sábado, 31 de março de 2012

Um infinito fora de nós

"Há ou não um infinito fora de nós? É ou não único, imanente, permanente, esse infinito; necessariamente substancial pois que é infinito, e que, se lhe faltasse a matéria, limitar-se-ia àquilo; necessáriamente inteligente, pois que é infinito, e que, se lhe faltasse a inteligência, acabaria ali? Desperta ou não em nós esse infinito a ideia de essência, ao passo que nós não podemos atribuir a nós mesmos senão a ideia de existência? Por outras palavras, não é ele o Absoluto, cujo relativo somos nós?
Ao mesmo tempo que fora de nós há um infinito não há outro dentro de nós? Esses dois infinitos (que horroroso plural!) não se sobrepõem um ao outro? Não é o segundo, por assim dizer, subjacente ao primeiro? Não é o seu espelho, o seu reflexo, o seu eco, um abismo concêntrico a outro abismo? Este segundo infinito não é também inteligente? Não pensa? Não ama? Não tem vontade? Se os dois infinitos são inteligentes, cada um deles tem um princípio volante, há um eu no infinito de cima, do mesmo modo que o há no infinito de baixo. O eu de baixo é a alma; o eu de cima é Deus.
Pôr o infinito de baixo em contacto com o infinito de cima, por meio do pensamento, é o que se chama orar.
Não tiremos nada ao espírito humano; é mau suprimir. O que devemos é reformar e transformar. Certas faculdades do homem dirigem-se para o Incógnito, o pensamento, a meditação, a oração. O Incógnito é um oceano. Que é a consciência? É a bússola do Incógnito. O pensamento, a meditação, a oração são tudo grandes irradiações misteriosas. Respeitemo-las. Para onde vão essas majestosas irradiações da alma? Para a sombra, quer dizer, para a luz.
A grandeza da democracia consiste em não negar, nem renegar nada da humanidade. Ao pé do direito do homem, pelo menos ao lado, há o direito da alma.
A lei é esmagar os fanatismos e venerar o infinito. Não nos limitemos a prostrar-nos debaixo da árvore da Criação e a contemplar os seus imensos ramos cheios de astros. Temos um dever: trabalhar para a alma humana, defender o mistério contra o milagre, adorar o incompreensível e rejeitar o absurdo, não admitindo em coisas inexplicáveis senão o necessário, tornando sã a crença, tirando as superstições de cima da religião, catando as lagartas de Deus. "
Victor Hugo, in "Os Miseráveis", Livros do Brasil

sexta-feira, 30 de março de 2012

Aniversário

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a.olhar para a vida, perdera o sentido da vida.

Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,
O que fui de coração e parentesco.
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui — ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui...
A que distância!...
(Nem o acho... )
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!

O que eu sou hoje é como a umidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes...
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio...

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos ...
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim...
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!

Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos,
O aparador com muitas coisas — doces, frutas, o resto na sombra debaixo do alçado,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...

Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira! ...

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...

Álvaro de Campos, in " Poesias de Álvaro de Campos", Obras completas de Fernando Pessoa, Colecção Poesia, Edições Ática, Lisboa, 1964

quinta-feira, 29 de março de 2012

Vida na Lua de Saturno

Uma das luas de Saturno tem condições para albergar vida.
"A sonda Cassini, da NASA, obteve novos dados que confirmam este potencial, numa missão realizada ontem em que sobrevoou a região polar do sul daquele satélite natural.Nesta aproximação, a nave espacial analisou os jactos que são projectados a partir daquilo que pode ser um oceano subterrâneo. Irrompem como se fossem géiseres através das fissuras que se encontram na superfície gelada da lua. Os cientistas acreditam que para confirmar definitivamente a presença de pequenos organismos basta apenas analisar o vapor de água que é emitido.Encélado, uma das muitas luas de Saturno, tem grandes potencialidades para albergar vida, acreditam que  os “mais de 90 jactos de todos os tamanhos estão a expulsar o vapor de água, partículas de gelo e compostos orgânicos”, explica Carolyn Porco, investigadora da missão Cassini. A nave voou ontem a 46 milhas do pólo sul, confirmando que a salinidade das partículas de gelo é a mesma que as dos oceanos da Terra.
As medições térmicas das fendas de Encélado revelaram temperaturas suficientemente quentes. Os investigadores põem a hipótese de ser Saturno a proporcionar este calor. A sua força gravitacional faz com que a forma da lua mude um pouco todos os dias, à medida que o orbita, movimentos esses que geram calor.
A cientista acredita que o satélite natural, com o seu mar líquido debaixo da superfície, produtos orgânicos e uma fonte de energia pode albergar o mesmo tipo de vida que encontramos em ambientes semelhantes no nosso planeta.
“Pode parecer loucura”, diz, “mas os micróbios podem estar a cair sobre a superfície daquele pequeno mundo. É o lugar mais prometedor que se conhece para encontrar vida fora da Terra”, admite."  in  " Ciência Hoje", 28/03/2012

Pedaço de mim


Numa primorosa e dolorida interpretação, Zizi Possi e Chico Buarque cantam "Pedaço de Mim" - 1978. Este poema cantado faz parte da banda sonora do drama musical "Ópera do Malandro" que se tornou uma obra de referência.

quarta-feira, 28 de março de 2012

Carta a um jovem poeta

Meu caro jovem poeta

Pedem-me que lhe escreva, como se o amigo tivesse começado por enviar-me poemas seus, solicitando a minha opinião. Pedem-me também que o considere o jovem poeta ideal, aquele que imaginamos o certo para escutar-nos. Pedem-me enfim — embora isso não seja dito — que eu me suponha o Rilke escrevendo a um jovem que não seja o medíocre a quem ele dizia tão belas coisas. Creio que é pedir demasiado.
De um modo geral, os poetas de reputação firmada, ou que se julgam ou são julgados tais (ninguém tem a sua reputação firmada em literatura, nem depois de séculos de ninguém nos ler e de todos repetirem que somos génios, a não ser que isso importe aos interesses ou desinteresses de alguns professores e críticos), costumam receber poemas ou poetas jovens que solicitam opinião. O poeta "velho" toma tal facto como uma vénia, um reconhecimento, que ele teme perder, por parte da juventude. Mas o que o poeta jovem na verdade procura não é bem uma opinião de alguém mais experiente (qual o poeta jovem que, no fundo, se não sente superior a qualquer mesmo admirado poeta "velho"?), mas sim uma oportunidade de entrar, pela mão de alguém, naquele mundo maravilhoso dos poetas vivos, da poesia pessoalmente, etc., que ele descobrirá ser um sórdido e torpe mundo, inteiramente igual, se não pior (porque se sustenta de uma importância que realmente não tem), àquele, tão comum e familiar, que, nas suas frustrações juvenis, o poeta jovem julga que detesta. Instintivamente, ele sabe que, se não pedir a bênção de alguém, dificilmente fará sem amarguras o seu caminho. Porque a vida literária é uma maçonaria como qualquer outra, onde é escusado imaginar-se que alguém entra forçando as portas. Tudo, na vida, funciona por camarilhas que oferecem a seus membros a tranquilidade de se imaginarem importantes ou, mais ainda, a ilusão de que estão vivos.
Se um conselho, ab initio, se pode e deve dar a um jovem poeta, é o de que perca a inocência juvenil, se venda, se prostitua (o próprio corpo, se necessário for, porque às vezes lho cobiçarão), se dedique à adulação da mediocridade triunfante, ouça respeitosamente as opiniões dos críticos mais influentes porque mais cretinos, e receba em troca a paz triunfal dos sucessos mundanos e literários. Se, depois disto, puder continuar a ser o poeta que havia nele ou que ele sonhava que seria, é um outro caso — mas, por esse segredo, poderá estar certo que ninguém perguntará. Forçar as portas, com um livro, dois livros, uma crítica, duas, muitas, dirigidas contra a infecta pesporrência dos estabelecidos; pedir justiça, em vez de amabilidade; exigir inteligência, em lugar de um comércio de retribuições; procurar a camaradagem limpa, e não aceitar os gestos dúbios; enfim, tudo o que diz respeito à dignidade humana e da poesia, em vez da complacência com tudo e todos — não rende. Nem em vida, nem na morte. Porque as histórias literárias, com raras excepções arquivo de tudo o que a mediocridade alguma vez disse sem ter lido, guardarão longamente, em benefício da posteridade, todo o veneno que os contemporâneos lançaram sobre aquele que, por pretender ser uma pessoa, e um poeta, lhes ameaçava, só por isso, a segurança. Ao jovem poeta, é preciso dizer-se que desconfie do grande poeta vivo que receba consagração geral. Se a recebe, é porque algo está podre naquele reino da Dinamarca.
Quanto aos seus poemas, meu caro poeta, como V. é um poeta inexistente, cujos poemas são imaginários, e como eu não acredito na Poesia, com maiúscula, preexistente aos poemas em que ela exista, que lhe direi? Eu não faço ideia alguma da espécie de poeta que o meu amigo é. Cultiva as imagens e as metáforas, no seu anseio juvenil de seguir uma das modas, e de parecer que diz coisas extremamente profundas, sem na verdade dizer nada? Ou prefere as palavras despedaçadas, uma letra para cada canto, ou os graciosos joguinhos do pata, peta, pita, pota, etc? Isso também se usa muito, e granjeia grande prestígio. Acaso faz ou não faz sonetos, pelo melhor modelo (que é o que funda a tradição parnasiana, um pouco erótica, para a masturbação em família, com os ornamentos do mais safado mas sempre brilhante gongorismo)? Ou está preocupado com os destinos do mundo ou os da pátria, e confunde-os com aquela inacabável tradição que manda os poetas imitar os Nerudas & C.a? Ou a sua poesia é extremamente vaga e diáfana, confortavelmente distante de qualquer afirmação excessiva, neste duvidoso mundo? Ou, pelo contrário, é amplamente discursiva, transbordante de riqueza (termo este muito usado pelos críticos em petição de matéria substantiva)? Como vê, meu amigo, não posso mais que aventar hipóteses, segundo as linhagens mais ilustres do momento. Oh, mas esquecia-me de outra: acaso será herdeiro do surrealismo, com alguma tintura de beatniks e de psiquedélicos da Califórnia e arredores, e compraz-se em insultar o mundo, insinuando perversões horríveis, e despejando sobre ele os palavrões sagrados, por extenso? Não? Não?! Então, meu caro amigo, das duas uma: ou a sua poesia é um regresso aos velhos padrões arcádico-românticos, e sem dúvida terá êxito ainda nos salões de uma profunda província, ou, na verdade, o senhor é um poeta. E, sendo poeta, é-o de tal modo, que a sua poesia não pode ser reconhecida, nem o senhor tem o direito de esperar que ela o seja. Daqui a vinte ou trinta anos, quando estiver alquebrado, exausto, esgotado, descrente da poesia a que sacrificou a sua vida e a de quantos tiveram a desgraça de depender de si, talvez então comecem a reconhecer que o senhor existe. Claro que muito a contragosto, muito de má vontade, com muita reticência... Eles, meu caro, serão sempre os génios; o senhor será também um génio, um génio imenso, um génio enorme, mas um génio mas, um génio adversativo. E pode ter a certeza de que assim ficará nas histórias literárias: sempre com um mas tanto maior, quanto pior seja o génio que não possam negar-lhe.
A poesia, querido amigo, não é o que pensa, não. Ela não lhe pode trazer, se verdadeira for, essa satisfação que transparece da sua tão trémula confiança em si mesmo. Isso, se me permite que lhe diga, é uma ilusão da sua juventude. A poesia não é essa alegria de fazer alguma coisa que nem todos os outros fazem, e que eles aliás desprezam. Não é também esse prazer enganoso de que possui com palavras o amor que lhe escapa, as coisas que não consegue, as ideias que perpassam na sua cabeça, antes ou depois da solidão. A poesia, caríssimo, é a solidão mesma: não a que vivemos, não a que sofremos, não a que possamos imaginar, mas a solidão em si, vivendo-se à sua custa. Já pensou no que isso é? Por ela, o senhor será egoísta, sendo altruísta; será mesquinho, sendo nobre; trairá tudo, para ser fiel a si mesmo. Por ela, o senhor ficará completamente só. E, quando, de horror, penetrar lá onde supõe que o "si mesmo" está para lhe fazer companhia, verificará, em pânico, a que ponto ele não existe, ou já não existe, ou nunca existiu senão como uma miragem, ou existiu, sim, mas também ele o senhor vendeu à poesia, a isso que não tem qualquer realidade senão como abstracção do que o senhor pensa e escreve, e que, por sua vez, é já uma abstracção do que o senhor viveu ou não. Medite um pouco no significado terrível deste ou não, e nunca mais escreva versos ou prosa poética, ou lá que é que escreve para se julgar poeta.
Se for um poeta de verdade, meu caro, o melhor é com efeito não escrevê-los, e deixar de o ser. Porque a única alternativa é pavorosa: ou prostituta, dando à cauda, entre as madamas; ou monstro solitário, rangendo os dentes na treva, ainda quando só tenha visões de anjos tocando flauta, numa apoteose (ou epifania, que é mais elegante, e era o que o Joyce dizia). Guarde os versos, rasgue os versos, esmague os versos, arrase com eles. É isso o que pretende: ranger os dentes, mesmo postiços, pelo resto da vida? Se é, meu caro amigo, então não mande os seus versos a ninguém, não peça opiniões que ninguém pode dar-lhe, não espere conselhos de uma experiência que é pessoal e intransmissível, não solicite uma atenção que não haverá quem lha conceda. A menos que, para fim de festa, pretenda tirar, para seu uso, a contraprova de que a humanidade como humanidade, os povos como povos, as nações como nações, as classes como classes, os grupos como grupos são sempre colecções mais ou menos numerosas de infames bestas. Ou a contraprova de que, individualmente, ninguém vale para além do orgasmo, ou do olhar de simpatia, ou do gesto de ternura. Ainda quando sejam poetas, meu caro, ainda quando o sejam.
Não lhe estou dizendo que não publique os versos, uma vez que tenha ânimo e força para aguentar-se no equilíbrio instável entre a condição de prostituta e a condição de monstro. Na verdade, se a tentação que sente é irresistível de escrevê-los, se não procura a fama ou o proveito, se a dor de escrevê-los só se cura com a dor maior de escrever outros, se se sente vazio e triste quando eles estão escritos, e sofre de sentir-se vazio quando vai escrevê-los, e não sabe nunca o que vai escrever, e acha horrível tudo o que escreveu mas não é capaz de destruí-lo, então publique-os, publique-os sempre. E mande-os a toda a gente. Toda. Mas não peça opiniões ou conselhos a ninguém. Deixe que eles todos fiquem amarrados, para sempre, à culpa de o não terem lido, de o não terem sentido, de o não terem admirado. Dê-lhes, se a glória tiver de ser sua, o castigo da sua glória, implacavelmente. No fim das contas, lá onde nas trevas os dentes lhe rangem furiosamente, que isto lhe sirva de alguma consolação: todos eles passarão, como os ratos passam. Mas alguma coisa não passará, por mais que na morte, no silêncio, na paz dos túmulos ou das histórias literárias, se desfaçam em tranquila cinza: essa culpa que, dentro de alguns anos, será tudo o que se recordará deles todos tão poetas, tão aplaudidos, tão queridos das damas e/ou dos efebos, e tão estudados, tão bibliografados, tão comemorados, tão tudo o que lhe terão recusado entre dois abraços e dois sorrisos. Outros ratos virão — mas a culpa fica. Bem sei, meu caro, que não adianta muito, sobretudo se a gente não acredita na imortalidade, ou mesmo que acredite. Consola porém alguma coisa. E dá coragem à gente até ao poema seguinte. É quanto basta. Ou tem de bastar, porque não há mais nada.
Sempre seu (que o manda para o Inferno que é nossa província).
Jorge de Sena, in “ Antologia –Escritos pessoais”
Datada de 29 de Agosto de 1966, esta "carta" foi enviada ao poeta Walmir Ayala (1933-1991), para uma antologia temática que permanece inédita (Cartas aos jovens poetas brasileiros).
O texto foi publicado pela primeira vez no JL-Jornal de Letras, Artes e Ideias, de Lisboa, a 10 de Novembro de 1981

terça-feira, 27 de março de 2012

1ª Bienal Internacional de Poesia

Luanda acolhe Bienal Internacional de Poesia
A decorrer de 21 deste mês a 21 de Abril próximo sob o signo “Palavras escritas em folha de mel”, o evento contará com a participação de poetas de diferentes países, entre os quais lusófonos.
Promovido pela Arte Viva, Edições e Eventos Culturais e a Fundação Sindika Dokolo, visa legitimar, no sentido pedagógico, a história da poesia angolana, consubstanciada na produção dos seus mais dignos poetas, invertendo a tendência de um certo tipo de criação, de pendor subversivo, que desrespeita o bom nome das instituições angolanas.
A Bienal em questão, pretende colocar igualmente a tónica no texto dito, recuperar o que a poesia foi na sua origem, a sonoridade, acto que estará plasmado no seu programa de recitais,  embora pretenda privilegiar, numa proporção equivalente, uma mostra diacrónica de textos poéticos fixados pela escrita.
Segundo o porta-voz, Jomo Fortunato, estão convidados para o palco livre e para a participação nas mesas redondas, os poetas, Ademir Assunção, Guido Bilharinho, Nina Rizzi, Cláudio Daniel, Wilmar Silva, Micheline Verusck e Camila Vardarac do Brasil. A longa lista de convidados inclui ainda Amosse Mucavele, Diniz Muha, Eduardo Quive, Luís Cezerilo, Filimone Meigos de Moçambique, Luís Costa, António José Borges e Maria Ângela Carrascalão de Timor Leste. Completam a lista, Corsino Fortes, Elísio Filinto, José Luís Tavares, Vera Duarte de Cabo Verde, Jerónimo Salvaterra Manuel, Conceição Lima de São Tomé e Príncipe, Ernesto Melo e Castro, Jorge Melícias, Luís Serguilha, Fernando Aguiar de Portugal, Odete Semedo, e Tony Tcheka da Guiné-Bissau.
Jomo Fortunato adiantou ainda que a grande intenção dos curadores desta I Bienal é sobretudo, a problematização do fenómeno literário, centrada na poesia, enquanto fonte potencial de conhecimento da história política e social de Angola e dos países convidados.
À margem dos atractivos já referenciados serão realizados concertos, com cantores que interpretarão textos de poetas angolanos, bem como recitais, igualmente com poetas angolanos e convidados estrangeiros.
O programa contempla também mesas redondas sobre a génese da poesia e história literária, teatro sobre poemas representados em palco, exposição de livros e discos editados sobre recitais de poesia. Reserva igualmente uma semana especial dedicada à obra do poeta Agostinho Neto e depoimentos sobre a sua vida literária, a cargo da escritora Maria Eugénia Neto.
Música e poesia
A Bienal Internacional de Poesia, reservou ainda um espaço para os cantores angolanos que cantam textos de poetas angolanos, desde Agostinho Neto, Mário António Fernandes de Oliveira, Manuel Rui, Viriato da Cruz, António Jacinto, e Raúl David, que serão interpretados, pelos trovadores José Kafala e Acácio, do grupo Acapaná, e Dulce Trindade, incluindo as propostas inovadoras do cantor, Jack Kanga.
Cinquenta poemas estarão expostos na Bienal Internacional de Poesia.
Textos clássicos 

Apesar de  incluir a produção literária contemporânea, a Bienal Internacional da Poesia privilegiará os clássicos da literatura angolana, na perspectiva das obras que se reportam à história literária de Angola, entendidas na relação entre a edição, e a tradição literária que lhe é anterior, independentemente de um eventual juízo estético.
Jomo Fortunato realçou que um exemplo poderá fazer luz sobre o critério de selecção dos textos clássicos presentes na Bienal: cinco anos após a instalação do prelo em Angola (1845) surgem os poemas do livro “Espontaneidades da Minha Alma”.
Recordou, por exemplo, que em “Às senhoras africanas”, de José da Silva Maia Ferreira, um clássico da literatura angolana publicado em 1849, é importante a abstracção da "Aliterariedade". Salientou o facto de Maia Ferreira ter sido o primeiro poeta africano de língua portuguesa com livro publicado, uma constatação que dispensa eventuais polémicas à volta do assunto, “embora corroboremos, refere, a ideia que, nesta altura, a literatura angolana ainda não constituísse um sistema integrado e funcional, tal como se entende na actualidade”.
Poesia e liberdade
Jomo Fortunato referiu igualmente que a poesia angolana, importante ferramenta de contestação anticolonial, viveu um longo período naturalista, romântico, e, sobretudo, contestatário, e tem evocado, mais recentemente, o lirismo e a liberdade subjectiva dos seus poetas mais jovens, instaurando a construção livre e a sucessiva desconstrução de mundos possíveis.
De natureza inclusiva, a Bienal Internacional da Poesia será uma singular oportunidade de empreender uma reflexão especulativa sobre a natureza e os mecanismos de construção textual da poesia, valorizando as diversas vozes da poética angolana, que têm absorvido, ao longo da sua gloriosa história, múltiplas marcas, caminhadas e peregrinações, onde os silêncios gritaram de mágoa.
Hoje, segundo Jomo Fortunato, os desesperos ressuscitam de esperança, no processo heróico e irreversível da construção da “Nova Angola”, o novo ciclo da história, enunciado pelo Presidente da República, José Eduardo dos Santos.
Ainda segundo Jomo Fortunato, os organizadores da Bienal Internacional da Poesia, não acreditam no fim da poesia, tal como advogam alguns profetas da necrologia do verso, pois consideram-na cada vez mais viva e actuante, num mundo vertiginosamente globalizado e diverso.
Nesta perspectiva, os convidados e público em geral, irão desfrutar o efeito estético de uma infinidade de “palavras escritas em folhas de mel”, signo do certame, e paráfrase de um verso do poeta e curador da Bienal Internacional da Poesia, João Maimona.
De recordar, que um dos nobres objectivos da Bienal Internacional de Poesia, a par de outros não menores, é o de legitimar, no sentido pedagógico, a história da poesia angolana, consubstanciada na produção dos seus mais dignos poetas, invertendo a tendência de um certo tipo de criação, de pendor subversivo, que desrespeita o bom nome das instituições angolanas.
Augusto Nunes, in “ O País”, 21 de Março de 2012

Mar novo
E a embarcação aparecia como um barco de recreio.
Do pescador a musculatura dolorosamente suada
merecia uma simples pincelada
de silhueta negra
impressionismo fácil
afirmação exótica de que o dongo
não andava sozinho.
2
Mas é novo este azul    tela rasgada
é novo o nosso olhar.
É nova esta forma gestual de espuma
feita sabor de amor de guerra e de vitória
em nossas bocas férteis em nossa pálpebras
de antigo medo clandestino
soletrando a lágrima
quando era o nosso mar recordação também
escravizada:
caminho secular de ir e não vir.
3
É nova esta areia
este marulhar de fogo nos ouvidos
quase notícia do rebentamento maior
sobre o inimigo.
É novo este calor como se o sol
fosse um ananás coletivo suculento
rasgado pelos dedos da madrugada mais quente
e mais suave.
4
E é bom medir a água evaporada
sobre a concha
a alga
a rocha.
Medir também teu corpo natural
onde encontrar a boca
os pés
os olhos
a palavra.
5
E é bom verificar as mãos. Principalmente
as nossas mãos umedecidas pelo mar.
As mãos que tocam as coisas
As mãos que fazem as coisas
As mãos. As mãos terminal de carga
e de descarga do nosso pensamento
As mãos mergulhadas sob a água.
na (re)descoberta tímida das essências
no pulsar submarino de uma nova esperança.
6
Tudo é fugaz
entre o desenho do teu pé na areia
e a onda que desfaz
a marca
Entre a guerra e a paz
retorno fisicamente o poema      a onda
constante meditação primeira.
Nós e as coisas.
Nada permanece que não seja
para a necessária mudança.
Que o diga o mar.
Manuel Rui Alves Monteiro, in “Cinco vezes onze - poemas em Novembro” Luanda,  1985, Lisboa, Edições 70
Manuel Rui Alves Monteiro nasceu no Huambo em 1941, tendo vivido durante anos em Coimbra onde se licenciou em Direito. Em Portugal foi advogado e membro da direcção da revista "Vértice", de que foi colaborador. Regressou a Angola em 1974, onde ocupou diversos cargos políticos, tendo sido Ministro da Informação do Governo de Transição. Foi também professor universitário e Reitor da Universidade de Huambo.É um dos principais ficcionistas Angolanos
Obra poética:
Poesia sem Notícias, 1967, Porto, e. a.;
A Onda, 1973, Coimbra, Ed. Centelha;
11 Poemas em Novembro (Ano Um), 1976, Luanda, União dos Escritores Angolanos;
11 Poemas em Novembro (Ano Dois), 1977, Luanda, União dos Escritores Angolanos;
11 Poemas em Novembro (Ano Três), 1978, Luanda, União dos Escritores Angolanos;
Agricultura, 1978, Luanda, Ed. Conselho Nacional de Cultura / Instituto Angolano do Livro;
11 Poemas em Novembro (Ano Quatro), 1979, Luanda, União dos Escritores Angolanos;
11 Poemas em Novembro (Ano Cinco), 1980, Luanda, União dos Escritores Angolanos;
11 Poemas em Novembro (Ano Seis), 1981, Luanda, União dos Escritores Angolanos;
11 Poemas em Novembro (Ano Sete), 1984, Luanda, União dos Escritores Angolanos;
Cinco Vezes Onze Poemas em Novembro (Reúne os 5 primeiros livros da série 11 Poemas em Novembro), 1985, Lisboa, Edições 70;
11 Poemas em Novembro (Ano Oito), 1988, Luanda, União dos Escritores Angolanos;
Assalto, sem data, Lisboa, Plátano Editora

segunda-feira, 26 de março de 2012

Depois de amanhã a Primavera

O poeta João Rui de Sousa foi distinguido por unanimidade com o prémio Vida Literária da Associação Portuguesa de Escritores/Caixa Geral de Depósitos de 2012. Este  prémio de consagração, no valor de 25.000 euros, tem sido atribuído de dois em dois anos, a escritores de ficção, poesia e ensaio. Distinguiu, entre outros, José Saramago, Miguel Torga, Eugénio de Andrade, Mário Cesariny e Vítor Aguiar e Silva.  
João Rui de Sousa nasceu em Lisboa, a 12 de Outubro de 1928.Licenciou-se em Ciências Históricas e Filosóficas, pela Faculdade de Letras de Lisboa. Em 1982 ingressou como investigador de espólios literários na Biblioteca Nacional. Iniciou a sua actividade literária  na revista Cassiopeia (Lisboa,1955)  com  poemas e ensaio, tendo   integrado  a equipa de direcção  juntamente com José Bento, José Terra, António Carlos e António Ramos Rosa. Tem uma vasta obra poética publicada, bem como vários Ensaios.                                  


Depois de amanhã a Primavera!
                      À Isabel e ao António
A dadivosa mãe que em tudo existe
para além do só remédio só palavra
um cobertor de esperanças para o medo
três girassóis lindíssimos desdobráveis

A boca na boca e as lágrimas
mais azuis de brinquedos e de imensos
lençóis de inventar os dias límpidos
A dadivosa mãe as tardes quentes

Florescer a noite de agasalhos
de corações em pé no destemor
alimentar as órbitas fraternas
de iluminar raízes dança pura

Ó música sem tédio dos cabelos
do teu olhar do cheiro dos reflexos
desta razão solar! Em caule e rama
- ó dadivosa mãe – tudo desperta!
João Rui de Sousa, Corpo Terrestre (1972), In Obra Poética 1960-2000
Lisboa, Publicações Dom Quixote, 2002

Poema Contíguo ao Ódio

Que gelado sopro nos agita
do lado de dentro das ruas?

Que rápida vertigem nos domina
nesta agudíssima manhã?

Este vento que nos queima               estas veias mais quentes
Estes longos minutos que sacodem o rosto

                                                          
Estes ponteiros gigantes que nos marcam os séculos
Estes rios de sal que abrem sulcos nos ossos

Esta raiva que nos corta                    estas lâminas nos lábios
Estes vidros de silêncio que nos enchem a boca

Estes deuses que sorriem                 estas lágrimas mais puras
Estes grandes traços negros de trânsito impedido

João Rui de Sousa, in "Obra Poética 1960-2000", Lisboa, Publicações Dom Quixote, 2002

domingo, 25 de março de 2012

Ao Domingo Há Música

Por Entre os Sons da Música

Por entre os sons da música, ao ouvido
como a uma porta que ficou entreaberta
o que se me revela em ter sentido
é o que por essa música encoberta

acena em vão do outro lado dela
e eu sinto como a voz que respondesse
ao que em mim não chamou nem está nela,
porque é só o desejar que aí batesse.

Vergílio Ferreira, in "Conta-Corrente 1", Livraria Bertrand


Abertura de "La Forza del Destino" de Verdi pela  New York Philharmonic, sob a direcção do Maestro Alan Gilbert, no Concerto "One Night in Central Park 2011", em Nova Iorque.

sexta-feira, 23 de março de 2012

Memória do Mar

"Cada um de nós não se cansava de fitar pensando os cabelos brancos dos outros. Cabelos de envelhecer. E não era com tristeza que o fazíamos mas sim com uma estranha e singular alegria. Uma íntima alegria histórica. Nesse teimar de nunca nos considerarmos velhos e apenas envelhecermos na imagem dos outros. Mas a imagem dos outros era cada um de nós e nossas vidas haviam percorrido imenso tempo comum. Sem medida e sem cronologia. Naquela tarde, respirávamos o ar quente da superfície. Só que em nossas narinas, em nossas bocas, restava ainda o cheiro e o sabor do tempo. Do tempo passado
Debaixo do mar. Sim. Tínhamos passado muitos anos debaixo do mar. E todo esse mundo aquático e de sedução infinita, trazíamo-lo à flor da pele como se de algas nos tivéssemos oleado e o tempo se medisse, lentamente mas sem cálculo, nas minúsculas bolhas de ar disparadas da boca dos peixes. Tanto tempo! E não foi apenas o capricho do major. O seu amor pela aventura. A paixão pela arqueologia submarina. Não foi apenas isso que nos seduziu. Mais, muito mais, foi a ideia de nos transformarmos sempre. Percorrermos todos os caminhos em todos os sentidos até dominarmos o tempo. Dominar para nós era perceber. E o tempo era mais do que as pessoas, as coisas, a vida. Era o seu sentido. E nunca poderíamos ter conhecido tanto as pessoas se não tivéssemos dominado o tempo.
Durante o tempo que vivemos debaixo do mar, muito em nós se transformou. Tal como acontecera quando da nossa estada na ilha. Muitas vezes chegámos a corrigir o antes com o depois. Outras o depois com o antes. Mas tudo sempre se conjugou no nosso intento."
Manuel Rui (escritor angolano),  in “ Memória do Mar” Edições 70

Escuta, Amor

"Quando damos as mãos, somos um barco feito de oceano, a agitar-se sobre as ondas, mas ancorado ao oceano pelo próprio oceano. Pode estar toda a espécie de tempo, o céu pode estar limpo, verão e vozes de crianças, o céu pode segurar nuvens e chumbo, nevoeiro ou madrugada, pode ser de noite, mas, sempre que damos as mãos, transformamo-nos na mesma matéria do mundo. Se preferires uma imagem da terra, somos árvores velhas, os ramos a crescerem muito lentamente, a madeira viva, a seiva. Para as árvores, a terra faz todo o sentido. De certeza que as árvores acreditam que são feitas de terra.
Por isto e por mais do que isto, tu estás aí e eu, aqui, também estou aí. Existimos no mesmo sítio sem esforço. Aquilo que somos mistura-se. Os nossos corpos só podem ser vistos pelos nossos olhos. Os outros olham para os nossos corpos com a mesma falta de verdade com que os espelhos nos reflectem. Tu és aquilo que sei sobre a ternura. Tu és tudo aquilo que sei. Mesmo quando não estavas lá, mesmo quando eu não estava lá, aprendíamos o suficiente para o instante em que nos encontrámos.
Aquilo que existe dentro de mim e dentro de ti, existe também à nossa volta quando estamos juntos. E agora estamos sempre juntos. O meu rosto e o teu rosto, fotografados imperfeitamente, são moldados pelas noites metafóricas e pelas manhãs metafóricas. Talvez outras pessoas chamem entendimento a essa certeza, mas eu e tu não sabemos se existem outras pessoas no mundo. Eu e tu declarámos o fim de todas as fronteiras e inseparámo-nos. Agora, somos uma única rocha, uma única montanha, somos uma gota que cai eternamente do céu, somos um fruto, somos uma casa, um mundo completo. Existem guerras dentro do nosso corpo, existem séculos e dinastias, existe toda uma história que pode ser contada sob múltiplas perspectivas, analisada e narrada em volumes de bibliotecas infinitas. Existem expedições arqueológicas dentro do nosso corpo, procuram e encontram restos de civilizações antigas, pirâmides de faraós, cidades inteiras cobertas pela lava de vulcões extintos. Existem aviões que levantam voo e aterram nos aeroportos interiores do nosso corpo, populações que emigram, êxodos de multidões famintas. E existem momentos despercebidos, uma criança que nasce, um velho que morre. Dentro de nós, existe tudo aquilo que existe em simultâneo em todas as partes.
Questiono os gestos mais simples, escrever este texto, tentar dizer aquilo que foge às palavras e que, no entanto, precisa delas para existir com a forma de palavras. Mas eu questiono, pergunto-me, será que são necessárias as palavras? Eu sei que entendes o que não sei dizer. Repito: eu sei que entendes o que não sei dizer. Essa certeza é feita de vento. Eu e tu somos esse vento. Não apenas um pedaço do vento dentro do vento, somos o vento todo.
Escuta,
ouve.
Amor.
Amor."

José Luís Peixoto, in 'Abraço', Quetzal Editora

quinta-feira, 22 de março de 2012

Constituir o sentido da existência

“ O sentido da existência é conjuntamente descoberto e construído pelo ser humano. Reina aqui um autêntico círculo hermenêutico; com efeito, somos nós que constituímos o sentido da nossa existência ; o agir humano tem esta virtude de poder realizar um projecto cuja sede reside na pessoa que o traça , ainda que a sua figura concretamente efectuada difira muitas vezes da programação inicial. Mas, na própria altura em que realizamos o projecto, opera-se pouco a pouco uma inversão: é o sentido que se apodera de nós, como se nos fizesse sentir que foi ele que validou o decurso das nossas acções, que foi ele que desde o princípio guiou os nossos passos, conferindo-lhes um valor que acaba por caracterizar e definir a nossa própria existência. Entre o sentido da vida e o valor desta tece-se uma secreta e íntima ligação. É assim que entre o valor , considerado como o ethos, o lugar interior  da existência humana, e o sentido, no qual se alberga o dinamismo da existência, se instaura uma tensão fecunda. Se devêssemos imitar a linguagem de Heidegger, diríamos que a existência se recolhe no seu valor ; mas este recolhimento no qual ela encontra a sua identidade é, ele próprio, o fruto por assim dizer colhido pela graça de um acolhimento, acolhimento que toma a forma da abertura a uma exterioridade. Com efeito, etimologicamente, o sentido aponta para uma direcção que apenas se determina pelo movimento que ela suscita. É deste  modo que o sentido tem algo de “ex-stático”, na medida em que não se deixa encerrar numa posição estática. O sentido é dinâmico, não se deixa aprisionar num lugar e, por isso, resiste à ideia de uma posse estável. Não será isso, aliás, que nos leva a afirmar que o ser não “ possui” o sentido da existência, mas caminha na sua busca? Contudo, a exterioridade do sentido não significa que ele nos permanece exterior , sem possibilidade de assimilação; pelo contrário, ele tem a virtude de nos descentrar de nós próprios, num movimento incessante de procura. É nesta perspectiva que recolhimento e acolhimento se dialectizam, como recentração sobre si, por um lado, e ,por outro, descentramento pelo qual o ser se abre ao mundo e ao outro. O movimento duplo, sistólico e diastólico, desta busca do sentido faz compreender a verdade da espiritualidade: quem consegue melhor gerir a sua solidão será o mais capaz de se abrir  ao outro; quem está reconciliado consigo  no meio dos dramas da existência será o mais apto a entrar no dinamismo da compreensão e da tolerância para com os outros. A liberdade é,  com efeito, libertação face à armadilha de uma solidão mal gerida, assim como libertação de um movimento centrípeto vivido tantas vezes como agressividade para fora.” Michel Renaud, (filósofo), in “ A fragilidade na busca do sentido da existência”, Revista Portuguesa de Bioética

quarta-feira, 21 de março de 2012

Celebrar a Poesia

Um mundo que transforma os sons , os cheiros, as cores, as imagens em palavras é um mundo onde reina a POESIA.  Entrar nesse mundo onde os  sentimentos, as  ideias, os  sonhos florescem é descobrir que são os poetas que percepcionam o próprio ritmo da vida e, por isso,  patenteiam, através de indizível ressonância,  o mistério e o sortilégio  da existência humana.
Para além da curva da estrada

Para além da curva da estrada
Talvez haja um poço, e talvez um castelo,
E talvez apenas a continuação da estrada.
Não sei nem pergunto.

Enquanto vou na estrada antes da curva
Só olho para a estrada antes da curva,
Porque não posso ver senão a estrada antes da curva.
De nada me serviria estar olhando para outro lado
E para aquilo que não vejo.

Importemo-nos apenas com o lugar onde estamos.
Há beleza bastante em estar aqui e não noutra parte qualquer.
Se há alguém para além da curva da estrada,
Esses que se preocupem com o que há para além da curva da estrada,
Essa é que é a estrada para eles.

Se nós tivermos que chegar lá, quando lá chegarmos saberemos.
Por ora só sabemos que lá não estamos.
Aqui há só a estrada antes da curva, e antes da curva
Há a estrada sem curva nenhuma.

Alberto Caeiro - Fernando Pessoa "Poemas Inconjuntos", in Poesia de  Alberto Caeiro, Assírio & Alvim 2ª ed. corrigida,Lisboa , 2004


Personagem

Teu nome é quase indiferente
e nem teu rosto já me inquieta.
A arte de amar é exactamente
a de se ser poeta.

Para pensar em ti, me basta
o próprio amor que por ti sinto:
és a ideia, serena e casta,
nutrida do enigma do instinto.

O lugar da tua presença
é um deserto, entre variedades:
mas nesse deserto é que pensa
o olhar de todas as saudades.

Meus sonhos viajam rumos tristes
e, no seu profundo universo,
tu, sem forma e sem nome, existes,
silêncio, obscuro, disperso.

Teu corpo, e teu rosto, e teu nome,
teu coração, tua existência,
tudo - o espaço evita e consome:
e eu só conheço a tua ausência.

Eu só conheço o que não vejo.
E, nesse abismo do meu sonho,
alheia a todo outro desejo,
me decomponho e recomponho.

Cecília Meireles, in "Viagem", 1938, Edições Ocidente


VERBO
Ponho palavras em cima da mesa; e deixo
que se sirvam delas, que as partam em fatias, sílaba a
sílaba, para as levarem à boca – onde as palavras se
voltam a colar, para caírem sobre a mesa.

Assim, conversamos uns com os outros. Trocamos
palavras; e roubamos outras palavras, quando não
as temos; e damos palavras, quando sabemos que estão
a mais. Em todas as conversas sobram as palavras.

Mas há as palavras que ficam sobre a mesa, quando
nos vamos embora. Ficam frias, com a noite; se uma janela
se abre, o vento sopra-as para o chão. No dia seguinte,
a mulher a dias há-de varrê-las para o lixo.

Por isso, quando me vou embora, verifico se ficaram
palavras sobre a mesa; e meto-as no bolso, sem ninguém
dar por isso. Depois, guardo-as na gaveta do poema. Algum
dia, estas palavras hão-de servir para alguma coisa.
Nuno Júdice, in “As Coisas Mais Simples”, Ed. Dom Quixote, Lisboa 2007
Despir Alguém...

Despir alguém peça por peça? Não.
Antes apenas mal despir abrindo
entradas e saídas para o corpo,
ou ver despir-se alguém rapidamente,
perto de nós a desnudar-se inteira
a carne sempre tímida e discreta.

Num caso, as mãos, e noutro caso os olhos,
são quem primeiro rende o que entrevisto
assim se toca ou não se toca nada.
Ardor nas duas vezes mas diverso:
e quanto se possui numa ansiedade
diversamente queima o sempre igual

amor de uma nudez que amor descobre.
Jorge de Sena, 8/11/1972, "Conheço o sal e outros poemas" in " Antologia Poética", Edições Asa

Pela névoa de pesadelo

pela névoa de pesadelo
a dor passa
clandestina
a fronteira dos instantes
e implacável
monta guarda
ao porão dos dias
ao contorno dos gestos
ao ruído das coisas
e
ao sentido das palavras
embaciadas
pela névoa do pesadelo
Arlindo do Carmo Pires Barbeitos, in “Na Leveza do Luar Crescente”, 1998, Lisboa, Editorial Caminho
Escuto

Escuto mas não sei
Se o que oiço é silêncio
ou deus

Escuto sem saber se estou ouvindo
O ressoar das planícies do vazio
Ou a consciência atenta
Que nos confins do universo
me decifra e fita

Apenas sei que caminho como quem
É olhado amado e conhecido
E por isso em cada gesto ponho
Solenidade e risco.
Sophia de Mello  Breyner Andresen, in " Geografia", 1967, Edições Caminho
Crepúsculo

Também os deuses dormem,
E são então montanhas de penumbra
Sem resplendor.
Lassas, as fragas, os divinos ossos,
Baços os horizontes, os sentidos,
- Todo o corpo parece
Uma grande fogueira que arrefece
Por dentro do volume dos vestidos.
Miguel Torga, 1/01/1948, in " Diário IV", Obra completa,Círculo de Leitores

Ao desconcerto do mundo

Os bons vi sempre passar
no mundo graves tormentos;
e, para mais me espantar,
os maus vi sempre nadar
em mar de contentamentos.

Cuidando alcançar assim
o bem tão mal ordenado,
fui mau;  mas fui castigado.
Assim que só para mim
anda o mundo concertado.
Luis de Camões, " Lírica", Publicações Europa-América
Nocturno

O desenho redondo do teu seio
tornava-te mais cálida, mais nua,
quando eu pensava nele... Imaginei-o,
à beira-mar, de noite, havendo lua...

Talvez a espuma, vindo, conseguisse
ornar-te o busto de uma renda leve
e a lua, ao ver-te nua, descobrisse,
em ti, a branca irmã que nunca teve...

Pelo que no teu colo há de suspenso,
te supunham as ondas uma delas...
Todo o teu corpo, iluminado, tenso,
era um convite lúcido às estrelas...

Imaginei-te assim à beira-mar,
só porque o nosso quarto era tão estreito...
- E, sonolento, deixo-me afogar
no desenho redondo do teu peito...

David Mourão-Ferreira, In "A Secreta Viagem", Oficina do Livro


terça-feira, 20 de março de 2012

A razão e o entusiasmo venceram

" Sim, Atenas continuava a ser bela e eu não lamentava ter imposto à minha vida disciplinas gregas. Tudo o que em nós é humano, ordenado e lúcido nos vem delas. Mas acontecia-me dizer a mim mesmo que a seriedade um pouco pesada de Roma, o seu sentido de continuidade, o seu gosto pelo concreto haviam sido necessários para transformar em realidade o que continuava a ser na Grécia um admirável conceito do espírito, um belo impulso da alma. Platão escrevera a República  e glorificara a ideia do Justo, mas éramos nós  quem, instruídos pelos nossos próprios erros, se esforçava penosamente para fazer do Estado uma máquina apta a servir os homens, correndo o menor risco possível de os esmagar. A palavra filantropia é grega, mas é o legista Sálvio Juliano e eu quem trabalha para modificar a miserável condição do escravo. A assiduidade, a previdência, a atenção ao pormenor corrigindo a audácia dos panoramas de conjunto tinham sido para mim virtudes aprendidas em Roma.  Bem no fundo de mim mesmo, acontecia-me rever as grandes paisagens melancólicas de Virgílio e os seus crepúsculos velados de lágrimas; penetrava ainda mais longe; encontrava a escaldante tristeza da Espanha e a sua árida violência; pensava nas gotas de sangue celta, ibero, talvez púnico, que deveriam ter-se infiltrado nas veias dos colonos romanos do município de Itálica; lembrava-me que meu pai havia sido denominado o Africano. A Grécia tinha-me ajudado a avaliar aqueles elementos que não eram gregos. Sucedia o mesmo com Antínoo; tinha feito dele a própria imagem daquele país apaixonado de beleza; seria talvez o seu último deus. E , contudo, a Pérsia requintada e a Trácia selvagem haviam-se aliado na Bitínia  aos pastores da Arcádia antiga; aquele rosto largo de maçãs salientes era o dos cavaleiros trácios que galopam nas margens do Bósforo e que se expandem à noite em cantos roucos e tristes. Nenhuma fórmula era bastante completa para conter tudo.
Concluí naquele ano a revisão da constituição ateniense, começada muito antes. Voltava ali , na medida do possível, às velhas leis democráticas de Clístenes. A redução do número de funcionários aliviava os encargos do Estado; levantei obstáculo à renda dos impostos , sistema desastroso, infelizmente empregado ainda aqui e ali pelas administrações locais. Algumas fundações universitárias, estabelecidas pela mesma época, ajudaram Atenas a tornar-se novamente um importante centro de estudos. Os amadores de beleza que, antes de mim, tinham afluído àquela cidade, haviam-se  contentado em admirar os seus monumentos  sem se preocupar com a penúria  crescente dos seus habitantes. Eu, pelo contrário, tinha feito tudo para multiplicar os recursos daquela terra pobre. Um dos grandes projectos  do meu reinado  realizou-se pouco tempo antes da minha partida;  o estabelecimento de embaixadas anuais , por intermédio das quais  se tratariam  dali em diante em Atenas, os negócios  do mundo grego, restituiu àquela cidade modesta e perfeita  a sua categoria de metrópole. Aquele plano só tomara corpo  depois de espinhosas negociações com as cidades ciumentas da supremacia de Atenas ou que alimentavam contra ela rancores seculares e caducos; pouco a pouco , porém , a razão e até o entusiasmo venceram. A primeira dessas assembleias coincidiu com a abertura do Olímpeon ao culto público; aquele templo tornava-se mais que nunca o símbolo de uma Grécia renovada."
Marguerite Yourcenar, in " Memórias de Adriano" ,1951, Editora Ulisseia

" Memórias de Adriano" tem a forma de uma longa carta dirigida pelo velho imperador , já minado pela doença, ao jovem Marco Aurélio, que deve suceder-lhe no trono de Roma. Uma carta em que lhe promete  contar toda a verdade, sem as reservas próprias da história oficial. Pouco a pouco, através desta serena confissão, suscitada pelo pressentimento de que a morte se aproxima, ficamos a conhecer os episódios  decisivos da vida deste homem notável, que soube pacificar o império, tornar a sociedade romana um pouco mais justa, melhorar a sorte das mulheres e dos escravos. E que foi simultaneamente uma das mais cultas e sábias figuras do seu tempo.
Publicado em 1951 , " Memórias de Adriano" recebeu o Prémio Fémina Vacaresco logo no ano seguinte, em 1952 . É um dos grandes  romances do século XX.
Marguerite  Yourcenar nasceu em Bruxelas em 8 de Junho de 1903 , e morreu em Bar Harbor, nos Estados Unidos  da América , em 17 de Dezembro de 1987. Poeta, tradutora, ensaísta,  historiadora, crítica literária e ficcionista, Yourcenar é uma das mais importantes escritoras de língua francesa do século XX.

segunda-feira, 19 de março de 2012

O filho a dar o nome ao pai

" Contei noutro lugar como e porquê me chamo Saramago. Que esse Saramago não era um apelido do lado paterno, mas sim a alcunha por que a família era conhecida na aldeia. Que indo  o meu pai  a declarar no Registo Civil da Golegã o nascimento do seu segundo filho, sucedeu que o funcionário ( chamava-se ele Silvino) estava bêbado ( por despeito , disso o acusaria sempre meu pai) , e que , sob efeitos do álcool e sem que ninguém se tivesse apercebido da onomástica fraude, decidiu, por sua conta e risco, acrescentar Saramago ao lacónico José de Sousa que meu pai pretendia que eu fosse. E que, desta maneira, finalmente, graças a uma intervenção por todas as mostras divina, refiro-me claro está, a Baco, deus do vinho e daqueles que se excedem a bebê-lo, não precisei de inventar um pseudónimo para, futuro havendo, assinar meus livros. Sorte, grande sorte minha, foi não ter nascido em qualquer das famílias da Azinhaga que, naquele tempo e por  muitos anos mais tiveram de arrastar as obcesnas alcunhas  de Pichatada, Curroto e Caralhana. Entrei na vida marcado com este apelido Saramago sem que a família o suspeitasse, e foi só aos sete anos, quando , para me matricular na instrução primária, foi necessário apresentar certidão de nascimento, que a verdade saiu nua e crua do poço burocrático, com grande indignação de meu pai, a quem , desde que se tinha mudado para Lisboa, a alcunha desgostava. Mas o pior de tudo foi quando ,  chamando-se ele unicamente José de Sousa, como ver se podia nos seus papéis , a Lei, severa, desconfiada, quis saber por que bulas tinha ele então um filho  cujo nome completo era José de Sousa Saramago.  Assim intimidado, e para que tudo ficasse no próprio , no são e honesto, meu pai não teve outro remédio que proceder a uma nova inscrição do seu nome , passando a chamar-se,  ele também, José de Sousa Saramago. Suponho que deverá ter sido este o único caso , na história da humanidade, em que foi o filho a dar o nome ao pai. Não nos serviu de muito, nem a nós nem a ela, porque meu pai, firme nas suas antipatias sempre quis e conseguiu que o tratassem unicamente por Sousa."
José Saramago, in " As pequenas Memórias", Editorial Caminho, Outubro de 2006

O poema começou

Vigésima sexta carta a M.M.

Eu não quero saber. Não quero mais palavras. Só quero um espaço
que seja tão verdadeiro
como o das adolescentes que amam seus corpos deslumbradas.
Que sejam filhas do vento folhas do sol
e a apaixonada lucidez do silêncio
de uma velha sala clara com amplas janelas sobre um rio.
Espaços
espaços
entre as árvores ou nuvens
sobre o mar ou sobre as dunas.
Que uma mulher dance e ria
toda de branco
sobre um terraço branco
e se dispa depois
e continue a dançar e a rir.
E quando desaparecer
numa nuvem resplandecente
o espaço será tão claro e novo
que eu sentirei que o poema começou
na página branca na mesa onde eu ainda não estou.
António Ramos Rosa, in " Cartas Poéticas entre António Ramos Rosa e Manuel Madeira", Livros do Mundo

Eu, eu mesmo

Eu, eu mesmo...
Eu, cheio de todos os cansaços
Quantos o mundo pode dar. -
Eu...
Afinal tudo, porque tudo é eu,
E até as estrelas, ao que parece,
Me saíram da algibeira para deslumbrar crianças...
Que crianças não sei...
Eu...
Imperfeito? Incógnito? Divino?
Não sei...
Eu...
Tive um passado? Sem dúvida...
Tenho um presente? Sem dúvida...
Terei um futuro? Sem dúvida...

Álvaro de Campos, in " Poesias de Álvaro de Campos", Obras completas de Fernando Pessoa, Colecção Poesia, Edições Ática, Lisboa, 1964

domingo, 18 de março de 2012

Ao Domingo Há Música

"A música é o tipo de arte mais perfeita: nunca revela o seu último segredo." Oscar Wilde

Há momentos que nos marcam pela transcendência que provocam. Aquele em que Aretha Franklin faz uma surpreendente interpretação de Nessun Dorma da ópera "Turandot" de Puccini  é de uma tal intensidade que se transforma num grandioso acontecimento. Revivê-lo é o convite para este Domingo.


sábado, 17 de março de 2012

O sonho do semeador


Já não se pode falar de amor
sem sonhar com uma colheita melhor para esses povos
e sentir a semente palpitante da esperança
germinando novos frutos sobre a terra americana.
Redescobrir a vida nas espigas madurando,
na certeza de uma deslumbrante primavera
e de que haverá um campo de trigo à espera de ser pão.

Já não se pode falar de amor
sem caminhar com a expectativa destes povos oprimidos
pressentindo uma aurora de luz para nós todos
e a carícia  do rocio numa madrugada em marcha
porque a América, irmãos,
está prestes a ser reconstruída em cada punho.

Vamos pois, camaradas
há pouco tempo para a vida
e é urgente compreender
que não foi em vão haver nascido um homem.
Além da noite
além do impasse
há um tempo chegando em nossos passos
e já são muitos os que carregam seu sonho como um fuzil clandestino.
Nos punhos que se fecham
nos corações que se abrem
e em cada gesto partilhado
é preciso reconstruir o mundo.

Tudo é preciso agora....
é preciso sonhar
crer incondicionalmente no amanhã                                                          
e aguardar que os clarins anunciem o novo dia.
É preciso fazer do sonho a última trincheira
porque já não é mais possível viver sem uma fé
e um compromisso.
Mas é preciso esperar ainda
resistir um pouco mais
é preciso conspirar, fingir
morrer se for preciso

A qualquer preço
e ainda que passo a passo
tudo é preciso agora
para conquistar um dia o chão da liberdade.

Poetas da América...
mais que nunca é preciso cantar
é preciso fazer com que as palavras sejam uvas
é preciso embriagar os homens
para que todos conheçam o sabor da vida.
É preciso alistar nosso lirismo
desertado das fileiras dessa luta.
Desertado pelos que não comprometem a estesia do seu canto...
que  falam de flores
indiferentes aos campos calcinados da pátria,
que declamam seus versos de amor
cegos aos transeuntes da fome e do abandono
e é  missão dos poetas cantar seus olhos de súplica
denunciar que a morte  ronda seus ventres
e que eles são milhares nas barriadas
tugúrios e calhampas das vossas cidades
nas favelas do meu país
na verdade eles são milhares em todas as nacionalidades
e é preciso que eles sejam celebrados na beleza da poesia
é preciso decantar seu desencanto
e reconstruir, para eles, a esperança.
E por isso,
quando me perguntam de que vale um poeta no mundo
eu respondo com meu canto de filho proletário
com minha infância descalça e sem brinquedos
com todas as crianças do mundo que fui em meu estômago de água...                                                          
e só assim posso ouvir meu coração de povo
sentir meu canto nascer como um grito de combate
e eis porque deve nascer  uma canção na América
para que possamos semear o sonho no coração dos homens
para que possamos metralhar com um punhado de palavras.

Poetas da América...
nós que herdamos a canção continental de Whitman,
e o homem sincero nos versos  de Martí.
Nós que escutamos ainda próximo
o eco colombiano de Gaitan,
e a sinfonia altiplânica  no verso maior de Vallejo.
Nós que hoje cantamos com Guillén, com Neruda e Benedetti
e que daqui evocamos a Otto René Castilho,
poeta e combatente,
martirizado na fogueira acesa por Méndez Montenegro.
Salve hermano, memória heróica na massacrada Guatemala,
eu te saúdo hasta siempre com o lirismo dos meus versos
e digo  contigo:Vámonos, todos com a  patria a caminar.

E eis porque eu canto...
canto para pronunciar os nomes da bravura ...
e para cuspir na face dos tiranos.
Canto para denunciar o sangue dos caídos,
para escrever com asco o nome dos Stroessners, dos Somozas, dos Duvaliers
e todos seus comparsas  mais discretos.
Vamos pois, companheiros...
quando se vive numa pátria amordaçada
quando se canta com os gritos dos companheiros torturados
com o silêncio dos compatriotas assassinados
e com a face ensanguentada da pátria.
Quando se canta sob pena de morte
e com o pânico de um povo inteiro,
então temos que cantar mais forte
ainda que esta seja nossa última canção...
nossa ternura de poetas
desenhada em palavras de sangue.
E eis porque é também tão dolorosa a missão de um poema,
porque um poema é também um gesto imenso de amargura
um grito de dor que lacera o coração de um justo.

Venham... esse é o tempo das sementes... 
vamos cantar os grãos e as espigas
as flores e os frutos.
Vamos abrir com lirismo nossas almas
e lavrar a terra com as promessas da esperança.
Vamos declamar com coragem os nossos sonhos
e acreditar numa humanidade feita  de irmãos e companheiros.
Não importa se tivermos que morrer às vésperas desse alvorecer
mas o nosso canto há de sobreviver na alma
e nos lábios do homem novo.
Venham todos...
vamos partir daqui,
desta canção.
Ela é apenas um primeiro passo...
oh... venham por favor...
é preciso que cada um faça sua parte
porque é imprescindível acreditar no amanhã.
Oh! eu sei..., eu sei...,
é tão pouco...
é quase nada o que pode a poesia no mundo dos homens,
mas é ela que fermenta o sonho
que contém a chave do coração e o segredo da beleza.
Grande e humilde
a poesia é tão misteriosa como uma semente...
e a semente é um sonho alucinante
porque promete a flor,
o fruto, a sombra
e a floresta deslumbrante. 
Manoel de Andrade, Cochabamba, Outubro de 1969, in " Poemas para a Liberdade", Edição bilíngue,  Escrituras Editora,S. Paulo,  Brasil