quarta-feira, 16 de maio de 2018

INTERMEZZO

Terraço do Café à Noite, (1888),Vincent van Gogh
INTERMEZZO
Jusqu’à la guerre de 1939 j’étais au  courant 
des problèmes de la jeunesse,je m’efforçais 
d’être à son niveau, mais depuis les événements 
qui ont bouleversé, le monde, je me sens étranger, 
non seulement aux jeunes,mais à la plupart des 
vivants d’aujourd’hui.
                                Roger Martin du Gard

"Interrompo mais uma vez, as páginas do meu diário(...)
Aproveito este intervalo para deixar claro algo que tem vindo a aparecer nas entrelinhas e, às vezes, nalgumas das linhas deste diário: a minha cada vez maior impaciência com aquilo em que o mundo se tem estado a transformar e com a maioria das gentes que actualmente o povoam. Ia gradativamente sentindo que os meus valores pouco lhes diziam e, pelo meu lado, pouca ou quase nenhuma apetência sentia pelos valores que eles privilegiavam. Um fosso enorme começava a separar-nos. Não se tratava só, da minha parte, de não compreender esse mundo novo e os seus jovens e menos jovens habitantes: é que não me apetecia fazer um esforço por compreendê-los. Tinham valores e gostos que não me interessavam: tinham subitamente desatado a não me interessar. Impacientavam-me, irritavam-me, pareciam-me cópias baratas e mal amanhadas de modelos exteriores, já de si, maus modelos, mas grosseira e superficialmente copiados: fúteis, ruidosos, malsãos, pouco elegantes. As pessoas vestiam-se mal, falavam mal, comiam mal, amavam mal, conversavam mal, liam mal, escreviam mal. As suas proclamadas “inovações” começavam a interessar-me cada vez menos, gostava cada vez mais de reler e cada vez menos de ler. Via, em tantas das saudadas e promovidas “inovações” apenas uma confrangedora falta de conhecimentos básicos e uma anemia sintáctica de mau agoiro. Sintomas de envelhecimento? Possivelmente. Mas tenho que dizer o que sinto, porque este exercício de escrever memórias impõe um duro código de autenticidade. Não posso nem devo fazer batota. Dito isto, não creio que se trate apenas de envelhecimento. O mundo não está numa das suas “finest hours”. O mundo está a mudar vertiginosamente para pior. Eu diria que caminha a passos largos para o abismo. As televisões tornaram-se um universo pavorosamente degradado, visando cada vez mais baixo, a bem das audiências mais boçais e da publicidade que as paga. O grau de imbecilidade e de sordidez da esmagadora maioria dos programas de quase todos os canais – com o futebol a açambarcar e infectar tudo, sob os olhos complacentes até da esquerda – é simplesmente indescritível: comenta-se, obsessivamente o “fado do grande e hórrível crime”: facadas, pauladas, tiros, punhaladas, sangue aos baldes, como em certas encenações das peças de Shakespeare, mas sem o benefício da magia do bardo. Dá-se a todo aquele aparato gótico e pantanal, uma aura de investigação académica, com doutos comentadores que chafurdam na minúcia clínica, que lhes permite, en passant, aludir, como quem não quer a coisa, à vagina macerada e salpicada dos restos de esperma do violador e assassino. Tudo muito minudente, entre o clínico e o lascivo. As audiências, gulosas, repletas, ouvem tudo aquilo, deliciadas e aguardando mais: talvez, no dia seguinte, haja um crime ainda melhor. Os Gouchas e as Pinheiros presidem àquele festim de misérias, sorridentes e aclamados, antevendo bolsos cheios de honorários galácticos, que lhes vão permitindo luxos como os sempre cobiçados trajos “de marca” & outros benefícios marginais. A própria televisão “pública” é um nojo de subserviência ao “mercado”, bonzo que adora sem reservas, entrando em concorrência despropositada de futebóis e outras lutas de gladiadores, à compita com “o privado”, em que também gostaria de se transformar. Porque ser privado e parasita do Estado é o objectivo máximo desta geração de Rastignacs portugueses do século XXI: mas Rastignacs, que temem o risco e só jogam no seguro. Não arriscar, não visar alto (nunca), e, mesmo assim, ganhar muito dinheiro e depressa – é o moto desta gente sem valores mas com ambição desregulada. O “espírito de serviço” desapareceu por completo e, se, por desfortuna, alguém pensa praticá-lo, é tido por pateta e pouco “moderno”. A palavra “moderno” tornou-se a maior prostituta do glossário nacional. As bancadas parlamentares bem comportadinhas e obedientes são uma ofensa à dignidade, à independência e à democracia. Os aparelhos partidários voltaram definitivamente costas aos interesses nacionais, para dividirem coutadas, como quem vende jóias roubadas. Os “donos” do aparelho são, para todos os efeitos, casos de polícia. As histórias de grossa corrupção tornaram-se deliciosamente quotidianas: todos os dias há uma melhor do que a do dia anterior. Nenhuma “imperfeição” do Primeiro Ministro é suficientemente grave para incomodar os ministros, seus colegas, nem os parlamentares da sua coligação, que estão ali, supostamente, para lhe escrutinar os actos. O “brio” é um conceito pré-histórico, obsoleto, escarnecido. Um Primeiro Ministro, em Portugal, nem à pedrada se demite. " 
Eugénio Lisboa, in "Acta Est Fabula, Memórias-V-Regresso a Portugal: (1995-2015)", Editora Opera Omnia, Outubro de 2015,  pp.185,186,187

terça-feira, 15 de maio de 2018

Aux cent fleurs du mois de mai

Camarade


C'est un joli nom Camarade
C'est un joli nom tu sais
Qui marie cerise et grenade
Aux cent fleurs du mois de mai
Pendant des années Camarade
Pendant des années tu sais
Avec ton seul nom comme aubade
Les lèvres s'épanouissaient
Camarade Camarade

C'est un nom terrible Camarade
C'est un nom terrible à dire
Quand, le temps d'une mascarade
Il ne fait plus que frémir
Que venez-vous faire Camarade
Que venez-vous faire ici
Ce fut à cinq heures dans Prague
Que le mois d'août s'obscurcit
Camarade Camarade

C'est un joli nom Camarade
C'est un joli nom tu sais
Dans mon cœur battant la chamade
Pour qu'il revive à jamais
Se marient cerise et grenade
Aux cent fleurs du mois de mai.
Jean Ferrat

segunda-feira, 14 de maio de 2018

Sobre o Mito

Mito
Por António Cândido Franco
 "O mito (ou a fábula) é, em Aristóteles, a alma da tragédia grega.  Trata-se, segundo ele, da imitação de personagens que agem, quer dizer, o mito é sinónimos em termos de arte poética, de acção.  Entre os seis elementos que constituem para Aristóteles a tragédia o mito é o mais importante deles.  O texto poético pode existir sem o espectáculo cénico, o que secundariza logo à partida os três elementos externos da tragédia, mas nunca sem o mito, que contém já carácter e pensamento, os outros dois elementos internos do género.  O mito é que proporciona, assim, a unidade do drama, uma unidade que nada tem, porém, a ver com a célebre unidade de lugar, de tempo e de acção que Hegel, no livro dedicado à poesia da Estética [trad. port., Álvaro Ribeiro], diz ser uma invenção dos franceses.Ainda no seu tratado sobre a poesia, Aristóteles distingue duas formas de urdir um mito ou trama de factos.  A primeira, a mais poética, inventando-o por arte ou imaginação, e a segunda recorrendo à História ou às lendas heróicas tradicionais, que tratavam de acontecimentos especiais no seio de famfiias reais gregas (l454 a 9). A tragédia, neste segundo caso, é mais História transformada em poesia que imitação da Natureza.  De qualquer modo, a imitação da história pela tragédia, processo comum na criação dos mitos entre os poetas gregos, não é reprodução mecânica nem cópia servil, mas antes reelaboração e aperfeiçoamento, progresso assinalado pelo efeito purgativo dramático, a catarse (v.), que funciona como forma de resolver a dificuldade insolúvel da História.
Recordemos que Almeida Garrett, roubando também à História o tema ou o mito do seu grande drama, o Frei Luiz de Sousa, não deixou de esclarecer na “Memória ao Conservatório Real”, “Eu sacrifico às musas de Homero, não às de Heródoto…”, quer dizer, a História era para ele um pretexto que a poesia depois reelaborava e sublimava.
Em termos antropológicos, o mito remete para uma narrativa fabulosa, que parece escapar ao pensamento racional, seja ele teológico ou científico, mas cuja capacidade compreensiva do mundo -que conviria distinguir da explicativa- foi recentemente posta em relevo por Carl-Gustav Jung e Mircea Eliade, no seguimento dos trabalhos de Schelling (que parece ter sido o primeiro dos modernos a compreender, com dinâmica simpatia espiritual, a natureza pretérita do mito) e J. G. Frazer. Nesta acepção, o mito supõe, como adiantou José Marinho, um silêncio ou uma outra palavra, aquela mesma que é capaz de dizer a presença do irracional no seio da razão ou do logos, que é também relação com o que está imóvel no meio do tempo.  Daí a ideia, também grata a Marinho, de que o mito (Osíris, Prometeu, Adão e Eva) lembra, por meio de uma memória do ímemoríal, a cisão que é a origem do tempo, o que não quer dizer que o mito esteja dentro da tradição, pois esta é já uma  relação móvel. Segundo Eudoro de Sousa, o mito seria antes de mais a intriga de um drama ritualístíco em que se representa a origem.  O drama é o sacrifício, em que a morte de deus oferece a vida ao mundo.  Assim, para este autor, um dos que que teve como poucos o agudo sentido da origem, a mitologia não é a biografia dos deuses mas antes a sua thanatografla; mais do que da criação do mundo, do originado, o mito fala-nos da morte dos deuses, na origem, antes da criação.  Mais do que cosmofania, o mito parece ser neste autor teocriptia.  Se a História fala do originado, o mito é a linguagem adequada para falar da origem e do que nesta ainda não tem devir.
As dificuldades de dizer o mito parecem fáceis de perceber por aqueles que sabem que nem a teologia nem a ciência gostam dos mitos.  Sujeito, desde há muito, à pressão de uma mentalidade positiva, quando não nacionalista, o mito para ganhar alguma popularidade, e mesmo assim no reduto acantonado da poesia ou da sua crítica, teve, durante muitos anos, de se degradar ou vulgarizar debaixo das roupagens muito mais inofensivas da alegoria, contribuindo, desse modo, para o processo, secular ou não, da desmistificação.  Barthes, por exemplo, explicou alegorias e sinais, se não lugares-comuns, mas não mitos, que são inexplícáveis.
Vítima de uma lógica explicativa, o mito acabou por se volver simples mitologia, ou seja, ciência do mito, na maior parte dos casos ciência que perdeu o sentido agudo da imagética e da simbólica primordiais, ficando, quase sempre, reduzida a um acervo de histórias exemplares de um pensamento perjurativamento primitivo, quando não, como parece acontecer no Barthes semiólogo, de um simples processo de desnústificação.
Homens como Jung, Eliade ou Bachelard (a quem se pode acrescentar, entre nós, um Eudoro de Sousa), não são, pela funda simpatia espiritual com que interpretaram e falaram do mito, compreendendo em primeiro lugar a alteridade cultural que ele pressupõe, simples mitólogos.  Todo o seu trabalho supõe uma empatia com o mundo mítico e a consciência acerada de que o logos ocidental, nas suas várias versões, é inadequado à compreensão dos mitos.
O mito vulgarizou-se como alegoria, mas sobreviveu, se bem que de forma rara e em condições de generalisada incompreensão, em poetas isolados, dotados de forte e pessoal criatividade, de que o melhor exemplo entre nós parece ser Teixeira de Pascoaes, que não só retomou e reinterpretou, no seguimento aliás de Guerra Junqueiro, mitos da origem, tais o de Prometeu e o do Paraíso Perdido, como se encarregou ele próprio de fabricar outros, tais o de Marános ou de Eleonor.
O mito, com tudo aquilo que tem de apelo a uma mentalidade simbólica, acabou por ser adoptado, no campo das significações literárias, com largo proveito, por investigadores e mitocríticos como Gilbert Durand, Antônio Quadros e Y. K. Centeno."António Cândido Franco, in E-Dicionário de Termos literários de Carlos Ceia
{bibliografia}
Afonso Botelho, “Mitos do Regresso à Origem”, ín Saudade, Regresso à Origem, 1997; Antônio Quadros, Estruturas Simbólicas do Imagínário na Literatura Portuguesa, 1992; Aristóteles, Poética [Tradução, Prefácio, Introdução, Comentário e Apendices de Eudoro de Sousa, (2ª ed., revista e acrescentada)], 1986; B. Slote (ed.), Myth and Symbol, 1963; Eduardo Lourenço, “Poética Mítíca”; in Tempo e Poesia, 1987; “Da Crítica como Metáfora à Procura do Texto”, in O Canto do Signo, 1993; E. Cassirer, Sprache und Mythos, 1952; Eudoro de Sousa, Dionisos em Creta e Outros Ensaios, 1973;Hístória e Mito, 1981; Mitologia, 1984; Femando Bastos, Mito e Filosofia – Eudoro de Sousa e a Complementaridade do Horizonte, 1992; Francisco Soares, Fábula da Captação do Elemento Desvairado, 1995; Friedrich W. Schelling, Philosophie der Mythologie, 1857; Gilbert Durand, Les Structures antropologiques de l’imaginaire, 1969; James Frazer, The Golden Bough, 12 vols., 1890-1936; Maria Leonor Machado de Sousa, Mito e Cilação Literária, 1985; Mircea Eliade, Mythes, rêves et symboles, 1957; Northrop Frye, Anatomy of Criticism, 1957; Robert Chase, The Quest of Myth, 1949; R. Barthes, Mitologias, 1957 [trad. port.  José-Augusto Seabra, 1972]; R. Y. Hathorne, Tragedy, Myth and Mystery, 1962; Victor Jabouille, “Mito Clássico e Literatura Portuguesa”, in Actas do Colóquio sobre o Ensino do Latim [Lisboa], 1987, Walter Burket, Mito e Mitologia, [Lisboa, 1991]; Y. K. Centeno, Cinco Aproximações: Peter Weiss, A. Ramos Rosa, Alquimia e Misticismo, Fernando Pessoa, Hennann Hesse, 1975.

domingo, 13 de maio de 2018

Ao Domingo Há Música

"No ar, os sons ecoavam como um gemido que saía do fundo da terra para nos prender àquele chão. Era aí que dormia a linguagem do coração, tecida  com tudo aquilo que durante anos procuráramos. Os acordes doridos de todas as dores havidas  soltavam-se  em catarse de pura redenção. Era a Terra Prometida, o céu , o lugar que nos fora destinado como se fosse o sempiterno berço da nossa  origem. 
Ficaríamos . Era o apelo,  a ordem, o convite que sempre fervilhara  e nos chamava no sussurro daqueles sons alados." MJVS, escritos

Hans Zimmer &Jivan Gasparyan - Duduk of the North

sábado, 12 de maio de 2018

Philip Roth

jaworskiPhilip Roth en ses fantômes
Par Philippe Jaworski, 

"(…) La vraie vie? Justement, chez Philip Roth, il n’y en a pas : la vie est ce qui manque, ou se manque. Il y a quelque chose de l’épopée — une épopée grinçante — dans ce tableau, vaste et minutieux, de la condition de l’écrivain (juif américain): l’auteur et ses personnages, sa création, l’auteur en proie à ses créatures, l’homme présent et absent dans son œuvre, la relation entre une vie d’homme et une vie de personnage. On résiste mal à l’envie d’appliquer à l’entreprise de Roth, pour la résumer d’un mot, la formule de Henry James citée dans L’Écrivain fantôme : « la folie de l’art ».
(…) Pourquoi «Philip Roth» échapperait-il à la logique de la fiction? Il appartient aux histoires qu’il raconte, ses expériences personnelles et son passé ne prennent forme et sens que racontés. La vocation (ou le démon?) de l’écriture engage dans un jeu sans retour avec les beautés vénéneuses de l’illusion. Dans Les Faits, sous-titré Autobiographie d’un romancier (1988), qui a tous les caractères d’un «théorème», il évoque, pour se rendre «visible à soi-même», explique-t-il, plusieurs épisodes de sa vie qui ont, d’une manière ou d’une autre, nourri ses romans, affirmant relater les «faits» qui ont été transmués en fiction. Il envoie ces fragments d’autobiographie à Zuckerman, qui lui répond qu’il ne reconnaît pas l’auteur dans cet autoportrait, et que la vérité autobiographique ne réside pas ailleurs que dans une œuvre d’imagination.
Une fois de plus, la créature dénonce les insuffisances et les mensonges du récit prétendument vrai. Mark Twain s’était déjà amusé, au début d’Aventures de Huckleberry Finn, à jouer avec son jeune héros, qui contestait à «Mr. Mark Twain» la véracité de l’histoire de Tom Sawyer. La formule est ancienne, et plaisante. Chez Roth, cependant, elle complète la description du théâtre d’ombres doubles où se déroule l’expérience littéraire. La véritable autobiographie ne peut s’écrire qu’en fiction, c’est en devenant autre que l’écrivain se peint le plus fidèlement:
«Le véhicule d’une […] authentique confrontation avec toi-même, c’est moi.»
roth-in-newark
Le vrai Philip Roth est l’homme dont Nathan Zuckerman est l’incarnation verbale. La présence de «l’auteur» dans ses écrits de fiction ressortira toujours à une réalité de fiction, comme dans Le Complot contre l’Amérique, qui raconte la famille Roth dans une Amérique antisémite imaginaire, mais possible. Patrimoine. Une histoire vraie (1991), où Philip Roth relate la maladie et la mort de son père, Herman Roth, n’échappe pas vraiment à ce paradoxe. Le récit appartient au monde imaginaire de l’écrivain non pas en tant que fiction, mais comme un fragment de vie «vraie» (puisque Roth tient à l’adjectif), tel qu’un affabulateur professionnel peut en donner à lire. De quelle vérité s’agit-il? Dans Ma vie d’homme (1974), Roth attribuait à l’écrivain fictif Peter Tarnopol — dont un premier Nathan Zuckerman, à la biographie légèrement différente de celle du héros de la tétralogie, était la créature — un texte autobiographique déjà intitulé «Ma véritable histoire»…
(…) Roth n’a pas imaginé de scène semblable à celle du narrateur d’À la recherche du temps perdu allant rendre visite en rêve à sa grand-mère morte pour lui dire qu’il ne l’a pas oubliée, pas abandonnée à son malheur et à sa solitude; mais il y a chez lui un sens aigu de l’existence d’une puissante réalité fantomatique dans la vie des vivants. Peu de morts chez Philip Roth le restent longtemps. Mais les fantômes sont, à vrai dire, bien autre chose que des images qui continuent à briller dans la mémoire comme des étoiles éteintes. Qu’est-ce qu’un fantôme?
«C’est la personne à qui l’on parle», dit une voix dans La Contrevie. «C’est ça, un fantôme. Quelqu’un de si vivant encore qu’on lui parle, et qu’on ne cesse de lui parler. Un fantôme, c’est le fantôme d’un fantôme ».
Dans L’Écrivain fantôme, le personnage d’Amy Bellette, qui mène une double vie de secrétaire du vénérable Lonoff et de masque fictif d’Anne Frank rescapée de la guerre dans le roman que le jeune Zuckerman écrit mentalement, illustre cette définition troublante du fantôme, être doté d’une telle force de vie qu’il suscite un discours sans fin (…)
Fantômes ou ombres, fantômes ou doubles? Roth, bien souvent, distingue à peine ces figures ou formes de l’Irréel, qui appartiennent à des traditions littéraires distinctes, mais qui, chez lui, font bon ménage dans l’espace d’une même histoire, et se mêlent familièrement aux silhouettes du monde dit réel. Dans la nouvelle «Eli le fanatique», le vieux hassid vêtu de noir que les Juifs «modernes» du quartier veulent bannir de leur vue est décrit comme une ombre obsédante, mais aussi comme le fantôme d’une tragédie historique venue de loin, dans l’espace et le temps, hanter ceux qui, en Amérique, ont oublié d’où ils viennent. Lorsque Eli Peck devient l’homme en noir qu’on l’avait chargé de faire partir s’accomplit l’opération de métamorphose qui est au cœur de l’œuvre de Roth: le protagoniste a franchi le seuil de la réalité fantomale et reconnu la toute-puissance du revenant.
«Tu ne peux pas les oublier un peu, tes Juifs ?» demande Maria à Nathan Zuckerman dans La Contrevie.
Non, ce serait trop facile, ils sont inoubliables. C’est même impossible: ils font retour, incessamment. Ils sont les fantômes de la fiction — d’éternels revenants dans des romans dont les intrigues sont construites comme le dialogue jamais conclu d’un écrivain (juif américain) avec lui-même sur le sens de sa pulsion — ou de sa passion — judéographique. Pourquoi les Juifs? Autant demander Pourquoi la fiction? " Philippe Jaworski, La Republique des Livres
(extraits de sa préface à Romans et Nouvelles, 1959-1977 de Philip Roth. En librairie le 5 octobre. 1280 pages, 64 euros jusqu’au 31 mars)
(« Philippe Jaworski » photo D.R. ; « Philip Roth, Newark, New Jersey, 1968 ». Photo Bob Peterson)

sexta-feira, 11 de maio de 2018

Viver e escrever

                                     Clarice Lispector - foto: Acervo autora/IMS
Viver e escrever
“Quando comecei a escrever, que desejava eu atingir? Queria escrever alguma coisa que fosse tranquila e sem modas, alguma coisa como a lembrança de um alto monumento que parece mais alto porque é lembrança. Mas queria, de passagem, ter realmente tocado no monumento. Sinceramente não sei o que simbolizava para mim a palavra monumento. E terminei escrevendo coisas inteiramente diferentes.(...)
Não sei mais escrever, perdi o jeito. Mas já vi muita coisa no mundo. Uma delas, e não das menos dolorosas, é ter visto bocas se abrirem para dizer ou talvez apenas balbuciar, e simplesmente não conseguirem. Então eu quereria às vezes dizer o que elas não puderam falar. Não sei mais escrever, porém o facto literário tornou-se aos poucos tão desimportante para mim que não saber escrever talvez seja exactamente o que me salvará da literatura. O que é que se tornou importante para mim? No entanto, o que quer que seja, é através da literatura que poderá talvez se manifestar.(...)
Até hoje eu por assim dizer não sabia que se pode não escrever. Gradualmente, gradualmente até que de repente a descoberta tímida: quem sabe, também eu já poderia não escrever. Como é infinitamente mais ambicioso. É quase inalcançável.”
Clarice Lispector, in "Aprendendo a viver", Rio de Janeiro: Editora Rocco, 2004.

quinta-feira, 10 de maio de 2018

Rememoração



Sim, a vida não presta.
Mas foi bonita a festa
Da mocidade.
O corpo são, a alma sã e todos os sentidos
Na sua virgindade
Castamente despidos.

Lembrá-lo, agora, dá não sei que paz.
Esta paz medular
De já ter sido.
E ter sido capaz
De uma hora solar
Gravada a fogo no tempo perdido.
                           Coimbra, 14 de Maio de 1981
Miguel Torga, in “ Diário XII”, Círculo de Leitores

quarta-feira, 9 de maio de 2018

Um encontro falhado com Camus

La maison de Camus, 93, rue de Lyon, quartier Belcourt.
 © Luc Demarchi

Le rendez-vous manqué
Par Luc Demarchi, le 7 mars 2018

"Internet foisonne de sites, de blogs, et autres espaces de discussion consacrés à Albert Camus. De même, une multitude de spécialistes : philosophes, écrivains, professeurs, critiques ou historiens, ont décortiqué l’œuvre et analysé l’écrivain. C’est la raison pour laquelle je ne me hasarderai pas sur ce terrain réservé aux érudits.
Albert Camus a vécu une partie de son enfance au numéro 93 de la rue de Lyon, dans le quartier de Belcourt à Alger. Les anciens, autant dire nos familles, l’ont connu et se sont parfois liés d’amitié avec lui. Ils ont fréquenté, ensemble, l’école de la rue Aumerat ou ont appartenu à la même équipe de football.
Être Belcourtois signifiait appartenir à une famille humble, pour ne pas dire pauvre. La destinée d’une vie d’ouvrier toute tracée par avance, un quotidien fait du plaisir simple de la mer et du soleil, mais aussi de préoccupations financières en fin de mois, voilà ce qui rapprochait tout ce petit peuple. Albert était un enfant parmi les autres, mais pas tout à fait un enfant « comme les autres ». Son instituteur, M. Germain, a rapidement décelé chez lui le talent, le génie naissant de l’écriture et de la réflexion. Il est parvenu à convaincre sa mère de lui faire poursuivre des études, une mère veuve et illettrée qui devait « faire des ménages » à Belcourt pour faire vivre sa petite famille.
Aujourd’hui encore, ceux que l’on appelle les pieds-noirs sont admiratifs et reconnaissants envers cet homme qui a écrit son amour de l’Algérie comme personne parmi nous ne pourra jamais le faire. Lu et relu, dix fois, cent fois, si Le Premier Homme nous bouleverse toujours autant, c’est que nous puisons dans cette œuvre miroir le souvenir même de notre enfance.
Belcourtois de la dernière génération, si nous n’avons pas pu le connaître, ni même le rencontrer, il nous a été donné parfois de sentir sa présence furtive ou tragique. Dans les premiers jours de 1960, lors de sa mort, les caméras de télévision se sont invitées parmi les élèves éberlués d’une classe primaire de l’école Aumerat – élèves dont je faisais partie – puis dans l’entrée de son immeuble.
Dans L’Envers et l’Endroit, Camus écrit à la troisième personne : « Ce quartier, cette maison ! Il n’y avait qu’un étage et les escaliers n’étaient pas éclairés. Maintenant encore, après de longues années, il pourrait y retourner en pleine nuit. Il sait qu’il grimperait l’escalier à toute vitesse sans trébucher une seule fois. Son corps même est imprégné de cette maison. Ses jambes conservent en elles la mesure exacte de la hauteur des marches. Sa main, l’horreur instinctive, jamais vaincue, de la rampe d’escalier. Et c’était à cause des cafards. »
Imprégnés de notre maison, de nos rues, de notre quartier, nous le sommes à jamais. Cette odeur de cave qui régnait dans ces petits immeubles où les cafards étaient rois, ces mots réveillent en nous tout un passé, tout un vécu. Ainsi, nous sommes tous un peu des Camus, mais comme des magiciens dépourvus du pouvoir de l’écriture et de cette intelligence qui furent siens.
Je suis né en 1947 et j’ai habité le 94 de la rue de Lyon. Il s’en est fallu de si peu pour que je remonte la rue Aumerat, ou la rue de l’Union, à ses côtés, bavardant en camarades ou se confiant entre amis. C’est pour moi l’histoire d’un grand rendez-vous manqué, pour être né trop tard…” Luc Demarchi, The Dissident ( Dossiers)
Le Camus auquel est sensible Luc Demarchi, et qui le passionne, son Camus, c’est le Belcourtois du 93, rue de Lyon, dans son humilité et dans sa simplicité. C'est l'enfant de Belcourt, dont il se sent particulièrement proche pour être né, et pour avoir vécu son enfance, dans ce même quartier d'Alger, au 94 de la même rue. Comme un signe, le hasard l'a amené à vivre près de Lyon, ville qui possède aussi un quartier de Bellecour...

segunda-feira, 7 de maio de 2018

A fraqueza da franqueza

A sentença do fogo
«- “Padre: me dê a dissolvição”.
O padre Ludmilo nem corrigiu. Se fosse a corrigir, disse ele mais tarde, teria que corrigir não a frase mas o homem. Pois, o visitante embriagava a completa mistura da língua, aos tropeços nas rezas: ““patrão nosso que estais no Céu, o pão vosso de cada dia, Deus seja lavado”“.
Era um delituoso, se via pelo aspecto. Se dispunha na sagrada casa de Deus cheio de sem-maneiras, desacatador. Enquanto amolecia conversa, o padre espreitava o confessionista. E reparou a catana presa na botifarra do jovem bandido.
Mas o pecador não estava só. À entrada, em contraluz, se via o contorno de um outro foragido. A pele desse outro parecia ser clara, seus cabelos aparentavam carapinha mas de mulato. O padre Ludmilo não lhe podia enxergar o rosto.
Em contrapartida, distintas eram as façanhudas feições deste que se joelhava à sua frente. Distintos não eram, porém, seus ditos: “Deus é bonito de não lhe vermos, Padre. Mesmo eu estou negar de ir para o Céu para não sofrer desilusão”. Dizia e redizia os díspares disparates. E juntava mais ímpias dicções:
- “Problema de Deus, com devido respeito, é dormir encostado no rabo do Diabo”.
O que queria afinal o mautrapilho, botifarrista? O Padre nem parecia se interessar. Bocejou, fatigado. Aquele homem se resumia num amante da desordem, autor de matanças e massacres. Seu coração nunca fora mobilado, nem seu nome conhecera chamamento carinhoso.
- “A Igreja, antes, me faria medo, Padre. Parecia sítio que dá doença imediata.
- “Doença?
- “Sim, as pessoas entram e logo-logo fraquejam das pernas. Até caem de joelhos”.
Ludmilo somente fingia atenção. Hoje em dia, basta alguém saber escutar para fazer vezes de padre. Afinal e porém, o salteador vinha ali pedir o indevido perdão, nem que fosse à custa de ameaça.
- “Padre: não é ingresso no Céu, não. Quero é ser transferido no inferno”.
Que ali, naquele inferno terrestre, ele já não podia permanecer, familiar dos bichos, num berro sem saída. Pois, nem já se sabia: ele era um fora-da-lei ou um da lei-de-fora?
- “Mesmo eu já fui prometido a aminhistia, ou minitia ou tia de não sei quem. Prometeram, Padre. Bastava eu me entregar com minha arma.
O sacerdote permanecia boquifechado, exemplo de religioso não praticante, servidor de Deus a tempo parcial.
- “Está-me ouvir, senhor Padre?”
Acenou que sim, simplesmente meditava, infeliz contemplado em troca de segredos com Deus. Disse que a ligação com o Paraíso estava difícil, causa das interferências dos disparos da guerra. O moço que procedesse à devida confissão, sem saltar nenhum tintim.
O bandido avançou então a lista de compridos crimes, em sanguechuva. Nem o Padre imaginava como a maldade pode ser criativa. Por exemplo, como com um só pilão se pode matar toda a família: o velho batido com o pau, a mãe obrigada pilar o próprio filho e, no enfim, a mãe violentada até ao derradeiro desfalecer. No fim da confissão, o Padre estava de cabeça baixa, parecia dormitoso, indiferente.
- “Padre?”
Ludmilo levantou lentamente a cabeça: em seu rosto rebrilhava a lágrima. A voz, quando lhe veio, já tinha subido paredes húmidas:
- “Não te posso perdoar, meu grande cabrão”.
O mautrapilho, primeiro, se admirou. Choveram mais insultos, o sacerdote perdera as estribeiras. O bandido, passada a surpresa, se ofendeu. Levantou-se, espreitou pelo postigo como que a confirmar o Padre. Depois, empurrou a janela do confessionário até fazer saltar as dobradiças.
- “Me chamaste o quê? Repete!”
E as mãos se prendiam à sotaina, levantando o Padre pelos goelos. No ar brilhou a repentina cintilação de uma catana.
- “Vais me perdoar ou eu te separo em postas”.
O Padre balbuciou algum latim. O bandido lhe encostou o hálito ao nariz e perguntou:
- “Disseste o quê?
- “Falei latim, língua dos anjos.
- “Fala outra língua, os anjos são todos brancos, não quero dividir língua com eles.
- “Põe o Padre no chão ou te ferro um tiro!”
Era a voz vinda da porta, o outro bandido falava de arma apontada. O negro abrandou as ameaças, soltando o religioso. Ficaram-se olhando, sem nenhum entendimento. O visitante rodou sobre si, foi saindo com modos lentos, acertando o corpo com o eco de seus próprios passos. De repente, o Padre chamou:
- “Chega aqui, meu filho. Quero-te falar uma coisa”.
O bandido voltou atrás, mão no cinturão. Seu olhar reganhara a arrogancia, ele era, de novo, dono de me-dos alheios.
- “É o quê, senhor Padre?
- “É que temos falta de comida para distribuir aqui na missão. Fazia falta uns sacos de milho, não arranjas por aí nada?”
O bandoleiro estranhou. Depois, largou uma ampla risada: arranja-se, sim senhor. Aproximou-se para que ninguém mais o escutasse:
- “Deixa só passar o primeiro camião. Desses que trazem donativos”.
E saiu, junto com o outro. O Padre, em trejeito risonho, virou os olhos para cima e disse:
- “Desculpa, meu Pai”.
O sacristão que escutara estes últimos diálogos se chegou ao Padre. Seus olhos lhe interrogavam. Como era possível ele se ligar a tal gente, encomendar crimes a um larápio? Ludmilo ignorou explicação e se encaminhou para a sacristia. O sacristão, chorando, lhe segurou pelas vestes:
- “Padre, responda! Como pode encomendar coisas roubadas ao pobre povo?”
Ludmilo parou, rodou para encarar o moço. Parecia querer responder, mas se fechou em silêncio. O Padre prosseguiu o caminho interrompido, passando pelo altar sem deitar ao chão os devotos joelhos.
O sacristão se recolheu atónito, sangrando os mais tristes pensamentos. Como podia o Padre ter solicitado o favor de produtos furtados, frutos do mais hediondo crime? Com certeza, parte daquilo de que ele já se servira na Igreja provinha de iguais indecências. Nos seguintes dias se romoeu: precisava falar com Ludmilo, lhe pedir a fraqueza da franqueza.
Mas o Padre evitava encontrar-se com ele. Uma tarde, o sacristão procedia a suas orações quando o mesmo bandido deu entrada na sacristia. Vinha só, malcheirento. O miúdo estremeceu em impotente ódio. O Padre se encaminhou para o visitante, cumprimentaram-se. O bandido entregou um saco:
- “Estão aqui as coisas. Está ver? Não esqueci!”
O Padre agradeceu e mastigou alguma conversa. O sacristão nada pôde escutar. Certamente, o Padre extravagava, nessa inacreditável cumplicidade com as forças do Mal. O assassino, então, se decidiu retirar. Queria aproveitar o caminho estar deserto, nem vivalma com ele se cruzara. O Padre lhe aconselhou que, antes, prestasse homenagem defronte ao altar. O outro acedeu, a catana roçando o chão em metálicas estridências. Ludmilo se encaminhou para as pesadas portadas e abriu-as de rompante.
Foi um estremecer do mundo. Vozes e alaridos deflagraram, em fracção de nada. Lá fora uma multidão se apinhava reclamando justiça contra o maufeitor. O sacristão se benzeu, desfalecido em medo. O bandido se rebuliu, em terrores. Correu para o Padre, lhe implorou protecção. Nas mãos do povo sua vida se extinguiria em sopro de vela. O Padre pousou as mãos sobre os ombros do desordeiro:
- “Vem comigo, não receies. Eu não deixo que te façam mal!”
E assomando à porta, trazendo o maufeitor pelo braço, o sacerdote levantou um gesto para calar as fúrias. Vazou-se um silêncio. As palavras de Ludmilo se anunciavam a esmorecer os arrebatamentos:
- “Irmãos, lembrai-vos dos ensinamentos de Cristo, nosso redentor!”
E sempre avançando para o interior da concha humana, continuou relembrando a lição de Jesus, seu exemplo de nobre justiça. De súbito, com um empurrão lançou o criminoso para o meio da multidão enquanto clamava, em sumária sentença:
- “Queimai-o!”
A enfurecida gente arremessou contra o condenado, batendo, pontapinhando, espirrando e cuspindo. O Padre entrou na igreja fechando a porta atrás de si.»
Mia Couto, in Contos do nascer da Terra, Editorial Caminho

domingo, 6 de maio de 2018

Ao Domingo Há Música

Tive um pouco de amor
na mão aberta.

Quis com ele construir
uma mesa
uma jarra
um assobio de perturbar
fantasmas.

Abriram-me os dedos:
caiu no chão um montão de palavras
inabitáveis.
Egito Gonçalves , " O Fósforo na Palha"


Há sons que  nos caem e passam a ser nossos. Vêm vestidos de tonalidades que nos surpreendem e encantam.
Benjamim Britten (1913-1976) foi  Maestro, pianista e um compositor prolífico. Em 1934, compôs a peça  Simple Symphony, op.4, for string orchestra , de onde se extraiu o registo  Sentimental Sarabande: Poco lento e pesante , interpretado por Guildhall String Ensemble.

sábado, 5 de maio de 2018

Para pensar...


 
«Qual o conhecimento que perdemos na informação e qual a sabedoria que perdemos no conhecimento?» T. S. Elliot

«E se a vida for, como certamente é, um problema para mim, também eu serei decerto um problema para a Vida.» Oscar Wilde

« A gigantesca crise planetária é a crise da humanidade que não consegue aceder à humanidade. » Edgar Morin

«E não me esquecer, ao começar o trabalho de me preparar para errar. Não esquecer que o erro muitas vezes se havia tornado o meu caminho. Todas as vezes em que não dava certo o que eu pensava ou sentia – é que se fazia enfim uma brecha, e, se antes eu tivesse tido coragem, já teria entrado por ela. Mas eu sempre tivera medo do delírio e erro. Meu erro, no entanto, devia ser o caminho de uma verdade, pois quando erro é que saio do que entendo. Se a "verdade" fosse aquilo que posso entender, terminaria sendo apenas uma verdade pequena, do meu caminho.» Clarice Lispector

sexta-feira, 4 de maio de 2018

Cinema, Livros e Eventos em Maio

Guernsey –A Sociedade Literária da Tarte de Casca de Batata estreia a 10 de Maio em Portugal e destaca o importante papel de um Clube de Leitura durante o período de ocupação nazi descoberto por Juliet Ashton (Lily James), uma jovem escritora bem-sucedida de espírito livre a viver na Londres do pós-guerra.Apesar do sucesso do seu mais recente romance e do apoio do seu querido amigo e editor Sidney (Matthew Goode), Juliet atravessava uma fase de falta de inspiração depois da experiência difícil da guerra. Pronta para aceitar uma proposta de Mark Reynolds (Glen Powell), Juliet recebe uma carta de um membro da misteriosa Sociedade Literária de Guernsey, uma organização formada durante o período de ocupação nazi. Curiosa por saber mais, Juliet decide ir até às ilhas de Guernsey e encontra-se com os excêntricos membros da Sociedade Literária da Tarte de Casca de Batata, entre os quais se encontra Dawsey (Michiel Huisman), o charmoso e intrigante agricultor que esteve na origem da carta.Juliet cedo percebe que a organização esconde um segredo terrível e que têm medo que ela o possa revelar. À medida que Juliet e Dawsey se vão aproximando, ela começa a desvendar o que aconteceu durante os anos difíceis da ocupação nazi e compreende o receio que sentem de contar a sua história.A verdade é que as confidências, a sua ligação à ilha e aos seus habitantes e a crescente afeição que nutre por Dawsey irão, para sempre, mudar o curso da vida de Juliet.
Título Original: The Guernsey Literary and Potato Peel Pie Society
Realizador: Mike Newell (Quatro Casamentos e Um Funeral)
Elenco: Lily James, Michiel Huisman, Jessica Brown Findlay
LIVROS- Editora Relógio D'Água
Diários de Virginia Woolf
9789896418366
736
15,3 x 23,3 cms
Capa Dura com Sobrecapa
1198 gr
SELECÇÃO, TRADUÇÃO E PREFÁCIO DE JORGE VAZ DE CARVALHO
«O que nos diz o Diário da pessoa de VW que nos permita conhecê­‑la melhor? O aspecto mais impressionante creio ser a evidência de uma mulher extremamente contraditória. Desde logo, as alterações radicais dos estados de espírito, a dramática inconstância dos terrores e euforias vivenciais, de um dia “tão divinamente feliz” e de outro exausta e deprimida. Igualmente a dicotomia entre a necessidade de “estar na vertigem das coisas” (o prazer que diz incomparável de jantares e festas, das visitas, das bisbilhotices) e o isolamento com os livros, a escrita, o jardim, a lareira, Leonard. Deseja a animação, os estímulos que põem a mente à prova, os mexericos fervilhantes, e logo se farta da afluência das visitas, despreza os convivas enfadonhos e banais, acusa o desgaste das frioleiras, a perda de tempo com ninharias, anseia beber uma boa “dose de silêncio”.»Do Prefácio
Entre Mim e o Mundo , de Ta-Nehisi Coates
Tradução: Agostinho da Silva
EAN: 9789899947030
Nº de Páginas: 160
Formato: 14x21 cms
Acabamento: Capa Mole
Peso: 214 gr
VENCEDOR DO NATIONAL BOOK AWARD
«A linguagem de Entre mim e o mundo é, como a viagem de Coates, visceral, eloquente, bela e redentora… Um livro de leitura obrigatória.» Toni Morrison
«Poderoso e apaixonado.» Michiko Kakutani, The New York Times
«Brilhante.» The Washington Post
Entre mim e o mundo é uma reflexão profunda e pessoal, muitas vezes indignada, sobre o racismo. Numa carta ao filho adolescente, Ta-Nehisi Coates recorda a sua infância e juventude num bairro violento de Baltimore, o despertar intelectual por via dos livros, dos discursos de Malcolm Xe de mulheres amadas. Dolorosamente, relembra ainda a perda de um colega de faculdade, também ele negro, vítima de uma perseguição policial.
Ta-Nehisi Coates nasceu em 1975 em Baltimore e vive actualmente em Nova Iorque com a mulher e o filho. Como correspondente da revista Atlantic, recebeu os prémios de jornalismo Hillman e George Polk. É o autor de The Beautiful Struggle e de Entre mim e o mundo. O último foi escolhido como um dos melhores livros do ano por, entre outros, The Guardian, The New Yorker e The Economist e venceu o National Book Award de 2015 para não ficção."
Hermione - LaFayette em Portimão
08 Mai 2018 » 10 Mai 2018 (Porto de Cruzeiros de Portimão)
Lafayette partiu na “Hermione” rumo à América do Norte e 1780, onde lutou pelo lado revolucionário na Guerra da Independência dos Estados Unidos da América.
Durante 3 dias pode visitar o mundo de Lafayette em Portimão. Haverá visitas a bordo, espectáculos de música e animação, exposições e conferências.
O Porto de Cruzeiros de Portimão transforma-se no village “Hermione LaFayette” com vários expositores da área gastronómica, artesanato, artigos vários, entidades oficiais e animação diária.
O Village “Lafayette” funciona das 09:30 às 23:00 e tem entrada livre. As visitas à fragata "Hermione Lafayette" são pagas.
Visitas à Fragata : Adulto: €3,00 / Crianças entre os 6 e os 12 anos: €1,00

(Não é permitida a entrada/visita à fragata de crianças com idade inferior a 6 anos por questões de segurança)

Terras sem Sombra em Beja
O Cante da Ilha da Liberdade, a rota de Soror Mariana e observação de aves
O Baixo Alentejo volta a ganhar protagonismo enquanto destino privilegiado de património, música e biodiversidade. Os dias 5 e 6 de Maio são dedicados pelo Terras sem Sombra a Beja, tendo como pano de fundo as Cartas Portuguesas, de Soror Alcoforado.

Segredos das vozes corsas
O etnomusicólogo Michel Giacometti, nascido na Córsega, foi quem primeiro aprofundou as ligações entre o Cante e a Polifonia das zonas rurais dessa ilha, que constitui, decerto, o “parente mais próximo” das modas do Alentejo. Invocando essa herança partilhada, o mais destacado ensemble corso da actualidade, Barbara Furtuna – Voix Corses apresenta, na igreja do convento de S. Francisco (Pousada), às 21h30, o concerto O Canto na Ilha da Liberdade. Jean-Philippe Guissani, Maxime Merlandi, Jean-Pierre Marchetti e André Dominici escolheram um programa, com composições religiosas e profanas, bem representativo da polifonia da Córsega, desde o século XVIII aos dias de hoje, não esquecendo as afinidades com o Cante. Trata-se de uma ocasião muito propícia para conhecer uma tradição musical de que se fala muito, mas que se escuta pouco entre nós. O espectáculo é consagrado pelo Terras sem Sombra à memória de Giacometti, falecido em Faro, em 1990, e cujo corpo repousa em Peroguarda – aldeia alentejana que ele amou e cujas tradições musicais estudou ao longo de décadas. Esta iniciativa resulta da colaboração bilateral do festival alentejano com o Centro Superior de Investigação e Promoção da Música, da Universidade Autónoma de Madrid, iniciada em 2017.

Na Rota de Soror Mariana Alcoforado
O nome de Soror Mariana Alcoforado, religiosa no convento da Conceição, é indissociável das cartas de amor dirigidas a Noël Bouton, conde de Saint-Léger, mais tarde marquês de Chamilly, e publicadas em França (1669) sob o título de Lettres Portugaises. A tarde de sábado é consagrada a percorrer uma “Rota de Mariana”, antecipando a celebração dos 350.º aniversário da publicação das Cartas Portuguesas, em 2019. Visitam-se, assim, monumentos e sítios que conservam a memória da célebre “Freira de Beja”: a casa onde nasceu, hoje sede do Club Bejense; a igreja de Santa Maria da Feira, onde foi baptizada; e o convento onde entrou com apenas 11 anos, passou toda a existência e está sepultada. Esta iniciativa tem o ponto de encontro no Museu Regional de Beja, às 15 horas, e é orientada pelos historiadores Florival Baioa Monteiro e José António Falcão.

Um santuário das aves na planície: a barragem dos Grous
Situada em Albernoa, a Herdade dos Grous caracteriza-se pela simbiose entre as actividades turísticas e as práticas agro-ambientais, apresentando diferentes tipos de habitats que permitem acolher uma grande variedade de espécies de aves, quer residentes, quer migratórias. A sua barragem constitui um santuário na planície para muitas dessas aves, que só podem ser observadas em biomas deste género, tipicamente mediterrânicos. Entre as mais de 200 espécies que se identificam no local, sobressaem o peneireiro-cinzento, a águia-pesqueira, o picanço-real-meridional, a poupa, o abelharuco, a andorinha-dáurica, o picanço-barreiteiro e o papa-figos, entre outros casos paradigmáticos. Um verdadeiro tesouro da biodiversidade alentejana, com repercussões mundiais, que atrai todos os anos muitos peritos em birdwatching. Tirando partido deste contexto privilegiado para a conservação da natureza, o festival dedica a manhã de domingo, às 10 horas, a um passeio interactivo para a observação de aves, com uma explicação das práticas biológicas que a herdade está a desenvolver, em particular na vertente da exploração agrícola, e a realização de actividades práticas a ela associadas. São guias o biólogo Luís Salvador e do médico Dinis Cortes, grandes conhecedores da fauna da região. As iniciativas do Terras sem Sombra são de acesso livre e resultam da colaboração da Pedra Angular com a Câmara Municipal de Beja.
O mês de Maio é porventura aquele em que Beja mais fervilha de actividade cultural. Difícil mesmo é destacar um evento específico relativamente a outro. O cinema italiano está em destaque logo no início do mês com mais uma edição da Festa de cinema desse país.
Dias depois, no primeiro fim-de-semana de Maio, a “Festa do Azulejo” e o “Festival Terras sem Sombra”, trarão muita alegria e qualidade artística
à sede de Concelho.
A “Beja Romana” com alguns contornos novos, nomeadamente um maior envolvimento da comunidade escolar local, estará de regresso ao Centro Histórico entre os dias 17 e 20 de maio.
No final do mês o “Festival Internacional de Banda Desenhada de Beja” abrirá portas para mais uma quinzena que colocará Beja no topo nacional
da Banda Desenhada, com um roteiro que permitirá praticamente dar a conhecer toda a cidade a quem decida visitar-nos.
A Câmara Municipal de Beja volta também a assinalar o Dia da Cidade, “a nossa” Quinta-Feira da Ascensão, com atividades no Parque da Cidade e
dentro das comemorações da data teremos no domingo, dia 13, a “Grande Corrida Cidade de Beja” agora batizada com o nome do nosso conterrâneo Fernando Mamede.
Teremos ainda conferências, colóquios e exposições de enorme qualidade para completar esta oferta já de si multifacetada.
O Pax-Júlia, o Centro UNESCO, a Biblioteca Municipal, os Museus e espaços privados completam com programações para todos os gostos este leque
de ofertas de excelência que acontecem em Beja em Maio.
Convido-o a consultar as opções nesta agenda e a aproveitar Beja o melhor que puder." CMB

À CONVERSA COM

Bordalo II, no seu ateliê



O artista de arte urbana Bordalo II fala sobre a sua forma de criar e sobre a peça original que construiu para o Jardim Gulbenkian. Não perca a entrevista nem deixe de visitar a obra Half Bear, nos jardins da Fundação.
LEIA A ENTREVISTA

APRESENTAÇÃO DE RESULTADOS

STOP Infeção Hospitalar!

Segunda, 7 aio, 10:30, Auditório 2



O Desafio Gulbenkian STOP Infecção Hospitalar! terminou e foi uma história de sucesso.
A ideia de diminuir, em 50%, a incidência das infecções adquiridas em meio hospitalar no prazo de 3 anos (2015-2018) não só foi alcançada como as expectativas foram superadas. Na segunda feira serão apresentados os resultados finais do Desafio, num encontro que falará também do futuro.
SAIBA MAIS

MÚSICA

War Requiem

Sexta, 4 de Maio, 21:00, Grande Auditório

A obra War Requiem, ou o Requiem da Guerra, foi escrita pelo compositor inglês Benjamin Britten em 1962 como uma pungente declaração antiguerra e um apelo ao entendimento entre os homens. Estreada na catedral de Coventry, a obra (não litúrgica) sobe agora ao palco do Grande Auditório com  o Coro do Teatro Nacional de São Carlos e a Orquestra Sinfónica Portuguesa, sob a direcção de Graeme Jenkins.

SAIBA MAIS


CURSO

Glória e Pranto: a representação da guerra na história da música

8, 10 e 14 Maio, 18:30–20:30, Auditório 3


A história da civilização ocidental é também a história da guerra, diz Rui Vieira Nery. Durante três sessões, o musicólogo falará sobre a representação da guerra na história da música: das marchas militares aos pedidos de protecção divina, dos hinos ao choro pela destruição, a morte e a saudade.
SAIBA MAIS

Hackathon


A Maratona Digital Hack for Good é já este fim de semana, no Palácio dos Correios, no Porto!
SAIBA MAIS

GULBENKIAN.PT

Copyright © 2018 Fundação Calouste Gulbenkian, Todos os direitos reservados

Fundação Calouste Gulbenkian
Lisbon 1067-001
Portugal


Exposição “Visões Simbólicas” de Gerson Fogaça em Maio


O brasileiro Gerson Fogaça inaugura a exposição de pinturas “Visões Simbólicas” na Casa da América Latina, a 10 de maio, pelas 18h00, e que ficará patente até 27 de julho.
 

Recital de Lauro Moreira "Vozes Poéticas da Iberoamérica"


O ex-embaixador brasileiro Lauro Moreira apresenta o recital "Vozes Poéticas da Iberoamérica" na Casa da América Latina, no dia 11 de maio, pelas 21h30. Lauro Moreira vai interpretar várias “vozes” da literatura ibero-americana, articulando-as com a música destas regiões.

Festival Internacional da Máscara Ibérica apresenta “Dias de Cinema”


XIII Festival Internacional da Máscara Ibérica apresenta, no âmbito da atividade “Dias de Cinema”, três filmes (dois portugueses e um brasileiro), com incidência na temática das máscaras, dias 16 e 17 de maio na Casa da América Latina.

Prémio Científico Mário Quartin Graça 2018


Estão abertas, até ao próximo dia 31 de maio, as candidaturas ao Prémio Científico Mário Quartin Graça, instituído pela Casa da América Latina e pelo Banco Santander. Veja aqui o regulamento e ficha de inscrição.

Embaixada do México homenageia José Arreola no Dia Internacional do Livro


A Embaixada do México em Portugal convidou a cidade a acompanhar a sua comunidade para ler um fragmento da obra “La Feria”, comemorando o centenário do nascimento do escritor Juan José Arreola, que junto com Juan Rulfo, é considerado o mestre do conto mexicano contemporâneo.

Sergio Ramírez – Prémio Cervantes 2018


Prémio Miguel de Cervantes foi entregue ao escritor nicaraguense Sergio Ramírez pelos reis de Espanha, no dia 23 de abril, na Universidade de Alcalá de Henares, em Madrid. Esta é a primeira vez que um autor da América Central é distinguido com este prémio.

Augusto Santos Silva publica “Argumentos Necessários”


Ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva, publicou o livro Argumentos Necessários. Para melhor entender a política externa portuguesa.

Visita Guiada à exposição “Movimento 2” de Leonor Beltrán




A Casa da América Latina e Leonor Beltrán organizam uma visita guiada à exposição “Movimento 2”, no dia 3 de maio, pelas 18h00. No final da visita terá lugar uma conversa entre Leonor Beltrán e Joana Consiglieri.

Baile e músicas latinas para toda a família na CAL
 

atividade "Músicas Latinas" é orientada para famílias e procura explorar a expressão criativa das musicalidades da região latino-americana. Esta experiência intercultural realiza-se a 12 de maio, pelas 16h00, na Casa da América Latina.
 

Apresentação do Livro “Cuba, Ano Zero?” na CAL


O livro "Cuba, Ano Zero?", dos fotógrafos Luís Câmara e Carlos Lopes Franco, vai ser apresentado na Casa da América Latina (CAL) a 18 de maio, pelas 18h30.


 

11º edição do Curso de Verão América Latina Hoje


Continua aberta, até 15 de julho, a fase de candidaturas para o Curso de Verão América Latina Hoje, que vai ter lugar no ISCTE-IUL, em Lisboa, entre os dias 2 e 6 de julho.
 

Duas exposições, dois caminhos


Texto de Yvette Centeno sobre as exposições de Leonor Beltrán na Casa da América Latina e Teresa Balté na Perve Galeria. 

FILBo aproxima literaturas ibero-americanas


“Sentir as Ideias” foi o tema da 31ª Feira Internacional do Livro de Bogotá (FILBo), que teve a Argentina como convidado de honra. A feira, onde estiveram presentes diversos autores latino-americanos, decorreu entre 17 de abril e 2 de maio.
 

Carta Universal dos Deveres e Obrigações das Pessoas


Carta Universal dos Deveres e Obrigações das Pessoas, uma iniciativa de um grupo de personalidades mexicanas, conta com o apoio do Governo do México.


Libres - couverture du numéro 5 du Nouveau Magazine littéraire
En kiosque
Le numéro 5 du magazine est arrivé chez vos marchands de journaux.
•En couverture : L'Union européenne focalise toutes les rancœurs et tous les rejets. Voulant sauver cet espace commun du naufrage de la technostructure bruxelloise, nous avons demandé à des auteurs de pays et d'horizons différents de repenser et de réinventer l'Europe.
•La conversation : Leïla Slimani et Raphaël Glucksmann rencontrent Asli Erdogan.
•Les récits : L'île impossible par Eirikur Örn Norodahl et Le premier métro par Sara Lövestam.
•Les idées : Macron, un chasseur sachant chasser. Deux cents ans après, Marx toujours capital.
•Le dossier : Les Misérables ont la peau dure.
•Notre bibliothèque : Philippe Lançon, Silvia Avallone, Edouard Louis...
•Et bien plus encore...