quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Última Vontade


Quando a sereia se ouvir
no coração desolado como uma cidade
recorda que te procurámos através das árvores
E tu escondias-te por trás dos frutos
e recolhíamos as mãos
cheias apenas de tempo
Sempre brincaste connosco
desde os dias da nossa juventude
Puseste-nos nos olhos
estação sobre estação e a vida dava as mãos
de árvore para árvore à volta da terra
Ia de ramo morto para ramo vivo
como um pássaro mais e nós ríamos
na tua transparência

Fechem-se-te agora os lábios
sobre a palavra que somos
Perdoa se algum dia
errámos com o coração
Não nos deixes morrer longe de Jerusalém

Ruy Belo, in "Aquele Grande Rio Eufrates", Lisboa : Ática, 1961

4 comentários:

  1. Ruy Belo é um dos maiores poetas do sec.XX. O seu desaparecimento precoce impediu que a Literatura Portuguesa ficasse ainda mais rica.Lê-lo é sempre uma imensa descoberta e um intenso prazer.

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  2. Todos nós sentimos o anseio pelo outro, o desejo imperioso de procura de quem nos escolheu para apoio, para companhia, todos nos enchemos de surpresa, dessa surpresa a desfazer-se em lágrimas de alegria no rasgar sinuoso do caminho!...Todos até oferecemos o riso, a alegria, a agressividade da urze, o conhecimento das penedias, tudo o que guardámos no nosso bornal, para levarmos de jornada... E nos achámos soltos e saltitando, comendo cerejas e cuspindo os caroços, e contando os fundos enigmáticos dos esconderijos onde nos encontraram e nos encotrámos... Todos tentámos acertar o passo, por momentos estugado e cansativo, no envolvimento ds corpo que nos coube, que nos cingiu no empolgamento da vulcânica atracção, e na perspectiva de encontrarmos a esperança das aves, de roubarmos os seus próprios segredos de voo, de seguirmos a estrela da nossa Jerusalém... E aconteceu. Assim... Como Ruy Belo percebeu que todos temos a nossa Jerusalém, e nos soube devolver em palavras tão belas e inebriantes, sensuais, a essência da nossa errância, os acasos que fizeram de nós o que somos,e nos colocou poesia onde só cinzas morriam, por então!... Escrevemos o que sentimos. Porventura tão semelhante ao que outros viveram e sentiram... Em especial. Em memória de um dos maiores poetas do nosso tempo, Ruy Belo!... - Varela Pires

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  4. Ruy Belo! Tradutor de almas, como todos os poetas!
    Buscamos nossa Jerusalém pelo olhar e pelas mãos do outro.
    Se esse olhar se torna mortiço e as mãos fracas, o desalento se nos toma de roldão o coração...
    A poesia nos salva de nós mesmos!
    Monica Alves da Silva Lopes Diniz

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