segunda-feira, 29 de maio de 2017

O pessimismo de Huxley, segundo Miguel Urbano Rodrigues

Aldous Huxley
A contra utopia de Huxley e o seu pessimismo
Por Miguel Urbano Rodrigues
04.Jan.2016
“Admirável mundo novo” será talvez a mais conhecida obra de Aldous Huxley. Nela descreve uma sociedade contra-utópica, esvaziada de verdadeira humanidade. A burguesia tentou interpretá-la como uma expressão de anticomunismo, opinião que Huxley nunca confirmou. O seu pessimismo é de outra ordem. E é o imperialismo, nas suas diferentes formas de dominação actuais e na sua agressividade global, aquilo que a ficção huxleyana pareceu antecipar.
Foi há quase 70 anos.
Caíram-me nas mãos dois livros de Aldous Huxley: Contraponto* e Admirável Mundo Novo**. Devorei-os em poucas semanas.
A II Guerra Mundial terminara há pouco. O choque provocado pelas hecatombes nucleares de Hiroxima e Nagasaki abalara a Humanidade.
Tensões inesperadas anunciavam o início de uma guerra diferente: a chamada Guerra Fria.
Percebia-se que findara uma época e que o mundo ia mudar. Mas os contornos daquilo que se pressentia surgiam envolvidos numa neblina impenetrável.
Eu tinha 2O anos. Os romances de Huxley eram diferentes de tudo o que havia lido. Mergulharam-me em estado de choque e profunda meditação.
Reli-os agora.
Não esqueci que tinha acompanhado em São Paulo uma conferência de Huxley em 1958 quando ele visitou o Brasil. Estava quase cego e sabia que o seu corpo principiara a ser destruído pelo cancro que o mataria. A assistência tinha direito a perguntas e eu fiz uma. Disse-lhe que o admirava muito, mas que não compartilhava o seu pessimismo sobre o futuro da humanidade. Ele respondeu que era pessimista num patamar do pensamento, mas optimista noutro. Confesso que não conseguia enxergar o seu optimismo.
CONTRAPONTO
Sinto dificuldade em recordar o que senti ao ler Contraponto pela primeira vez. Ficaram gravados na memória os nomes das principais personagens. Durante dias pensei nelas, vivi com elas, atravessando as barreiras que separavam a sociedade do Portugal provinciano dos anos 40 da burguesia intelectual da Inglaterra da década anterior.
A leitura de Contraponto suavizou, recordo, o mal-estar provocado pela contra utopia do Admirável Mundo Novo.
Não há uma estória no livro. É um romance praticamente sem acção. Nele o importante é o discurso das personagens. Foi escrito em 1926 e publicado dois anos depois. As personagens foram criadas para transmitir ideias, mas não é um romance de tese. O autor expõe mundividências e reflexões muito diferentes, com frequência incompatíveis, mas não toma partido.
Duas obras musicais clássicas - uma de Bach, a outra de Beethoven - chamam a atenção na narrativa como fundo sonoro de alguns capítulos. Daí o título do romance, Contraponto, uma figura musical.
As personagens, intelectuais e artistas, são mostruário da época de transição posterior à Primeira Guerra Mundial, anos em que na Inglaterra a vontade de mudança se chocava com resistências muito fortes de uma sociedade conservadora, qualificada por Rudyard Kipling como «raça de senhores».
Huxley descreve bem esse estranho zoo humano, que vai tomando forma pelo que diz e não pelo que faz, porque – repito-o livro carece de acção. Para o criar inspirou-se em destacadas personalidades da época.
Mark Rampion, escritor e pintor, teria, segundo a crítica, como fonte de inspiração David Herbert Lawrence. Phiip Quarles é um intelectual, que ama a solidão, contemplativo, que seria o autorretrato do próprio Huxley. A sua mulher, Elinor, resiste ao fascínio que sobre ela exerce um político truculento,Webley, apontado por alguns como uma caricatura de Oswald Mosley, o fundador da British Union of Fascists. Walter Bidlake, um jornalista, engravidou uma amiga casada, mas está apaixonado por Lucy Tantamount, beldade filha de um lord. Este e Lucy surgem como «cópias» de uma poetisa famosa e de um cientista também célebre, John Haldane, amigo de Huxley.
São apenas algumas das muitas personagens que, ao longo de centenas de páginas, transmitem ideias que Huxley acredita contribuírem para a compreensão de uma época de mudança acelerada rumo ao desconhecido. Relendo hoje Contraponto, sinto que não atingiu o objectivo. Como leitor, identifico no conjunto díspar não mais do que um retrato magnífico da elite intelectual de uma classe social – a burguesia inglesa dos anos 20 do século passado- cuja reflexão sobre a vida e o mundo era tipicamente insular e foi desmentida pelo caminhar da História.
 Sinto-me incapaz de encontrar resposta para uma pergunta: por que foi muito importante para mim Contraponto há setenta anos?
Recordando, concluo que contribuiu para atrasar a minha tomada de consciência dos problemas sociais do Portugal oprimido pelo fascismo.
UM GENTLEMAN ATÍPICO
Nascido numa abastada família aristocrática de intelectuais e cientistas, Aldous Huxley foi educado nas melhores escolas da Inglaterra pós vitoriana, ao tempo senhora do maior império que a História regista.
O avô, Thomas Huxley, foi um biólogo célebre, íntimo de Darwin; os irmãos, Julian Huxley e Andrew Huxley (Premio Nobel de Fisiologia e Medicina) foram também cientistas famosos.
Na juventude, Aldous construiu amizade sólida com Bertrand Russell e DH Lawrence.
Viajante infatigável, viveu na Itália ainda jovem quando Mussolini implantou ali o fascismo. Essa experiência, segundo alguns críticos, contribuiu para a decisão de escrever O Admirável Mundo Novo, a contra utopia que o guindou aos píncaros da fama literária.
Redigido em apenas quatro meses, esse romance terá sido sobretudo inspirado - como ele esclareceu muitos anos depois - por NOUS AUTRES ***, uma deslumbrante novela de ficção científica do russo Yevgeny Zamyatin.
Inadaptado à vida na Inglaterra, Huxley fixou residência nos Estados Unidos em 1937. O cinema fascinava-o e escreveu na Califórnia o roteiro de filmes inspirados em livros seus.
Nessa fase da vida consumiu drogas, sobretudo a mescalina e o LSD. Fez essa opção, muito criticada, para estudar os efeitos dos alucinogénios sobre a mente humana, porque acreditava que ampliavam as potencialidades criadoras do cérebro. Mas nunca foi dependente.
Morreu em Los Angeles aos 69 anos, cego e tendo perdido a voz, no auge da glória literária, inseguro quanto ao julgamento do significado da sua contra utopia, alvo de muitas interpretações contraditórias.
Para os intelectuais anticomunistas, O Admirável Mundo Novo é uma denúncia do estado que tomava então forma na jovem União Soviética, um libelo contra o comunismo e uma apologia da liberdade individual.
Não perfilho a opinião. Huxley, que eu saiba, não se pronunciou alias sobre o assunto.
Historiadores e críticos literários prestigiados lembram que em 1931, quando escreveu O Admirável Mundo Novo, a sociedade soviética ainda reflectia a imagem da geração que conduzira à vitória a Revolução humanista de Outubro e o país gozava de enorme prestigio entre a intelectualidade progressista europeia.

SOBRE O ADMIRAVEL MUNDO NOVO
Como obra literária, O Admirável Mundo Novo (Brave New Word no original inglês) é, pela estrutura, um romance mal construído, sem a qualidade do livro de Zamiatyn. O segredo do seu êxito é inseparável da originalidade do tema, novidade absoluta.
Logo no prólogo, o leitor é arrastado para uma sala onde são produzidos seres humanos num laboratório. A procriação animal, há muito proibida, foi substituída pela fecundação in vitro.
Os bebés desenvolvem-se em incubadoras que desde o início os condicionam para uma integração harmoniosa, submissa, na sociedade em que vão viver. Nela não há conflitos, sequer tensões sociais.
É uma sociedade de castas, hierarquizada. No topo os alfas, seguem-se as betas, os deltas, os gamas. Em baixo os ipsílones, disformes, pequenos, feios, escravos de novo tipo. Mas todos são felizes, programados para realizarem trabalhos diferenciados e aceitarem com alegria a sua casta.
O sexo é livre, sem fronteiras, todos pertencem a todos. Mas o amor é encarado como aberração do passado. A literatura limita-se à apologia da civilização perfeita, implantada na Terra, após uma guerra apocalíptica que destruiu a antiga sociedade, recordada como época de barbárie. Os livros de Shakespeare e de todos os clássicos foram destruídos, apagados da memória da nova humanidade.
A música é sintética, o cinema, a pintura, a escultura concebidos para não provocar emoções.
A família como instituição desapareceu com o fim da procriação animal. Mas as relações monetárias sobreviveram, embora a sua função seja outra.
Veículos colectivos cruzam oceanos e continentes em tempo mínimo. Helicópteros e carros individuais conduzem os alfas e os betas dos locais de trabalho aos gigantescos edifícios onde residem, cada um no seu apartamento.
Uma droga maravilhosa, o soma, tomada em comprimidos, é remédio mágico contra tendências depressivas, mergulha as pessoas num olimpo de felicidade artificial.
Os alfas e betas, castas superiores, têm apelidos estranhos que recordam personalidades do mundo antigo: Marx, Trotsky, Napoleão, Engels, Rothschild, Bakunin, etc.
Na cúpula da casta dominante, um núcleo de super-alfas governa a Terra e é responsável pelo bom funcionamento do sistema. A sua excepcionalidade é assinalada pelo título de Sua Forderia, porque a lembrança de Ford permanece quase divinizada.
Deus desapareceu, tornou-se desnecessário, porque a morte não é temida.
Um ser genial, o Benfeitor, vela pela felicidade colectiva.
No sudoeste da América do Norte, onde existiram os Estados Unidos, alguns milhares de homens e mulheres primitivos vivem em Reservas que podem, com autorização especial, ser visitadas por alfas e betas em férias.
Bernard Marx, um alfa invadido por dúvidas e interrogações sem resposta - supostamente por um defeito de fabrico – visita, com uma beta, Lenina, uma dessas Reservas.
Aí encontram Linda e seu filho John, cujo pai, um super alfa, administrador influente, o gerou à moda antiga sem tomar sequer conhecimento do crime.
Marx traz Linda e John consigo, no regresso a Londres.
A última parte do livro é dedicada ao choque de John, o Selvagem, com uma sociedade que gradualmente lhe inspira repugnância. O Selvagem persegue o amor puro, e a diferença entre os humanos, é romântico, leu obras de Shakespeare num velho livro encontrado na Reserva. Sente necessidade de Deus. O nojo que o invade é tão insuperável que, isolando-se num farol, se suicida.
 Em 1958, Huxley, já muito doente, escreve e publica Regresso ao Admirável Mundo Novo****.
É uma serie de ensaios em que sublinha, com um sentimento de angustia, que, transcorrido pouco mais de um quarto de século, muitas das previsões da sua contra utopia estavam a ser concretizadas pelos progressos da ciência e a desumanização da vida. Atribui essa evolução assustadora às armas nucleares, ao aumento galopante da população do planeta e à superorganização das sociedades industriais do mundo contemporâneo. Cita repetidamente Hitler num capítulo da obra.
O complexo industrial militar criado pelas gigantescas transnacionais do armamento tinha atingido tamanho poder nos EUA que Eisenhower o denunciou como um perigo. Mas muita água correria pelo Hudson até que a engrenagem de poder tivesse condições para impor à Casa Branca uma política belicista, inseparável de uma cadeia de guerras de agressão, erigindo o terrorismo de estado em instrumento de acção de uma estratégia de dominação planetária que exige na prática a alienação e robotização de uma humanidade com afinidades com a descrita no famoso romance huxleyano.
Em o Regresso ao Admirável Mundo Novo, o pessimismo de Aldous Huxley é inocultável.
Miguel Urbano Rodrigues , em artigo publicado na imprensa digital.

 *Contraponto, Aldous Huxley, ultima edição portuguesa, Livros do Brasil, 2007
 **Le Meilleur des Mondes, Aldous Huxley, Plon, Paris
 ***Nous Autres, Yevgeni Zamyatin, escrito em 1920, foi editado pela primeira vez em l929 pela Gallimard, em França. A mesma editora lançou uma nova edição em 1971
 **** Regresso ao Admirável Mundo Novo, Aldous Huxley, Editora Antígona, 2014, Lisboa
Miguel Urbano Rodrigues
Sobre Miguel Urbano Rodrigues
"O jornalista e escritor  português Miguel Urbano Rodrigues faleceu, sábado (27), aos 91 anos, em Lisboa.  Esteve exilado no Brasil entre 1957 e 1974, onde foi editorialista de O Estado de S. Paulo. Regressou a Portugal após o 25 de Abril de 1974. De regresso a Lisboa, leccionou História Contemporânea na Faculdade de Letras, foi presidente da Assembleia Municipal de Moura (1977/78), deputado à Assembleia da República, pelo PCP (1990/95), deputado às Assembleias Parlamentares do Conselho da Europa e da União da Europa Ocidental.
Era um dos mais ilustres militantes do Partido Comunista Português.
Liderou o projecto do jornal “O Diário”, que tinha por lema “a verdade a que temos direito”, que foi montado entre Novembro e Dezembro de 1975. O primeiro número saiu a 6 de Janeiro de 1976, com uma redacção recrutada sobretudo no “Diário de Notícias”, de que tinha sido jornalista, entre 1949 e 1956, mas sem incluir José Saramago, ex-director-adjunto deste matutino. “O Diário” sobreviveria até 1990.
Às obras iniciais como “O Homem de Negro” (1958) e “Opções da Revolução na América Latina” (1968), suceder-se-iam “Revolução e Vida” (1977), “Polónia e Afeganistão” (1983), “Em Defesa do Socialismo” (1990), os romances “Alva” (2001) e “Etna no Vendaval da Perestoika” (2007), as memórias de “O Tempo e o Espaço em Que Vivi I e II” ou “Meditação descontínua sobre o envelhecimento” (2009).
“O Diário Liberdade”, “portal anticapitalista da Galiza e países lusófonos”, e "ODiário.info", publicação digital de que era coeditor, reúnem os derradeiros textos de Miguel Urbano Rodrigues.
Natural de Moura, Alentejo,  Miguel Urbano nasceu a 02 de Agosto de 1925. Filho de Urbano Rodrigues era  irmão do escritor Urbano Tavares Rodrigues.
Escritor, jornalista, historiador, ensaísta, Miguel Urbano Rodrigues foi sempre fiel ao seu ideário, nunca  deixando de manifestar o seu pensamento, apesar  da controvérsia  que pudesse  provocar."

domingo, 28 de maio de 2017

Ao Domingo Há Música

“A música aniquila-me. Quando ouço uma obra de que gosto, parece-me que os primeiros sons me descolam a pele da carne, a fundem, a dissolvem, a fazem desaparecer e me deixam feito um esfolado vivo, exposto a todos os ataques dos instrumentos. E é, na realidade sobre os meus nervos que a banda toca… nervos frementes que estremecem a cada nota. Ouço a música, não apenas com os ouvidos, mas com toda a sensibilidade do corpo. Vibrando da cabeça aos pés.”            
                                                           Guy de Maupassant


Há quem  saiba  dar às palavras a magia que nos transforma quando a música nos toma e nos faz vibrar em cada nova nota. Nem sempre o faz em plenitude, mas quando se gosta de música há um encantamento que trai qualquer inibição.
Para ouvir com toda a sensibilidade, apresentam-se registos de três bandas sonoras que encantaram e que ficaram na memória de quem as descobriu.

Do filme The Painted Veil , Love theme , 
de Alexandre Desplat.

Winning, de John Barry , composição extraída do Álbum "Eternal Echoes".

The Grace of Undómiel, composição de  Howard Shore, do filme Lord of the Rings

sábado, 27 de maio de 2017

Almada Negreiros, o pintor

José Sobral de Almada Negreiros, mais conhecido por Almada Negreiros ou «Mestre Almada», nasceu em Trindade, São Tomé e Príncipe, a 7 de Abril de 1893.
"Artista da novidade e da provocação, em demanda de «uma pátria portuguesa do século XX», foi uma das grandes figuras da cultura portuguesa do século XX. Artisticamente activo ao longo de toda a sua vida, (pintor, escritor, poeta, ensaísta, dramaturgo e romancista) o seu valor foi reconhecido por inúmeros prémios. Faleceu em Lisboa no dia 15 de Junho de 1970."

Inimitável o perfil de cada um

Almada Negreiros
«A SOCIEDADE SÓ TEM QUE VER COM TODOS, NÃO TEM NADA QUE CHEIRAR COM CADA UM
Cada um tem o destino universal de fazer consigo mesmo o modelo de mais uma estátua humana. E esta fabrica-se apenas com íntimo pessoal.
O nosso íntimo pessoal é inatingível por outrem. E é este o fundamento de toda a humanidade, de toda a Arte e de toda a Religião. O nosso íntimo pessoal é de ordem humana, estética e sagrada. Serve apenas o próprio. E o seu único caminho. O me­lhor que se pode fazer em favor de qualquer é ajudá-lo a entre­gar-se a si mesmo. Com o seu íntimo pessoal cada um poderá estar em toda a parte, sejam quais forem as condições sociais, as mais favoráveis e as mais adversas. Sem ele, nem para fazer número se aproveita ninguém.
A individualidade e a personalidade são florescências desse invisível do nosso ser a que chamamos o nosso íntimo. Tudo quanto de bom ou de mau, de óptimo ou de péssimo exista em cada qual nasceu com ele e formou-se secretamente, intima­mente, a despeito de todo o aspecto que lhe venha do exterior, de toda a educação e acção alheias.
O papel da sociedade é imediatamente mais evidente sobre cada pessoa do que o atropelado movimento das gerações que a antecederam e lhe determinaram o seu sangue, mas aquela não vale esta. Que uma pessoa tome a seu cargo dirigir o próprio des­tino que lhe coube, é com ela. Que seja a sociedade quem se pro­ponha dirigi-lo, é ingenuidade. O mais que neste caso poderá a sociedade é eliminar esse destino pessoal. A sociedade só tem que ver com todos, não tem nada que cheirar com cada um!
Cada um nasce já bem ou mal educado. E depois de nascido bem ou mal educado, tudo quanto se faça pode pouco para ime­diatamente. Vereis gentes humildes, analfabetos, simples e per­feitamente bem educados, sabendo medir as distâncias entre pessoas, sem se atrapalharem com as escalas sociais, e perfeita­mente uníssonos com o seu próprio caso pessoal. Vereis, por outra, gentes de opinião, passados superiormente por cursos, e, uma vez na altura oficial, não saberem distinguir pessoas de formigas, e outras vertigens dos sítios altos, e, o que é pior, de costas voltadas para si mesmos como para o diabo. Isto é, aqui­lo em que eles poderiam merecer o nosso interesse é precisa­mente ao que eles voltaram as costas!
O autor destas páginas também desenha e não sabe expressar por palavras a extraordinária impressão que recebe sempre que copia o perfil de qualquer pessoa. A natureza chega tão com­plexa às feições de cada um, que somos forçados a não poder aceitar cada qual resumido ao lugar em que a sociedade o põe. Através dos séculos, uma linha única e incessantemente seguida acabou por tornar inimitável o perfil de cada um. Essa linha passa agora desde o alto da testa até por baixo do queixo, e às vezes lembra a de outros, mas é intransmissível.»
 Almada Negreiros, in " Nome de Guerra", Edições Ática

sexta-feira, 26 de maio de 2017

Festival Internacional de Banda Desenhada de Beja

"A 14ª edição do Festival Internacional de Banda Desenhada de Beja arranca já esta sexta-feira, 26 de Maio, abraçando o centro histórico da cidade e em particular o Largo do Museu Regional, espaço ao ar livre que será o epicentro desta festa de BD.
Esta edição do Festival de BD contará com a presença de personalidades internacionais com cartas dadas no mundo da banda desenhada, onde se destaca, o italiano Paolo Mottura, desenhador da Disney e autor de bandas desenhadas do rato Mickey, que estará em Beja nos dias 26, 27 e 28 de Maio. Paolo Mottura tem os seus trabalhos patentes na Galeria do Largo de São João e estará disponível para conversar com os leitores e dar autógrafos no dia 27, na cafetaria do Pax Julia – Teatro Municipal de Beja.
Nos três primeiros dias do festival, Beja recebe também a visita do português Jorge Coelho, que está a fazer as bandas desenhadas do personagem Rocket Raccon, para a Marvel Americana. Rocket Raccon é um dos personagens do filme "Os Guardiões da Galáxia", um dos maiores êxitos de bilheteira dos últimos anos.
Outro nome grande da DB que irá marcar presença neste Festival é Davide Catenacci. Editor da Disney italiana que irá estar em Beja nos dias 26, 27 e 28. No sábado, dia 27, para além de participar numa conferência, na cafetaria do Pax Julia, também vai ver desenhos de autores portugueses.
Na noite de sábado, dia 27 de Maio, a cafetaria do Pax Julia recebe a entrega do prémio Geraldes Lino a Sofia Neto, uma jovem dona de um enorme talento. O Prémio será entregue pelo próprio Geraldes Lino, o editor, crítico, divulgador e fanzinista mais famoso de toda a História da BD Portuguesa.
Ao todo, temos 18 exposições, a que se junta o mercado, o lançamento de livros, debates e apresentação de projectos, que estarão à disposição do público Bejense e não só durante o Festival de BD de Beja que se prolongará até 11 de Junho."
Saiba mais em: www.festivalbdbeja.com 

Sob o canto da ópera


O filme Magie noire, de Fanny Ardant, na Opéra de Paris. 
"Duas histórias paralelas: a mulher de etnia  cigana e as audições dos cantores. O cruzamento de dois mundos através do canto da ópera. Um universo visual e sonoro.  Pouco importa o que dizem as palavras, é o imaginário que comanda." Opéra National de Paris

quinta-feira, 25 de maio de 2017

Eugénio Lisboa faz 87 anos

Talento é acertar um alvo que ninguém acerta. Genialidade é acertar um alvo que ninguém vê.
                                           Arthur Schopenhauer

Celebrar a vida de Eugénio Lisboa é celebrar a Cultura. Ano após ano, não cessa de surpreender pela beleza e largueza com que semeia Cultura. A sua obra, nunca acabada, é um repositório magnânimo  e um manual precioso de como se deve fazer Cultura,  em qualquer parte do mundo. Portugal tem nele o obreiro mais insigne e engenhoso da actualidade.
Ler Eugénio Lisboa é descobrir a transcendente magia  da Literatura.
Ouvir Eugénio Lisboa é viajar por um mundo cheio de inesperados assombros que nos deslumbra e desassossega.
Conhecer Eugénio Lisboa é verificar como a simplicidade, a humildade vestem sempre um grande Homem.
A sabedoria tem nele uma vantagem: a partilha. Dá-no-la  em doses gigantescas , espalhando-a por sumptuosos ensaios, magníficas crónicas,  extraordinárias intervenções,   valiosos livros e na imperdível e rica obra memorialística, registada em seis volumes, com data prevista   para novo volume, no próximo Outono. 
Todos os títulos das obras de Eugénio Lisboa são ricos e sugestivos. Requisita-os com argúcia e apropriação que só um espírito sagaz e culto sabe fazer.
" Acta Est Fabula " é o título da vasta obra onde a memória se estende. Dos idos tempos de Lourenço Marques a S. Pedro de Estoril, a voz de Eugénio Lisboa faz a narração de uma vida singular: a sua. Com  ela,atravessamos quase um século  de descoberta e de encontros com vultos importantes da Literatura Nacional e Universal. Mas é Eugénio Lisboa que nos toca, que nos ensina como se constrói uma vida aberta à aprendizagem, ao conhecimento. 
Eça de Queiroz, o notável autor de "Os Maias", afirmava: Não tenha medo de pensar diferente dos outros, tenha medo de pensar igual e descobrir que todos estão errados! 
Eugénio Lisboa não teve medo  de o fazer. Nunca pensou igual. Fê-lo diferente e proficuamente.
A nós ,cumpre agradecer-lhe por ter praticado  a diferença ao produzir uma  obra que nos faz  mais felizes e igualmente mais sábios. 
E, porque homenagear um autor é celebrar a sua obra, transcrevemos um excerto do segundo volume das suas Memórias, Acta Est Fabula.
A nossa homenagem, hoje e sempre,  Eugénio Lisboa.
Lourenço Marques

VIAGEM
                                        “Aparentes senhores de um barco abandonado,
                                         nós olhamos, sem ver, a longínquas miragens.
                                         Aonde iremos ter? [...]
                                                  David Mourão-Ferreira, A Secreta Viagem

Saído o velho navio da barra, encontrámo-nos no dorso imperioso do Índico. O barco estava decrépito e em breve viríamos a saber que deveria ser a sua última viagem ou uma das últimas, antes de ir para a sucata.
 A viagem que, havia muito, me fora prometida, tinha começado, deixando para trás, intoleravelmente, a Lourenço Marques da minha infância e adolescência de descobertas e espantos. Esta não era apenas a minha maior viagem: era, na realidade, a minha primeira viagem. As que antes fizera – entre Lourenço Marques e Porto Amélia, no norte de Moçambique – tinham ocorrido em idades de que não guardo memória. Tirando modestas excursões – não frequentes – à Namaacha, a poucas dezenas de quilómetros de Lourenço Marques, vivera sempre na minha cidade natal. Joanesburgo, na África do Sul, era só para os mais ou menos endinheirados. Fora também a Marracuene – a trinta quilómetros – e à Catembe, do outro lado da baía. Viagens, portanto, só as da imaginação e as das leituras intensas dos grandes autores que ia descobrindo. Das páginas dos romances de Anatole France e Roger Martin du Gard, vislumbrara Florença e Paris, como, das páginas de Lawrence e das irmãs Brontë, entrevira paisagens inglesas, ou, das de Thomas Mann, pedaços da Alemanha, ou, com Pirandello e D’Annunzio, penetrara em cidades e vilas de Itália. Era também um modo de viajar – a partir da janela do meu quarto, na casa da Rua Mendonça Barreto. Já falei de tudo isto, no 1.º volume destas minhas memórias. E só o repito aqui, porque serve de fio condutor ou de ponte entre um livro publicado há três anos e este que agora tento redigir.
O ano em que esta viagem se iniciava era o de 1947, o mês, Setembro, e o dia, 10. Fazia um sol forte em cima do convés do “Nova Lisboa”: paisagem de ferragens desarrumadas, velha e desgastada, quase pelintra, a assinalar, de modo incompetente e desastrado, o que eu sonhara glorioso: o dia do começo da minha antecipada odisseia. Tudo era negativo: o cheiro da comida vomitada no convés por alguns dos meus companheiros de viagem, acometidos do enjoo provocado pela vaga larga do oceano; a decrepitude da nau; o meu próprio enjoo. Um deles, mais afoito, resolveu, temerariamente, curar o mal de forma radical (mordedura de cão cura-se com pelo do mesmo cão): após a agonia do vómito, voltou à sala do almoço e repetiu a refeição. A teimosia surtiu efeito.
Eu recusei simplesmente ingerir fosse o que fosse e fiquei-me a olhar, desamparado, para a desolação do convés do navio, a que nem o Sol dava vida: todos os meus sonhos desfeitos, na amargura fétida daquele palco indigno de tantas esperanças longamente alimentadas e acarinhadas. Foi a primeira e funda desfasagem, por mim sentida, entre o sonho e a realidade. Sentia-me pavorosamente logrado: o navio era uma paisagem hostil, feia, quase infame, indigna de tão ínclitos sonhos.”

Eugénio Lisboa, in Acta Est Fabula, Memória-II-Lisboa, (1947-1955), Editora Opera Omnia, Out. 2016, pp. 15,16

quarta-feira, 24 de maio de 2017

Construir uma ruína

Os autores mais originais dos últimos tempos são originais, não por produzirem algo novo, mas apenas porque são capazes de dizer as coisas que dizem como se elas nunca antes houvessem sido ditas.
                       J.W. Goethe, in” Werk”,  Berlin: Direcmedia, 1998.

“Um monge disse-me no caminho: "Eu queria construir uma ruína. Embora eu saiba que ruína é uma desconstrução. A minha ideia era fazer alguma coisa ao jeito de cabana. Alguma coisa que servisse para abrigar o abandono, como as cabanas abrigam. Porque o abandono pode não ser apenas de um homem debaixo da ponte, mas pode ser também de um gato no beco ou de uma criança presa num cubículo. O abandono pode ser também de uma expressão que tenha entrado para o arcaico ou mesmo de uma palavra. Uma palavra que esteja sem ninguém dentro. (...) (O olho do monge estava perto de ser um canto.) Continuou: digamos a palavra AMOR. A palavra amor está quase vazia. Não tem gente dentro dela. Queria construir uma ruína para a palavra amor. Talvez ela renascesse das ruínas, como o lírio pode nascer da lixeira.” E o monge calou-se desconcertado."
Manoel de Barros , in "Ensaios Fotográficos", Editora Record,  2000.

terça-feira, 23 de maio de 2017

Hora Grave

Hora Grave

Quem agora chora em algum lugar do mundo,
Sem razão chora no mundo,
Chora por mim.

Quem agora ri em algum lugar na noite,
Sem razão ri dentro da noite,
Ri-se de mim.

Quem agora caminha em algum lugar no mundo,
Sem razão caminha no mundo,
Vem a mim.

Quem agora morre em algum lugar no mundo,
Sem razão morre no mundo,
Olha para mim.

Rainer Maria Rilke, in Poemas. Tradução e introdução de José Paulo Paes. São Paulo: Companhia das Letras, 1993

segunda-feira, 22 de maio de 2017

Solidão é não precisar

«Dá-me a tua mão:
Vou te contar como entrei no inexpressivo que sempre foi a minha busca cega e secreta. De como entrei naquilo que existe entre o número um e o número dois, de como vi a linha de mistério e fogo, e que é linha sub-reptícia. Entre duas notas de música existe uma nota, entre dois factos existe um facto, entre dois grãos de areia, por mais juntos que estejam existe um intervalo de espaço, existe um sentir que é entre o sentir - nos interstícios da matéria primordial está a linha de mistério e fogo que é a respiração do mundo, e a respiração contínua do mundo e aquilo que ouvimos e chamamos de silêncio.
(…)
E agora não estou tomando tua mão para mim. Sou eu quem está te dando a mão.
Agora preciso de tua mão, não para que eu não tenha medo, mas para que tu não tenhas medo. Sei que acreditar em tudo isso será, no começo, a tua grande solidão. Mas chegará o instante em que me darás a mão, não mais por solidão, mas como eu agora: por amor. Como eu, não terás medo de agregar-te à extrema doçura enérgica do Deus. Solidão é ter apenas o destino humano.
E solidão é não precisar. Não precisar deixa um homem muito só, todo só. Ah, precisar não isola a pessoa, a coisa precisa da coisa: basta ver o pinto andando para ver que seu destino será aquilo que a carência fizer dele, seu destino é juntar-se como gotas de mercúrio a outras gotas de mercúrio, mesmo que, como cada gota de mercúrio, ele tenha em si próprio uma existência toda completa e redonda.
Ah, meu amor, não tenhas medo da carência: ela é o nosso destino maior. O amor é tão mais fatal do que eu havia pensado, o amor é tão inerente quanto a própria carência, e nós somos garantidos por uma necessidade que se renovará continuamente. O amor já está, está sempre. Falta apenas o golpe da graça - que se chama paixão.»
Clarice Lispector,  in  " A paixão segundo G.H.", Relógio D'Água, pp.79  e136

domingo, 21 de maio de 2017

Ao Domingo Há Música

Ouvidos e lábios dizem-nos, (...), que devemos dar ao tempo um canal mais vasto a fim de dar vida e espaço às múltiplas culturas de um mundo que corre o perigo da uniformidade global mas também da dispersão local.
                                   Carlos Fuentes, Tempo - Aquilo em que acredito

De John Williams, Duelo dos destinos,  pelos Músicos Solidários, no concerto "Voces para la Paz" , sob a direcção do Maestro Miguel Roa. Espectáculo realizado no Auditório Nacional de Música de Madrid , em 10 de Março de 2013.
O projecto  tinha como finalidade a construção de uma Escola para 200 raparigas,no Uganda e recolha de alimentos para famílias necessitadas, em Espanha.

Madame Butterfly: Coro a boca cerrada de  Giacomo Puccini, no Concerto "Vozes para Paz", pelos Músicos solidários , sob a direcção do Maestro Miguel Roa .
Espectáculo realizado no Auditório Nacional de Música de Madrid , em 10 de Junho de 2010.

Abertura 1812 de Piotr Ilitch Tchaikovskino Concerto "Vozes para Paz", pelos Músicos solidários , sob a direcção do Maestro Miguel Roa .
Espectáculo realizado no Auditório Nacional de Música de Madrid , em 10 de Junho de 2010.

sábado, 20 de maio de 2017

Cinquenta Anos de "Cem Anos de Solidão"

"Todos os anos, pelo mês de Março, uma família de ciganos andrajosos montava a sua tenda perto da aldeia e, num grande alvoroço de apitos e timbales, davam a conhecer as novas invenções. Primeiro levaram o íman. Um cigano corpulento, de barba ferina e mãos de pardal-dos-telhados, que se apresentou com o nome de Melquíades, fez uma truculenta demonstração daquilo que ele próprio denominava de oitava maravilha dos alquimistas da Macedónia. Foi de casa em casa a arrastar dois lingotes metálicos, e toda agente ficou espantada ao ver como as caldeiras, os tachos, as tenazes e os fogareiros caíam dos seu lugares, e as madeiras rangiam pelo desespero dos pregos e dos parafusos que tentavam despregar-se, e até os objectos perdidos há muito tempo apareciam  por onde mais se procurara e arrastavam-se em debandada turbulenta atrás dos ferros mágicos de Melquíades.  " As coisas têm vida própria", apregoava  o cigano com um sotaque  áspero, " é tudo uma questão  de lhes acordar alma." José Arcadio Buendía , cuja imaginação desaforada andava sempre  à frente do engenho da Natureza e ainda mais além do milagre e da magia, pensou que era possível servir-se daquele invento inútil para desentranhar o ouro da terra. Melquíades, que era um homem honrado , preveniu-o: " Para  isso não serve." Mas José Arcadio Buendía não acreditava, naquela altura, na honradez dos ciganos, de modo que trocou a sua mula e algumas cabras pelos dois lingotes magnetizados. Úrsula Iguarán, sua mulher, que contava com aqueles animais para dar uma certa folga ao desmedrado património doméstico, não conseguiu dissuadi-lo. "Depressa nos sobrará ouro com que empedrar a casa", replicou-lhe o marido. Durante vários meses empenhou-se em demonstrar o acerto das suas conjecturas. Explorou a região palmo a palmo, até ao fundo do rio, arrastando os dois lingotes de ferro e recitando em voz alta o esconjuro de Melquíades. A única coisa que conseguiu desenterrar foi uma armadura  do século XV, com todas as suas partes soldadas por uma camada de ferrugem, cujo interior tinha a ressonância oca  de uma enorme cabaça cheia de pedras. Quando José  Arcadio Buendía mais os quatro homens da sua expedição conseguiram  desarticular a armadura, encontraram lá dentro um esqueleto calcificado que tinha, pendurado ao pescoço, um relicário de cobre com uma madeixa de mulher."
Gabriel García Márquez, in Cem anos de Solidão, Publicações Dom Quixote
"A obra mais conhecida do escritor colombiano Gabriel García Márquez (1927-2014) completa 50 anos em 2017. “Cem anos de solidão” conta a saga da família Buendía e foi lançado em Junho de 1967. A cidade de Cartagena, na Colômbia, onde o autor deu os primeiros passos como jornalista, foi escolhida para iniciar as comemorações com uma leitura colectiva de trechos do romance.
"Cem anos de solidão é a obra mais famosa do Nobel de Literatura colombiano Gabriel García Márquez (1927-2014), sendo considerada também uma das mais importantes da literatura latino-americana. O livro foi publicado pela primeira vez em Buenos Aires, Argentina, em 1967, pela editora Editorial Sudamericana, com uma tiragem inicial de 10.000 exemplares. Desde então já foram vendidos cerca de 50 milhões de exemplares em 35 idiomas distintos, tornando-o num dos textos mais lidos e traduzidos em todo o mundo.
Durante o IV Congresso Internacional da Língua Espanhola, realizado em Cartagena, na Colômbia, em Março de 2007, Cem Anos de Solidão foi considerada a segunda obra mais importante de toda a literatura hispânica, ficando apenas atrás de Dom Quixote de la Mancha. Utilizando o estilo conhecido como realismo mágico, Cem Anos de Solidão mantém-se um texto actual e é lido por milhares de leitores.
 
Gabriel García Márquez (Aracataca, Colômbia, 1927)
O escritor colombiano Gabriel García Márquez ingressou no curso de Direito da Universidade de Bogotá, não o chegando a concluir. Fascinado pela escrita, transferiu-se para a Universidade de Cartagena, onde estudou Jornalismo. Publicou o seu primeiro conto, La Hojarasca, em 1947. No ano seguinte, deu início a uma carreira como jornalista, colaborando com inúmeras publicações sul-americanas. Enviado para Roma como correspondente do jornal El Espectador, em 1954, acabou por permanecer na Europa quando o regime ditatorial colombiano encerrou a redacção. Em 1955 publicou o seu primeiro livro, uma colectânea de contos que haviam já aparecido em publicações periódicas. Em 1967 publicou a sua obra mais conhecida, o romance Cem Anos de Solidão, que se tornou num marco do realismo mágico. Entre as mais conhecidas obras do escritor contam-se ainda Crónica de Uma Morte Anunciada e Amor em Tempos de Cólera. Em 1982 foi-lhe atribuído o Prémio Nobel da Literatura. Morreu em 2014, na Cidade do México.
A Casa da América Latina organiza, em parceria com a TSF e a Fundação José Saramago, no dia 30 de Maio, pelas 17h30 , na Casa da América Latina (Av. da Índia 110, Lisboa), com Entrada livre, um encontro que evoca os 50 anos desde a publicação de Cem Anos de Solidão de Gabriel García Márquez."

sexta-feira, 19 de maio de 2017

Quem inventou o amor

Aprendi tudo por mim. Um deus me pôs no espírito
toda a espécie de melodias. Eu saberei cantar para ti,
como se fosses um deus!....
Ilíada, XXII, 347-249 in HÉLADE, Antologia da Cultura Grega, org. e trad. Maria Helena da Rocha Pereira, Guimarães Editores, 10.ª ed. p.106

Salvador Sobral, em Nem Eu .

quinta-feira, 18 de maio de 2017

A Carta da Corcunda


A CARTA DA CORCUNDA PARA O SERRALHEIRO
        Senhor António:
      O senhor nunca há-de ver esta carta, nem eu a hei-de ver segunda vez porque estou tuberculosa, mas eu quero escrever-lhe ainda que o senhor o não saiba, porque se não escrevo abafo.
      O senhor não sabe quem eu sou, isto é, sabe mas não sabe a valer. Tem-me visto à janela quando o senhor passa para a oficina e eu olho para si, porque o espero a chegar, e sei a hora que o senhor chega. Deve sempre ter pensado sem importância na corcunda do primeiro andar da casa amarela, mas eu não penso senão em si. Sei que o senhor tem uma amante, que é aquela rapariga loura alta e bonita; eu tenho inveja dela mas não tenho ciúmes de si porque não tenho direito a ter nada, nem mesmo ciúmes. Eu gosto de si porque gosto de si, e tenho pena de não ser outra mulher, com outro corpo e outro feitio, e poder ir à rua e falar consigo ainda que o senhor me não desse razão de nada, mas eu estimava conhecê-lo de falar.
      O senhor é tudo quanto me tem valido na minha doença e eu estou-lhe agradecida sem que o senhor o saiba. Eu nunca poderia ter ninguém que gostasse de mim como se gosta das pessoas que têm o corpo de que se pode gostar, mas eu tenho o direito de gostar sem que gostem de mim, e também tenho o direito de chorar, que não se negue a ninguém.
      Eu gostava de morrer depois de lhe falar a primeira vez mas nunca terei coragem nem maneiras de lhe falar. Gostava que o senhor soubesse que eu gostava muito de si, mas tenho medo que se o senhor soubesse não se importasse nada, e eu tenho pena já de saber que isso é absolutamente certo antes de saber qualquer coisa, que eu mesmo não vou procurar saber.
      Eu sou corcunda desde a nascença e sempre riram de mim. Dizem que todas as corcundas são más, mas eu nunca quis mal a ninguém. Alem disso sou doente, e nunca tive alma, por causa da doença, para ter grandes raivas. Tenho dezanove anos e nunca sei para que é que cheguei a ter tanta idade, e doente, e sem ninguém que tivesse pena de mim a não ser por eu ser corcunda, que é o menos, porque é a alma que me dói, e não o corpo, pois a corcunda não faz dor.
      Eu até gostava de saber como é a sua vida com a sua amiga, porque como é uma vida que eu nunca posso ter - e agora menos que nem vida tenho - gostava de saber tudo.
      Desculpe escrever-lhe tanto sem o conhecer, mas o senhor não vai ler isto, e mesmo que lesse nem sabia que era consigo e não ligava importância em qualquer caso, mas gostaria que pensasse que é triste ser marreca e viver sempre só à janela, e ter mãe e irmãs que gostam da gente mas sem ninguém que goste de nós, porque tudo isso é natural e é a família, e o que faltava é que nem isso houvesse para uma boneca com os ossos às avessas como eu sou, como eu já ouvi dizer.
      Houve um dia que o senhor vinha para a oficina e um gato se pegou à pancada com um cão aqui defronte da janela, e todos estivemos a ver, e o senhor parou, ao pé do Manuel das Barbas, na esquina do barbeiro, e depois olhou para mim para a janela, e viu-me a rir e riu também para mim, e essa foi a única vez que o senhor esteve a sós comigo, por assim dizer, que isso nunca poderia eu esperar.
      Tantas vezes, o senhor não imagina, andei à espera que houvesse outra coisa qualquer na rua quando o senhor passasse e eu pudesse outra vez ver o senhor a ver e talvez olhasse para mim e eu pudesse olhar para si e ver os seus olhos a direito para os meus.
      Mas eu não consigo nada do que quero, nasci já assim, e até tenho que estar em cima de um estrado para poder estar à altura da janela. Passo todo o dia a ver ilustrações e revistas de modas que emprestam à minha mãe, e estou sempre a pensar noutra coisa, tanto que quando me perguntam como era aquela saia ou quem é que estava no retrato onde está a Rainha de Inglaterra, eu às vezes me envergonha de não saber, porque estive a ver coisas que não podem ser e que eu não posso deixar que me entrem na cabeça e me dêem alegria para eu depois ainda por cima ter vontade de chorar.
      Depois todos me desculpam, e acham que sou tonta, mas não me julgam parva, porque ninguém julga isso, e eu chego a não ter pena da desculpa, porque assim não tenho que explicar porque é que estive distraída.
      Ainda me lembro daquele dia que o senhor passou aqui ao Domingo com o fato azul claro. Não era azul claro, mas era uma sarja muito clara para o azul escuro que costuma ser. O senhor ia que parecia o próprio dia que estava lindo e eu nunca tive tanta inveja de toda a gente como nesse dia. Mas não tive inveja da sua amiga, a não ser que o senhor não fosse ter com ela mas com outra qualquer, porque eu não pensei senão em si, e foi por isso que invejei toda a gente, o que não percebo mas o certo é que é verdade.
      Não é por ser corcunda que estou aqui sempre à janela, mas é que ainda por cima tenho uma espécie de reumatismo nas pernas e não me posso mexer, e assim estou como se fosse paralítica, o que é uma maçada para todos cá em casa e eu sinto ter que ser toda a gente a aturar-me e a ter que me aceitar que o senhor não imagina. Eu às vezes dá-me um desespero como se me pudesse atirar da janela abaixo, mas eu que figura teria a cair da janela? Até quem me visse cair ria e a janela é tão baixa que eu nem morreria, mas era ainda mais maçada para os outros, e estou a ver-me na rua como uma macaca, com as pernas à vela e a corcunda a sair pela blusa e toda a gente a querer ter pena mas a ter nojo ao mesmo tempo ou a rir se calhasse, porque a gente é como é não como tinha vontade de ser.
      O senhor que anda de um lado para o outro não sabe qual é o peso de a gente não ser ninguém. Eu estou à janela todo o dia e vejo toda a gente passar de um lado para o outro e ter um modo de vida e gozar e falar a esta e àquela, e parece que sou um vaso com uma planta murcha que ficou aqui à janela por tirar de lá.
      O senhor não pode imaginar, porque é bonito e tem saúde o que é a gente ter nascido e não ser gente, e ver nos jornais o que as pessoas fazem, e uns são ministros e andam de um lado para o outro a visitar todas as terras, e outros estão na vida da sociedade e casam e têm baptizados e estão doentes e fazem-lhe operações os mesmos médicos, e outros partem para as suas casas aqui e ali, e outros roubam e outros queixam-se, e uns fazem grandes crimes e há artigos assinados por outros e retratos e anúncios com os nomes dos homens que vão comprar as modas ao estrangeiro, e tudo isto o senhor não imagina o que é para quem é um trapo como eu que ficou no parapeito da janela de limpar o sinal redondo dos vasos quando a pintura é fresca por causa da água.
      Se o senhor soubesse isto tudo era capaz de vez em quando me dizer adeus da rua, e eu gostava de se lhe poder pedir isso, porque o senhor não imagina, eu talvez não vivesse mais, que pouco é o que tenho de viver, mas eu ia mais feliz lá para onde se vai se soubesse que o senhor me dava os bons dias por acaso.
      A Margarida costureira diz que lhe falou uma vez, que lhe falou torto porque o senhor se meteu com ela na rua aqui ao lado, e essa vez é que eu senti inveja a valer, eu confesso porque não lhe quero mentir, senti inveja porque meter-se alguém connosco é a gente ser mulher, e eu não sou mulher nem homem, porque ninguém acha que eu sou nada a não ser uma espécie de gente que está para aqui a encher o vão da janela e a aborrecer tudo que me vê, valha-me Deus.
      O António (é o mesmo nome que o seu, mas que diferença!) o António da oficina de automóveis disse uma vez a meu pai que toda a gente deve produzir qualquer coisa, que sem isso não há direito a viver, que quem não trabalha não come e não há direito a haver quem não trabalhe. E eu pensei que faço eu no mundo, que não faço nada senão estar à janela com toda a gente a mexer-se de um lado para o outro, sem ser paralítica, e tendo maneira de encontrar as pessoas de quem gosta, e depois poderia produzir à vontade o que fosse preciso porque tinha gosto para isso.
      Adeus senhor António, eu não tenho senão dias de vida e escrevo esta carta só para a guardar no peito como se fosse uma carta que o senhor me escrevesse em vez de eu a escrever a si. Eu desejo que o senhor tenha todas as felicidades que possa desejar e que nunca saiba de mim para não rir porque eu sei que não posso esperar mais.
      Eu amo o senhor com toda a minha alma e toda a minha vida. Aí tem e estou a chorar.
                                                              Maria José
Nota: texto posterior a 1929

Fernando Pessoa, in Obra Essencial de Fernando Pessoa, Prosa Íntima e de Autoconhecimento. Edição Richard Zenith, Assírio & Alvim, Abril 2007

terça-feira, 16 de maio de 2017

Filosofia para o dia a dia


Trecho de Nietzsche para Estressados, de Allan Percy 
Filosofia para o dia a dia
"NIETZSCHE PARA ESTRESSADOS é um manual inteligente, provocador e estimulante que reúne 99 máximas do génio alemão e a aplicação prática a várias situações do dia a dia. A filosofia de Nietzsche é de grande utilidade na busca de uma solução para uma série de problemas, tanto na vida pessoal quanto na profissional.
Este breve curso de filosofia quotidiana foi criado para nos auxiliar naqueles momentos em que precisamos de tomar decisões, recuperar o ânimo, encontrar o caminho certo quando estamos perdidos e relativizar a importância dos factos da vida. É indicado para pessoas que procuram inspiração no pensamento do filósofo mais influente da era moderna para combater as angústias e os medos dos dias de hoje.
Cada capítulo é iniciado por um aforismo desse grande pensador, seguido de uma interpretação actual que nos ajuda a alcançar o bem-estar, feita por Allan Percy, autor da compilação.
No final, há um anexo que explica o valor terapêutico da filosofia e suas aplicações no quotidiano. Conheceremos o trabalho dos filósofos terapeutas, popularizado pelo livro Mais Platão, menos Prozac, de Lou Marinoff, e entenderemos como máximas dos pensadores de todos os tempos podem oferecer uma ajuda da melhor qualidade.
Antes de conhecer seus pensamentos, saiba um pouco sobre a vida do grande mestre.
Friedrich Wilhelm Nietzsche nasceu em 1844, na cidade alemã de Röcken. O seu pai era pastor evangélico e faleceu quando o filho tinha 5 anos. Cresceu num ambiente religioso protestante dominado por mulheres.
Após frequentar um internato, onde foi apresentado à Antiguidade grega e romana, estudou filosofia clássica nas universidades de Bonn e Leipzig. Nessa última, entrou em contacto com as ideias de Schopenhauer e com a música de Wagner, compositor que admirava e que mais tarde conheceria pessoalmente.
Em 1869, com apenas 25 anos, Nietzsche já era professor de filologia clássica na Universidade da Basileia. No entanto, a actividade docente foi interrompida em 1870, quanto rebentou a Guerra Franco-Prussiana.
Nietzsche participou do conflito como enfermeiro, até ser obrigado a abandonar  por causa de uma disenteria, da qual nunca se recuperou totalmente.
Em 1881, conheceu Lou Andreas Salomé, mulher por quem se apaixonou perdidamente mas que  se ligaria a um amigo seu. A rejeição ajudou a consolidar a sua proverbial misoginia.
Obrigado a  aposentar-se prematuramente por conta de sequelas da doença, Nietzsche viveu na Riviera francesa e no norte da Itália, lugares que considerava ideais para pensar e escrever.
Sozinho e frustrado por suas obras não alcançarem a recepção desejada, foi vítima de seus primeiros acessos de loucura em 1889, quando morava em Turim e estava praticamente cego.
Após longas temporadas internado em clínicas da Basileia e de Jena, Nietzsche passaria o fim da vida na casa da mãe, que cuidou dele até morrer, deixando-o ao encargo da irmã. Nietzsche faleceu em 1900.
O seu ambicioso legado filosófico até hoje não perdeu o poder inspirador e contagiante.

Eis,  reunidos,  os 99 aforismos de Nietzsche,  compilados por Allan Percy:
1 — Quem tem uma razão de viver é capaz de suportar qualquer coisa.
2 — O destino dos seres humanos é feito de momentos felizes e não de épocas felizes.
3 — Nós nos sentimos bem em meio à natureza porque ela não nos julga.
4 — Precisamos pagar pela imortalidade e morrer várias vezes enquanto estamos vivos.
5 — O valor que damos ao infortúnio é tão grande que, se dizemos a alguém “Como você é feliz!”, em geral somos contestados.
6 — Nossos tesouro está na colmeia de nosso conhecimento. Estamos sempre voltados a essa direcção, pois somos insectos alados da natureza, colectores do mel da mente.
7 — A palavra mais ofensiva e a carta mais grosseira são melhores e mais educadas que o silêncio.
8 — Nossa honra não é construída por nossa origem, mas por nosso fim.
9 — O homem que imagina ser completamente bom é um idiota.
10 — As pessoas que nos fazem confidências se acham automaticamente no direito de ouvir as nossas.
11 — Precisamos amar a nós mesmos para sermos capazes de nos tolerar e não levar uma vida errante.
12 — Só quem constrói o futuro tem o direito de julgar o passado.
13 — Alegrando-se por nossa alegria, sofrendo por nosso sofrimento — assim se faz um amigo.
14 — Não devemos ter mais inimigos que as pessoas dignas de ódio, mas tampouco devemos ter inimigos dignos de desprezo. É importante nos orgulharmos de nossos inimigos.
15 — O sucesso sempre foi um grande mentiroso.
16 — O homem é algo a ser superado. Ele é uma ponte, não um objectivo  final.
17 — Falar muito de si mesmo pode ser uma forma de se ocultar.
18 — As pessoas nos castigam por nossas virtudes. Só perdoam sinceramente nossos erros.
19 — O reino dos céus é uma condição do coração e não algo que cai na terra ou que surge depois da morte.
20 — O homem é, antes de tudo, um animal que julga.
21 — A melhor arma contra o inimigo é outro inimigo.
22 — Os maiores êxitos não são os que fazem mais ruído e sim nossas horas mais silenciosas.
23 — O indivíduo sempre lutou para não ser absorvido por sua tribo. Se fizer isso, você se verá sozinho com frequência e, às vezes, assustado. Mas o privilégio de ser você mesmo não tem preço.
24 — Quem é activo aprende sozinho.
25 — Nossas opiniões são a pele na qual queremos ser vistos.
26 — Não há razão para buscar o sofrimento, mas, se ele surgir em sua vida, não tenha medo: encare-o de frente e com a cabeça erguida.
27 — A razão começa na cozinha.
28 — O futuro influi no presente da mesma maneira que o passado.
29 — Não deveríamos tentar deter a pedra que já começou a rolar morro abaixo; o melhor é dar-lhe impulso.
30 — A maneira mais eficaz de corromper o jovem é ensiná-lo a admirar aqueles que pensam como ele e não os que pensam de forma diferente.
31 — Toda queixa contém em si uma agressão.
32 — No amor sempre existe algo de loucura e na loucura sempre existe algo de razão.
33 — Quem deseja aprender a voar deve primeiro aprender a caminhar, a correr, a escalar e a dançar. Não se aprende a voar voando.
34 — Quem luta contra monstros deve ter cuidado para não se transformar num deles.
35 — São muitas as verdades e, por esse motivo, não existe verdade alguma.
36 — A mentira mais comum é a que o homem usa para enganar a si mesmo.
37 — Deveríamos considerar perdido o dia em que não dançamos nenhuma vez.
38 — Há mais sabedoria no seu corpo do que na sua filosofia mais profunda.
39 — Se ficar olhando muito tempo para o abismo olhará para você.
40 — As posições extremas não são seguidas de posições moderadas, e sim de posições contrárias.
41 — Preciso de companheiros, mas de companheiros vivos, não de cadáveres que eu tenha que levar nas costas por toda parte.
42 — Eis a tarefa mais difícil: fechar a mão aberta do amor e ser modesto como doador.
43 — A arrogância por parte de quem tem mérito nos parece mais ofensiva que a arrogância de quem não o tem: o próprio mérito é ofensivo
44 — Todos os grandes pensamentos são concebidos ao se caminhar.
45 — Quem não sabe guardar suas opiniões no gelo não deveria entrar em debates acalorados.
46 — Dois grandes espectáculos são muitas vezes suficientes para curar uma pessoa apaixonada.
47 — Quem declara que o outro é idiota fica chateado quando, no final, descobre que isso não é verdade.
48 — Amigos deveriam ser mestres em adivinhar e calar: não se deve querer saber tudo.
49 — Usar as mesmas palavras não é garantia de entendimento. É preciso ter experiências em comum com alguém.
50 — Estava só e não fazia outra coisa além de encontrar-se consigo mesmo. Então, aproveitou sua solidão e pensou em coisas muito boas por várias horas.
51 — A potência intelectual de um homem se mede pelo humor que ele é capaz de manifestar.
52 — Gosto dos valentes, mas não basta ser um espadachim: também é preciso saber a quem ferir. E, muitas vezes, abster-se demonstra mais bravura, reservando-se para um inimigo mais digno.
53 — De que vale o ronronar de alguém que não sabe amar como um gato?
54 — Para chegar a ser sábio, é preciso querer experimentar certas vivências. Mas isso é muito perigoso. Mais de um sábio foi devorado nessa tentativa.
55 — O cérebro verdadeiramente original não é o que enxerga algo novo antes de todo mundo, mas o que olha para coisas velhas e conhecidas, já vistas e revistas por todos, como se fossem novas. Quem descobre algo é normalmente este ser sem originalidade e sem cérebro chamado sorte.
56 — Quem não dispõe de dois terços do dia é um escravo.
57 — O melhor meio de ajudar pessoas muito confusas e deixá-las mais tranquilas é elogiá-las de forma veemente.
58 — O homem amadurece quando reencontra a seriedade que demonstrava em suas brincadeiras de criança.
59 — Ninguém é tão louco que não possa encontrar outro louco que o entenda.
60 — Na maior parte das vezes que não aceitamos uma opinião, isso acontece por causa do tom em que ela foi manifestada.
61 — Acredito que os animais vêem o homem como um ser igual a eles que perdeu, de forma extraordinariamente perigosa, a sanidade intelectual animal. Ou seja: vêem o homem como um animal irracional, um animal que sorri, que chora, um animal infeliz.
62 — Antes de se casar, pergunte a si mesmo: serei capaz de manter uma boa conversa com essa pessoa até a velhice? Todo o resto é passageiro num matrimónio.
63 — É muito difícil os homens entenderem a sua ignorância no que diz respeito a eles mesmos.
64 — Pobre do pensador que não é o jardineiro, mas apenas o canteiro de suas plantas.
65 — Um poeta escreveu na porta: “Quem entrar aqui me honrará. Quem não entrar me proporcionará um prazer”.
66 — A verdade é que amamos a vida não porque estamos acostumados a ela, mas porque estamos acostumados com o amor.
67 — O homem é a causa criativa de tudo o que acontece.
68 — Seus maiores bens são seus sonhos.
69 — Quem não sabe dar nada não sabe sentir nada.
70 — As ilusões são certamente prazeres dispendiosos, mas a destruição delas é mais dispendiosa ainda.
71 — A essência de toda arte bela, de arte grandiosa é a gratidão.
72 — Não é raro encontrar cópias de grandes homens. E, como acontece com os quadros, a maior parte das pessoas parece mais interessada nas cópias do que nos originais.
73 — Quem não teve um bom pai deve procurar um.
74 — Os poços mais profundos vivem as suas experiências lentamente: esperam um bom tempo até saberem o que caiu em suas profundezas.
75 — Quando temos muitas coisas para guardar nele, o dia tem 100 bolsos.
76 — Uma alma delicada se sente mal quando sabe que receberá agradecimentos. Uma alma grosseira se sente mal quando sabe que precisa agradecer a alguém.
77 — Não se pode odiar enquanto se menospreza. Não se pode odiar mais intensamente um indivíduo desprezado do que um igual ou superior.
78 — Quantos homens sabem observar? E, desses poucos que sabem, quantos observam a si próprios? “Cada pessoa é o ser mais distante de si mesmo.”
79 — A guerra embrutece o vencedor e deixa o vencido rancoroso.
80 — Cada mestre não tem mais que um aluno e esse aluno lhe será infiel, pois está predestinado a ser mestre também.
81 — O mundo real é muito menor que o mundo da imaginação.
82 — Se for magoado por um amigo, diga-lhe: “Eu o perdoo pelo que me fez, mas como poderia perdoá-lo pelo que fez a si mesmo?”
83 — A esperança é muito mais estimulante que a sorte.
84 — O que não nos mata nos fortalece.
85 — Quem vê mal sempre vê pouco. Quem escuta mal sempre escuta demais.
86 — Toda vez que me elevo, sou perseguido por um cachorro chamado Ego.
87 — Todo idealismo perante a necessidade é um engano.
88 —  Tem o seu caminho. Eu tenho o meu. O caminho correcto e único não existe.
89 — Toda convicção é uma prisão.
90 — Nossa vida nos parece muito mais bonita quando deixamos de compará-la com as dos outros.
91 — As pessoas esquecem de seus erros depois de confessá-los ao outro, mas o outro normalmente não se esquece.
92 — Eis a fórmula da felicidade: um sim, um não, uma linha recta, uma meta.
93 — A melhor maneira de começar o dia é  comprometer-se a fazer feliz ao menos uma pessoa antes de o sol se pôr.
94 — A simplicidade e a naturalidade são o objectivo supremo e último da cultura.
95 — A vida não é muito curta para que fiquemos entediados?
96 — Não atacamos apenas para ferir  o outro, para vencê-lo, mas, algumas vezes, pelo simples desejo de adquirir consciência de nossa força.
97 — Nossas carências são os melhores professores, mas nunca mostramos gratidão diante dos bons mestres.
98 — Quem fica remoendo alguma coisa se comporta de maneira tão tola quanto o cachorro que morde a pedra.
99 — O amor não é consolo — é luz."
Artigo publicado na revista "Veja", Brasil.