terça-feira, 1 de novembro de 2016

Porque gosto de Eugénio Lisboa?

 
                    
                       L'esprit clair  fait comprendre ce qu'il ne comprend pas.
                                                                      Paul Valéry, Choses tues

Pergunta singular. Quem a faria, se não soubesse a resposta?
Eugénio Lisboa é um dos eleitos. Reina no retábulo dos escritores que me acompanham. Quando se ama profundamente um autor, a tentação é grande de escolher os livros todos  desse autor  e esquecer os outros. Argumento que justifica as minhas palavras e que acabo de roubar ao próprio Eugénio Lisboa do seu premiado livro Portugaliae Monumenta Frivola. 
Todo e qualquer exemplar da sua  obra   tem lugar cativo  na minha biblioteca. E se não existe, procuro-o incessantemente até o descobrir. Assim aconteceu com este que acabo de referir . Esgotado em Portugal, veio, por mão amiga, do Brasil. Falta-me um outro livro desejado: " A Matéria Intensa". Apesar de ser  um livro de poesia, que mereceu uma distinção literária,  permanece esgotadissimo neste nosso país, devido à imperdoável distracção ou incúria do  mundo editorial.  Uma preciosidade que está  ausente das livrarias,  coarctando  o acesso a uma das mais belas  obras poéticas do final do século XX.
Leio Eugénio Lisboa intensa e deliciadamente. Não porque se trate de um escritor fácil, mas sim pelo fascínio que a sua erudição se me torna clara. É um escritor de aprendizagem, onde a clareza é soberana . Sendo um dos seus fiéis promotores, cita, com algum ênfase, Sir Peter Medawar, cientista pioneiro da Imunologia, que proclama the clarity  como indispensável e essencial. 
Eugénio Lisboa tem-na em toda a sua obra. É um autor versátil que sempre surpreende.  
Emergiu esta questão a propósito de um artigo que acabo de ler na Revista Ler Nº 143, deste Outono  de 2016. Na sua longeva coluna "IPSISSIMA VERBA",  assina um inédito e explosivo artigo, intitulado "Joyce-1", que termina com a promessa de continuação, no próximo número da revista . Mas não fica por aqui . Desafia e acorda  o nosso premonitório apetite ao sugerir que a festa continua: talvez o melhor esteja  ainda para  vir. 
Eugénio Lisboa é um artífice da palavra  e do desconcerto. Quando cremos já  ter tudo lido , troca-nos a direcção e conduz-nos por lugares que só ele sabe explorar. E,  fascinados , seguimo-lo sem que nada fique por apreender , sem que o sabor do novo esmoreça, sem que o prazer da partilha se esgote , sem que a descoberta de um outro prodígio se esboroe.
Vejamos. Neste artigo aparentemente simples , o nosso escritor parte da sua experiência, enquanto leitor,  para evidenciar de quanta falácia   se enche o mito, que se foi construindo, sobre a casta dos grandes escritores.  E assim nos apresenta Joyce (James Joyce), autor do célebre romance " Ulisses".  O tal circunspecto Joyce que Stefan Zweig conheceu na Suiça , durante a Primeira Guerra Mundial, refugiado e isolado para escrever este famoso "Ulisses". Romance, que Zweig  veio a considerar a obra mais solitária e a obra mais desligada de tudo. Acrescenta este escritor austríaco que a Joyce raramente o abandonava uma certa amargura (...)  parecia comprazer-se na sua própria dureza; nunca o vi rir ou estar realmente alegre.
Ora Eugénio Lisboa confidencia-nos o insuportável aborrecimento que permeia esta obra e de como são poucos aqueles que são capazes de denunciar e/ou admitir. Todos, na mais consentida hipocrisia, lhe tecem elogios porque está miticamente aprovada como obra maior do século passado. 
Com saborosa vivacidade , relata como foi tedioso  o visionamento  do filme que adaptou este  romance . Tudo se compõe e se organiza em concatenada previsibilidade:  de um romance fastidioso ,  não se espera um brilhante guião. Eugénio Lisboa não se coíbe de confessar o seu desapontamento. E o texto prossegue com reflexões e assertivas afirmações  sobre esta obra e respectivo autor.  E como nos compraz  o encorajamento que foi lançando àqueles que titubeavam ténues elogios para que soltassem  o real  e verdadeiro  fastio que a obra lhes provocou. 
Ninguém esperava de Eugénio Lisboa, escritor e crítico firmado, tão abrupta posição. Mas Eugénio Lisboa tem essa capacidade que lhe vem do seu outro eu  como homem da Ciência. Agarra com objectividade qualquer tema por mais complicada e difícil que seja a sua desconstrução. E , num ápice, somos brilhantemente convencidos de que afinal era fácil.  E quase acreditamos, perante o engenho que nos conduziu a tal asserção. Nele tudo se transforma: o difícil em fácil, o denso em leve, o profundo em inteligível. 
Rico, claro, singular,  rigoroso, diverso,  erudito, é fecundo o talento em Eugénio Lisboa. Surpreende-nos  em qualquer texto literário. Ensaio, Crónica, Poesia ou a monumental produção memorialística, cujo último volume acaba de ser publicado, são registos  diversos de uma obra tecida pela mais fina arte de um grande escritor do nosso tempo. 

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