terça-feira, 3 de dezembro de 2013

A CONSTRUÇÃO DE UM POEMA

Poder apresentar  a prosa e a poesia de Eugénio Lisboa, num ímpar  acto de criação,  é um privilégio que nunca poderemos agradecer.
 A Eugénio Lisboa, expoente maior  da   nossa Literatura, a nossa sempre desassossegada  e total  rendição.


A CONSTRUÇÃO DE UM POEMA
                                                        Para Giulia Lanciani

"Em Dezembro de 1976, saí definitivamente de África, rumo à Suécia, via Lisboa. Em África começava por essa altura o verão, quente, espesso, húmido, envolvente e propício a uma lassidão prolongada: anunciador de vida, sol, alegria, languidez e algum perigo. O Norte, a Escandinávia, para onde ia e onde cheguei em princípios de Janeiro de 1977, era outro mundo: frio, coberto, fechado – a neve tudo tapava com a sua beleza branca e anestesiante. Saía do fulgor da vida para uma espécie de sanatório confortável, bem organizado e vagamente entorpecedor. Saía um pouco de uma vida intensa para  uma espécie de morte agradável porque o era sem bem o ser. O contraste foi tão violento que quase obliterou a minha memória de tantos anos em que estivera tão feliz e tão vivo. Aquela neve branca, aquele conforto bem arranjado, aqueles alunos bem tratados e vagamente entediados, toda aquela ordem, todo aquele frio exterior exactamente compensado por um tão eficaz aquecimento interior, toda aquela facilidade de ir vivendo embora vivendo pouco – deixavam para trás, num apagamento súbito, radical e inevitável, todo um passado de aprendizagens, aventuras, leituras, amizades e paixões: era como se nada daquilo tudo – que era tanto – tivesse alguma vez existido. A neve, o conforto, a calma – eu ia dizer: a apatia – de tal modo contrastavam com os tempos de vida, calor, criação e perigo que vinha de viver, que corria claramente o risco de me esquecer de toda uma parte importante da minha vida. A vivência desse contraste violento e a consciência dolorosa e forte desse iminente esquecimento desencadearam em mim uma vontade irresistível de registar, de imediato, tudo isso: podia, eventualmente, desaparecer, em mim, dentro de mim, mas o texto ficaria para outros. Mesmo que eu próprio, que tão fortemente o vivera, mais tarde, ao lê-lo, já o não reconhecesse, ou o não reconhecesse com toda a força e evidência que em mim tivera, no momento de o viver – e de o escrever.
Que forma dar-lhe?, foi a pergunta que a mim próprio fiz. Uma carta a um amigo? Uma página de diário? Um pequeno ensaio? Um conto? Mais ambiciosamente: um romance? Um poema? Logo se impôs, como quase inevitável, a ideia de um poema; com a sua linguagem concentrada, intensa, alusiva, metafórica, um pouco (mas só um pouco) enigmática, de algo que se vela mesmo quando se desvela, opaco e transparente, provocador e sedutor. E logo me ocorreu um personagem com quem convivera em Moçambique e que, para mim, personificava esse mundo de “húmida, vegetal espessura” de que vinha para a “neve que faz mal”: José Craveirinha, de quem fora (e ainda sou) amigo, com quem conversara quase quotidianamente e sobre quem escrevera (e, na Voz de Moçambique, publicara o primeiro texto de fundo que, sobre a sua poesia se publicou). Craveirinha seria a referência, a imagem humana que me sustentaria na elaboração do poema e, mais ostensivamente, aquele a quem o poema seria dedicado para que melhor se descodificasse, no poema, o sentido um pouco secreto.
No mesmo momento em que tudo isto congeminava, lia, um pouco ao acaso, textos de Pessoa recolhidos por David Mourão-Ferreira no livro O Rosto e as Máscaras. Muito em particular, o poema “O último sortilégio”, de que um ou outro verso serviu, para mim, de motor de arranque. Pessoa perturba-me, às vezes repele-me, mas frequentemente estimula-me. Quem tem um verso (que provoca) e uma vontade irresistível de “fixar” qualquer coisa – tem um poema. A angústia de ter de escrever, que precede o acto de realmente escrever começou a ser rapidamente substituída pela convicção (forte) de que o poema estava garantido. Uns versos propiciadores (ou fracções de versos) – os de Pessoa -, uma vivência forte e quase intolerável, que se não podia perder nas fragilidades da memória, uma referência aglutinadora e simbólica (José Craveirinha), eis os principais fermentos de que dispunha para consumar a alquimia do poema. Enquanto o não realizasse não teria paz. A neve de um lado a e a verde espessura do outro criavam um diferencial propiciador que o medo do esquecimento (obliteração) ajudava a mover-se em direcção ao poema. Começava a sentir-me melhor, por outras palavras, quase indiscretas, começava a sentir que estava quase salvo. Certas palavras começaram a impor-se: “neve”, “mineral”, “gelado”, para simbolizarem o exílio, a emigração arrefecedora que me caíra em sorte; ou, do outro lado, a “chuva” que “fecundava” a “terra de ouro” e propiciava a “vegetal espessura” de um mundo que ficara para trás... Com esta vontade forte de me salvar, de me não deixar esquecer, apoiado no arranque que  me propiciavam um ou dois versos de Pessoa (também, para mim, símbolo de um certo frio de que  às vezes fujo), munido de alguns vocábulos que na minha cabeça e na minha sensibilidade se impunham obsessivamente, o poema, dentro de mim, construía-se. Construía-se no sentido de lhe faltar só o que era realmente importante: uma linguagem articulada capaz de produzir, nas palavras de Valéry, “algo de novo e de capital importância” (nem que só para mim). E construía-se com uma estranha pressa, como se tivesse receio de se desvanecer pelo caminho se rapidamente se não deixasse agarrar. E foi assim que, numa tarde branca mas sem luz, numa Estocolmo onde lambia feridas arranjadas num paraíso que acabava de perder, foi assim, digo, que, numa espécie de transe e com uma rapidez improvável, compus o poema que abaixo transcrevo e mais tarde (oito anos mais tarde) viria a incluir no meu primeiro livro de poesia. Parecia-me que tinha encontrado, para a minha obsessão, uma articulação necessária e a música adequada, uma espécie de balanço inevitável capaz de me salvar e salvar um pouco de um passado intenso que aquela peculiar e fria latitude ameaçara obliterar.

NO TEMPO EM QUE, FERNANDO

Era terra de sol e alegria,
de húmida, vegetal espessura:
ali a minha voz acontecia,
com o ritmo do sangue e da negrura.

Agora, a neve branca cobre a estrada,
com seu manto de noite e solidão.
Já, se o círculo traço, não há nada,
se não fora gelada vibração.

Era terra de ouro fecundada,
força macha, leal, apetecida.
Era chuva, magia visitada,
era sal, sugestão de força ardida.

Agora é só o branco que faz mal
ao filho cujo sal já emigrou.
A vida, agora, é lisa, mineral,
o coração, gelado, sossegou.

Estocolmo, 31.l.77 
                                                      Eugénio Lisboa 

P.S. - Quando falo em “salvar-me”, estou consciente da modesta relatividade da minha salvação. Salvar-se, na memória dos outros, salvam-se, de facto, muito poucos. Os prodígios não estão ao alcance de todos. Já Borges lembrava, com o acerado da sua lucidez, que “A arte é essa Ítaca/De verde eternidade, não de prodígios”.. Conseguir, a modéstia de uma “verde eternidade”, que só muito de vez em quando viesse a ser capaz de captar a atenção momentânea e errática de algum vasculhador de bibliotecas num futuro remoto e nebuloso seria já compensação que bastasse para o esforço urgente de registo a que me senti chamado naquele dia de inverno branco, não demasiado longe do Polo Norte." Eugénio Lisboa

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