19 de setembro de 2018

Uma voz moçambicana

"Selma Uamusse tem soul, rock, gospel, afro-beat e dança na voz, fruto das suas raízes partilhadas entre Moçambique, Portugal e o mundo. Já teve um ensemble de jazz, foi uma das vozes dos Wraygunn, colaborou com Rodrigo Leão.
"Mati", o seu primeiro álbum, culmina um longo período de maturação, através do qual Selma (re)encontrou a sua pátria física e espiritual, e pô-la em contacto com a sua própria bagagem. "Foi só em 2012 que decidi que ia trabalhar para ter uma carreira a solo. Vinha do gospel, andava a estudar e a cantar jazz, tinha passado pelo rock, e tinha uma série de influências - do funk à soul - que me permitiam ter um leque muito diversificado. Fui desafiada para trazer tudo isso para uma consciência da minha identidade como moçambicana. Trabalhei para encontrar uma sonoridade na qual me sentisse sincera, sinceramente moçambicana, mas sinceramente influenciada por tudo o que é a minha educação em Portugal e a minha educação musical".
Eis Selma Uamusse, numa  sessão gravada para as EA LIVE Sessions, com entrevista conduzida por Carolina Bernardo.
Alinhamento:
#01 Mati (00:00)
#02 Mozambique (04:57)
#03 Ngono Utana Vuna (10:40)
#04 Monica (16:00

terça-feira, 18 de setembro de 2018

As coisas mais estúpidas de sempre

As coisas mais estúpidas de sempre
Por Eugénio Lisboa
"Há, sobretudo em Inglaterra, dicionários para todos os gostos: dicionários para coisas que se devem dizer depois do jantar, dicionários de insultos, dicionários das melhores coisas que se disseram nos anos 80 ou 90 do século passado, dicionários das melhores tiradas no Parlamento, etc., etc. Pensem na possibilidade de um dicionário qualquer e verificarão que ele já existe.
Um dos dicionários que adquiri, quando vivia em Londres, foi um dicionário de “As 776 coisas mais estúpidas que jamais se disseram”. É uma colecção que nos tira o fôlego, porque colige os disparates ditos ao longo das diferentes Idades de Ouro da Estupidez. Vou dar-vos, aqui, uma pequena amostra daqueles deslizes a que não só os estúpidos estão sujeitos. Se gostarem, poderei dar-vos, depois, uma segunda amostra.
Em primeiro lugar, cito Virginia Guyda, que foi funcionária na Itália Fascista e que assim opinou sobre o item “cultura”: “A cultura é necessária mas deve ser viva e não muito abundante.” A seguir, dou-vos um mimo, da autoria de Johny Walker, campeão de luta de punho (wrist wrestler), informando como conseguira os seus triunfos: “É cerca de 90 por cento de força e 40 por cento de técnica.” E, já agora, este convite de um hotel japonês aos seus hóspedes: “Está convidado a aproveitar a criada de quarto.” Noutro registo, o historiador do Estado do Tennessee, John Trotwood Moore, exprimia assim a sua ilimitada admiração por Andrew Jackson: “Acredito que, depois de Deus, Andrew Jackson foi o maior homem que jamais viveu.” E, já que falamos de política e de políticos, esta pérola da autoria de Alf London (na América), dizendo isto, na sua campanha eleitoral contra Roosevelt: “Onde quer que fui, neste país, encontrei americanos.” Célebre, pelos seus “goldwynismos”, era o produtor cinematográfico americano Samuel Goldwyn, a quem, por altura em que fazia filmar um “western”, vieram dizer que precisavam de mais índios para o que iam filmar: “Tirem alguns do reservatório”, ordenou ele, no seu inglês de trapos, confundindo “reservatório” com “reserva”.
Os políticos são os campeões, neste concurso da estupidez: Orrin Hatch, senador republicano do Utah, explicava assim o seu apoio à pena de morte: “A pena de morte é o reconhecimento, pela nossa sociedade, da santidade da vida humana.” Outro exemplo é esta apresentação feita ao Parlamento, no século XIX: “Apresento-vos o Reverendo Padre McFadden, conhecido em todo o mundo e noutros lugares.” E esta do Presidente da Câmara de Washington D. C., Marion Barry: “Com excepção dos assassinatos, Washington tem uma das taxas de crime mais baixas deste século.” Os políticos, como disse, são os campeões: esta, de um ministro da Informação, na África do Sul (Louis Nel): “Nós não temos censura. O que nós temos é uma limitação àquilo que os jornais podem dizer.” A censura é fértil em atrair os disparates, como se comprova com esta saída do General William Westmoreland, que ficou conhecido pelo seu retumbante fracasso no Vietnam: “Sem a censura, as coisas podem ficar terrivelmente confusas, no espírito das pessoas.”
E, para terminar, mais duas de políticos (sempre os campeões!). Uma, de um legislador irlandês, muito assertivo: ”A única maneira de pôr termo a esta onda de suicídios é tornar o suicídio uma ofensa capital, punível com a morte.” E, por fim, esta deliciosa proclamação oficial do Partido Comunista Chinês, em 1971: “Fazer amor é uma doença mental que desperdiça tempo e energia.”  Eugénio Lisboa, em crónica publicada na Revista " LER", Verão de 2018,Nº150, p 51

segunda-feira, 17 de setembro de 2018

Ai Galileo, Galileo!


Poema para Galileo

Estou olhando o teu retrato, meu velho pisano,
aquele teu retrato que toda a gente conhece,
em que a tua bela cabeça desabrocha e floresce
sobre um modesto cabeção de pano.
Aquele retrato da Galeria dos Ofícios da tua velha Florença.
(Não, não, Galileo! Eu não disse Santo Ofício.
Disse Galeria dos Ofícios.)
Aquele retrato da Galeria dos Ofícios da requintada Florença.
Lembras-te? A Ponte Vecchio, a Loggia, a Piazza della Signoria...
Eu sei... eu sei...
As margens doces do Arno às horas pardas da melancolia...
Ai que saudade, Galileo Galilei!
Olha! Sabes? Lá em Florença
está guardado um dedo da tua mão direita num relicário.
Palavra de honra que está!
As voltas que o mundo dá!
Se calhar até há gente que pensa
que entraste no calendário.
Eu queria agradecer-te, Galileo,
a inteligência das coisas que me deste.
Eu, e quantos milhões de homens como eu
a quem tu esclareceste,
ia jurar - que disparate, Galileo! -
(e jurava a pés juntos, e apostava a cabeça
sem a menor hesitação)
que os corpos caem tanto mais depressa
quanto mais pesados são.
Pois não é evidente, Galileo?
Quem acredita que um penedo caia
com a mesma rapidez que um botão de camisa ou que um seixo da praia?
Era esta a inteligência que Deus nos deu.
Estava agora a lembrar-me, Galileo,
daquela cena em que tu estavas sentado num escabelo
e tinhas à tua frente
um friso de homens doutos, de toga e de capelo,
a olharem-te severamente.
Estavam todos a ralhar contigo:
que parecia impossível que um homem da tua idade
e da tua condição,
se estivesse tornando num perigo
para a Humanidade
e para a Civilização.
Tu, embaraçado e comprometido, em silêncio mordiscavas os lábios,
e percorrias, cheio de piedade,
os rostos inabaláveis daquela fila de sábios.
Teus olhos habituados à observação dos satélites e das estrelas,
desceram lá das suas alturas
e poisaram como aves aturdidas (parece-me que estou a vê-las)
nas faces grávidas daquelas reverendíssimas criaturas.
E tu foste dizendo a tudo que sim, que sim senhor, que era tudo tal qual
conforme suas eminências desejavam,
e dirias que o Sol era quadrado e a Lua pentagonal
e que os astros bailavam e entoavam
à meia-noite louvores à Harmonia Universal.
E juraste que nunca mais repetirias,
nem a ti mesmo na própria intimidade do teu pensamento, livre e calma,
aquelas abomináveis heresias
que ensinavas e escrevias para eterna perdição da tua alma.
Ai Galileo, Galileo!
Mal sabiam os teus doutos juízes, grandes senhores deste pequeno mundo
que assim mesmo, empertigados nos seus cadeirões de braços,
andavam a correr e a rolar pelos espaços
à razão de trinta quilómetros por segundo.
Tu é que sabias, Galileo Galilei!
Por isso eram teus olhos misericordiosos;
por isso era teu coração cheio de piedade,
piedade pelos homens que não precisam de sofrer, homens ditosos
a quem Deus dispensou de buscar a verdade.

Por isso, estoicamente,
compadecidamente,
resististe a todas as torturas,
a todas as angústias, a todos os contratempos,
enquanto eles, do alto inacessível das suas alturas,
foram caindo,
caindo,
caindo,
caindo,
caindo sempre,
e sempre,
ininterruptamente,
na razão directa dos quadrados dos tempos.
António  Gedeão, in "Linhas de Força", Tip. da Atlântida Editora, S.A.R.L. Coimbra,1967

domingo, 16 de setembro de 2018

Ao Domingo Há Música

O seu amor 

O seu Amor
Ame-o e deixe-o livre para amar
Livre para amar
Livre para amar
O seu amor
Ame-o e deixe-o ir aonde quiser
Ir aonde quiser
Ir aonde quiser
O seu amor
Ame-o e deixe-o brincar
Ame-o e deixe-o correr
Ame-o e deixe-o cansar
Ame-o e deixe-o dormir em paz
O seu amor
Ame-o e deixe-o ser o que ele é
Ser o que ele é
Gilberto Gil

Talvez o amor seja o tema inspirador da música. O maior . Aquele que dá mais  forma aos sons. Com palavras ou apenas acordes,  pode  resumir o amor de muitos amores. 
Aimer et penser  c'est la véritable vie des esprits, dizia o sábio Voltaire. Viver sem amor não tem nada de grande. A grandeza de uma vida faz-se e constrói-se de afectos.  E há famílias onde se sente esta verdade. 
Caetano Veloso veio a Portugal para o provar. Trouxe os filhos e fez-nos render à musicalidade das suas vozes. A música   vive entre eles  numa partilha  de intenso afecto.

Caetano Veloso, Zeca Veloso, Tom Veloso e Moreno Veloso , em  O Seu Amor.
Moreno Veloso, Caetano Veloso, Tom Veloso, Zeca Veloso, em Força estranha.
Zeca Veloso, Caetano Veloso, Moreno Veloso , em  Todo Homem.
Moreno Veloso, Caetano Veloso, Tom Veloso, Zeca Veloso, em Tá escrito
Tá escrito
Quem cultiva a semente do amor
Segue em frente e não se apavora
Se na vida encontrar dissabor
Vai saber esperar a sua hora

Quem cultiva a semente do amor
Segue em frente e não se apavora
Se na vida encontrar dissabor
Vai saber esperar a sua hora

Às vezes a felicidade demora a chegar
Aí é que a gente não pode deixar de sonhar
Guerreiro não foge da luta, não pode correr
Ninguém vai poder atrasar quem nasceu pra vencer

É dia de sol, mas o tempo pode fechar
A chuva só vem quando tem que molhar
Na vida é preciso aprender
Se colhe o bem que plantar
É Deus quem aponta a estrela que tem que brilhar

Erga essa cabeça, mete o pé e vai na fé
Manda essa tristeza embora
Basta acreditar que um novo dia vai raiar
Sua hora vai chegar!

Erga essa cabeça, mete o pé e vai na fé
Manda essa tristeza embora
Basta acreditar que um novo dia vai raiar
Sua hora vai chegar!
Xande de Pilares / Gilson Bernini / Carlinhos Madureira

Ficha Técnica:
Produzido por: Moreno Veloso, Caetano Veloso, Tom Veloso, Zeca Veloso, Daniel Carvalho
Director de Vídeo: Fernando Young, Henrique Alqualo, Paula Lavigne
Produtor de Vídeo: Lucas Arruda

sábado, 15 de setembro de 2018

A propósito...


“O descontentamento é o primeiro passo na evolução de um homem ou de uma nação.” Oscar Wilde
“Quando se dorme no chão, não se precisa temer cair da cama.” Anton Lavey
“Quase todos os homens são capazes de suportar adversidades, mas se quiser por à prova o carácter de um homem, dê-lhe poder.” Abraham Lincoln
“O Estado proíbe ao indivíduo a prática de actos infractores, não porque deseje aboli-los, mas sim porque quer monopolizá-los.” Sigmund Freud
“O melhor governo é aquele em que há o menor número de homens inúteis.” Voltaire

sexta-feira, 14 de setembro de 2018

No ar azul da madrugada


E no seu nome esperarão as gentes
Por António Lobo Antunes
"E ali ficámos, agarrados, comigo de novo tão pequeno, tão feliz. Gija. Gija Gija Gija. Os convidados do casamento espantados, as pessoas que olhavam espantadas e eu, muito maior do que ela, de repente pequeno, ao seu colo. Ao seu colo. Tinha um senhor ao lado, que era o marido que eu não conhecia, mas eu queria lá saber do marido. Éramos um do outro, Gija, e voltei a ser o menino de alguém
Quando me sinto desinfeliz vem-me sempre à cabeça o poema de Carlos Queiroz chamado "E No Seu Nome esperarão as gentes”, que é uma citação de São Mateus. Isto dura desde os treze ou catorze anos, quando li o livro de poemas “Desaparecido” que descobri na biblioteca do meu pai. E no meio da desinfelicidade aparece-me logo a primeira quadra

No ar azul da madrugada
virias logo se eu chamasse?
Encostarias Tua face
à minha face enregelada?

Porque é que isto sempre me comoveu e ajudou tanto? Porque volto a ser logo o menino que fui e que o poema torna mais forte no meio da grande solidão que todos temos às vezes:

Se Te contasse o meu desgosto
de quando a angústia me vem ver
ter de expulsá-la pra viver
afagarias o meu rosto?

Esta é uma pergunta minha também. O meu desejo. E aqui, sentado a esta mesa cheia de papéis, escrevo isto comovidamente. Estes versos acompanham-me sempre no ar azul da madrugada, quando tudo me parece irremediável, sem qualquer solução. O que farei de mim, o que farei comigo? E depois, felizmente, voltam a paz e a esperança. Porque carga de água tudo me toca, uma voz, um olhar, um sorriso às vezes, uma senhora de idade a afastar-se de mim a remar com a bengala porque o passeio se transformou numa espécie de mar? Quando eu era pequeno tinha a Gija, uma camponesa galega que me deu tanto amor. Ajudava-me a despir, vestia-me o pijama, ficava ao pé de mim até eu adormecer. Desapareceu da minha vida de repente, não sei porquê, e durante anos e anos não a vi. Quatro meses antes de embarcar para a guerra casei-me, havia pessoas no adro da igreja a olharem, eu não via a Gija
(chamava-se Alice, eu não sabia dizer Alice)
não via a Gija desde os cinco anos, portanto há cerca de vinte e de súbito ela estava ali, no meio das tais pessoas a olharem, gorda, de cabelos brancos e
(como se explica isto?)
soube logo que aquela pessoa era ela. Larguei a noiva, corri para aquela senhora e abracei-a de uma maneira como nunca abracei ninguém. Tinha o mesmo cheiro, a mesma forma de me tocar
(posso estar a ser injusto mas acho que nunca ninguém me tocou como ela)
os mesmos olhos transbordantes de ternura. E ali ficámos, agarrados, comigo de novo tão pequeno, tão feliz. Gija. Gija Gija Gija. Os convidados do casamento espantados, as pessoas que olhavam espantadas e eu, muito maior do que ela, de repente pequeno, ao seu colo. Ao seu colo. Tinha um senhor ao lado, que era o marido que eu não conhecia, mas eu queria lá saber do marido. Éramos um do outro, Gija, e voltei a ser o menino de alguém. Voltei, com tanta força, a ser o menino de alguém. A ternura dela era a mesma, o amor por mim era o mesmo, só que estava cheia de lágrimas. Lembro-me tão bem de dizer-lhe
– Gija nunca deixei de ser o teu menino
e depois voltei para o casamento, para Tomar onde tinha sido colocado antes de ir para Angola, para longe de ti, eu que nunca devia ter saído do teu colo, tu que me amaste sempre incondicionalmente, com tanta pureza, tanta simplicidade, tanta, meu Deus, alegria. E eu que continuo a amar-te de uma paixão tão linda, eu que sempre, ao acontecer-me um desses problemas gravíssimos da infância, uma queda, a perda de um brinquedo, dizia logo
– Quero a Gija
e tudo se compunha outra vez. Foi a última ocasião que te vi, embora continue sempre a ver-te

E se com esta voz de insone
dissesse que não creio em nada
no ar azul da madrugada
escreverias o Teu nome?

embora continue sempre a ver-te, Gija. Não vais acreditar na quantidade de vezes em que penso em ti. Onde quer que estejas, que estupidez dizer isto, estás no Céu de certeza, o teu menino pensa em ti. Há uns anos fui a Compostela receber um prémio, ou seja à tua terra na Galiza. E no discurso de agradecimento, com o Presidente do governo lá deles
(isto passava-se na Catedral e era solene) dediquei-te o prémio e disse o teu nome. Tenho a certeza que estavas lá, com o meu pijama de menino na mão
– Temos que vestir o pijama, Toino
e que te sentia tão orgulhosa de mim. Quando um 
dia morrer vais vestir-mo outra vez, porque não posso aparecer nu diante do Senhor, ordenas a Deus
– Tome bem conta do meu menino, ouviu?
e esperas que Ele te garanta
– Claro que tomo, Gija
antes de te afastares e que, de vez em quando, virás espiar-me no medo que eu tenha desarrumado o cobertor e espirre, ordenando a São Pedro que ponha o olho em mim, porque o meu menino, você é Santo e percebe, não veio aqui para se constipar."
António Lobo Antunes, em Crónica publicada na VISÃO 1331, de 6 de Setembro de 2018

quinta-feira, 13 de setembro de 2018

Cinema

“O Livro da Imagem”, de Jean-Luc Godard, chega a Portugal em Outubro
Por Nuno Oliveira
"O mais recente filme de Jean-Luc Godard, “O livro da Imagem“, que estreou durante a última edição do Festival de Cannes e que fez parte da seleção oficial da competição, vencendo a Palma de Ouro especial, contou com projecções muito limitadas até ao momento; facto esse que torna o regresso da Cinemateca à atividade ainda mais especial.
Ontem, dia 1 de Setembro, o filme foi mostrado pela primeira vez em Portugal durante a sessão de reabertura da Cinemateca, em colaboração com a Midas Filmes. “O Livro de Imagem” regressa a uma reflexão sobre o cinema e o estado do mundo a partir da matéria das imagens e dos sons. Na sinopse lê-se:
“Ainda te lembras de como antes exercitávamos o pensamento? Costumávamos partir de um sonho. Perguntávamo-nos como era possível que, na obscuridade total, em nós surgissem cores de tal intensidade. Diziam-se grandes coisas, coisas importantes, espantosas, profundas e justas, num tom de voz doce e baixo. Imagem e palavra. Dir-se-ia um pesadelo escrito numa noite de tempestade. Sob os olhos do ocidente, os paraísos perdidos. A guerra aí está.”
O filme será distribuído em Portugal pela Midas Filmes em Outubro." Cinema, Sétima Arte, 2 de Setembro de 2018
Trailer de “The Old Man & the Gun”, o último filme de Robert Redford
Por Tiago Resende
"A Fox Searchlight divulgou o trailer de “The Old Man and the Gun”, o novo filme de David Lowery, protagonizado por Robert Redford, Sissy Spacek e Casey Affleck.
“The Old Man & the Gun” promete ser um dos filmes mais aguardados do ano por este ser a despedida do lendário actor Robert Redford. O ator norte-americano, de 81 anos de idade, que ficou famoso sobretudo nas décadas de 1960 e 1970 (em filmes como “A Golpada” e “Os Homens do Presidente”), tinha anunciado no ano passado que se iria reformar do grande ecrã, e que este seria o seu último filme como actor, para se dedicar a tempo inteiro no papel de realizador.
O filme é baseado na história real de Forrest Tucker (Redford), um criminoso que fugiu da Prisão de San Quentin aos 70 anos de idade e realizou uma série de assaltos sem precedentes que confundiram as autoridades e encantaram o público. Estão envolvidos na perseguição a Tucker o detective John Hunt (Affleck) e uma mulher (Spacek), que o ama apesar do seu ofício.
Estreou no Festival de Cinema Telluride, nos EUA, e foi seleccionado para o TIFF (Toronto International Film Festival). Tem estreia prevista em Portugal a 8 de Novembro de 2018." Cinema, Sétima Arte, 1 de Setembro de 2018
Óscares 2019: “O Grande Circo Místico” é o candidato do Brasil ao Óscar de Melhor Filme Estrangeiro
Por Tiago Resende
"A Academia Brasileira de Cinema escolheu “O Grande Circo Místico”, do realizador brasileiro Cacá Diegues (Carlos Diegues), para representar o Brasil na categoria de Melhor Filme Estrangeiro para os Óscares 2019.
O filme, inteiramente rodado em Portugal e co-produzido pela Fado Filmes, conta com a participação dos portugueses Nuno Lopes, Luísa Cruz e Albano Jerónimo, entre outros, e também de conhecidos atores brasileiros como António Fagundes, Vincent Cassel e Mariana Ximenes. Esta co-produção Luso-Brasileira estreia em Portugal a 3 de janeiro de 2019.
“O Grande Circo Místico” conta a história de cinco gerações de uma mesma família circense. Da inauguração do Grande Circo Místico em 1910 aos dias de hoje, acompanha-se, através de Celavi, o mestre de cerimónias que nunca envelhece, as aventuras e os amores dos Kieps, do apogeu à decadência, até ao surpreendente final, num filme em que realidade e fantasia se encontram num universo místico.
“O Grande Circo Místico” junta-se assim à lista de candidatos na categoria de Melhor Filme Estrangeiro, na qual Portugal será representado por “Peregrinação”, de João Botelho. Os nomeados são revelados a 22 de Janeiro, e a 91.ª Gala de entrega dos Óscares está agendada para o dia 24 de Fevereiro de 2019 em Los Angeles." Cinema, Sétima Arte, 12 de Setembro de 2018

quarta-feira, 12 de setembro de 2018

Como mudar o mundo


                  “Depois de subir uma grande colina, só se descobre que há                        muitas colinas para escalar.”
                                                    Nelson Mandela

Nelson Mandela (1918 -2013) foi uma das maiores e notáveis  figuras mundiais que teve a capacidade de surpreender o Mundo e uma Nação, com a coragem do perdão e   a humildade da compaixão. Prémio Nobel da Paz  é reconhecido pela sua sabedoria e filosofia de vida.
Transcrevemos,hoje, vinte e duas citações que podem ser  vinte e duas  grandes lições de vida.
22 lições de vida para aprender com Nelson Mandela
"    1. Pode mudar o mundo através da educação.
“A educação é a arma mais poderosa que  pode usar para mudar o mundo”.
“A educação é o grande motor do desenvolvimento pessoal. É através da educação que a filha de um camponês pode tornar-se um médico, que o filho de um mineiro pode  tornar-se o chefe da mina, que um filho de trabalhadores rurais pode  tornar-se o presidente de uma grande nação. É o que fazemos com o que temos, não com o que nos é dado, que separa uma pessoa da outra”.
  1. Deve sempre procurar viver a vida que acha que merece viver.
“Quando é negado a um homem o direito de viver a vida em que acredita, ele não tem escolha senão se tornar um fora da lei.”
  1. Coragem não é a ausência de medo, mas o triunfo sobre ele.
“Aprendi que a coragem não era a ausência de medo, mas o triunfo sobre ele. O homem corajoso não é aquele que não sente medo, mas aquele que domina esse medo”.
“O homem corajoso não é aquele que não tem medo, é aquele que triunfa sobre seus medos.”
  1. Não há limites, apenas aqueles que  escolhe impor a si mesmo.
“Sempre parece impossível até que seja feito.”
“No meu país, vamos para a prisão primeiro e depois nos tornamos presidente. ”
  1. Mantenha a cabeça apontada para o sol em todos os momentos.
“Eu sou fundamentalmente optimista. Se isso vem da natureza ou da criação, não posso dizer. Para se ser optimista é manter a cabeça voltada para o sol, os pés se movendo para frente. Houve muitos momentos sombrios em que minha fé na humanidade foi seriamente testada, mas eu não iria e não poderia me entregar ao desespero. Isso levaria à derrota e à morte.”
6.     Uma boa cabeça, um bom coração e uma língua ou caneta letrada são sempre uma combinação muito especial.
“Uma boa cabeça e bom coração são sempre uma combinação formidável. Mas quando  acrescenta a isso uma língua ou caneta letrada, então  tem algo muito especial”.
  1. O amor vem mais naturalmente para o coração humano do que o oposto.
“Eu sempre soube que no fundo de todo coração humano há misericórdia e generosidade. Ninguém nasce odiando outra pessoa por causa da cor de sua pele, ou de seus antecedentes, ou de sua religião. As pessoas precisam aprender a odiar, e se podem aprender a odiar, podem ser ensinadas a amar, pois o amor vem mais naturalmente para o coração humano do que o oposto”.
  1. A verdadeira liberdade não é apenas deixar de lado as suas próprias correntes, mas também as correntes dos outros.
“Ser livre não é apenas livrar-se das correntes, mas viver de um modo que respeite e aumente a liberdade dos outros.”
“A liberdade é indivisível; as correntes de qualquer um dos meus homens eram as correntes em todos eles, as correntes de todo o meu povo eram as correntes em mim.”
  1. Ao guardar ressentimento,  se envenena mais do que está envenenando aqueles com quem está ressentido.
“O ressentimento é como beber veneno e depois esperar que mate seus inimigos.”
“Quando saí pela porta em direcção ao portão que levaria à minha liberdade, sabia que se não deixasse minha amargura e ódio para trás, ainda estaria na prisão.”
“Eu sabia muito bem que o opressor devia ser libertado com a mesma certeza que os oprimidos. Um homem que tira a liberdade de outro homem é um prisioneiro do ódio, está trancado atrás das barreiras do preconceito e da mentalidade estreita. Eu não sou verdadeiramente livre se estou tirando a liberdade de outra pessoa, assim como não sou livre quando minha liberdade é tirada de mim. O oprimido e o opressor são roubados de sua humanidade”.
10.  A maior glória em viver não reside em nunca cair, mas em levantar a cada vez que você cai.
“A maior glória em viver não reside em nunca cair, mas em levantar a cada vez que caímos.”
11.Quando o verdadeiro líder governa, as pessoas dificilmente sabem que ele existe.
“Lidere de longe – e deixe os outros acreditarem que estão na frente.”
“Um líder. . .é como um pastor. Ele fica atrás do rebanho, deixando os mais ágeis saírem à frente, ao que os outros o seguem, sem perceber que o tempo todo estão sendo dirigidos por trás.”
“É melhor liderar por trás e colocar os outros na frente, especialmente quando comemora a vitória quando coisas boas acontecem. Vá para  a linha de frente quando há perigo. Então as pessoas vão apreciar a  sua liderança”.
12.Integridade, honestidade e humildade…estas são as três virtudes mais importantes.
“Como eu disse, a primeira coisa é ser honesto consigo mesmo. Nunca poderá ter um impacto na sociedade se não se mudou a si mesmo… Grandes pacificadores são todas pessoas íntegras, honestas, mas humildes”.
13.  Superar a pobreza não é uma tarefa de caridade, é um acto de justiça.
“Superar a pobreza não é uma tarefa de caridade, é um acto de justiça. Como a escravidão e o Apartheid, a pobreza não é natural. É feita pelo homem e pode ser superada e erradicada pelas acções dos seres humanos. Às vezes, cai sobre uma geração ser grande. Pode ser essa grande geração. Deixe a sua grandeza florescer.”
“Que haja justiça para todos. Que haja paz para todos. Que haja trabalho, pão, água e sal para todos. Que cada um saiba que para cada corpo, a mente e a alma foram liberadas para se realizarem”.
14.  É o capitão da sua alma!
“Eu sou o capitão da minha alma.”
15.  Uma nação não deve ser julgada pela maneira como trata seus cidadãos das classes mais altas, mas os das classes mais baixas.
“Dizem que ninguém conhece verdadeiramente uma nação até que alguém esteja dentro de suas cadeias. Uma nação não deve ser julgada pela maneira como trata seus cidadãos das classes mais altas, mas os das classes mais baixas”.
16.  Muda o mundo ao seu redor mudando a si mesmo.
“Uma das coisas que aprendi quando estava negociando foi que, até eu mudar a mim mesmo, não consegui mudar os outros.”
17.  Não julgue um homem pelo seu sucesso, mas sim pelas muitas vezes que ele caiu e se levantou.
“Não me julgue pelos meus sucessos, julgue-me por quantas vezes caí e me levantei.”
18.  Não pode servir a dois mestres
“Não se pode estar preparado para algo enquanto secretamente acredita que aquilo não vai acontecer.”
19.  Não importa onde  esteve. Tudo o que importa é para onde  está indo.
“Não é onde  começa, mas o quão alto é o objectivo que importa para o sucesso.”
20.  Viva a vida como se ninguém estivesse olhando e se expresse como se todos estivessem ouvindo.
“Viva a vida como se ninguém estivesse olhando e se expresse como se todos estivessem ouvindo.”
   21 .É essa diferença que fizemos na vida dos outros que determinará o significado da vida que levamos.
“O que conta na vida não é o simples fato de termos vivido. É essa diferença que fizemos na vida dos outros que determinará o significado da vida que levamos”.
  1. A morte é uma parte natural da vida.
“A morte é algo inevitável. Quando um homem fez o que ele considera ser seu dever para com seu povo e seu país, ele pode descansar em paz. Acredito ter feito esse esforço e, portanto, é por isso que vou dormir por toda a eternidade”.

terça-feira, 11 de setembro de 2018

Os Prémios Literários franceses: primeiras listas

Les 10 membres de l'Académie Goncourt au restaurant Drouant
 le 03/05/2017,photo ©Philippe MATSAS/Leemage.
Prix littéraires: Les premières selections
Manon Houtart
Journaliste
Après la publication de la première liste du Prix Renaudot mardi dernier, c’est au tour de l’Académie Goncourt d’annoncer sa première sélection de romans.
Vendredi 7 septembre, les jurés du prestigieux Prix Goncourt se sont réunis à l’hôtel de ville de Nancy pour composer une première sélection de quinze romans. Peu avant midi, en direct de la 40e édition du Livre sur la place, la liste a été révélée : on y retrouve notamment le premier roman célébré de Pauline Delabroy-Allard, ainsi que ceux de Guy Boley, Meryem Alaoui ou encore Eric Fottorino.

segunda-feira, 10 de setembro de 2018

Os livros que chegam

"A autobiografia do realizador norte-americano David Lynch, o livro do escritor britânico Jon McGregor vencedor do Prémio Costa 2017, e novos romances de Ali Smith e Margaret Atwood marcam a ‘rentrée’ editorial da Elsinore. O livro “Espaço para sonhar” (“Room to dream”), autobiografia do realizador e artista visual norte-americano David Lynch, chega às livrarias portuguesas em outubro, coassinado pela jornalista Kristine McKenna, com cerca de 500 páginas e 30 fotografias, muitas delas inéditas, revelou a editora 2020, responsável pela chancela Elsinore.
Segundo a editora, este “é um livro fundamental que possibilita a oportunidade única de se ter acesso total à vida e mente de um dos artistas mais enigmáticos e profundamente originais do nosso tempo”. As reflexões de Lynch, “poéticas, íntimas e francas, ecoam nas secções biográficas escritas por Kristine McKenna, sua colaboradora próxima, baseadas em mais de uma centena de entrevistas inéditas com familiares e pessoas mais próximas do autor, incluindo ex-mulheres surpreendentemente directas, actores, agentes, músicos e colegas em áreas variadas, cada um revelando a sua própria versão dos acontecimentos”, adianta a editora.
Entre as novidades da Elsinore para o mês de Outubro, conta-se também “Reservatório 13”, de Jon McGregor, que venceu o prémio literário Costa 2017, depois de ter sido finalista do prémio Man Booker, e que vai ser publicado pela primeira vez em Portugal. Ainda no mesmo mês, chega às livrarias “A Odisseia de Penélope”, de Margaret Atwood, a autora de “A história de uma serva” (“The handmaid’s tale”) e vencedora do Man Booker com “O assassino cego”.
Nesta obra, a autora reconta a “Odisseia”, centrando-se na personagem Penélope, que agora, há muito morta e esquecida pelo mundo, vagueia pelos infernos e pode finalmente contar a sua própria versão: “um relato subversivo e divertido sobre luxúria, ganância e violência, onde ninguém é poupado”. O segundo volume da tetralogia de Ali Smith iniciada com “Outono” (finalista do Prémio Man Booker 2017) chega também pela mesma altura às livrarias portuguesas.
“Inverno”, descrito pela crítica internacional como sendo uma prova de mestria literária, e já finalista dos British Book Awards, centra-se num jantar de Natal que reúne numa grande casa de campo uma mulher de 70 anos — Sophia – com início de demência, o seu filho, a braços com a ruptura de uma relação amorosa, uma emigrante croata que este contratou para a substituir, e a irmã de Sophia, com quem não fala há décadas.
No final de Agosto chegou às livrarias “21 lições para o século XXI”, um olhar sobre os grandes desafios da actualidade pelo historiador Yuval Noah Harari, depois de “Sapiens”, que se debruçou pelo passado, e “Homo Deus”, virado para o futuro. Em Setembro, a Elsinore publica “Dor”, “uma viagem catártica através do sofrimento”, de Zeruya Shalev, escritora israelita que, a par de Amos Oz e David Grossman, é uma das mais lidas no mundo, segundo a editora.
“Tudo aquilo que não lembro”, uma viagem emocional que parte de uma morte resultante de um acidente de viação, da autoria do sueco Jona Hassen Khemir, e “Tudo o que um homem é”, de David Szalay, que segue nove homens em fases diferentes da vida a tentarem compreender o que significa exactamente estar vivo, aqui e agora, são outras novidades da Elsinore.
“Fica comigo”, do nigeriano Ayobami Adebayo, “O elmo do horror”, do escritor russo Victor Pelevin, “Tudo aquilo que encontrei na praia”, de Cynan Jones – de quem a editora já publicou “A cova” e “A baía” -, e o ensaio “Histórias de livros perdidos”, de Giorgio van Straten, fecham a lista de novidades da Elsinore até final do ano.
Na chancela Cavalo de Ferro será publicado, já no próximo mês, “Raposa”, da escritora Dubravka Ugresic, que transporta o leitor numa viagem da Rússia até ao Japão, dos campos de minas dos Balcãs, às ‘road trips’ norte-americanas, e dos anos 1920 até aos dias de hoje.
Em Outubro, sai o livro “Rua Katalin”, da escritora húngara Magda Szabó, de quem a Cavalo de Ferro já publicou “A porta”, uma obra com fundo histórico, sobre os acontecimentos traumáticos que marcaram parte da História da Hungria e da Europa no século XX. Para Outubro está prevista ainda a publicação do último volume da trilogia autobiográfica do Nobel da Literatura Elias Canetti, “O jogo de olhares: História de vida 1931-1937”.
“Os peixes não têm pés”, uma saga familiar de três gerações, que acompanha a história da Islândia do século XX, livro do multipremiado autor islandês Jón Kalman Stefánsson, finalista do Prémio Man Booker Internacional 2017, e “Memórias de um morto”, escrito por Hjalmar Bergman e traduzido por João Reis, são as outras novidades da Cavalo de Ferro até ao final do ano."Agência Lusa
Segundo volume das obras completas de Maria Judite de Carvalho editado em Setembro
A editora Minotauro vai dar continuidade já em Setembro à publicação das obras completas de Maria Judite de Carvalho, uma das mais importantes escritoras portuguesas do século XX.
Por Rita Cipriano
"O segundo volume das obras completas de Maria Judite de Carvalho, considerada uma das mais importantes autoras portuguesas do século XX, chega às livrarias já em Setembro. O livro inclui duas colectâneas de contos, Paisagem sem Barcos (1963) e O seu Amor por Etel (1967), e uma novela, Os Armários Vazios (1966).
As obras de Maria Judite de Carvalho, esgotadas há muito, começaram a ser reeditadas no passado mês de Maio pela editora Minotauro, 20 anos depois da morte da escritora que, apesar de reconhecida como uma das mais relevantes do século XX, é praticamente desconhecida do grande público.
“Decidimos que seria a altura ideal, 20 anos após a sua morte, para fazer renascer a sua obra, e para apresentá-la a esta nova geração de leitores, que começa a ler Maria Judite de Carvalho na escola e que nas livrarias não iria ter acesso a toda a sua escrita em vida, portanto estamos a querer juntar toda a sua obra em seis volumes”, afirmou na altura à Agência Lusa Sara Lutas, editora da Minotauro.
Com uma personalidade “recatada” e “zelosa da sua privacidade”, Maria Judite de Carvalho nunca gostou de se expor, e “a obra dela sempre falou por si mesma”, explicou Sara Lutas, que decidiu, por isso, respeitar essa vontade e não dar grande destaque à figura da escritora, que é apresentada na badana dos livros “de forma discreta e bastante lírica”. As capas dos livros reproduzem retratos que revelam outra faceta da escritora, a de pintora.
As obras completas de Maria Judite de Carvalho têm vindo a ser editadas cronologicamente, com o primeiro volume a incluir as primeiras colectâneas de contos da autora, Tanta Gente, Mariana (1959) e As Palavras Poupadas (1961), esta última vencedora do Prémio Camilo Castelo Branco. O terceiro volume deverá sair em Novembro e irá reunir os livros Flores ao Telefone (1968), Os Idólatras (1969) e Tempo de Mercês (1973)."

domingo, 9 de setembro de 2018

Ao Domingo Há Música

     

  Não há regra que não possa ser quebrada por amor do mais belo

                                                                  Ludwig van Beethoven

Ludwig van Beethoven (1770-1827) foi um dos génios da História da Música. A própria vida foi atribulada . Teve de vencer obstáculos para dar lugar à sua extraordinária criatividade. Não houve regra que escondesse o seu  amor pelo mais belo. Homem de um talento imensurável,   a  sua  última sinfonia  completa, finalizada  em 1824, a  Sinfonia n.º 9, em ré menor, op. 125, "Coral", geralmente designada por Nona Sinfonia, é  un  chef d'oeuvre .
As partes vocais são desempenhadas por quatro solistas (soprano, contralto, tenor e barítono), além de um coro, dividido igualmente em quatro partes (soprano, contralto, tenor - subdividido ocasionalmente em tenor I e tenor II - e baixo)
No registo que se apresenta , a interpretação  pertence a Anna Samuil (soprano), Waltraud Meier (mezzo-soprano) Michael König (tenor), René Pape (bass) , ao National Youth Choir of Great Britain  e à West Eastern Divan Orchestra , sob a direcção do Maestro Daniel Barenboim, no Royal Abert Hall, PROMS 18, Beethoven Cycle.


sábado, 8 de setembro de 2018

a minha amada vem de longe

a minha amada vem de longe
traz os olhos verdes
poisados na relva
e na flor das águas
(entrarei dentro deles
para conhecer todas as paisagens)

vestida de sol
despida de angústias
porque vem de longe cerca de meio-dia
para estar comigo
dar-me os alimentos  os frutos e os sumos

vem a minha amada 
cabelos de vento
a meio-caminho
estou à espera dela
entre ferro e casas
muros grades sombras
com olhos num livro

vem pelo alcatrão
no navio azul de muitos sentidos
traz o corpo largo
coberto de franjas
bordado com fios
desde o ombro à anca 
como anca um lírio

vem a minha amiga 
correndo ao meio-dia 
vem a sua voz
mais mansa mais funda
que pomba ou que lua
uma taça cheia
de plumagens brancas
de rola e de espuma

gazela de linho
correndo ligeira
com véus e perfumes
vem a minha amiga
por entre coqueiros
na manhã caída

traz no  peito aberto
um relógio azul
a contar as horas
que vai estar comigo
Lourenço de Carvalho,in  minha ave africana, Tempográfica, Lourenço Marques, pp.17-20 

quinta-feira, 6 de setembro de 2018

Um grande filme de poucos minutos

Um filme de David Maddox. Uma inteligente e curta  peça de nove minutos sobre  ALTERNATIVE MATH. A heroína é uma veterana e experiente  professora que tenta explicar a um estudante que  2+2=4. A criança, contudo , acredita que a resposta é  22. O mesmo acontece com os pais.
Deste  inesperado absurdo, resulta uma certa estranha comicidade  que propicia  uma alegoria com o nosso mundo moderno, como um aviso. 
O que pode acontecer, quando se questiona  um grau de conhecimento tão básico? O que pode acontecer, quando o direito de livre expressão se torna mais importante do que reconhecer um facto?
Segundo o seu autor, é um filme with heart, humanity and humor.  A family film to be enjoyed by teacher and student alike.
Foi apresentado em Janeiro de 2018 , no Comedy/Drama Festival.

quarta-feira, 5 de setembro de 2018

Interlúdio Musical

'The Unbending Chinese Tree'. composição de Havasi ,com a excelente interpretação de Havasi , da Dohnányi Orchestra Budafok e os artistas chineses: Ling Peng - Erhu, Xu Ming Li- Bawu, Ying Xiao - Guzheng , no HAVASI Symphonic Arena Show, em 21 de Dezembro de 2013.

terça-feira, 4 de setembro de 2018

Pseudónimos Literários

Vítor Leal, no traço de Gustavo Hastoy
 para a Gazeta de Notícias, em 15 de Março de 1890
Pseudónimos Literários
por Jacinto Rego de Almeida
"Vi há dias um pequeno livro no fundo de uma estante, uma colectânea de contos em edição brasileira, que custei a identificar. Mas reconheci de que livro se tratava pela dedicatória. O autor é um antigo executivo de uma grande empresa portuguesa instalada em S. Paulo (Brasil), oriundo da política e conhecedor da literatura clássica e contemporânea, no período áureo do governo de António Guterres. Uma edição de autor sob pseudónimo, “tenho um nome a preservar, apareço todos os dias na Gazeta Mercantil”, o mais importante diário económico do país, justificou-se na altura.
Lembrei-me de um velho amigo, Jorge Valadas, antigo oficial da Armada, vive em França desde que desertou em meados dos anos 60, que assinava os seus livros traduzidos em vários países com o pseudónimo Charles Reeve, em homenagem a um dos fundadores do primeiro clube anarquista da Austrália. “Pensas em homenagear alguém com o teu pseudónimo?”, “Não, não”, respondeu-me o executivo. Ponderei que o uso de pseudónimos estava fora de moda, os editores não consideram um bom negócio e “já há décadas que se perdeu o preconceito contra a ficção, mesmo a ficção comercial ou os chamados géneros menores”. Ele parou para pensar. “Eu pago a edição”, respondeu-me de forma categórica. “Pseudónimo?”, sussurrei.
O uso de pseudónimos literários, muito usual até aos anos 50 do século passado, é normalmente associada à preocupação com a reputação ou a posteridade. Mas nem sempre foram estes os motivos. O autor de O que diz Molero - “um livro-chave do nosso tempo”, como referiu Eduardo Lourenço -, Dinis Machado, usou o pseudónimo Dennis McShade para escrever livros policiais de apelo popular, cuja receita lhe foi muito útil por ocasião do nascimento de uma filha. Marcello Mathias (1903-1999), ministro dos Negócios Estrangeiros entre 1958 e 1961, e embaixador de Portugal em Paris durante 24 anos durante o Estado Novo, editou em 1973 o livro Lusco-Fusco com o pseudónimo Pablo La Noche por motivos que desconheço. O livro teve um extraordinário acolhimento por parte da crítica (tendo sido galardoado com o Prémio Ricardo Malheiros e publicado e premiado em França com o "Rayonnement Français"), em 1976, já com o verdadeiro nome do autor e o título Pablo la Noche, o mesmo acontecendo depois no Rio de Janeiro (Ed. Civilização Brasileira) nos anos 90 e em 2008 pela Ed. Quetzal (Lisboa) com o mesmo título.
O imperador Dom Pedro I do Brasil usou os pseudónimos “Duende” ou “Inimigo dos marotos” em jornais para insultar inimigos políticos; Anne Rice (1941), conhecida escritora norte-americana, assina A. N. Roquelaure para se debruçar sobre temas eróticos; o também norte-americano Michael Crichton (1942) assinou John Lange para editar romances de espionagem que o ajudaram a pagar a faculdade de medicina; Machado de Assis (1839-1908) para editar crónicas ou defender opiniões políticas usou os pseudónimos Lélio e Sousa Barradas, entre outros, e às vésperas da abolição da escravatura no Brasil criticava severamente os grandes agricultores com o nome “Boas Noites” (só descoberto 50 anos após a sua morte); Jorge Luís Borges (1899-1986) usou o nome Bustos Domecq para publicar novelas policiais junto com o seu amigo escritor Adolfo Bioy Casares; Olavo Bilac (1865-1918) usou os nomes Arlequim, Pierrô, entre outros para participar de polémicas em jornais e editar folhetins, entre 1890 e 1893.
Já Victor Leal publicou O esqueleto, A mortalha de Alzira e Paula Matos ou o Monte de Socorro, no jornal Gazeta de Notícias, do Rio de Janeiro, com um enorme êxito, textos românticos contra a dominante escola naturalista da ficção narrativa da época. A sua figura desenhada por um ilustrador, mostrava um homem magro, de monóculo, chapéu de abas largas e um comprido nariz, que não era encontrada nos cafés e meios literários. Ele não existia. Tratava-se do pseudónimo de quatro escritores, o romancista Aloísio Azevedo, Olavo Bilac, o dramaturgo Coelho Neto e o jornalista Pardal Mallet.
George Eliot e George Sand, na verdade a inglesa Mary Ann Evans e a francesa Amandine Dupin, respectivamente, em meados do século XIX, impuseram-se com os seus pseudónimos masculinos e outras os usaram para defender a causa feminista. Stephen King, especialista em livros “de terror”, criou o pseudónimo Richard Bachman para explorar a literatura de entretenimento. Enfim, o uso de pseudónimos na literatura constitui um universo que merece um estudo aprofundado.
Estávamos a almoçar em um dos mais caros restaurantes de S. Paulo e, a dado momento, recordo que ele, o executivo, disse-me em tom de brincadeira: “Não foi por teres desertado de uma fragata na cidade da Beira que Portugal perdeu a guerra colonial, mas sinto que deste uma pequeníssima ajuda moral ao êxito da Frente de Libertação de Moçambique, não achas? Uma borboleta bate as asas na China e provoca uma tempestade em… ”, e sorrimos.
Pu-lo em contacto com um editor, o livro foi publicado alguns meses depois com pseudónimo e recebi um exemplar autografado pelo correio. “És a única pessoa que sabes que o autor desse livro sou eu”, disse-me com evidente alegria alguns dias depois, pelo telefone.
A escrita de ficção é uma experiência intensa que aborda o que não queremos que esteja presente na vida, as emoções que nos governam nos momentos mais importantes, o fracasso, a dor, a morte, a mentira (um bom mentiroso só diz meias verdades), o destino de todos nós (ricos ou pobres vamos ser esquecidos), pensei, enquanto folheava o livro dele quando o redescobri no fundo de uma estante.
Dias depois, li alguns dos contos, inspirados na violência diária na cidade de S. Paulo, na literatura urbana brasileira, narrados na primeira pessoa com linguagem popular. Pensei em procurar contactá-lo. Será que iria reconhecê-lo depois de tantos anos? Dir-lhe-ia que relera o livro que ele editara no Brasil nos anos 90 do século passado, o que provocou um chuvisco em mim, não uma tempestade, certamente alguma borboleta cansada batera com pouca força as asas na China…e iríamos rir bastante, estou certo disso."   Jacinto Rego de Almeida ,JL,5.03.2018