terça-feira, 30 de setembro de 2014

A grande voz do Mar

 Introdução 
“Quando regresso do mar venho sempre estonteado e cheio de luz que me trespassa. Tomo então apontamentos rápidos – seis linhas – um tipo – uma paisagem. Foi assim que coligi este livro, juntando-lhe algumas páginas de memórias. Meia dúzia de esboços afinal, que, como certos quadrinhos do ar livre, são melhores quando ficam por acabar. Estas linhas de saudade aquecem-me e reanimam-me nos dias de Inverno friorento. Torno a ver o azul, e chega mais alto até mim o imenso eco prolongado... Basta pegar num velho búzio para se perceber distintamente a grande voz do mar. Criou-se com ele e guardou-a para sempre. – Eu também nunca mais a esqueci...” (...)
LUZ E COR
"O mar às vezes parece um véu diáfano, outras pó verde. Às vezes é dum azul transparente,outras cobalto. Ou não tem consistência e é céu, ou é confusão e cólera.
De manhã desvanece-se, de tarde sonha. E há dias de nevoeiro em que ele é extraordinário, quando a névoa espessa pouco e pouco se adelgaça, e surge atrás da última cortina vaporosa, todo verde, dum verde que apetece respirar. Diferentes verdes bóiam na água, esbranquiçados, transparentes, escuros, quase negros, misturados com restos de onda que se desfaz e redemoinha até ao longe. E ainda outros azulados, com a cor das podridões. Tudo isto graduado e dependendo do céu, da hora e das marés. Há momentos em que me julgo metido dentro duma esmeralda, e, depois, numa jóia esplêndida, dum azul único que se incendeia. Mas a luz morre, e a luz agonizando exala-se como um perfume. É uma grande flor que desfalece. O doirado não é simplesmente doirado, nem o verde simplesmente verde: possuem uma alma delicada e extática.(...)
O NEVOEIRO
Sol e azul e depois névoa. Às vezes começa em Agosto, outras em Setembro.Uma barra ao longe anuncia-a, uma barra que cresce em fumarada sobre a terra, ou que se dispersa correndo para o sul, em labaredas sobre o mar esverdeado. Há outras névoas no Verão que se descerram lentamente como cortinas, ficando o panorama límpido como uma aguarela acabada de pintar. Outras têm léguas de extensão e levam dias a passar. E o mar exala um cheiro mais vivo quando o nevoeiro parece dissolver-se, para logo voltar mais denso e compacto. Às vezes vê-se entre a neblina um ponto da costa cheio de luz, um rasgão no mar, uma única pedra iluminada entre o céu infinito e o mar infinito.
Tenho visto também umas névoas esbranquiçadas que ficam lá para muito fundo embebendo-se de luz. Névoa, um pouco de sol e brancura, tudo emborralhado. A onda
vem de longe, irrompe da névoa, e só se vêem os grandes rolos brancos revolvidos de espuma muito ao perto quando se despedaçam.
Em Sagres assisti a um nevoeiro extraordinário. Aparecem primeiro uns flocos no céu, e a luz tomou-se logo mais azul, pegando azul à pele, molhando de azul as mãos estendidas. Depois a névoa, que no Verão dura segundos, doirou e subiu ao ar, tornando o horizonte mais ilimitado e fantasmagórico...
As névoas anunciam o Inverno. Começam a vir os nevoeiros compactos, que se metem pelas narinas e cheiram a mar e a fumo. Há-os que têm léguas de espessura e levam dias a passar, coortes desordenadas de fantasmas enchendo todo o horizonte. O sino tange. Não se vê palmo diante do nariz. Lá fora os barcos, como cegos, só se guiam pelo som. 0 mar é um misterioso fantasma que os envolve. Cerração cada vez mais mole e espessa... Só a voz se ouve, e o lamento parece vir de mais longe e de mais fundo. Às vezes adelgaça-se um pouco na costa, e grandes rolos de fumaceira crescem do mar sobre a terra. É o Inverno que vem aí. A voz imensa tem já plangências de dor – desabar infinito de lágrimas. De sul para o norte as nuvens correm sempre, coortes sobre coortes que saem das profundas e avançam, deslizam sobre as águas sem ruído, enchendo o céu de farrapos enormes, de fantasmas criados naquele mar salgado e que se seguem em tropel num galope monstruoso para uma grande batalha desconhecida. E de quando em quando o sino chama, chama sempre pelos homens perdidos na névoa espessa que leva dias a passar." RAUL BRANDÃO, in “Os Pescadores”, Livraria Aillaud e Bertrand, Lisboa,1923
“Os Pescadores “ de Raul Brandão
Sinopse
"Nesta obra, o autor oferece-nos belas telas ricas de cor, de luz, dos vários elementos colhidos na natureza.
O entardecer nas suas várias cambiantes, conforme o lugar e o tempo, é descrito em pinceladas fortes com verbos no presente - a ação em decurso e com o subjetivismo do autor arrastado pelo sonho e transpor para as telas, que sugere, a tragédia de um poente tempestuoso à beira-mar que é sempre temível para os pescadores.
Além de belos quadros paisagísticos, também nos oferece sugestivos retratos - o do faroleiro, a velha da Foz do Douro, a sanjoaneira, a mulher da Afurada, de Mira "feia mas esbelta (que) tem ar grave e senhoril quase sempre", a heroica Ti Ana Arneira da Gafanha, a mulher da Murtosa "baixa e atarracada", a de Ovar "delicada e forte, alta e bem proporcionada, cheia de predicados domésticos e morais", a poveira "a bem dizer - um homem", a Rata da Foz. É evidente a simpatia de Raul Brandão pela sua dolorosa vida difícil, de trabalho, de explorados.” Lilaz Carriço, in “Literatura Prática II”, pp. 361-362, Porto Editora, 1999

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

domingo, 28 de setembro de 2014

Ao Domingo Há Música


"We have all the time in the world
time enough  for life
to unfold
All the prescious things
love has in store

We have all the love in the world
if that's all we have 
you will find
we need nothing more...
only love"

Após uma semana  de tão trágicos acontecimentos e de  algumas amargas e indecorosas descobertas no mundo e no país, é tempo de chamar a música. Universal e impoluta,  ela pode aquietar qualquer coração. 
Das páginas dos sucessos musicais , emergiram  duas  lindas composições que correram mundo na voz cava e única de Louis Armstrong. Ei-las:
- "We Have All The Time In The World ", composição de  Hal David e John Barry

- "When you're smiling ", uma canção de Larry Shay, Mark Fisher e Joe Goodwin.
Oh when you're smilin'
When you're smilin'
The whole world smiles with you
Yes, when you're laughin'
when you're laughin'
Yes the sun comes shinin' through

But when you're cryin'
You bring on the rain
So stop you're sighin'
And be happy again

Yes keep on smilin'
Keep on smilin'
And the whole world smiles with you.

sábado, 27 de setembro de 2014

Do Alvor: Ria e Praia

A ria do  Alvor é uma bela reserva natural do Barlavento algarvio. Desenhada por  orlas de dunas de vegetação variada e com um  habitat de espécies únicas, constitui um sítio de genuína grandiosidade e de  rara e singular beleza. Aproveitada inteligentemente pelo homem, é possível percorrê-la numa extensão harmónica de caminhos protegidos e desembocar no extenso areal da Praia  do Alvor que se alonga até à  pitoresca Praia dos Três Irmãos.
Eis o registo de um dia, em percurso, por este extraordinário reduto natural.












sexta-feira, 26 de setembro de 2014

A crise democrática actual

 
"O facto de os cidadãos de regimes democráticos criticarem o fracasso desses regimes por não atingirem os objectivos anunciados, e de duvidarem da sua capacidade de o fazer, faz parte da democracia. Mas não serve de desculpa para ignorar a profunda crise global que abala as democracias, sobretudo as europeias.
Apesar dos processos democráticos, como a realização de eleições e de votações parlamentares, existe uma sensação muito generalizada de que as nossas sociedades são lideradas por um pequeno grupo de pessoas que utilizam interesses económicos, mediáticos e políticos para o seu bem-estar e próprio benefício.
Embora a revolução digital tenha tornado possível a existência de um número crescente de actividades que já não precisam de transacções monetárias reais, a maioria do pensamento político é dominado por um economismo rigoroso.
Foram propostas várias análises de forma a encontrar soluções para superar esta crise democrática. A primeira foca-se na evolução oligárquica das nossas classes dirigentes – o aumento das desigualdades e a forma como os interesses de um novo grupo de multimilionários são servidos.
A segunda descreve as nossas sociedades como sendo pós-democráticas e presta uma maior atenção aos processos institucionais e ao papel dos técnicos de gestão na destruição do tecido social e democrático.
A terceira destaca o duplo papel da revolução digital: por um lado, reforça a capacidade das grandes empresas em organizar a produção de forma a enfraquecer a resistência colectiva e a assumir o controlo das sociedades; por outro, desenvolve novas competências individuais e colectivas para elaborar um pensamento crítico, coordenar, inovar e implementar alternativas concretas.
Os pensadores que adoptam a terceira análise são mais optimistas quanto à possibilidade de a democracia se regenerar, embora tenham noção da amplitude dos desafios que os esperam.
A militância e a defesa das liberdades e dos direitos no seio da esfera digital assinalam uma nova relação entre os cidadãos e os políticos, tal como o uso difundido de acções políticas nas redes sociais durante as revoltas no Irão, na Síria, em Espanha e na Turquia ou ainda o movimento pela partilha de conteúdos online na Itália e, de forma mais geral, na Europa.
Estes movimentos são totalmente diferentes dos movimentos contra a mundialização que decorreram no final do século XX. Os novos movimentos assentam na expressão dos indivíduos, mas no entanto não são individualistas no sentido neoliberal. Pretendem desenvolver comunidades baseadas na amizade, nos interesses partilhados, nas boas práticas e na vizinhança, e o que produzem é partilhado.
Caracterizam-se pela participação de indivíduos em várias comunidades ou actividades, com as quais, muitas vezes, não tem afiliações formais.
Cada comunidade depende da Internet e dos meios de comunicação online para se expressar e para a coordenação e realização das suas acções.
Os novos movimentos sociais parecem bem mais poderosos e atractivos, graças aos seus objectivos que combinam reformas radicais e a melhoria do dia a dia
Os feitos levados a cabo por esses movimentos são impressionantes e superam tudo o que foi concretizado por grupos de pressão, como as ONG, que se dedicam a um único objectivo. Os novos movimentos sociais parecem bem mais poderosos e atractivos, graças aos seus objectivos que combinam reformas radicais e a melhoria do dia a dia. Além de vencerem batalhas, como a rejeição do tratado ACTA pelo Parlamento Europeu ou o resultado do referendo sobre a gestão das águas na Itália; elaboram novas tecnologias, como softwares ou designs de código aberto, e criam novos processos de participação com novos mecanismos, como a realização de empréstimos sem juros entre indivíduos e o financiamento colectivo através de doações.
Mais geralmente, renovam a produção autónoma e a troca de bens, de serviços, de culturas e de conhecimentos. Deparam-se também com obstáculos, criados pelo dilema da posição que devem assumir em relação ao poder político e económico centralizado.
As restrições sociais e económicas promovidas pelas políticas existentes são o primeiro obstáculo para os movimentos que tentam mudar as opções de desenvolvimento das nossas sociedades. Apesar da crise económica que continua a fazer-se sentir, e os custos sociais devastadores da manutenção do status quo, as mudanças que requerem um novo sistema parecem estar fora do alcance para um elevado número de pessoas.
Esses obstáculos podem ser ultrapassados com o tempo, à medida que as pessoas se afastam mais ou menos do sistema económico e social e tiram partido das vantagens das novas práticas.
No entanto, este tipo de cenário com mudanças progressivas é pouco provável, devido à atitude dos dirigentes pós-democráticos actuais. Estes consideram todas as tentativas de reforma radical provenientes dos novos movimentos sociais, e as criticas proferidas contra as suas políticas, como uma nova forma de demagogia populista.
Em vez de tentar criar uma aliança com esses movimentos, preferem estigmatizá-los e elaborar um quadro regulamentar mais hostil para eles. Parecem preferir lidar com uma verdadeira xenofobia populista, na esperança de convencer as pessoas a continuar a apoiá-los, em vez de abrir a porta a reformas radicais.
Estes elementos externos não devem esconder o facto de que os “reboots” de base da sociedade também enfrentam obstáculos internos, nomeadamente a dificuldade de os participantes chegarem a um acordo sobre um conjunto comum de reformas. Estes utilizam ou desenvolvem ferramentas interessantes de deliberação colectiva, que vão desde práticas similares à Acampada [de Madrid] ou ao Occupy Wall Street, às ferramentas online que servem para tomar decisões, como o Liquid feedback.
No entanto, estas abordagens mostraram ser ineficientes para desenvolver novas ideias. Em Espanha surgiu uma abordagem mista que parece promissora: o Movimento 15 de Maio só foi possível graças ao trabalho anteriormente realizado na elaboração de uma plataforma política. As melhorias mais tarde efectuadas a essa plataforma permitiram uma interacção interessante com os intelectuais que propunham reformas radicais.
Existem redes, como o Partido X, que apostaram fortemente na tecnologia digital para desenvolver as suas propostas e as submeter aos comentários de um vasto público. As políticas que daí resultaram alimentaram o programa do “Podemos” e de outros movimentos que alcançaram um certo sucesso nas eleições europeias do passado mês de Maio.
Ainda é muito cedo para saber se isto irá resultar. Será que a aplicação rigorosa de políticas que promovem a estagnação económica não irá deixar a porta aberta para o desenvolvimento de regimes autoritários e xenófobos que serão vistos como a única mudança possível? Ou será que um número suficiente de dirigentes humanistas e progressistas irá compreender que lhes cabe a eles proporcionar uma maior autonomia aos que já tentaram construir um melhor futuro?" Voxeurop

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Notícias da Cultura e do Cinema


Dois filmes portugueses em estreia
"Os gatos não têm vertigens" de António-Pedro Vaconcelos e "Lacrau" de João Vladimiro chegam às salas de cinema portuguesas nesta quinta feira, 25 de Setembro
"Os gatos não têm vertigens", de António-Pedro Vasconcelos, é um drama social com a crise em pano de fundo, "Lacrau", de João Vladimiro, é um registo experimental sobre o campo e a natureza.
Quatro anos depois de ter realizado "A bella e o paparazzo", uma comédia romântica, protagonizado por Soraia Chaves e Marco Delgado, António-Pedro Vasconcelos filmou um drama social em tempos de crise, o retrato de uma sociedade através da improvável amizade entre uma mulher de 73 anos, que acaba de ficar viúva, e um adolescente abandonado pelos pais.
Rosa (Maria do Céu Guerra) descobre Jó (João Jesus) no terraço de casa e decide acolhê-lo, nascendo a partir daí uma ligação emocional e uma amizade que ambos não encontravam nas respectivas famílias.
O argumento é assinado por Tiago Santos e começou a ser escrito pouco depois de António-Pedro Vasconcelos ter rodado "A bela e o paparazzo", há três anos.
"Coincidiu com o começo do agravamento da crise que estamos a viver", afirmou o realizador à agência Lusa, dizendo que já não filmava um drama humano, marcado pela actualidade, desde "Jaime", de 1999, um filme que abordava o problema do trabalho infantil.
Aos 75 anos, António-Pedro Vasconcelos reconhece que a única coisa positiva de que pode falar às pessoas é o Amor: "É o meu único filme de amor, verdadeiramente. Precisei de chegar a esta idade para conseguir falar do amor como eu gostava", resumiu.
Do elenco, que integra dois actores com grande experiência na representação, como Maria do Céu Guerra e Nicolau Breyner, sobressai João Jesus, de 24 anos, que se estreia no cinema com António-Pedro Vasconcelos.

Hoje, quinta-feira estreia também, mas apenas em Lisboa, o filme experimental "Lacrau", de João Vladimiro, premiado em 2013 no festival IndieLisboa.
"Lacrau" é um filme sem diálogos, rodado sobretudo nas paisagens agrestes da Covas do Monte, e aborda a dicotomia homem-natureza, campo-cidade.
O filme apresenta longos planos de campos cultivados, fragas, a matança de um porco, por contraste com cenários urbanos, faz-se acompanhar de fragmentos de textos do poeta inglês Edmund Spenser e do sueco Stig Dagerman, autor de "A nossa necessidade de consolo é impossível de satisfazer".
"Lacrau" já teve estreia em Paris e foi exibido em vários festivais internacionais, nomeadamente na Áustria, em França e no Brasil. " Hardmusic

Festival Jovens Músicos,Prémio Jovens Músicos 2014 - 28ª edição,Quarta,                 24, 25, 26 Set 2014  | Grande Auditório da Fundação Calouste Gulbenkian

"Mantendo o bem-sucedido formato iniciado em 2011, a Antena 2 – RTP e a Fundação Calouste Gulbenkian dão continuidade à sua associação no âmbito do Prémio Jovens Músicos que alcança no presente ano a sua 28ª edição. 
Realizado no quadro da intensa colaboração que as duas instituições mantêm desde há longa data, o Prémio Jovens Músicos abre mais uma vez as suas portas à celebração dos novos talentos da música nacional. Para além das provas finais da 28ª edição, o programa inclui um conjunto variado de concertos e eventos que pretendem colocar em evidência os mais destacados valores das recentes gerações de músicos em Portugal. 
Para além da Orquestra Gulbenkian, que estará presente na Grande Final do Prémio Jovens Músicos 2014 e no Concerto de Gala do “JovemMúsico do Ano”, juntam-se ao evento os músicos do estágio Gulbenkian para Orquestra, o grupo de percussão Drumming, a Camerata Nov’Arte, a Camerata Atlântica e laureados de anteriores edições do Prémio Jovens Músicos."
O futuro da saúde em Portugal
Apresentação do relatório final
"No passado dia 23 de Setembto foram apresentadas as recomendações do estudo sobre a Saúde em Portugal, elaboradas por uma Comissão liderada por Nigel Crisp, antigo CEO do Serviço Nacional de Saúde inglês e membro da Câmara dos Lordes, além dos contributos resultantes de uma vasta audição de instituições e personalidades públicas e privadas.
A sessão decorreu no Auditório 2 da Fundação Calouste Gulbenkian.
Para construir uma nova visão do Sistema Nacional de Saúde, fundada em princípios de solidariedade social, em que seja assegurada a sustentabilidade da prestação de cuidados e em que se reforcem os direitos e as responsabilidades de todos os que nele intervêm e dele beneficiam, a Fundação Calouste Gulbenkian lançou a 5 de Fevereiro de 2013 a iniciativa Health in Portugal: A Challenge for the Future. The Gulbenkian Platform for a Sustainable Health System. Nigel Crisp defende que a ideia fundamental é “conseguir uma população e uma sociedade mais saudáveis e prósperas, onde as pessoas dêem valor às suas vidas e que, em caso de necessidade, possam ter acesso a cuidados de saúde de qualidade, suportáveis em termos financeiros e sustentáveis para o sistema”.
A ideia de que cada pessoa tem um papel a desempenhar está associada ao estudo coordenado por esta Comissão, que envolveu 35 especialistas portugueses de diferentes áreas, cuja contribuição, sob a forma de relatórios parcelares, foi amplamente discutida em reuniões intercalares com vista à elaboração deste documento final."  FCG

 CONFERÊNCIA AFIRMAR O FUTURO

A 6 e 7 de outubro regressam ao Auditório 2 as Conferências Gulbenkian, numa iniciativa do presidente da Fundação Calouste Gulbenkian. Como melhorar a eficácia e a sustentabilidade das políticas públicas em Portugal é um dos objetivos subjacentes à escolha do tema da conferência, que tem como coordenador o professor universitário Viriato Soromenho-Marques. Perante o momento de crise que o país e a Europa atravessam, Afirmar o Futuro – Políticas Públicas para Portugal vai procurar indicar diagnósticos e terapêuticas que se poderão traduzir em iniciativas concretas e em melhores políticas públicas. Organizada em parceria com o Institute of Public Policy Thomas Jefferson-Correia da Serra, presidido por Paulo Trigo Pereira, a Conferência Gulbenkian terá a intervenção de destacados peritos em áreas como as finanças públicas, políticas sociais, economia real ou desenvolvimento sustentável, entre outras. Aos contributos dos portugueses provenientes destas áreas, vindos em grande parte do meio académico, juntam-se as vozes de Paul de Grauwe, Mark Blyth e Ricardo Reis que marcarão presença nos dois dias da conferência. ( Leia o Programa aqui )
Uma organização singular
Esta conferência não começa e acaba nos dias 6 e 7 de outubro. Preparada como “um processo” em que participaram vários autores, foi iniciada em junho com a realização de workshops temáticos, onde os temas centrais foram discutidos e orientados por um duplo objetivo, teórico e prático, de serem contributos positivos para a melhoria das políticas públicas nacionais.
Cada um dos autores convidados apresentará, nos dois dias da conferência, as propostas já trabalhadas e anteriormente discutidas, como ponto de partida para um debate orientado e profícuo. Os temas e propostas podem ser vistos online, em curtos vídeos de um minuto, aqui. Esta “obra em construção”, como refere Viriato Soromenho-‑Marques, dará também origem a um trabalho posterior, nomeadamente a sua edição em livro e outras publicações.


CONCERTO DE HOMENAGEM A DORIVAL CAYMMI
ASSINALA CENTENÁRIO DO SEU NASCIMENTO
30 de Setembro / 22h00 / Casa da América Latina / Entrada livre
Os artistas Marilda Santanna (voz), Claudio Kumar (violão) e Luiz Felippe (percussão) estarão na Casa da América Latina no próximo dia 30 de Setembro, às 22h00, para um concerto de homenagem ao músico brasileiro Dorival Caymmi, de cujo nascimento se assinalam 100 anos em 2014.
A iniciativa, da CAL com a Embaixada do Brasil, consistirá numa aula-show da baiana Marilda Santanna, cantora e performer.
O espectáculo Caymmi em três tempos: A cidade, os amores e o mar será uma forma de divulgar a vida e obra do também baiano Caymmi. Serão interpretadas canções como Você já foi a Bahia, Saudade da Bahia, Coqueiro de Itapuã, Peguei um Ita, São Salvador e Maracangalha (cidade); Dora, Doralice, Só Louco, Você não sabe amar, Marina, Rosa Morena e Lá vem a Baiana (amores); e Canoeiro, Milagre, Quem vem prá beira do mar, João Valentão, É doce morrer no mar e Morena do mar (mar), entre outras. Para além de interpretar canções de Caymmi, Marilda Santanna traçará a trajectória do artista, contando curiosidades do seu percurso.
CICLO 'EL REY' INICIA COM INAUGURAÇÃO
DE EXPOSIÇÃO NA CASA DA AMÉRICA LATINA
Inauguração no dia 26 de Setembro às 18h30
Exposição patente de 29 de Setembro a 13 de Novembro de 2014
Casa da América Latina / Entrada livre
A Casa da América Latina vai inaugurar no dia 26 de Setembro, às 18h30, a exposição EL REY, composta de fotografias de viagem. Organizada com a Major Tune, a exposição conta em imagens a história do projecto EL REY, sendo expostos alguns dos momentos mais marcantes da viagem. Todas as imagens contam uma história e todas as histórias têm uma música associada.
O projecto teve início quando Stefan Lechner e Adi Herzer, dois músicos austríacos, se cansaram da rotina da vida no seu país natal e decidiram embarcar numa aventura pela América Latina durante um ano. A ideia foi explorarem a cultura local através da música. Para isso compraram um autocarro escolar e rumaram em direcção ao México. Sem a ajuda de telemóveis ou internet, Stefan e Adi encontraram músicos por toda a parte e, ao longo da viagem, perceberam o poder da música, não só como meio de aproximação entre pessoas de culturas diferentes, mas também como forma de expressão e de luta.
Esta aventura deu origem ao ciclo EL REY, formado por três vertentes: fotografia, música e cinema. O documentário EL REY vai ser exibido no dia 24 de Outubro (19h00, CAL); para o dia 31 de Outubro, às 22h00, está marcado um concerto com Stefan Lechner e a sua banda.
JÚRI DECIDE VENCEDORES DO PRÉMIO CIENTÍFICO
CASA DA AMÉRICA LATINA/SANTANDER TOTTA
Já foram encontrados os vencedores do Prémio Científico Casa da América Latina/Santander Totta 2014. Os nomes dos autores dos trabalhos vencedores serão divulgados oportunamente e os prémios serão entregues em cerimónia a realizar no final do corrente ano.
Peça do mês de Setembro do Museu da Assembleia da República

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Esse tal amanhã

Marcial: Livro V, epigrama 58

“Amanhã”, dizes tu. “Viverei amanhã.”

Quando virá, porém, esse tal amanhã?

Ah! que sabemos nós do dia de amanhã?

Em que reino se esconde o rosto de amanhã?

Que idade tem ao certo o vulto de amanhã?

É coisa que se venda? É coisa que se compre?

Que certeza tens tu de estar vivo amanhã?



Tarde já é viver no próprio dia de hoje.

Mais sábio é começar a vivermos desde ontem."

David Mourão Ferreira, in ”Vozes da Poesia Europeia-I”,  Colóquio Letras, nº163, Jan-Abr 2003.

terça-feira, 23 de setembro de 2014

As muitas vozes das coisas

" Então ouvia a chuva. Ouvir era uma absoluta atenção às coisas. Tudo ficava suspenso, no vazio. E depois o som acontecia: a chuva, o vento, o mar. O vento nas folhas, no caminho da terra, nos telhados, na chuva. Agora ela ouvia a chuva, as formas fugidias da água( a música, não a da chuva, a música em si mesma, era líquida ou aérea?  Líquida, supunha . Sobretudo líquida, diria).
Mas ouvir não era separado de ver, sentir, ou entender. Nem se podia ouvir, de cada vez, uma coisa isolada, sem dar conta de que havia em volta um contexto que depois fazia ressaltar, exageradamente nítida nos contornos, cada coisa de per si. E também não se podia ouvir uma só vez, queria-se sempre ouvir mil vezes , depois disso.
As muitas vozes das coisas. Vozes de Bach, jogando umas com as outras, cruzando-se, convergindo, divergindo. Puro jogo, como o do mar e das ondas. Assim o mundo era feito." Teolinda Gersão, in " Os Teclados" 1999, Ed. Sextante. 
Esta obra recebeu o Prémio Fernando Namora e o Prémio da Crítica da Associação Internacional dos Críticos Literários.

J.S.Bach - Matthäus Passion, Münchener Bach-Chor, Münchener Bach-Orchester, Karl Richter 1971

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

O beijo de Bóreas

O beijo de Bóreas, Parte I
Por Frederico Füllgraf
Reparos à “Viagem no Brasil” (1817-1920de Carl Friedrich Phillip von Martius & Johann Baptist von Spix
"Südfriedhof - Cemitério da Zona Sul, Munique, verão de 1992. Seguindo a indicação de Alexander von Martius, tetra-tetraneto do lendário naturalista-viajante, vim prestar uma homenagem a dois brasileiros aqui sepultados. E lá estava a lápide reproduzida na capa do livro de Henrike Leonhardt, que eu acabara de ler: esculpido em mármore azulado, levita no céu o mitológico deus dos ventos do norte, soprando seu hálito glacial sobre o corpo de duas crianças, prostradas: Isabella-Miranha e Yuri-Comás, dois curumins com idades variando entre 10 e 14 anos, arrancadas da Amazônia tropical e transplantadas para o inverno de Munique, onde morreram de frio, entre 1821 e 1822.
Ao lado dos dois indiozinhos, repousa Carl-Friedrich Phillip von Martius - médico, dublê de botânico, geólogo e geógrafo, aos 23 anos de idade - que juntamente com Johann Baptist von Spix (32 anos, zoólogo), empreendeu a mais longa de todas as expedições naturalistas ao interior do Brasil-Colônia: a "Viagem pelo Brasil". Para um cineasta à procura de uma back story, não poderia haver imagem mais desconcertante que a do túmulo dos curumins, aos pés dos Alpes; metáfora de inúmeras aberrações que aderem à história das expedições científicas européias do séc. 19, à América profunda.
No divã de Humboldt
Recém-retornado de sua epopéia nas Américas, Alexander von Humboldt foi assediado por convites para proferir palestras e participar de tertúlias com amigos e admiradores nos salões da nobreza prussiana, em Jena e em Weimar, discorrendo sobre sua Voyage aux régions equinoxiales du Nouveau Continent, fait en 1799-1804, par Alexandre de Humboldt et Aimé Bonpland (Paris, 1807). Na platéia costumava reunir-se a fina flor das artes e da cultura alemã da época, tais como Heinrich Heine, Ludwig Tieck, ou ainda Matthias Claudius, Carl Friedrich Gauss, Wilhelm Grimm e August Wilhelm Schlegel, sem esquecer os já canonizados Johann Wolfgang von Goethe e Friedrich Schiller. Entre os ouvintes que disputavam uma cadeira, frequentemente estava um jovem médico dublê de botânico, chamado Carl-Friedrich Phillip Martius, de Munique, que não desgrudava olhos e ouvidos dos lábios de Humboldt.


Parte da platéia estava ali para deliciar-se com o "olhar planetário" do barão, porque fenômenos fantásticos como as assim chamadas "províncias botânicas" - conceito científico emoldurado por uma estética das floras, que segundo Humboldt teciam um cordão de afinidades eletivas, botânicas, ao redor do planeta - constituíam verdadeiras relíquias visionárias. Mas Humboldt estava burilando um projeto completamente inédito, que atraiu e extasiou grande número de artistas plásticos: o "Ensaio de uma geografia das plantas". Nela, ela pretendia plasmar suas concepções sobre a representação artística da natureza tropical.
Humboldt já tinha esboçado uma técnica da representação das plantas em corte anatômico e, não se considerando, ele mesmo, dono da mão mais engenhosa, o que precisava, agora, eram representações de paisagens pela mão de artistas consumados. E de uma forma tal que resultassem adequadas do ponto de vista estético, e fossem ao mesmo tempo cientificamente informativas. Estas paisagens, enfatizava Humboldt, deveriam ser contempladas como organismos vivos e como grande totalidade. Por isso, seria preciso captar nos desenhos a ação conjunta dos fenômenos naturais, como as condições climáticas e o crescimento, mas acentuando as representações das plantas e as silhuetas das colinas mais características. Na platéia, ovações e êxtase...
Elegante, mas categórico, agora Humboldt discorria sobre o aspecto mais delicado e comprometedor de sua nova cosmogonia: o imperativo de um novo olhar político sobre as Américas, atitude que definiu como Wiederentdeckung - o re-descobrimento. E nestas oportunidades era possível perceber que Alexander não era o termômetro, mas ele mesmo protagonista destes novos tempos, pois ousava denunciar, enérgico, o sistema colonialista nas Américas, assentado sobre o massacre dos indígenas autóctones e a exploração do mais abjeto escravismo.
Não cabia dúvida que a inflexão ideológica de seu discurso tinha um quê do "sotaque" francês de 1789 - "liberté-egalité-fraternité! - e não por acaso o gênio berlinense pisara o continente americano exatamente na véspera da eclosão do movimento independentista, no sul encabeçado por nacionalistas como Bolívar e San Martín. Com seu novo olhar sobre as Américas, assim o percebia a platéia, simbolicamente Humboldt declarava morto o ciclo da "longa noite escura", inaugurada pelos "descobrimentos" do séc. 16. Portanto, cobrava o gênio, o programa de todo naturalista que se preze, interessado em baixar às regiões equinociais, deverá constituir-se da mais rigorosa investigação científica, acompanhada de não menos enérgica conscientização humanista e política. O jovem Martius anotou o recado em sua agenda, mas algo constrangido.
Resultados versus “filosofia”- a Viagem pelo Brasil
No início de 1817, começam os preparativos para a partida ao Brasil da Missão Austríaca, cujo personagem central era a Arquiduquesa Leopoldine von Habsburg, pedida em casamento por D. Pedro I. Integravam a comitiva o zoólogo Johann Baptist Spix e o médico, dublê de botânico, geólogo e geógrafo, Carl-Friedrich Phillip von Martius, que desembarcaram no Rio de Janeiro em abril de 1817. Mas eis um aspecto político do convite: como súditos cristãos do Império da Áustria e do Reino da Baviera, contaram com o estímulo de D.João VI, apenas porque lhe pareciam confiáveis.
E aqui se faz mister explicar um conflito com "esses intelectuais, metidos" da Alemanha: em 1795, o rei português embargara o visto de entrada para outro alemão, mais célebre, porém nada confiável aos olhos da Casa de Bragança - Alexander von Humboldt, adepto da Revolução Francesa, cujo desembarque no Brasil a Coroa avaliava como perigoso estímulo à luta dos brasileiros pela Independência (Humboldt era esperado em Vila Rica). Enxotado para o Brasil, após a invasão de Portugal por Napoleão, e ainda por cima abrir as fronteiras da colônia para as "bisbilhotices" do prussiano francófilo era, na acepção de D. João VI, colocar a raposa como guarda do galinheiro! Em 1800, quando a Coroa, em Lisboa, soubera que Humboldt fazia pesquisas na fronteira da Venezuela com o Brasil, oficiara o governador da Província do Maranhão, mandando-o distribuir um cartaz: "Alexandre de Humboldt, vivo ou morto!".
Por outro lado, o convite aos dois bávaros foi também uma espécie de compensação para a malfadada "Viagem Filosófica", comandada pelo naturalista baiano, Alexandre Rodrigues Ferreira, e auspiciada pela Academia das Ciências de Lisboa e o Ministério de Negócios e Domínios Ultramarinos (1). De 1783 a 1792, Ferreira percorrera as capitanias do Grão-Pará, Rio Negro e Mato Grosso, mas seu rico acervo jamais fora estudado em Portugal, sendo requisitado por Napoleão como butim de guerra e desviado para a França.

Contabilizados os prejuízos, agora o entendimento da Coroa era de que estas viagens não deveriam esgotar-se no devaneio romântico, mas inserir-se na estratégia de fortalecimento da economia imperial, isto é, produzir resultados. Entre suas finalidades, as expedições visavam a reprodução em cativeiro de plantas trazidas pelos naturalistas, e a diversificação da agricultura de contexto colonial.
Pelo Brasil profundo
O primeiro aspecto que chama atenção na "Viagem..." de Martius e Spix foi a extensão territorial de sua caminhada: mais de dez mil quilômetros, percorridos em ziguezague, do Rio de Janeiro até as fronteiras com o Peru e a Colômbia; extensão que se compara à campanha militar de Alexandre Magno, na Ásia Menor, e que faria sombra à "Odisséia" de Ulisses e à "longa marcha" de Mao Tsé Tung, durante a Revolução Chinesa. Spix e Martius embrenharam-se em um trópico hostil, a pé, em lombo de burro; navegando rios em canoas improvisadas, dormindo ao relento, passando privações, adoecendo, perdendo as esperanças. E quase o juízo. Despencaram em cachoeiras, e por um triz não morreram afogados, como atesta uma cruz afixada à porta de uma capela em Santarém, na Amazônia.
Interessado em refazer essa odisséia, adaptada para formato de seriado para a TV Alemã, que deveria ser produzido pelo jurista Walter Kalthoff, de Munique, e dividido em doze capítulos dos três tomos da versão original da "Viagem...", mergulhei no texto da crônica de Martius, que descreve a faina diária dos expedicionários, coletando plantas, animais, minerais e fósseis, catalogando-os provisoriamente. Plantas e animais recebiam desenho apenas esboçado, geralmente acompanhado de instruções para os coloristas, de Munique, pois in situm os naturalistas não possuiam as tintas apropriadas, nem o tempo. Mas o primeiro desfalque da "Viagem pelo Brasil" - espécie de maldição que se abaterá duplamente sobre a expedição de Langsdorff, anos mais tarde - foi Thomas Ender, aquarelista austríaco com a função de “repórter fotográfico”, que adoeceu e abandonaria a expedição, antes mesmo de atingir São Paulo. Suas aquarelas refletem os modos de percepção dos pintores viajantes europeus ao construírem certa imagem do Brasil no início do século XIX, e serviram de modelo para várias enquadramentos de câmera que fizemos em Bananal, buscando a posição mais aproximada do eixo de seus cavaletes.
Entre Santa Cruz, na Província do Rio de Janeiro, e o Alto Japurá, na Amazônia, Martius coletou 20 mil ecicatas, representando 6.500 espécies botânicas, entre as quais 400 espécies novas, descritas na "Flora Brasiliensis" - obra monumental, de aprox. 80 tomos, que reúne 23 mil espécies botânicas, com cerca de 4 mil ilustrações, de acachapante beleza e precisão, e que só recentemente foi digitalizada e está acessível na Internet (http://www.fapesp.br/publicacoes/flora/) na forma de projeto patrocinado, entre outros, pela empresa Natura. O que se desconhece completamente no Brasil é a belíssima zoografia de Spix, que catalogou centenas de espécies de aves, primatas, além de infindáveis gêneros de insetos, que constituem o acervo cult da Coletânea Zoológica do Estado da Baviera, com belíssimas reproduções, em aquarela, de espécies de aves hoje virtualmente extintas. Causou-me enorme estranhamento a visita à Coletânea, onde “dormem” centenas de tucanos brasileiros - e dez, apenas, não teriam sido suficientes? Replicou o prof. Ernst Fitkau, sucessor de Spix, cento e setenta anos mais tarde, que o estudo das espécies vivas requer sempre o abate de dezenas e centenas de indivíduos. Resposta cruel. E lá estão os tucanos, empalhados, com quase duzentos anos de idade, que já perderam o odor a formol, mas cujas plumas continuam sedosas, e cujos olhos brilham, por vezes esboçando sorrisos de cumplicidade. Tocá-los é uma experiência mágica e ao mesmo tempo insólita.
Estratégia fatal
Vinte mil plantas a bordo da galera Nova Amazona, e outro tanto de animais - eis a "Arca de Spix e Martius", em Belém, no ano de 1820, preparando-se para a grande travessia. A nau toma feições de um colorido jardim botânico, à cuja sombra jaz um hilariante jardim zoológico de animais abatidos.
E la nave va ...
Entretanto, à altura das Ilhas Canárias, a estratégia fatal da travessia é sinalizada pelas primeiras rajadas de vento gelado, e as plantas começam a definhar. Martius registra em seu diário de bordo a “má vontade do capitão português com a carga”, mas é a latitude que exige seu tributo. A galera partira de Belém durante o afélio, quando a Terra encontrava-se na posição mais afastada do Sol, e era verão no Hemisfério Norte. À medida, porém, que o barco avançara, rumo a Lisboa, acima da linha dos equinócios, a Terra inclinara-se para o periélio, anunciando a aproximação da estação fria na Europa. A propósito, “Herr Professor”, era pergunta a se fazer a Von Martius: o que, diabos, os curumins amazônicos ainda fazem a bordo? Já estão batendo queixo de frio como peixes fora d água! Tarde demais, porém: três (ou terão sido quatro, cinco – ninguém sabe quantos índios foram, exatamente) morrem de frio. Sim, porque além dos curumins, presenteados por suas tribos, alguns índios adultos também pegaram "carona" na caravela de Spix e Martius. Mortos, são lançados ao mar gelado, mas dizem os nativos que, quando no céu noturno desponta a Estrela Dalva, eles podem ser vistos na abóbada, caminhando de volta ao grande Rio-Mar...
Spix, Martius e sua “arca” cruelmente desfalcada de índios, animais e plantas, atingem a foz do Tejo no final de outubro de 1820. Extenuados e debilitados, apressam-se em saudar a El Rey, em Lisboa. Enquanto a galera segue viagem para descarregar o butim tropical em Gênova, os naturalistas tomam uma carruagem rumo a Munique. A bordo dela, febris e silenciosos, dois curumins de pele da cor do cacau, são arrastados através do tapete branco, mágico e fatal, da Europa invernal."  in Füllgrafianas , blog de Frederico Füllgraf , escritor, tradutor, roteirista , jornalista brasileiro. Vive no Chile.

domingo, 21 de setembro de 2014

Ao Domingo Há Música

Praia do Zavial , Algarve
Mar de Setembro

De onde vem? De que fonte
ou boca
ou pedra aberta?
É para ti que canta
ou simplesmente
para ninguém?
Que juventude
te morde ainda os lábios?
Que rumor de abelhas
te sobe à garganta?
Não perguntes, escuta:
é para ti que canta.
Eugénio de Andrade, in Mar de Setembro (1961)
Leonard Cohen celebra, hoje,  80 anos. Que juventude o morde. Não cessa de nos surpreender.  Popular Problems, o seu novo Álbum, 13.º álbum de estúdio, será  lançado dentro de dois dias. Sucede a  Old Ideas, álbum editado em 2012 que foi por ele, desassossegadamente, apresentado, nos vários palcos do mundo, entre eles o do  Pavilhão Atlântico (hoje Meo Arena), em Lisboa, no dia 7 de Outubro de 2012.
As nove canções que compõem este novo disco já podem ser ouvidas na íntegra no site da NPR, a rádio pública norte-americana e algumas faixas foram já divulgadas em vídeo.
O álbum foi composto em parceria com Patrick Leonard que já trabalhara com Cohen em Old Ideas.
Neste Domingo de Setembro , festejaremos o 80º aniversário de Leonard Cohen fruindo o seu talento, a sua música e a ímpar sonoridade da sua voz. De  Popular Problems, extraíram  -se dois  registos.
- "My oh My"
Wasn't hard to love you 
Didn't have to try
Wasn't hard to love you 
Didn't have to try
Held you for a little while
My oh My oh My
Held you for a little while
My oh My oh My 



- "Born in Chains", um dos novos temas de Popular Problems, que foi apresentado pela primeira vez num concerto em 2010 e, de acordo com a notícia do jornal  The Guardian, Cohen  trabalha na letra desta canção há 40 anos
Hear Individual Tracks From The Album

sábado, 20 de setembro de 2014

Esta é uma despedida

Um homem de letras
Por Bernardo Carvalho
"Não abro os olhos há quatro anos. Não é que eu seja cego; simplesmente não quero ver. Sou um homem de letras. Ou fui. Fechei os olhos no dia em que compreendi que não via como os outros, e decidi nunca mais abri-los. O problema não era você achar lamentável o que eu fazia; era eu achar incrível o que você achava lamentável. O problema não era a falta de sentido do que eu fazia. O problema era eu conti­nuar vendo sentido onde você e os outros não viam sentido nenhum. A sua opinião não foi capaz de mudar a minha; só me deixou pasmo. Eu estava ficando louco por não ver o que você via – ou por ver o que você não via. Tanto faz. Tudo depende do ponto de vista. E decidi por bem fechar os olhos. Antes cego do que louco. Ninguém é louco pra forçar um cego a ver. Mas ainda estou pra ver quem nunca desejou trazer um louco de volta à razão.
Quando digo homem de letras, talvez não me faça com­preender. Letras e números. Não quero que me interpretem mal. Não vim pra criar mal-entendidos. Explico: componho letras e números. Tenho uma pequena loja. Sou letrista – ou letreirista, como você sempre fez questão de lembrar em prol da minha modéstia. A sua opinião pode não ter tido consequências na minha própria opinião, mas arruinou o meu negócio. Porque eu era um homem de visão. E estava decidido a criar uma linguagem que qualquer homem com­preendesse pela simples disposição e pela forma das letras. Me baseei nos egípcios. Os egípcios são a origem de tudo.
Desde que vi hieróglifos num manual escolar, entendi o que queriam dizer. Quer maior silêncio? Ninguém precisou me explicar. Entendi pra mim, é claro. Mas bastava abrir a boca e contar aos outros, e o entendimento desa­parecia, e o que fora genial passava a ser ridículo. Você é a prova viva. Foi o primeiro a me pedir explicações quando resolvi criar a minha linguagem. Quando eu disse que era uma linguagem. Você apareceu no dia em que comecei a escrever, pra me pedir explicações sobre o que não se explica.
Eu não podia evitar a influência deles. Dos hieróglifos, é claro. Muita gente demorou a entender que as letras aparentemente independentes, avulsas, soltas no espaço, formavam na verdade frases, ensaios, poemas e prosas. E que a disposição dos caracteres e a diferença de formas e de tamanhos faziam todo o sentido. Não me deram crédito. A começar por você. Mesmo assim eu escrevi. Prosa, poesia e ensaio. Na minha língua que você não podia ler. Uma língua ao mesmo tempo simples e indecifrável sem necessidade de nenhuma pedra de Roseta –, cujo sentido estivesse bem aí, diante dos olhos. E tampouco estivesse. Uma língua pra escrever o que não se entende.
Mas assim como pra tudo deve haver uma explicação (era o que você vivia repetindo), também deveria haver uma explicação para uma língua que só pode ser explicada por si mesma. Logo se vêem os constrangimen­tos que ela cria. Mal comecei a escrever e já foi preciso explicar. Também é preciso dizer que, apesar de tudo, na falta de uma explicação, há sempre alguém pronto pra interpretar. Um sabichão ou outro. E não foi por acaso que fechei os olhos.
Escrever provoca a voz dos outros quando tudo o que você procura é o silêncio. Um dia um homem veio me falar dos textos que eu compunha. Havia compreendido os meus textos. Para o bem ou para o mal, lia o que eu mesmo não podia ler pra você nem pra ninguém. Foi só o primeiro. Porque depois veio outro e mais outro e mais outro, cada um com a sua interpreta­ção, uma diferente da outra. Todos tinham compreendido os meus textos e, muito excitados, queriam compartilhar a sua interpretação comigo. Inva­riavelmente, já sabiam o que liam antes de ler. Em alguns desses homens, as letras despertaram uma ira que eu tampouco saberia explicar. E eu fugi. Que mais podia fazer? Fechei os olhos. Para não ter que vê-los nem conver­sar com eles – nem com ninguém – sobre o que não se traduz (afinal, é uma língua para todos). No início, ainda me insultaram e me ameaçaram, que­riam que eu abrisse os olhos e a boca. Mas logo me esqueceram. Ninguém xinga por muito tempo um homem de olhos fechados.
Pelo menos, ganhei a solidão. E você sumiu da minha frente. Desde então, quando abro a porta da oficina, sempre de olhos fechados, já não corro o risco de deparar com alguém pra me interpelar sobre o sentido do que escrevo. Já não se atrevem a decifrar nenhum código. Nem a me insultar.
Resignaram-se às letras aleatórias. Já não sou notado. Como se também tivessem deixado de me ver desde que fechei os olhos.
Se você não tivesse desaparecido no dia em que fechei os olhos, na certa diria, em prol da minha modéstia, que está tudo na minha cabeça, que ninguém nunca esteve nem aí pra mim nem pra minha língua, que é tudo mistificação.Você me perguntaria, com o seu despeito habitual, por que é que não escrevi este texto na minha própria língua. E eu diria que esta é uma despedida. É a última vez que me explico. Você faria questão de lem­brar que não é língua; é grafia. E eu teria de concordar. Uma grafia. Que seja. Tudo em prol da minha modéstia. Sou (fui) um homem de letras. E por tudo o que vi antes de fechar os olhos (e que o espanto da sua incompreensão só confirmou), inventei essa grafia, se é assim que você prefere chamá-la, ao mesmo tempo simples e intraduzível, e fechei os olhos, pra nunca mais passar pelo constrangimento de ter que explicar a você (nem a ninguém) o seu próprio espanto." Bernardo Carvalho, in rev. Serrote
Bernardo Carvalho é um dos mais destacados autores brasileiros contemporâneos, escritor e jornalista.  É autor de mais de 20 livros, entre eles O filho da mãe, O sol se põe em São Paulo, Nove noites, Mongólia e Aberração, todos editados pela Companhia das Letras. As suas obras estão traduzidas em mais de dez idiomas. É também tradutor e autor da peça BR-3, encenada às margens do rio Tietê.