segunda-feira, 22 de junho de 2015

O estado actual da literatura angolana

Talento, leitura e criatividade caminhos para o mundo das letras - Carmo Neto
Por Venceslau Mateus, Angop (19 Junho de 2015)
“ Luanda - O secretário-geral da União dos Escritores Angolanos (UEA), Carmo Neto, apontou, em entrevista exclusiva à Angop, o talento, leitura e a criatividade como elementos essenciais para quem quer entrar no mundo das letras.
Angop: Como caracteriza o estado actual da literatura angolana?
Carmo Neto (CN) - Já esteve pior. Agora a literatura angolana caminha melhor, quer em termos quantitativos como qualitativos. É verdade que temos ainda algum percurso a percorrer, mas estamos muito bem encaminhados. Melhorou a quantidade e a qualidade de livros literários no mercado. Devem baixar os preços dos livros. Que sejam inferiores ao custo de uma cerveja. Precisamos de mais livrarias e bibliotecas no país para melhor promoção do livro e da literatura angolana.

Angop: O preço do livro não está a contribuir também para que a juventude deixe de tê-lo como um amigo predilecto?

CN - É uma questão preocupante, porque a produção é cara. A UEA vende os livros abaixo do preço real, tendo em consideração o custo de produção. Os nossos livros infantis são todos vendidos a mil kwanzas, para incentivar os pais a comprá-los e ajudar os filhos a ganhar o gosto pela leitura, para se transformarem em bons técnicos no futuro. Mas é bom referir que a Lei de Promoção do Livro e da Leitura prevê que parte dos livros editados pelos escritores, isto é, 20 porcento, deve ser adquirida pelo Executivo, para a sua posterior distribuição às bibliotecas. É preciso fiscalizar a execução desta Lei, bem como a sua regulamentação ser exercida efectivamente.
É verdade que o livro deveria ser mais barato, por exemplo, que a cerveja, mas existem condicionantes que fazem com que seja vendido a um preço um pouco mais elevado. As famílias também jogam um papel fundamental neste processo, as creches, as escolas, os professores. Felizmente a lei da promoção do livro e da leitura acolhe todas estas situações de facto.
Angop: Até que ponto a Lei do Mecenato pode ajudar para que o livro chegue a um preço mais acessível ao consumidor final?
CN - Contribuirá e bastante, tendo em conta que garante alguns benefícios aos mecenas, tais como isenções ficais. A grande maioria das obras publicadas no mercado nacional são editadas em gráficas localizadas fora do país, trazendo consigo vários encargos e a execução prática da Lei do Mecenato pode ajudar a atenuar os gastos com a produção de livros.
Angop: Actualmente acusa-se a juventude de nada saber sobre a história de Angola... O que fazer para se mudar este quadro?
CN - Não podemos só culpabilizar a juventude. Temos de procurar saber o que os pais andam a fazer com os filhos. As creches, os professores nas escolas ensinam bem? O que existe em termos de programas escolares para o desenvolvimento intelectual da juventude? Como são aproveitados os tempos livres? O que temos actualmente é consequência de uma causa.
Para corrigir a juventude, temos antes que ver as causas. É preciso que os sociólogos possam ter a oportunidade de pronunciamento sobre a matéria, até porque são parceiros do Estado na realização de determinados programas, tendo em conta que o foco de estudo deles é a sociedade, como se movimenta e as razões disto ocorrer. Queremos corrigir a juventude, devemos saber primeiro quantas bibliotecas existem em Luanda, por exemplo. Quantas livrarias existem em cada município?
Não devemos olhar só para o Estado como o principal responsável por esta situação, já que o processo educativo de uma criança começa em casa. Portanto, a família tem uma quota parte de responsabilidade nesta tarefa. É necessário vincular a família nesta acção. O papel da família é também o dever de cuidar, de orientação do comportamento. O que melhor deve fazer. As famílias não devem pensar somente que o importante é a criança ler o catecismo, o que o catequista faz é bom, é orientação religiosa, mas também é necessário catequisar o filho para a leitura. São estes papéis que devem ter alicerces para serem fomentados. 
Agora vemos jovens que até na sua obra escrita têm talento, têm criatividade, mas não têm domínio na escrita. Algo falhou na formação da personalidade de jovens nestas condições.
Angop: A qualidade do produto colocado ao dispor dos leitores satisfaz as pretensões da UEA?
CN - É relativo. Há sempre excepções, mas a UEA está sempre atenta e procura ajudar e direccionar as pessoas para que coloquem ao dispor do público obras com a qualidade necessária e que contribuam no desenvolvimento psico-intelectual dos leitores. Às vezes, somos mesmo surpreendidos pela positiva, tendo em conta a qualidade temática e concepcional dos originais que nos chegam para serem editados. Mas, apesar de tudo, estamos satisfeitos com o produto que os nossos membros nos colocam à disposição.
Angop: Quanto custa editar um livro em Angola?
CN - Custa muito dinheiro. Tão caro assim que é melhor produzir fora do país, por exemplo no Brasil do que em Angola, onde pode chegar a custar duas ou três vezes mais. Aqui só produzimos por razões de emergência, de contrário é mesmo fazê-lo fora de Angola. Os livros infantis são muito mais caros, pois exigem um produto mais robusto e resistente. Tal situação poderia ser atenuada se houvesse, de facto, já uma maior receptividade em relação à Lei do Mecenato, que retira obrigações fiscais a quem patrocina actividades de âmbito cultural, em particular à produção de livros.  Felizmente, com os investimentos de algumas entidades, particularmente bancos, a Fundação Sol e o proveniente da dotação do Estado, a UEA procura satisfazer à procura do mercado.
Angop: Tem havido convivência entre a velha guarda e os jovens escritores?
CN - Tem. E vou-lhe dar dois exemplos desta convivência salutar. Na gestão do prémio Quem Me Dera Ser Onda, o patrono é o escritor Manuel Rui Monteiro e nós conversamos muito sobre os vários aspectos do prémio, as obras a serem editadas pela UEA, entre outros aspectos.
Com o escritor Boaventura Cardoso, que teve a ideia sobre o encontro nacional de escritores que estamos a institucionalizar, procuramos beber dele informações que nos ajudam a melhor conduzir os vários processos que temos. Há um diálogo com os membros da UEA que satisfazem a actual direcção.
O bom relacionamento entre a velha e nova geração de escritores e a actual direcção da UEA é tão satisfatória que tem havido um diálogo franco e construtivo, que leva a que se ventile a hipótese de se institucionalizar o prémio literário Uahenga Xitu, dar-se o nome de António de Assis Júnior à livraria da UEA. Fruto deste diálogo está também em estudo a hipótese de se institucionalizar o grande prémio UEA, com uma periodicidade bianual, com um valor de 50 mil dólares para o vencedor. A ideia é que os concorrentes tenham obras editadas pela UEA. Estou em crer que um dia a ideia será concretizada.
Já sentamos com o escritor Pepetela com quem abordamos outros projectos que vamos amadurecer. Há um diálogo permanente estabelecido com os mais velhos, como por exemplo o Fragata de Morais, entre outros, que têm acolhido de bom agrado as ideias da nova geração e acrescem outras para o bem da nossa organização.
Angop: O que é necessário para ser escritor e, acima de tudo, um bom escritor?
CN - É subjectivo. Mas primeiro talento, pois sem talento, por mais que se escreva, nunca será um bom escritor. Depois é necessário leitura, porque não se pode transformar aquilo que não se conhece. É essencial, porque permite chegar a um nível elevado de conhecimento que ajuda o candidato a melhor se preparar para decifrar os acontecimentos que o rodeiam. A magia da criatividade, da palavra e da escrita são aspectos essenciais para se ser um bom escritor.
Angop: Está no seu segundo mandato. Que análise faz deste período em que está à frente dos destinos da UEA?
CN - Muito mais produtivo relativamente ao período anterior, porque em razão da experiência acumulada outras situações vão se resolvendo. Falo das nossas makas à quarta-feira, edições de livros. Neste momento, a meio do mandato, já vamos muito para além de livros editados, durante o meu primeiro mandato. Isto é, mais de 50 títulos. As nossas acções de promoção da literatura angolana no estrangeiro também ganharam novo fôlego, com a participação em eventos internacionais. Poucos, infelizmente, por falta de verba necessária. Os livros editados pela UEA  encontram felizmente boa recepção em todo espaço onde são vendidos. Neste momento, todos estabelecimentos comerciais Kero comercializam muito bem livros editados pela União dos Escritores Angolanos, em todas as províncias, onde operam.
O prémio literário Quem Me Dera Ser Onda agora é nacional. Queremos com isto dizer que estabelecemos um vínculo de parceria com o Ministério da Educação, que leva os professores e coordenadores da disciplina de língua a promover e divulgar o regulamento do concurso literário nas mais recônditas escolas do país. E assim todos os estudantes interessados da faixa etária regulamentada, dos 13 aos 17 anos de idade participam.
Em termos de publicações, temos em agenda várias obras em parceria com a Leya (Texto Editores). Os lançamentos acontecerão entre Angola e Portugal e noutros países de língua oficial portuguesa. Estamos também a tratar da reedição de livros, cujos conteúdos preenchem os programas. Refiro-me a obras de Luandino Vieira, Óscar Ribas, António Jacinto, José Luís Mendonça, João Maiomona, Fragata de Morais, entre outros autores, que preencherão cerca de 40 títulos, no âmbito das reedições. É um projecto que está a ser realizado em parceria com a editora Letras. Brevemente sairão a público, tendo em consideração o início do ano lectivo.
Relativamente à promoção da literatura e dos escritores angolanos no exterior, a UEA tem apostado forte também no processo de tradução da literatura angolana em outras línguas, nomeadamente italiano, francês, inglês e alemão, árabe, espanhol, cujas antologias também em português serão encaminhadas para o Instituto de Literatura Universal, através da Faculdade de Letras da UAN. Temos agendada uma mesa internacional de literatura angolana. Estamos muito avançados no que diz respeito aos actos preliminares. Temos ainda em agenda inauguração da nossa livraria. Em resumo, vamos bem. Satisfaz as pretensões da actual direcção da UEA.

Angop: Há mais interacção entre a direcção da UEA e os escritores?
CN - Certo. Já o escritor Dario de Melo fez referência pública sobre este facto e também temos sentido maior interacção entre a UEA e a sociedade civil, na medida em que todas as actividades programadas contam com a presença de um vasto público. A maior parte dos prelectores são activos cidadãos de reconhecido mérito. Aliás, é notório o facto de se registar actualmente a existência de mais obras para editar e menos espaço para acolhimento de tais actividades no âmbito da programação da UEA.
A título de exemplo, devo dizer que, dentro de dias, receberemos cinco títulos infantis, nomeadamente da escritora Cremilda Lima, e três dos primeiros classificados do concurso literário Quem Me Dera Ser Onda. E teremos ainda o livro do vencedor do Prémio Sonangol de Literatura, bem como os livros da Colecção destinados ao sistema de ensino (10 títulos) e outros 10 que estão a chegar do Brasil. A actividade é, de facto, fluente, é activa e representativa, mas também esta interacção tem fundamentação. Nos últimos tempos, vendem bem os livros editados pela UEA. A par destas acções, a UEA tem também sabido proteger os seus membros, prestando os apoios necessários em questões de saúde, direitos de autor, sala para o lançamento das suas obras, entre outras.
Angop: Qual é a diferença entre um texto literário e um texto de especialidade, na sua opinião? 
CN - Devo dizer que o literário versa uso estético da linguagem. A ideia generalista de que tudo expresso em livro é literatura e que todo o autor de um livro é escritor não cabe nos nossos conceitos. Não cabe em nós, de forma alguma, atribuir o adjectivo de escritor aos autores de livros sobre biografias, literatura médica, jurídica, sociológica, linguística e que privilegiam marcas pessoais, opiniões, juízos, etc. Pelo menos, até este tempo e enquanto os conceitos e a fronteira entre o literário e não literário for visivelmente invisível, não os poderemos ver como escritores, com todo o respeito que merecem.
A UEA assume um conjunto de responsabilidades que lhe permitem granjear respeito e prestígio por meio da sua contribuição na regulação da qualidade da produção literária. Supõe-se que ali onde a UEA coloca o seu selo cultural existe não apenas qualidade, mas acima de tudo prestígio. Entretanto, porque o mundo da literatura não se regula com fronteiras físicas entre o estético e o não estético; literário e o não literário, tanto podemos estar a pecar por defeito ao não apoiar certas produções, como podemos estar a pecar por excesso ao apadrinhar obras julgadas literárias. Portanto, para nós, a literatura é ainda uma manifestação artística, cuja matéria-prima é a palavra.

Angop: Quantas obras são necessárias para que alguém possa ser considerado escritor e faça parte do grupo de membros da UEA? 

CN - É indefinível. Há autores que de forma extraordinária são escritores de mérito com uma obra apenas. Há alguns exemplos no mundo. Mas nós tratamos de casos ordinários. O candidato deve ter duas obras literárias publicadas, entre outros requisitos, recomendação de três escritores membros da UEA é indispensável. Temos recebido algumas candidaturas.

Angop: Já escreveu seis obras literárias. Sente-se um escritor maduro?
CN - Não. Não, porque continuo a escrever e à busca da melhor forma e conteúdo. O desempenho administrativo é uma actividade que perturba  a  criatividade artística, sobretudo no domínio da escrita, que deve ser permanente. Vou augurando pelo meu futuro na reforma. Espero que tenha tempo, para usufruir da leitura e da escrita. Aí sim, poderei amadurecer. Ainda estou em fase de crescimento.
Angop: O seu último livro foi publicado em 2007, a que se deve esta ausência prolongada do mercado literário?
CN - O compromisso com a UEA é uma de entre várias razões. Continuo a escrever sem publicar. A consciência impede-me de parir textos indigestos para o consumo público. É necessário criar, criar, mais em condições certas. 
Angop: A condição de secretário-geral da UEA impede de trabalhar nos projectos literários individuais? 
CN - A condição de secretário-geral da UEA perturba o labor criativo. O tempo funciona como um implacável semáforo de sentido proibido. E os partos quase sempre acabam em abortos. Há compromissos e prioridades que tenho que honrar em função do exercício do cargo. Auguro pela minha reforma para ganhar a liberdade de flutuar e com o tempo criar. Não quer dizer que não estou a escrever.
Angop: Quais são as suas principais fontes de inspiração?
CN - A vida e aquilo que nos inquieta a alma, o amor, as lágrimas, a riqueza e a pobreza, a política e a politiquice. Em livro fica o registo para a partilha com o eventual leitor.
Angop: Que mensagem quer deixar aos jovens escritores?
CN - Continuem a ler e escrever sempre, desde que se reconheçam no talento preferido. Contactar os escritores mais experientes que os podem ajudar a superar as suas dificuldades e procurar melhorar as obras. É preciso que saibam escolher os seus tutores. A leitura é também fundamental para a continuidade na busca do seu talento.

PERFIL
Carmo Neto nasceu a 16 de Outubro de 1962, em Malanje. Advogado e jornalista, é membro da Ordem dos Advogados de Angola e da União dos Jornalistas Angolanos.
Contista, é actualmente o secretário-geral da UEA. Exerceu a função de director da Revista Militar das Forças Armadas Angolanas nos anos 80, tendo sido primeiro por eleição e depois por nomeação. É membro fundador do Jornal Desportivo Militar.
Os seus contos integram diversas antologias publicadas em Angola e fora do país, estando traduzido em inglês, francês, árabe e espanhol. Romancista, contista e cronista, Carmo Neto pertence à Geração de 80. Conciliar as actividades da advocacia e do jornalismo das funções públicas não foi uma tarefa simples, mas foi desse encontro que emergiu o escritor, “o ser vivente”.
Obras:
1985 – A Forja
1988 – Meu Réu de Colarinho Branco
2000 – Mahézu
2004 – Joana Maluca
2007 – Degravata

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