sexta-feira, 30 de setembro de 2016

O pesar pareceu-me quadrimensional

PAI
Uns quatro ou cinco dias após a morte dela, sentei-me  comigo
na sala de  estar a pensar no que fazer. Baralhado,
à espera que o choque aliviasse , à espera  de um qualquer 
sentimento estruturado que lograsse emergir  do fingimento
organizacional dos meus  dias. Senti-me vazio. As crianças
estavam a dormir. Bebi. Fumei cigarros de enrolar à 
janela. Senti que o provável e principal resultado da sua 
ausência fosse a minha transformação num organizador 
em permanência neste negociador de listas
de lugares comuns de gratidão, neste  arquitecto maquinal de rotinas
para crianças pequenas sem Mãe. O pesar pareceu-me quadri-
mensional , abstracto, cegamente familiar. Tinha frio.

Os amigos e família que tinham estado por cá com a sua
simpatia regressaram a casa, às suas próprias vidas.
Assim que deitei os miúdos,
o apartamento perdeu todo o sentido
tudo era imóvel.

A campainha da porta tocou e lá me preparei para mais 
desvelos. Mais uma lasanha, alguns livros, um mimo,
umas quantas refeições congeladas para os miúdos. Estava,
claro, a tornar-me um especialista  em comportamento 
de carpideiras-satélite. Estar no epicentro implica uma 
consciência curiosamente antropológica de todas as outras
pessoas; os esmagados, os afectadamente apáticos,
os nada até-à-data, os que permanecem tempo a mais, os novos
melhores amigos dela, os meus , os dos miúdos. Os que ainda agora
não faço a mais pequena ideia de quem sejam. Senti-me como a Terra
naquela extraordinária imagem do planeta rodeado
por um espesso cinturão de lixo espacial. Pensei que passariam anos
até que a ilusória corrente das demonstrações
de dor alheia pela minha mulher morta encolhesse o suficiente
para me permitir  ver de novo o espaço negro e,
claro - escusado será dizer -, pensamento deste género faziam-me
sentir culpado. Mas, pensei eu  em minha
defesa, tudo se alterou e ela partiu
e eu posso pensar aquilo que quiser. Ela acharia bem, já que 
éramos sempre tão analíticos, cínicos, provavelmente
desleais, perplexos. Umas cabras post mortem muito sociáveis, 
cheias de boas intenções. Hipócritas. Amigos .
Max Porter, in " O Luto É A Coisa Com Penas", tradução de Daniel Jonas, 20/20 Editora,  Setembro de 2016, pp.14,15
Sobre o Livro:
" Aqui está ele: marido e pai, romântico , desarranjado e académico apaixonado por Ted Hughes,  um homem perdido depois da morte súbita da sua mulher. E ali estão os seus dois filhos, a enfrentarem como ele, a tristeza insuportável que os engoliu no seu apartamento londrino perante um vaivém de  amigos bem-intencionados e um futuro de absoluto vazio.
Neste momento de desespero, são visitados pelo Corvo - antagonista, trapaceiro, curandeiro, babysitter. Este pássaro " sentimental" é atraído pelo luto da família e ameaça permanecer com eles até que não mais precisem  da sua ajuda. À medida que o tempo passa, as semanas se tornam meses e a dor se transforma em memória, esta pequena unidade de três pessoas começa a curar-se.
Numa estreia absolutamente extraordinária - parte novela, parte fábula polifónica, parte ensaio sobre o luto - Max Porter combina sensibilidade e um  estilo corajoso, criando um efeito deslumbrante. Carregado de um humor inesperado e marcado por uma profunda verdade emocional, O Luto É a coisa com Penas marca a chegada de uma nova voz literária , entusiasmante e original."
 O Luto É A Coisa Com Penas foi vencedor do Dylan Thomas Prize 2016.

quinta-feira, 29 de setembro de 2016

Cante jondo, canto andaluz

"Mais do que um símbolo musical da multimilenária cultura andaluza, o cante jondo («canto fundo»), tal como o seu epíteto indica, exprime - através de uma ambiência sonora cristalizada ao longo de séculos e assimilada na escrita pianística de um Albéniz ou de um Granados - o que de mais profundo encerra o espírito popular.
Cúmplice das penas e das alegrias do seu povo, o cantaor esconjura com «voz de sangre», através das sentidas letras e dos longos e dolorosos melismas, como num ritual, as angústias que lhe assaltam a alma, crendo que quem o escuta comungará, por empatia, da sua dor e que esta será, assim, mitigada.
A importância do cante na cultura flamenca, todavia, não se esgota no carácter confessório da interpretação. Possuído pelo duende, esse "espíritu oculto de la dolorida España" (Lorca: I, 1067), o cantaor percorre os recônditos meandros do inconsciente colectivo. Obedecendo a cânones há muito estabelecidos, não só constrói uma representação de si próprio e do seu povo ­ o que é, de certo modo, revelador da propensão dos andaluzes, como sustenta Ortega y Gasset, para um certo «narcisismo colectivo» (Ortega y Gasset, 1961: 112) ­, mas também invoca por via de imagens atávicas os mistérios das antiquíssimas religiões que outrora fecundaram o imaginário andaluz.
Na realidade, os estudiosos da matéria da Andaluzia, como J. M. Caballero Bonald, D. E. Pohren, J. Caro Baroja ou Fernando Quiñones, são unânimes em considerar que o cante encarna a permanente demanda de uma obscura e inefável essência destilada pela antiguidade das suas raízes culturais. ue de mais profundo encerra o espírito popular.
(…) A natureza ao mesmo tempo pagã, primeva e intuitiva do cante cativou a atenção de poetas e músicos. Um desses poetas, Federico García Lorca, figura de estatura ímpar no panorama literário espanhol do século XX, soube operar uma ruptura com a visão meramente folclorista do flamenco partilhada por alguns dos seus conterrâneos – nomeadamente Melchor de Palau, Salvador Ruedas e Manuel Machado, que em 1912 publicara um livro de coplas intitulado, justamente, Cante Jondo. A relação de Lorca com o «andaluzismo» não se cinge a um manusear curioso dos elementos castiços e potencialmente poéticos da cultura andaluza. Pelo contrário, a sinceridade da escrita lorquiana, a sedução incontida, obsessiva até, pelos temas e imagens da Andaluzia mítica e onírica trai a sua total identificação com o espírito a que aludimos. A somar a isso, ligam‑no estreitos laços ao mundo do café cantante onde aprenderá a partilhar, ao lado de cantaores, bailores e  tocaores, dos verdadeiros valores religiosos e estéticos contidos na arte flamenca.” António Lopes , in Dicionário de Termos Literários
Diego Carrasco, Miguel Poveda, Arcangel, Maria Toledo, India Martinez, Junior y Carrasco Family - El sol, la sal, el son
 El Flamenco Patrimonio del Alma - Canal Sur, 15 Novembro 2010
Miguel Poveda Real - "Triana, puente y aparte" ( Tangos de Triana ), Extraído do DVD "Miguel Poveda Real", uma produção de Universal Music Spain y Discmedi, dirigida e realizada por Sarao Films.

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

O Real Gabinete Português

O Real Gabinete Português de Leitura do Rio de Janeiro, Brasil
Tipo de Património
Portugal no Mundo
Descrição:
"O Real Gabinete Português de Leitura do Rio de Janeiro, fundado em 14 de Maio de 1837, possui a maior e mais valiosa biblioteca de obras de autores portugueses fora de Portugal e o seu primeiro presidente foi o Dr. José Marcelino da Rocha Cabral.
É uma instituição oferecida pelos portugueses ao Brasil, como prova de gratidão dos que vieram realizar seus objectivos de vida neste país. A biblioteca é aberta ao público e os cursos de Literatura, História, Antropologia, Artes e Linguística são destinados principalmente a estudantes universitários.
Neomanuelino
A construção do edifício-sede foi iniciada em 10 de Junho de 1880 (D. Pedro II lançou a pedra fundamental) e seguiu um projecto de traço "neomanuelino" de autoria do arquitecto português Raphael da Silva e Castro.
A inauguração ocorreu em 10 de Setembro de 1887 e contou com a presença da Princesa Isabel e do Conde D'Eu. Nessa solenidade, o escritor Ramalho Ortigão afirmou em seu discurso: "Se um dia o nome de Portugal houver de desaparecer da carta política da Europa, esta Casa será ainda como a expressão monumental do cumprimento da profecia:... não se cabe a Língua, nem o nome português na terra".
Também devem ser registadas as palavras do grande brasileiro Joaquim Nabuco proferidas na mesma altura: "As pedras deste edifício são estrofes de Os Lusíadas".
No Real Gabinete foram realizadas as primeiras sessões solenes da Academia Brasileira de Letras, sob a presidência de Machado de Assis.
Na fachada, de autoria do escultor Simões Lopes, estão as estátuas de Camões, Vasco da Gama, Pedro Álvares Cabral e do Infante D. Henrique.
No salão nobre, 36 brasões de cidades portuguesas da época da construção do edifício ornam a cimalha que delimita as paredes do tecto.
Obras Raras
Entre as obras raras da biblioteca podemos citar um exemplar da edição "princeps" de "Os Lusíadas", de 1572, que pertenceu à "Companhia de Jesus"; as "Ordenações de D. Manuel", por Jacob Cromberger, editados em 1521; os "Capitolos de Cortes e Leys que sobre alguns delles fizeram", editados em 1539; "Verdadeira informaçam das terras do Preste Joam, segundo vio e escreveo ho padre Francisco Alvarez", de 1540.
Possui ainda os manuscritos autógrafos do "Amor de Perdição", de Camilo Castelo Branco, e "O Dicionário da Língua Tupy", de Gonçalo Dias.
A biblioteca está inteiramente informatizada.
Arte e Beleza
Além do acervo bibliográfico, com obras raras, manuscritos, cartas e primeiras edições, o Real Gabinete possui uma importante colecção numismática e pinturas de José Malhoa, Carlos Reis, Oswaldo Teixeira, Eduardo Malta e Henrique Medina. Também merece registo o "Relicário da Saudade", em homenagem a Sacadura Cabral e que contém um pergaminho com assinaturas do Papa Pio X, do Rei de Portugal, D. Manuel II, do Rei de Espanha, Afonso XIII, e do Rei da Bélgica, Alberto I; o "Altar da Pátria", peça em prata cinzelada e em marfim, com 1,70m de altura, evocativa dos feitos dos navegadores portugueses, que fez parte da Exposição Internacional do Centenário da Independência do Brasil realizada no Rio de Janeiro em 1922; e ainda uma placa oval de prata e marfim, repuxada e cinzelada, de homenagem a Camões, com cenas mitológicas representando o Olimpo e que esteve também naquela Exposição."CNC
Modo de funcionamento
Horário de Funcionamento: Segunda a Sexta-feira, das 9 às 18 horas
Morada
Rua Luís de Camões, 30, Centro
20051-020
Rio de Janeiro
Telefone
(+ 55 21) 2221-3138
Fax
(+ 55 21) 2221-2960
Fonte de informação
CNC / Patrimatic
Data de actualização
14/09/2016

terça-feira, 27 de setembro de 2016

You Want It Darker.

A vitalidade e o talento de Leonard Cohen continuam intactas. Aos 82 anos , acaba de lançar um novo disco, o 14º da sua carreira, You Want It Darker. Com nove temas, o disco foi produzido pelo filho, Adam Cohen, que também é músico.

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

"Era uma noite invernosa de muito frio em Nova Iorque...

Imre Kertéz
Así son los últimos días
'La última posada', de Kertész es un texto amargo sobre la depresión y la vejez, sobre el éxito desmedido que aparta al escritor de sí mismo
Por Antonio Muñoz Molina
Imre Kertész era un hombre grande que se movía despacio sobre el escenario y se mantenía fuerte y firme delante del atril donde leía en húngaro. Los sonidos secos y raros de ese idioma eran más musicales porque yo no los podía asociar a ningún significado. Los escuchaba como música, y la sensación se acentuaba cuando Imre Kertész dejaba de leer y András Schiff tocaba piezas breves para piano de Béla Bartók. La música angulosa y desnuda de Bartók sonaba como las palabras de Kertész. Era una noche invernal de mucho frío en Nueva York, hace más de diez años. Entre el pianista y el escritor se notaba una fraternidad profunda. Los dos estaban juntos en el gran salón de actos del 92nd Street Y, el imponente centro cultural judío del Upper East Side.
Había un silencio más de concierto que de lectura literaria. La literatura y la música se aliaban de una manera tan estrecha como la amistad entre aquellos dos hombres. Yo veía por primera vez a Imre Kertész, pero su escritura me era tan familiar como la manera de tocar el piano de András Schiff, al que hemos tenido muchas oportunidades de admirar en Madrid. Por encima de los oficios tan distintos de cada uno de ellos, y tan visible como la amistad, estaba la pertenencia a un mundo muy semejante, que era también el de Béla Bartók: el de la cultura que cuajó en el centro de Europa y dio sus mejores frutos justo en los territorios en los que había de ser arrasada; una Europa tan empapada de presencia judía como de antisemitismo, condenada al exterminio y a la diáspora, a la fractura de la Guerra Fría y el totalitarismo. András Schiff, judío húngaro nacionalizado británico, es uno de los grandes intérpretes de la música para teclado de Bach. Imre Kertész, que vivió como un exiliado bajo la dictadura comunista de su país, se sentía parte de una literatura europea escrita principalmente en alemán por autores judíos y del todo ajena a las fronteras nacionales. Escribiendo en húngaro notaba la paradoja de saber que el espacio natural de su obra era el de la lengua alemana. Fue en Alemania, no en Hungría, donde sus libros empezaron a ser reconocidos.
Aquella noche, en Nueva York, en un auditorio compuesto mayoritariamente por judíos de ascendencia europea, muchos de ellos hijos de exiliados, el novelista y el músico experimentaban tal vez la riqueza y la complicación de sus dos destinos. Kertész había estado en Ausch­witz y en Buchenwald. Schiff, 24 años más joven, es hijo de supervivientes de los campos. El idioma de la cultura en la que los dos han resaltado tanto es el mismo que el de los verdugos que los condenaron. Su país de origen brilla más por la música del uno y la literatura del otro, pero su condición de judíos y de críticos del poder despierta contra ellos siniestros rencores nacionalistas. Aclamado por un público puesto en pie, reciente premio Nobel, aquella noche Imre Kertész tenía una expresión entre agradecida e insegura. Parecía que todo aquello lo tomara por sorpresa y le viniera grande. Me fijé en que carecía de esa soltura como de actores avezados que tienen los escritores en los congresos internacionales de literatura. Salió del escenario del brazo de una mujer más joven, inclinando su gran estatura hacia ella, arrastrando un poco los pies.


He encontrado referencias a aquella noche en una de las páginas del último libro de Kertész,La última posada, que llegó a mis manos, traducido por Adan Kovacsics, apenas unas semanas después de su muerte. Esa vez lo leí de un tirón en un vuelo de ocho horas en el que no hice casi nada más. No vi películas ni escuché música. Solo leía y leía, primero a la luz de un largo día solar y luego bajo la lámpara que solo me alumbraba a mí en la cabina sumergida en la oscuridad. La última posada es un híbrido de diario y de tentativas de ficción, una poderosa invención literaria y un documento amargo sobre la depresión y la vejez, sobre el trastorno de un éxito desmedido que aparta al escritor de sí mismo y en medio de los agasajos y las condecoraciones y la grandilocuencia somnífera de los discursos le hace añorar, con secreta exasperación, el tiempo en que era un desconocido dueño de sí mismo y no tenía nada que lo distrajera de la literatura.
Leer ese libro durante tantas horas seguidas, en el encierro de un avión, me contagia su maleficio. En Imre Kertész, como en tantos depresivos, la lucidez sobre la propia condición y sobre lo sombrío del mundo se transforma en un tormento obsesivo y estéril. El espanto ante los brotes de antisemitismo en Europa, la herida de ser desdeñado y atacado cruelmente en su propio país, derivan a veces en irrespirable paranoia. En un insomnio que los fármacos aletargan pero no alivian, regresan los fantasmas y la memoria se contamina de remordimiento, y la conciencia de miedo al porvenir, a la vejez que ya avanza, a la fatiga de los aeropuertos y los honores y de los compromisos que el escritor no tiene fuerza de voluntad para rechazar.
Kertész anota sus malestares y su desánimo en vísperas de ese viaje a Nueva York en el que yo fui a verlo. Pero también se deleita escribiendo sobre la belleza de la ciudad vista desde una habitación alta en el hotel Plaza, frente a Central Park, y sobre las conversaciones y las cenas con András Schiff. La depresión es un estado intermitente que no excluye el aprecio por los placeres de la vida, la simple realidad asombrosa del mundo. Kertész transita de un extremo a otro como sobre una plataforma inestable. Disfruta de Berlín y de la sensación liberadora de haber salido de Hungría, y al mismo tiempo toma nota de cualquier artículo injurioso que se haya publicado sobre él en Budapest. Después de una vida de anonimato y pobreza en una dictadura, se complace en la libertad europea y en las ventajas del bienestar que le permite el éxito. Pero por dentro está siempre el hocico de aquel perro negro del que hablaba Churchill, el “perro que ni me deja ni se calla” de Miguel Hernández, la negrura parásita que es más efectiva porque sabe alimentarse de los motivos racionales para la pesadumbre.
">Cuantos más premios y condecoraciones caen sobre él, cuantos más discursos noblemente sonoros sobre la literatura y sobre la condición humana se siente obligado a pronunciar ante dignatarios y asambleas, más siente Imre Kertész la mordedura de la depresión y la rareza de su propio destino. “Así son los últimos días”, escribe, dominado por una sospecha gradual de impostura: lo celebran como a un gran escritor, pero ya casi no escribe nada que le parezca valioso; ven en él a los judíos perseguidos y aniquilados de Europa, pero él, que no habla hebreo ni practicó nunca el judaísmo, sabe que lo único que lo hizo sin remedio judío fue la persecución. Y a pesar de todo, aunque el párkinson hace que le tiemblen cada vez más las manos, se levanta en mitad de la noche, enciende el portátil y se pone a escribir." Babelia , El País, 23.09.2016

domingo, 25 de setembro de 2016

Ao Domingo Há Música

                             La plus grande faiblesse de la pensée contemporaine 
                             me paraît résider dans la surestimation extravagante 
                             du connu par rapport à ce qui reste à connaître.
                                                                         André Breton  (1896-1966)
                               
                               L'histoire du passé, c'est l'histoire de toutes les 
                               vérités que l'homme  a délivrées.
                                                                          André Gide, (1869-1951)
Se o tempo alterou o primado da Arte, da Literatura , da Canção , da Língua Francesa no mundo , o sabor de quem as conheceu perdura.
O francês é uma língua que sempre me foi eufónica.  Ler, falar e escutar em francês é um prazer que se repete,  sem prazo  e limite.
Neste último domingo de Setembro,  o amor , o talento, a voz  surgem em francês.
À vous. Jouissez-les.

C'est en septembre

C'est en septembre
Quand les voiliers sont dévoilés
Et que la plage tremble sous l'ombre
D'un automne débronzé
C'est en septembre
Que l'on peut vivre pour de vrai
Gilbert Bécaud, uma das notáveis vozes da canção francesa , em " C'est en Septembre",  um poema que  evoca o fim do Verão.
Cet amour
Si violant
Si fragile
Si tendre
Si désespéré

Cet amour
Beau comme le jour
Et mauvais comme le temps
Quand le temps est mauvais

Cet amour si vrai
Cet amour si beau
Si heureux
Si joyeux
Et si dérisoire

Tremblant de peur comme un enfant dans le noir
Et si sûr de lui
Comme un homme tranquille au milieu de la nuit
Cet amour qui faisait peur aux autres
Qui les faisait parler
Qui les faisait blêmir

Cet amour guetté
Parce que nous le guettions
Traqué, blessé, piétiné, achevé, nié, oublié
Parce que nous l'avons traqué, blessé, piétiné, achevé, nié, oublié

Cet amour tout entier
Si vivant encore et tout ensoleillé
C'est le tien
C'est le mien
Celui qui a été
Cette chose toujours nouvelle
Et qui n'a pas changé

Aussi vrai qu'une plante
Aussi tremblant qu'un oiseau
Aussi chaude
aussi vivante que l'été
Nous pouvons tous les deux aller et revenir
Nous pouvons oublier et puis nous rendormir
Nous réveiller, souffrir, vieillir
Nous endormir encore
Rêver à la mort
Nous éveiller, sourire et rire
Et rajeunir
Notre amour reste là!

Têtu comme une bourrique
Vivant comme le désir
Cruel comme la mémoire
Bête comme les regrets
Tendre comme le souvenir
Froid comme le marbre
Beau comme le jour
Fragile comme un enfant

Il nous regarde en souriant
Et il nous parle sans rien dire
Et moi, je l'écoute en tremblant

Et je crie!
Je crie pour toi
Je crie pour moi
Je te supplie
Pour toi, pour moi 
Et pour tous ceux qui s'aiment
Et qui se sont aimés

Oui, je  crie
Pour toi pour moi 
Et pour tous les autres que je ne connais pas
Reste là
Là où tu es
Là où tu étais autrefois
Reste là
Ne bouge pas
Ne t'en vas pas!

Nous qui sommes aimés
Nous t'avons oublier
Toi ne nous oublie pas
Nous n'avons que toi sur la Terre
Ne nous laisse pas devenir froids

Beaucoup plus loin
Toujours et n'importe où
Donne nous signe de vie
Beaucoup plus tard 
Au coin d'un bois
Dans la forêt de la mémoire
Surgis soudain
Tends-nous la main
Et sauve nous

Sauve-nous...
Jacques Prévert

O talento e a voz inconfundível  de Serge Reggiani, em  Cet Amour, um belo poema de Jacques Prévert . O  registo  foi extraído do Álbum Venise n'est pas en Italie (1977)de Reggiani.
Ce soir, mon amour, je ne t'aime plus,
Tu es plus loin que la distance qui nous separe
Et d'autant plus absente que tu n'es nulle part,
Plus étrangère que la première venue...

Ce soir, mon amour, je ne te cherche plus
Parmi mes souvenirs, au fond de ma mémoire.
Je ne t'attends plus sur le quai d'aucune gare,
Je me souviens a' peine t'y avoir attendue...
Georges Moustaki

Serge Reggiani , em  ''Ce soir, mon amour'' , uma linda canção de Georges Moustaki, (1973)

Um das grandes vozes da canção francesa , Edith Piaf, no inesquecível L'Hymne à l'amour.

sábado, 24 de setembro de 2016

Dizem que é Outono


Efeitos Secundários

É bom estarmos atentos ao rodar do tempo
O outono por exemplo tem recantos entre 
dia e noite ao pé de certos troncos indecisos
cercados um por um de sombras envolventes

Rente às árvores vamos, húmidos humildes
Dizem que é outono. Mas que época do ano
toca nestas paredes que roçamos
como gente que vai à sua vida
e não avista o mar, afinal símbolo de quanto quer,
ó Deus, ó mais redonda boca para os nomes das coisas
para o nome do homem ou o homem do homem?

Banho lustral de ausência é este tempo 
de pés postos na terra em puro esquecimento
E vamo-nos perdendo de nós mesmos, vamos
dispersos em bocados, vítimas do vento
ficando aqui, ali, nalgum lugar que amamos
Nada mais do que terra há quem ao corpo nos prometa 
Quem somos? Que dizemos?
          Reúna-nos um dia o toque da trombeta
Ruy Belo, in  Sete Coisas Verdadeiras - Boca Bilingue,  Ed. Assírio & Alvim, p 45

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

O luto, a dor de quem fica

                 
                                          Le deuil: réaction à la perte d'un être aimé
                                                                                    Sigmund Freud
A morte tem chegado neste tempo último e, com  ela, redobra-se a soberana clarividência da vulnerabilidade, da volatilidade   da nossa aprazada permanência. Têm sido  tantos os que partem e que pensávamos sempre  entre nós. Sentir a morte daqueles que amamos , daqueles que admiramos, daqueles que nos tocaram, daqueles que cresceram connosco é sentir a  dor que sufoca e fragiliza. Uma dor tão dorida que o luto se apodera de nós e de  tudo o que nos rodeia. E quando o amor sempre foi celebrado , todos os  caminhos  se fecham e apenas a evocação do outro permanece.  É a fulminante incerteza  . É a perda de um norte,  o  ruir de um  chão e a singular visão de um futuro indesejado. 
Vários escritores têm escrito sobre a morte, sobre o luto que provoca em quem fica. Um estado de sofrimento que exige solidão, recato, afastamento.Uma escrita intima , dolorosa  fecundada no âmago da perda.
Eugénio Lisboa  publicou, no JL do final de Agosto ( nº 1197) , algumas entradas de um diário de luto, sob o título de Páginas do diário de um luto.  Um registo pungente em memória da mulher, Maria Antonieta,  que acabara de falecer. A dor ,  a angústia da ausência do ser amado perpassa insistente e dilacerante em todas as páginas. Uma ausência que surge abrupta  e que aniquila  pela  trágica e evidente certeza . A partida  de quem  foi a constante e cúmplice presença ao longo de uma vida  é  quase um abandono inverosímil mas real.

S. Pedro do Estoril , 3 de Agosto
(...)Aconteceu o inconcebível: partires, deixares-me  sem ti. Mas partiste , no teu estilo próprio: elegante , sem alarde, determinada.(...)
Vale d'El Rei, Lagoa, 4 de Agosto
Parece-me cada vez mais inconcebível que a MA nos tenha deixado ( me tenha deixado). Saberei viver sem ela? Será viver sem ela - viver?
"Ma mère s'éloigne doucement", ao fim de 13 anos de nos ter deixado. "Doucement, mais elle s´"eloigne". Irá acontecer o mesmo à MA? Não, porque não viverei muito tempo. Mas só um pouco que fosse, esse éloignement, martirizar-me-ia. O afastamento pode ser terapêutico, mas rejeito-o com pavor e indignação.

O luto pode ser  uma "região atroz" que aprisiona  e da qual não se quer evadir, nem se deseja libertar.   
A dor imparável e aliada  cresce com a ausência nos dias que se seguem.E  essa dor passa a ser nossa  porque nos  toca profundamente, sem permissão e resistência. 

Vale d'El Rei, Lagoa, 6 de Agosto
(...) Estás em tudo e em todo o lado. E, ao mesmo tempo,  não estás. Este teu não estar, não estando, é o meu perpétuo tormento.
(...) Tudo , neste momento, me reconduz a ti. Não há nada em que não estejas.
Só tinha desejado uma coisa:  viver mais dois ou três dias  do que tu, tal era o meu medo de te deixar sozinha e diminuída. Vivia literalmente entre dois medos : o de ir antes de ti e o de ir depois de ti. São estas as escolhas  terríveis  da nossa idade: ir antes ou ir depois. Qual das escolhas é a pior? Não há imaginação que decida.(...)
S. Pedro do Estoril, 9 de Agosto
De regresso a casa, olho para uma estante: cada livro, cada objecto liga-me a um lugar onde foi adquirido - contigo. Um lembra-me Edimburgo, outro, Londres, outro, ainda, Estocolmo. Não é possível separar-me de ti.

A separação, o tormento de quem fica. A impossibilidade de esquecer, de não ter  o mundo onde tudo era a dois. Quer lembrá-la todos os dias. É a sua memória viva e dela não pretende abdicar. Exige-se só, apenas com ela.
Escrita íntima e dolorosa. Bela no desenho do sentir e na comoção que enforma as palavras. 
Eugénio Lisboa está de luto e, com ele,  ficamos todos nós. 
Roland Barthes  iniciou  também  um "Journal de deuil", no   dia seguinte ao da morte de sua mãe, 25 de Outubro de 1977 e terminou-o a  15 de Setembro de 1979.Tinha cuidado da mãe, ao longo da doença que a vitimou. Entregou-se inteiro a essa missão. Com o seu desaparecimento, tudo acabou. A  morte da mãe trouxe-lhe um sofrimento intenso e inseparável. Não a queria esquecer. Não queria regressar ao tempo em que era ela que cuidava dele. Queria manter as limitações que a doença da mãe lhe tinha imposto. Não pretendia os ritos do consolo: os pêsames, os remédios, as viagens... Queria recordá-la para sempre.
"27 de Outubro
(...)
Cada manhã, por volta das seis e meia, lá fora no escuro, o ruído de ferragens das latas de lixo.
Ela dizia com alívio: a noite finalmente acabou (tinha sofrido durante a noite, sozinha, coisa atroz).
(...)
Todos calculam - eu o sinto - o grau de intensidade do luto. Mas é impossível (...) medir quanto alguém está atingido por ele.
29 de Outubro
Ideia - assombrosa, mas não desoladora - de que ela não foi "tudo" para mim. Sem ela , eu não teria escrito uma obra. Desde que eu  cuidava dela, há seis meses, efectivamente ela era "tudo" para mim, e esqueci completamente que havia escrito. Eu estava totalmente por conta dela. Antes, ela  fazia-se transparente para que eu pudesse escrever.
(...)
Tomando estas notas, confio-me à banalidade que há em mim.
(...)

Os desejos que tive antes da sua morte (durante  a sua doença) agora não podem mais ser realizados, pois isso significaria que é  a sua morte que me permite realizá-los - que  a sua morte poderia ser, em certo sentido, libertadora em  relação a meus desejos. Mas a sua morte mudou-me, já não desejo o  que desejava." Roland Barthes, in " Diário de luto", Edições 70

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Festival Literário de Óbidos começa hoje

"Há festa em Óbidos: o FOLIO começa esta quinta-feira
De 22 de Setembro e 2 de Outubro, a vila de Óbidos volta a transformar-se numa gigantesca festa do livro, com exposições, debates e concertos. Naipaul e Salman Rushdie são os grandes nomes deste ano.
O FOLIO — Festival Literário Internacional de Óbidos regressa esta quinta-feira e, até 2 de Outubro, promete transformar a vila literária num centro cultural onde os livros ocupam o papel central. No ano em que se assinalam os cinco séculos da obra-prima do inglês Thomas More, não faltarão também conversas em torno da Utopia e das utopias.
Este ano o festival vai começar fora das muralhas da vila, com o “Comboio Literário“. Para que não haja desculpas para faltar, o FOLIO associou-se à CP e organizou viagens diárias — com partida da Estação do Rossio, em Lisboa, às 10h25 e 17h55 — que prometem ser uma extensão do programa. A bordo, haverá poemas, livros, workshops e os próprios protagonistas do FOLIO. Uma vez chegados à vila literária, a organização terá ao dispor dos visitantes transportes que farão a ligação entre a estação e o espaço do festival.
O regresso a Lisboa, feito a partir da estação de comboios Óbidos, acontece todos os dias às 15h16 e 00h36. Os bilhetes custam entre 5 (só de ida) e 9,5 euros (ida e volta), e dão direito acesso a 50% de desconto na compra de uma entrada para o FOLIO. É que, apesar de muitas iniciativas serem de entrada livre, é preciso comprar bilhete para assistir a alguns eventos, como as Mesas Redondas e os concertos.
As entradas custam entre 5 (conversas com escritores) e 12 euros (espectáculos musicais), e podem ser adquiridos previamente através da Bilheteira Online. Se está indeciso sobre o que ver na edição deste ano do FOLIO, o Observador seleccionou alguns dos destaques da edição deste ano:
1- À mesa com escritores
Um dos eventos centrais do festival literário de Óbidos são as Mesas Redondas, onde se juntam escritores nacionais e internacionais consagrados para conversarem sobre literatura e reflectirem sobre temas como a memória, utopia, as novas tendências e os novos talentos. Entre os mais de 50 nomes presentes, destacam-se o o Prémio Nobel da Literatura Vidiadhar Surajprasad Naipaul, o islandês Jón Kalman Stefánsson e o britânico Salman Rushdie:
•V.S. Naipaul nasceu em 1932 em Trinidad e Tobago, mas passou grande parte da sua vida em Inglaterra, onde trabalhou como jornalista para a BBC. Recebeu o Prémio Nobel da Literatura em 2001, por “ter unido a narrativa perspicaz e o escrutínio incorruptível em obras que nos compelem a perceber a presença das histórias reprimidas”. O autor vai estar à conversa esta quinta-feira, 22 de Setembro, com o jornalista José Mário Silva.
•Stéfansson, um dos mais importantes nomes da literatura europeia contemporânea, vai discutir no sábado, 24 de Setembro, “a nova literatura nórdica e as razões do fascínio que vem suscitando” com o escritor José Riço Direitinho. O escritor islandês é conhecido pela trilogia que iniciou em 2007, com Paraíso e Inferno, publicada em português pela Cavalo de Ferro.
•Rushdie, autor conhecido pelo livro Os Versículos Satânicos, vai conversar no dia 30 de Setembro (próximo sábado) com Clara Ferreira Alves. O britânico lançou há pouco tempo um novo livro, Dois anos, oito meses e vinte e oito noites, editado em Portugal pela Leya.
O FOLIO irá ainda contar com presença de Juan Pablo Villalobos, considerado um dos grandes autores da literatura mexicana. Com obras traduzidas em mais de dez línguas, o seu romance de estreia, Down the Rabitt hole, foi finalista do Guardian First Book Award de 2011. Em Óbidos, Villalobos irá discutir, no domingo (25 de Setembro), “os novos rumos para as literaturas sul-americanas” com o brasileiro Luiz Ruffato. A conversa será moderada por Isabel Lucas.
Mas não só de escritores estrangeiros se faz o FOLIO. Entre os muitos autores portugueses que estarão presentes, destacam-se nomes como Afonso Cruz, Djaimilia Pereira de Almeida, Jacinto Lucas Pires, Alexandra Lucas Pereira ou Manuel Alegre. A discutir “Literatura e Teatro” estarão já este sábado, 24 de Setembro, Luísa Costa Gomes e Jacinto Lucas Pires. No dia seguinte, Sérgio Godinho, Aline Frazão e Pierre Aderne falarão sobre o tema “Escrevendo canções, cantando estórias, construindo utopias”.
2 - Que “se faça poesia” por Ruy Belo
O penúltimo dia do festival de Óbidos (1 de Outubro) será dedicado a Ruy Belo. Entre as várias iniciativas de homenagem ao poeta e ensaísta português, que morreu em 1978, conta-se a exibição de um documentário de Nuno Costa Santos e Fernando Centeio, Ruy Belo, Era uma Vez, e do filme de casamento do poeta com Teresa Belo. O programa especial inclui também uma exposição de fotografia da autoria de Duarte Belo, Tempo pintado, filho do poeta, e o lançamento da reedição de Boca Bilingue, editado originalmente há 50 anos. A apresentação será feita pelo poeta Gastão Cruz.
Ao longo do dia, haverá várias leituras de poemas — primeiro às 14h30, por várias personalidades, nomeadamente por Luís Miguel Cintra, e depois às 15h por António Feijó.
3 - Teatro, cinema e leituras encenadas
A pensar nos mais pequenos, o programa da FOLIO Ilustra inclui este ano uma peça para bebés. Criado a partir de alguns poemas de Fernando Pessoa, “Afinal o Caracol” é um espectáculo que, de uma forma simples, pretende evidenciar o prazer da leitura. Com a atriz Cristina Paiva, com música de Joaquim Coelho e ilustrações de Mafalda Milhões.
Para os mais crescidos, haverá duas peças — “Seu Portuga e Língua Portuguesa” (dia 23, às 16h), com os atores Josiane Ferreira e Carlos Lima, e “Um Auto para Jerusalém” (dia 29, às 21h30), inspirada na obra homónima de Mário Cesariny. A encenação é de Luís Costa.
No primeiro dia do FOLIO será exibido, às 17h, o filme Cartas da Guerra, de Ivo Ferreira, que chegou aos cinemas no início do mês de Setembro, e, a 27 de Setembro O Estranho Caso de Mário de Sá-Carneiro, de Paulo Seabra.
A programação de cinema do festival inclui também três filmes do realizador Miguel Gonçalves Mendes — Autografia (2004), sobre Mário Cesariny, Curso de Silêncio (2008), sobre Maria Gabriela Llansol, e Nada Tenho de Meu (2012), com João Paulo Cuenca e Tatiana Salem Levy. Da filmografia do realizador português ficará apenas de fora José e Pilar (2010), sobre José Saramago e Pilar del Río, que foi exibido na edição de 2015 do FOLIO.
Entre as várias leituras encenadas, encontra-se “Mário de Si”, uma perfomance coordenada por Pedro Giestas inspirada na correspondência entre Fernando Pessoa e Mário de Sá-Carneiro, e “Três Exemplos das Novelas Exemplares”, excertos de obras de Miguel de Cervantes lidas pelos Artistas Unidos.
Numa altura em que se assinalam os 400 anos da morte de William Shakespeare, o festival terá ainda uma leitura encenada dos solilóquios de Hamlet — “como queiram de William Shakespeare” —, coordenada por Beatriz Batarda. E porque este ano também é o ano da Utopia, Rui Tavares fará uma leitura comentada da obra de Thomas More.
4 -As artes plásticas e a literatura
Na programação deste ano da FOLIA, um festival dentro do festival, as artes plásticas ganharão um outro folgo, com exposições, instalações e outras iniciativas. Uma parceria com o Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA) permitir levar à vila de Óbidos uma reprodução em tamanho real de “As Tentações de Santo Antão”, de Hieronymus Bosch. A iniciativa pretende assinalar os 500 anos da morte do pintor, cujas obras são uma das grandes atrações do MNAA.
O festival literário irá receber também uma exposição com vários trabalhos do fotógrafo Carlos Freire. O brasileiro, sediado em França, teve a oportunidade de fotografar alguns dos nomes mais ilustres do século XX, entre os quais se destacam os escritores Marguerite Yourcenar, Samuel Beckett, Roland Barthes e Jorge Luis Borges. E todos eles estarão expostos em Óbidos.
Para além de uma exposição com ilustrações de Afonso Cruz, a FOLIA irá também mostrar desenhos, gravuras e serigrafias da autoria de Júlio Pomar, que durante 50 anos pintou Quixotes. A iniciativa, realizada em parceria com a Fundação Júlio Pomar e o Atelier-Museu Júlio Pomar, pretende assinalar os 400 anos da morte de Miguel de Cervantes, autor de Dom Quixote de La Mancha.
A programação da FOLIA irá ainda incluir uma instalação de Rui Horta — “LÚMEN”– em torno da ideia de utopia, que ficará patente em Óbidos até ao final do festival.
5 - Também há música em Óbidos
A cantora Marta Hugon juntou-se ao compositor Bena Lobo para criar “São Bonitas as Canções”, um tributo a Edu Lobo. Filho da geração da Bossa Nova, Lobo ajudou a escrever, juntamente com Chico Buarque, Vinicius de Moraes e Tom Jobim, parte da história da música brasileira. O concerto está marcado para quinta-feira, 22 de Setembro, às 22h, na cerca do Castelo de Óbidos.
No dia seguinte, Sérgio Godinho será acompanhado ao piano por Filipe Raposo. Uma semana depois, a 29 de Setembro (quinta-feira), Lívia Nestrovski e Fred Pereira irão apresentar um “repertório utópico”, que incluirá Kurt Weil, Chico Buarque e Amália. Da cerca do Castelo de Óbidos, os dois músicos irão seguir para o Teatro São Luiz, em Lisboa, onde irão actuar no dia 1 de outubro.
A 30 de Setembro, será a vez de Júlio Resende apresentar o novo projecto “Alexander Search”, poemas musicados de Fernando Pessoa interpretados por Salvador Sobral. O fadista Camané irá fechar o festival com um concerto fora do vulgar — em vez de fado, o cantor irá interpretar canções de Tom Jobim, músico que sempre admirou “desde que oiço música”, como admitiu à organização do FOLIO. A actuação está marcada para as 22h, na cerca do Castelo de Óbidos.
O FOLIO decorre na vila de Óbidos entre os dias 22 de Setembro e 2 de Outubro. Os bilhetes para alguns eventos custam entre 5 e 12 euros. O programa completo pode ser consultado aqui." (Observador)

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quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Pela paz

Ode à paz
Pela verdade, pelo riso, pela luz, pela beleza,
Pelas aves que voam no olhar de uma criança,
Pela limpeza do vento, pelos actos de pureza,
Pela alegria, pelo vinho, pela música, pela dança,
Pela branda melodia do rumor dos regatos,

Pelo fulgor do estio, pelo azul do claro dia,
Pelas flores que esmaltam os campos, pelo sossego dos pastos,
Pela exactidão das rosas, pela Sabedoria,
Pelas pérolas que gotejam dos olhos dos amantes,
Pelos prodígios que são verdadeiros nos sonhos,
Pelo amor, pela liberdade, pelas coisas radiantes,
Pelos aromas maduros de suaves outonos,
Pela futura manhã dos grandes transparentes,
Pelas entranhas maternas e fecundas da terra,
Pelas lágrimas das mães a quem nuvens sangrentas
Arrebatam os filhos para a torpeza da guerra,
Eu te conjuro ó paz, eu te invoco ó benigna,
Ó Santa, ó talismã contra a indústria feroz.
Com tuas mãos que abatem as bandeiras da ira,
Com o teu esconjuro da bomba e do algoz,
Abre as portas da História,
                               deixa passar a Vida! 

Natália Correia, em "Inéditos (1985/1990)". 

Paraliteratura?

Num tempo em que muitos dos escaparates de algumas Livrarias e das grandes superfícies comerciais exibem os livros escalonados pela quantidade de exemplares vendidos, os célebres top 10 ou top 20, interrogamo-nos, com excessiva estranheza, por que não figuram outros autores e outros livros. Os escritores, que admiramos, estão expostos em estantes  mais discretas. Obrigamo-nos a procurá-los num lugar mais recôndito da Livraria.
Por que razão se destacam os livros por esse critério? Será que ser conhecido socialmente dá notoriedade e grandeza a uma escrita? Terá a máquina publicitária  a capacidade de transformar um   informe registo escrito num best seller? 
Há um leque de livros cujos autores são figuras dos Media, desportistas, videntes, figuras do  denominado  jet set, etc. Os livros que produzem apostam na exposição mediática dos seus autores. Que tipo de serviço prestam as Editoras publicando estes livros? Servirão a Cultura? Defenderão a Literatura ou olharão apenas para os próprios interesses comerciais  tendo como finalidade primeira o  aspecto económico, o lucro?
Propusemo-nos abordar este conceito de texto escrito a que  chamam Paraliteratura. Para o efeito, consultámos o Dicionário de termos literários. 
PARALITERATURA
"Termo com que se designam todas as formas não canónicas de literatura (auto-ajuda, folhetins romanescos, literatura cor-de-rosa, romance ultra-light, literatura de cordel, literatura oral e tradicional, banda desenhada, literatura marginal, pornográfica, policial e popular, etc.) que em regra não são aceites por certos eruditos, certas instituições académicas ou certos meios de comunicação. A vantagem da designação paraliteratura (em vez de infraliteratura) reside no tom não depreciativo que o prefixo para- tem, uma vez que remete para tudo aquilo que fica na margem de e não necessariamente tudo aquilo que não entra na categoria de um clássico, por exemplo. Também não fica garantido que um género paraliterário não se torne numa dada época um género maior de literatura. Os géneros principais (romance, textos de poesia e textos de teatro) não foram géneros maiores em todas as épocas. O que permanece hoje é a ideia de que todo o texto que se refugie numa categoria não convencional é porque pertence a um género marginal de literatura a que convém então o nome de paraliteratura. O problema é que muitas vezes esta classificação resulta da aplicação arbitrária de um critério de qualidade que não corresponde inteiramente ao rigor de uma classificação científica. Um romance policial, por exemplo, pode ter grande qualidade, pode ser uma obra-prima e pode rivalizar com qualquer outro tipo de romance no que respeita ao domínio das mais apuradas técnicas literárias. Ora, daqui se infere que atribuir a todos os romances policiais a categoria de paraliteratura pode ser uma atitude redutora e ideologicamente reprovável. Esta designação corre os mesmos riscos de todas as sub-classificações do texto literário que estão à mercê do juízo de comunidades de leitores. Por outro lado, pode-se argumentar que o que faz a literatura ser maior ou menor não é o juízo do leitor, porque a obra em si mesma transporta uma literariedade que é incompatível com juízos de valor subjectivos. Qualquer adversário da estética da recepção defenderá esta posição. Como a realidade nos mostra que muitas vezes a literatura existe enquanto for entendida como produto de difusão, desprezar o papel do leitor na decisão do que deve ser literatura e o que deve ser paraliteratura pode ser inconsequente. O caso da ficção científica pode ser pertinente: o género fixou-se de tal forma como espaço literário autónomo e perfeitamente resguardado de preconceitos em relação à sua índole literária que se torna difícil aceitar hoje que se trate de paraliteratura como sempre foi visto."
Carlos Ceia: s.v. “Paraliteratura", E-Dicionário de Termos Literários (EDTL), coord. de Carlos Ceia
Bibliografia:
Alain-Michel Boyer: La Paralittérature (1992); Bernard MOURALIS, As Contraliteraturas (Coimbra, 1982); Daniel Couégnas: Introduction à la paralittérature (1992); Myrna Solotorevsky: Literatura¾Paraliteratura: Puig, Borges, Donoso, Cortazar, Vargas Llosa (1988); Marc Angenot et al.: La Paralittérature: textes (1974); Noel ARNAUD, Francis Lacassin e Jean Tortel (dir.), Entretiens sur la paralittérature (1970).