quarta-feira, 26 de julho de 2017

Uma migalha de conversa

O homem da rua
"Ainda o dia andava à procura do céu, vinha eu em vagaroso carro que mais a mim me conduzia. De repente, um homem atravessou a calçada, desavultado vulto avulso. Uma garrafa o empunhava. E ele, todo súbito e poentio, se embateu frentalmente na viatura. Saltou pelos ares, se aplacando lá mais adiante, onde se iniciava o passeio. Saí do susto para inspeccionar sua sobrevivência.
Me debrucei sobre o restante dele, seu rolado enrodilhado. Não havia sangue nem quebradura de osso. O maltrapalhado estava a salvo, salvo erro. Todavia, me meteu pena: suas vestes eram a sujidade. Havia quase nenhuma roupa em seu sarro. Mesmo o corpo era o que menos lhe pesava. Os olhos estavam parados, na grade do rosto. Me pareciam pedir, o quê nem sei.
De inesperado, o vagabundo se ergueu e apressou umas passadas para encalçar o longe. Se entrecruzou com sua sombra, assustado de haver escuro e luz. Em muito zig e pouco zag ele acabou por se devolver ao chão. Voltei a acudir, cheio dessa culpa que não cabe na razão. Apanhei o vulto, desarranjado, sem estrutura. Pareceu tontolinho, sempre agarrado ao arregalado gargalo. Me deitou olhos muito espantados e pediu desculpa por incómodos. Apalpou o lugar onde se deitava, e disse:
- “Um de nós está morrendo”.
Entreolhei-me a mim e ao restante mundo. Ele se precisou:
- “Estou falando da terra, parece ela está moribundando”.
Lhe disse que o levaria dali para um sítio que fosse dele. Ajudei-lhe a entrar no meu carro. Ele recusou com terminância:
- “Não entro em coisa que serve para levar morto”.
Amparei o desandrajoso. Se sustentou em meu ombro e me foi levando pelo passeio sombrio, através dessa desvastidão onde o negro escurece a preto.
- “Agora o senhor me entorne aqui...
- “Aqui?”
Esfregando-se no pescoço como se as mãos fossem de outrem, acrescentou:
- “Aqui, sim. Quero acordar com dormência de lua”.
Dali ele passou a esbanjar conversa. Quem sabe o homem desjejuava palavra? E dizia sem aparência nenhuma:
- “Bem hajam as folhas, minha cama!”
E explicava-se enquanto alisava as folhagens mortas: quando se deitava lhe doía a curva da terra, a costela quebrada do próprio universo. Assim deitadinho, todo simetrado com o planeta, um subterrâneo rio falava com suas veias.
- “Até foi bom me aleijar um bocado. Ri-se? Nem sabe como é bom haver um chão para a gente ter onde cair”.
E nos trocamos nessa conversa com vontade de ser corpo, encosto, adormecimento. Ficámos a ver as luzinhas da cidade, lá em baixo, a lembrar que o homem sofre de incurável medo de ser noite. O país daquele homem seria a noite. Meu território era o dia, com sua luminesciência tanta que serve mais é para deixarmos de ver.
E pensei: o primeiro alimento é a luz. Nos invade logo quando nascemos. Depois, a luminosidade, com suas infinitas cascatas, nos fica a engordar a alma. Em mim, pelo menos, a primeira saudade é da luz. Direi, então: me falta a minha luz natal? Quem sabe a alma deste homem, sempre ninhado no escuro, emagrecera assim a olhos não-vistos? O homem é bicho diurno. O dia é bicho humano?
Me foi descendo, espesso, o sono. Avancei despedida não sem retirar do bolso algumas notas que estendi em direcção ao desastrado:
- “Deixo o senhor com algum dinheiro. Quem sabe lhe virão, mais tarde, as dores do acidente?”
Para meu espanto ele recusou. Sem veemência, sem nenhum ênfase. Era recusa verdadeira.
- “Posso pedir uma qualquer coisa?
- “Peça.
- “Me dê um pouco mais da sua acompanhia. Só isso: acompanhia”.
Ainda hesitei, inesperando aquele pedido. O homem nem me fitava, estivesse envergonhado. E assim, de cabeça baixa, insistiu:
- “É que, sabe, eu não tenho ninguém. Antes ainda tinha quem me dispensasse migalha de conversa. Mas, agora, já nem. E me dá um medo de me sozinhar por esses aís”.
Quase que falava para dentro, eu devia baixar orelha para o entender. Assim, cabismudo, prosseguiu:
- “Sabe o que faço? Vou dizer... mas o senhor me prometa que não zanga...
- “Prometo.
- “O que eu faço, agora, é me deixar atropelar. É. Ser embatido num resvalo de quase nada. Indemnização que peço é só esta: companhia de uma noite”.
Fiquei quieto sem me achar conveniência. Nem gesto nem palavra me defendiam. O atropelado centrou esforço em se erguer, mão sobre o joelho. Já de pé me segurou o cotovelo:
- “Pode ir, à vontade. Nem imagina como senhor me faz bem, me bater e, depois, me falar. Agora já nem sinto dor nem dentro nem fora”.
Anda fiz menção de ficar, perdido entre garganta e coração. Mas o andrajoso levantou o braço, em serena sentença:
- “Vá, meu amigo, vá na sua vida”.
Regressei ao carro. Arranquei-me dali, devagar. Olhei no espelho para retrover o vagabundo. Me lembrei então que nem o nome dele eu anotara. Lhe chamo agora: o homem da rua. Seu nome ficará assim, inominável, simplesmente: homem da rua. Lembrando este tempo em que deixou de haver a rua do homem.
Mia Couto, in "Contos do Nascer da Terra", Editorial Caminho, 1997

terça-feira, 25 de julho de 2017

Meditar sobre o mundo

“Há pessoas que desejam saber só por saber, e isso é curiosidade; outras, para alcançarem fama, e isso é vaidade; outras, para enriquecerem com a sua ciência, e isso é um negócio torpe: outras, para serem edificadas, e isso é prudência; outras, para edificarem os outros, e isso é caridade.” S. Tomás de Aquino

“A verdade reside em todo coração humano, e cada um deve procurar por ela lá, e ser guiado pela verdade assim que a veja. Mas ninguém tem o direito de forçar os outros a agirem de acordo com sua própria visão da verdade.” Mahatma Gandhi

“Assim a tarefa não é de contemplar o que ninguém nunca contemplou, mas de meditar como ninguém meditou até agora sobre o que todo mundo tem diante de seus olhos.” Schopenhauer

segunda-feira, 24 de julho de 2017

Ruy Belo

 Tu estás aqui

 Estás aqui comigo à sombra do sol
 escrevo e oiço certos ruídos domésticos
 e a luz chega-me humildemente pela janela
 e dói-me um braço e sei que sou o pior aspecto do que sou
 Estás aqui comigo e sou sumamente quotidiano
 e tudo o que faço ou sinto como que me veste de um pijama
 que uso para ser também isto este bicho
 de hábitos manias segredos defeitos quase todos desfeitos
 quando depois lá fora na vida profissional ou social só sou um nome e sabem
                                                                                                     o que sei o
 que faço ou então sou eu que julgo que o sabem
 e sou amável selecciono cuidadosamente os gestos e escolho as palavras
 e sei que afinal posso ser isso talvez porque aqui sentado dentro de casa sou
                                                                                                   outra coisa
 esta coisa que escreve e tem uma nódoa na camisa e só tem de exterior
 a manifestação desta dor neste braço que afecta tudo o que faço
 bem entendido o que faço com este braço
 Estás aqui comigo e à volta são as paredes
 e posso passar de sala para sala a pensar noutra coisa
 e dizer aqui é a sala de estar aqui é o quarto aqui é a casa de banho
 e no fundo escolher cada uma das divisões segundo o que tenho a fazer
 Estás aqui comigo e sei que só sou este corpo castigado
 passado nas pernas de sala em sala. Sou só estas salas estas paredes
 esta profunda vergonha de o ser e não ser apenas a outra coisa
 essa coisa que sou na estrada onde não estou à sombra do sol
 Estás aqui e sinto-me absolutamente indefeso
 diante dos dias. Que ninguém conheça este meu nome
 este meu verdadeiro nome depois talvez encoberto noutro
 nome embora no mesmo nome este nome
 de terra de dor de paredes este nome doméstico
 Afinal fui isto nada mais do que isto
 as outras coisas que fiz fi-Ias para não ser isto ou dissimular isto
 a que somente não chamo merda porque ao nascer me deram outro nome
                                                                                         que não merda
 e em princípio o nome de cada coisa serve para distinguir uma coisa das
                                                                                         outras coisas
 Estás aqui comigo e tenho pena acredita de ser só isto
 pena até mesmo de dizer que sou só isto como se fosse também outra coisa
 uma coisa para além disto que não isto
 Estás aqui comigo deixa-te estar aqui comigo
 é das tuas mãos que saem alguns destes ruídos domésticos
 mas até nos teus gestos domésticos tu és mais que os teus gestos domésticos
 tu és em cada gesto todos os teus gestos
 e neste momento eu sei eu sinto ao certo o que significam certas palavras como
                                                                                                    a palavra paz
 Deixa-te estar aqui perdoa que o tempo te fique na face na forma de rugas
 perdoa pagares tão alto preço por estar aqui
 perdoa eu revelar que há muito pagas tão alto preço por estar aqui
 prossegue nos gestos não pares procura permanecer sempre presente
 deixa docemente desvanecerem-se um por um os dias
 e eu saber que aqui estás de maneira a poder dizer
 sou isto é certo mas sei que tu estás aqui
Ruy Belo , in Toda a Terra ,Todos os Poemas,  Lisboa, Assírio & Alvim, 2000

domingo, 23 de julho de 2017

Ao Domingo Há Música



São os versos
os crepúsculos
são os dias
(...)

são os verbos
os segredos
a alquimia
(...)

São as vozes
singulares
as melodias
Maria Teresa Horta, " Poesis" D. Quixote, 2017

A música é uma constante surpresa. Inesgotável ,  teima em apresentar- se renovada em acordes e vozes singulares. Solta  melodias  que nos levam e nos prendem sem que saibamos resistir, quase em perfeita alquimia.
Hoje fomos à descoberta de uma voz que há muito nos (en)canta. Em parceria  com um novo talento , vem evidenciar a capacidade que tem a música  de se redefinir quando  se cumpre.

Mark Knopfler e  Ruth Moody , em  Wherever I Go.

Ruth Moody  e Mark Knopfler (na guitarra), em  Pockets , do Álbum These Wilder Things.
Dug Up A Diamond,  nas vozes de  Mark Knopfler  e  Ruth Moody, no Palais Omnisports de Paris-Bercy, Paris, França, 2013.

I dug up a diamond
Rare and fine
I dug up a diamond
In a deep dark mine
If only I could cling to
My beautiful find
I dug up a diamond
In a deep dark mine

My gem is special
Beyond all worth
As strong as any metal
Or stone in the earth
Sharp as any razor
Or blade you can buy
Bright as any laser
Or any star in the sky

Maybe once in a lifetime
You'll hold one in your hand
Once in a lifetime
In this land
Where the journey ends
(...)

sábado, 22 de julho de 2017

Sem legenda

 





“No fundo a Fotografia é subversiva, não quando aterroriza, perturba ou mesmo estigmatiza, mas quando faz pensar.”
                                                                                        Roland Barthes

sexta-feira, 21 de julho de 2017

Sobre o tempo

Há tempo incompreensivelmente vazio. Não que seja apenas tempo que passa, mas sim porque passa sem tempo. Arrasta-se numa modorra que se instala como se fosse ela o tempo. Nada mais se enxerga, nada mais acontece.Tudo se resume a uma apatia. Dormente. Insensível. Surda. Cega.
E, sem tempo , chega um dia em que o tempo renasce e é , então , o tempo da renovação, da descoberta,  da fruição das pequenas e das grandes coisas . É o tempo real que enche  a vida  e lhe dá sentido. Ressurge para se degustar, para ser  vivido  em busca de um outro tempo . Um tempo onde a palavra felicidade possa ser conjugada.
Eis a sugestão de alguém que soube reflectir  sobre essa especificidade:
Ser Feliz é:
"Podes ter defeitos, estar ansioso e viver irritado algumas vezes, mas não te esqueças que a tua vida é a maior empresa do mundo.
Só tu podes evitar que ela vá em decadência.
Há muitos que te apreciam, admiram e te querem.
Gostaria que recordasses que ser feliz, não é ter um céu sem tempestades, caminho sem acidentes, trabalhos sem fadiga, relacionamentos sem decepções.
Ser feliz é encontrar força no perdão, esperança nas batalhas, segurança no palco do medo, amor nos desencontros.
Ser feliz não é apenas valorizar o sorriso, mas também reflectir sobre a tristeza.
Não é apenas comemorar o sucesso, mas aprender lições nos fracassos.
Não é apenas ter alegria com os aplausos, mas ter alegria no anonimato.
Ser feliz é reconhecer que vale a pena viver a vida, apesar de todos os desafios, incompreensões e períodos de crise.
Ser feliz não é uma fatalidade do destino, mas uma conquista de quem sabe viajar para dentro do seu próprio ser.
Ser feliz é deixar de ser vítima dos problemas e se tornar actor da própria história.
É atravessar desertos fora de si, mas ser capaz de encontrar um oásis no longínquo de nossa alma.
É agradecer a Deus cada manhã pelo milagre da vida.
Ser feliz é não ter medo dos próprios sentimentos.
É saber falar de si mesmo.
É ter coragem para ouvir um “não”.
É ter segurança para receber uma crítica, mesmo que seja injusta.
É beijar os filhos, mimar os pais, ter momentos poéticos com os amigos, mesmo que eles nos magoem.
Ser feliz é deixar viver a criança livre, alegre e simples, que vive dentro de cada um de nós.
É ter maturidade para dizer ‘enganei-me’.
É ter a ousadia para dizer ‘perdoa-me’.
É ter sensibilidade para expressar ‘preciso de ti’.
É ter capacidade de dizer ‘amo-te’.
Que tua vida se torne um jardim de oportunidades para ser feliz…
Que nas tuas primaveras sejas amante da alegria.
Que nos teus Invernos sejas amigo da sabedoria.
E que quando te enganares no caminho, comeces tudo de novo.
Pois assim serás mais apaixonado pela vida.
E podes facilmente encontrar novamente que ser feliz não é ter uma vida perfeita.
Mas usar as lágrimas para regar a tolerância.
Usar as perdas para refinar a paciência.
Usar as falhas para esculpir a serenidade.
Usar a dor para lapidar o prazer.
Usar os obstáculos para abrir as janelas da inteligência.
Nunca desistas….
Nunca desistas das pessoas que amas.
Nunca desistas de ser feliz, pois a vida é um espectáculo imperdível!"

quinta-feira, 20 de julho de 2017

"Era uma vez um átomo

A bomba e o General
"Era uma vez um átomo.
E era uma vez um general mau com uma farda cheia de galardões.
O mundo está cheio de átomos.
Tudo é feito de átomos: os átomos são pequeníssimos e, quando se juntam, formam moléculas que, por sua vez, formam todas as coisas que conhecemos.
A mãe e o pai são feitos de átomos. O leite é feito de átomos. A mulher é feita de átomos. O ar é feito de átomos. O fogo é feito de átomos. Nós somos feitos de átomos. – Oh, se não tivéssemos deixado que os generais construíssem bombas! – diziam.
Só que era demasiado tarde. Todos fugiam das cidades. Mas onde podiam refugiar-se?
Entretanto, o general tinha carregado as suas bombas num avião e estava a lançá-las uma a uma sobre todas as cidades. Mas, quando as bombas caíram, como estavam todas vazias, não rebentaram!
E toda a gente, feliz por ter passado o perigo (até parecia mentira!), as usou como vasos de flores.
Descobriram assim que a vida era mais bela sem bombas. E decidiram nunca mais fazer guerras.
Os átomos encerrados nas bombas estavam muito tristes. Por causa deles, ia haver uma enorme catástrofe: iam morrer tantos meninos, tantas mães, tantos gatinhos, tantas cabrinhas, tantos passarinhos, todos, afinal. Seriam destruídos países inteiros: onde antes havia casinhas brancas de telhados vermelhos e verdes árvores à volta… só ficaria um horrível buraco negro. E assim resolveram revoltar-se contra o general.
E uma noite, sem fazer barulho, saíram todos das bombas e esconderam-se na cave.
Na manhã seguinte, o general foi ao sótão com outros senhores.
Estes senhores disseram:
– Já gastámos um dinheirão para fazer estas bombas todas. Quer deixá-las aqui a ganhar bolor? O que pretende fazer, afinal?
– É verdade – respondeu o general. – Temos mesmo de começar esta guerra. Se não, nunca mais consigo fazer carreira.
E declarou guerra.
Quando se espalhou a notícia de que ia rebentar a guerra atómica, todos ficaram loucos de medo:
Quando os átomos estão juntos harmoniosamente, tudo funciona na perfeição. A vida assenta nesta harmonia.
Mas quando se consegue quebrar um átomo… e as suas partes vão bater noutros átomos, que vão bater noutros átomos ainda, e assim por aí fora… dá-se uma explosão terrível! É a morte atómica.
Pois bem, o nosso átomo estava triste, porque estava metido dentro de uma bomba atómica. Junto com outros átomos, aguardava o dia em que a bomba seria lançada e eles se quebrariam, destruindo todas as coisas.
Ora, devem saber que o mundo também está cheio de generais que passam a vida a coleccionar bombas. E o nosso general enchia o sótão de bombas.
– Quando tiver muitas – dizia ele – vou fazer uma linda guerra!
E ria-se.
Todos os dias, o general subia ao sótão e punha lá uma bomba novinha.
– Quando o sótão estiver cheio – dizia ele – vou fazer uma linda guerra!
Como se pode não ser mau, quando se tem tantas bombas assim à mão?
As mães estavam mais contentes. Mas também os pais. Todos, aliás. E o general?
Agora que já não havia guerras, foi despedido.
E, para utilizar a farda cheia de galardões, foi para porteiro num hotel. E como agora todos viviam em paz, vinham muitos turistas ao hotel. Até os inimigos de outrora. Até os soldados que antes o general tivera sob as suas ordens.
O general, quando entravam e saíam do hotel, abria a grande porta de vidro, fazia uma vénia ridícula e dizia:
– Bom dia, meu senhor!
E eles, que o reconheciam, diziam-lhe de muito má cara:
– Não tem vergonha? O serviço é péssimo neste hotel!
E o general ficava corado, corado, e calava-se.
Porque, agora, já não valia nada.”
Umberto Eco, in A bomba e o general, Editor Caderno

quarta-feira, 19 de julho de 2017

Em busca do sentido da existência,

Em busca de soluções, o homem inventou Deus
Por Ferreira Gullar
“Sem pretender complicar as coisas, devo, no entanto, admitir que o ser humano tem necessidade de atribuir sentido à sua existência.
Ao que eu saiba, gato, cachorro, cavalo, macaco, não têm necessidade disso. Começa que, ao contrário do bicho-homem, não sabem que vão morrer. E aí está todo o problema: se vamos morrer, para que existimos?, perguntamos nós, sejamos filósofos ou não. Aliás, é por essa razão que surgem os filósofos, para responder a essa pergunta de difícil resposta.
Em busca de soluções, o homem inventou Deus, que é a resposta às perguntas sem resposta. Por isso mesmo, e não por acaso, todas as civilizações criaram religiões, diferentes modos de inventar Deus e de dar sentido à vida. Há, porém, quem não acredita em Deus e busca outra maneira de dar sentido à existência, à sua e a do próprio universo.
Esses são os filósofos. Mas há também os que, em vez de tentar explicar a realidade, inventam-na e reinventam-na por meio da música, da pintura, da poesia, enfim, das diversas possibilidades de responder à perplexidade com o deslumbramento e a beleza.
Há, porém, quem dê sentido à vida empenhando-se nas pesquisas científicas, nas realizações tecnológicas e nas produções agrícola, industrial ou comercial. Também existem os que encontram esse sentido na ajuda aos outros ou na dedicação à família.
Qualquer uma dessas opções exige do indivíduo maior ou menor empenho, conforme as características de sua personalidade e as implicações da opção feita. Por exemplo, se a opção é no campo da arte, os problemas que surgem podem conduzir a um empenho que às vezes implica numa entrega limite, que tanto pode levar à realização plena como à frustração do projeto.
Diversamente, no plano político, por envolver um número considerável de indivíduos, o sectarismo ideológico tem consequências graves, às vezes trágicas. O exemplo mais notório é o nazismo de Adolfo Hitler, que levou ao massacre de milhões de judeus e a uma desastrosa guerra mundial. Mas houve outros exemplos de sectarismo ideológico, como o stalinismo e o maoismo, de lamentáveis consequências.
No plano da religião, então, por adotar muitas vezes a convicção de que ali está a verdade revelada, tanto se pode alcançar a plenitude espiritual como render-se ao fanatismo intolerante, a exemplo do que ocorreu, no século 13, com a Inquisição, quando a Igreja Católica criou tribunais para julgar e condenar os chamados hereges. Eles eram queimados vivos na fogueira, já que teriam entregue suas almas ao Diabo. A religião é, certamente, o campo propício ao surgimento da intolerância intelectual, precisamente porque ela se supõe detentora da verdade absoluta, da palavra de Deus. Hoje, temos, nesse campo, a atuação fanática do Estado Islâmico.
Mas voltemos à necessidade que temos todos de dar sentido à nossa vida. Generalizando, pode-se dizer que o bicho humano, para ser feliz, necessita de uma utopia. No século 20, para muita gente, essa utopia foi a busca da sociedade fraterna e justa, concebida por Marx e que, sem se realizar plenamente, extinguiu-se. A consequência disso é que, hoje, vivemos sem utopia, o que atinge particularmente os mais jovens.
Sem dúvida, a maioria deles, de uma maneira ou de outra, encontra seu caminho, um sentido para sua vida. Mas há os que, por uma razão ou por outra, tornam-se presas fáceis de uma opção radical, como a do fanatismo islâmico que, além de lhes oferecer um rumo –uma espécie de missão redentora–, atende a seus ressentimentos. A isso se somam muitos outros fatores, como as raízes étnicas, a descriminação, a frustração social e, sobretudo, um grave distúrbio mental."
Ferreira Gullar, em Crónica publicada na Folha de S. Paulo, Brasil, em 31/07/2016

terça-feira, 18 de julho de 2017

Rememorar a canção francesa

Aimer à perdre la raison
Aimer à n'en savoir que dire
A n'avoir que toi d'horizon
Et ne connaître de saison
Que par la douleur du partir
Aimer à perdre la raison




Ce soir, mon amour,
Je ne t'aime plus,
Tu es plus loin que la distance
Qui nous separe
Et d'autant plus absente
Que tu n'es nulle part,
Plus etrangère
Que la premiere venue...

Ce soir, mon amour,
Je ne te cherche plus
Parmi mes souvenirs,
Au fond de ma memoire.
Je ne t'attends plus
Sur le quai d'aucune gare,
Je me souviens à peine
T'y avoir attendue...

Je sais que nous buvions
Du vin apres l'amour,
Que la nuit commencait
Quand se levait le jour.
Comme un torrent d'ebene
Tes cheveux sur ton cou
Et ton regard meurtri
Quand tu fais les yeux doux.

(...)

De toi, mon amour,
Que je n'aime plus,
Sans arriver a' me sentir
Enfin libre,
Pareil a' un danceur
Qui perdrait l'equilibre,
Comme un prince en disgrace,
Comme un ange dechu...


Serge Reggiani, em 'Ce soir, mon amour'', uma canção de Georges Moustaki, 1973
Serge Reggiani , em ' La honte de pleurer ''do Álbum '' Je t'aimerais ...'' de 1979,  letra de Claude Lemesle , música d'Alain Goraguer.

Il est là comme un imbécile
De la rosée au bord des cils
Le cœur abruti de chagrin
Il se regarde dans la glace
Où vaguement un ange passe
Une femme au regard lointain
Et c’est peu dire qu’il vacille
Il sent son corps piquer en vrille
Il entend les mots de l’adieu
Lui faire une blessure comme
Les meurtrissures dont les hommes
Ont souillé les mains du bon Dieu

Il faudra bien qu’on me raconte
Pourquoi il faut toujours tricher
Que l’on m’explique où est la honte
Pour un homme de pleurer
Pour un homme de pleurer

Ce n’est pas grave, non c’est pire
C’est le point de non revenir
C’est la sirène de la mort
Qui lui murmure des mots tendres
Des mots impossibles à entendre
Pour celui qui espère encore
A des milliers de kilomètre
Un chien peut retrouver son maître
Et lui ne craint pas ce chemin
Mais s’il venait lui rapporter
Le caillou qu’elle lui a jeté
Elle le rejetterait plus loin

Il faudra bien qu’on me raconte
Pourquoi il faut toujours tricher
Que l’on m’explique où est la honte
Pour un homme de pleurer
Pour un homme de pleurer

Alors il fond, il se défait
Il devient son propre reflet
Il n’est plus que l’ombre de lui
Et comme son corps n’a plus de larmes
Il verse celles de son âme
Il verse celles de la pluie
Pourtant il ne veut pas mourir
Pourtant il ne veut pas pourrir
Parce qu’elle existe quelque part
Et parce qu’un jour, par impossible
Il la verra, belle et paisible
Passer gaiement sur un trottoir

Il faudra bien qu’on me raconte
Pourquoi il faut toujours tricher
Que l’on m’explique où est la honte
Pour un homme de pleurer
Pour un homme de pleurer

segunda-feira, 17 de julho de 2017

O meu mais belo começo de romance

A baixa de Lourenço Marques em 1970, o Café Scala à esquerda, o Continental à direita.
Foto do sítio Xirico.
O meu mais belo começo de romance
Por Eugénio Lisboa
"Sempre pensei que o destino de um romance se decide na frase que lhe serve de começo. São justamente célebres e inesquecíveis os começos de Le Rouge et le Noir, de La Chartreuse de Parme (ambos de Stendhal), de Ana Karenina ( Tolstoi) ou de Du Côté de Chez Swan (de Proust). Podia dar muitos outros exemplos. “Todas as famílias felizes se assemelham mas cada família infeliz é-o à sua própria maneira”,dizia Tolstoi, a abrir a Karenina – e logo nos deixa sonhadores: aconchegamo-nos melhor no sofá, para nos prepararmos, com delícia, para as soberbas infelicidades que se anunciam... Como vai ser interessante! Com um começo destes... Ou então, isto: “No dia 15 de Maio, o general Bonaparte fez a sua entrada em Milão, à frente daquele jovem exército que acabava de atravessar a ponte de Lodi e de anunciar ao mundo que, depois de tantos séculos, César e Alexandre tinham um sucessor.” Que leitor pode deparar com isto sem sentir que se levanta do chão? Sem sentir um mundo prenhe de promessas que o grande romance de Stendhal – La Chartreuse de Parme – não irá senão confirmar e reconfirmar ad omnia saecula saeculorum? Régio costumava dizer, em conversa, que quem encontra um título encontra um livro. A minha tese pode ser outra: quem encontra um bom começo encontra um bom livro. Tive sempre receio de começar um livro, um artigo, um ensaio, um poema, sem ter a prévia sensação de que achara, para eles, um bom começo ou, para empregar uma expressão popular, de que entrara com o pé direito. Hemingway tem começos memoráveis e eu imagino o trabalho e as tentativas sucessivas que ensaiou até chegar a começos de uma simplicidade pungente, escorrida e trágica, como são os de tantas das suas célebres narrativas. 
Ando agora a agenciar munições para umas memórias que quero escrever antes de, para sempre, fechar a oficina. Vou inventariando acontecimentos, emoções, sítios, pessoas, datas, encontros, ideias, desencontros, alegrias, tristezas, esperanças, desilusões, descobertas... Procuro reerguer, com o vigor que me for possível, todo um mundo interior que gostaria de tornar importante, não por eu ter estado nele, mas por ele ter estado em mim – eu, veículo, sem importância, de magias que são importantes. Como me é peculiar, começou por me devorar a angústia de encontrar um bom começo. E logo me ocorreu o que para mim tem sido o mais belo começo de romance, aquele que, nos meus catorze ou quinze anos, me agarrou para sempre e me grudou ao seu encanto anunciador de delícias-a-haver: refiro-me à primeira frase, do primeiro capítulo do romance de Stendhal, Le Rouge et le Noir:  “A cidadezinha de Verrières pode ser considerada uma das mais lindas do Franco-Condado”. Este acorde, em que a simplicidade rivaliza com a beleza premonitória, gravou-se para sempre no meu espírito e no meu coração. E fiquei sempre convencido de que só ele teria competência para me levar até à minha insaciada paixão pela Senhora de Rênal. Permaneceu em mim, espécie de canto profundo e mozartiano, propiciador de tudo quanto na vida há de mais fundo, de mais belo e de mais trágico. Pensei, portanto, que uma pequena paráfrase dele me garantiria, melhor do que qualquer outra alternativa, o começo (auspicioso) das minhas memórias. Ficará assim: “A cidadezinha de Lourenço Marques pode ser considerada uma das mais lindas do continente africano.” Assim amparado na bengalinha sortílega do que considero o mais belo começo de romance, espero salvar do esquecimento rápido, não o total das minhas memórias, mas, ao menos, a sua primeira frase."
Eugénio Lisboa, em Crónica publicada no JL


Eugénio Lisboa
Nota  de Livres Pensantes
Eugénio Lisboa publicou  seis volumes de Memórias, sob o título "Acta Est Fabula" , em seis anos consecutivos. Uma obra monumental de extraordinário valor.
Prepara um novo volume , com apresentação prevista para o próximo mês de Outubro.
O primeiro volume destas Memórias, publicado em Novembro de 2012, tem este belo começo: 
" A cidadezinha de Lourenço Marques podia passar  por uma das mais bonitas do continente africano - era-o nos anos trinta, que foram os da minha infância e era-o, tanto ou mais, em 1976, ano em que a deixei para sempre."

domingo, 16 de julho de 2017

Ao Domingo Há Música

Morning smiles
like the face of a newborn child
innocent unknowing
Winter's end
promises of a long lost friend
speaks to me of comfort but I fear


but I fear
I have nothing to give
I have so much to lose
here in this lonely place
tangled up in our embrace
there's nothing I'd like
better than to fall
but I fear I have nothing to give

Talvez o medo, que,  por vezes,  nos assola,  não seja musicável. Surge em desarmonia, rompe  sem que o desejemos nestes  tempos hodiernos. O tumulto, que nele se produz, impede a gestação de qualquer melodia que nos acolha. 
O medo, que Sarah Mclachlan canta, é diferente. Vem traduzido num hino que só o amor sabe tecer. Grita-o em voz alta e melodiosa.
Ei-la,  nesse excelente desempenho de Fear, do Álbum "Afterglow Live".
E ainda Sarah Mclachlan, num harmonioso registo ao vivo, "Answer".

sexta-feira, 14 de julho de 2017

A festa francesa: o 14 de Julho

A verdade por trás da festa da queda da Bastilha
Por Hugh Schofield 
 BBC News em Paris
14 Julho 2013
"Quando os franceses forem às ruas comemorar a festa nacional, que lembra a tomada da prisão da Bastilha em 14 de Julho de 1789, muitos não saberão que, em vez do evento que foi o maior pontapé da Revolução Francesa, poderão estar festejando um episódio que aconteceu exactamente um ano depois: La Fête de la Féderation (A Festa da Federação, em tradução livre).
Para explicar como pode ter havido uma confusão entre as duas datas, é preciso fazer uma viagem no tempo e mergulhar na história francesa.
É muito fácil esquecer que no século que se seguiu aos eventos de 1789, a França foi submetida principalmente a regimes monárquicos,os mesmos que a revolução tanto havia combatido.
Primeiro veio Napoleão, depois os Bourbon. Em seguida, o rei Louis-Philippe, para depois o país experimentar um pequeno intervalo republicano, em 1848. Na sequência, veio o imperador Napoleão III.
Somente a partir de 1870, quando o país saiu derrotado da Guerra Franco-Prussiana, é que a França estabeleceu seu duradouro sistema republicano.
No final de 1870, muitos monarquistas haviam sucumbido aos ideais da República, a Assembleia Constituinte era composta por uma maioria republicana e, portanto, havia chegado o momento de inaugurar uma nova era, com uma série de símbolos nacionais.
A Tomada da Bastilha, pintura de Jean-Pierre Louis Houël, 1789.

Reconciliação

Uma das primeiras tarefas foi estabelecer o dia festa nacional francesa.
Após analisar várias opções, a opinião da esquerda prevaleceu: dia 14 de Julho. Eles argumentaram que a queda da Bastilha foi o estopim da Revolução, com a libertação dos presos ali confinados.
Contudo, havia um problema. O evento também fora marcado por um banho de sangue, no qual dezenas de pessoas morreram, entre elas o governador de Paris, que foi decapitado.
Para alguns parlamentares, o dia nacional da França deveria ser também um dia de reconciliação. Foi quando os olhos de todos se voltaram para a Festa da Federação.
Um ano após a tomada de Bastilha, a esperança pairava sobre Paris. O rei Louis XVI ainda estava no trono, mas seus poderes haviam sido cerceados pela Assembleia Constituinte. Os privilégios da aristocracia haviam sido abolidos.
parada militar na frança (AFP)
Image caption Parada militar nos Champs Elysées,
 um dos eventos que marcam o feriado nacional francês
Foi uma época definida pelos historiadores como a "fase optimista da revolução".
E para marcá-la, as autoridades organizaram um evento ao ar livre extraordinário no Champs de Mars, onde hoje fica a Torre Eiffel.
Um arco triunfal de 24 metros de altura foi erguido, o lugar foi preparado para receber 400 mil pessoas. No centro, instalaram um altar onde podia-se ler os dizeres "A Nação, A Lei, o Rei".
Nas semanas que precederam ao evento, parisienses de todas as classes sociais se uniram nos esforços de organização da festa.
Choveu cântaros no dia 14 de Julho de 1790. Ainda assim, delegações da recém-criada Guarda Nacional fizeram um desfile pela cidade, liderados pelo Marquês de Lafayette.
No Champs de Mars, canções militares foram entoadas; foram feitos juramentos ao Rei que, por sua vez, prometeu validar os decretos da Assembleia Nacional; uma missa foi celebrada.
E num episódio que lembra cenas contemporâneas do culto a celebridades, a multidão foi ao delírio quando a rainha Maria Antonieta levantou seu bebê, herdeiro do trono, para exibi-lo ao público.

'Dia mais bonito da França'

Nas palavras do historiador Georges-Henri Soutou, foi um momento em que ainda era possível imaginar que um novo regime poderia conciliar diferentes crenças religiosas e ainda contar com o apoio do Rei.
Não durou, é óbvio. Dentro de um ano, a revolução estava na rota que a levou ao seu fechamento sangrento.
Mas um século depois, a Festa da Federação era a única data em torno da qual todo mundo, desde os leais aos Bourbon aos pró-socialistas, podiam concordar.
Para o senador Henri Martin, que rascunhou a Lei do Dia Nacional, 14 de Julho de 1790 foi o dia mais bonito da França, possivelmente da história da humanidade. Foi naquele dia em que a união finalmente foi conquistada.
Aprovada em 1880, a lei era propositalmente ambígua. Não mencionava a que 14 de Julho se referia.
E hoje, é claro, todo mundo acha que é o dia da tomada da Bastilha.
Mas reserve também um pensamento ao outro 14 de Julho, quando a França parecia estar vivenciando transformações mais pacíficas, graduais. Este dia também é parte da história."Hugh Schofield ,BBC News em Paris

quinta-feira, 13 de julho de 2017

Genealogia do fanatismo

Genealogia do fanatismo
"Em si mesma, toda ideia é neutra ou deveria sê-lo; mas o homem a anima, projecta nela as suas chamas e as suas demências; impura, transformada em crença, insere-se no tempo, toma a forma de acontecimento: a passagem da lógica à epilepsia está consumada... Assim nascem as ideologias, as doutrinas e as farsas sangrentas.
Idólatras por instinto, convertemos em incondicionados os objectos de nossos sonhos e de nossos interesses. A história não passa de um desfile de falsos Absolutos, uma sucessão de templos elevados a pretextos, um aviltamento do espírito ante o Improvável. Mesmo quando se afasta da religião o homem permanece submetido a ela; esgotando-se em forjar simulacros de deuses, adopta-os depois febrilmente: a necessidade de ficção, de mitologia, triunfa sobre a evidência e o ridículo. A capacidade de adorar é responsável por todos os seus crimes: o que ama indevidamente um deus obriga os outros a amá-lo, na espera de exterminá-los se se recusam. Não há intolerância, intransigência ideológica ou proselitismo que não revelem o fundo bestial do entusiasmo. Que perca o homem a sua faculdade de indiferença: torna-se um assassino virtual; que transforme a sua ideia em deus: as consequências são incalculáveis. Só se mata em nome de um deus ou de seus sucedâneos: os excessos suscitados pela deusa Razão, pela ideia de nação, de classe ou de raça são parentes dos da Inquisição ou da Reforma. As épocas de fervor  distinguem-se pelas façanhas sanguinárias. Santa Teresa só podia ser contemporânea dos autos-de-fé e Lutero do massacre dos camponeses. Nas crises místicas, os gemidos das vítimas são paralelos aos gemidos do êxtase... patíbulos, calabouços e masmorras só prosperam à sombra de uma fé -- dessa necessidade de crer que infestou o espírito para sempre. O diabo empalidece comparado a quem dispõe de uma verdade, de sua verdade. Somos injustos com os Neros ou com os Tibérios: eles não inventaram o conceito de herético: foram apenas sonhadores degenerados que se divertiam com os massacres. Os verdadeiros criminosos são os que estabelecem uma ortodoxia no plano religioso ou político, os que distinguem entre o fiel e o cismático.
No momento em que nos recusamos a admitir o carácter intercambiável das ideias, o sangue corre... Sob as resoluções ergue-se um punhal; os olhos inflamados pressagiam o crime. Jamais o espírito hesitante, afligido pelo hamletismo, foi pernicioso: o princípio do mal reside na tensão da vontade, na inaptidão para o quietismo, na megalomania prometeica de uma raça que se arrebenta de tanto ideal, que explode sob as suas convicções e, que, por haver-se comprazido em depreciar a dúvida e a preguiça — vícios mais nobres do que todas as suas virtudes —, embrenhou-se  numa via de perdição, na história, nesta mescla indecente de banalidade e apocalipse... Nela as certezas abundam: suprima-as e suprimirá sobretudo as sua consequências: reconstituirá o paraíso. O que é a Queda senão a busca de uma verdade e a certeza de havê-la encontrado, a paixão por um dogma, o estabelecimento de um dogma? Disso resulta o fanatismo — tara capital que dá ao homem o gosto pela eficácia, pela profecia e pelo terror —, lepra lírica que contamina as almas, as submete, as tritura ou as exalta... Só escapam a ela os cépticos (ou os preguiçosos e os estetas), porque não propõem nada, porque — verdadeiros benfeitores da humanidade — destroem os preconceitos e analisam o delírio. Sinto-me mais seguro junto de um Pirro do que de um São Paulo, pela razão de que uma sabedoria de boutades é mais doce do que uma santidade desenfreada. Num espírito ardente encontramos o animal de rapina disfarçado; não poderíamos defender-nos demasiado das garras de um profeta... Quando elevar a voz, seja em nome do céu, da cidade ou de outros pretextos, afaste-se dele: sátiro de nossa solidão, não perdoa que vivamos aquém de suas verdades e de seus arrebatamentos; quer fazer-nos compartilhar de sua histeria, de seu bem, impô-lo a nós e desfigurar-nos. Um ser possuído por uma crença e que não procurasse comunicá-la aos outros seria um fenómeno estranho à terra, onde a obsessão da salvação torna a vida irrespirável. Olhe à sua volta: por toda parte larvas que pregam; cada instituição traduz uma missão; as prefeituras têm seu absoluto como os templos; a administração, com seus regulamentos — metafísica para uso de macacos... Todos se esforçam por remediar a vida de todos; aspiram a isso até os mendigos, inclusive os incuráveis: as calçadas do mundo e os hospitais transbordam de reformadores. A ânsia de tornar-se fonte de acontecimentos actua sobre cada um como uma desordem mental ou uma maldição intencional. A sociedade é um inferno de salvadores! O que Diógenes buscava com sua lanterna era um indiferente.
Basta-me ouvir alguém falar sinceramente de ideal, de futuro, de filosofia, ouvi-lo dizer "nós" com um tom de segurança, invocar os "outros" e sentir-se seu intérprete, para que o considere meu inimigo. Vejo nele um tirano fracassado, quase um carrasco, tão odioso quanto os tiranos e os carrascos de alta classe. É que toda fé exerce uma forma de terror, ainda mais temível quando os "puros" são seus agentes. Suspeita-se dos espertos, dos velhacos, dos farsantes; no entanto, não poderíamos atribuir-lhes nenhuma das grandes convulsões da história; não acreditando em nada, não vasculham nossos corações, nem nossos pensamentos mais íntimos; abandonam-nos à nossa indolência, ao nosso desespero ou à nossa inutilidade; a humanidade deve-lhes os poucos momentos de prosperidade que conheceu: são eles que salvam os povos que os fanáticos torturam e que os "idealistas" arruínam. Sem doutrinas só possuem caprichos e interesses, vícios complacentes, mil vezes mais suportáveis que os estragos provocados pelo despotismo dos princípios; porque todos os males da vida provêm de uma "concepção da vida". Um homem político completo deveria aprofundar-se nos sofistas antigos e tomar aulas de canto; e de corrupção...
O fanático é incorruptível: mata-se por uma ideia, pode igualmente morrer por ela; nos dois casos, tirano ou mártir, é um monstro. Não existem seres mais perigosos do que os que sofreram por uma crença: os grandes perseguidores se recrutam entre os mártires cuja cabeça não foi cortada. Longe de diminuir o apetite de poder, o sofrimento o exaspera; por isso o espírito sente-se mais à vontade na companhia de um fanfarrão do que na de um mártir: e nada o repugna tanto como este espectáculo onde se morre per urna ideia... Farto do sublime e de carnificinas, sonha com um tédio provinciano em escala universal, com uma História cuja estagnação seria tal que a dúvida representaria um acontecimento e a esperança uma calamidade...
 CIORAN, in Breviário de decomposição. Rio de Janeiro: Rocco, 1989.