segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Celebrar a "Mensagem" de Fernando Pessoa

A 1 de Dezembro de 1934  é publicada a Mensagem, único livro de poesia em português editado enquanto Fernando Pessoa está vivo. Alguns exemplares já tinham sido impressos em Outubro, para que o livro pudesse concorrer ao prémio Antero de Quental, criado pelo Secretariado de Propaganda Nacional. Não tendo o mínimo de cem páginas necessário para concorrer na primeira categoria, Mensagem ganhou o prémio destinado à segunda categoria.
"Numa entrevista cedida ao Diário de Lisboa em 14-XII-1934, afirmou Fernando Pessoa que a Mensagem cristalizara no seu espírito a partir da época do Orpheu. Devia ter em mente o poema D. Fernando , Infante de Portugal, que na Mensagem traz aposta a data de 21-VII-1913.
D. FERNANDO INFANTE DE PORTUGAL
Deu-me Deus o seu gládio, por que eu faça
A sua santa guerra.
Sagrou-me seu em honra e em desgraça,
Às horas em que um frio vento passa
Por sobre a fria terra.

Pôs-me as mãos sobre os ombros e doirou-me
A fronte com o olhar;
E esta febre de Além, que me consome,
E este querer grandeza são seu nome
Dentro em mim a vibrar.

E eu vou, e a luz do gládio erguido dá
Em minha face calma.
Cheio de Deus, não temo o que virá,
Pois venha o que vier, nunca será
Maior do que a minha alma.
Fernando Pessoa in Mensagemcom uma nota de David Mourão-Ferreira, Colecção Poesia, Edições Ática, Lisboa 1959

Dos outros poemas datados, os mais antigos são de Setembro de 1918. Portanto : o Fernando Pessoa épico devia estar latente em 1912, ano em que prometeu um super-Portugal e um super-Camões; mas provavelmente  foi a ditadura de Sidónio, eleito presidente em 9 de Maio de 1918 e assassinado em 14 de Dezembro do mesmo ano, que deu o abalo decisivo da Mensagem, tanto mais que em Fevereiro de 1920 publicou Fernando Pessoa no jornal Acção o poema À Memória do Presidente -Rei Sidónio Pais.
O autor da Mensagem singulariza-se como um épico sui generis, introvertido, cantor, sem tuba ruidosa , de miríficas irrealidades. Escreveu seu livro « à beira-mágoa» de olhos humedecidos, para expandir a «febre de Além» que atribui ao infante D.Fernando, para condensar em verbo poético o sonho duma Índia que não há, por isso melhor." Jacinto do Prado Coelho, in " Diversidade e Unidade em FERNANDO PESSOA" , Editorial Verbo

[SCREVO MEU LIVRO À BEIRA-MÁGOA.]
Screvo meu livro à beira-mágoa.
Meu coração não tem que ter.
Tenho meus olhos quentes de água.
Só tu, Senhor, me dás viver.

Só te sentir e te pensar
Meus dias vácuos enche e doura.
Mas quando quererás voltar?
Quando é o Rei? Quando é a Hora?

Quando virás a ser o Cristo
De a quem morreu o falso Deus,
E a despertar do mal que existo
A Nova Terra e os Novos Céus?

Quando virás, ó Encoberto,
Sonho das eras português,
Tornar-me mais que o sopro incerto
De um grande anseio que Deus fez?

Ah, quando quererás voltando,
Fazer minha esperança amor?
Da névoa e da saudade quando?
Quando, meu Sonho e meu Senhor?
10.12.1928 Fernando Pessoa, in  Mensagem, com uma nota de David Mourão-Ferreira, Colecção Poesia, Edições Ática, Lisboa 1959
" Toda a obra de Fernando Pessoa é, porém, comparável àquele deus bifronte ( a que  ele próprio algures se referiu) com uma face que olha o Passado e outra que olha o Futuro. Por um natural impulso de modéstia, foi levado a acentuar principalmente as feições da primeira. Mas os traços da outra dia a dia  se tornam mais afirmativos, mais nítidos, mais claros.
Essa mesma modéstia o obrigou, no último momento, a dar a este livro o título de Mensagem. Longamente sonhara, para ele, o nome de Portugal: receou, no entanto, que a designação parecesse ambiciosa. Alguns sentiram logo que o não seria; todos sabemos hoje que o não era. Verdadeira imagem de Portugal, com a carne da História sublimada na auréola do Mito, a Mensagem constitui, nos tempos modernos , uma das raras possibilidades de sobrevivência da epopeia em verso. Os pormenores sucedem-se, avultam, não já ligados por voluntariosas ou frouxas transições, mas numa aparente independência que maior força lhes dá  e mais singularmente os ilumina. A obra foi, todavia, ideada em conjunto, e as três partes  em que ela se divide correspondem  a um desenho assaz preciso : na primeira  - Brasão -, ficam interpretados os seculares motivos dos campos, dos castelos, da quinas, da coroa,  e do timbre;
O DOS CASTELOS
A Europa jaz, posta nos cotovelos:
De Oriente a Ocidente jaz, fitando,
E toldam-lhe românticos cabelos
Olhos gregos, lembrando.

O cotovelo esquerdo é recuado;
O direito é em ângulo disposto.
Aquele diz Itália onde é pousado;
Este diz Inglaterra onde, é afastado,
A mão sustenta, em que se apoia o rosto.

Fita, com olhar sfíngico e fatal,
O Ocidente, futuro do passado.

O rosto com que fita é Portugal.
8.12.1928

Fernando Pessoa, in  Mensagem, com uma nota de David Mourão-Ferreira, Colecção Poesia, Edições Ática, Lisboa 1959

na segunda  - Mar Português -, apresenta-se  ele um políptico do período áureo das navegações portuguesas; 
MAR PORTUGUÊS
Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!

Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.

10.01.1922
in Mensagem
por fim, na terceira  - O Encoberto -, sabiamente entrelaça os temas do auge e do declínio, da derrota e da esperança. E aquela exclamação « É a Hora», com que o livro termina, bem necessita de encontrar eco no maior número de corações." Nota de David Mourão- Ferreira  in Mensagem,  Colecção Poesia, Edições Ática, Lisboa 1959
NEVOEIRO
Nem rei nem lei, nem paz nem guerra,
Define com perfil e ser
Este fulgor baço da terra
Que é Portugal a entristecer —
Brilho sem luz e sem arder,
Como o que o fogo-fátuo encerra.

Ninguém sabe que coisa quer.
Ninguém conhece que alma tem,
Nem o que é mal nem o que é bem.
(Que ânsia distante perto chora?)
Tudo é incerto e derradeiro.
Tudo é disperso, nada é inteiro.
Ó Portugal, hoje és nevoeiro...
É a Hora!
10.12.1928
Fernando Pessoa, in  Mensagem, com uma nota de David Mourão-Ferreira, Colecção Poesia, Edições Ática, Lisboa 1959
TÁBUA CRONOLÓGICA DE FERNANDO PESSOA
1888: Nasce Fernando António Nogueira Pessoa, em Lisboa.
1893: Perde o pai.
1895: A mãe casa-se com o comandante João Miguel Rosa. Partem para Durban, África do Sul.
1904: Recebe o Prémio Queen Memorial Victoria, pelo ensaio apresentado no exame de admissão à Universidade do Cabo da Boa Esperança.
1905: Regressa sozinho a Lisboa.
1912: Estreia-se na Revista Águia.
1915: Funda, com alguns amigos, a revista Orpheu.
1918/21: Publicação dos English Poems.
1925: Morre a mãe do poeta.
1934
Maio: Pessoa publica o poema «Eros e Psique», a sua última colaboração na Presença.
11 de Julho: Começa a escrever uma grande quantidade de quadras que, quanto à forma (mas nem sempre quanto à temática), se podem chamar «populares». Escreverá, até Agosto de 1935, mais de 350 destas quadras.
1 de Dezembro: Sai Mensagem, único livro de poesia em português publicado por Pessoa. Alguns exemplares já tinham sido impressos em Outubro, para que o livro pudesse concorrer ao prémio Antero de Quental, criado pelo Secretariado de Propaganda Nacional. Não tendo o mínimo de cem páginas necessário para concorrer na primeira categoria, Mensagem ganhou o prémio destinado à segunda categoria.
1935
13 de Janeiro: Escreve, para Adolfo Casais Monteiro, a famosa carta sobre a génese dos heterónimos.
4 de Fevereiro: Publica, no Diário de Lisboa, um veemente artigo contra um projecto de lei, proposto em 15/1/1935, que visa suprimir as «associações secretas», nomeadamente a Ordem Maçónica.
21 de Fevereiro: Salazar, na entrega dos prémios literários do SPN (a que Pessoa, um dos galardoados, não assistiu), refere-se no seu discurso a «certas limitações» e a «algumas directrizes» que os «princípios morais e patrióticos» do Estado Novo «impõem à actividade mental e às produções da inteligência e sensibilidade».
16 de Março: Pessoa escreve «Liberdade», primeiro de vários poemas anti-Salazaristas.
5 de Abril: A Assembleia Nacional aprova, por unanimidade, a lei contra as «associações secretas».
21 de Outubro: Pessoa escreve «Todas as cartas de amor são /Ridículas», último poema datado de Álvaro de Campos.
13 de Novembro: Escreve «Vivem em nós inúmeros», último poema datado de Ricardo Reis.
19 de Novembro: Escreve «Há doenças piores que as doenças», o seu último poema português datado. O verso final reza assim: «Dá-me mais vinho, porque a vida é nada».
22 de Novembro: Escreve «The happy sun is shining», o seu último poema datado em inglês.
29 de Novembro: Na sequência de crises de febre e fortes dores abdominais, é internado no Hospital de S. Luís dos Franceses, onde escreve as suas últimas palavras: «I know not what tomorrow will bring».
30 de Novembro: Morre, por volta das vinte horas, em presença de Jaime de Andrade Neves, seu primo e médico.
2 de Dezembro: É enterrado no cemitério dos Prazeres, onde Luís de Montalvor, em nome dos sobreviventes do grupo do Orpheu, profere um breve discurso.
O CONDE D. HENRIQUE

Todo começo é involuntário.
Deus é o agente.
O herói a si assiste, vário
E inconsciente.

À espada em tuas mãos achada
Teu olhar desce.
«Que farei eu com esta espada?»

Ergueste-a, e fez-se.
22.01.1934
Fernando Pessoa, in  Mensagem, com uma nota de David Mourão-Ferreira, Colecção Poesia, Edições Ática, Lisboa 1959

O MOSTRENGO
O mostrengo que está no fim do mar 
Na noite de breu ergueu-se a voar; 
A roda da nau voou três vezes, 
Voou três vezes a chiar, 
E disse: «Quem é que ousou entrar 
Nas minhas cavernas que não desvendo, 
Meus tectos negros do fim do mundo?» 
E o homem do leme disse, tremendo: 
«El-Rei D. João Segundo!» 

«De quem são as velas onde me roço? 
De quem as quilhas que vejo e ouço?» 
Disse o mostrengo, e rodou três vezes, 
Três vezes rodou imundo e grosso. 
«Quem vem poder o que só eu posso, 
Que moro onde nunca ninguém me visse 
E escorro os medos do mar sem fundo?» 
E o homem do leme tremeu, e disse: 
«El-Rei D. João Segundo!» 

Três vezes do leme as mãos ergueu, 
Três vezes ao leme as reprendeu, 
E disse no fim de tremer três vezes: 
«Aqui ao leme sou mais do que eu: 
Sou um povo que quer o mar que é teu; 
E mais que o mostrengo, que me a alma teme 
E roda nas trevas do fim do mundo, 
Manda a vontade, que me ata ao leme, 
De El-Rei D. João Segundo!» 
9.09.1918
Fernando Pessoa, In  Mensagem, com uma nota de David Mourão-Ferreira, Colecção Poesia, Edições Ática, Lisboa 1959

O DESEJADO
Onde quer que, entre sombras e dizeres,
Jazas, remoto, sente-te sonhado,
E ergue-te do fundo de não-seres
Para teu novo fado!

Vem, Galaaz com pátria, erguer de novo,
Mas já no auge da suprema prova,
A alma penitente do teu povo
À Eucaristia Nova.

Mestre da Paz, ergue teu gládio ungido,
Excalibur do Fim, em jeito tal
Que sua Luz ao mundo dividido
Revele o Santo Graal! 

18.01.1934
Fernando Pessoa, in  Mensagem, com uma nota de David Mourão-Ferreira, Colecção Poesia, Edições Ática, Lisboa 1959

O ENCOBERTO
Que símbolo fecundo
Vem na aurora ansiosa?
Na Cruz Morta do Mundo
A Vida, que é a Rosa.

Que símbolo divino
Traz o dia já visto?
Na Cruz, que é o Destino,
A Rosa que é o Cristo.

Que símbolo final
Mostra o sol já desperto?
Na Cruz morta e fatal
A Rosa do Encoberto.
11.12.1934
Fernando Pessoa, in  Mensagem, com uma nota de David Mourão-Ferreira, Colecção Poesia, Edições Ática, Lisboa 1959

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