sexta-feira, 9 de março de 2018

Madrigal


Madrigal

A minha história é simples.
A tua, meu Amor,
é bem mais simples ainda:

"Era uma vez uma flor.
 Nasceu à beira de um Poeta..."

 Vês como é simples e linda?

 (O resto conto depois;
 mas tão a sós, tão de manso
 que só escutemos os dois).
Sebastião da Gama, in 'Antologia Poética'

quinta-feira, 8 de março de 2018

De ontem para hoje: Dia da Mulher

7.03. 2018

Hoje é o dia  da minha  neta Charlotte. Faz seis anos. É a menina da família. Até ela nascer, movia-me num mundo de homens: dois filhos e três netos. Nunca me incomodei com essa circunstância. Creio, até, que tenho um lado muito compatível com o género masculino. Sempre tive grandes e fiéis amigos e excelentes alunos, todos eles homens.  Manter um bom debate com homens inteligentes que saibam combater, em paridade, apenas com argumentos válidos, foi e continua a ser um excelente desafio. A sobranceria nunca a encarei como masculina, mas antes própria dos néscios de qualquer sexo.
Mas a Charlotte chegou e foi um raiar de luz. Linda  e rabina, veio desassossegar a organização estabelecida pelos rapazes. De princípio, acharam-lhe graça até que a irrequietude de menina começou a exasperá-los. E assim se têm passado os dias entre eles: da paz carinhosa à guerra declarada.
Esperta e uma excelente  negociadora, sabe fazer uma oportuna trégua  a fim de reaver o estatuto de neta e prima única.
Comigo, o milagre aconteceu. A menina que nunca me fez falta , chegou sem instruções e com adjectivos novos que me cativaram ao primeiro olhar. Obrigou-me a procurar adornos, vestidos e todo um complemento de objectos que jamais comprara para a prole que me compunha. Nos primeiros tempos, foi um esbanjamento a toda a linha. Creio que adquiri tudo aquilo que nunca pude comprar e que enchia as montras das lojas infantis.Desde os vestidos de diversos tamanhos e feitios, às blusas e saias, aos laçarotes e sapatinhos de verniz, nada foi ficando para trás. A Charlotte fez emergir a minha veia consumista que desconhecia. Ainda hoje me perco, quando vou às compras para ela ou com ela.
Nem sei se sou uma avó vaidosa , daquelas que contribuíram para   o célebre cliché de avó. Não me interessa. A Charlotte é loirinha, de olhos azuis como o firmamento, em dia de muita luminosidade. Branquinha e harmoniosa, tem os gestos dóceis e  elegantes que  as lições de ballet lhe acentuaram. Quando se zanga ou lança o lado mais incontrolado, grita, corre e esmurra se necessário. Pedala, nada, patina e sobe às árvores com uma destreza notável. Concorre com os primos,  em qualquer situação. É, porém, a menina que veio alterar a paz masculina. É a minha única menina.
E isso trouxe-me uma felicidade indizível.

quarta-feira, 7 de março de 2018

Em memória de Maria Antonieta ( MA)

Sentia-me perdido, abandonado. Adoçava-me um pouco a dor e a solidão ir escrevendo o diário do meu luto – uma forma de  ir continuando a estar com ela. Eugénio Lisboa

Eugénio Lisboa perdeu a mulher , Maria Antonieta (MA), em Julho de 2016. Com ela, vivera cinquenta e sete anos . 
Autor de uma magnífica e premiada  obra memorialística, em seis volumes,  decidiu  acrescentar um outro volume, para encerrar um relato,  que só poderia estar completo,  com a homenagem  à sua companheira de longos e extraordinários anos.
O trecho, que se transcreve, foi extraído desse volume, "Acta Est Fabula- Epílogo".
Casamento de Eugénio Lisboa com Maria Antonieta,Março de 1959
 "Estes últimos dias da MA no Lar foram dias particularmente felizes, porque havia esperança. A ensaísta americana Susan Sontag disse um dia que a doença é o lado nocturno da vida; nestes dias, “em casa”, a MA viveu o lado diurno da vida. Recebeu amigos, conversámos demoradamente e demo-nos ao luxo de fazer planos. A Geninha estava presente e muito participativa, mas, ao fim de alguns dias, regressou ao Qatar, contente com a situação. Tudo parecia finalmente encaminhado para uma conclusão feliz.
Num domingo, alguns dias depois da partida da Geninha, encontrava-me eu no Jumbo, de Cascais, a fazer umas compras e a tratar da lavagem do carro, eis que recebo uma preocupante chamada telefónica: a perna da MA, cuja temperatura baixara e cuja aparência era inquietante, deveria ser imediatamente examinada nas urgências de Cascais e dali possivelmente transferida para o Egas Moniz, via S. Francisco Xavier. Pediu-se uma ambulância para ir buscar a MA ao Lar e eu segui, do Jumbo, directamente para o Hospital de Cascais, onde aguardei a chegada da ambulância. Depois de examinada, procedeu-se à transferência e eu fui, separadamente, no meu carro, ao Hospital S. Francisco Xavier, onde me encontrei com a MA, que se encontrava, num corredor, a aguardar a transferência para o Egas Moniz. Fiquei a fazer-lhe companhia, na esperança de ela ser transferida ainda nessa noite, o que veio a acontecer. Na madrugada do dia 6 de Junho (2016), deu de novo entrada no Hospital Egas Moniz, onde ficou entregue aos cuidados da equipa do Dr. Pedro Amorim. Iriam ser dois meses de altos e baixos, de esperança e desespero, durante os quais a fui ver todos os dias, levando-lhe coisas de que necessitava, filmes, discos, literatura, até alimentos para a hora do lanche da tarde. E atenção. E carinho. Sobretudo, isto. Ao fim da tarde, regressava a casa, em S. Pedro do Estoril, de onde constantemente lhe telefonava, para nos mantermos ligados. Ao fim de algumas semanas o médico começou a aceitar a ideia de mandá-la para casa, mas foi avisando que tinha de estar preparada para, eventualmente, regressar ao hospital. Estávamos neste preparo, aguardando a qualquer momento a decisão do médico, quando se lhe declarou uma pneumonia grave. Uma médica de serviço preveniu-nos, com uma franqueza que me pareceu um bocadinho brutal, que devíamos estar preparados “para o pior”. Nessa noite, em casa, fui-me completamente abaixo, de puro desespero. Estava preparado para tudo, menos para perder a MA. Mas, nos dias seguintes, reagindo bem aos antibióticos, a MA pareceu estar a melhorar, francamente, da pneumonia, embora o coração parecesse estar a dar alguns cuidados. Estávamos, então, na segunda quinzena de Julho. No dia 25 de Maio, eu fizera 86 anos e no dia 30, a MA completara 80. Tinham sido efemérides assinaladas no meio de muita aflição, mas também, apesar de tudo, de alguma esperança. Nessa segunda quinzena de Julho, eu passava os dias ao lado da MA, segurando-lhe a mão e vigiando atentamente o aparelho que lhe controlava o funcionamento do coração. De vez em quando, desconfiado do que lia na máquina, aflito, corria a chamar uma enfermeira, que me acalmava. Nesta altura, a MA não se mostrava muito inclinada a ler, mas a minha neta Maria ofereceu-se, gentilmente, para lhe ler, em voz alta, capítulos de um livro sobre Nova Iorque, o que a MA pareceu muito apreciar. Na ausência da Maria, fazia eu de leitor. Era importante manter a atenção dela desperta e o cérebro a funcionar. Mas eu notava, compungido, que havia uma certa desactivação de todo o seu ser. Quando, de casa, lhe telefonava, ela já não atendia o telefone: ou não o ouvia ou não o encontrava. Parecia que, aos poucos, se ia “desligando”, o que muito me inquietava. Continuava a levar-lhe sanduiches e sumos, mas tinha que a forçar – tocava de leve na comida, por cortesia, mas, visivelmente, não lhe apetecia. Eu não sabia o que pensar, mas não queria acreditar no pior.
No dia 30 (de Julho), um sábado, fui, como de costume, ver a MA, que se encontrava a respirar com dificuldade. Estavam lá, também, a Geninha e a Teresa Martins Marques. Acarinhei a MA, fiz-lhe muitas festas na cabeça, peguei-lhe na mão, mas não deu grandes mostras de reagir. Respirava com dificuldade. Não pensei o pior, embora tudo aquilo me inquietasse. Pouco depois das 19.00 horas saímos para irmos jantar, eu, a Teresa e o marido, o Ernesto Rodrigues, em S. Pedro do Estoril. A Geninha seguiu para Óbidos, onde tinha a sua casa de férias. No final do jantar, o telefone da Teresa tocou e ela pegou nele, numa grande aflição, que eu não percebi ou não quis perceber: ela, obviamente desconfiava de algo de grave, embora não houvesse, aparentemente, quanto a mim, razões para isso. O telefonema era da Geninha, que acabara de receber uma chamada do hospital: às 19.40, a MA deixara de viver, devido a uma paragem cardíaca. Fui-me completamente abaixo porque, além do mais, não estava nada preparado. Não estava preparado, como continuo a não estar resignado, para a perda da minha companheira de 57 anos. Pedi que me levassem ao hospital e, lá chegado, perguntei se podia vê-la. Levaram-me ao quarto e olhei, incrédulo, para ela. Nunca esquecerei a impressão que me fez: a de um ser que tinha parado. Que tinha sido inesperadamente detido. Mostrava, no rosto, o esboço de um sorriso de perplexidade. Beijei-a, fiz-lhe companhia, por alguns minutos e depois pedi que me levassem para casa. Seria cremada, na terça feira, dia 2, levando-me o meu filho João Luis, no dia seguinte, para o Algarve, onde estive cinco dias, num estado de atordoamento e incredulidade, incapaz, por completo, de aceitar a realidade de uma nova vida sem a MA. Recebi muitas mensagens de solidariedade e amizade, quase todas aludindo à pessoa muito especial que tinha sido a MA. Sentia-me perdido, abandonado. Adoçava-me um pouco a dor e a solidão ir escrevendo o diário do meu luto – uma forma de ir continuando a estar com ela. É esse diário, para todo o período da doença e morte da MA que, a seguir, publico: acrescentando-lhe as entradas relativas ao ano que se seguiu ao seu falecimento."
Eugénio Lisboa, in "Acta Est Fabula- Epílogo", Editora Opera Omnia, Novembro de 2017

terça-feira, 6 de março de 2018

Recordar Gabriel García Márquez

Gabriel Garcia Márquez nasceu há noventa e um anos, a  6 de Março de 1927, em Aracataca, Colômbia.
Descobri a sua escrita era ainda jovem. A sedução que me provocou aquele mundo fantástico  dos seus textos foi  uma das maiores experiências que tive como leitora. Abriu-se um novo mundo que me fascinou  pela beleza e originalidade de uma prosa tão   poética  que chegava a obscurecer    alguma da poesia em verso.
Gabriel Garcia Márquez capturou-me . A ele presto homenagem , transcrevendo um magnífico discurso que fez em 2007, quando lhe foi prestado um grande tributo.
Gabriel García Márquez e Pablo Neruda na Normandia
Uma alma aberta para ser preenchida com mensagens em castelhano
Cartagena das Índias, Colômbia, 26 de Março de 2007
Por Gabriel García Márquez 
" Nem no mais delirante dos meus sonhos nos dias que escrevia Cem Anos de Solidão cheguei a imaginar que poderia  ver uma edição de um milhão de exemplares.  Pensar que um milhão de pessoas pudessem ler alguma coisa escrita na solidão de um quarto , com vinte e oito letras  do alfabeto e os dedos como único arsenal, parecia com toda a evidência uma loucura. Hoje, as Academias da Língua fazem-no como um gesto para com um romance que passou diante dos olhos de cinquenta  vezes um milhão de leitores, e para com um artesão ínsone como eu, que não se refaz da surpresa por tudo o que aconteceu.
Mas não se trata nem pode tratar-se de um reconhecimento a um escritor. Este milagre é a demonstração irrefutável de que há  uma quantidade  enorme de pessoas dispostas  a ler histórias  em língua castelhana, e portanto  um milhão de exemplares de Cem Anos de Solidão não são um milhão de homenagens ao escritor que hoje recebe ruborizado o primeiro livro desta tiragem descomunal. É a demonstração de que há milhões de leitores de textos em língua castelhana à espera deste alimento.
Na minha rotina de escritor nada mudou desde então. Nunca vi  nada diferente que os meus dois dedos indicadores a baterem um a um a bom ritmos as vinte e oito letras do alfabeto inalterado  que tive diante dos meus olhos durante  estes setenta e tal anos. Hoje coube-me levantar a cabeça para assistir a esta homenagem que agradeço e não posso fazer outra coisa  senão deter-me  a pensar o que foi que aconteceu. O que vejo é que o leitor inexistente da minha página em branco é hoje uma descomunal multidão faminta de leitura de textos em língua castelhana.
(...) O desafio é para todos os escritores, todos os poetas  , narradores e educadores  de nossa língua, para alimentar essa sede e multiplicar esta multidão, verdadeira razão  de ser do nosso ofício, e, claro, de nós mesmos. 
Nos meus trinta e oito anos e já com quatro livros publicados desde os vinte anos, sentei-me diante da máquina e escrevi : " Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento ,  o coronel Aureliano Buendía havia de recordar aquela tarde  remota  em que o pai o levara a conhecer o gelo." Não fazia a menor ideia  do significado nem da origem  dessa frase nem de onde me havia de conduzir. O que hoje  sei é que não deixei de escrever  nem um único dia durante dezoito meses , até terminar o livro.
(...) O  que poderia ser motivo para outro livro melhor era como Mercedes e eu sobrevivemos com os nossos dois filhos durante esse tempo em que não ganhei nenhum centavo de lado nenhum. Nem sequer sei como fez Mercedes para que não faltasse nem um dia comida na casa. Tínhamos resistido à tentação dos empréstimos com juros até fazermos  das tripas coração e empreendermos as nossas primeiras incursões ao Monte de Piedad.
Depois dos efémeros alívios com certas coisas miúdas, foi preciso apelar às joias  que Mercedes tinha recebido  dos seus familiares ao longo dos anos. O perito examinou-as com um rigor  de cirurgião, pesou e reviu com o seu olho mágico os diamantes dos brincos , as esmeraldas de um colar, os rubis dos anéis, e no final devolveu-no-los com uma longa verónica de novilheiro:" Tudo isto é puro vidro."
Nos momentos de maiores dificuldades  Mercedes fez as suas contas astrais  e disse ao seu paciente  senhorio, sem o mínimo tremor de voz:
- Podemos pagar-lhe tudo junto dentro de seis meses.
- Desculpe, minha senhora - respondeu-lhe o proprietário -, já percebeu que nessa altura será uma quantia enorme?
- Percebi - disse Mercedes, impassível - , mas nessa altura teremos tudo resolvido. Fique sossegado.
 Ao bom doutor, que era um alto funcionário do Estado,  e um dos homens mais elegantes e pacientes que tínhamos conhecido, tão-pouco tremeu a sua voz para responder:
- Muito bem, minha senhora, a sua palavra basta-me - e fez as suas contas mortais. - Espero-a no dia sete de Setembro.
1ª edição do romance
"Cem anos de Solidão"
 Por fim, em princípios de Agosto de 1966, Mercedes e eu fomos à estação de correios da Cidade do México a fim de enviar para Buenos Aires a versão terminada de Cem Anos de Solidão , um pacote de 590 páginas escritas à máquina a dois espaços e em papel ordinário, e dirigidas  a Francisco Porrúa, director literário da Editorial Sudamericana.
O funcionário dos correios pôs o pacote na balança, fez os seus cálculos mentais e disse:
- São oitenta e dois pesos.
Mercedes contou as notas e as moedas soltas que lhe restavam na carteira e confrontou-se com a realidade. 
- Só temos cinquenta e três.
Abrimos o embrulho, dividimo-lo em duas partes iguais e mandámos uma para Buenos Aires sem sequer perguntar como íamos conseguir o dinheiro para mandar o resto. Só depois nos apercebemos de que não tínhamos mandado a primeira metade, mas sim a última.  Mas antes de conseguirmos o dinheiro para a mandar, Paco Porrúa, o nosso homem na Editorial Sudamericana, ansioso por ler a primeira parte, adiantou-nos o dinheiro para podermos mandá-la.
Foi assim que voltámos a nascer na nossa vida de hoje."
Gabriel García Márquez, in Eu não venho fazer um discurso", Publicações 
Dom Quixote, 2015, pp. 139-144

segunda-feira, 5 de março de 2018

A festa do cinema : os Óscares de 2018

“A Forma da Água” ganha o Óscar de Melhor Filme
Prémios de cinema norte-americanos passam mensagem de diversidade numa noite que não teve vencedores destacados.
Por Mário Rui Vieira
Jornalista
"A Forma da Água" ganhou o Óscar de Melhor Filme esta noite no Dolby Theater, em Hollywood. O filme arrecadou ao todo quatro prémios, rendendo a Guillermo Del Toro o seu primeiro Óscar de Melhor Realizador e ultrapassando a concorrência também nas categorias de Melhor Banda Sonora e Melhor Direcção de Arte.
Logo atrás ficou "Dunkirk", que venceu em três categorias técnicas: Melhor Montagem, Melhor Edição de Som e Melhor Mistura de Som. O filme de animação "Coco" destacou-se como Melhor Filme de Animação e como vencedor do prémio de Melhor Canção Original ('Remember Me'). "Blade Runner 2049", "Três Cartazes à Beira da Estrada" e "A Hora Mais Negra" também foram distinguidos com dois prémios cada.
Veja  a lista completa de vencedores e leia também um resumo da gala.

Melhor Filme “A Forma da Água”
Melhor Realizador Guillermo Del Toro, "A Forma da Água"
Melhor Actriz Frances McDormand, “Três Cartazes à Beira da Estrada”
Melhor Actor Gary Oldman, “A Hora Mais Negra”
Melhor Actriz Secundária Allison Janney - “Eu, Tonya”
Melhor Actor Secundário Sam Rockwell, “Três Cartazes à Beira da Estrada”
Melhor Argumento Original Jordan Peele, “Foge”
Melhor Argumento Adaptado James Ivory, “Chama-me pelo teu Nome”
Melhor Banda Sonora - “A Forma da Água”, Alexandre Desplat
Melhor Canção - 'Remember Me', Coco
Melhor Filme Estrangeiro, “Uma Mulher Fantástica”, Sebastián Lelio (Chile)
Melhor Filme de Animação, “Coco”, Lee Unkrich e Darla K. Anderson
Melhor Documentário em Longa-Metragem, “Icarus”, Bryan Fogel e Dan Cogan
Melhor Documentário em Curta-Metragem, “Heaven is a Traffic Jam on the 405”, Frank Stiefel
Melhor Curta-Metragem “The Silent Child”, Chris Overton e Rachel Shenton
Melhor Curta-Metragem de Animação “Dear Basketball”, Glen Keane e Kobe Bryant
Melhor Fotografia “Blade Runner 2049”, Roger Deakins
Melhor Edição de Som “Dunkirk”, Richard King e Alex Gibson
Melhor Mistura de Som “Dunkirk”, Mark Wingarten, Gregg Landaker e Gary A. Rizzo
Melhor Direcção de Arte “A Forma da Água”, Paul Denham Austerberry, Shane Vieau e Jeff Melvin
Melhor Caracterização “A Hora Mais Negra”, David Malinowski, Lucy Sibbick e Kazuhiro Tsuji
Melhor Guarda-Roupa “Linha Fantasma”, Mark Bridges
Melhor Montagem “Dunkirk”, Lee Smith
Melhores Efeitos Visuais “Blade Runner 2049”, Gerd Nefzer, John Nelson, Paul Lambert e Richard Hoover

Depois do discurso de abertura do anfitrião Jimmy Kimmel, com as habituais tiradas humorísticas, “recados” aos grandes vilões do último ano - Harvey Weinstein, Donald Trump e Mike Pence - e exaltação dos movimentos femininos #metoo e #timesup, movimentos pela igualdade e pelo controlo de armas, a cerimónia começou com uma primeira vitória para “Três Cartazes à Beira da Estrada”. Sam Rockwell recebeu a estatueta de Melhor Actor Secundário das mãos de Viola Davis e agradeceu aos outros nomeados por serem uma inspiração. Foi a sua primeira nomeação e, claro, o seu primeiro Óscar.
A primeira surpresa da noite chegou momentos depois, com “Icarus” a ganhar o prémio de Melhor Documentário em Longa-Metragem e não “Olhares Lugares” de Agnès Varda, o grande favorito. Allison Janney, por seu lado, era a grande favorita e venceu na categoria de Melhor Actriz Secundária pelo seu papel em “Eu, Tonya”, filme baseado na vida da patinadora artística Tonya Harding.
Salma Hayek, Ashley Judd, Salma Hayek e Annabella Sciorra, três das dezenas de mulheres que acusaram o produtor Harvey Weinstein de assédio sexual, subiram ao palco para falar sobre questões sociais, deixando uma mensagem de igualdade.
“Chama-me Pelo Teu Nome” recebeu o primeiro prémio da noite pelas mãos do octagenário James Ivory: Melhor Argumento Adaptado. O cineasta agradeceu ao autor do livro e ao realizador. Jordan Peele subiu também ao palco para agradecer o Óscar de Melhor Argumento Original por “Foge”. Após 14 nomeações, Roger Deakins recebeu o Óscar de Melhor Fotografia por “Blade Runner 2046”... E por esta altura já se percebia a grande diversidade entre os vencedores.
Eddie Vedder, líder dos Pearl Jam, protagonizou um dos momentos mais emocionantes da noite com uma versão de ‘Room at the Top’ de Tom Petty a musicar o “in memoriam”, sequência que recorda os profissionais do mundo do cinema que morreram no último ano.
Guillermo del Toro venceu o Óscar de Melhor Realizador por “A Forma da Água” e dedicou, emocionado, o primeiro dos seus dois discursos aos profissionais imigrantes nos Estados Unidos. Gary Oldman recebeu, sem grandes surpresas, o seu primeiro Óscar de Melhor Actor por “A Hora Mais Negra” e Frances McDormand, também como se previa, o segundo de Melhor Actriz por “Três Cartazes à Beira da Estrada”, 22 anos depois de “Fargo”. O discurso da actriz foi o mais efusivo e emocionante da noite: pediu a todas as mulheres nomeadas para se levantarem e disse “todas temos histórias para contar. Temos projectos para vos apresentar”, apelando à inclusão.
Warren Beatty e Faye Dunaway regressaram ao local do crime, um ano depois do maior engano da história dos Óscares, para apresentar o maior prémio da noite, o de Melhor Filme... e desta vez sem erros. “A Forma da Água” tinha 13 nomeações e saiu do Dolby Theater com quatro estatuetas douradas." Mário Rui Vieira, Revista Blitz

domingo, 4 de março de 2018

Ao Domingo Há Música


Os mortos mais do que os vivos, estão vivos.
Surgem, fortes, intensos, aparecem,
depurados e cheios de motivos.
(...)
Os mortos acendem, em nós, a chama
de uma nova vida. Julgo que pedem
que olhemos fundo a luz que se derrama.

                        Eugénio Lisboa, Matéria Intensa

Publiquei esta semana uma belissima crónica de Manuel António Pina que tem como título "Os meus mortos". Começa por referir que "Durante grande parte da nossa vida, a morte é uma coisa alheia e distante que só vaga e incertamente nos diz respeito. Até que, um dia, damos subitamente com ela à porta da nossa própria casa e descobrimos então que sempre ali esteve.(...) A morte apenas começa a ter um rosto, o nosso rosto, quando, à volta, os amigos morrem tão-só de morrer e os motivos por que morrem são uma explicação, não uma razão."
O nosso mundo da música está cheio de vozes que nos  acompanharam,  que encheram de magia e de sonho  muitos momentos da nossa vida  e que desaparecerem sem uma razão. 
Assim aconteceu com Dolores  O'Riordan   e Luciano Pavarotti. Duas vozes fortes e marcantes deste século que, em géneros diferentes, contribuíram para que a música continuasse a ser a mais bela arte. Dolores O'Riordan deixou-nos em Janeiro de 2018 , aos 46 anos. Compositora , cantora era a vocalista do grupo  irlandês The Cranberries.
Luciano Pavarotti faleceu aos 71 anos, em Setembro de 2007.  Italiano, nascido em Modena, foi o mais popular tenor italiano, conhecido e aclamado em todos os grandes  palcos do mundo.

Dolores O'Riordan, em Zombie, acompanhada pela  Sinfonia Varsóvia, num espectáculo ao vivo em Varsóvia.
Luciano Pavarotti, em  Nessun Dorma, num espectáculo ao vivo, em Paris.
Luciano Pavarotti e Dolores O'Riordan , em  Ave Maria.

sábado, 3 de março de 2018

Jorge Luis Borges:cosmopolita e digno deste planeta

A última entrevista de Jorge Luis Borges
O escritor morreu alguns meses depois de ter concedido a entrevista ao jornalista e apresentador Roberto D’Ávila, em 1985
Não criei personagens. Tudo o que escrevo é autobiográfico. Porém, não expresso minhas emoções directamente, mas por meio de fábulas e símbolos. Nunca fiz confissões. Mas cada página que escrevi teve origem em minha emoção.
Jorge Luis Borges nasceu em 1899 na cidade de Buenos Aires, Argentina, e morreu em Genebra, Suíça, em 1986. Entrelaçando ficção e factos reais, Borges concentrou-se em temas universais, o que lhe garantiu reconhecimento mundial. É considerado o maior escritor argentino de todos os tempos e um dos mais importantes nomes da história da Literatura.
Na entrevista, que foi concedida em Julho de 1985 ao jornalista Roberto D’Ávila, Jorge Luis Borges fala sobre a infância, a cegueira, a morte. Afirma que o fracasso e o sucesso são impostores. E traduz o seu amor pela literatura  numa frase: “Se recuperasse a visão eu não sairia de casa. Ficaria lendo os muito livros que estão aqui, tão perto e tão longe de mim”. Borges morreria menos de um ano depois de ter concedido a entrevista.
Fale-me da sua infância, de suas memórias…
As minhas primeiras memórias são da biblioteca de meu pai. Não me recordo de uma época em que não soubesse ler e escrever. Meu pai era professor de Psicologia e  disse-me  que a memória começa aos 4 anos de idade. Aprendi a ler e escrever entre os 3 e 4 anos. A biblioteca de meu pai era essencialmente de livros ingleses. De modo que quase tudo que li na vida foi em inglês e depois em outros idiomas, já que, em 1915, fomos para Genebra e tive que estudar francês e também bastante latim. Depois disto, eu me ensinei alemão para ler Schopenhauer. Mas antes passei pela poesia e pelos expressionistas alemães: Johannes Becher, Wilhelm Klemm, Kafka e outros. Quando perdi a vista como leitor em 1955, para não “abound in loud self pity”, para não abundar em sonora autocomiseração, como diz Kipling, empreendi o estudo do inglês arcaico. Depois estive duas vezes na Islândia e estudei um pouco do escandinavo antigo. O islandês é a língua mãe do sueco, do dinamarquês e, parcialmente, do inglês. Agora pensei em estudar japonês ou chinês, que são idiomas tão estigmatizados.
Das leituras da infância, o que mais o impressionou?
“As Mil e Uma Noites”. Livros de diferentes épocas da vida de Kipling, que comecei a ler quando criança. Sempre gostei muito dos atlas e das enciclopédias. Curiosa­mente, continuo a comprar livros. Não posso lê-los. Aqui tenho, por exemplo, uma excelente enciclopédia italiana, a Garzanti, tenho duas edições da Brockhaus, alemã, e uma edição da Britânica. Gosto muito. Acho que é a melhor leitura para um homem ocioso e curioso como eu. Infelizmente perdi a vista. Se eu a recuperasse, não sairia desta casa. Ficaria lendo os muito livros que estão aqui, tão perto e tão longe de mim. Mas perdi a vista. Diversos países me convidam para dar conferências. Vou agora à Califórnia, a Nova York e depois a Roma. Depois volto a Roma no fim do ano para falar de meus livros. Continuo a escrever. Que mais posso fazer? É que não gosto do que escrevo. Nesta casa não encontrará um só livro meu. Por que quem sou eu para ficar ao lado de Euclides da Cunha, Camões ou com Montaigne? Não sou ninguém! Continuo a adquirir livros porque gosto de estar rodeado por eles. Como quando era menino, já que minhas primeiras lembranças são de livros e acho que minhas últimas o serão também. Quanto à minha memória, a única coisa que consigo lembrar são citações, mas, dos factos de minha vida, me esqueci. As datas, não me lembro de nenhuma. Tenho lembranças de meus pais a quem adorava, dos meus amigos. Agora meus amigos estão debaixo da terra.
E as lembranças dos amores?
Agora estão menos vivas. Lem­bro-me de uma frase muito triste de Emerson: “Life itself becomes a quotation”. “A própria vida se converte numa citação.” Tenho a memória cheia de versos em tantos idiomas. E continuo escrevendo. Bem, escrevendo é uma metáfora; ditando. Como passo boa parte do tempo sozinho, vou povoando esta solidão com projectos literários. Não vão durar muito porque, aos 85 anos, não se tem muito por vir. Entretanto minha mãe morreu aos 99 anos com o terror de chegar aos 100. Eu tentava convencê-la de que os 100 são uma superstição. Mas, mesmo assim, o número 100 a apavorava. Quando fiz 80, achei horrível. Espero não chegar aos 90. Eu preferiria morrer esta noite. Agora não, porque quero conversar um pouco com você. Quando vocês se forem, eu morro. Eu gostaria. Assisti a várias agonias no curso de minha excessivamente longa vida. Minha mãe acreditava em Deus, eu não. Todas as noites lhe pedia que a levasse durante o sono. Uns meses antes de fazer 100 anos morreu, que era o que queria. Ela acordava de manhã e chorava ao ver que não tinha morrido durante a noite e se preparava para outro dia.
Como é a cegueira?
Uma das primeiras cores que se perde é o negro. Perde-se a escuridão e o vermelho também. Vivo no centro de uma indefinida neblina luminosa. Mas não estou nunca na escuridão. Neste momento esta neblina não sei se é azulada, acinzentada ou rosada, mas luminosa. Tive que me acostumar com isto. Fecho os olhos e estou rodeado de luz, mas sem formas. Vejo luzes. Por exemplo, naquela direção, onde está a janela, há uma luz, vejo minha mão. Vejo movimento mas não coisas. Não vejo rostos e letras. É incómodo mas, sendo gradual, não é trágico. A cegueira brusca deve ser terrível. Mas se pouco a pouco as coisas se distanciam, esmaecem… No meu caso, comecei a perder a vista desde o momento em que comecei a enxergar. Tem sido um processo de toda minha vida. Mas a partir de 55 anos, não pude mais ler. Passei a ditar. Se tivesse dinheiro, teria uma secretária, mas é muito caro. Não posso pagar.
Nunca ficou desesperado por causa da cegueira?
Não. Como foi um processo lento, não houve um momento patético. Mas se uma pessoa perde a vista de repente, pode, inclusive, pensar em suicídio.
Já pensou em suicídio?
Quando era jovem, sim. Mas quando a pessoa é jovem, quer ser o príncipe de Hamlet, Byron, Edgar Alan Poe, ou Baudelaire. Mas agora procuro a serenidade. As pessoas são muito boas para mim. Claro. Sou um velhinho inofensivo. Quem me vai molestar? Não pertenço a nenhum partido político. Sou um velho anarquista spengleriano. Principalmente neste país, as pessoas se interessam muito por política. Eu não. Mas tenho minha consciência tranquila. Falei e escrevi contra Perón. Minha mãe, minha irmã e um sobrinho meu estiveram presos. Ameaçaram-me de morte, mas eu sabia que, se alguém o  ameaça de morte, não corre nenhum perigo. Depois vieram todos esses governos. Falei contra o terrorismo, muitas vezes, contra a ditadura militar. Depois escrevi contra uma possível guerra com o Chile. Contra a invasão das Malvinas, escrevi dois poemas e uma milonga, que foi proibida pelo governo.
Pode recitar?
Não me lembro. Tenho um poema que se intitula “Juan Lopez y John Ward”. São dois rapazes, um argentino e um inglês, que poderiam ter sido amigos, mas que se matam na guerra. Tenho uma milonga que se chama “Milonga del Muerto” sobre um soldado que morreu na guerra. As pessoas riem um pouco dessa guerra, mas toda guerra é terrível, até mesmo uma pequena como essa. Morreram 2000 argentinos e 500 britânicos. Conversei com sodados que me disseram que se tivessem um rifle na mão teriam matado seus oficiais. Os sargentos quando viram, fugiram e deixaram os soldados. É que não eram soldados; eram recrutas. Era gente trazida das províncias semitropicais do norte e mandaram-nos às cercanias do Polo Sul combater soldados verdadeiros. Eram todos rapazinhos de 18 ou 20 anos, ainda que houvesse uma superioridade numérica grande.
Quais foram as grandes sensações da sua vida?
São as grandes sensações da vida de todo homem. O amor, a amizade, a leitura, o gosto por escrever, embora não goste do que escrevo. Nesta casa não há livros meus nem sobre mim. A partir dos 30 anos, não li uma única linha que se escreveu sobre mim. Sei que há bibliotecas inteiras, mas não li nada. Acho que se deve viver para o futuro. Quando publico um livro, não sei se teve êxito, se está vendendo. O que disse a crítica. Meus amigos sabem que não devem falar do que escrevo.
Porquê?
Porque é incómodo falar da própria pessoa. Prefiro falar de outros autores. Deve acontecer o mesmo com outros escritores. Há uma frase muito bonita de Kipling que fala sobre o fracasso e o sucesso. O fracasso e o sucesso são impostores. Ninguém fracassa tanto como imagina. Ninguém tem tanto sucesso como imagina. Além disso, o que importa o sucesso e o fracasso? No fim das contas, todos seremos esquecidos, o que aliás é melhor. Não creio em imortalidade pessoal. Meu pai dizia: “Quero morrer eternamente — corpo e alma”. Segundo a Bíblia, depois dos 70, tudo é aflição. Mas eu diria que antes também. Não é preciso fazer 70 anos para conhecer a aflição. Segundo a tradição, os 33 são a idade perfeita, porque é quando morre Cristo e nasce Adão. Adão nasceu aos 33 anos. Na Idade Média, houve uma discussão muito séria sobre se Adão tinha ou não umbigo. Adão não pode ter umbigo porque não nasceu de mãe, porque foi criado do pó por Deus. Mas, ao mesmo tempo, se lhe falta o umbigo, é imperfeito. Então Adão tem que ter umbigo, embora não tenha tido cordão umbilical. Isto se discutiu com toda seriedade durante muito tempo. Havia teólogos encarniçados em ambos os lados. Sir Thomas Brown, um escritor do século 18, diz “The man without a navel lives in me”. “O homem sem umbigo vive em mim”; ou seja: “Adão vive em mim; sou também o primeiro homem”.
Leu muitos  livros?
Não. Li muito poucos. Sempre reli os mesmos livros. Não conheço a literatura contemporânea. Desde que perdi a vista como leitor em 1955, não li nada de novo.
Mas quando era menino, na biblioteca de seu pai, lia muito?
Não lia muito. Folheava os livros. Não creio que tenha lido quase nenhum livro do princípio até o fim, salvo livros de filosofia. Romances li muito poucos. Para mim, o romancista é Conrad.
Leu pouco, mas a sua vida é a Literatura. A realidade não lhe  importa muito. O que importa são as sensações?
Se eu tivesse interesse na realidade europeia, leria jornais. Nunca li um jornal na vida. Para que lê-los? É tudo sem interesse . Só falam de viagens de presidentes, congressos de escritores, partidas de futebol. Por isso gostaria de recuperar a visão para poder folhear um livro, escolher o que vou ler ou omitir. Quase não li romances na vida, fora Joseph Conrad, que para mim é o romancista. Fracassei com grandes romances, com Zachary, com Flaubert.
Mesmo com “Cem Anos de Solidão” foi até o fim?
Com “Cem Anos”, não. Completei no máximo 50 anos. Mas é um excelente livro. Gostaria de conhecer o autor.
Não o conhece?
Não tive oportunidade. E possivelmente nunca terei. Ele vive na Colômbia, não? Estive duas vezes na Colômbia. Todo mundo foi muito amável comigo, sobretudo porque sou um ancião inofensivo. Inimigos pessoais não tenho. Às vezes me ameaçam de morte, mas por telefone, o que não tem nenhuma importância. Se uma pessoa quer matar a outra, não avisa porque seria um imbecil. Bem, os assassinos são imbecis.
Queria mudar um pouquinho de assunto. Queria que falasse de amor.
Ocupou tanto lugar na minha vida, que ocupa pouco em minha obra. Estive casado por três anos e compreendemos que o único modo de continuarmos amigos era a separação. Mas agora também não somos amigos porque não a vejo nunca. Não sei se morreu ou não.
Quer dizer que acha que o casamento mata mais que o amor?
Três anos de casamento foram um pouco onerosos.
Fale-me de seu sentimento por Buenos Aires.
Mudou tanto a cidade… Já não a conheço… Nasci aqui no centro de Buenos Aires: Rua Tucumán, quatro ou cinco quadras daqui. Toda a Buenos Aires era de casas baixas com terraços, pátios, campainhas manuais. Só havia algumas casas altas perto da praça do Congresso. A cidade toda tinha casas com pátios, poços. Sempre havia uma tartaruga no fundo para comer os bichos: uma espécie de filtro vivo. Buenos Aires mudou completamente. Minha mãe se lembrava des­ta rua sem calçamento.
Mas é um homem universal, tem todos os sangues…
Não tenho tantos. Meu bisavô era lisboeta. Era Borges de Mon­corvo, uma cidadezinha de Trás-os-Montes. Depois tenho uma maioria de sangue espanhol, uma avó inglesa, algum sangue judaico-português e, muito distante, algum sangue normando dos Bittencourt, uma família de Rouen, noroeste da França. Devo ter ainda algum sangue escandinavo e isto é tudo. Mas eu trato de ser cosmopolita, de ser digno deste planeta.
A sua genialidade vem de que lado?
Não tenho genialidade de nenhuma espécie. Sou apenas um pequeno escritor sul-americano, um mínimo argentino."
Entrevista de  Roberto D’Ávila, realizada em 1985, publicada por Carlos Leite ,  na Revista Bula, Brasil.

sexta-feira, 2 de março de 2018

VOTO DAS MULHERES

VOTO DAS MULHERES (1822)
"A 22 de Abril de 1822,na primeira instituição parlamentar portuguesa – Cortes Gerais e Extraordinárias da Nação Portuguesa –, na discussão do artigo da Constituição relativo às eleições dos Deputados, o Deputado Borges de Barros apresenta uma proposta para o direito de voto das mulheres com seis filhos legítimos.
Considera que às mães não se deve negar “o direito de votar naqueles que devem representar a Nação”, pois que ninguém dá mais ao país do que “quem lhe dá os seus cidadãos”. Acusa ainda os homens de manterem propositadamente as mulheres na ignorância, receando a sua superioridade. Borges de Barros afirma que as mulheres não têm qualquer “defeito” que as impeça de exercer os seus direitos políticos e que “não há talentos, ou virtudes em que elas não tenham rivalizado e muitas vezes excedido aos homens”.
Estudos para a tela representando as Cortes
Constituintes de 1821,
de Veloso Salgado, 1920
Na defesa do sufrágio feminino, refere a influência que as mulheres exercem em todas as fases da vida dos homens desde a “primeira educação”, o seu patriotismo e a sua coragem em momentos de crise, assim como o papel que podem desempenhar na vida pública. Por outro lado, questiona o facto de uma mulher poder ser o “supremo magistrado da Nação”, negando-se a todas as outras a participação política.
Fazendo a apologia da maternidade e do amor filial, termina apelando, pelo menos, ao direito de voto das mães de seis filhos, enquanto não for permitida a participação nas eleições das outras “mulheres que tiverem os requisitos que a lei exigir”.
A proposta de Borges de Barros não foi admitida à discussão pelo Parlamento, de acordo com o que tinha sido defendido pelo Deputado Borges Carneiro:
“Trata-se do exercício de um direito político e deles são as mulheres incapazes. Elas não têm voz nas sociedades políticas: mulier in ecclesia taceat, diz o Apóstolo.”
O voto feminino seria introduzido em Portugal mais de um século depois, a partir de 1931. No entanto, só após a Revolução de 25 de Abril de 1974 se consagraria o sufrágio universal e seriam abolidas as restrições ao direito de voto baseadas no sexo dos cidadãos." ComunicAR | Boletim da Assembleia da República | Março 2018

quinta-feira, 1 de março de 2018

Um dia de mar


Quando a morte tem rosto

OS MEUS MORTOS
Por Manuel António Pina
"Durante grande parte da nossa vida, a morte é uma coisa alheia e distante que só vaga e incertamente nos diz respeito. Até que, um dia, damos subitamente com ela à porta da nossa própria casa e descobrimos então que sempre ali esteve.
Quando somos jovens e morrem os avós, ou os pais, ou os amigos dos pais, não é ainda a morte. Mesmo se um amigo morre, morre por acidente, morre por acaso, morre antes do tempo de morrer. A morte apenas começa a ter um rosto, o nosso rosto, quando, à volta, os amigos morrem tão-só de morrer e os motivos por que morrem são uma explicação, não uma razão.
A mãe de minha mulher costumava dizer: «Os meus mortos...», e eu não compreendia. Hoje, porém, também eu tenho mortos. Quando o Chico morreu escrevi um poema a que pus o título de «O mundo sem o Chico», porque, descobri, a sua morte tinha levado o mundo consigo e o que me restava era um outro mundo, desconhecido e desabrigado, onde penosamente aprendia a viver outra vida, a minha vida. Depois disso, muitos mais mundos se foram desfazendo diante de mim e, de cada vez, fiquei mais só do lado de cá de qualquer coisa.
Antes de morrer com 16 facadas, numa longínqua auto-estrada da Turquia, Sérgio escreveu-me uma última vez. Uma carta trivial, dizendo coisas triviais sobre coisas triviais, como se não tivesse ainda morrido. A notícia da sua morte chegara, no entanto, primeiro do que a carta. Que podia eu fazer com ela, com a carta, com tanto peso, com tanta desmesura? Também Fernando me escreveu antes de se enforcar. Mandou-me um cheque. Emprestara-lhe em tempos dinheiro e ele esquecera-se de que já mo havia pago e pagava-mo de novo. Que podia eu fazer com um dinheiro tão insustentável como aquele?
E com os seus nomes, que poderei fazer agora com os seus nomes? E que outro nome terão agora o Fernando, o Sérgio, o Chico, o Assis, o Arnaldo, a Marcela, o Luís, o Manuel Hermínio e os outros? Abro a minha agenda telefónica e estão ainda todos paradamente lá, os nomes que um dia tiveram. Que poderei fazer com eles? Riscá-los? Apagá-los? São agora aparentemente inúteis, esses nomes e esses números. E, contudo, ali permanecem, alguns há vários anos. Porque se trata, cada um, de uma questão comigo mesmo, uma questão insolúvel, ainda não encerrada. Todos os anos copio outra vez os seus nomes. Porque ainda não me conformei.
Há de facto na morte algo de injusto e de inaceitável, e as nossas lágrimas são, acho eu, tanto de revolta quanto de dor. Assisti outro dia ao enterro do Manuel Hermínio. Meteram-no num buraco fundo e imenso e, enquanto o Sol declinava lentamente atrás dos pinheiros, três homens despejaram sobre ele terra húmida e pedras. Como poderia conformar-me?
Os meus mortos levaram consigo, de mim, palavras, memórias, dias, lugares, desígnios, incertezas; os seus olhos guardam para sempre o meu rosto, os seus ouvidos a minha voz. Também eu morri com eles, e também eu, o que fiquei, me perdi fora de mim. Onde quer que eles estejam agora, quem quer que sejam, estou, pois, junto deles. E pertencem-me, tanto quanto provavelmente eu lhes pertenço."
Visão, 14/06/2001
Manuel António Pina

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

Interlúdio musical


Son nata a lagrimar, son nata a sospirar, e il dolce mio conforto, ah, sempre piangerò.

As vozes de Nathalie Stutzmann e Philippe Jaroussky, em  "Son nata a lagrimar", no belo dueto de  Handel. 
"A magia de uma obra que nos toca no fundo da alma. O dorido  canto de uma mãe (Cornelia) e seu filho  (Sesto) que  está preso por  causa de uma vingança. Son nata a lagrimar”  é uma  parte da ópera “Giulio Cesare in Egitto,HWV 17 ” ,  apresentada  em Londres em 1724, pelo seu  autor Georg Friderich Handel . É uma aria da capo  na sua  estrutura , composta por  três partes bem diferenciadas  A-B A´."

terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

Sobre "Le Sympathisant "


La poussière de la vie

La poussière de la vie
République des Livres, 24.02.2018 
"Pas de précipitation, gardons-nous de crier au chef d’œuvre après tant d’autres. N’empêche que Le Sympathisant (The Sympathizer, traduit de l’anglais-Etats-Unis par Clément Baude, 487 pages, 23,50 euros, Belfond) de Viet Thanh Nguyen est un grand livre, une première œuvre de tout premier ordre, maitrisée et accomplie, surtout lorsqu’on la lit dissociée du bruit qu’elle a fait puisqu’elle nous est arrivée en septembre déjà précédée par sa légende. Des livres sur la guerre du Vietnam, les librairies en américaines en regorgent, plutôt des mémoires ou des témoignages d’Américains. Ceux des Vietnamiens sont peu traduits. L’entreprise de ce jeune romancier, qui consiste à écrire en anglais d’un point de vue vietnamien quand on est soi-même travaillé « génétiquement » par la double appartenance, a quelque chose d’original, sinon d’inédit.
Le narrateur n’a pas de nom. Il est simplement « le Capitaine » ; les auteurs s’appellent le Général ou l’Auteur, quelques uns de simples prénoms, procédé destiné à éviter les patronymes vietnamiens qui déroutent le lecteur non asiatique. Plus taupe infiltrée que pur espion, même si les techniques du roman d’espionnage sont ici convoquées, c’est un homme à l’esprit double, en équilibre permanent sur le fil entre le licite et l’illicite, qui a la particularité de toujours tout envisager de deux points de vue antagonistes. Parti de Saigon, il accompagne l’exil sud-vietnamien aux Etats-Unis (il y a eu effectivement des espions parmi eux). Il est vrai qu’il travaille pour les deux côtés : d’une part pour un général de l’armée sud-vietnamienne dont il a pour mission d’évacuer la famille dans la débandade générale, quand les GI’s censés protéger Saigon de l’assaut communiste la fuient ; de l’autre, un agent communiste. Son territoire, c’est Los Angeles. Il expédie des lettres codées pleines d’informations essentielles aux camarades restés au pays. Pas un militant mais un sympathisant. Autrement dit quelqu’un qui approuve sans adhérer. pas facile pour un binational toujours soupçonné de trahir l’une de ses deux loyautés.
A l’origine, père français, mère vietnamienne. Il ne veut tuer personne à l’exception de tout individu, Marine, civil ou autre, qui le traite de « bâtard ». Le problème, c’est qu’il y en a toujours un. « Bâtard » car dans leur bouche, « eurasien » ferait trop intellectuel, empire britannique plus encore qu’Indochine française, avec ses fonctionnaires coloniaux sirotant leur Pernod à la terrasse d’un café de la rue Catinat ou de l’hôtel Métropole. Alors à tout prendre, il préfère « enfant naturel », « enfant de l’amour » ou mieux encore « la poussière de la vie ». Un bon garçon, à jamais reconnaissant de l’éducation sous tous les formes, qu’il a reçue de ses parents, des catholiques anticommunistes de la région des Hauts plateaux. Il a été marqué pour toujours par la réaction de sa mère lorsqu’il lui révélé qu’un garçon l’avait traité de bâtard : « Si je pouvais, je l’étranglerais de mes propres mains ! »Aucune autre phrase n’aura autant compté pour lui. Il ne voit pas d’échappatoire à cette division de son moi. Le conflit est en lui en permanence, ce qui donne sa complexité naturelle au roman, nul besoin de la solliciter artificiellement.
Quant à la manière, un humour corrosif, une ironie cinglante, jamais en reste dans l’autodérision, gouvernés tout le long par une réflexion tirée de la Généalogie de la morale placée en épigraphe :
« Gardons-nous, au mot « torturer », de prendre aussitôt un air lugubre ; précisément dans ce cas il y a beaucoup à y opposer, beaucoup à en rabattre- il reste même de quoi en rire »
Le fait est que cette pensée de Nietzsche éclaire en permanence la confession du narrateur à un autre Vietnamien ; elle empêche le lecteur de verser dans un manichéisme redouté entre les bons Vietnamiens et les méchants Américains. Tout le déroulé narratif, parfaitement construit sur le plan technique, est traversé par une méditation morale articulée autour d’une vraie réflexion sur l’engagement, où l’amitié est encore plus épaisse que le désespoir.
Avec Le Sympathisant, Viet Thanh Nguyen pose sur la société américaine le regard que Kazuo Ishiguro a posé sur la société anglaise dans Les Vestiges du jour : admiratif, reconnaissant, caustique mais sans complaisance. Un regard qui peut aller jusqu’à l’empathie mais certainement pas prêt d’abdiquer son sens critique, assorti d’un un sens inouï du détail qui sonne juste et des métaphores éloquentes. Quand tant de romanciers paressent en nous infligeant des portraits frontaux ôtant tout mystère à leurs personnages, lui préfère évoquer quelqu’un « capable de ne pas mettre de glaçons dans son vin », ou des call-girls « emballées sous vide dans des micro-jupes et des bas résille ». Ou les protagonistes écoutant le chant des katioucha sifflant au loin avec le recueillement de « bibliothécaires exigeant le silence absolu ». Ou, pour dire son aversion pour le président Thieu, faire observer que « son nom ne demandait qu’à être recraché de la bouche ». Brillant mais parfois légèrement énigmatique :
« Si le regard avait le pouvoir d’émasculer, cette femme serait repartie avec scrotum dans son sac à main »

Viet Thanh Nguyen (1971) né « là-bas » a échoué en Amérique à 4 ans avec ses parents et d’autres boat people quand il était petit. Après une escale dans un camp en Pennsylvanie, ils s’établirent en Californie. Etudes à Berkeley, professorat à l’USC, enseignement de la mémoire de la guerre du Vietnam, écriture de ce premier roman acclamé, distingué, consacré et finalement couronné du prix Pultizer en 2016, suivi d’un essai sur les mémoires américaine et asiatique du Vietnam et d’un recueil de nouvelles sur les réfugiés. Un auteur à suivre ne fût-ce que pour voir comment il en sort, à supposer qu’il en sorte jamais. Surtout qu’il a une forte conscience politique, qu’il se dit marxiste et catholique. Mais renoncez à trouver des clés autobiographiques dans son roman : Je est vraiment un autre.
En regardant tout jeune Apocalypse now, son premier « traumatisme artistique », il éprouve pour le première fois sa double qualité et ne sait plus s’il est Américain ou Vietnamien étant entendu que le spectateur en lui est les deux à le fois. Les scènes aux Phillipines, relatives au tournage d’un film sur la guerre du Vietnam dont le narrateur est conseiller technique (pas d’autre vietnamien à Hollywood, indispensable pourtant, question d’authenticité : pour accéder à l’universel, il est préférable d’être irréprochable dans les détails) lui sont l’occasion de rappeler cruellement que la perspective vietnamienne a été éclipsée. Trois millions de morts pourtant. Ces scènes lui permettent de régler des comptes sans les nommer tant avec Coppola qu’avec Cimino et Stone, réinventeurs d’un conflit où les Vietnamiens sont cantonnés à l’arrière-plan comme des figurants bons à tuer ou à violer. Les Américains ont parfois du mal avec leurs Vietnamiens, entendez : ceux qui sont devenus Américains, car ils sont le rappel cuisant de leur défaite.
« Nous menacions la sacro-sainte symétrie d’une Amérique noir et blanc, dont la politique raciale du yin et du yang ne laissait place à aucune autre couleur, notamment ces petits Jaunes pathétiques qui venaient piquer dans la caisse »
L’auteur a pensé son livre comme la version européenne d’un roman américain. Bien sûr, on sent a qu’il épluché ses classiques sur la chute de Saïgon (James Fenton, David Butler, Tiziano Terziani et surtout l’inoubliable Sauve qui peut de Franck Snepp) ; il paie d’ailleurs sa dette à la fin. Influencé par un classique de la littérature afroaméricaine Homme invisible, pour qui chantes-tu ? de Ralph Ellison, le déclic lui est pourtant venu de la lecture du Cul de Judas de Lobo Antunes, un choc par sa densité même, qu’il reçut comme une invitation à écrire pour s’affronter à lui. Mais les scènes de torture du Sympathisant ont été inspirées par le passage sur l’Inquisition dans les Frères Karamazov (mais l’incipit rappelle plutôt celui des Carnets du sous-sol) et le déplacement de l’intrigue doit au Voyage au bout de la nuit. On aura compris que si tout écrivain est un lecteur, certains le sont plus que d’autres sans que jamais la trace des ainés, leur puissante imprégnation, ne bride l’imaginaire.
A peine quelques libertés avec la chronologie, quelques licences poétiques ici ou là. Si tout n’est pas exact, tout est vrai. On attend avec impatience son prochain livre, ne fût-ce que pour voir s’il a d’autres grands romans de cet encre dans le ventre – ce dont, personnellement, je ne doute pas.
(« Pendant l’offensive du Tet à Saigon,le général sud-vietnamien Nguyen Ngoc Loin exécute en pleine rue un officier vietcong Nguyen Van Lem, 1 février 1968, photo Eddie Adams ; « Quelque part au Vietnam » photo D.R. ; « Viet Thanh Nguyen » photo Bebe Jacobs)"
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segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

Um caso de vida ou de morte

Um Prémio Salvífico
Por Eugénio Lisboa
“Os prémios literários são, com uma frequência assustadora, controversos. Mesmo os prémios mais prestigiosos – Nobel, Goncourt, Pulitzer – não fogem, muitas vezes, a mostrar preferências, no mínimo, discutíveis. De aí, o cepticismo de tantos escritores em relação a prémios literários. As razões por que eles são atribuídos mas, também, as razões por que não são atribuídos raiam, com frequência, o bizarro, para não dizer: o cómico. Bastaria, para se chegar a esta conclusão, vasculhar os arquivos, por exemplo, do Prémio Nobel e verificar as razões de atribuição  ou de não atribuição do galardão, ou, nalguns casos, a demora de anos, o arrastar de pés, até que, finalmente, embora com alguma relutância, o júri se digne conceder a renitente honraria. Os casos de André Gide e de Anatole France, entre outros, permitiriam, a este respeito, reflexões interessantes.
Talvez, por isto mesmo, os prémios, apesar do tumulto que ainda se levanta à volta deles, se tenham, ao longo do tempo, desacreditado. Ao ponto de um escritor como Jean Cocteau ter afirmado que um verdadeiro escritor tem a obrigação não só de não aceitar qualquer prémio, mas, até, de não o merecer.
Mas hoje venho aqui falar de um prémio atribuído não só com corajosa justiça, mas até, segundo a percepção do galardoado, com efeito salvífico: refiro-me ao Prémio Goncourt atribuído, em 1919, ao romance de Marcel Proust – À l’ombre des jeunes filles en fleur – publicado nesse mesmo ano.
É de todos mais ou menos conhecida a dificuldade que Marcel Proust sentiu em afirmar, aos olhos de editores e leitores, a sua obra-prima – À la recherche du temps perdu – que começou a publicar em 1913. Gide torcera o nariz ao primeiro volume do livro – Du côté de chez Swan – desencorajando Gallimard de o publicar: em grande parte, por preconceito em relação ao personagem mundano e superficial que via em Proust e talvez também por uma alegada falta de coragem deste relativamente a um homossexualismo não abertamente assumido (coragem que o próprio Gide tivera, ao publicar, contra a expressa opinião dos amigos mais chegados, o seu controverso Corydon).
O manuscrito deste primeiro volume do que viria a ser um longuíssimo “folhetim psicológico” – como Régio gostava de lhe chamar – teve má recepção de editores. O livro não era, à primeira vista, atraente: a estrutura do romance desviava-se completamente do romance bem construído do século XIX, com uma história contada com princípio, meio e fim. Era um manuscrito compacto, estranho, com períodos intermináveis, sem intervalos para respirar, quase sem diálogos ou com diálogos raros e não separadamente visíveis, antes “afundados” na massa espessa e densa do texto. O editor Fasquelle, contactado, achou por bem rejeitar liminarmente o manuscrito. Ferido e humilhado, Proust estava disposto a uma rendição completa: pagar do seu bolso as despesas da edição e fazer o editor, dono da chancela, partilhar os lucros, se os houvesse. Tinha de publicar aquilo em que apostava a sua vida e a sua imortalidade. Proust sabia que era esta, finalmente, a grande obra que trazia dentro de si, na qual estava a pôr tudo quanto  de melhor tinha para dar.Tudo o que publicara antes era, por assim dizer, irrelevante e secundário. Esta era o grande investimento da sua vida: que lhe traria a glória, se conseguisse fazer  que reparassem no livro. Mas tinha, em primeiro lugar, de o fazer publicar. Depois, tudo teria de congeminar para o impor.
O seu amigo fiel e dedicado, Louis de Robert, opôs-se firmemente à ideia de Proust pagar os custos e partilhar, mesmo assim, os lucros com o editor. Fez-lhe ver que isso traria um indesejado descrédito para si e para a obra. Mas lembrou-se de que tinha boas relações com um personagem – Humblot – que dirigia a livraria e editora Ollendorff. Contactado, Humblot prometeu ler o livro rapidamente e pronunciar-se sobre a viabilidade da sua edição. E assim o fez. A sua carta de rejeição pertence hoje à história da literatura, pelas más razões: “Caro amigo, sou talvez um burro chapado, mas não consigo compreender que um narrador possa empregar trinta páginas a descrever como se vira e revira na cama  antes de conseguir adormecer.” Mais do que uma nota de rejeição, era uma ofensa. Robert pediu-lhe que redigisse, caridosamente, uma segunda carta mais convencional e suave, que pudesse mostrar ao autor e amigo. E assim se fez, embora Proust, astuto e desconfiado não mordesse a isca.
Depois destes dois fracassos, o autor de Swan resolveu não perder mais tempo (tempo era o que menos tinha, com a asma a matá-lo lentamente) e propôs ao editor Bernard Grasset fazer publicar o livro com a chancela da casa, mas com as despesas por sua conta. Foi assim que o livro se viu finalmente publicado.
A recepção não foi brilhante, embora a obra não tenha passado completamente despercebida. Gide leria o livro já com outros olhos e faria “amende honorable”, E Gallimard passaria, a partir do segundo volume, a ser o editor de À la recherche du temps perdu.
Entretanto, meteu-se de permeio a guerra e, durante os quatro anos que ela durou, não foi possível pensar em editar a sequela de Swan. Mas, em 1918, terminada o conflito, fez-se a composição e impressão de À l’ombre des jeunes filles en fleur, que seria posto à venda em 1919.
O livro começava a impor-se, um pouco mais rapidamente que Swan, mas Proust não estava satisfeito. Tinha perfeita consciência da estranheza do seu escrito, da dificuldade de acesso que mesmo o leitor da maior boa vontade deveria sentir, diante de uma obra tão diferente, tão densa, tão interminavelmente longa e de diálogo raro e obscuramente encalhado naquela massa de texto. Tinha de arranjar maneira de fazer consagrar, de modo espectacular o seu livro. Tinha de salvá-lo de um oblívio quase certo. Precisava de angariar uma garantia de qualidade que captasse, para sempre, leitores. Pensou então no Prémio Goncourt e comunicou a Louis de Robert a sua intenção de se candidatar. Era um acto de alguma ousadia, tanto mais que as dificuldades eram enormes. Havia, para esse ano de 1918, pelo menos outro candidato de peso: Roland Dorgelès, que acabara de publicar um excelente romance de guerra, baseado na sua própria experiência de combatente nas trincheiras. Proust, devido à doença que o consumia – a asma – não fora combatente, o que era, para o caso, uma clara desvantagem. Por essa altura os do Prémio Goncourt tendiam a favorecer, desde que tivesse um mínimo de qualidade literária, uma obra sobre a guerra, cujo autor tivesse sido combatente. Obras desta natureza eram vistas como um esforço sério no sentido de se fomentar um desejável horror à guerra e, se possível, evitar que se repetisse a carnificina. Ora a obra de Dorgelès – Les Croix de Bois – satisfazia plenamente este não explícito mas existente caderno de encargos. Além do mais, Proust era tido como rico, isto é, não necessitado. Ser rico e não ter sido combatente, além de o seu livro nada ter que ver com a guerra – parece que tudo estava contra ele. Mas tratava-se, para o escritor, de um caso de vida ou de morte e por isso não hesitou, pedindo aos amigos chegados  que fizessem “lobby” cerrado junto de alguns membros do júri, sobretudo de Léon Daudet, que admirava Marcel. O “trabalho” foi tão bem feito, que Proust viria a vencer, angariando 6 dos dez votos . Houve, é claro, forte reacção da parte dos adeptos de Dorgelès. Inclusivamente, o romance deste foi posto à venda, com uma cinta de papel, dizendo em letras de grande formato: Prémio Goncourt. E, só depois, em letras minúsculas: 4 votos em 10. Quem olhasse de longe ficava a supor que Les Croix de Bois ganhara o Goncourt. O efeito do Prémio foi sensacional. Proust recebeu perto de 900 cartas e as reimpressões do livro sucederam-se. Os artigos de peso começaram a surgir. A sua glória consolidava-se e, quando morreu, três anos mais tarde, não lhe restavam dúvidas de que conseguira salvar a sua obra, captando, para sempre, a atenção dos leitores. O Goncourt não foi o único instrumento dessa consagração definitiva. Mas ajudou, de uma maneira decisiva, a que um grande livro se instalasse, mais rapidamente, no imaginário das pessoas. Sem ele, talvez Proust tivesse morrido, em 1922, sem ter a certeza de ter salvo do esquecimento a sua Recherche."
Eugénio Lisboa, em Crónica publicada no JL nº 1236, de 14 a 27 de Fevereiro de 2018