terça-feira, 30 de junho de 2015

Fidelio de L.V. Beethoven

Ludwig Van Beethoven declarava, poucas semanas antes de falecer :"De tous mes enfants c'est 'Léonore' qui m'a coûté les pires douleurs de l'enfantement, c'est elle qui m'a causé le plus de chagrin; et c'est aussi pour cela qu'elle m'est le plus cher. De préférence à toutes les autres, le la tiens digne d'être gardée et utilisée, pour la science de l'art." Michel Lecompte, in "Guide Illustré de la Musique Symphonique de Beethoven"

Beethoven sempre preferiu a designação de Leonora a Fidelio,  a única ópera que compôs, embora tenha sido obrigado a mudar o nome  por imposição do produtor da exibição de 1806, devido à eventual confusão com uma outra ópera de Gaveaux e Paer.
As vozes de Raymond Wolansky ,Wilhelm Pitz , Kurt Wehofschitz e do Philharmonia Chorus , acompanhados pela Philharmonia Orchestra sob a direcção do maestro Otto Klemperer, em Prisoner's Chorus da ópera Fidelio de Ludwig Van Beethoven.




Fidelio de  L.V.Beethoven
Por Sara Eckerson
"Esta crítica tem origem em duas performances, que merecem ser altamente recomendadas – Ludwig van Beethoven (1770–1827), Fidelio, (1) Opernhaus Zürich. Nikolaus Harnoncourt, maestro; Florestan: Jonas Kaufmann; Leonore: Camilla Nylund (2004), DVD & (2) Wiener Staatsoper. Leonard Bernstein, maestro; Florestan: René Kollo; Leonore: Gundula Janowitz (1978), DVD.
Uma coisa que sempre me interessou em particular acerca de Fidelio, a única ópera de Beethoven, é este ter passado muitos anos a adicionar elementos e a fazer anotações a esta obra específica, que era para si, obviamente, muito especial. Em todo o caso, Fidelio não é, de entre as obras de Beethoven, uma das melhores ou mais particularmente elegantes. Contudo, poderia afirmar-se que está entre as três obras cujo processo de composição, até à sua versão final, levou a Beethoven mais tempo. O “falhanço” de Fidelio nas suas primeira e segunda estreias, em 1805 e 1806, respectivamente, deveu-se a um conjunto de circunstâncias complicado e não necessariamente a uma composição desinteressante. No entanto, Beethoven reagiu mal a esta recepção e tal levou-o a continuar a trabalhar na obra, para atingir o estado de perfeição (inatingível) que Fidelio tinha na sua mente, até à sua terceira estreia em 1814. Considera-se que esta ópera pertence ao período “heróico” de Beethoven, o mesmo período de obras como Sinfonia n.º 3, “Eroica”. Em alguns momentos, a ópera chega a soar como uma sinfonia, e o uso de trompas para obter um efeito heróico (que na verdade nunca chegou a abandonar a estratégia composicional de Beethoven) emerge em partes inesperadas dando, além disso, um tom de seriedade ao som da obra no seu conjunto. Fidelio não é no presente uma ópera muito amada pela generalidade do público de ópera, e, tradicionalmente, não é usada com fins pedagógicos para demonstrar como deve parecer e soar uma ópera bem sucedida. Porém, Fidelio (ou Leonore, como Beethoven quis que se chamasse) foi para o compositor um trabalho doloroso, como escreveu em 1814, ao afirmar que merecia uma “coroa de mártir” por ela. Esta obra parecia então ter um lugar importante no coração do compositor, ainda que não seja o seu melhor trabalho. É acerca desta obra que falarei aqui, para descrever a razão pela qual ela passou a ter um lugar especial, pelo menos no entendimento de Beethoven enquanto compositor. 
Não sou especialista em todas as revisões feitas a Fidelio; em todo o caso, ela tem uma forma estranha e uma conclusão muito longa, com transições por vezes acidentadas. O enredo de Fidelio é particularmente interessante e diferente daquilo que se esperaria numa ópera como as de Mozart. Fidelio é, na verdade, o nome de Leonore, a mulher do prisioneiro político Florestan. Ela disfarça-se de homem para resgatar o seu marido da prisão. Fidelio/Leonore é uma mulher muito corajosa e engenhosa; no entanto, quando a ópera começa, apercebemo-nos de que Fidelio/Leonore tem um problema sério, porque a filha do carcereiro está apaixonada por ele (isto é, por Fidelio). É doloroso assistir a esta sequência, uma vez que Fidelio/Leonore se vê obrigada a fingir pelo menos durante algum tempo, de modo a ganhar a confiança do carcereiro, para ter acesso às masmorras; é nas masmorras que está detido o seu marido, quase morto de fome e maus-tratos. 
A primeira ária que vou discutir surpreendeu-me no que respeita às dimensões demonstradas por Beethoven, neste contexto, quanto a manter uma ligação com o enredo e ao mesmo tempo exibir, entre as personagens, uma troca melódica inventiva, que lhes permite representarem-se a si mesmas sem sacrificarem a sua integridade musical, nem traírem as virtudes da ópera. É na primeira ária que Fidelio/Leonore canta e em quarteto [com Marzelline (a filha do carcereiro), Rocco (o pai de Marzelline), e Jacquino (um assistente ou escravo, que está apaixonado por Marzelline)]. O quarteto intitula-se “Mir ist so wunderbar” (“Um sentimento maravilhoso preenche-me”) e é de facto particularmente assombroso. É notável, uma vez que Beethoven não era um “compositor de óperas” como Mozart e, como tal, Fidelio tem por vezes momentos não operáticos verdadeiramente espectaculares. Tal se deve em particular ao facto de as árias não terem o objectivo de ser aquela explosão de coloratura resplandecente que poderíamos ver noutras óperas, e que nos inspira a chamar a uma ópera um “espectáculo” (ou outra coisa), antes de lhe chamarmos música excepcional. Beethoven tinha um enorme talento para a composição de canções, ou Lieder (ainda que as suas não sejam particularmente fáceis de cantar), e esse talento é visível aqui. Este quarteto é especialmente belo, na medida em que temos quatro pessoas diferentes todas elas a cantar acerca daquilo que sentem pessoalmente (Marzelline: amor; Fidelio/Leonore: esperança; Rocco: felicidade; Jacquino: desilusão). Isto gera uma estranha polifonia de conteúdo. Apesar de esta técnica não ser nova em ópera, neste quarteto os indivíduos parecem estar a cantar com honestidade acerca daquilo que sentem e não a participar para cantar o oposto de outra pessoa, ou um fragmento diferente do mesmo tema musical para ganhos pessoais, astúcia ou malícia. O acompanhamento orquestral é tão suave e delicado ao longo de toda a ária que soa como se pudesse quebrar-se a qualquer momento. Este tratamento da orquestra ajuda a mostrar as vozes como a componente principal e leva-nos a escutar de perto as palavras. Além disso, cria uma ligação íntima entre as personagens, uma vez que não se podem esconder atrás de quaisquer figuras orquestrais muito sonoras. Sentimos aqui ser capazes de ouvir o que cada personagem está a pensar, ainda que o vocalizem na canção; percebemos as diferentes perspectivas como se estivéssemos a olhar para dentro das mentes e corações das personagens. Este tipo de honestidade permeia toda a ópera, ainda que Leonore tenha de manter o seu disfarce de Fidelio em nome de um bem heróico maior. Embora possa parecer ridículo, a representação deste quarteto específico lembra-me muito mais o final coral da Nona Sinfonia do que qualquer ária de qualquer outro compositor, ou qualquer outra obra do próprio Beethoven. O quarteto preserva uma ligação com a terra e um propósito de liberdade e virtude que cria uma ligação com as pessoas. Esta ligação musical não deslumbra os espectadores devido a um entendimento do conteúdo e do significado relacionados com a superioridade erudita deste género de música (neste caso, a ópera), nem devido a uma exibição de génio musical na sua criação. Ele passa a sua mensagem, os seus tons ao mais comum espectador (tenha este ou não qualquer treino musical), com uma expressão delicada de humanidade, numa forma simples de aspiração e conflito. 
Assim que tem início o segundo acto, não há palavras que descrevam adequadamente o primeiro encontro do público com Florestan (o marido de Leonore). Parecemos demorar imenso tempo para conhecê-lo (é uma técnica verdadeiramente interessante deixar-nos à espera dele durante tanto tempo), e o enredo que antecede a sua aparição enerva ainda mais o espectador, fazendo-o interrogar-se como pode alguém que tenha suportado semelhante tortura ser sequer capaz de cantar (no fim de contas, trata-se de uma ópera). Quando finalmente conhecemos Florestan, ele está sozinho, no escuro, e parece de facto ter dificuldade em entoar o seu recitativo “Gott! Welch Dunkel hier!” (“Deus! Que escuridão está aqui!”). Isto é tão maravilhosamente executado por Jonas Kaufmann que são merecidos os louros que alguns críticos lhe deram por este papel. A primeira nota cantada por Florestan, para a palavra “Deus!”, começa tão suavemente quanto pode ser cantada em palco. No entanto, esta palavra é uma exclamação e desse modo temos que imaginar a maneira como ela se transforma em canto das profundezas de um indivíduo debilitado em direcção a uma exclamação de dor e isolamento. O acompanhamento orquestral à secção inicial deste recitativo é terrivelmente sinistro, com súbitas mudanças dramáticas em sonoridade e suavidade, em torno da voz de Florestan, que em si mesma mantém um caminho melódico subjugado. Todavia, prestarei atenção à ária cantada por Florestan que se segue a este recitativo, a qual emprega uma retórica poderosa, não apenas mostrando Florestan como um ser humano bom enfraquecido por uma força desumana, mas também utilizando a orquestra para criar a imagem da sua mulher Leonore defronte de si.
Na ária “In des Lebens Frühlingstagen” [“Na Primavera da vida”], Florestan está de algum modo ainda mais próximo da morte, e porém soa mais forte do que antes, dada a sua convicção a respeito daquilo que está a cantar, e por se encontrar, além disso, num estado parcialmente delirante. Ele explica assim o seu encarceramento: “Atrevi-me a falar a verdade / E estas correntes são a minha recompensa / Suporto toda a dor voluntariamente / Acabo a minha vida em degradação / [Sinto] Consolo doce no meu coração: / Cumpri o meu dever”. O uso de trompas por Beethoven na orquestração desta primeira secção da ária dá-lhe um tom heróico, mostrando Florestan como um herói por fazer aquilo que considerava correcto. A ária muda de súbito para uma nova secção, notoriamente mais luminosa e mais leve no andamento. Esta secção transforma-se numa reminiscência delirante, na qual Florestan imagina ver a sua mulher como um anjo que o levará à liberdade. Interpretamos aqui esta liberdade como a sua morte (que parece estar próxima) ou, potencialmente, a sua liberdade do cárcere, em sentido literal. Leonore é representada musicalmente nesta secção como um tema de oboé, o qual, no momento em que Florestan começa a cantar, tem a indicação musical de dolce, docemente. Todos os instrumentos que tocam neste momento (à excepção da trompa em si) também têm esta indicação. Todos os instrumentos tocam suavemente, mas a transição dramática para um andamento mais rápido de alguma forma faz os instrumentos soarem mais alto. Além disso, ao representar Florestan, Jonas Kaufmann está notoriamente entusiasmado com esta ilusão e parece incapaz de conter a sua alegria com a visão da sua mulher. René Kollo incorpora de maneira convincente o delírio na sua performance desta ária, e Leonard Bernstein torna as indicações de Beethoven mais perceptíveis, levando a que a voz de Kollo brilhe através dos espaços que a orquestra lhe dá. A Florestan é dada uma indicação descritiva para a sua performance desta nova secção da ária, enquanto os outros instrumentos tocam dolce: ele deve estar “In einer an Wahnsinn grenzenden, jedoch ruhigen Begeisterung” [num entusiasmo à beira da insanidade e, no entanto, calmo]. Porém, é curioso o seu entusiasmo parecer dever-se mais ao pressentir a proximidade da morte, a liberdade no reino dos céus (e, nesse sentido, uma liberdade espiritual, a qual reconhece na sua visão da sua própria sepultura), do que a liberdade no nosso mundo. O tema do oboé soa liricamente acima da voz do próprio Florestan, engendrando uma harmonia interessante. No momento em que Florestan canta as palavras “ein Engel, Leonoren” [“Um anjo, Leonore”], não se ouve o oboé, e o seu silêncio assinala a importância do seu papel na ária, como se se reconhecesse a si mesmo, como se Florestan chamasse pelo seu nome. O oboé parece ter percebido e regressa ainda mais liricamente na sua melodia. A expressão que Beethoven deseja extrair dos outros instrumentos que precedem as palavras “ein Engel, Leonoren” é a de um fortalecimento dramático de sonoridade que se interrompe imediatamente assim que Florestan canta estas palavras. Esta mudança dramática de dinâmica introduz a importância das palavras de Florestan ou, pelo menos, o nosso interesse naquilo que ele vai dizer (uma vez que ele fica em silêncio antes da sua própria frase “ein Engel, Leonoren”). Este breve momento, no qual se verifica uma grande viragem no nível de dinâmica da parte da orquestra é uma figura extremamente coerente, dado que Beethoven descreveu precisamente a maneira mediante a qual o crescendo deveria abrir para todos os instrumentos em conjunto, em vez de uma vaga noção de sonoridade crescente interpretada diferentemente por diferentes maestros. O efeito aumenta a nossa expectativa, trazida ao de cima por esta coerência orquestral, que é levada ao silêncio do oboé enquanto ele “escuta” as palavras de Florestan.
A conclusão da ópera parece globalmente muito relutante. A extensão e o tom destas canções finais servem para insinuar a mensagem por detrás das acções de Leonore: o seu heroísmo e bravura são aplaudidos e reconhecidos a partir do palco pelas personagens. Este louvor torna-se tão grande e pesado na sua mensagem, que os espectadores dificilmente se esquecerão da ópera e da virtude por ela explorada, por assim dizer, na maneira mais positiva possível. Embora se pudesse dizer que esta técnica teria provavelmente funcionado melhor junto de patronos simples de espírito arrebatados por uma canção poderosa, esta ópera é tão tocante na sua variedade de mensagens que a memória que tenho dela continua a impressionar-me. Além disso, permanece terrivelmente vívida na minha mente, mais do que qualquer outra peça musical que eu tenha ouvido apenas uma vez (ou ouvido e visto, no caso da ópera). Para alguém que estuda música, esta é para mim uma noção estranha e difícil de acomodar. Não é uma questão de chegar à seguinte conclusão: Fidelio deve ser por isso uma obra-prima, um clássico de todos os tempos. Tal conclusão é esquisita porque Fidelio simplesmente não é a Quinta ou a Nona Sinfonia. Para ser precisa, acredito que é a conclusão da ópera que tem em mim um efeito estranho, perpetuando-se assim na minha mente, por ser um final de que estávamos à espera desde o princípio da obra. Contudo, as árias que vão surgindo, que parecem afastar de nós esta conclusão cada vez mais, são o que torna excepcional esta obra. As árias representam perspectivas musicais que poderíamos de outro modo negligenciar em virtude da gratificação típica em ópera de ouvirmos aquilo que esperamos ouvir. O acesso à intimidade das personagens e às suas vozes, de que beneficiamos através da orquestração de Beethoven, dá-nos um instrumento para descobrir um significado mais profundo intrínseco às árias. Ela mostra-nos uma maneira diferente de ouvir ópera e a razão pela qual Fidelio é verdadeiramente admirável."     
Sara Eckerson, Tradução portuguesa de Ana Almeida e Humberto Brito.

segunda-feira, 29 de junho de 2015

Fado do Grande e Hòrrível Crime

FADO
DO GRANDE E HÒRRÍVEL CRIME


Por essas feiras do alfoz
Do Porto, leal cidade,
Brutal e triste, uma voz
Levanta um pregão feroz
De crime e fatalidade.

Junta-se o povo de roda,
Crianças, velhos e moços
Que seduz a nova moda;
E os olhos da roda toda
São como bocas de poços…

E a nova moda é já velha,
Recente, embora, a toada;
Revelha, velha, revelha,
Que a todas mais se assemelha,
De novo, não conta nada…

Vem dos inícios do mundo,
(Por não sei que ódio divino)
De quando, a errar vagabundo,
Caim desceu bem ao fundo
Do seu maldito destino.

Só a maneira é que é vária
Dum mesmo fado cumprir
A sinistra prole do pária;
E a assistência é extraordinária,
Que o bom povo quer ouvir!

Desfolha um bandolim gasto
Seu choro falso e palreiro
Frente a uma casa de pasto;
E um alto grito nefasto
Berra por todo o terreiro.

Canta uma mulher pejada,
Senhora-do-Ó fadista,
Ou uma garota enfezada
Que tem olhos de enjeitada
Mas pretende ser corista…

Canta um velhote que tosse,
Babando as barbas de neve,
Ou um rapazinho precoce,
Com esse ar dos a quem roce
A asa da morte breve…

Canta um esbelto vadio
De torvo olhar cor de lodo,
Que esguicha um mau riso frio
À triste a quem mata o cio
E apanha o dinheiro todo…

Canta uma cega, rolando
Por todo o alvar poviléu
Seus olhos vítreos olhando…
Canta um fado miserando,
Não mais, porém, do que o seu!

Canta uma família inteira,
― Pai, mãe, avó, quatro filhos —
E ao calar-se a cantadeira,
É a pobre velha gaiteira
Que intercala os estribilhos…

Um seráfico gandula
Que inda em falsete se exprime
E entre o público circula,
Pregoa uma canção chula
Mai l-o grande e hòrrível crime!

Surdo, o violão dlão toa,
E o bandolim se lhe enlaça…
Ou, carpindo a sós, ressoa
Uma guitarra, a mais boa
Companheira da desgraça.

E enquanto, em plena quermesse
De movimento, cor, sol,
A própria luz arrefece,
A voz de lástima e prece
Desfia o macabro rol:

Cose um marido a facadas
A mulher que estremecia,
E as mãos inda ensanguentadas,
Vai, de entre seus camaradas,
Esganar quem no traía!

Jovem mãe abandonada
Com seu filhinho nos braços,
Uma triste e malfadada
Deixa-o numa água-furtada
Retalhadinho em pedaços!

No mais vil prédio dum beco
Dos que a decência condena,
Sem que de tal corra um eco,
Num charco de sangue seco
Seis dias jaz Madalena!

Um filho desnaturado
Talha a golpes de podoa
O ventre em que foi gerado…
E o corpo em sangue escoado

Levanta a mão que abençoa!

E, por bordéis e hospitais,
Por mesas de anatomia,
Por salas de tribunais,
Por colunas de jornais,
Se estira o rol dia a dia…

Nos intervalos do fado,
Fala em prosa a cantadeira:
Maldiz o bruto malvado
Num discurso alto clamado
Com vozes de carpideira.

E, num tom quase faceto,
O loiro e reles menino
Mostra ao povinho um folheto
Que traz, moldurada a preto,
Uma foto do assassino…

Que verde curiosidade,
Que gosto de sangue e morte,
Que dó, que ferocidade,
Preme ali tal sociedade
Nesse culto à negra sorte?

Sentimental, caricato
De rapapés ao terror,
À história do do retrato
Segue-se o extenso relato
De outro crime inda melhor.

E enquanto um diz que são tretas,
E os demais olham inquietos,
E outro, que tem quaisquer letras,
Decifra essas cifras pretas
A um grupo de analfabetos,

Sob o imenso azul perfeito
Como abóbada de igreja,
As mães de filhos de peito
Tremem, sem achar direito
De acusar quem quer que seja…
José Régio, in “Fado” , Arménio Amado Editor, Coimbra

domingo, 28 de junho de 2015

Ao Domingo Há Música

Dance me to your beauty with a burning violin
Dance me through the panic 'til I'm gathered safely in
Lift me like an olive branch and be my homeward dove
Dance me to the end of love
Dance me to the end of love
Oh let me see your beauty when the witnesses are gone
Let me feel you moving like they do in Babylon
Show me slowly what I only know the limits of
Dance me to the end of love
Dance me to the end of love
Leonard Cohen


Não sabemos por que  nos emocionamos perante um pôr-de-sol; por que nos encantamos com o sorriso de uma criança; por que cantamos quando o amor chega; por que choramos perante o nascimento de um filho; por que dançamos nos dias de alegria; por que bradamos quando a ira nos apanha; por que somos tão pouco perante a transitoriedade da vida; por que nos excedemos perante a ignóbil injustiça;  por que nos damos ao sonho para espantar a amargura; por  que sorrimos ao  falso bem quando o engano se vislumbra; por que praguejamos quando  a  inquietude cresce sem mesura; por que nos levantamos quando estamos a  sucumbir ; por que nos deixamos tocar pelo outro? 
Tanta incógnita que faz de nós aquilo que somos. Seres diferentes e tão iguais na vulnerabilidade que nos veste. Seres sensíveis feitos de barro e de precariedade. Caminhamos  em rotas que vamos construindo e onde  nos cruzamos. E ao cruzarmo-nos, damo-nos a conhecer. 
Leonard Cohen cruzou o meu caminho há muitos anos. A sua voz envolveu-me  e ficou para sempre no meu repositório musical. 
Leonard Cohen  nasceu em 1934, no Canadá , em Montreal. Quando decidiu cantar já era um poeta e escritor com obra publicada e reconhecida. Em 2011, foi o vencedor do Prémio Príncipe das Astúrias das Letras.
Songs of Leonard Cohen foi o seu álbum de estreia,  lançado em 1967. Foi o começo de uma grande carreira musical. Dono de uma voz peculiar, rouca e forte, lançou uma obra musical de vasto sucesso. Aos 84 anos, continua activo e a cativar-nos . Eis algumas canções, em jeito de rememoração selectiva.
"Dance Me To The End Of Love" por Leonard Cohen no Jools Holland Show

"Dance Me To The End Of Love"
Dance me to your beauty with a burning violin
Dance me through the panic 'til I'm gathered safely in
Lift me like an olive branch and be my homeward dove
Dance me to the end of love
Dance me to the end of love
Oh let me see your beauty when the witnesses are gone
Let me feel you moving like they do in Babylon
Show me slowly what I only know the limits of
Dance me to the end of love
Dance me to the end of love

Dance me to the wedding now, dance me on and on
Dance me very tenderly and dance me very long
We're both of us beneath our love, we're both of us above
Dance me to the end of love
Dance me to the end of love

Dance me to the children who are asking to be born
Dance me through the curtains that our kisses have outworn
Raise a tent of shelter now, though every thread is torn
Dance me to the end of love

Dance me to your beauty with a burning violin
Dance me through the panic till I'm gathered safely in
Touch me with your naked hand or touch me with your glove
Dance me to the end of love
Dance me to the end of love
Dance me to the end of love
Leonard Cohen

- Leonard Cohen e The Webb Sisters , em  If it Be Your Will ( Live in London 2009 )

 If it be your will 
That I speak no more 
And my voice be still 
As it was before 
I will speak no more 
I shall abide until 
I am spoken for 
If it be your will 
If it be your will 
That a voice be true 
From this broken hill 
I will sing to you 
From this broken hill 
All your praises they shall ring 
If it be your will 
To let me sing 
From this broken hill 
All your praises they shall ring 
If it be your will 
To let me sing 

If it be your will 
If there is a choice 
Let the rivers fill 
Let the hills rejoice 
Let your mercy spill 
On all these burning hearts in hell 
If it be your will 
To make us well 

And draw us near 
And bind us tight 
All your children here 
In their rags of light 
In our rags of light 
All dressed to kill 
And end this night 
If it be your will
If it be your wïll.
Leonard Cohen

- Leonard Cohen , em A Thousand kisses deep.

A Thousand kisses deep
The ponies run, the girls are young,
The odds are there to beat.
You win a while, and then it's done
Your little winning streak.
And summoned now to deal
With your invincible defeat,
You live your life as if it's real,
A Thousand Kisses Deep.

I'm turning tricks, I'm getting fixed,
I'm back on Boogie Street.
You lose your grip, and then you slip
Into the Masterpiece.
And maybe I had miles to drive,
And promises to keep:
You ditch it all to stay alive,
A Thousand Kisses Deep.

And sometimes when the night is slow,
The wretched and the meek,
We gather up our hearts and go,
A Thousand Kisses Deep.

Confined to sex, we pressed against
The limits of the sea:
I saw there were no oceans left
For scavengers like me.
I made it to the forward deck.
I blessed our remnant fleet
And then consented to be wrecked,
A Thousand Kisses Deep.

I'm turning tricks, I'm getting fixed,
I'm back on Boogie Street.
I guess they won't exchange the gifts
That you were meant to keep.
And quiet is the thought of you,
The file on you complete,
Except what we forgot to do,
A Thousand Kisses Deep.

And sometimes when the night is slow,
The wretched and the meek,
We gather up our hearts and go,
A Thousand Kisses Deep.

The ponies run, the girls are young,
The odds are there to beat
Leonard Cohen

- Leonard Cohen, em  You Got Me Singing.

You Got Me Singing 
You got me singing
Even tho’ the news is bad
You got me singing
The only song I ever had

You got me singing
Ever since the river died
You got me thinking
Of the places we could hide

You got me singing
Even though the world is gone
You got me thinking
I’d like to carry on

You got me singing
Even tho’ it all looks grim
You got me singing
The Hallelujah hymn

You got me singing
Like a prisoner in a jail
You got me singing
Like my pardon’s in the mail

You got me wishing
Our little love would last
You got me thinking
Like those people of the past
Leonard Cohen

sábado, 27 de junho de 2015

É aquilo que garante audiências

O FADO DO GRANDE E HÒRRÍVEL CRIME
Por Eugénio Lisboa
                                             “Receber um prémio da TV é o mesmo que ser beijado
                                              por alguém com mau hálito”.
                                                                                    Mason Williams

“Em Lourenço Marques, onde vivi até 1976, fui feliz por um vasto leque de razões. Uma das razões, que, por descuido, nunca mencionei, foi o facto de não haver, ali, televisão. Não ver televisão é um dos mais irrevelados segredos relativos à arte de ser feliz. Por outro lado, não ver televisão contribui, de modo incrível, para o aumento do nível da nossa educação e cultura. Groucho Marx, por acaso, até nem estava de acordo comigo, neste ponto, quando escrevia: “Acho a televisão tremendamente educativa. De cada vez que alguém liga a televisão, vou para outra sala e leio um livro.” Não está mal visto, mas obriga-nos a viver em casas com maior número de quartos, o que nos vai à algibeira.
Quando, nos intervalos do trabalho frenético de escrever as minhas memórias, ligo o televisor, para me “relaxar”, tenho a impressão de me afundar num pântano. Em geral, depois de uma manhã de bom e honesto trabalho, à la recherche du temps perdu, ligo para um daqueles programas televisivos, entre o meio dia e as 13.00, em que a Júlia Pinheiro ou o Goucha ou, na RTP1, um casalinho cujos nomes “não guardo na memória” nos dão, aos baldes, crimes góticos, tremendos, com pancada, tortura e sexo maléfico, doutamente comentados por juristas, jornalistas e psicólogos e/ou psiquiatras, os quais nos não poupam os pormenores mais vivos e deprimentes (e coloridos!) daquele pantanal, que tão bem “se vende”. 
O que é curioso é serem os três canais, em simultâneo, a darem-nos aquela papa baudelaireana: se um nos propicia um horrendo estripador (que usa faca - mal afiada – e vidro rombo, para rasgar, “com dor”, a carne martirizada), o outro oferece-nos um marido que baleou ferozmente a mulher e o terceiro, para não ficar atrás destes, delicia-nos com um negro boçal e infame que praticou um nefando crime de violação sexual.

Isto, todos os dias, sem falhar um. Pelo meio, falam, de raspão, no sexo dos anjos e oferecem, como prenda, prémios vários, mas o tema de fundo é o fado do grande e hòrrível crime. É este que garante audiências lascivas e necessitadas de violência e sexo, como se necessita de droga. E gosto de ver o ar beato e repleto da Júlia, do Goucha, do tal casalinho RTP e do público de senhores e senhoras respeitáveis, que se babam de gozo e virtude, ao ouvirem pormenores“científicos” e ardentes sobre a carne retalhada das vítimas ou o resto de sémen, de que se encontraram restos desleixados, nos lábios macerados da vulva.
É o que se chama educação “a quente”. E aquilo é diário! E aquilo dura há milénios! É aquilo que garante audiências e, portanto, publicidade. Nem vale a pena procurar outro tema: aquele é que “dá”. George Faludy, o lendário escritor húngaro, de extracção judia, mandado pelo terror comunista para os campos de concentração, de que nos deixou um celebrado testemunho – Os Meus dias Felizes no Inferno – gostava de falar da televisão, nestes termos: “A maior parte das estações de televisão americanas reproduzem, ao longo da noite, aquilo que um romano podia ter visto no Coliseu, durante o reinado de Nero.” É também isso que nos proporcionam, com um bonito sorriso de “tudo bem”, as manhãs queridas da Júlia, do Goucha e do casalinho RTP.
Mas o gótico, a respiração do ar molesto dos “moors” do monte dos ventos uivantes não é a única mercadoria fornecida pelas televisões. Vendem também muita patetice simpática e aparentemente inócua, para destinatários não particularmente dotados. O iconoclasta (e, mesmo, desbocado) maestro inglês, Sir Thomas Beecham, não tinha papas na língua: “Três quartos da televisão é para atrasados mentais”, dizia ele, para quem o queria ouvir. Por favor, não me peçam para dar exemplos de programas que satisfazem este caderno de encargos. Chatices já eu tenho que cheguem…
A televisão, por outro lado, comete outro delito: põe-nos, frequentemente, em muito má companhia, isto é, arruína-nos a reputação. O conhecido entrevistador, David Frost, que ficou, para muitos, conhecido como o homem que conseguiu entrevistar Richard Nixon, após a sensacional “queda” deste presidente, sendo um homem da televisão, não hesitou em falar, com candura, do “milieu” que tão bem conhecia:“A televisão”, disse ele, “é uma invenção que nos permite sermos entretidos, na nossa sala de estar, por pessoas que, normalmente, não receberíamos em nossa casa.” Realmente, medite o meu caro leitor em várias caras televisivas, cujo convívio não recomendaria nem à sua família nem aos seus amigos…
Pois, apesar disso tudo, a televisão é, para uma boa parte dos habitantes deste Portugal, o padrão de aferimento de mérito mais universalmente aceite. Aparecer ou não aparecer na televisão, eis a questão. De cada vez que apareço no pequeno écran – e apareço pouco e moderadamente – aumenta exponencialmente o número de pessoas que se me rojam aos pés. O viperino Quentin Crisp, autor de memórias ácidas (e tornadas clássicas), dizia, com verdade verificável: “As pessoas atravessarão a rua, com risco para as suas vidas, só para poderem dizer que te viram na televisão.”
Tudo isto é verdade, tudo isto é cómico e tudo isto é triste. Mas o que verdadeiramente mais surpreende e preocupa é que, com todas estas “vantagens”, para ela, a televisão ainda precise, para sobreviver, de se alimentar, diariamente, e de nos alimentar, a nós, com os detalhes sórdidos e escaldantes do último hòrrível crime acabado de perpetrar.“
Eugénio Lisboa  ,  em Crónica publicada no “Jornal de Letras”, 2015

sexta-feira, 26 de junho de 2015

Esta Lisboa que eu amo


Finis  Terrae
" A última Vista da Cidade será uma cortina de gaivotas enfurecidas a levantarem-se entre mim e o Tejo.
Na altura estarei , ou estou ainda, sentado num café-snack do Terreiro do Paço junto ao cais dos cacilheiros , com uma larga vidraça  a separar-me do rio. Café Atinel, que nome mais estúpido. Olho as mesas vazias e pergunto-me por que razão é que um sítio assim, tão privilegiado, consegue estar desconhecido. Por mim não quero outra coisa: barcos que chegam , barcos que partem, gente de entrar  e sair a servir-se ao balcão, e eu sentado em cima do Tejo.
Tal como estou tenho a cidade pelas costas. Comércio, multidão, Europa, fica tudo para trás. Lá as pessoas andam todas a perguntar as horas umas às outras, enquanto que neste reduto para aqui esquecido sabe-se do correr do dia pelo mudar da cor do Tejo, e não me digam que não é uma felicidade estar-se assim , à mesa sobre as águas , com gaivotas a saírem-nos debaixo dos pés e a passarem-nos a dois palmos  dos olhos num bailado de gritaria.
Tempo bom, o desta solidão. tempo melhor ainda, lembram os eméritos de biblioteca num ulissiponês de fazer inveja , quando se via a olho nu o promontório da Lua por toda essa costa além. Tempo , dizem, em que nas margens da Outra Banda havia areias que escorriam ouro ( Marco Terêncio fala disso) e pastagens celestes onde as éguas emprenhavam pelo vento. Tempo de poeiras luminosas e lágrimas lunares. E de pérolas. e de tritões. Tritões cantadores como aquele que consta da Descrição da Cidade de  Lisboa de Damião de Góis."
José Cardoso Pires, in "Lisboa , Livro de Bordo, vozes, olhares, memorações", Publicações Dom Quixote, Setembro de 1997, pag 75-76

quinta-feira, 25 de junho de 2015

Num grito de alma sumido

Assim assim
Por António Lobo Antunes
"Às vezes olho os dois palitos, quietos, inúteis, e dá-me ideia que se parecem com o meu marido e comigo, cada qual inclinado para a sua banda
Acho que o meu marido já não gosta de mim. Acho que já não gosto do meu marido. Mas depois há as crianças, logo três, e a ideia da separação custa-me por causa delas, para além da reacção dos meus pais que, há quase quarenta anos, se aturam um ao outro. Praticamente nem se falam. A frase que lhes oiço mais vezes é
- Passa-me o sal
e a passagem do sal de um para o outro é o único traço de união entre eles, aquele frasquinho pequeno de vidro facetado, com uma tampa cromada. Dantes havia também os palitos
- Passa-me os palitos
mas o dentista mandou-os substituir por fio dental e o paliteiro, de plástico, um prisma triangular com um buraco numa das pontas, levou sumiço da mesa e habita agora no aparador, entre um gato de loiça e a fotografia da minha sogra. O gato de loiça tem bigodes pintados a doirado e a ponta da cauda partida. O paliteiro dois palitos solitários dentro. Às vezes olho os dois palitos, quietos, inúteis, e dá-me ideia que se parecem com o meu marido e comigo, cada qual inclinado para a sua banda. Antes do fio dental virava-se o paliteiro de buraco para baixo, a bater com o indicador na ponta oposta até sair um lá de dentro. O meu marido usava-os com as mãos à frente, como quem toca gaita de beiços, e eu tinha sempre a impressão de ir ouvir música enquanto ele escarafunchava, de olhos no vazio. Se calhar ainda gostávamos um do outro nesse tempo. Quando acabava de os usar partia-os em dois pedaços, depois em quatro, depois em oito e formava poliedros com aquilo. Mas fartava-se depressa da geometria, apanhava tudo e deitava-os no prato no meio dos restos de comida, a olhar para mim de banda como se fosse eu que jogasse fora. E dessa maneira comecei a perceber que tínhamos deixado de gostar um do outro. Se calhar, se pudesse, fazia o mesmo comigo, de modo que, ao deitá-los fora, me sentia fazer parte das espinhas do goraz. A seguir o meu marido agarrava no prato, levava-o até à cozinha, carregava com o bico do pé no pedal do balde dos sobejos, cuja tampa se abria num salto, inclinava-o para o interior do balde e entornava lá dentro, empurrando com o garfo, as sobras do peixe
(como eu ouvia o barulho do garfo a raspar na loiça)
tirava o bico do pé do pedal, cuja tampa descia numa prontidão de vergonha, poisava o prato e o garfo no lava-loiças e sentava-se na sala, no outro sofá
(sempre no outro sofá)
a olhar para a janela, não para além da janela, a olhar para a janela, de perna cruzada e mãos dadas consigo mesmo a pensar
(percebia-se logo)
- O que é que eu faço aqui?
Julgo que nenhum de nós sabia muito bem o que fazia ali, perto do outro e tão distantes: planos de assassinato? Ideias de partir? Pensamentos do género
- Como é que eu embarquei neste casório?
planos sem solução do tipo
- de que maneira me livro disto?
enquanto as crianças, logo três, iam e vinham entre o quarto e a sala, lembrando-nos um passado que não devia ter existido, entregues a ocupações que nenhum de nós entendia e a conversas que mal escutávamos, parecidas com ele, parecidas comigo, já sonolentas, já maçadoras, uma delas, a semana passada
- O pai gosta da mãe?
e o meu marido a fingir que não ouvia, a rapariga, que nasceu entre os dois irmãos, e a precisar que eu lhe cortasse as unhas, resolvendo o problema
- Os pais gostam sempre um do outro
numa indiferença despachada, comigo, protegida por uma revista, a questionar-me
- E agora?
o meu marido sorriu-lhe
- Pois claro
o
- Pois claro
mais pálido que já existiu neste mundo, sentindo o peso da aliança no dedo como uma algema sem remédio, eu, num grito de alma sumido
- Estamos aqui não estamos?
a lembrar-me de um rapaz de dezoito ou dezanove anos que, há quinze, me esperava à saída das aulas, meio decidido, meio tímido, e me acompanhava quase até casa, a conversar comigo já nem me recordo de quê. O que se seguiu foi simples e relativamente rápido: o primeiro beijo, assim assim, mais beijos assim assim, a apresentação aos meus pais, a apresentação aos pais dele, os cursos acabados, os primeiros empregos, as contas à soma dos dois ordenados feitas num canto de papel, as contas às despesas, as intimidades assim assim em quartos de pensão baratos, uns
- Amo-te
dispersos no final, a gravidez inesperada e o casamento um pouco à pressa, com os sogros de ambos desconfiados até que, na semana passada, tudo se esclareceu finalmente: acabado o jantar calhou coincidirmos, cada qual com o seu prato, diante do balde dos sobejos, prontos a empurrá-los com o garfo lá para o fundo, um de nós a perguntar
- Qual despeja o outro primeiro
sem respondermos despejámo-nos ao mesmo tempo e, como estávamos cansados, fomos logo para a cama, afastados um do outro, enquanto as crianças continuavam por ali. Não sentiste que era como se estivéssemos de novo num quarto de pensão? Não achaste que foi assim assim, ambos de barriga para cima a olharmos o tecto às escuras? Não sei porque carga de água passada meia hora repetimos a dose e assim assim de novo. Juntos no balde até ao fim da vida. Pensando bem abrir a tampa e irmo-nos embora, cada qual numa direcção diferente, para quê?"
António Lobo Antunes, Crónica publicada na VISÃO 1154, de 16 de Abril de 2015 

segunda-feira, 22 de junho de 2015

O estado actual da literatura angolana

Talento, leitura e criatividade caminhos para o mundo das letras - Carmo Neto
Por Venceslau Mateus, Angop (19 Junho de 2015)
“ Luanda - O secretário-geral da União dos Escritores Angolanos (UEA), Carmo Neto, apontou, em entrevista exclusiva à Angop, o talento, leitura e a criatividade como elementos essenciais para quem quer entrar no mundo das letras.
Angop: Como caracteriza o estado actual da literatura angolana?
Carmo Neto (CN) - Já esteve pior. Agora a literatura angolana caminha melhor, quer em termos quantitativos como qualitativos. É verdade que temos ainda algum percurso a percorrer, mas estamos muito bem encaminhados. Melhorou a quantidade e a qualidade de livros literários no mercado. Devem baixar os preços dos livros. Que sejam inferiores ao custo de uma cerveja. Precisamos de mais livrarias e bibliotecas no país para melhor promoção do livro e da literatura angolana.

Angop: O preço do livro não está a contribuir também para que a juventude deixe de tê-lo como um amigo predilecto?

CN - É uma questão preocupante, porque a produção é cara. A UEA vende os livros abaixo do preço real, tendo em consideração o custo de produção. Os nossos livros infantis são todos vendidos a mil kwanzas, para incentivar os pais a comprá-los e ajudar os filhos a ganhar o gosto pela leitura, para se transformarem em bons técnicos no futuro. Mas é bom referir que a Lei de Promoção do Livro e da Leitura prevê que parte dos livros editados pelos escritores, isto é, 20 porcento, deve ser adquirida pelo Executivo, para a sua posterior distribuição às bibliotecas. É preciso fiscalizar a execução desta Lei, bem como a sua regulamentação ser exercida efectivamente.
É verdade que o livro deveria ser mais barato, por exemplo, que a cerveja, mas existem condicionantes que fazem com que seja vendido a um preço um pouco mais elevado. As famílias também jogam um papel fundamental neste processo, as creches, as escolas, os professores. Felizmente a lei da promoção do livro e da leitura acolhe todas estas situações de facto.
Angop: Até que ponto a Lei do Mecenato pode ajudar para que o livro chegue a um preço mais acessível ao consumidor final?
CN - Contribuirá e bastante, tendo em conta que garante alguns benefícios aos mecenas, tais como isenções ficais. A grande maioria das obras publicadas no mercado nacional são editadas em gráficas localizadas fora do país, trazendo consigo vários encargos e a execução prática da Lei do Mecenato pode ajudar a atenuar os gastos com a produção de livros.
Angop: Actualmente acusa-se a juventude de nada saber sobre a história de Angola... O que fazer para se mudar este quadro?
CN - Não podemos só culpabilizar a juventude. Temos de procurar saber o que os pais andam a fazer com os filhos. As creches, os professores nas escolas ensinam bem? O que existe em termos de programas escolares para o desenvolvimento intelectual da juventude? Como são aproveitados os tempos livres? O que temos actualmente é consequência de uma causa.
Para corrigir a juventude, temos antes que ver as causas. É preciso que os sociólogos possam ter a oportunidade de pronunciamento sobre a matéria, até porque são parceiros do Estado na realização de determinados programas, tendo em conta que o foco de estudo deles é a sociedade, como se movimenta e as razões disto ocorrer. Queremos corrigir a juventude, devemos saber primeiro quantas bibliotecas existem em Luanda, por exemplo. Quantas livrarias existem em cada município?
Não devemos olhar só para o Estado como o principal responsável por esta situação, já que o processo educativo de uma criança começa em casa. Portanto, a família tem uma quota parte de responsabilidade nesta tarefa. É necessário vincular a família nesta acção. O papel da família é também o dever de cuidar, de orientação do comportamento. O que melhor deve fazer. As famílias não devem pensar somente que o importante é a criança ler o catecismo, o que o catequista faz é bom, é orientação religiosa, mas também é necessário catequisar o filho para a leitura. São estes papéis que devem ter alicerces para serem fomentados. 
Agora vemos jovens que até na sua obra escrita têm talento, têm criatividade, mas não têm domínio na escrita. Algo falhou na formação da personalidade de jovens nestas condições.
Angop: A qualidade do produto colocado ao dispor dos leitores satisfaz as pretensões da UEA?
CN - É relativo. Há sempre excepções, mas a UEA está sempre atenta e procura ajudar e direccionar as pessoas para que coloquem ao dispor do público obras com a qualidade necessária e que contribuam no desenvolvimento psico-intelectual dos leitores. Às vezes, somos mesmo surpreendidos pela positiva, tendo em conta a qualidade temática e concepcional dos originais que nos chegam para serem editados. Mas, apesar de tudo, estamos satisfeitos com o produto que os nossos membros nos colocam à disposição.
Angop: Quanto custa editar um livro em Angola?
CN - Custa muito dinheiro. Tão caro assim que é melhor produzir fora do país, por exemplo no Brasil do que em Angola, onde pode chegar a custar duas ou três vezes mais. Aqui só produzimos por razões de emergência, de contrário é mesmo fazê-lo fora de Angola. Os livros infantis são muito mais caros, pois exigem um produto mais robusto e resistente. Tal situação poderia ser atenuada se houvesse, de facto, já uma maior receptividade em relação à Lei do Mecenato, que retira obrigações fiscais a quem patrocina actividades de âmbito cultural, em particular à produção de livros.  Felizmente, com os investimentos de algumas entidades, particularmente bancos, a Fundação Sol e o proveniente da dotação do Estado, a UEA procura satisfazer à procura do mercado.
Angop: Tem havido convivência entre a velha guarda e os jovens escritores?
CN - Tem. E vou-lhe dar dois exemplos desta convivência salutar. Na gestão do prémio Quem Me Dera Ser Onda, o patrono é o escritor Manuel Rui Monteiro e nós conversamos muito sobre os vários aspectos do prémio, as obras a serem editadas pela UEA, entre outros aspectos.
Com o escritor Boaventura Cardoso, que teve a ideia sobre o encontro nacional de escritores que estamos a institucionalizar, procuramos beber dele informações que nos ajudam a melhor conduzir os vários processos que temos. Há um diálogo com os membros da UEA que satisfazem a actual direcção.
O bom relacionamento entre a velha e nova geração de escritores e a actual direcção da UEA é tão satisfatória que tem havido um diálogo franco e construtivo, que leva a que se ventile a hipótese de se institucionalizar o prémio literário Uahenga Xitu, dar-se o nome de António de Assis Júnior à livraria da UEA. Fruto deste diálogo está também em estudo a hipótese de se institucionalizar o grande prémio UEA, com uma periodicidade bianual, com um valor de 50 mil dólares para o vencedor. A ideia é que os concorrentes tenham obras editadas pela UEA. Estou em crer que um dia a ideia será concretizada.
Já sentamos com o escritor Pepetela com quem abordamos outros projectos que vamos amadurecer. Há um diálogo permanente estabelecido com os mais velhos, como por exemplo o Fragata de Morais, entre outros, que têm acolhido de bom agrado as ideias da nova geração e acrescem outras para o bem da nossa organização.
Angop: O que é necessário para ser escritor e, acima de tudo, um bom escritor?
CN - É subjectivo. Mas primeiro talento, pois sem talento, por mais que se escreva, nunca será um bom escritor. Depois é necessário leitura, porque não se pode transformar aquilo que não se conhece. É essencial, porque permite chegar a um nível elevado de conhecimento que ajuda o candidato a melhor se preparar para decifrar os acontecimentos que o rodeiam. A magia da criatividade, da palavra e da escrita são aspectos essenciais para se ser um bom escritor.
Angop: Está no seu segundo mandato. Que análise faz deste período em que está à frente dos destinos da UEA?
CN - Muito mais produtivo relativamente ao período anterior, porque em razão da experiência acumulada outras situações vão se resolvendo. Falo das nossas makas à quarta-feira, edições de livros. Neste momento, a meio do mandato, já vamos muito para além de livros editados, durante o meu primeiro mandato. Isto é, mais de 50 títulos. As nossas acções de promoção da literatura angolana no estrangeiro também ganharam novo fôlego, com a participação em eventos internacionais. Poucos, infelizmente, por falta de verba necessária. Os livros editados pela UEA  encontram felizmente boa recepção em todo espaço onde são vendidos. Neste momento, todos estabelecimentos comerciais Kero comercializam muito bem livros editados pela União dos Escritores Angolanos, em todas as províncias, onde operam.
O prémio literário Quem Me Dera Ser Onda agora é nacional. Queremos com isto dizer que estabelecemos um vínculo de parceria com o Ministério da Educação, que leva os professores e coordenadores da disciplina de língua a promover e divulgar o regulamento do concurso literário nas mais recônditas escolas do país. E assim todos os estudantes interessados da faixa etária regulamentada, dos 13 aos 17 anos de idade participam.
Em termos de publicações, temos em agenda várias obras em parceria com a Leya (Texto Editores). Os lançamentos acontecerão entre Angola e Portugal e noutros países de língua oficial portuguesa. Estamos também a tratar da reedição de livros, cujos conteúdos preenchem os programas. Refiro-me a obras de Luandino Vieira, Óscar Ribas, António Jacinto, José Luís Mendonça, João Maiomona, Fragata de Morais, entre outros autores, que preencherão cerca de 40 títulos, no âmbito das reedições. É um projecto que está a ser realizado em parceria com a editora Letras. Brevemente sairão a público, tendo em consideração o início do ano lectivo.
Relativamente à promoção da literatura e dos escritores angolanos no exterior, a UEA tem apostado forte também no processo de tradução da literatura angolana em outras línguas, nomeadamente italiano, francês, inglês e alemão, árabe, espanhol, cujas antologias também em português serão encaminhadas para o Instituto de Literatura Universal, através da Faculdade de Letras da UAN. Temos agendada uma mesa internacional de literatura angolana. Estamos muito avançados no que diz respeito aos actos preliminares. Temos ainda em agenda inauguração da nossa livraria. Em resumo, vamos bem. Satisfaz as pretensões da actual direcção da UEA.

Angop: Há mais interacção entre a direcção da UEA e os escritores?
CN - Certo. Já o escritor Dario de Melo fez referência pública sobre este facto e também temos sentido maior interacção entre a UEA e a sociedade civil, na medida em que todas as actividades programadas contam com a presença de um vasto público. A maior parte dos prelectores são activos cidadãos de reconhecido mérito. Aliás, é notório o facto de se registar actualmente a existência de mais obras para editar e menos espaço para acolhimento de tais actividades no âmbito da programação da UEA.
A título de exemplo, devo dizer que, dentro de dias, receberemos cinco títulos infantis, nomeadamente da escritora Cremilda Lima, e três dos primeiros classificados do concurso literário Quem Me Dera Ser Onda. E teremos ainda o livro do vencedor do Prémio Sonangol de Literatura, bem como os livros da Colecção destinados ao sistema de ensino (10 títulos) e outros 10 que estão a chegar do Brasil. A actividade é, de facto, fluente, é activa e representativa, mas também esta interacção tem fundamentação. Nos últimos tempos, vendem bem os livros editados pela UEA. A par destas acções, a UEA tem também sabido proteger os seus membros, prestando os apoios necessários em questões de saúde, direitos de autor, sala para o lançamento das suas obras, entre outras.
Angop: Qual é a diferença entre um texto literário e um texto de especialidade, na sua opinião? 
CN - Devo dizer que o literário versa uso estético da linguagem. A ideia generalista de que tudo expresso em livro é literatura e que todo o autor de um livro é escritor não cabe nos nossos conceitos. Não cabe em nós, de forma alguma, atribuir o adjectivo de escritor aos autores de livros sobre biografias, literatura médica, jurídica, sociológica, linguística e que privilegiam marcas pessoais, opiniões, juízos, etc. Pelo menos, até este tempo e enquanto os conceitos e a fronteira entre o literário e não literário for visivelmente invisível, não os poderemos ver como escritores, com todo o respeito que merecem.
A UEA assume um conjunto de responsabilidades que lhe permitem granjear respeito e prestígio por meio da sua contribuição na regulação da qualidade da produção literária. Supõe-se que ali onde a UEA coloca o seu selo cultural existe não apenas qualidade, mas acima de tudo prestígio. Entretanto, porque o mundo da literatura não se regula com fronteiras físicas entre o estético e o não estético; literário e o não literário, tanto podemos estar a pecar por defeito ao não apoiar certas produções, como podemos estar a pecar por excesso ao apadrinhar obras julgadas literárias. Portanto, para nós, a literatura é ainda uma manifestação artística, cuja matéria-prima é a palavra.

Angop: Quantas obras são necessárias para que alguém possa ser considerado escritor e faça parte do grupo de membros da UEA? 

CN - É indefinível. Há autores que de forma extraordinária são escritores de mérito com uma obra apenas. Há alguns exemplos no mundo. Mas nós tratamos de casos ordinários. O candidato deve ter duas obras literárias publicadas, entre outros requisitos, recomendação de três escritores membros da UEA é indispensável. Temos recebido algumas candidaturas.

Angop: Já escreveu seis obras literárias. Sente-se um escritor maduro?
CN - Não. Não, porque continuo a escrever e à busca da melhor forma e conteúdo. O desempenho administrativo é uma actividade que perturba  a  criatividade artística, sobretudo no domínio da escrita, que deve ser permanente. Vou augurando pelo meu futuro na reforma. Espero que tenha tempo, para usufruir da leitura e da escrita. Aí sim, poderei amadurecer. Ainda estou em fase de crescimento.
Angop: O seu último livro foi publicado em 2007, a que se deve esta ausência prolongada do mercado literário?
CN - O compromisso com a UEA é uma de entre várias razões. Continuo a escrever sem publicar. A consciência impede-me de parir textos indigestos para o consumo público. É necessário criar, criar, mais em condições certas. 
Angop: A condição de secretário-geral da UEA impede de trabalhar nos projectos literários individuais? 
CN - A condição de secretário-geral da UEA perturba o labor criativo. O tempo funciona como um implacável semáforo de sentido proibido. E os partos quase sempre acabam em abortos. Há compromissos e prioridades que tenho que honrar em função do exercício do cargo. Auguro pela minha reforma para ganhar a liberdade de flutuar e com o tempo criar. Não quer dizer que não estou a escrever.
Angop: Quais são as suas principais fontes de inspiração?
CN - A vida e aquilo que nos inquieta a alma, o amor, as lágrimas, a riqueza e a pobreza, a política e a politiquice. Em livro fica o registo para a partilha com o eventual leitor.
Angop: Que mensagem quer deixar aos jovens escritores?
CN - Continuem a ler e escrever sempre, desde que se reconheçam no talento preferido. Contactar os escritores mais experientes que os podem ajudar a superar as suas dificuldades e procurar melhorar as obras. É preciso que saibam escolher os seus tutores. A leitura é também fundamental para a continuidade na busca do seu talento.

PERFIL
Carmo Neto nasceu a 16 de Outubro de 1962, em Malanje. Advogado e jornalista, é membro da Ordem dos Advogados de Angola e da União dos Jornalistas Angolanos.
Contista, é actualmente o secretário-geral da UEA. Exerceu a função de director da Revista Militar das Forças Armadas Angolanas nos anos 80, tendo sido primeiro por eleição e depois por nomeação. É membro fundador do Jornal Desportivo Militar.
Os seus contos integram diversas antologias publicadas em Angola e fora do país, estando traduzido em inglês, francês, árabe e espanhol. Romancista, contista e cronista, Carmo Neto pertence à Geração de 80. Conciliar as actividades da advocacia e do jornalismo das funções públicas não foi uma tarefa simples, mas foi desse encontro que emergiu o escritor, “o ser vivente”.
Obras:
1985 – A Forja
1988 – Meu Réu de Colarinho Branco
2000 – Mahézu
2004 – Joana Maluca
2007 – Degravata

domingo, 21 de junho de 2015

Ao Domingo Há Música

A arte do génio da língua  portuguesa
"A faculdade que tem um povo de criar uma forma verbal aos seus sentimentos e pensamentos é que melhor revela o seu poder de carácter (...). Se a nossa alma, em seu trabalho de exteriorização verbal, se condensou em formas de som articulado, em palavras gráfica e sonicamente originais, também nas obras dos nossos escritores e artistas autênticos se nota uma instintiva compreensão da vida, em perfeito acordo com o génio da língua portuguesa.(...)
A linguagem é obra da natureza e do homem.
As coisas falam à nossa sensibilidade que converte a impressão recebida numa forma de som articulado; isto é, «nomeia» a coisa que a feriu.
O nome de uma coisa (principalmente das coisas vivas e naturais) é, por assim dizer, ela mesma em espírito verbal.
(...)E se as coisas nos falam, também nos falam os nossos sentimentos, para serem nomeados e adquirirem expressão vivente. (...) De um modo geral e vago, assim se criaram as palavras, verdadeiros seres, que, de organismos rudimentares, interjeccionais, se foram aperfeiçoando, pelas leis que presidem ao desenvolvimento das outras criaturas. "Teixeira Pascoaes, In Arte de Ser Português (1915), Lisboa, Delraux, 1978, pp. 25-27


Pedro Moutinho e Mayra Andrade, em “Alfama” de José Carlos Ary dos Santos e Alain Oulman, fado que foi imortalizado por Amália Rodrigues. Pedro Moutinho , fadista da nova geração, dá-lhe o tom de quem sempre viveu com  o fado, de quem o respira e sente intensamente. Mayra Andrade, jovem e notável cantora de Cabo Verde, desfia-o sem pretensões de fadista. Deixa-se ir , impregnando-o com a bela musicalidade da sua graciosa e peculiar voz rouca. 
A lusofonia é também  esta capacidade de partilhar e cantar  Lisboa   num lindo poema em português e em magnífica aposta vencedora.

Alfama
Quando Lisboa anoitece

como um veleiro sem velas

Alfama toda parece

Uma casa sem janelas

Aonde o povo arrefece

É numa água-furtada

No espaço roubado à mágoa

Que Alfama fica fechada

Em quatro paredes de água

Quatro paredes de pranto

Quatro muros de ansiedade

Que à noite fazem o canto

Que se acende na cidade

Fechada em seu desencanto

Alfama cheira a saudade

Alfama não cheira a fado

Cheira a povo, a solidão,

Cheira a silêncio magoado

Sabe a tristeza com pão

Alfama não cheira a fado

Mas não tem outra canção

Ary dos Santos/Alain Oulman

Mariza  e Tito Paris, numa excelente interpretação de " Beijo da Saudade". Duas grandes vozes em português.
Marisa Monte, Cesária Évora e Dulce Pontes cantam "Sodade", na festa da Expo Lisboa 98. Assim acontece  a  verdadeira lusofonia, em  simbiose perfeita.