quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Também nós tivemos um nome

As coisas

Há em todas as coisas uma mais-que coisa
fitando-nos como se dissesse: " Sou eu",
algo que já lá não está ou se perdeu
antes da coisa, e essa perda é que é a coisa.

Em certas tardes altas, absolutas,
quando o mundo por fim nos recebe
como se também nós fôssemos mundo,
a nossa própria ausência é uma coisa.

Então acorda a casa e os livros imaginam-nos
do tamanho da sua solidão.
Também nós tivemos um nome
mas, se alguma vez ouvimos, não o reconhecemos.
Manuel António Pina, in Como se desenha uma casa (2011) - Todas as Palavras, Poesia Reunida , Assírio & Alvim, Lisboa


O regresso

Como quem, vindo de países distantes fora de 
si, chega finalmente  aonde sempre esteve
e encontra tudo no seu lugar,
o  passado no passado, o presente no presente
assim chega o viajante à tardia idade
em que se confundem ele e o caminho.

Entra então pela primeira vez na sua casa
e deita-se pela primeira vez na sua cama.
Para trás ficaram portos, ilhas, lembranças,
cidades, estações do ano.
E come agora por fim um pão primeiro
sem o sabor de palavras estrangeiras na boca.
Manuel António Pina, in Como se desenha uma casa (2011) - Todas as Palavras, Poesia Reunida , Assírio & Alvim, Porto Editora

terça-feira, 29 de novembro de 2016

Ter duas pátrias é incómodo

"Eu, que jurara nunca abandonar Paris, via-me na longínqua e inóspita Holanda com o sentimento de cumprir uma pena de degredo. Eu, que gozara em pleno a vida de solteiro e decidira ser essa a que melhor satisfazia o meu carácter , logo em fins de 1947 me vi casado. Em 1962 era pai de três filhas. Parecerá estranho e até contraditório, mas é facto que a condição de chefe de família, em vez de facilitar a minha integração no meio em que passara a viver , e ajudar-me  a compreender e a aceitar os seus usos e costumes, quase sempre resultou no oposto.É que tudo se me afigurava concorrer para pôr entraves no meu caminho, invadir o que eu julgava  estritamente privado e azedamente me desiludir do que diziam ser os direitos, deveres e a liberdade do cidadão numa democracia
Democracia? Liberdade? Qual quê! O que eu frequentemente ressentia eram intromissões ao gosto do controle num Estado policial, muitas delas abertamente discriminatórias.
Apareceu-me uma manhã uma assistente social com um pedido  que, à primeira vista,  se assemelhava a uma carinhosa curiosidade: queria ver o bebé.

No rosto deve-se-me ter chegado a formar um sorriso de boas-vindas, mas qualquer coisa no comportamento da mulher - talvez o pé já atravessado na soleira da porta ou o tom seco, a severidade do olhar -levantou a minha suspeita e perguntei-lhe qual a razão do pedido, com que autoridade o fazia.
Era o regulamento, disse, e vinha para se certificar se o bebé era bem tratado, se vivia em boas condições de higiene.
" E porque  não havia de ser bem tratado?"
" É que sendo o senhor  um estrangeiro..."
Não sei se chegou a terminar a frase, só recordo tê-la visto recuar assustada com o berro  que soltei , certamente a temer que a violência da minha reacção  não ficasse por ali. Mas em vez de retorquir com um berro igual, o que eu de certo esperava,  pois se mostrara investida de autoridade, a mulher apressou-se escadas abaixo, ameaçando que a polícia me viria pedir contas, para o que eu não via razão e, evidentemente, nunca aconteceu. O provável é que algures num registo alguém tenha anotado a minha hostilidade e, feito isso, dado o caso por arrumado.
Relembro este  incidente  pelo que me feriu  e como prova da discriminação à qual o ser  estrangeiro  me sujeitava, mas  também para assinalar uma característica que acho peculiar da sociedade holandesa: a cobardia social.  
Não sei o que a provoca, se a doentia e constante busca de consenso, o adiamento de soluções para os problemas, agudos ou não, o curioso modo  de contra  toda  a evidência " não ver".  Das primeiras  vezes  que a notei julguei-a  individual. Surpreendeu-me  quando vi que era generalizada.  Meio século depois preocupa-me, melhor direi que me assusta, pois de par com uma suposta e indulgente tolerância, a cobardia social foi pouco a pouco sendo elevada ao status  de virtude. 
Cabe aqui um parêntesis destinado a quem, agora ou mais tarde , eventualmente se sentir  magoado ou ofendido com a minha franqueza.
O . O ter, como eu, duas pátrias tão diferentes, uma atrasada e pobre, a outra rica e superiormente desenvolvida, e querer amar ambas com um sentimento igual, mais que um duplo incómodo é fonte de dolorosos dilemas. 
Como explicar que o que numa me parece virtude, o vejo na outra como defeito? Quais os sofismas com que justificar que o que se aceita e perdoa nesta, se vê naquela como infracção à norma? Se para casos semelhantes ele porventura existe, qual será o padrão de uma crítica justa?
Aparentemente,  para nenhuma destas interrogações há resposta satisfatória.  Ou talvez sim. Talvez se pudesse desempoeirar o velho patriotismo . Não o patriotismo senil dos heróis do  mar  e das matanças, mas o que venera aquilo que, através das gerações, contribui para que um país  se torne mais culto, mais próspero e  mais livre, as suas instituições mais justas, a sua sociedade menos desigual, a hipocrisia menos generalizada.
E no patriotismo infalivelmente cabe a crítica. Ama-se  mais Portugal, exortando-o a que se desenvolva e deixe de ser a nação mais pobre da Europa, do que cantando-lhe loas por ter descoberto a rota da Índia em 1498.
Incómodo é também por vezes o papel do escritor. Aquele que preza a sua liberdade não se filia em partidos nem se liga a interesses , toma a sério a vocação que deve ser a sua: a de advogado do diabo. Porque no papel sim, e o princípio de Direito afirma-o, mas na realidade nenhuma sociedade é perfeita a ponto de, dentro da lei ou fora dela, tratar de modo igual todos os seus cidadãos. E se ela age desse modo para os que nela nasceram, os seus filhos, como esperar que trate melhor os que lhe bateram à porta como " enjeitados"?
Ao escritor cabe emparceirar com os " enjeitados", os que  usando a expressão vulgar, se encontram na " mó de baixo",  as vítimas, os oprimidos. Infelizmente, o que era somente incómodo torna-se dilema quando as vítimas passam   para a zona cinzenta onde é difícil distinguir entre oprimidos  e opressores, ou quando o rótulo de vítima se torna instrumento de chantagem, ou de desequilíbrio político e social.
As considerações que atrás ficam assemelham-se um pouco ao caso de pôr o carro diante dos bois, mas acontece que, involuntariamente, levado pelo que me preocupa no momento em que escrevo, o meu pensamento deu um salto de meio século em frente.
Melhor é voltarmos ao momento em que a assistente social vai escadas  abaixo, assustada com a violência da minha reacção."
J. Rentes de Carvalho, in " A Ira de Deus sobre a Europa", Quetzal Editores, Novembro de 2016, pp.55-58 

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Manoel de Andrade entre nós

Manoel de Andrade e mulher, Neiva Piacentini,
  em Portimão - Algarve
Falar de Manoel de Andrade , da sua obra, do seu talento,  tem sido uma actividade regular deste blog. Quando no rescaldo de uma pesquisa sobre Poesia de Resistência foram publicados os primeiros poemas , o vínculo ficou estabelecido. Manoel de Andrade era um dos nossos.
Poeta fértil e de obra maior foi sucessivamente visitado e exposto, com prazer redobrado, nestas páginas.
Lisboa
Visitou-nos. Foi memorável  o nosso primeiro encontro, em Lisboa.
Do Bairro Alto  ao Convento de Mafra, do Castelo de S. Jorge ao  Palácio da Pena , do areal do Guincho à Ponte sobre o Tejo, tudo se compôs para uma visita celebrada. Com paragens para palestras na Fundação José de Saramago para escutar Nuno Júdice, ou no encalço de Fernando Pessoa no Café Martinho da Arcada e  no  rasto de Camões e de outros tantos das Letras lusas, ou , ainda,  a perscrutar as estantes das livrarias mais icónicas, encheu-se  de intenso prazer o itinerário possível dessa curta estadia.
Manoel de Andrade partiu com Portugal na bagagem. E nós com a lembrança de um poeta e de um novo  rosto no círculo dos amigos inolvidáveis.
Algarve
Neste Outubro de 2016,  voltou e ficou entre nós, neste Algarve luminoso. Manoel de Andrade, o poeta, o amigo, pisava pela primeira vez este recanto  de Portugal.
Trazia, com ele,  livros, cultura  e muito Brasil . Logo , no primeiro instante, se deixou capturar pelo azul do Algarve e pelo cheiro doce do campo , salpicado de pomares e de estevas. 
Portimão

Encimada pela serra de Monchique, a cidade de Portimão estende-se até ao Mar, onde se alberga a Praia da Rocha. E foi aí, tendo como fundo o Rio Arade a beijar o Mar, que Manoel de Andrade se instalou.
Castro Marim
Percorrer o Algarve era um dos objectivos da estadia. Do Cabo de S. Vicente, sob um por de sol esplendoroso,  a Castro Marim, subjugada pelo Guadiana e pela singeleza do local, Manoel de Andrade fez honras à descoberta de um novo tesouro. O Algarve não era apenas e tampouco a referência turística que circulava no mapa do veraneante. 


Sagres
Sagres
O Algarve tinha a marca e o desenho milenar da História dos povos. Deslumbrou-se com Sagres e seu promontório, carregado de tantos empreendimentos,  que levaram mundo fora os velhos  marinheiros à descoberta de um  novo mundo de onde ele provinha. Era a história ao vivo. Não a do acidental achamento das ocidentais Índias. Era o passado que fazia deste local uma referência. 
Manoel de Andrade no Castelo de Silves
Castelo de Silves


Em Silves, reconheceu a marca da presença árabe. O castelo assinalando tanta passagem  e o  esplendor edificado surpreendeu-o, acrescido pelas novas descobertas arqueológicas que dão aos olhos o esquisso diferenciado de outras antigas presenças  que  foram povoando este local. 
Lagos
Tavira

Lagos e Tavira , as mais belas cidades do Algarve. Uma sombreada por um mar soberbo  que deixa a descoberto o desenho de uma das mais belas baías algarvias; a outra debruando, em formosa harmonia, o rio Séqua/Gilão. Quer em Lagos , quer em Tavira, as muralhas impõem-se para   recordar que as cidades já foram povoações protegidas .
Faro, capital do Algarve
Em Faro, a capital, encantou com o seu formoso e vetusto reduto  que sempre exibe como ex-libris da excelência arquitectónica: a cidade velha, entre muralhas.
Lagos
Tavira
Manoel de Andrade no Núcleo Museológico Islâmico de Tavira
Tavira preserva, junto ao rio e em muitas ruas e ruelas, a traça  própria e tradicional desta região do Sul. Nesta cidade, o  núcleo museológico islâmico patenteava uma excelente exposição que condimentou e complementou  a visita. 
Ponte romana de Silves

Ponte romana de Tavira
As pontes romanas , em Silves e Tavira, mereceram registo e contemplação. Sinais de um outro tempo que deixou rasto nesta zona.

Monchique
Monchique


Monchique o outro rosto do Algarve. Majestosa no seu traçado de disperso e imponente relevo, revelou-se na sua magnitude verde, na   intensa frescura de uma paisagem rica e variada. Monchique foi o apelo enamorado de um tempo distante, onde a história do Algarve também se construiu. Os sabores da terra deliciaram-lhe  o paladar e  o olfacto.
E o Algarve soube acolher o poeta. Em Portimão, louvaram-lhe  as palavras proferidas em brilhantes Palestras e saudaram-no com novas amizades, geradas na simplicidade do trato e na franca transparência do carácter.
Dias  que nos enriqueceram pela partilha de saberes, pela discussão de temas afins, pela eloquência de quem sabe manejar a arte de bem escrever, pela generosidade de quem chega e traz  consigo  o mundo que só os poetas sabem transportar.
Foram dias de intenso viver. Com Manoel de Andrade  e sua mulher, Neiva Piacentini de Andrade , a saudade readquiriu uma outra dimensão.
O Algarve não os esquecerá.

domingo, 27 de novembro de 2016

Ao Domingo Há musica

                                              
Si yo encontrara la estrella que me guiara,
yo la metería muy dentro de mi pecho y la
                                          venerara,
Si encontrara la estrella que en el camino me
                                         alumbrara.
                                                Enrique Morente,  La Estrella

A música vivia em casa, connosco, todos os dias. Era música variada: portuguesa, estrangeira , ligeira ou clássica. 
Muitos dos cantores da minha juventude chegaram-me através da minha Mãe. Estava sempre aberta à modernidade. A música era seleccionada, quando a melodia se lhe impunha. E cantava-a , logo que os sons lhe ficavam . Os Beatles acomodaram-se,  lá em casa,  a seu convite. Vieram, um a um,  ao longo dos anos. E, com eles, muitos outros foram chegando. Todos se alinhavam para a deleitar, deleitando-nos. 
E a música soltava-se, mais livre e mais forte, ao Domingo , nos grandes passeios de automóvel por este Portugal fora. Cantávamos todos. E éramos muitos. Viagens inesquecíveis de muita aprendizagem. Foi assim que conheci Portugal. De lés a lés, ao sabor dos sons e dos ensinamentos da minha Mãe, enquanto o meu pai conduzia. 
A minha mãe amava a vida e nela impôs a sua marca: um legado de constante assombro e afectos. 
Hoje era o dia do seu aniversário. Nasceu  no século passado. Há muitos anos. Deixou-nos sem permissão.  As mães deveriam ser eternas. Far-me-á  sempre falta. Aliás nem sei verter a saudade que nunca parou de crescer  com  a sua ausência. Há dias em que se agudiza e a revejo bela como era, incitando-me apenas com aquele sorriso que sempre me apaziguou.
A Música deste domingo é a lembrança de um cante jondo que ela nos deu a conhecer porque o tinha na alma. De ascendência espanhola, filha e neta de gente da Andaluzia , os acordes de um seleccionado flamenco cresceram connosco, desde a infância.
À minha Mãe , " La Estrella", na  mágica voz  de Enrique Morente

sábado, 26 de novembro de 2016

Morreu "El Comandante"

"O ex-presidente de Cuba, Fidel Castro, morreu aos 90 anos de idade, informou neste sábado (26) o seu irmão, Raúl Castro, num discurso transmitido pela televisão estatal.
O líder histórico da Revolução Cubana faleceu na noite de sexta-feira (25), às 22h29 (hora local), e o seu corpo será cremado "atendendo à sua vontade expressa", explicou Raúl Castro, visivelmente emocionado.
O presidente cubano afirmou que, nas próximas horas, será anunciado como acontecerá o funeral de Fidel Castro, que foi visto pela última vez no último dia 15, quando recebeu na  sua residência o presidente do Vietname, Tran Dai Quang . Em  Outubro  recebera Marcelo Rebelo de Sousa, Presidente da República Portuguesa.
90 anos de trajectória
Ao longo de seus 90 anos, Fidel Castro se transformou em indiscutível e controverso protagonista do último século. Em 2011, o líder da Revolução Cubana admitiu que nunca pensou que viveria "tantos anos" e em Abril deste ano pareceu despedir-se: "Em breve serei como todos os outros. A vez chega para todos".
Fidel tinha 32 anos quando entrou triunfante em Havana. Era 1959, usava barba e uniforme e vinha da derrota de um exército de 80.000 homens contra uma guerrilha que em seu pior momento contou com 12 homens e sete fuzis. Sem passado militar, Fidel Castro expulsou do poder o general e ditador Fulgêncio Batista, na luta que começou com o fracasso da tomada do quartel Moncada, em 1953.
Fidel aplicou uma "doutrina militar própria" e conseguiu "transformar uma guerrilha  num poder paralelo, formado por guerrilheiros, organizações clandestinas e populares", disse Alí Rodríguez, ex-guerrilheiro e actual embaixador venezuelano em Cuba.
O líder cubano derrotou conspirações apoiadas pelos EUA e enviou 386.000 concidadãos para lutar em Angola, Etiópia, Congo, Argélia e Síria. Ao longo de 40 anos (1958-2000) escapou de 634 tentativas de assassinato, escreveu Fabián Escalante, ex-chefe de inteligência cubano, segundo o veículo de informação alternativa Cubadebate.
Ao jornalista Ignacio Ramonet, Fidel confessou que quase sempre carregava uma pistola Browning de 15 tiros. "Oxalá todos morrêssemos de morte natural, não queremos que se adiante nem um segundo a hora da morte", declarou em 1991.

'Efeito Fidel'
"Fiquei tão impressionada! Não pude fazer mais que olhar no rosto dele e dizer: te amo". Mercedes González, uma cubana de 59 anos, só viu de perto por duas vezes o líder cubano, mas não resistiu ao "efeito" Fidel.
Seja pelo aspecto rude de guerrilheiro ou seus discursos quilométricos - a maioria espontâneos porque ele gostava do "nascimento das ideias", segundo Salomón Susi, autor do Dicionário de Pensamentos de Fidel Castro -, Fidel fascinava também as massas, as mulheres, os políticos e os artistas.
"Ele projecta uma imagem pública muito atraente", um dom que também "faz parte de sua lenda", diz Susi. Já longe do poder, Fidel publicou reflexões sobre diversos temas. Apesar disso, o grande sedutor mantém as portas fechadas para a sua vida privada (dois casamentos e sete filhos com três mulheres é a única coisa que se conhece).
"A vida privada, na minha opinião, não deve ser instrumento da publicidade, nem da política", sentenciou em 1992.
Amado e odiado
"É o homem dos 'E's: ególatra, egoísta e egocêntrico". Assim Fidel Castro é definido pela dissidente Martha Beatriz Roque, 71. Quem se opôs, acrescenta, enfrentou uma tripla resposta: "a prisão, os espancamentos e os protestos de repúdio".
Fidel desafiou dez presidentes dos Estados Unidos antes que seu irmão Raúl, que o sucedeu no poder, decidisse restabelecer relações diplomáticas com seu adversário da Guerra Fria no fim de 2014, o que Fidel nunca se opôs que acontecesse.
Fidel Castro governou com mão de ferro, e durante anos (1990 e 2002) a ilha foi condenada internacionalmente pela situação de direitos humanos a pedido da desaparecida Comissão de Direitos Humanos da ONU.
Em 1959, o governo de Fidel condenou a 20 anos de prisão o comandante de Sierra Maestra, Huber Matos, por insurreição. Na "primavera negra" de 2003 mandou prender 75 dissidentes, incluindo Martha Beatriz Roque, e nesse mesmo ano foram fuzilados três cubanos que roubaram uma lancha para fugir  para os Estados Unidos.
Fidel sempre negou os pedidos internacionais para uma abertura política e considerou os opositores "mercenários". "Eu vou lembrar dele como um ditador", diz Roque." Notícias da Imprensa

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

A violência contra os idosos


                                        Em cada fruto a morte amadurece,
                                        deixando inteira, por legado,
                                        uma semente virgem que estremece
                                       logo que o vento a tenha desnudado.
                                       Eugénio AndradeAs Mãos e os Frutos (1948) 


Num tempo em que se constata a crescente violência doméstica, relembra-se o estudo divulgado pela APAV , Associação Portuguesa de Apoio à Vítima, sobre os crimes perpetrados pelos filhos contra os pais idosos. São números chocantes. Vivemos tempos terríveis em que a piedade deixou de ter lugar na sociedade e quase foi excluída da família. Os Lares albergam os pais que muitos filhos recusaram . O amor filial sucumbe  no dealbar da velhice .Os pais deixam de ser o apoio para serem vistos como o problema. E se não são apenas o estorvo que se sacode , muitos são alvo da mais infame violência em crimes hediondos, inqualificáveis numa mente sã.
Portugal tem falta de atenção e um notório despudor na política de incentivos de apoio familiar ao idoso. Num país de crises múltiplas, a crise do amor é também uma outra vertente de um infortúnio que cresce na família.
Ai , meu pobre Portugal. Que te fizeram? Que diria Camilo Castelo Branco ? E Herculano?


Crimes contra idosos
Os filhos foram os autores de quase 40% dos crimes de violência doméstica praticados contra mais de 2.600 idosos acompanhados pela Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV) entre 2013 e 2015, situação que tem vindo a aumentar.
Enquanto no período 2013-2014 o autor do crime, na sua maioria, era o cônjuge, actualmente assiste-se a “um aumento das situações em que a vítima é pai ou mãe”, disse hoje à agência Lusa a coordenadora executiva do Centro de Formação APAV, Maria de Oliveira.
A APAV registou, entre 2013 e 2015, 3.214 processos de apoio a idosos, em que 2.603 foram vítimas de crime e de violência, segundo dados da associação divulgados a propósito do Dia Internacional das Pessoas Idosas (01 de Outubro).
Estes valores traduziram-se em 6.264 factos criminosos. Destes, 5.072 (81%) foram crimes de violência doméstica, 860 (13,7%) foram crimes contra as pessoas e 288 (4,6%) contra o património.
Entre os crimes de violência doméstica, destacam-se os maus-tratos psíquicos, com 1.924 casos (30,7%), e os maus-tratos físicos, 1.244 casos (19,9%). Houve ainda 846 idosos que foram vítimas de ameaça/coação (13,5%) e 520 de injúrias e difamação (8,3%).
A maior parte dos crimes foram cometidos dentro da família, sendo os filhos (37,9%) e o cônjuge (28,2%) os principais agressores. Os netos protagonizaram 4,4% dos crimes e os vizinhos 4,7%.
Analisando estes dados, Maria de Oliveira disse que “ainda não espelham a realidade que acontece no país”, mas confirmam uma realidade que a APAV já suspeitava e para a qual tem vindo a alertar de que “existem relações familiares que exercem relações de poder e decisão das coisas da vida mais básicas” do idoso.
“Estamos a falar de filhos que exercem violência contra os pais”, frisou a técnica, afirmando que “ainda há muito desconhecimento e alguma permissividade para continuarem a exercer estas situações”.
Os dados demonstram também um aumento no número de processos de apoio: 941 em 2013, 1.068 em 2014 e 1.205 em 2015, o que, segundo a técnica, se deve também a “uma maior consciência da população” para “determinados comportamentos” exercidos contra as pessoas idosas que constituem um crime.
Traçando o perfil destes idosos, a APAV refere que mais de metade tinha entre 65 e 74 anos, 44,1% eram casados e pertenciam a um tipo de família nuclear com filhos (32,8%).
Os dados indicam também que 36,3% das vítimas tinham idades entre os 75 e os 84 anos e 12,5% mais de 85 anos.
O número de autores de crime contabilizados entre 2013 e 2015 ultrapassou o número de vítimas (2.603), ascendendo aos 2.730.
Em mais de 65% das situações, o agressor era homem, com idades entre os 65 e os 74 anos. Foram ainda identificados sete agressores com idades entre os 11 e os 17 anos e 52 com idades entre os 18 e os 24 anos.
Os dados adiantam que 20,5% dos autores dos crimes estavam reformados, 19,3% desempregados e 13,5% empregados.
Tendo em conta o tipo de problemáticas existentes, prevalece o tipo de vitimização continuada em cerca de 78% das situações, com uma duração média entre os dois e os seis anos (12,4%).
A residência comum é o local mais escolhido para a “ocorrência dos crimes”, em 56,8% das situações, seguindo-se a casa da vítima (27,5%) e a via pública (6,1%).
As queixas/denúncias ficam-se nos 30,7% face ao total de autores de crimes assinalados.
Maria de Oliveira explicou que, “havendo uma relação familiar, é muito difícil as pessoas denunciarem” a situação, porque “têm sentimentos de vergonha e de culpa”.
“Se for uma relação de pai ou mãe sentem que falharam enquanto educadores”, rematou.” Agência Lusa,  29.09.2016

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

De Leonard Cohen

Anthem 
The birds they sang
at the break of day
Start again
I seem to hear them say
Do not dwell on what
has passed away
or what is yet to be.
Ah the wars they will
be fought again
The holy dove
She will be caught again
bought and sold
and bought again
the dove is never free.
Ring the bells that still can ring
Forget your perfect offering
There is a crack
A crack in everything
That's how the light gets in.
We asked for signs
and the signs were sent:
the birth betrayed
the marriage spent
Yeah the widowhood
of every single government
signs for all to see
I can't run no more
with that lawless crowd
Ah but they've summoned, they've summoned up
a thundercloud
and they're going to hear from me.
Ring the bells that still can ring
Forget your perfect offering
There is a crack
A crack in everything
That's how the light gets in
You can add up the parts
but you won't have the sum
You can strike up the march
on your little broken drum
Every heart, every heart
to love will come
but like a refugee
Ring the bells that still can ring
Forget your perfect offering
There is a crack, a crack in everything
That's how the light gets in.
Ring the bells that still can ring
Forget your perfect offering
There is a crack, a crack in everything
That's how the light gets in
That's how the light gets in
That's how the light gets in
Leonard Cohen

Leonard Cohen, em Anthem , Londres 2008
Leonard Cohen numa interpretação diferente ,  emocionante  e bela de "So Long, Marianne",  em Oslo 1993
Leonard Cohen  fez várias  versões de  "So Long, Marianne", ao longo da sua carreiraNeste concerto de Oslo , a canção tem um novo arranjo e inclui dois novos versos.  É, talvez, a melhor versão de   "So Long, Marianne"

terça-feira, 22 de novembro de 2016

Da Liberdade

" O princípio da democracia liberal, que inspirou os fundamentos da Constituição Americana, consistia em que as questões controversas deveriam ser decididas, de preferência, por meio de argumentos e não pela força. Os liberais  sempre afirmaram que as opiniões deviam formar-se por livre debate, e não permitindo que apenas uma das partes fosse ouvida. Os governos tirânicos, tanto antigos como modernos, adoptaram o ponto de vista oposto. Por minha parte, não vejo razão para se abandonar, neste ponto, a tradição liberal. Se eu estivesse no poder, não procuraria impedir que os meus adversários fossem ouvidos. Esforçar-me-ia por proporcionar iguais facilidades para a manifestação de quaisquer opiniões, deixando os resultados  entregues às consequências da discussão e do debate. Entre as vítimas académicas da perseguição alemã na Polónia, há, tanto quanto sei, alguns lógicos eminentes que são católicos ortodoxos integrais. Eu faria tudo o que pudesse para conseguir posições académicas para esses homens, apesar dos seus correlegionários não retribuírem tal cortesia.
 A diferença fundamental entre o ponto de vista liberal e não-liberal é que o primeiro considera todas as questões possíveis de discussão e todas as opiniões susceptíveis de um maior ou menor grau de dúvida, enquanto a última afirma, de antemão, que algumas opiniões  são absolutamente indiscutíveis e que não se deve permitir qualquer argumento contra elas. O que é curioso  a respeito dessa posição é a crença de que, se se permitisse uma investigação imparcial, esta levaria os homens  a uma conclusão  errada, e que a ignorância  é , por conseguinte,  a única salvaguarda contra o erro.  Este é um ponto de vista que não pode ser aceite por nenhum homem que deseje que as acções humanas sejam mais dirigidas  pela razão do que pelo preconceito.
Foi o ponto de vista liberal que levou a Inglaterra e a Holanda, nos últimos anos do século XVII,  a reagirem  contra as guerras religiosas. Tais guerras grassaram com grande fúria por espaço de 130 anos, sem que trouxessem a vitória a nenhuma das partes. Cada lado tinha absoluta certeza de estava com a razão e que a sua vitória era de suprema importância para a humanidade. Por fim, alguns homens sensatos cansaram -se da luta indecisa e decidiram que ambos os lados estavam equivocados  quanto à sua certeza dogmática. John Locke, que exprimiu tanto na política como na filosofia esse novo ponto de vista , escreveu no começo de uma era de tolerância crescente. Realçou a falibilidade dos juízos humanos e enveredou por uma era de progresso que durou até 1914. É devido à influência de Locke e da sua escola que os católicos desfrutam de tolerância em países protestantes , e os protestantes em países católicos. Nas controvérsias do século XVII os homens aprenderam , mais ou menos, a lição da tolerância, mas, no que toca às novas controvérsias surgidas desde o fim da Primeira Guerra Mundial, as esclarecidas máximas dos filósofos do liberalismo foram esquecidas.
Não nos sentimos horrorizados com os quakers, como se sentiam os piedosos cristãos da corte de Carlos II, mas horrorizamo-nos diante dos homens que aplicam aos problemas de hoje as mesmas ideias  e os mesmos princípios que os quakers do século  XVII aplicavam à sua época. Há opiniões de que discordamos,  que adquirem , pela sua antiguidade, uma certa respeitabilidade, mas uma opinião nova da qual não compartilhamos parece-nos, invariavelmente, chocante.
Há dois pontos de vista possíveis quanto ao funcionamento da democracia. Segundo um desse pontos de vista , as opiniões da maioria deviam prevalecer , de maneira absoluta, em todos os terrenos. Segundo a outra maneira de ver, sempre que uma decisão comum não é necessária , deveriam ser apresentadas opiniões diferentes, tanto quanto possível, em proporção com a sua frequência numérica. O resultado desses dois pontos de vista é, na prática, muito diferente.  De acordo com o primeiro, quando  a maioria já decidiu acerca de uma opinião, não se deve limitar-se a canais obscuros  e pouco influentes. De acordo com o outro ponto de vista, as opiniões da minoria devem ter as mesmas oportunidades de expressão que as opiniões da maioria, mas somente em menor grau.
(...) Depois do fim da Primeira Guerra Mundial, renasceu a intolerância fanática até se tornar, numa grande parte do mundo,  tão virulenta como durante as guerras religiosas. Todos os que se opõem  à  livre discussão e procuram impor uma censura às opiniões a que os jovens se acham expostos, estão a contribuir para o aumento desse fanatismo e a mergulhar ainda mais no abismo de lutas e intolerância de que Locke e os seus colaboradores os livraram. "
Bertrand Russell, in " Porque não sou cristão", Brasília Editora, Porto, 1970, pp.194-197

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

A passagem do tempo

" Uma vez estava  a fazer mentalmente uma lista de todos os locais em que vivera, tendo-me  deslocado tanto , e depressa concluí que a abordagem do senso comum ou factual não leva a nada a não ser ao erro. Pode-se viver durante meses num local , até anos,  e ele não nos tocar, mas um fim de semana ou uma noite noutro, e sentimo-nos como se todo o nosso ser tivesse sido  salpicado pelo equivalente a um vento cósmico." 
Doris Lessing, in " Under my skin", 1994

domingo, 20 de novembro de 2016

Ao Domingo Há Música


     
                         Quando se acaba de ouvir um trecho de Mozart, o                                                             silêncio que se lhe segue ainda é dele.
                                                                          Sacha Guitry

A música, sempre a música. Quantas frases, quantas palavras se têm escrito sobre a Música. Mas  a sua força, a sua magia estão apenas nos acordes , no  ritmo, na  melodia que nos apanha e absorve. 
Somos música quando nos enamoramos, quando os sons nos levam para o sublime que só ela  sabe desvendar. O silêncio radioso da descoberta permanece para além de qualquer  horizonte que limita, que cerca.
Mozart é o mestre intemporal. Com ele tudo se transforma , tudo se convoca , tudo se apropria em transcendente sedução.
Hélène Grimaud  descobriu-o. Ei-la  em Piano Concerto No.23, 2. Adagio, de Wolfgang Amadeus Mozart, acompanhada  pela Chamber Orchestra of the Bavarian Radio / Kammerorchester des Bayerischen Rundfunks, sob a direcção do Maestro Radoslaw Szulc, em  Prinzregententheater, Munich, Germany.

sábado, 19 de novembro de 2016

Que poder tinham os sons

No dia da cor  vermelha

                                       Mistério , vai-te, esmagas-me! Ah, partir
                                       Esta cabeça contra aquele muro.
                                       Fernando Pessoa,  “ Fausto”        
                                      
                                      Faire un bon usage des maladies
                              Pascal

"Ainda não tinha vestido totalmente o vermelho , já os gritos lhe chegavam. Ouviam-se distintamente. Seria fácil localizá-los. Gritos estrídulos, misturados com o retinir do metal e o silvo  de imprecações, espalhando-se sem ordem e rigor. E eis que apareciam algumas palavras. Erguiam- se em altaneiro porte, estrebuchando conflito, apesar de  minadas pela doença que lhes deformava o corpo e  dominava a mente.
Volúpia. Dinheiro. Insurreição. Ganância . Soberba. Lucro. Uma plataforma de  palavras  afins , organizada em hordas cruéis a subjugar outras de significantes mais nobres. Esgrimiam-se apesar da beleza que o encarnado, o vermelho pode incorporar.
O tempo da riqueza pela riqueza enchera  as cabeças de cifrões. E era do dinheiro o maior poder. O maior  sortilégio daquele  tempo. Como estancar tal perfume ?
Enquanto discorria, as palavras sucumbiam  em aflitiva luta pela sobrevivência. O jugo das mais fortes oprimia as mais discretas, as mais límpidas, embora estas não se permitissem morrer.  Gritavam, em surdina, em nítido contraste com a estridência dos opressores que enchia o ar.
Começaria pela fome, pela pobreza, pelo desespero, pelo desemprego, pelo abandono, pela velhice, pela natalidade, pela saúde, pela paixão, pela  felicidade. Todas eram importantes. Todas acorriam à sua passagem numa súplica justificada . Escapava-lhe, porém, a mais valiosa. Aquela que seria capaz de redimir, aquela cuja força regeneradora era reconhecida : a Dignidade.
Ainda não a vira. Não a distinguira entre os gritos. Onde estaria? Que seria dela? Procurou-a. 
Ofegante, inanimada esmorecia com o peso da ganância que a violentava num esforço heroico, enquanto as forças ainda lhe pertenciam. Numa Travessa  sem nome, estava em titânica desvantagem. A ganância era um manto púrpura a esmagar  a túnica vermelha da Dignidade.  Que fazer perante tão rude inconformidade?
Socorreu-se dos sons  e fez ouvir Wagner. O triunfo  exige sempre um  faustoso manto. O poder da ilusão prevalece nos espíritos néscios onde reina a ganância.
Fiel à força da sedução da vã glória, o  manto ergueu-se e a     dignidade libertou-se daquele vil peso. Vinha combalida, desgastada pelo espezinhamento constante dos poderosos que, de ganância em ganância, tinham transformado  o mundo num mercado de agiotas.
Mundo onde os nomes eram  traduzidos por algarismos  e as palavras esqueciam a força da nomeação. Mundo onde os adjectivos se colavam  aos números como cola que pega e se acomoda em  território alheio.
Ao afinar aquela  palavra, seria como recuperar a alma adormecida  da humanidade, como restabelecer  o primeiro direito universal do Homem.
Concentrou-se. Começou a afiná-la. Agora, era o génio de  Mozart que se ouvia.
Quando afinava as palavras trazia a música nos ouvidos. Que  poder tinham os sons. Os movimentos molto allegro e andante da Sinfonia nº 40 ressoavam e imperavam . Como o contagiavam em inspiração e perícia.
Redesenhou, limpou, envernizou, curou  aquela enorme palavra.
Num longo vestido vermelho vivo, ela olhou-o e sorriu-lhe deslumbrante. E  com ela de pé,  firme e robusta , outras vieram animadas pela metafísica, pela semântica, pela música de Mozart ou pela simbologia do vermelho que nunca deixa de acolher  quem vem por  bem.
Todas as palavras que  se solidarizavam , que se irmanavam  chegavam  céleres. Apresentavam-se radiosas , vestidas no mais brilhante  vermelho renovado. Vinham em fraterna celebração,  coligadas por uma profunda comunhão identitária.
Ao restaurar a Dignidade , tudo se precipitara. Tudo se congregara.
Naquele dia, o caminho estava feito."
Maria José Vieira de Sousa, in " O Afinador de palavras" , 2016

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

O apelo tinha sido forte

O Afinador de Palavras


Quando se é jovem, tudo o que se vê parece próximo: é o futuro.
Quando se é velho, tudo o que se vê parece distante: é o passado.
                                                                               Anónimo

Houve um espaço de tempo feito de tempo, um tempo  terrivelmente  igual  a  si  próprio, nulo e,       no entanto,  apreendido   como uma   infinidade insuportável!...Quanto ao fim insolúvel , eis o que aconteceu.
Paul Valéry, O escravo-Fragmentos narrativos

Viera . O apelo tinha sido forte. E agora que chegara, perdera-se. Tudo havia mudado. Não sabia quem o chamara. Apenas lhe chegara um eco de vozes  filtradas pela distância. Repetira-se  em tons diferenciados que deixava distinguir uma amálgama de gente diversa. Palavras e palavras desarticuladas enchiam aquele eco de uma ressonância estranha. Num momento, quase  reconheceu o pesadelo de um tempo passado. Um tempo que julgara perdido na ruína do esquecimento.
Duas guerras mundiais tinham eclodido. Os homens tinham cegado logo que se esqueceram do horror primeiro  que tinham provocado, nos primórdios do século XX.  Num tempo curto,  revitalizaram  palavras  marginais para um uso  capital: uma  segunda guerra apanhou o mundo inteiro. De novo, as multidões em  fuga perante o furor das armas.
Da  loucura de um homem, nascera  um tenebroso projecto de destruição que se propalou rapidamente pelas mentes exacerbadas dos seus correligionários. Era a Europa a chamar as palavras impensáveis, proscritas, convertidas  em slogan da verdade. Uma verdade que levou   a fuzilamentos ignóbeis, a um extermínio  inominável. Fora o tempo da vergonha.
Laborara durante muitos anos. As palavras tinham adoecido. A enfermidade era tal que, de entre as ruínas , escapava um halo  tão fétido que lhe tolhia  os movimentos. Nem sempre fora capaz de o enfrentar. Esgotou-se na afinação. Reabilitara  um código de palavras  que tinha sido banido  e que seria regido por  um código de conduta que, para o efeito,  também fora elaborado.
Concluíram que a sua missão havia terminado. Partira há muitos anos. Despedira-se daquele mundo tão assimetricamente vulnerável. Quisera acreditar que não mais seria chamado.
As promessas , as amnistias, os tratados , os convénios tinham sido celebrados. Quase lhe fora imposta uma reforma antecipada. Sim , porque a miséria seria erradicada e novos desafios propiciariam outras práticas. A livre circulação do progresso, a mundialização da informação, a prática do espírito científico, a reformulação das teorias obsoletas que conduziram ao caos, a consciência de finitude como antídoto à desmesurada ganância da supremacia étnica e dos perigosos projectos eugénicos, a valorização e disseminação da arte  em todas as suas vertentes. Tudo convergia para o sucesso de um bem estar universal que nasce da trégua, que germina  na  paz. Da míngua antevia-se a estabilidade partilhada.
Que acontecera. Regressava.  O grito fora excessivo. Ruidoso. Dorido. Não fora capaz de resistir. Pisava o mesmo chão sem que pudesse enxergar aquele que havia abandonado. As cores rodavam dentro de si numa dança  lenta, sem melodia  para seguir.
Tinha de se concentrar. Encontrar o jeito de se deslocar. Perdera os poderes? Nunca. Os olhos ainda pestanejavam. Não cegara. Não. Era o mundo que estava cego. A escuridão apanhara-o . Pois , estava, agora, no reino da escuridão.
Adormeceu. O caminho tinha sido longo. E aquele negrume, aquele denso véu de uma noite escura era uma muralha. Pesava-lhe tanto como a surpresa do desencanto.
Teria o  homem perdido a capacidade de se espantar? Onde estaria o assombro? A revelação ? O mistério da descoberta? A consciência do não saber ?  A busca do  conhecimento? A magia da Arte?
E as palavras que não apareciam. Mas não eram elas que tudo nomeavam ? “In principio erat Verbum” - se no princípio era a Palavra, urgia encontrá-las. Por elas regressava.
Ergueu-se . Afinal o gesto e o caminho estavam nele. As palavras tinham cor. Tinha de decidir por onde começar. E vestiu-se de  todas as cores.
O horizonte emergiu. Fez- se luz. Via tão claramente que de horror se encheu . A devastação era aterradora. Nada estava como deixara. Um amontoado de palavras jazia  em convulsão continuada. O ruído era assustador.
Descortinou, de imediato, o que o esperava. Lançou-se. Teria de avaliar o percurso e  agir. Fora chamado.
E partiu para se apresentar. Era ele : o afinador de palavras. Vinha em missão porque fora requisitado . Oxalá nunca tivesse partido. O logro tinha sido terrível.
Correu  ruas,  caminhos,  campos ,  atalhos,  avenidas; pisou terra , calcorreou areia, sorveu mar,  bebeu poeira. Nada lhe falhou.  A tudo acorreu para lançar o desafio. E ninguém o temeu.
Ninguém o afrontava. Todos o procuravam. A crise das palavras estava institucionalizada. Não havia reestruturação que lhe valesse.
Por toda a parte, caíam novas e velhas palavras.
Sonantes, discretas;
redondas, agudas;
          estridentes, suaves;
       castas, obscenas;
                heroicas, cobardes;
       gloriosas, vilipendiadas;
                transparentes, opacas;
                           sérias, corrompidas;
                                                                        brilhantes, obscuras;
          velhacas, leais;
                                                                                      mórbidas, lúcidas.
                                                                                    Tombavam em série:
                                                      à unidade,  ao retalho,
                                  emparelhadas, desirmanadas,
               concatenadas, soltas,
humilhadas, desprezadas. Não tinham qualquer préstimo. Agoniavam aos magotes antes que tivesse iniciado o seu trabalho. Teria de as socorrer, com urgência.
Guardou as cores . Vestiria uma  cor diferente em cada dia. As palavras eram coloridas. Identificavam-se pela cor. Assim, todas  teriam igualdade de oportunidades, um conceito que fora tão valorizado, mas tão pouco aplicado." Maria José Vieira de Sousa, in " O Afinador de palavras", 2016