terça-feira, 15 de março de 2016

Diário de Vergílio Ferreira

"Todos os escritores (artistas) são infelizes - leio de vez em quando, não sei onde. Mas afirmá-lo o próprio não será petulância? um modo de se dizer merecedor de compaixão? um modo de 'denegar' a sua grandeza? ou a convicção dela? Das muitas injúrias com que me vão medalhando, há duas que me intrigam - a de que sou um «vaidosão» e a de que sou um «invejoso». Porque se me revejo em comprazimento e subsequente vaidade, como posso ser invejoso? E se sou invejoso, como é que posso ser vaidosão? As duas coisas é que não. É portanto favor escolherem. (...) Retornemos à primeira frase - todos os escritores são infelizes. Porque é verdade. Mas se eu disser que sou infeliz é dizer-me com direito a queixar-me, como se não houvesse mais infelizes sobre a Terra e a supor implícita a afirmação de que sou «escritor». De modo que o melhor é não dizer nada ou sequer pensá-lo. Ou pensar que sou realmente infeliz e deixar de fora do pensamento qualquer outra conversa. Ou admitir que todo o artista é um desgraçado que se cumpre em encantamento nessa desgraça. Ou que se é feliz nos raros instantes em que se levanta por sobre a infelicidade que lhe coube. Mas não insisto porque corro o risco de me sair tudo ao contrário. E porque se não há-de ser simplesmente vaidoso do que se quer fazer, não tendo por isso inveja a ninguém que não queira fazer o mesmo, sentir-se todavia arrasado de sofrimento porque se não foi capaz, como é fácil verificá-lo ao rever-se o que se fez? Todo o artista é infeliz. Dando-lhe as voltas que se quiser, acaba talvez por estar certo. "
Vergílio Ferreira, in Conta-corrente, nova série, vol IV, Bertrand Editora, p.179-180
Diário de Vergílio Ferreira - Ficcionalidade, "Intimismo", Cronologia.
Por JOAQUIM R. BENTO
RESUMO
Acabava Vergílio Ferreira o seu Conta - Corrente 4, quando nos ocorreu a reflexão que ora se publica, em sua memória. A mesma incide na problemática do estatuto ficcional da escrita diarística, em geral, e do diário de Vergílio Ferreira - que recentemente o destino interrompeu - em particular.
Surgiu este estudo de um episódio ocasional: a controvérsia que se gerou no seio do júri do Prémio da Casa Mateus, um concurso de ficção, a que foi apresentado o 3.º volume do diário de Vergílio Ferreira, Conta - Corrente 3.
Não sabia aquele júri se na ficção se poderia incluir a escrita diarística de Vergílio Ferreira, já que o diário, enquanto reflexo de factos históricos contemporâneos, parece não respeitar o carácter ficcional da obra literária.
No volume seguinte ( Conta - Corrente 4, pp, 113-114), Vergílio Ferreira contesta aquela relutância, argumentando que o diário não é, em relação a este aspecto, muito diferente do romance:
Um romance só muito raramente é pura construção imaginativa. (...) O meu romance Manhã Submersa é todo ele praticamente assente em factos "reais". E em alguns nem os nomes inventei. ( Referindo-se depois ao seu diário comenta:) Considerá-lo exterior à ficção literária é julgá-lo da família do Diário da República. Ora não é.
E o Conta - Corrente acabou por ser premiado, juntamente com Horácios e Coriácios, livro de poesia de Pedro Tamen. Mas a literatura autobiográfica apresenta-se paradoxal, em relação à antinomia realidade - ficção, como anota Lejeune:
« Par opposition à toutes les formes de fiction, la biogrephie et l'autobiographie sont des textes référentiels: exactement comme les discours scientiphique ou historique ...» (1975, p.36)
O diário de Vergílio Ferreira refere-se a pessoas e factos conhecidos e reais, localizáveis historicamente através da data que é a medida exacta do tempo e atributo do documento histórico. Onde reside então a ficção?
Se um romance pode assumir completamente a forma de diário íntimo, como distinguir estes dois géneros de produção literária?

Génese e evolução do diário íntimo
Se recuarmos até à origem do diário íntimo, verificaremos, com Gilot (1979,p.19), que a escrita diarística, até ao século XIX, tem fins imediatamente utilitários: o alívio do sofrimento, a preservação da personalidade, a autoformação ou simplesmente o prolongamento da memória: «.... gens qui écrivaient pour eux parce qu'ils avaient besoin d'écrire quelque chose, quelque part, (...) et non pas pour faire littérature».
Estes documentos pessoais constituem, na sua generalidade, o resultado de um circuito fechado de comunicação: Em grande parte dos casos, é arredada toda hipótese, por parte dos autores, de estes textos virem a ser lidos por outrem, muito menos de virem a ser publicados.
Na prisão, por exemplo, este género de escrita serve para aliviar a clausura, como explica Gilot (1978, p.2):
(o prisioneiro) désire l'enfer, s'il le croit, pour se voir en compagnie (...). Celle d'un assassin, d'un fou, d'un malade puant, d'un ours (...). Si le prisionnier est un homme de lettres, qu'on lui donne un écritoire et du papier, et son malheur diminue de neuf dixièmes.
O período da adolescência é particularmente propício à escrita diarística. Mas o adolescente, como refere Philippe Renard, numa comunicação dedicada a este tema, Étude sur trois journaux de jeunes filles (1978, p.298), também não escreve para publicar.
Os diários de adolescência constituem textos crípticos que servirão de refúgio, perante a incomunicabilidade com o adulto.
O carácter íntimo e secreto desta escrita resulta da natureza dos conteúdos que se escondem, por razões morais e sociais. Encerram-se então no cofre da consciência ou nas páginas de um diário.

Do "intimus" ao "externus"
A partir do século XIX, regista-se um interesse crescente por este género de escrita, e autores de renome começam a publicar os seus diários.
Desta evolução dá conta Aguiar e Silva (1979, p.1279), ao anotar que o diário íntimo do século XX já aparece claramente instituído como género literário. É procurado por um público numeroso e de póstumo passou a ântomo.
Atendendo às origens e à designação, o diário íntimo apresenta-se como uma escrita paradoxal: conciliando a divulgação com o "intimismo", como sublinha Renard (1978):
«Tout journal intime tend donc à se nier comme tel. (...) un journal intime ne devrais pas s'assimiler à aucune forme de littérature publiable» (Renard, 1978, p.298).
Com efeito o valor semântico de "intimo" (do superlativo latino intimus) não se adequa a escritas como o Conta - Corrente de Vergílio Ferreira: um diário que se destina a ser publicado e vendido e que, por isso, perde - necessariamente - o caracter "intimo".
Deveremos reconhecer, com Gilot (1978), que o diário deixou de ser «un dialogue avec soi» para se transformar num diálogo «de soi avec l'autre»: (...) il y a une présence imaginaire de l'autre à l'intérieur du journal» (p.21).
O diário moderno, como sublinha também Chocheyras (1978-a,p.219), tem tendência a voltar-se para o «exterior», para o diálogo com o público, reduzindo-se à designação o carácter "superlativamente interior" desta escrita.
É neste contexto que se enquadra o Conta - Corrente de Vergílio Ferreira:
Se puséssemos por escrito tudo o que nos passa por dentro, seríamos monstruosos. Sou absolutamente incapaz de me «confessar» seja a quem for, nem que seja a mim próprio (...) se não me ponho nu na rua, não é por medo (...). É um problema de decência, de respeito por nós (...) (Conta - Corrente 1, p. 43).
E estabelece, a este respeito, um sugestivo contraste com o romance: «Um romance é um biombo: a gente despe-se por detrás» (Conta - Corrente 1, p.11). Reside aqui a derradeira diferença entre o diário e o romance - uma vez que este último se pode apoderar das características formais do primeiro:
« (...) tous les procédés que l'autobiographie emploie pour nous convaincre de l'authenticité de son récit, le roman peut les immiter et les a souvent immités (Lejeune, 1975, p.26).
No diário ocorre o que Lejeune denomina «pacto autobiográfico», i. é, a identidade de nome, de assinatura: o escritor assume o nome próprio da personagem, denunciando-se implícita - ou explicitamente, como acontece em Conta - Corrente 4:
«Abeira-se de mim um cavalheiro de meia-idade e pergunta-me: - É o escritor Vergílio Ferreira? - Sou.» (p.192).
Ora, se o romance se pode apropriar de todas as caracteristicas formais do diário, não consegue, contudo, estabelecer esta identidade de nome entre autor, narrador e personagem. Na assinatura dá-se uma aproximação imediata entre a instância que escreve e a instância que compra e que lê. Nela se estabelece uma forma particular de contacto entre o "graphe" e o "bios", respondendo às frequentes tentativas que o leitor empreende no sentido de «ver e tocar» o homem quotidiano (autor empírico), fazendo perguntas e pedindo autógrafos, «numa dimensão de imediatismo como não esteve na própria obra» (Conta - Corrente 4, p.195).
No diário, para além deste pacto autobiográfico, ocorre também um «pacto referencial» (Lejeune, 1975.p.329), em que se estabelece com o leitor uma espécie de contrato sobre o grau de "intimidade/referencialidade" que este último pode esperar.
Vergílio Ferreira deixa bem explicito que não pretende «despir-se» ou «confessar-se», e manifesta-o tantas vezes que provocou a atenção dos psicanalistas e o diálogo frequente com estes, no próprio diário. Na página 57 do 1.º volume, Vergílio Ferreira insiste: «Já o disse, não tenho queda para o "confesso", até porque implica sempre um pouco de abjeccionismo e de exibicionismo».
Considera que o seu diário está nas centenas de cartas aos amigos e «essas mesmas falsas» no que são respeite a «questões sérias», as quais podem, ainda assim, ser disfarçadas ou temperadas pelo gracejo.
Assim, no projecto do escritor não cabe a exteriorização da sua vida íntima e esta tendência revela-se cada vez mais acentuada, como se infere do início do 4.º volume: (p.9)
Sim. Vou começar (...) Mas na realidade é verdadeiramente um começo. Eliminar todas as referências ao banal quotidiano, reduzir-me ao que de si tem alguma significação (...) irei tentar outra coisa. Reflexões, impressões do que de importante possa ter acontecido, ideias que valha a pena existirem.
Neste volume são, com efeito, escassas as referências à vida pessoal do escritor: correspondência, viagens, conferências, leituras, vida familiar, etc. Predominam as reflexões sobre problemas existenciais comuns a todo o ser humano: vida, morte, velhice, Deus, etc. Assim o «eu» e o «agora», dão lugar ao universal e ao atemporal.
O Conta - Corrente não é, afinal, um espaço de intimidade, mas um espaço de comunicação com o leitor, incluindo no próprio texto respostas às reacções do público, como acontece no Conta - Corrente 4 (pp. 129 e 295). Tem objectivos bem diferentes dos textos utilitários designados por diários íntimos.
A data: cronologia ou estrutura?
O que caracteriza o diário, como sublinha Chocheyras (1978-b, p.225), é nele ser focado o «campo da actualidade», ao contrário do que acontece com a autobiografia, as confissões, memórias, etc., que se ocupam do passado.
Em textos de carácter imediatamente utilitário, a data tem como finalidade primordial situar os acontecimentos no tempo. Contudo, o Conta - Corrente segue a quotidianeidade dos registos, não dos eventos, como decorre do seu programa: «E se eu tentasse uma vez mais o registo diário do que me foi afectando?» (Conta - Corrente 1, p.11).
E se, nos primeiros volumes, os assuntos do dia detêm ainda um lugar de destaque, a partir do IV volume, o programa já é diferente: «Eliminar todas as referências ao banal quotidiano». (IV, p.9). E do programa passou à execução imediata: nos quatro dias seguintes limita-se a "redigir" esse programa, o que nada tem a ver com o acontecer diário. Em suma, salvo raras excepções, como a viagem à Grécia (p.216 ss) e ao Brasil (p.263 ss), o leitor não consegue surpreender qualquer relação entre a data e o conteúdo do enunciado: (1983, p.353)
«17- Setembro (Sábado). Porque a questão é esta: um dia que não escreva parece-me um dia esbanjado, um dia em que não paguei (...).
Ou então encontra apenas uma relação pretextual, que é a situação mais frequente: (p.204)
«22- Fevereiro (Terça). Chove. Bom tempo para reflectir. Sobre quê? Reflectir. Por exemplo (...)
A data deixou de ter o valor referencial que lhe cabia nos primeiros diários, em releção aos problemas quotidianos, para se transformar num artifício que confere uma organização aparente a esta escrita. Boerner (1978, p.219) cita Smith, a este propósito, para sublinhar que o diário é a anarquia:
«un demi-chaos (...): changez les morceaux de place, il n'en sortira jamais une statue, (...) l'auteur (...) a capitulé devant le probleme de la forme (...) une des impasses de la littérature.
A data surge, com efeito, como tentativa frustre de organização de textos fragmentários voltados tendencialmente para a pesquisa metafísica.
Philippe Renard (1978, p.297) pensa que esta escrita anárquica é própria de uma sociedade que tende para a massificação, para a esquizofrenia, para o delírio, para a desintegração do «eu».
Conta - Corrente não deixa de constituir também um conjunto assistemático de reflexões, aparentemente estruturadas através da datação.
Todavia, estas numerosas páginas transportam-nos até ao pulsar quotidiano do pensamento de Vergílio Ferreira, tornando mais viva a sua genésica presença na memória da comunidade literária.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
Aguiar e Silva, Vitor Manuel de (1986). Teoria da literatura. Coimbra: Almedina.
Aguiar e Silva, Vitor Manuel de (1978). Diário. In Verbo, Enciclopédia Luso-Brasileira, vol.6.
Chocheyras, Jackes (1978 a). Place du journal dans la littérature moderne. In Journal intime et ses formes littéraires. Geneve: Librairie Droz.
Chocheyras, Jackes (1978 b). Place du journal dans une typologie linguistique des formes littéraires. In Journal intime et ses formes littéraires. Geneve: Librairie Droz.
Genette, Gérard (1972). Figures III. Paris: Éditions du Seuil.
Gilot, Michel (1978). Quelques pas vers le journal intime. In Journal intime et ses formes littéraires. Geneve: Librairie Droz.
Lejeune, Philippe (1975). Le pacte autobiographique. Paris: Éditions du Seuil.
Reboul, Pierre (1978). Niveaux d'intimité dans les écritures de Georges Sand. In Journal intime et ses formes littéraires. Geneve: Librairie Droz.
Renard, Philippe (1978). Conclusions. In Journal intime et ses formes littéraires. Geneve: Librairie Droz.
Renard, Philippe (1978). Étude sur trois journaux de jeunes filles. In Journal intime et ses formes littéraires. Geneve: Librairie Droz.
Rustin, J. (1978). La religieuse de Diderot. In Journal intime et ses formes littéraires. Geneve: Librairie Droz.
Wellec, René e Warren, Austin (1955). Teoria da literatura. Europa-América.

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