sábado, 30 de junho de 2012

O lugar da Arte

«A arte é, pois, incapaz de satisfazer a nossa última exigência de absoluto. Já, nos nossos dias, se não veneram as obras de arte, e a nossa atitude perante as criações artísticas é fria e reflectida. Em presença delas, sentimo-nos livres como se não era outrora, quando as obras de arte constituíam a mais elevada expressão da Ideia. A obra de arte solicita o nosso juízo: o seu conteúdo e a exactidão da sua representação são submetidos a um exame reflectido. Respeitamos, admiramos a arte; mas acontece que já não vemos nela qualquer coisa que não poderia ser ultrapassada, a manifestação íntima do Absoluto, e submetemo-la à análise do pensamento, não com o intuito de provocar a criação de novas obras de arte, mas antes com o fim de reconhecer a função e o lugar da arte no conjunto da nossa vida.
(…)Após a pintura e a música vem a arte da palavra, a poesia em geral, a verdadeira arte absoluta do espírito manifestando-se como espírito. Com efeito, só a palavra é capaz de se apropriar, de exprimir, transformando-o em objecto de representação, tudo quanto a consciência concebe e reveste de uma forma que ela encontra em si própria. Por isso, a poesia é, pelo seu conteúdo, de todas as artes a mais rica, a mais ilimitada
G W. Friedrich Hegel, in “Estética”, trad. Álvaro Ribeiro e Orlando Vitorino, Guimarães Editora, Lisboa, 1993
G W. Friedrich Hegel, in “Estética”, Guimarães Editora, Lisboa, 1993

sexta-feira, 29 de junho de 2012

Foi ontem


Charles Aznavour, uma voz maior da música francesa, em " Hier encore", uma canção que se funde num poema. O tempo que já foi,  célere e promissor, deixou na memória sonhos, desejos, realizações imaturas, ambiciosas, mas sempre alicerçados na força da Esperança. 
Foi ontem e já é hoje que voltamos a recordar o tempo mágico da canção francesa , quando a juventude acreditava que  podia  comandar  as revoluções e mudar o mundo.



Hier encore
J'avais vingt ans
Je caressais le temps
Et jouais de la vie
Comme on joue de l'amour
Et je vivais la nuit
Sans compter sur mes jours
Qui fuyaient dans le temps

J'ai fait tant de projets
Qui sont restés en l'air
J'ai fondé tant d'espoirs
Qui se sont envolés
Que je reste perdu
Ne sachant où aller
Les yeux cherchant le ciel
Mais le cœur mis en terre

Hier encore
J'avais vingt ans
Je gaspillais le temps
En croyant l'arrêter
Et pour le retenir
Même le devancer
Je n'ai fait que courir
Et me suis essoufflé

Ignorant le passé
Conjuguant au futur
Je précédais de moi
Toute conversation
Et donnais mon avis
Que je voulais le bon
Pour critiquer le monde
Avec désinvolture

Hier encore
J'avais vingt ans
Mais j'ai perdu mon temps
A faire des folies
Qui ne me laissent au fond
Rien de vraiment précis
Que quelques rides au front
Et la peur de l'ennui

Car mes amours sont mortes
Avant que d'exister
Mes amis sont partis
Et ne reviendront pas
Par ma faute j'ai fait
Le vide autour de moi
Et j'ai gâché ma vie
Et mes jeunes années

Du meilleur et du pire
En jetant le meilleur
J'ai figé mes sourires
Et j'ai glacé mes pleurs
Où sont-ils à présent
A présent mes vingt ans .

Charles Aznavour e Georges Garvarentz

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Morreu Robert Sabatier


Décès de Robert Sabatier : l'allumette consumée
"Il se plaisait à citer Boris Pasternak : «La mort n’est pas notre affaire», Robert Sabatier, décédé le jeudi 28 juin à l’âge de 88 ans, ne peut plus en dire autant.
Doyen de l’Académie Goncourt, l’écrivain avait été révélé par son roman Les Allumettes suédoises paru en 1969 et qui avait connu un énorme succès. Il regrettait parfois cette image d’écrivain populaire qui lui collait à la peau, lui qui se considérait avant tout comme un poète et à qui l’on doit une impressionnante Histoire de la poésie française.Né en 1923, il a grandi dans les rues de Montmartre, qui ont servi de cadre à plusieurs de ses romans autobiographiques, mettant en scène «Olivier», son double romanesque. Orphelin à douze ans, il est adopté par son oncle et sa tante qui vivent en Haute-Loire, et commence à travailler dans l’atelier typographique de son tuteur à l’âge de 13 ans. Sous l’Occupation, Robert Sabatier imprime des tracts en faveur de la Résistance et participe à la Libération du Puy. Après la guerre, il fonde en 1947 une revue de poésie intitulée La Cassette, où signeront Paul Eluard, René-Guy Cadou ou encore Frédéric-Jacques Temple. 

De retour à Paris en 1950, il rencontre Gaston Bachelard et Jules Supervielle qui nourriront son inspiration, il fréquente assidûment les cercles poétiques de la capitale en dehors de ses heures de travail aux Presses universitaires de France.
En 1969, il reçoit le grand prix de poésie de l’Académie française pour l’ensemble de son œuvre. La même année, il publie Les Allumettes suédoises qui enthousiasme les lecteurs, bien que la critique reste un peu plus froide aux charmes de ce récit de jeunesse montmartroise. Le succès du roman lui permet de se lancer dans la rédaction d’une Histoire de la poésie française en neuf volumes. Élu jury du Prix Goncourt en 1971, Robert Sabatier aura été jusqu’à sa mort, une grande figure du milieu littéraire parisien."

Magazine Littéraire ,28/06/2012 | Fil des lettres

A respiração do mundo


O tempo digital e o seu frenesim
por ANSELMO BORGES
"Enigma maior é o tempo. Lá está Santo Agostinho: "O que é o tempo? Como são o passado e o futuro, uma vez que o passado já não é e o futuro ainda não é?" E o presente? Mal dizemos "agora" e já caiu no passado. "Se, portanto, o presente, para ser tempo, tem de cair no passado, como podemos dizer que algo é, se só pode ser com a condição de já não ser?"
As culturas experienciam o tempo, cada uma a seu modo: nas tradicionais, o tempo privilegiado é o passado - lá está o mito do paraíso perdido; na modernidade, privilegiou-se o futuro - o passado é simplesmente o ultrapassado, a caminho da realização das utopias.
Por causa das novas tecnologias, sobretudo ao nível dos média - telefona-se, navega-se na Web, lê-se documentos ao mesmo tempo que se envia mensagens -, a vivência do tempo actual é a do tempo concentrado, do "curto prazismo" e até do imediatismo cumulativo. Aí está o tempo chamado digital ou numérico, que nos dá a sensação de quase simultaneidade e ubiquidade: pense-se na comunicação quase simultânea para todo o mundo. Afinal, o que se encurtou mesmo foi o espaço, que não pode ser separado do tempo: no mesmo dia, uma reunião no Porto, outra em Paris, uma terceira em Londres, com regresso ao Porto. Mas é sobretudo a computação que nos dá a possibilidade de contacto quase instantâneo com todo o mundo. Tudo é mais rápido - leio em Philosophie Magazine: num século, a velocidade de comunicação aumentou 107%, a dos transportes pessoais 102%, a do tratamento da informação 1010%.
Fazemos muito mais coisas em muitíssimo menos tempo. Vem então a pergunta da semana passada, aqui: porque é que todos se queixam da falta de tempo, em vez de aumentar o tempo livre? Resposta do sociólogo Hartmut Rosa: com os transportes e a Internet também se acelerou a vida social e entrámos numa lógica infernal de competição, de tal modo que somos devorados pelo produtivismo e consequente consumismo. A aceleração acabou por tornar-se "o equivalente funcional da promessa religiosa de vida eterna". Impôs-se-nos a multiplicação constante e frenética das experiências e das actividades, numa corrida sem fim.
Isto tem consequências também na economia? É evidente que sim. Investir implica uma vivência do tempo longo: quanto tempo leva para se receber os frutos do investimento? Assim, "o marketing substituiu a deliberação política, com a finalidade de lucros especulativos", escreve o filósofo B. Stiegler. A velocidade tecnológica foi posta ao serviço da guerra económica: em vez do investimento, a especulação.
Antepondo o fazer ao ser, somos melhores e mais felizes? Não há, pelo contrário, a sensação generalizada de cansaço e de stress? Precisamente porque "vivemos num tempo completamente descontínuo, disperso. Sem calendário, sem liturgia, sem ritual, já não conhecemos ritmo. Já não há tempo que permita o recolhimento do pensamento. Multiplicou-se a dispersão inerente ao mundo do quotidiano", observa a filósofa Françoise Dastur.
Afinal, mesmo se já há empresas que promovem cursos de meditação ou semanas de retiro num mosteiro, é para que os funcionários se tornem mais competitivos, no regresso ao trabalho. As pessoas vão para a cama - a duração média do sono baixou duas horas desde o século XIX - com o sentimento de culpa, pois não acabaram a lista dos afazeres.
Voltando a Hartmut Rosa, a aceleração tornou-se o novo modo da nossa alienação social: ao contrário das Igrejas, que, se criaram sentimentos de culpa nos fiéis, ofereciam alívio aos pecadores - podiam confessar-se, Jesus morreu para libertar dos pecados -, "a nossa sociedade da aceleração produz culpados sem remissão nem perdão".
Não é, portanto, de uma nova relação mais atenta e serena com o tempo que precisamos? "Deixemos que as nossas vidas sejam guiadas por aquilo que eu chamo momentos de ressonância": o contacto com a natureza, passeando; escutando a grande música, a alma corresponde, o mesmo podendo acontecer com um grupo de amigos; diante do mar, é como se o mundo respondesse e as suas ondas fossem a respiração do mundo." Anselmo Borges em crónica publicada no DN em 26 de Maio de 2012

quarta-feira, 27 de junho de 2012

A pátria é a viagem


Rui Nunes e a viagem: “Ando de um lado para outro. É vital para mim. E muitas vezes ando de uns sítios para os outros cansado e com dificuldade, mas não consigo parar 
A Pátria é a viagem de Rui Nunes
É um escritor que se subtraiu sempre das luzes da ribalta. Por princípio e por pudor. Todavia é um imenso escritor, um dos melhores.
Recebeu em 1992 o Prémio PEN Clube Português de ficção e em 1998 o Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores. "Sauromaquia" (1976) é o seu primeiro livro. "Barro", que acaba de sair, o último.
Quando perguntaram a Hélia Correia que medidas tomaria para uma maior divulgação das obras de Maria Gabriela Llansol, ela respondeu intempestivamente: "Nenhumas, quem sentir a falta que leia". E se a mesma pergunta fosse colocada a Rui Nunes sobre Rui Nunes?

Não calculo. Nada, possivelmente, como disse Hélia Correia. "Quem quiser que leia" é uma belíssima resposta. Não há muito a fazer. A publicidade destrói completamente aquilo que escrevo, é uma sombra que se projecta. Esse tipo de mostração torna pornográfico aquilo que o não é. Cada livro vai conseguindo os leitores que merece. Se, por publicidade, o livro chegar aos leitores que não são os leitores dele, eles não ficam, vão-se embora.

No seu novo livro, "Barro", subtrai até ao osso a matéria ficcional que comummente se espera. Parte-se de referências autobiográficas - a infância, a exposição The Porn Identity na Kunsthalle de Viena em 2009, o desejo, a constelação de autores que o marcaram (Celan, Tolstói, Victor Hugo, O Conde de Monte Cristo...)
São elementos autobiográficos, mas o livro não é uma autobiografia. Tentei reunir os elementos da minha vida que contribuíram para a construção da minha escrita, que estão na génese dela. No seguimento de "A Mão do Oleiro", há uma presença do texto bíblico. Logo no começo deste, o que Deus disse a Jeremias: "E Deus disse: faça-se / do lixo, um rosto". Em "Barro", as primeiras duas palavras são as do Génesis: "No princípio". Não sou católico, nem crente propriamente, mas o texto bíblico está inscrito na minha matriz, sobretudo o Antigo Testamento. Tem uma força, uma violência, uma beleza que o Novo Testamento não tem, está mais perto de nós.
Falemos então de Deus, presença disseminada no livro.
Será que falamos de outra coisa? No fundo, Deus é esse nada que leva a falar. É todos os sentidos e não é sentido nenhum. Mas preenchemos essa falta com a malignidade das próprias palavras.
Em "Barro" repete-se várias vezes um poema: "Estão sempre a recomeçar/ as palavras de qualquer fome./ Anónimas. Tornam anónimas todas as bocas. Todas as mãos./ Todos os gestos./ As palavras só prolongam palavras./ Até ao tumulto. De um rosto". Quer comentar?I
Isso diz o meu fascínio pela palavra. Ao mesmo tempo, a palavra só é verdadeira quando acaba num rosto. Que a pára. Não é que a elimina, mas que a recebe e cala.
E a última palavra é o nome de Deus?
A última palavra é um rosto imensamente esperado. Falta sempre uma palavra a qualquer livro." Maria da Conceição Caleiro, Ypsilon , 6/06/2012
Leia o artigo completo em A pátria é a viagem de Rui Nunes 

terça-feira, 26 de junho de 2012

Só a ti canto


Soneto


Amor desta tarde que arrefeceu
as mãos e os olhos que te dei;
amor exacto, vivo, desenhado
a fogo, onde eu próprio me queimei;

amor que me destrói e destruiu
a fria arquitectura desta tarde
- só a ti canto, que nem eu já sei
outra forma de ser e de encontrar-me.

Só a ti canto, que não há razão
para que o frio que me queima os olhos
me trespasse e me suba ao coração;

só a ti canto, que não há desastre
donde não possa ainda erguer-me
para encontrar de novo a tua face.

Eugénio de Andrade, in "Antologia (1940-1961)", Ed. Delfos

Flor da Liberdade

Sombra dos  mortos, maldição dos vivos.
Também nós…Também nós…E o sol recua.
Apenas o teu rosto continua
A sorrir como dantes,
Liberdade!
Liberdade do homem sobre a terra
Ou debaixo da terra.
Liberdade!
O não inconformado que se diz
A Deus, à tirania, à eternidade.

Sepultos insepultos,
Vivos amortalhados,
Passados e presentes cidadãos:
Temos nas nossas mãos
O terrível poder de recusar!
E é essa flor que nunca desespera
No jardim da perpétua primavera.
Miguel Torga, in “Orpheu Rebelde “, 1958, Poesia completa, Círculo de Leitores


A Escrita

a escrita é a minha primeira morada de silêncio
a segunda irrompe do corpo movendo-se por trás das palavras
extensas praias vazias onde o mar nunca chegou
deserto onde os dedos murmuram o último crime
escrever-te continuamente... areia e mais areia
construindo no sangue altíssimas paredes de nada

esta paixão pelos objectos que guardaste
esta pele-memória exalando não sei que desastre
a língua de limos

espalhávamos sementes de cicuta pelo nevoeiro dos sonhos
as manhãs chegavam como um gemido estelar
e eu perseguia teu rasto de esperma à beira-mar

outros corpos de salsugem atravessam o silêncio
desta morada erguida na precária saliva do crepúsculo
Al Berto, in “O  Medo“ (Prémio Pen Clube), Editor Contexto, 1987

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Festival Silêncio



O FESTIVAL SILÊNCIO ESTÁ PRESTES A INVADIR VÁRIOS ESPAÇOS DA CIDADE DE LISBOA
O Festival Silêncio pretende devolver o poder à palavra cruzando-a com as diferentes artes e sublinhando o papel vital desta na criação artística.
De 26 de Junho a 1 de Julho, a palavra inscreve-se na vida da cidade pela mão de escritores, artistas plásticos, encenadores, músicos, actores, cineastas que exploram essa íntima relação com a linguagem.
Seja qual for o seu modus operandi, é através da palavra que grandes nomes da cena literária e artística irão partilhar com o público a sua própria visão do mundo.
Dos concertos aos espectáculos multimédia, das conversas às leituras encenadas, do cinema à poesia, cruzam-se disciplinas, práticas e públicos.
Numa época em que se valorizam as imagens em detrimento das palavras, o Festival Silêncio pretende dar voz aos criadores num palco transversal aberto à reflexão e ao debate. 
Conversas

O Poder da Palavra

Junho 26
 21H00, Pensão Amor
Para a conversa que irá inaugurar a quarta edição do Festival Silêncio, o tema parecia quase inevitável: a palavra e o seu poder. O que pode a palavra fazer? Ou será simplesmente a mais bonita das impossibilidades, face à cultura das imagens e ao próprio silêncio? A estas e outras perguntas irão responder convidados com visões distintas e completas desta estranha magia: o guionista e fundador das Produções Fictícias, Nuno Artur Silva, a directora criativa Susana Sequeira, a poetisa Golgona Anghel e o músico Kalaf. A moderar a conversa estará o jornalista Nuno Miguel Guedes.

Entrada Livre

Leituras

LER
SARAMAGO
JUNHO 3018H00, FUNDAÇÃO JOSÉ SARAMAGO
Num espaço ao ar livre, frente à Casa dos Bicos, o Festival Silêncio promove, em parceria com a Fundação Saramago, uma leitura de poemas de José Saramago aberta ao público. Leitores, escritores, amigos juntam-se num final de tarde para darem voz à sua poesia.
Entrada livre

Veja toda a programação aqui.

domingo, 24 de junho de 2012

Ao Domingo Há Música


"Há música. Tenho sono
Tenho sono com sonhar.
Estou num longínquo abandono
Sem me sentir nem pensar." Fernando Pessoa , in " Poesias Inéditas 1919-1930", Edições Ática 1956

Se sonhar nos é permitido quando acordados, não guardemos para o sono esse longínquo abandono. A música tem a capacidade de desenhar a dimensão que qualquer sentimento lhe queira emprestar. 
Sentir com sons as palavras que o coração deseja é um dos desafios da obra seleccionada para este Domingo,  a 2ª Sinfonia de Mahler, Final (Ressureição).
Vindo da Venezuela, o já famoso Maestro Gustave Dudamel  dirige a Orquestra venezuelana Simon Bolivar , a soprano Miah Persso , a mezzo-soprano Anna Larsson e o National Youth Choir of Great Britain no  Royal Albert Hall, em Londres (BBC Proms) no dia 5 de  Agosto de 2011, num espectáculo muito aplaudido.


sábado, 23 de junho de 2012

Blimunda


"(...)Blimunda se virou para ele , os olhos agora escuros, e de repente uma luz verde passando, que importavam agora os segredos, melhor seria tornar a aprender o que  já sabia, o corpo de Blimunda, ficará para outra ocasião, porque esta mulher, tendo prometido, vai cumprir e diz, Lembras-te da primeira vez que dormiste comigo, teres dito que te olhei por dentro, Lembro-me, Não sabia o que estavas a dizer, nem soubeste o que estavas a ouvir quando eu te disse que nunca te olharia por dentro. Baltasar não teve tempo de responder, ainda procurava o sentido das palavras, e outras já se ouviam no quarto, incríveis, Eu posso olhar por dentro das pessoas." José Saramago, in " Memorial do Convento" , Círculo de Leitores


“ A Fundação José Saramago pretende que os três primeiros pisos deste edifício emblemático sejam espaços públicos em que se celebrem exposições, recitais, conferências, cursos, seminários, de modo que as suas dependências sejam colocadas ao serviço da cultura. A Casa ficará aberta ao público, pondo assim termo a um largo período em que nem os lisboetas nem os turistas podiam apreciar os vestígios de épocas passadas que se albergam no piso térreo: um conjunto de estruturas que remonta às primeiras ocupações do espaço, um troço importante da muralha fernandina, tanques romanos ( cetárias) de base quadrangular, destinados à salga e conserva de peixes ( o famoso garum), e por restos  de cerca moura…
A fundação José saramago encarregar-se-á da manutenção da Casa. O edifício é de propriedade municipal, cedido, mediante protocolo assinado em Julho de 2008, à Fundação por um período de 10 anos. Pretende-se que em Junho tenha terminado a primeira fase de restauro e possa , assim, dar-se início ao seu uso público”
E assim aconteceu. Em 13 de Junho, a Fundação José Saramago foi oficialmente inaugurada como um grande acontecimento cultural.
Entretanto, dá-se também  o ressurgimento da revista literária da Fundação com o emblemático nome " Blimunda ".

“Após um primeiro arranque, a revista literária digital da Fundação José Saramago ressurge agora com o nome de “Blimunda”. Esta mudança, motivada por razões administrativas relacionadas com o registo do nome da publicação, levou a que o nome da mulher protagonista de “Memorial do Convento”, aquela que coleccionava vontades e que via o interior das pessoas, desse agora o nome e personalidade a este espaço electrónico que mantém os objectivos da Fundação José Saramago. Centrada em questões literárias, a “Blimunda” não perderá de vista os restantes princípios que orientam a Fundação, como a defesa do meio ambiente, a valorização da cultura portuguesa, literária e não só, e aqueles que estão plasmados na Carta Universal dos Direitos Humanos e na Carta de Deveres Humanos sobre a qual a Fundação está a trabalhar.
A publicação deste primeiro número da Blimunda coincide com a abertura ao público da nova sede da Fundação, na emblemática Casa dos Bicos. Este espaço, totalmente recuperado, permitirá a criação de um novo centro cultural na Cidade de Lisboa, à disposição de todos os que nos queiram visitar e, talvez, partilhar objectivos. A Fundação abre as suas portas com uma grande exposição sobre a vida e a obra de José Saramago, organizada por Fernando Gómez Aguilera e intitulada José Saramago. A Semente e os Frutos. Nela podem ser vistos diversos originais do escritor, um conjunto de vídeos e várias centenas dos livros que escreveu e que foram publicados em todo o mundo, quer dizer, os saborosos frutos que nasceram das sementes do trabalho realizado ao longo de uma longa vida plena que culminou a 18 de Junho de 2010, faz agora dois anos, e que com este número de Blimunda humildemente se pretende homenagear.”in Fundação Saramago

sexta-feira, 22 de junho de 2012

A Voz

Carminho, uma grande voz para ouvir e apreciar.

Novos Planetas


Nenhum dos dois planetas tem condições de habitabilidade, mas esta ilustração artística dá uma boa ideia do cenário que se teria com um vizinho tão grande e tão próximo.[Imagem: Eric Agol]

Proximidade de planetas assusta astrónomos

“Lua azul”

Lembre-se da magnitude e da beleza da Lua Cheia nascendo.
Agora imagine que, em vez da Lua, surja no céu um planeta azul, só que três vezes maior.
Esse é cenário que ocorre no inusitado sistema planetário Kepler-36, que acaba de ser descoberto pelos astrónomos.
A estrela é parecida com o Sol, só que bem mais velha.
O Kepler-36b é um planeta rochoso, com 1,5 vez o tamanho da Terra e pesando 4,5 vezes mais. Ele orbita a estrela a cada 14 dias, a uma distância de 17,7 milhões de km.
O segundo planeta, o Kepler-36c, é um gigante gasoso, parecido com Neptuno. Ele é 3,7 vezes maior do que a Terra e pesa 8 vezes mais. Ele orbita a estrela a cada 16 dias, a uma distância de 19,3 milhões de km.
Ou seja, são os dois planetas mais próximos já descobertos até hoje.

Proximidade de planetas assusta astrônomos
Esta visualização, bem mais realística, mostra o intenso vulcanismo induzido no planeta rochoso pelas marés gravitacionais, geradas pela aproximação extrema dos dois planetas. [Imagem: David A. Aguilar (CfA)]

Conjunção
Os dois têm uma conjunção a cada 97 dias, quando ficam separados por menos do que 5 vezes a distância entre a Terra e a Lua.
Como o Kepler-36c é muito maior do que a Lua, do ponto de vista do rochoso Kepler-36b ele aparece em uma visão espetacular.
Coincidentemente, do ponto de vista inverso - olhando o planeta rochoso a partir do gigante gasoso - o vizinho aparece do tamanho da Lua Cheia.
Não é um mundo para se viver.
Em primeiro lugar porque são dois planetas com temperaturas extremas.
Além disso, a aproximação gera gigantescas marés gravitacionais, que comprimem e esticam os dois planetas.
Ainda não há uma teoria para explicar como o gigante gasoso pode manter-se tão perto da estrela - no Sistema Solar, os gigantes gasosos ficam muito afastados da estrela. Redacção do Site Inovação Tecnológica - 22/06/2012
Bibliografia:

Kepler-36: A Pair of Planets with Neighboring Orbits and Dissimilar Densities
Joshua A. Carter et al.
Science
Vol.: Published Online
DOI: 10.1126/science.1223269


quinta-feira, 21 de junho de 2012

Revista da imprensa

Hoje é o 1º dia de Verão. Estação que traz sol, calor e luz. Num país onde a sombra dos dias  de esperança esvaída tem reinado , a chuva marcou este raiar estival. Não muito espessa, mas suficiente para molhar sonhos de um verão sem angústia. 
Portugal é parte integrante de um universo que se move diariamente. Um mundo de gentes com realidades e anseios diversos. No Brasil , a desflorestação da Amazónia tem sido uma ameaça real ao equilíbrio ambiental. Nestes dias, em que se discute à mesa dos grandes (no "Rio+20") a sustentabilidade do desenvolvimento , a Greenpeace lança o tema nas ruas.
Revista da Imprensa desta Quinta-feira, 21 de Junho



Greenpeace recolhe assinaturas contra desflorestação da Amazónia


Enquanto os chefes de Estado e de governo discutem, na Cimeira Rio +20, soluções para o meio ambiente, representantes da sociedade civil tentam pressionar os governantes para que o documento final da conferência das Nações Unidas inclua mecanismos para o desenvolvimento sustentável de florestas, como a Amazónia.


quarta-feira, 20 de junho de 2012

Mariano Melgar, poeta libertário



Mariano Melgar: o primeiro peruano na literatura indigenista
Por Manoel de Andrade
"Conta-se que Arequipa nasceu sobre as ruínas de uma antiga cidade inca e que foi fundada em 1540 pelo próprio conquistador do Peru, Francisco Pizarro. Berço de notáveis nomes da política e da literatura peruana, nela nasceu Mario Vargas Llosa, no ano de 1936. Contudo sua celebridade literária, coroada com o Nobel o ano passado, dispensa aqui qualquer comentário. Devo, entretanto, dizer que quando por lá passei, na virada da década de sessenta, o nome de Vargas Llosa, apesar de seus quatro livros já publicados, ainda não era tão comentado como o do poeta Mariano Melgar, um dos filhos mais queridos da cidade. Falo de um poeta libertário, combatente pela independência do Peru, com o qual se inicia o Romantismo e o Indigenismo na literatura peruana e, tal como o nosso Castro Alves, também libertário pelo abolicionismo, morre igualmente aos vinte e quatro anos.
Mariano Lorenzo Melgar Valdivieso, nasceu em Arequipa em 10 de Agosto de 1790 e por sua precocidade foi um verdadeiro prodígio intelectual. Aos três anos já lia e escrevia, aos oito falava latim e aos nove anos dominava o inglês e o francês. Profundamente identificado com o povo na sua expressão indígena, encontrou no singelo lirismo das canções quechuas a motivação poética para grande parte de seus versos compostos em forma de yaravís, género musical de origem incaica, de composição breve e com um carácter elegíaco, amoroso e melancólico. É o que o poeta expressa neste seu poema chamado Yaraví:
¡Ay, amor!, dulce veneno,
ay, tema de mi  delírio,
solicitado martirio
y de todos males lleno.

¡Ay, amor! lleno de insultos,
centro de angustias mortales,
donde los bienes son males
y los placeres tumultos.

¡Ay, amor! ladrón casero
de la quietud más estable.
¡Ay, amor, falso y mudable!
¡Ay, que por causa muero!

¡Ay, amor! glorioso infierno
y de infernales injurias,
león de celosas furias,
disfrazado de cordero.

¡Ay, amor!, pero ¿qué digo,
que conociendo quién eres,
abandonando placeres.
soy yo quien a ti te sigo?
José Carlos Mariátegui, em "Sete ensaios de interpretação da realidade peruana", ao analisar a poesia de Melgar ressalta inicialmente o “extremo centralismo” com que Lima dominou a literatura colonial, tida como um “produto urbano”, e acrescenta:
"(...)Por culpa dessa hegemonia absoluta de Lima, nossa literatura não se pode nutrir da seiva indígena. Lima foi primeiro a capital espanhola. Só foi a capital crioula depois. E sua literatura teve essa marca.
O sentimento indígena não careceu totalmente de expressão nesse período de nossa história literária. Quem primeiro o expressou com categoria foi Mariano Melgar. (...)"
É esclarecedor colocar aqui o exemplo da poesia de Melgar, para avaliar, em dado momento histórico, os dois lados com que a crítica peruana encara a sua própria literatura: uma do ponto de vista colonialista e culturalmente preconceituosa e outra do ponto de vista legitimamente peruano, ou seja, indigenista, explicitados por duas figuras tão emblemáticas na história da intelectualidade peruana, como Mariátegui e o historiador José de la Riva Agüero (1885-1944), com opiniões tão diversas sobre a imagem literária de Melgar:
“Para Riva Agüero, o poeta dos yaravíes não passa de "um momento curioso da literatura peruana". Retifiquemos esse julgamento, dizendo que é o primeiro peruano dessa literatura.”.
Comenta Mariátegui o desdém com que a crítica limenha tratou a poesia popular e indigenista de Melgar, num arraigado preconceito colonial que, um século depois, atingiria ainda, com o punhal da indiferença, o coração poético e indígena de Cesar Vallejo, a ponto de fazê-lo abandonar o Peru para nunca mais voltar. Vallejo é hoje reconhecido como o maior poeta do Peru e, como poeta universal, divide com Pablo Neruda a grandeza da poesia hispano-americana. Mariano Melgar teve sua imagem poética e libertária reconhecida oficialmente pelo governo peruano somente em Junho de 1964. Apenas nos dois casos aqui citados essa é uma justa, necessária e tardia penitência, mas perguntamos se a cultura limenha já limpou a alma desse antigo pecado, porque continua, até os dias de hoje, ditando suas sentenças culturais no exercício de sua explícita hegemonia intelectual, em detrimento dos valores literários das províncias.
Mariátegui é o que melhor dá a dimensão do poeta de Arequipa, seja como mártir da independência, seja pela potencialidade de sua poesia, caso não houvesse morrido tão cedo. Abordando o lado romântico de Melgar, ressalta o grande despojamento do jovem poeta pela causa libertária, comparando-o ao cacique cusquenho Mateo Pumacahua, que em 1815 se tornou um dos líderes da revolta contra os espanhóis, sendo preso e fuzilado pelas tropas coloniais.
“Melgar é um romântico. Não apenas em sua arte, mas também em toda sua vida. O romantismo ainda não tinha oficialmente chegado a nossas letras. Em Melgar, portanto, não é, como será mais tarde em outros, um gesto de imitação, é um impulso espontâneo. E esse é o dado de sua sensibilidade artística. Já se disse que se deve à sua morte heroica uma parte de seu renome literário. Mas essa valorização dissimula mal a desdenhosa antipatia que a inspira. A morte criou o herói, frustou o artista. Melgar morreu muito jovem. E mesmo que seja sempre um pouco aventureira qualquer hipótese sobre a trajetória provável de um artista prematuramente surpreendido pela morte, não é demais supor que Melgar, maduro, teria produzido uma parte mais purgada da retórica e do maneirismo clássicos e, por conseguinte, mais nativo, mais puro.(...)"
Os que se queixam da vulgaridade de seu léxico e de suas imagens partem de um preconceito aristocrático e academicista. O artista que escreve um poema de emoção perdurável na linguagem do povo vale, em todas as literaturas, mil vezes mais que aquele que, em linguagem académica, escreve uma depurada peça de antologia. Por outro lado, como observa Carlos Octavio Bunge num estudo sobre a literatura argentina, a poesia popular sempre precedeu a poesia artística. Alguns dos yaravíes de Melgar só vivem como fragmentos de poesia popular. Mas, com esse título, adquiriram substância imortal”.
Não é diferente a opinião do crítico italiano Giuseppe Bellini, tido como o mais abalizado estudioso europeu da literatura hispanoamericana. Comentando a poesia gauchesca do poeta da independência uruguaia Bartolomé José Hidalgo (1788-1822), Bellini anota que: “Junto con Hidalgo cabe recordar a Mariano Melgar (1791-1815), cultivador también de la poesía popular en los “yaravíes” y “palomitas”. El poeta peruano, sin duda más culto que Hidalgo, traductor e imitador de Horacio y de Virgilio, manifestó, tal vez por su carácter de mestizo, un profundo apego al elemento popular quechua y a la naturaleza, antecipando un indigenismo que dará resultados consistentes durante el Romanticismo y en el siglo XX."
Mariano Melgar une-se às tropas do cacique Mateo Pumacahua, que no passado fora aliado dos espanhóis, mas que a partir de 1814 empunhou a bandeira da independência em Cusco. Vencidos na batalha de Umachiri, o poeta é aprisionado e mantido em cativeito até ao amanhecer do dia 12 de Março de 1815 quando é executado. Ante o pelotão de fuzilamento Melgar escreveu num bilhete aos oficiais espanhóis:
"Cubram seus olhos, já que vocês são os que necessitarão misericórdia porque a América será livre em menos de dez anos!”
E assim aconteceu. Em 9 de Dezembro de 1824, um exército de 6.879 patriotas de vários países hispanoamericanos, sob o comando do general venezuelano Antonio José Sucre, vence o exército espanhol de 10.000 soldados, selando em Ayacucho a independência do Peru e da América do Sul."

Manoel de Andrade (Curitiba-Brasil), in " O Bardo Errante", obra memorialista em construção

terça-feira, 19 de junho de 2012

Lançamento de Livros de Fernando Pessoa


A Actualidade em Cartoon


"Le lundi 18 juin. Le PS a remporté un succès historique, Ségolène Royal battue à La Rochelle. " Cartoon de Ranson, Le Parisien
Ranson, Le Parisien 

Ranson, Le Parisien
The Daily Cartoon, The Independent
Saúde poupadinha 
  Humoral de Rodrigo, Expresso 
Cartoon de António, Expresso
Cartoon  Elias o Sem Abrigo de R. Reimão e Anibal F., JN
The Daily Carton, The Independent

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Cimeira Rio+20


 
“Sob impacto do rascunho do documento da Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável (Rio+20), representantes da sociedade civil intensificaram os debates, na tentativa de incluir temas considerados prioritários no texto final. Os participantes dos debates paralelos  concentram-se nos esforços para que suas recomendações cheguem às mãos dos 115 chefes de Estado e de Governo, nos próximos dias 20 a 22.
Para a sociedade civil, é preciso redefinir os caminhos trilhados pelos governos para garantir que o desenvolvimento sustentável seja um instrumento de combate à pobreza. Nas sugestões, os grupos da sociedade civil querem estabelecer propostas para os novos padrões de consumo e produção nos vários países e medidas que assegurem a preservação das florestas.
Esses são alguns dos temas, apontados como prioritários, da agenda internacional de sustentabilidade da Rio+20, que integram os Diálogos para o Desenvolvimento Sustentável. Os debates estão divididos em dez painéis, que tratam de dez diferentes assuntos, e vão até terça-feira (19).
As discussões são conduzidas por representantes de vários países, que falam em nome de universidades, comunidades científicas e movimentos sociais. Os grupos definem três propostas para cada tema, e essas recomendações serão apresentadas aos chefes de Estado e de Governo.
A porta-voz da Organização das Nações Unidas (ONU), na Rio+20, Pragati Pascale, considerou inovador esse modelo de debate que estimula a mobilização da sociedade civil. “É fundamental que exista participação, e é um traço importante da conferência”, disse ela. Apesar de exaltar a iniciativa, Pascale alertou que “provavelmente será tarde demais para que as recomendações feitas pelos grupos produzam alguma alteração no documento final da conferência”.
As recomendações da sociedade civil deverão ser agregadas ao documento, que está sendo finalizado pelos negociadores em reuniões, e que deve ser concluído até dia 18. O texto preliminar já aponta alguns pontos de convergência, mas os principais debates ainda dependem de negociações para superar divergências principalmente entre os países mais ricos e as nações mais pobres.
Os diálogos ocorrem paralelamente às negociações das delegações. Em cada grupo, os participantes têm a tarefa de transformar em três as dez propostas que foram sugeridas e votadas, para cada tema, em uma plataforma na internet que funcionou até poucos dias antes da conferência. Mais de 60 mil pessoas, de 193 países, participaram do processo de consulta digital.
No caso do debate sobre florestas, por exemplo, o tópico que recebeu maior adesão dos participantes foi o que recomenda a restauração, até 2020, de150 milhões de hectares de terras desmatadas ou degradadas.
Em relação ao um novo padrão de consumo e produção, a expectativa é pela criação de mecanismos fiscais verdes, que estimulem essas práticas. A educação em nível global foi o que os participantes elegeram como principal ferramenta para erradicar a pobreza e atingir o desenvolvimento sustentável.” Agência Brasil

Cinema


Um grande cineasta europeu: o húngaro Béla Tarrr. " O Cavalo de Turim" , filme da sua autoria, teve estreia em Portugal. Na Sic, João Lopes comenta esta obra, bem como outras novidades do cinema

domingo, 17 de junho de 2012

Ao Domingo Há Música

"Mais de um mês depois do primeiro acto eleitoral, que culminou sem que nenhum partido conseguisse a maioria parlamentar necessária para formar Governo, os gregos voltam às urnas. O cenário é hoje diferente do que se vivia a 6 de Maio. A Espanha pediu um resgate financeiro disfarçado de “linha de crédito” para recapitalizar o sector da banca e adensam-se os sinais de que restam poucas hipóteses de os espanhóis saírem da crise sem o recurso a um verdadeiro resgate à economia do país. No meio, surge ainda a Itália, o último do PIIGS a oferecer resistência ao “bailout”, mas que não tem escapado à pressão dos mercados e à subida dos juros."RTP

Portugal continua a aplicar as pesadas e asfixiantes normas  de um memorando que tem tido efeitos dolorosos. O desemprego atingiu médias intoleráveis e a miséria bate à porta de tantos e tantos portugueses. O impensável tornou-se realidade. E a Europa das civilizações , a Europa  da cultura, helénica de nascença, é hoje um puzzle onde as peças não encaixam. A União Europeia nunca foi uma realidade . Nasceu para se unir  e apenas o fez em inacabados Tratados que traduzem os  reflexos hegemónicos de alguns países. 
O devir da história das civilizações tem curvas de traços imprevistos e inéditos. Os homens descobrem e criam. As obras que produzem têm a marca da genialidade e , por vezes, da vulgaridade. Contudo o deslumbramento e a surpresa são sempre provocados pela improbabilidade  do acontecimento. Assim acontece no novo Álbum de David Byrne em parceria com St. Vincent  intitulado "Love This Giant", a sair no próximo dia 11 de Setembro.
Neste Domingo de tantas incertezas, fica o  primeiro single  já  lançado que tem o sugestivo título  "Who"

sábado, 16 de junho de 2012

Inventa a eternidade


“Inventa a eternidade na simples comoção de olhar uma estrela. Basta que a olhes pela primeira vez, depois de a teres olhado inúmeras vezes. E, então, não precisarás de nenhum deus que te ponha a mão no ombro e diga estou aqui. Uma estrela espera-te desde toda a eternidade. Procura-a. E vê se a não perdes durante a vida inteira. A tua estrela pode não estar no céu. Põe-na lá." Vergílio Ferreira, in "Pensar", Livraria Bertrand, 1992

Cinema português em Nova Iorque




António Reis e Margarida Martins Cordeiro, Gonçalo Tocha, Pedro Costa - cinema português em Nova Iorque

"Num momento em que o cinema de autor português, defendido apaixonadamente pelo circuito internacional de críticos e de festivais, enfrenta em Portugal dificuldades que põem em causa a sua sobrevivência, há boas notícias. É na Terra Não é na Lua de Gonçalo Tocha vai chegar em Julho à exibição comercial em Nova Iorque, na sala dos Anthology Film Archives criada por Jonas Mekas e Stan Brakhage em 1969 e que se tornou num ardente reduto da cinefilia. E a mesma sala vai, em Junho, receber a homenagem a António Reis e Margarida Cordeiro, The School of Reis, e a curta de Pedro Costa O Nosso Homem.
Para É na Terra Não é na Lua é o mais recente passo numa carreira iniciada com a menção em Locarno e que já valeu prémios no DocLisboa, DocumentaMadrid, festival de São Francisco e BAFICI (Buenos Aires). Com uns honrosos 3500 espectadores em Portugal (carreira que continua), é a vez dos Anthology Film Archives agendarem o filme entre 13 e 19 de Julho. Será exibido com a anterior obra de Tocha, Balaou, a 18 e 19 de Julho. Antes, entre 22 e 28 de Junho, fala-se de cinema português com The School of Reis (A Escola de Reis), dedicado à obra de António Reis (1927-1991) e Margarida Cordeiro. Erguidos a mestres por uma geração que estudou na Escola Superior de Teatro e Cinema, assinaram uma obra citada como exemplar por nomes como Jean Rouch ou Joris Iven mas que continua insuficientemente conhecida entre nós. O programa traça uma genealogia do que o comissário do Harvard Film Archive Haden Guest define como "a tradição portuguesa de cinema radical". Cruza os quatro filmes assinados por Reis e Margarida Cordeiro - Jaime (1974), Trás-os-Montes (1976), Ana (1985) e Rosa de Areia (1989) - com filmes importantes para a formação de Reis (Acto da Primavera de Oliveira e Verdes Anos de Paulo Rocha) e obras assinadas por cineastas que reivindicam a sua influência (João Pedro Rodrigues, Vítor Gonçalves, Pedro Costa, Manuela Viegas e Joaquim Sapinho, cujo Deste Lado da Ressurreição deverá chegar às salas portuguesas em Setembro). Segundo informa a Rosa Filmes, produtora do filme de Sapinho, há já marcações futuras para a University of California em Los Angeles e para o Berkeley Art Museum and Pacific Film Archive.
Finalmente, a 29 e 30 de Junho o Anthology Film Archives recebe o programa de curtas Site & Sound (Blackout/Blockout), comissariado por David Phelps, onde O Nosso Homem de Costa partilha "tempo de antena" com curtas de "companheiros de viagem" como Jean-Marie Straub e Danièle Huillet, Luc Moullet e Jean-Claude Rousseau. "Jorge Mourinha , em Ypsilon, publicado em  15.06.2012 - 
 

sexta-feira, 15 de junho de 2012

A Língua é criação do génio humano


Quando o errado está certo
Por  Ferreira Gullar
"Muita gente torce o nariz quando um chatola, como eu, começa a reclamar dos erros de português que se cometem nos jornais e na televisão. Desses, muitos dos que os cometem são profissionais, mas estão pouco ligando para o que consideramos escrever e falar errado.
Sabe-se que, para a maioria dos linguistas, não existe isso de falar errado: todo o mundo fala certo. Admitem existir uma "norma culta", que obedece às regras gramaticais, mas violá-las não é propriamente errar. Ouvi de um deles que está tão certo dizer "pobrema" como "problema". Obtuso como sou, tenho dificuldade de entender porque eles mesmos vivem escrevendo livros e colunas em jornais, ensinando como se deve escrever. Ora, se não existe falar errado, por que ensinar?
Não deve o leitor concluir daí que sou aquele morrinha que vive catando os deslizes de cada um, mesmo porque não posso me considerar um grande conhecedor da língua. Gosto dela, prezo-a ou, melhor dizendo, considero-a uma das extraordinárias criações do gênio humano. Não é maravilhoso imaginar que, muito antes de surgirem os gramáticos, nossos ancestrais já falavam obedecendo às normas que tornaram o idioma meio de comunicação entre as pessoas e de invenção do nosso mundo cultural?
Pense bem nesta maravilha: a palavra "este" indica algo que está perto de mim; "esse", o que está perto de você; e "aquele", o que está longe de nós dois. Eis a linguagem expressando as relações reais do sujeito e das coisas do mundo. Não obstante, todos os locutores de rádio e televisão, como a maioria dos jornalistas, referindo-se ao que está perto de si, usam "esse" em lugar de "este". E isso é hoje tão frequente que já nem se repara.
Ninguém vai morrer por isso, mas não deixa de ser preocupante observar as pessoas deformarem e empobrecerem a língua, usando, por exemplo, "sobre" como regência de quase todos os verbos.
Em vez de "comentou os fatos" dizem "comentou sobre os fatos"; em vez de "quando falou do problema", dizem "quando falou sobre o problema"; em vez de "alertado do ataque", dizem "alertado sobre o ataque", e por aí vão.
Em certas frases, o uso de "sobre" chega ao limite do desatino: "o deputado aguarda o desmentido sobre a denúncia", quando seria muito mais simples e elegante dizer "aguarda o desmentido da denúncia". Vá você, agora, explicar como surgiu essa mania do sobre, que espero seja apenas uma mania, como outras que surgiram e se foram.
Lembram-se da época em que todos usavam a expressão "a nível de"? Servia para qualquer coisa, como ouvi um entrevistado afirmar que, "a nível de ração para porcos, o melhor seria...". Felizmente, essa mania passou, o que me faz crer que a língua termina por excluir de si as excrescências que nela se introduzem. Mas parece que nem sempre, porque, às vezes, o mau uso se generaliza e até mesmo se oficializa.
Existe coisa mais descabida do que chamar de "sambódromo" uma passarela para desfile de escolas de samba? Em grego, "-dromo" quer dizer "ação de correr, lugar de corrida", daí as palavras autódromo e hipódromo. É certo que, às vezes, durante o desfile, a escola se atrasa e é obrigada a correr para não perder pontos, mas não se desloca com a velocidade de um cavalo ou de um carro de Fórmula 1.
Muitas vezes, à irreverência junta-se a ignorância, a pouca leitura dos bons escritores. Não é que tenhamos de escrever como escrevia Camões, mas o conhecimento do idioma, em seus diferentes momentos históricos e em suas mudanças, ajuda-nos a preservar a língua no que tem de essencial como também a transformá-la sem lhe trair a natureza. É essa ignorância que leva alguns redatores de televisão a substituir "risco de vida" por "risco de morte", achando que esta é a expressão correta. Ganha-se em obviedade e perde-se em elegância.
Já mencionei aqui, noutra ocasião, a tal lei da termodinâmica, segundo a qual os sistemas tendem à desordem. Sendo a língua um sistema, está sujeita a desorganizar-se, como o atestam os exemplos citados, tanto mais hoje em dia, quando a TV induz milhões de pessoas a falar errado. Essa mesma TV que poderia se tornar um instrumento decisivo na luta contra a entropia. Ou será que escrever certo é elitismo?"
Ferreira Gullar – Crónica publicada na Folha de São Paulo, Brasil