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sábado, 29 de setembro de 2018

Simplesmente ternura

 
Um pouco de ternura
"Nos olhos dela habitava a bondade. Um doce sorriso embalava-lhe os lábios, e a face transparecia a tranquilidade interior de quem não fora punida pelo despeito nem agredida pelo ressentimento. Era ainda nova: vivia na linha de sombra que tenuemente divide a idade das pessoas, entre maduras e velhas. De onde viera? Que idade tinha? Ninguém sabia. Por vezes, pintava os lábios murchos. Por vezes, exibia largos decotes e mangas cavadas, eis o traço lascivo dos seios, eis os braços roliços, opulentos e sensuais. Era alta, quase imponente; porém, quando subia a rua íngreme, parecia alada, os pés quase não tocavam no chão.
Aparecera no bairro e logo se organizara uma aura de mistério em sua volta. Apesar da estatura, mantinha-se discreta e reservada, pouco falava com os vizinhos. Havia dias em que cantava; cantava alto velhas canções de amor. Nas tardes de sábado, os homens reuniam-se no clube, jogavam ao loto e à sueca e, ocasionalmente, embebedavam-se.
Ela residia num pequeno apartamento, mesmo por cima do clube. Gostava de se colocar à varanda, e os homens fitavam-na, gulosos, ávidos e sôfregos. Fingia não os ver. As mulheres remoíam raivas e amuos. Ela observava o horizonte, lá, onde o Tejo forma uma laçada, e permanecia assim: abstracta, atenta e exposta. Mas gostava que a apreciassem, e divertia-se com o ciúme das outras. Às vezes dançava ao som de uma pequena telefonia. Dançava como se estivesse a dançar com o mundo, ou, quem sabe?, a pensar em alguém que amara.
As geografias sentimentais são mais ou menos favoráveis: o bairro era bom e valia tudo o que de ele se dissesse; o resto era mau, e tudo o que de pior se dissesse nunca seria excessivo. Começaram as intrigas, as suposições pérfidas, as calúnias evasivas. Não lhe perdoavam a beleza, a dignidade da postura, a pequena viração de altivez que dela se desprendia.
Suspeitaram de tudo: que era prostituta, que vivia às custas de um proprietário de imóveis, que fazia números de nu em cabarés rascas. Chegou-lhe aos ouvidos a natureza insidiosa desses boatos. Não lhes atribuiu a menor importância, o que ainda mais arreliou as outras.
Saía de casa logo pela manhã, regressava tarde, ocasionalmente ausentava-se pela noite. Acumulavam-se as suspeições. Até que, certo dia, deixou de aparecer. O falatório aumentou. Coisas medonhas foram ditas, como se de verdades se tratassem. Correu o tempo; uma semana passou, outra, e outra ainda. Para onde fora? Que seria feito dela? E se ela não regressasse, não pudesse regressar ou não quisesse regressar?
Depois, houve quem a visse. Era numa tarde em que a chuva, lamentosa, caía forte. Desapareceu no cotovelo da rua, quem a viu acelerou o passo para descortinar aonde ela ia. Entrou num prédio alto e antigo, de azulejos, e ao perseguidor assaltou a ideia de que a vizinha misteriosa talvez fosse mulher-a-dias. Este indivíduo tivera, em tempos, a veleidade de se relacionar com ela; porém, fora rejeitado com uma frase breve e ríspida. Era o ressentimento que o incitara àquela infausta perseguição.
Horas e horas decorreram. A chuva deixara de cair, o homem encostara-se a uma árvore, sem abandonar a vigilância ao prédio. Até que, finalmente, ela reapareceu. Olhou em derredor e, rapidamente, aproximou-se da árvore onde o outro se ocultava. Atrapalhou-se, o homem. E ela disse:
— Quer saber o que eu faço, não é?
— Bom…bom — Não sabia o que responder.
— Olhe: vendo ternura.
E desandou. Agora, uma brisa mansa, um vento acariciador, um pio de ave, e o silêncio. Era assim: todos os dias, ou quase, ela visitava casas de gente idosa, e recebia escassos euros para lhes ler jornais, revistas ou livros de histórias cordatas com finais felizes. Simplesmente um pouco de ternura.
Voltou à rua para se despedir da rua e ignorar as pessoas. As pessoas juntaram-se, viram-na subir o calçadão, puxar pelas pernas para escalar a escadaria enorme. Durante algum tempo pensaram nela. Nunca ninguém soube o seu nome, nem se foi feliz na vida.
Anos depois, um modesto cronista contou-a numa crónica humilde."
Baptista-Bastos (1934- 2017),em Crónica publicada .

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Alves Redol

Celebra-se este ano o centenário de Manuel da Fonseca e Alves Redol. Algumas comemorações  foram publicitadas, onde se destaca " A Mostra Bibliográfica no Ciclo histórico do Neo-realismo Português" promovida pela Biblioteca Nacional , conforme anunciámos neste espaço. Em 1972, Baptista-Bastos dedicou a Alves Redol um excelente texto no seu livro " Cidade Diária". É com a transcrição das palavras deste escritor que saudamos o autor de " Gaibéus", " Fanga", " Avieiros", " Olhos de Água", " Barranco dos Cegos" à "Historia da Sementinha", (etc.), enfim o obreiro de uma imensa e genial produção escrita que se estende por diversos géneros literários, onde evidencia  um profundo conhecimento do homem. Alves Redol, como intelectual comprometido do seu tempo, padecia de uma enorme inquietação social. Defendia e  sonhava uma sociedade mais fraterna e justa, pelo que também a  liberdade lhe foi roubada e sofreu a mágoa da injustiça, da incompreensão, do isolamento.
E porque  o texto de Baptista-Bastos retrata magistralmente esse homem singular , a sua leitura é de imediata prioridade.

UM AMIGO PARA SEMPRE

"Alves Redol figura na lista das minhas predilecções de homem-que-lê porque me ajudou a formar as mais justas das minhas ideias e porque acrescentou aos meus sonhos outros sonhos por ele próprio edificados. Há autores que cortejam a literatura para conseguirem prestígios grandes, adoçando razões pequenas, e há autores que são enamorados da literatura, servindo-a, para servirem outros homens. Creio que a amizade do espírito é fomentada e estimulada por esta segunda classe de escritores. As mágoas, as angústias, que muitas vezes julguei só minhas e grandes e insuportáveis, vi-as maiores e mais terríveis em livros que relatavam as evidências brutais da vida de outros homens, em livros que não se debruçavam sobre a vida, mas eram, sim, o documento da própria vida. O amor , por exemplo, o amor tornado mistério porque é o enigma de duas pessoas , vi-o finalmente desagrilhoado e decifrável na heroína da “ Fanga”, e voltei a localizá-lo, mais tarde , adulto, brando e perplexo no Pedro e na Jadwiga do “ Cavalo Espantado”. A amizade que nasce do sofrimento, entendia-a na “ Barca dos Sete lemes”, assim como compreendi o ódio e a possibilidade de construirmos o nosso próprio destino no “ Barranco dos Cegos ”.
Redol ensinou-me tudo isso e muito mais num diálogo discreto, que durou anos, desde que escreveu – “Do Alto Ribatejo e da Beira Baixa eles descem à lezíria pelas mondas e ceifas. Gaibéus lhes chamam “ – até ao prefácio a uma outra edição de “ Fanga”, onde fiz o reencontro com as meditações de um homem que se realizou escrevendo as realizações de outros homens.
“ A História é o reportório de tudo o que se passou na Terra. A Literatura, essa, é o testemunho de tudo o que se passou no coração dos homens”. As palavras são de Claude Roy e servem bem para explicar e definir a natureza essencial deste livro muito belo, que é uma admirável tentativa de crónica datada, o documento da existência de um homem, o Manuel Caixinha, igual a tantos homens que nunca tiveram cronista interessado nas suas vidas e assim: “…Escrevi este livro há vinte anos. Tem o ferrete do seu tempo. Também as obras se parecem mais com o seu tempo do que com os seus autores. Andava , então, o nazismo à solta pela Europa e pelo Mundo. Amigos meus, que nunca vi, morriam em campos de concentração ou em câmaras de gás.; outros escreviam as suas cartas de fuzilados e ainda outros lutavam para que a noite cedesse. “ Fanga “ partilha dessa luta contra as trevas. Representou uma esperança, viva num momento em que nos prometiam mil anos de servidão. Talvez por isso alguns o queimaram simbolicamente; talvez por isso também muitos homens o consideram o seu livro predilecto. Manuel Caixinha sou eu. Manuel Caixinha também morava na Golegã, ao mesmo tempo que escrevia poemas nos vários países da Resistência europeia – em toda a parte onde os homens resistiram, ele não faltou ao encontro marcado com a liberdade…”
A grandeza de Redol principiou onde terminaram as cobiças de outros escritores: numa renovação constante da visão do mundo, numa evolução natural das mais exactas perspectivas, numa luta permanente para não perder a pista do homem português, que é a grande verdade de toda a sua obra, e a realidade para que viveu e sofreu e acreditou.
Neste livro do reencontro relembrei as falas de há anos do meu primo Zé Deodato, cavador que tem biografia feita nas terras do amanho da Estremadura. Disse-me que mandara a filha à escola para que ela lesse livros, sobretudo um que começava assim: “ Para vocês , fangueiros dos campos da Golegã, escrevi este livro. Que algum dia o saibam ler e rectificar , pois o romance da vossa vida só vocês o saberão escrever.
Baptista –Bastos , in “ Cidade Diária”, Editorial Futura, Lisboa, 1972

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Revisitar a obra de Ernest Hemingway


Baptista-Bastos, homem da escrita e da palavra, publicou um artigo sobre a obra de Hemingway. A importância da releitura dos grandes escritores universais é um dos cânones do ensino da Literatura. Os grandes cultores da palavra foram e serão sempre óptimos leitores.
Hemingway ocupa um lugar de excelência na Literatura Universal. O rigor, a fragância, a frescura, a profundidade, a genialidade, a surpresa, a conflitualidade, a mestria, a intensa actualidade da sua escrita permanecem em toda a sua obra. Revisitá-la é um imperativo.

Hemingway: a palavra como atributo da honra
Por Baptista Bastos
"A polémica sobre o pretenso envelhecimento da obra de Hemingway não faz sentido. Como é absurda a insistência na qualificação de quem é melhor: ele, ou Fitzgerald ou Faulkner. São todos muito bons; e há mais alguns outros. Ainda há dias estive a reler "Do outro lado do rio, entre as árvores", por alguns críticos de sebenta considerado um romance menor, e voltei a regalar-me não só com a escrita, poderosa e límpida, como com a profundidade do que ele queria dizer, e disse. A influência exercida por este escritor maior e insistentemente trabalhador, é enorme e perdura. Vittorini, em Itália; Duras e Vailland e Blondin, em França; Garcia Hortelano, em Espanha, muitos outros mais, sempre se reclamaram da sua tutela. Em Portugal, Cardoso Pires e Abelaira e eu próprio lemos os livros dele com mão diurna e mão nocturna. Aliás, na parede do meu canto da escrita está uma foto de Hemingway, obtida por Youssuf Karsh, que se tornou quase mítica. De vez em quando olho-o e sorrio-lhe, como se faz a uma pessoa de família.Todos aqueles que andamos no batente da palavra devíamos, volta e meia, reler o grande escritor. Não só os clássicos, "O Adeus às Armas", "Por quem os Sinos Dobram", "Fiesta", "O Velho e o Mar"; mas, também, e talvez sobretudo, "As Verdes Colinas de África" e "Morte de Tarde". Tanto este como aquele não constituem meros exercícios de valentia (o que seria grotesco); são, isso sim, graves meditações sobre a natureza do homem, o carácter precário da vida, e a funda transcendência do homem.Não esqueçamos de que ele era leitor da Bíblia, tendência justificada e explicada pela índole da sua educação. E as leituras do texto sagrado não só lhe inculcaram a premência da morte e a fragilidade da condição humana como o ensinaram uma técnica narrativa repleta de sinédoques e de alegorias, gramaticalmente servida pela insistência nas adversativas e nas copulativas. Tal e qual como as parábolas. Além do que Hemingway era um devorador de livros, nunca ocultando a admiração por Stendhal e, um pouco estranhamente, por Pio Baroja, o espanhol que era o contrário absoluto da sua maneira de ser. A violência que ele via em Espanha era, creio, determinada pelo individualismo que reflectia a própria procura do «eu.» Associava essa tipicidade ao seu peculiar temperamento. Tomou partido pelos republicanos na Guerra Civil, o que lhe valeu o ódio dos franquistas. Escreveu textos admiráveis, pelo estilo e pela originalidade da visão, sobre o conflito espanhol. E há um, "Os Táxis de Madrid "(incluído num dos dois volumes de Hemingway by Line), uma pequena obra-prima de jornalismo e de literatura. Em quatro páginas, ele condensa o espírito e a barbaridade de uma guerra que deixaria cicatrizes nos espanhóis e no mundo.A emoção que transmitia não era fingida. Acreditava no poder das palavras e nos sentimentos que elas pudessem transmitir. Era vaidoso, impulsivo, ciumento, birrento e vingativo. E é um dos maiores prosadores da história da literatura universal. Uma obra que se renova no encontro com outros leitores de outras gerações. Quando se suicidou, por não poder escrever em consequência da destruição da memória, a revista francesa Paris-Match imprimiu um título perfeito: «O Gigante que não quis Envelhecer.» Baptista Bastos em Artigo de Opinião, publicado no DN, em 2 de Julho de 2011