sábado, 26 de outubro de 2013

Convocar as palavras

 “Quando um dia acabem os poetas...Há-de ser tudo uma grande sensaboria.” - Adolfo Casais Monteiro

Convocar as palavras
torná-las responsáveis
pedir-lhes som leveza
força sugestão apelo
exigir-lhes sedução e música

Ficar atento ao seu sinuoso ataque
quando dizem gaivota cálice água
navalha vento madrugada

Devorar as palavras 
fazê-las sangue linfa lágrima
esperma suor saliva

devolvê-las lavadas nuas branda
prová-las vinho beijo voo
recomeçar

morrer por elas.
Rosa Lobato de Faria, in " A Noite Inteira Já Não Chega" , Poesia 1983-2010, Ed. Guimarães
Mas que sei eu

Mas que sei eu das folhas no outono 
ao vento vorazmente arremessadas
quando eu passo pelas madrugadas
tal como passaria qualquer dono?

Eu sei que é vão o vento e lento o sono
e acabam coisas mal principiadas
no ínvio precipício das geadas
que pressinto no meu fundo abandono

Nenhum súbito súbdito lamenta
a dor de assim passar que me atormenta
e me ergue no ar como outra folha

qualquer. Mas eu que sei destas manhãs?
As coisas vêm vão e são tão vãs 
como este olhar que ignoro que me olha. 
Ruy Belo, in " Transporte no Tempo, Todos os Poemas II", Assírio & Alvim

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