quarta-feira, 7 de junho de 2017

Jazz


 
Jazz

Soltaram as tripas do jazz na vastidão da praia
contra os muros da terra e as cúpulas do céu.
Mas ninguém pediu ali aquela música, 
o seu som poderoso, a rouca brutidão que celebra um parto, 
um esgar feito num sopro feroz além da dor.

E tanta areia submissa ficou tonta,
só está habituada às mãos brancas e flácidas
dos seus amanuenses,
ao assoar roufenho das senhoras e donas,
às meninas nuas com o seu bibe de espumas e segredos.

Foi de muito mau gosto
deixar correr livre essa loucura aguda dos metais, 
o gorgolejar ébrio dos saxos , a trepidação das ancas,
e tudo à solta, tudo por cima das ondas, só o negro,
o negro, nesta claridade resignada.

Por isso se despedem os mais cordatos corpos que há na tarde.
Cansaram-se os ouvidos , não há  misericórdia
para a nostalgia escrava, ninguém já se recorda que existiram
campos de algodão e servos, gordas mulheres dedicadas
em filmes compassivos.
A praia ficou negra , negra  e de pé, e parece vazia."
Armando Silva Carvalho, in " A sombra do mar" , Assírio&Alvim Ed., 2015, p.20

A voz incomparável de Louis Armstrong , em St. James Infirmary, do Álbum "Ain't Gonna Give Nobody None of My Jelly Roll",  1964 .
Louis Armstrong, em Ochi Chernyie (Dark eyes).
Ella Fitzgerald &  Louis Armstrong , em Summertime

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