segunda-feira, 29 de junho de 2015

Fado do Grande e Hòrrível Crime

FADO
DO GRANDE E HÒRRÍVEL CRIME


Por essas feiras do alfoz
Do Porto, leal cidade,
Brutal e triste, uma voz
Levanta um pregão feroz
De crime e fatalidade.

Junta-se o povo de roda,
Crianças, velhos e moços
Que seduz a nova moda;
E os olhos da roda toda
São como bocas de poços…

E a nova moda é já velha,
Recente, embora, a toada;
Revelha, velha, revelha,
Que a todas mais se assemelha,
De novo, não conta nada…

Vem dos inícios do mundo,
(Por não sei que ódio divino)
De quando, a errar vagabundo,
Caim desceu bem ao fundo
Do seu maldito destino.

Só a maneira é que é vária
Dum mesmo fado cumprir
A sinistra prole do pária;
E a assistência é extraordinária,
Que o bom povo quer ouvir!

Desfolha um bandolim gasto
Seu choro falso e palreiro
Frente a uma casa de pasto;
E um alto grito nefasto
Berra por todo o terreiro.

Canta uma mulher pejada,
Senhora-do-Ó fadista,
Ou uma garota enfezada
Que tem olhos de enjeitada
Mas pretende ser corista…

Canta um velhote que tosse,
Babando as barbas de neve,
Ou um rapazinho precoce,
Com esse ar dos a quem roce
A asa da morte breve…

Canta um esbelto vadio
De torvo olhar cor de lodo,
Que esguicha um mau riso frio
À triste a quem mata o cio
E apanha o dinheiro todo…

Canta uma cega, rolando
Por todo o alvar poviléu
Seus olhos vítreos olhando…
Canta um fado miserando,
Não mais, porém, do que o seu!

Canta uma família inteira,
― Pai, mãe, avó, quatro filhos —
E ao calar-se a cantadeira,
É a pobre velha gaiteira
Que intercala os estribilhos…

Um seráfico gandula
Que inda em falsete se exprime
E entre o público circula,
Pregoa uma canção chula
Mai l-o grande e hòrrível crime!

Surdo, o violão dlão toa,
E o bandolim se lhe enlaça…
Ou, carpindo a sós, ressoa
Uma guitarra, a mais boa
Companheira da desgraça.

E enquanto, em plena quermesse
De movimento, cor, sol,
A própria luz arrefece,
A voz de lástima e prece
Desfia o macabro rol:

Cose um marido a facadas
A mulher que estremecia,
E as mãos inda ensanguentadas,
Vai, de entre seus camaradas,
Esganar quem no traía!

Jovem mãe abandonada
Com seu filhinho nos braços,
Uma triste e malfadada
Deixa-o numa água-furtada
Retalhadinho em pedaços!

No mais vil prédio dum beco
Dos que a decência condena,
Sem que de tal corra um eco,
Num charco de sangue seco
Seis dias jaz Madalena!

Um filho desnaturado
Talha a golpes de podoa
O ventre em que foi gerado…
E o corpo em sangue escoado

Levanta a mão que abençoa!

E, por bordéis e hospitais,
Por mesas de anatomia,
Por salas de tribunais,
Por colunas de jornais,
Se estira o rol dia a dia…

Nos intervalos do fado,
Fala em prosa a cantadeira:
Maldiz o bruto malvado
Num discurso alto clamado
Com vozes de carpideira.

E, num tom quase faceto,
O loiro e reles menino
Mostra ao povinho um folheto
Que traz, moldurada a preto,
Uma foto do assassino…

Que verde curiosidade,
Que gosto de sangue e morte,
Que dó, que ferocidade,
Preme ali tal sociedade
Nesse culto à negra sorte?

Sentimental, caricato
De rapapés ao terror,
À história do do retrato
Segue-se o extenso relato
De outro crime inda melhor.

E enquanto um diz que são tretas,
E os demais olham inquietos,
E outro, que tem quaisquer letras,
Decifra essas cifras pretas
A um grupo de analfabetos,

Sob o imenso azul perfeito
Como abóbada de igreja,
As mães de filhos de peito
Tremem, sem achar direito
De acusar quem quer que seja…
José Régio, in “Fado” , Arménio Amado Editor, Coimbra

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