segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Carlos Drummond de Andrade

"Alguns anos vivi em Itabira.
Principalmente nasci em Itabira.
Por isso sou triste, orgulhoso: de ferro.
Noventa por cento de ferro nas calçadas.
Oitenta por cento de ferro nas almas. (…)”
Carlos Drummond de Andrade, in “Confidência do itabirano”



O mineiro Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) fez poesia e prosa. Escreveu sonetos e aforismos. Arriscou-se nos poemas-piadas e se glorificou nas crónicas jornalísticas. Rabiscou aquilo que via — e aquilo que imaginava também. Semeou o modernismo na Semana de Arte de 1922 e, anos mais tarde, lutou pelo surgimento do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Sabia o valor da memória e sentia necessidade de preservá-la. Drummond povoou seus textos com assuntos que vão do político e notório ao mais íntimo e pessoal. Falou de guerras e amores, de pequenas cidades e grandes metrópoles, de amigos perdidos e inimigos conquistados. Tímido, fez confissões eróticas e cuspiu fogo. Sempre com palavras, sem nunca perder a elegância. Por isso — e por muito mais — ele ganha uma data para ser só sua. No que depender de seus admiradores, a partir deste ano, o 31 de Outubro (quando se comemora seu nascimento) passa a ser o Dia D, só de Drummond, e será sempre recheado de eventos em torno de sua obra — algo como acontece na Irlanda com o Bloomsday, dedicado ao escritor James Joyce (1882-1941).Diário de Pernanbuco

Lutar com Palavras
"Lutar com palavras é a luta mais vã. Enquanto lutamos mal rompe a manhã. São muitas, eu pouco. Algumas, tão fortes como o javali. Não me julgo louco. Se o fosse, teria poder de encantá-las. Mas lúcido e frio, apareço e tento apanhar algumas para meu sustento num dia de vida. Deixam-se enlaçar, tontas à carícia e súbito fogem e não há ameaça e nem há sevícia que as traga de novo ao centro da praça."
Carlos Drummond de Andrade, in “Poesia Completa”


A Palavra
Já não quero dicionários
consultados em vão.
Quero só a palavra
que nunca estará neles
nem se pode inventar.

Que resumiria o mundo
e o substituiria.
Mais sol do que o sol,
dentro da qual vivêssemos
todos em comunhão,
mudos,
saboreando-a.
Carlos Drummond de Andrade, in “A Paixão Medida”

Em Portugal, Casa Fernando Pessoa assinala aniversário Drummond de Andrade"
O aniversário do poeta brasileiro Carlos Drummond de Andrade é assinalado hoje, em Lisboa, na Casa Fernando Pessoa, com o «Dia D», inteiramente dedicado ao escritor, numa associação ao Instituto Moreira Salles, do Brasil, que lançou a iniciativa.
A estreia mundial do documentário «Consideração do Poema», sobre o escritor, prevista para as 18:30, culmina a jornada iniciada às 10:00, com a projeção do filme «No Meio do Caminho», feito a partir da leitura do poema homónimo de Drummond de Andrade em diferentes línguas, segundo a programação anunciada pela Casa Fernando Pessoa.
«Consideração do Poema» estabelece um panorama sobre a obra de Drummond de Andrade, a partir de leituras feitas por figuras da cultura brasileira, como o escritor e compositor Chico Buarque, os músicos Caetano Veloso e Adriana Calcanhotto, as atrizes Fernanda Torres e Marília Pera, o filósofo e poeta Antonio Cícero e o escritor Milton Hatoum."in Diário Digital / Lusa
Leitura do poema "No meio do caminho"  de Carlos Drummond de Andrade

domingo, 30 de outubro de 2011

Fado num Domingo de Outubro

Portugal apresentou a candidatura do   Fado a Património Cultural Imaterial da Humanidade. Em resposta , foi divulgado, durante a semana que findou,  o apoio da  UNESCO afirmando que o género musical português é um dos fortes vencedores. O comité de peritos da UNESCO recomendou que o Fado conste na Lista Representativa, como um dos patrimónios culturais da humanidade. Elogiou a típica música portuguesa como "um género de grande versatilidade poética e musical" com "um forte sentimento de pertença e ligação a Lisboa".
Além de não apresentarem qualquer restrição à aprovação da candidatura, os peritos intitularam o fado como uma das sete melhores referências a concurso. No seu relatório, os especialistas elogiam a candidatura portuguesa e apontam-na como um exemplo de boas práticas a seguir por outros países na preparação de novas candidaturas.
O Comité Inter-Governamental da Convenção da UNESCO vai proceder à votação entre os dias 22 e 29 de Novembro, em Bali na Indonésia.

E porque nesta semana andaram  no ar  os acordes do fado , vamos recordar a intérprete que melhor o simboliza. Ela confunde-se com o ritmo  quebrado, com o trinado repetido e prolongado do lamento sentido, do sussuro ardente, da alegria encoberta , do amor descontente, da saudade do futuro   que nele se celebram.  Ela é  Amália Rodrigues. Cantou-o e glorificou-o durante uma vida inteira.

Escutemo-la em  "Abandono", também conhecido como o Fado de Peniche pelas referências tão explícitas a esse  Forte prisão.  Fado que foi  considerado um hino aos  presos políticos que lá se encontravam vilmente enclausurados, vítimas da Ditadura. " Abandono" foi escrito para Amália  e veio a ser  proibido pela censura .
O poema é de David Mourão Ferreira e a música de Alain Oulman.

ABANDONO

Por teu livre pensamento
foram-te longe encerrar.
Tão longe que o meu lamento
não te consegue alcançar.
E apenas ouves o vento.
E apenas ouves o mar.

 
Levaram-te a meio da noite:
a treva tudo cobria.
Foi de noite, numa noite
de todas a mais sombria.
Foi de noite, foi de noite,
e nunca mais se fez dia.


Ai dessa noite o veneno
persiste em me envenenar.
Ouço apenas o silêncio
que ficou em teu lugar
Ao menos ouves o vento!
Ao menos ouves o mar!

Poema de David Mourão Ferreira
Música de Alain Oulman

E mais Amália  celebrando a poesia num "Fado Português"


Fado Português

O fado nasceu um dia,
Quando o vento mal bulia
E o céu o mar prolongava,
Na amurada dum veleiro,
No peito dum marinheiro
Que, estando triste, cantava,
Que, estando triste, cantava.

Ai, que lindeza tamanha,
Meu chão, meu monte, meu vale,
De folhas, flores, frutas de oiro,
Vê se vês terras de Espanha,
Areias de Portugal,
Olhar ceguinho de choro.

Na boca dum marinheiro
Do frágil barco veleiro,
Morrendo a canção magoada,
Diz o pungir dos desejos
Do lábio a queimar de beijos
Que beija o ar, e mais nada,
Que beija o ar, e mais nada.

Mãe, adeus. adeus, Maria.
Guarda bem no teu sentido
Que aqui te faço uma jura:
Que ou te levo à sacristia,
Ou foi Deus que foi servido
Dar-me no mar sepultura.

Ai, que lindeza tamanha,
Meu chão, meu monte, meu vale,
De folhas, flores, frutas de oiro,
Vê se vês terras de Espanha,
Areias de Portugal,
Olhar ceguinho de choro.

Poema de José Régio
Música de Alain Oulman

sábado, 29 de outubro de 2011

Marguerite Duras

Haveria uma escrita do não escrito.
Um dia isso há-de acontecer.
Uma escrita breve, sem gramática,
Uma escrita apenas com palavras.
Palavras sem gramática a apoiá-las.
Ali, escritas. E logo abandonadas.

Marguerite Duras


 O  “Magazine littéraire”,nº 513 de Novembro 2011, propõe um dossier consagrado a Marguerite Duras no momento em que a  prestigiada colecção “La Bibliothèque de la Pléiade” da Editora  Gallimard publica os dois primeiros volumes da sua obra completa.  Ser publicado na Bibliothèque de la Pléiade representa  o maior reconhecimento literário  que se pode prestar a um autor.  Marguerite Duras merece-o . Como afirmou « Escrever  durante uma vida inteira  ensina a escrever. Não salva de nada » mas a invenção literária salvou-a do anonimato e abriu-lhe as portas da imortalidade. A nós, seus leitores, ofereceu-nos instantes indizíveis de graça, momentos de intenso desespero, horas de alegrias iradas em intensas paixões, meses de obstinada vertigem entre a vida e a morte e uma eternidade de fascínio literário.
Escritora, dramaturga, realizadora, resistente, autora de uma imensa obra, Marguerite Duras nasceu em Gia Dinh, na Indochina, no dia 4 de Abril de 1914, e faleceu   no dia 3 de Março de 1996, em Paris, com 81 anos de idade. Um dia após a sua morte ,  Bertrand Poirot-Delpech escreve no jornal "Le Monde": "Quando esse pequeno pedaço de gente com grandes óculos e voz de final de comício participa da resistência ou faz política, quando acredita no comunismo e depois o execra, ela o faz com as suas entranhas, sem moderação nem prudência."
Duras escrevia como vivia: na urgência até ao esgotamento.
" Era mais do que uma escritora: ela encarnava a escrita. Borges : era a erudição. Hugo: a riqueza ,a facilidade e a mania de tudo dizer. Mas havia em Marguerite Duras aquele  furor poético, para falar como os antigos, aquela fé na escrita - (e pouco importava onde ela conduzisse) -  pois  nunca alguém ainda a tinha mostrado e que lhe permitia de confessar, confiante e trémula:  : «La solitude, ça veut dire aussi : Ou la mort, ou le livre» (Écrire). "
Em 1950, com ”Uma barragem contra o Pacífico”, Duras esteve muito próxima de ganhar o Prémio Goncourt. Só volvidos 30 anos (1984) a justiça é celebrada com a atribuição do prémio por unanimidade ao romance "O Amante".  
"O Amante" é  o relato exacerbado de uma paixão na adolescência inquieta da escritora que a tornou conhecida mundialmente. Este romance teve uma tiragem de aproximadamente três milhões de exemplares, traduções em quarenta línguas, um sucesso mundial, mais tarde foi adaptado para cinema pelo realizador Jean-Jacques Annaud.
 “Não podemos fazer mais do que amar - ou execrar - essa pequena mulher provocante, rodeada dos seus fantasmas (...). Essa pequena mulher, que roda sobre ela mesma como uma valsa solitária, terá sido uma senhora? Foi sobretudo uma mulher voraz de uma literatura que é um grito de amor ao longo de todas as páginas. Uma Piaf.” - Jean-François Josselin.

Muito cedo foi tarde demais
“Penso frequentemente nesta imagem que sou a única a ver ainda e de que nunca falei. Está sempre aí no mesmo silêncio, deslumbrante. É de todas, a que me agrada de mim própria, onde me reconheço, onde me encanto.
Muito cedo na minha vida foi tarde demais. Aos dezoito anos era já tarde demais. Entre os dezoito e os vinte e cinco anos o meu rosto partiu numa direcção imprevista. Aos dezoito anos envelheci. Não sei se é assim com toda a gente, nunca perguntei. Parece-me ter ouvido falar dessa aceleração do tempo que nos fere por vezes quando atravessamos as idades mais jovens, mais celebradas da vida. Este envelhecimento foi brutal. Vi-o apoderar-se dos meus traços um a um, alterar a relação que havia entre eles, tornar os olhos maiores, o olhar mais triste, a boca mais definitiva, marcar a fronte de fendas profundas. Em vez de me assustar, vi operar-se este envelhecimento do meu rosto com o interesse que teria, por exemplo, pelo desenrolar de uma leitura. Sabia também que não me enganava, que um dia ele abrandaria e retomaria o seu curso normal. As pessoas que me tinham conhecido aos dezassete anos aquando da minha viagem a França ficaram impressionadas quando me voltaram a ver, dois anos depois, aos dezanove anos. Conservei esse novo rosto. Foi o meu rosto. Envelheceu ainda, evidentemente, mas relativamente menos do que deveria. Tenho um rosto lacerado de rugas secas e profundas, a pele quebrada. Não amoleceu como certos rostos de traços finos, conservou os mesmos contornos mas a sua matéria está destruída. Tenho um rosto destruído.(...)
Eu perguntava-lhe se teria querido que as coisas se passassem assim. Ele quase ria, dizia: não sei, neste momento talvez sim. A sua meiguice tinha ficado inteira na dor. Não falava dessa dor, nunca dissera uma palavra sobre ela. Às vezes o seu rosto estremecia, fechava os olhos e cerrava os dentes. Mas calava-se sempre sobre as imagens que via por trás dos olhos fechados. (...)

Ela não soube quanto tempo depois da partida da rapariga branca ele executou a ordem do pai, quando fez aquele casamento com a rapariga designada pelas famílias há dez anos, também ela coberta de ouro, de diamantes, de jade. Uma Chinesa, também ela oriunda do Norte, da cidade de Fu-Chuen, que veio acompanhada pela família. (...)
Anos depois da guerra, depois dos casamentos, dos filhos, dos divórcios, dos livros, ele veio a Paris com a mulher. Telefonara-lhe. Sou. Ela reconhecera-o logo pela voz. Ele dissera: queria só ouvir a sua voz. Ela dissera: sou eu, bom dia. Ele estava intimidado, tinha medo como dantes. A sua voz tremia de repente. E com o tremor, de repente, ela voltara a encontrar a pronúncia da China. Ele sabia que ela tinha começado a escrever livros, soubera-o pela mãe dela que voltara a ver em Saigão. E depois dissera-lho. Dissera-lhe que era como dantes, que ainda a amava, que nunca poderia deixar de a amar, que a amaria até à morte.
Néauphle-le-hateau – Paris
Fevereiro-Março de 1984  "
Marguerite Duras, in “O Amante”, DIFEL, Difusão Editorial.Lda, Lisboa

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

As Memórias de Jorge Amado

"Ele está lá, Jorge Amado, nestas páginas, as suas prisões, os seus exílios,as  suas farsas e armadilhas, em emoções infindáveis,os  seus olhos grandes, o seu riso, a sua mulher tanto amada, Zélia Gattai, o seu gosto pelos mares, o seu meio século de comunismo, os seus 50 romances, como  igualmente os negros, os pobres, as prostitutas e os pecadores da sua cidade adorada, Salvador da Bahia de Todos os Santos."
                         Gilles Lapouge, Qunizaine Littéraire

Navegação de Cabotagem,Apontamentos para um livro de memórias que jamais escreverei ”, Jorge Amado , 1992, Editora Europa–América, Mem- Martins é um  livro surpreendente e  memorável, não apenas porque guarda as memórias de Jorge Amado, mas porque representa o exercício retrospectivo de quase um século  por um dos maiores escritores universais.
Jorge Amado começou a escrevê-lo  em Janeiro de 1986, em Nova  Iorque, cidade para onde se deslocara com a sua mulher, Zélia Gattai,  a fim de participar no Congresso Internacional do Pen Club. Doente e debilitado por uma pneumonia , não pode comparecer às Conferências e começou a redigir algumas notas à medida que elas  afluiam . O registo das memórias, que abrangem um longo período do século XX (  a década de 20 até ao início dos anos 90), terminaria em 1992 , data da publicação do livro.
 “Oitenta anos vividos intensa, ardentemente, de face para a vida, em plenitude. Minha criação romanesca decorre da intimidade, da cumplicidade com o povo. Aprendi com o povo e com a vida, sou um escritor e não um literato, em verdade sou um obá em língua iorubá da Bahia obá significa ministro, velho, sábio: sábio da - sabedoria do povo.
Consciente e contente que assim seja, reúno nesta Navegação de Cabotagem lembranças de alguém que teve o privilégio de assistir, e por vezes de participar de acontecimentos em certa medida consideráveis, de ter conhecido e por vezes privado com figuras determinantes. Publico esses rascunhos pensando que, talvez, quem sabe, poderão dar ideia do como e do porque. Trata-se, em verdade, da liquidação em preço reduzido do saldo de miudezas de uma vida bem vivida. Deixo de lado o grandioso, o decisivo, o terrível, o tremendo, a dor mais profunda, a alegria infinita, assuntos para memórias de escritor importante, ilustre, fátuo e presunçoso: não vale à pena escrevê-las, não lhes encontro a graça?”
Em 1992, quando terminou o livro, estava com oitenta anos. "O momento histórico, para quem viveu, na infância, o impacto da Primeira Guerra e da Revolução Russa, era avassalador: “O mundo nascido de duas guerras mundiais e da revolução socialista se esboroa e nas ruas se discute e se planeja uma nova carta geográfica e política, quando o impossível acontece, ruem muros, nações, impérios”. Apesar das transformações radicais, Jorge Amado não se mostra saudoso: “Só tenho pena de não me restar o tempo necessário para ver em que tudo isso vai dar. Bem que gostaria”.
Como já referimos  em edições anteriores ,  no ano de 2012 celebra-se  o centenário do nascimento de Jorge Amado (1912-2001). Recordá-lo através de um excerto do livro das suas memórias é uma forma antecipada de lhe prestar homenagem.

Aproxima-se a data dos oitenta anos, por que se considera tão curto tempo de vida façanha a celebrar, empreitada a saudar com estrondo e festa? De toda parte, do Brasil e do estrangeiro, chegam convites para comemorações, atropelam-se as notícias, os projetos, programas infindáveis de solenidades, cresce a pressão para que aceite ir aqui, ali e acolá de ceca em meca, ouvir discursos, pronunciá-los, agradecer elogios de corpo presente, participar de atos, seminários, fóruns, almoços e jantares, quanta coisa se inventa para proclamar-se a caduquice. A generosidade dos amigos, o carinho dos leitores me comovem, mas todo esse cerimonial parece-me conter laivo de despedida, tem ar de adeus em necrológio: aqui repousa em paz, epígrafe em mausoléu, letras de ouro em campo santo.
Digo não ao discurso, à medalha, à fanfarra e aos tambores, à sessão solene, ao incenso, à fotografia de fardão ou em mangas de camisa exibindo as pelancas e a dentadura, não sou andor de procissão. Dá-me tua mão de conivência, vamos viver o tempo que nos resta, tão curta a vida!, na medida de nosso desejo, no ritmo de nosso gosto simples, longe das galas, em liberdade e alegria, não somos pavões de opulência nem gênios de ocasião, feitos nas coxas das apologias, somos apenas tu e eu. Sento-me contigo no banco de azulejos à sombra da mangueira, esperando a noite chegar para cobrir de estrelas teus cabelos, Zélia de Euá envolta em lua: dá-me tua mão, sorri teu sorriso, me rejubilo no teu beijo, laurel e recompensa. Aqui, neste recanto do jardim, quero repousar em paz quando chegar a hora, eis meu testamento.
Nasci empelicado, de bunda para a lua, uma estrela no peito, a sorte me acompanha, tenho o corpo fechado à inveja, a intriga não me amarra os pés, sou imune ao mau-olhado. A vida me deu mais do que pedi, mereci e desejei. Vivi ardentemente cada dia, cada hora, cada instante, fiz coisas que Deus duvida, conivente com o Diabo, compadre de Exu nas encruzilhadas dos ebós. Briguei pela boa causa, a do homem e a da grandeza, a do pão e a da liberdade, bati-me contra os preconceitos, ousei as práticas condenadas, percorri os caminhos proibidos, fui o oposto, o vice-versa, o não, me consumi, chorei e ri, sofri, amei, me diverti.
Fujo aos festejos, ao fogo de artifício, ao banquete, fujo ao necrológio, estou vivo e inteiro. Amanhã, passado o obituário de reverências, voltarei ao romance, Bóris, o Vermelho me espera na esquina da máquina de escrever com seu desafio de trapaça e juventude. Obstinado, vou prosseguir com orgulho e humildade a tarefa de emprenhar nos esconsos da cidade, conceber e parir homens e mulheres, capitães da areia, mestres de saveiro, jagunços, vagabundos, putas, são a inocência e a fantasia, nascem de minhas entranhas fecundadas pelo povo, do coração, dos miolos e das tripas, dos culhões
.” Jorge Amado , in “ Navegação de Cabotagem, Apontamentos para um livro de memórias que jamais escreverei ”,  1992, Editora Europa–América, Mem- Martins

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Por uma América latina unida e livre

Memorial da América Latina, obra de Niemeyer
 "Na América Latina, a tendência democrática, progressista e de esquerda se afirma e se qualifica em seus sectores mais avançados. Tempos atrás constatamos que ocorreu na região uma mudança na correlação de forças políticas e sociais: a burguesia neoliberal e seus partidos sofreram derrotas político-eleitorais em vários países e perderam espaços nos aparelhos administrativos do Estado; emergiram alguns governos progressistas como resultado da busca de mudança por parte de nossos povos e dos combates contra governos entregues abertamente ao capital estrangeiro e aos interesses das classes dominantes locais.
Sem dúvida alguma esse novo cenário latino-americano significou um passo positivo para os povos, para as forças democráticas, progressistas e de esquerda, pois alimentou o desejo de mudança existente entre as massas e afirmou sua confiança na possibilidade de superar um sistema que só trouxe fome e desesperança para os trabalhadores e os povos. Como questão fundamental, o novo momento pôs na mesa de discussão a perspectiva do socialismo como alternativa ao decadente sistema capitalista.
Entretanto, com o passar os anos, pudemos constatar os limites políticos que afectam esses governos. Uns, mais rapidamente que outros, iniciaram giros à direita, traindo as expectativas do início de tempos novos para quem sempre tem vivido na opressão. Tratados de livre comércio com países ou blocos imperialistas, leis de corte antipopular, processos de criminalização do protesto social, entrega das riquezas naturais ao capital estrangeiro e medidas económicas neoliberais foram assinados por quase todos esses governos que ofereceram a mudança.
De regimes que respiravam a perspectiva de executar profundas mudanças económicas, políticas e sociais, e, por isso, abriam espaços para que as organizações de esquerda avançassem no processo de acumulação de forças revolucionárias, a maioria se transtornou em diques para o avanço da luta das massas, para a perspectiva da revolução e do socialismo.(...)
O desejo de mudança continua presente, manifesta-se nos protestos contra o desemprego, por educação, pela terra, pela água, contra os impostos, por democracia - para que seja escutada sua voz na hora de tomar decisões nas esferas de governo.Nesse aspecto é fundamental a política de unidade com os setores e forças interessadas na defesa das aspirações e direitos dos trabalhadores e dos povos e por defender os interesses soberanos do país.Mas a unidade deve ultrapassar as fronteiras nacionais, pois, sendo a revolução um processo que deve concretizar-se em cada um dos países, em sua essência é um movimento de caráter internacional" Comunicado do 15º Seminário Internacional "Problemas da Revolução na América Latina", Quito, 15 de Julho de 2011

 Num tempo em que se celebram os 500 anos do continente sul americano, recordar a  luta por uma América Latina livre e unida  que tem vindo a ser  feita, ao longo dos anos, através de movimentos guerrilheiros, de revoluções, de golpes de estado, mas essencialmente através do sofrimento e da abnegação do povo sul americano é um dever imperioso. Poetas, escritores, artistas , cantores  glorificaram e promoveram os ideais de um novo continente onde  a justiça social e a liberdade fossem uma realidade coesa e   indestrutível. Essa luta ainda se mantém e dela ecoam muitas vozes.
Mercedes Sosa, cantora maior da Argentina , foi uma dessas vozes. Uma das canções  que  interpretou é um hino à união da América Latina, "Canción Con Todos". Em sua memória e justa homenagem faz-se a reprodução dessa memorável e emblemática canção.

Canción Con Todos

Salgo a caminar
Por la cintura cósmica del sur
Piso en la región
Más vegetal del tiempo y de la luz
Siento al caminar
Toda la piel de América en mi piel
Y anda en mi sangre un río
Que libera en mi voz
Su caudal.
Sol de alto Perú
Rostro Bolivia, estaño y soledad
Un verde Brasil besa a mi Chile
Cobre y mineral
Subo desde el sur
Hacia la entraña América y total
Pura raíz de un grito
Destinado a crecer
Y a estallar.
Todas las voces, todas
Todas las manos, todas
Toda la sangre puede
Ser canción en el viento.
¡Canta conmigo, canta
Hermano americano
Libera tu esperanza
Con un grito en la voz
!

Aramando Tejado Gómez e César Isella

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Combater a degradação dos solos


  "Amazônia....Amazônia...
  quem deterá o teu martírio
  uma vida tão diversa num  adverso viver...
  Falo dos teus hectares de sangue
  da lâmina cruel, da pira ardente
  dessa cartilha de serras, rifles e archotes
  dessa morte plural
  na diversidade de aves e primatas
  roedores, felinos e serpentes.
  Falo de uma terra de cepos
  de raízes degoladas
  de caules retalhados
  de castanheiras preservadas... a morrer de solidão.
  Falo da linha negra do fogo
  e desse cemitério de troncos defumados."
               Manoel de Andrade, in "Cantares", Ed. Escrituras,Brasil

Degradação dos solos em Portugal


Satélites combatem a degradação dos solos
24 Outubro 2011
Depois de as Nações Unidas terem assinalado, na semana passada, o Dia Mundial da Alimentação, representantes internacionais reuniram-se na Coreia do Sul para discutir formas de travar a desertificação e a consequente perda de solo produtivo. Os satélites desempenham um importante papel na monitorização e avaliação das terras secas.
A desertificação é a degradação do solo nas regiões áridas, semi-áridas e sub-húmidas secas. É causada principalmente pelas actividades humanas e pelas variações climáticas já que os ecossistemas das terras secas são extremamente vulneráveis à sobre-exploração, ao uso inapropriado da terra e às secas.
Este fenómeno tem vindo a afectar de forma muito negativa o modo de vida dos agricultores de todo o mundo, causando instabilidade nas culturas em muitas áreas. Os satélites conseguem detectar a desertificação e deste modo identificam tendências de degradação, aqui mesmo na Europa.


Estes resultados foram apresentados durante a 10ª Conferência das Partes da Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação, em Changwon, na Coreia.
O evento que decorreu de 10 a 21 de Outubro foi uma oportunidade de discutir estratégias de contenção da perda de terreno produtivo – o que tem aumentado estrondosamente nos últimos anos.
A ESA organizou um evento paralelo sobre a monitorização e avaliação da degradação do solo, com recurso a dados de satélite.
A detecção remota, a partir do espaço, é uma ferramenta eficaz e compensatória, do ponto de vista económico, de monitorizar regularmente o efeito dos programas de combate à desertificação em grandes áreas ou em locais de difícil acesso.
Degradação dos solos em Moçambique

No projecto DesertWatch, promovido pela ESA, está a ser desenvolvido um sistema de informação baseado em tecnologias de observação da Terra para apoiar as autoridades locais e nacionais a construir, de forma simples, os relatórios sobre a evolução da degradação que devem ser enviados à UNCCD.
Nas conclusões apresentadas na conferência, o DesertWatch indicou que quase metade do solo de Moçambique está degradado. Pior ainda, 19% do solo continua a degradar-se.
Moçambique é um dos países mais pobres do mundo, com cerca de 30% das famílias a enfrentarem a carestia de alimentos.
Os satélites também detectaram desertificação em Portugal: 33% do solo está degradado. A região do Alentejo, muito importante para o cultivo dos cereais, continua a sofrer um processo de degradação .

Susceptibilidade à desertificação no nordeste do Brasil
Do outro lado do oceano, no Nordeste brasileiro, a agricultura muito intensa, associada a uma seca severa, reduziram a qualidade da vegetação em algumas áreas.
Estas áreas ficam assim mais sujeitas à desertificação – ou já estão a sofrer de todos estes processos.
Ainda não está disponível um sistema de observação global totalmente dedicado à seca.
Apesar de estarem disponíveis diversas técnicas, são necessários métodos mais desenvolvidos e uma maior integração para que se cumpram os requisitos de monitorização da desertificação, degradação do solo e processos de seca expostos pela UNCCD.
A observação a partir do espaço é a única técnica capaz de oferecer imagens contínuas com actualizações periódicas de variáveis relacionadas com a desertificação. ESA, Portugal

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Andréa del Fuego recebe Prémio José Saramago

“Com o romance “Os Malaquias”, a escritora brasileira Andréa del Fuego é a vencedora da sétima edição do Prémio Literário José Saramago. O anúncio acaba de ser feito numa cerimónia no edifício sede do Grupo Bertrand Círculo, em Lisboa. O prémio, no valor de 25 mil euros, foi entregue à jovem escritora pelo secretário de Estado, Francisco José Viegas e foi atribuído por unanimidade.
O Prémio Literário José Saramago, que foi instituído pela Fundação Círculo de Leitores e é atribuído de dois em dois anos, distingue uma obra literária no domínio da ficção, romance ou novela, escrita em língua portuguesa, por um escritor com idade não superior a 35 anos, cuja primeira edição tenha sido publicada em qualquer país lusófono.
A escritora, natural de São Paulo, tem formação em publicidade, fez produção de cinema e realizou duas curtas-metragens, “Morro da Garça”, inspirada nas paisagens de Guimarães Rosa, e “O Beijo e Ela”. Andréa del Fuego que se estreou literariamente em 2004 com a antologia de contos “Minto enquanto posso”, recebeu já este ano o Prémio São Paulo de Literatura.
"Os Malaquias" conta a história da família de Andréa, cujos bisavós morreram ao serem atingidos por um raio. Aqui fica um excerto: "Um gato esticou as pernas, as paredes se retesaram. A pressão do ar achatou os corpos contra o colchão, a casa inteira se acendeu e apagou, uma lâmpada no meio do vale. O trovão soou comprido alcançar o lado oposto da serra. Debaixo da construção a terra, de carga negativa, recebeu o raio positivo de uma nuvem vertical. As cargas invisíveis se encontraram na casa dos Malaquias. O coração do casal fazia a sístole, momento em que a aorta se fecha. Com a via contraída, a descarga não pôde atravessá-los e aterrar-se. Na passagem do raio, pai e mãe inspiraram, o músculo cardíaco recebeu o abalo sem escoamento. O clarão aqueceu o sangue em níveis solares e pôs-se a queimar toda a árvore circulatória. Um incêndio interno que fez o coração, cavalo que corre por si, terminar a corrida em Donana e Adolfo."
À sétima edição do prémio, que celebra a atribuição do Prémio Nobel da Literatura de 1998 a José Saramago, podiam concorrer obras publicadas em 2009 ou 2010 enviadas pelos escritores ou editores dos países da lusofonia cujos autores tivessem até 35 anos à data da sua publicação. O júri do Prémio José Saramago foi, nesta edição, presidido pela directora editorial do Círculo de Leitores, Guilhermina Gomes e composto ainda pela escritora e académica brasileira Nelida Piñon; pela poeta e historiadora angolana Ana Paula Tavares; pela “presidenta” da Fundação José Saramago, Pilar del Río, e pelo poeta e escritor Vasco Graça Moura. Por escolha da presidente Guilhermina Gomes, integraram também o júri Manuel Frias Martins, Maria de Santa Cruz e Nazaré Gomes dos Santos.”in jornal “Público”

O Mundo em intempérie

As calamidades que ameaçam o mundo não vêm apenas da usura que domina e perverte o homem. O equilíbrio natural do mundo  regula-se em movimentos de tempestade, de cataclismos naturais que se expandem repentinamente, devastando lugares, assolando aldeias, perigando cidades,  espalhando o sofrimento e horror nas populações. Quando o movimento de  calmia regressa ,  as marcas da tempestade expõem a dureza e a profundidade da sua passagem.
Neste mês de Outubro, a intempérie anda no ar  atingindo diferentemente algumas partes deste nosso planeta. Eis o que dela se tem noticiado.
O Monte Etna voltou a entrar em erupção na  madrugada deste Domingo, libertando lava a mais de 100 metros de altitude.
Esta é a 17.ª vez que o vulcão, situado na costa da Sicília, entra em erupção este ano. Segundo a sociedade geológica italiana, é o mais intenso vulcão activo na Europa.
Não há registo de danos materiais ou humanos. O aeroporto de Catania foi fechado por questões de segurança, mas já foi reaberto.




Inundações na Tailândia

Vários distritos da capital da Tailândia estão em alerta desde Domingo. Os diques estão a ceder, cheios de fissuras e na zona central, a mais antiga de Banguecoque, a água já chega aos 80 cm de altura. Mais de três mil pessoas refugiadas da inundação noutros lugares tiveram de fugir de novo dos lugares onde se abrigavam. Um desses centros estava instalado num dos aeroportos de Banguecoque e foi ontem evacuado.
Em todo o país mais de 113 mil pessoas estão refugiadas em 1,700 centros de acolhimento.
Estas são as piores inundações na Tailândia desde há 50 anos, segundo o governo. Pelo menos 356 pessoas já morreram e mais de 9 milhões foram afectadas pelas inundações, que começaram no norte do país, em Julho e que têm vindo a descer lentamente para o sul.
Áreas centrais e as províncias industrializadas de Pathum, Thani, Nonthaburi e Ayutthaya, a norte de Banguecoque são as mais atingidas, mas os rios e os canais estão em risco constante de transbordar, ameaçando a cidade de 12 milhões de habitantes.
Todos os dias, oito milhões de metros cúbicos de água estão são desviados para o mar, pelo leste e oeste da cidade e para o rio Chao Phraya, que atravessa Banguecoque e cujas água atingiram o maior pico dos últimos sete anos.
Marés altas previstas para esta semana deverão piorar a situação.
Banguecoque é prioridade
Numa entrevista à cadeia CNN, a primeira-ministra Yingluck Shinawatra disse que as autoridades estão a usar todas as barragens e diques para controlar uma estação das chuvas invulgarmente intensa.
Proteger a capital é uma prioridade por incluir o centro económico da Tailândia, disse, "mas isso não quer dizer que não estejamos atentos às pessoas afectadas pelas inundações", acrescentou.
A decisão de desviar a água através de canais em Banguecoque, implica que partes da cidade e os subúrbios foram inundados. Nalgumas áreas as águas deverão levar um mês a descer.
Os custos das inundações estão estimados já em 6 mil milhões de dólares e deverão aumentar.


Sismo devastou Ercis na Turquia
Ercis, Turquia, 24 Out (Lusa) -- As equipas de socorro continuam hoje a trabalhar sem descanso para encontrarem sobreviventes do sismo que atingiu no domingo a província oriental turca de Van, causando 272 mortos, segundo o último balanço provisório.
A catástrofe causou igualmente mais de 1.300 feridos, precisou o ministro do Interior, Idris Naim Sahin, durante uma visita à zona sinistrada, habitada principalmente por curdos e próxima do Iraque.
As equipas de socorros conseguiram retirar uma adolescente de 16 anos, Hilal, das ruínas da sua casa em Ercis, uma cidade de cerca de 75.000 habitantes e que sofreu mais danos na zona afectada.

Ventos fortes no Algarve
Os ventos fortes que ocorreram cerca das 05:00 de ontem provocaram extensos estragos na aerogare do Aeroporto de Faro, sobretudo nos extremos norte e sul do edifício, abrindo alguns buracos no tecto da estrutura.O vento danificou também a torre de controlo, partindo quase todos os vidros.
O desabamento provocou cinco feridos, um dos quais em estado grave.
Dos  65 voos previstos para ontem, só um foi cancelado, tendo os restantes sofrido atrasos consideráveis, informou o Director do aeroporto de Faro . Além disso, acrescentou, a situação na aerogare é agora "muito mais calma", depois do caos vivido esta manhã na sequência dos estragos provocados pelo mau tempo, com milhares de passageiros aglomerados na zona de partidas.
O mau tempo destruiu um acampamento , onde viviam numerosas famílias que ficaram ao relento.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

O Mapa do Tesouro

Este livro, “ O Mapa do Tesouro” de Egito Gonçalves, é todo ele uma obra de arte, desde a impressionante harmonia gráfica e o desenho de David de Almeida aos notáveis poemas em prosa de Egito Gonçalves, belíssimos pela originalidade imagética, pelo tratamento subtil dos temas do amor e da viagem, da descoberta do outro. Egito nunca exprimiu com tanta força e novidade o encantamento amoroso, o olhar dos amantes na mesma direcção, a figura da mulher como guia e como luz no percurso da existência.
A vitória do amor sobre a morte, o achamento desse estado de suprema euforia, di-lo Egito Gonçalves em muitos destes poemas e especialmente no que concretamente se refere à «ilha do tesouro». «A Solidão é uma paisagem árida, uma perdida ilha rochosa, onde cada um de nós é um país secreto no fundo do horizonte. O mapa do tesouro é o encontro com o outro, a descarga entre pólos que revela uma nova paisagem cujos elementos dispomos ao longo dos dias nesse jogo de olhares que pode fazer nascer flores carnívoras ou campinas suaves sobrevoadas pelo canto dos pássaros azuis. Só então sabemos como deter o inexorável.» Recensão de Urbano Tavares Rodrigues, in " Rol de Livros, Leitura Gulbenkian", 1998



Beijo não é palavra  de  poema. É o  raiar da  madrugada, o  anúncio de  um dia longo, o final da tensão que ameaçava partir a corda: podemos escolher imagens, comparações, fazer literatura. Será sempre outra coisa, meu amor, o beijo do poema. É como o branco que dizem ser a fusão de todas as cores. Não se retira um beijo do poema, este é apenas a fotografia de alguns pormenores. Um beijo é o corpo que antes não existia e ali nasce, uma nova estrutura óssea que suporta um pulsar único, um aposento onde o esplendor apaga todas as lágrimas que conseguiram viver até chegar ali."

"As palavras são mágicas, sobretudo quando se proferem para afirmar o amor. A primeira vez que o fizeste, atravessaste a rua sob a chuva, pensando que eu ficaria no lugar, preso à música da afirmação. Enquanto entravas no carro, ligavas o motor e arrancavas, eu saí do meu corpo para te seguir. Passeámos de mãos dadas na orla de uma floresta de castanheiros, olhando os ouriços maduros e dourados por cima dos quais voavam aves que no momento não nos preocupámos em identificar."
«Os meus dedos percorriam os teus, falange, falanginha, falangeta, como se interrogasse as pétalas de um afirmativo malmequer. Para lá dos vidros, o som das nossas vozes apagava-se, marulhava nos nossos ouvidos como um oceano secreto contido numa concha. Outubro era um teclado, uma página aberta, um arbusto de veias».

"Entre o teu sono e o meu há um estreito corredor que ao olhar dos outros se apresenta como um simples espelho. Atravesso-o para encontrar os lábios que no sono me procuram, realizando-me como sombra amável que se transfigura no clima lunar de uma paixão que soube evitar os violentos tremores de terra. O sono é um país enevoado onde nos insinuamos, fingindo ser fantasmas, pássaros invisíveis, pelo prazer de criar um jogo no qual a meia-noite figura como simples referência de um beijo que une os dois seres que na noite profunda dormem um para o outro."

Uma declaração de amor não é acontecimento de domínio público, uma baleia que vara na praia sob o sol dos desastres e convoca multidões, desalinhando hábitos quotidianos; uma declaração de amor é um acto de grande intimidade que ergue um véu transparente de onde brotam mel e pássaros azuis. As palavras directas ou indirectas, ditas ou escritas, suscitam a carícia única, irrepetível, a leve percussão que desenha no silêncio a imagem do que se ama. E assim terá de se guardar. Num lugar seguro onde os sismos não possam encontrar o mapa do tesouro.”
Egito Gonçalves, in “ O Mapa do Tesouro”, Editora Campo das Letras, 1998 , Colecção “O Aprendiz de Feiticeiro”

domingo, 23 de outubro de 2011

Há música ao Domingo

Luciano Pavarotti interpreta "Caruso" com Lucio Dalla durante o primeiro dos concertos de Pavarotti & Friends em Modena (Italia), em 1992. Esta canção foi composta por Lucio Dalla, quando ficou hospedado no hotel onde Enrico Caruso morreu. O tema da canção centra-se em  Caruso e na sua última paixão.
Existem várias interpretações desta canção, mas esta afirma-se pela presença do próprio autor e pela excelência da voz de Pavarotti.
E porque é Domingo deixemo-nos levar pela melodia.




Caruso

Qui dove il mare luccica,
E tira forte il vento
Sulla vecchia terrazza
Davanti al golfo di surriento
Uno uomo abbracia una ragazza
Dopo che aveva pianto
Poi si schiarisce la voce,
E ricomincia il canto

Te voglio bene assai
Ma tanto tanto bene sai
É una catena ormai
Che scioglie il sangue tinto vene sai...

Vide le luci in mezzo al mare,
Penso alle notti là in america
Ma erano solo le lampare
E la bianca scia di un'elica
Senti il dolore nella musica,
E si alzo dal pianoforte
Ma quando vide la luna
Uscire da una nuvola,
Gli sembro piu dolce anche la morte
Guardò negli occhi la ragazza,
Quegli occhi verdi come il mare
Poi all'improvviso usci una lacrima
E lui credette di affogare

Te voglio bene assai
Ma tanto tanto bene sai
É una catena ormai
Che scioglie il sangue tinto vene sai

Potenza della lirica,
Dove ogni dramma è un falso
Che con un po' di trucco e con la mimica
Puoi diventare un altro
Ma due occhi che ti guardano,
Cosi vicine e veri
Ti fan scordare le parole,...
Confondono i pensieri
Cosi diventa tutto piccolo,
Anche le notti là in america
Ti volti e vedi la tua vita,
Come la scia di un'elica
Ma si, è la vita che finisce,
E non ci penso poi tanto
Anzi, si sentiva gia felice,
E ricomincio il suo canto

Te voglio bene assai
Ma tanto tanto bene sai
É una catena ormai
Che scioglie il sangue tinto vene sai

Composição de Lucio Dalla

sábado, 22 de outubro de 2011

GENTE , Grande Gente

 O AUGUSTO E A MARGUERITE
                      E O CARLOS PAREDES
   Por Varela Pires
 Se houve alma em que a simplicidade e a bondade se acasalaram melhor, essa alma pertenceu a Augusto Gil, o poeta que não se levava a sério… Sim! O Augusto Gil, Notário e Conservador do Registo Civil, autor do “Luar de Janeiro”, da “Alba Plena”, da “Balada da Neve”…
 Nascido na alta e fria cidade da Guarda, o poeta veio a formar-se em Direito em Coimbra, e por Lisboa andou ganhando a vida como amanuense, envolvido numa certa aura boémia inesquecível e vertiginosa.
Quem ainda se lembra dos livros escolares do Ensino Primário trazerem… “Batem leve, levemente/ Como quem chama por mim/ Será chuva, será gente? / Gente não é certamente/ E a chuva não bate assim…” Quem?...
Não foi apenas um poeta romântico, melancólico, mas também dotado de uma fina perspicácia e de uma ironia singular. Como pessoa, o Gil foi de uma bondade excepcional, que convocava amigos em cada encontro. Incapaz de trair ou caluniar alguém, foi vítima de alguns que abusaram da sua bonomia de alma. Porém, a hipocondria também nunca o largou, e por fim acolheu-se à cama, então já verdadeiramente doente.
Encetou muito cedo um namoro com a filha de um médico, gente abastada da cidade da Guarda, pertencendo a uma classe social a que o Gil nunca aspirou. Namoro contrariado por razões económicas... No entanto, sempre fiel a essa relação, ele esperou 23 anos!... Esperaram ambos pelo falecimento dos pais da jovem senhora, para se registarem oficialmente como casados. E juntos, viveriam somente 6 anos!...  Coisas, que a sociedade desse tempo e os seus quês e porquês geravam!... E igualmente uma estranha forma de anularem o futuro, a independência e a vida dos filhos.
 Os poetas embelezam tudo quanto tocam. Não é Eugénio?!... Não é Herberto?!... Não é Manuel Madeira?!... Pois, num dos momentos em que não fazia jus ao seu talento, o Augusto Gil escreveu, como que zombando dele próprio. “Antes eu não tivesse algum talento / E fosse o parvo alegre que além vem…”.
O Augusto Gil era uma alma feita de excelência.
 Marguerite Yourcenar. Escritora francesa, historiadora, poetisa, crítica de arte e de literatura. A primeira mulher a ser eleita para a Academia da França. Tinha então 77 anos. Na sua obra é difícil saber onde começa a autobiografia e acaba a ficção, ou onde se inicia a ficção e termina a autobiografia. Isso sucedeu com outros escritores, como Balzac, Guy de Maupassant, Charlles Dickens, e os nossos Aquilino Ribeiro, Ferreira de Castro.
Órfã de mãe desde muito cedo, aversa à vida religiosa que lhe destinavam, Marguerite preferiu sempre uma original forma de “vagabundagem” por esse mundo fora, paixão que ela definia como…  “Só se está bem , onde não se está…”. Assim torna-se viajante impenitente… Marguerite Yourcenar esteve por duas vezes em Faro, e frequentou o centenário “Café Aliança”, hoje infeliz e estranhamente encerrado pelas autoridades. Este encerramento, de uma das mais célebres salas da Cultura Algarvia, é um dos exemplos das muitas vergonhas por que vamos passando…
 Marguerite adquiriu a nacionalidade americana, foi companheira durante cerca de 40 anos de Grace Frick, que morreu de cancro. Aos 75 anos apaixona-se pelo jovem músico e fotógrafo Jerry Wilson de 28 anos, seropositivo, que morre de meningite em 1986, numa viagem à Índia.
 Aos 84 anos, Marguerite vai ao encontro da morte, quando é acometida por um grave acidente vascular cerebral. Apesar dos seus múltiplos amores, Marguerite “recordou” sempre a mãe que não conheceu, e morre na mais completa solidão. 
 A autora de “Memórias de Adriano”, de “A Obra ao Negro”, e de “O Tempo, esse Grande Escultor…” nasceu só e acabou só, como qualquer mortal.
Carlos Paredes, o exímio músico e guitarrista. O compositor genial. Conhecemo-nos no Hospital de São José. Ganhava a vida como funcionário dos Hospitais Civis de Lisboa, como arquivista das películas radiográficas.
Trabalho humilde e honrado, mas pago miseravelmente. Todo o dia sem ver o sol, à luz eléctrica, metido num cubículo poeirento e húmido, adjacente à sala de arquivo.
Ali, quebrando os olhos, quase ostracizado, passava o Carlos Paredes o seu dia a dia. Ali fechado, quase ia cegando o maior génio da música tocada com guitarra portuguesa, que haveria após cada actuação de abafar em aplausos as maiores salas de espectáculo.
Assim se tratavam (e tratam ainda…) em Portugal os maiores artistas!... Os mesmos, que internacionalmente são considerados excepcionais e colocados na galeria dos grandes génios!VARELA PIRES        

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

O Tempo em Poesia II


Tempo desdobrado

Há um respirar alheio ao tempo.
Na geometria dos triângulos,
tudo se abre, nada se fecha.

O contrário não exclui o seu contrário,
e por isso quem respira alheio ao tempo
não deixa de estar no tempo desdobrado.

As tílias espalham em redor o seu perfume
de consonâncias perfeitas,
como no Lindenbaum de Schubert.

Cheira a Verão na Avenida Central
e debaixo das tílias falamos
sobre o curso das estrelas,

cuja história é também a nossa,
desdobrada no tempo
no desdobramento do nosso tempo.

Frederico Lourenço in "Santo Asinha e outros poemas", Editorial Caminho, Alfragide, 2010


Falar com o relógio na mão

falar com o relógio na mão
pela noite suspensa entre paredes emprestadas
falar com o relógio na mão
cortando o sonho aos pedacinhos comportáveis

falar com o relógio na mão
quando eram poucos os dias e as noites
falar com o relógio na mão
quando eram poucos os meses e os anos

falar com o relógio na mão
falar pensar olhar seguir amar
e amar e amar com o relógio na mão
eis o destino imediato

Mário Dionísio, in "Poesia Incompleta", Mem-Martins, Publicações Europa-América, 1966

Momentos
1.
Arranca do meu peito o coração das horas:

que o tempo se detenha, onde nasce a aventura
e deixe os séculos dormirem a seus pés;

que essa pomba perdida que chegou do futuro
seja um voo fulminando a raiz do terror.

2.
Um silêncio de morte no silêncio do mundo
rasga as horas roídas pelas bruxas do medo.

Nunca deixes nascer o não ser dos poetas,
nem um muro de trevas no lugar do futuro.

3.
na espessa argila deste fim de século
o silêncio ocupa os interstícios da sede

4.
atravesso o claustro dos teus sonhos
como um outono à deriva

e aí procuro duramente
as tão raras sementes da alegria

Rui Namorado, in "Sete Caminhos", Coimbra, Fora do Texto, 1996

Livro de Horas

No Livro de Horas, que leio,
há a história do meu destino...
...Mistério,
desatino,
choros de fados e saudade inútil,
cenários de luar,
um corpo inexplorado de Mulher-Menina
na quentura da noite,
e tudo o mais que eu não li
porque saltei para o fim.
E no fim outra história continuava,
mas que não era já do meu destino.

Essa era só um minuto
em todo o livro das horas,
Louco, que corri mundo procurando
o meu minuto.

Um só minuto que interessa,
se é o destino de todos que se joga,
se são as horas todas o que interessa?!

Álvaro Feijó, in " Os Poemas de Álvaro Feijó", Porto, Brasília Editora, 1978


O relógio

Pára-me um tempo por dentro
passa-me um tempo por fora.

O tempo que foi constante
no meu contratempo estar
passa-me agora adiante
como se fosse parar.
Por cada relógio certo
no tempo que sou agora
há um tempo descoberto
no tempo que se demora.

Fica-me o tempo por dentro
passa-me o tempo por fora.

José Carlos Ary dos Santos, in "Obra Poética", Lisboa, Edições Avante, 1994, 4.ª ed.


"Avec le Temps" poema de Léo Ferré (1916-1993), cantor e poeta  que  celebrou intensamente a poesia. " Avec le Temps “ é uma das  mais emblemáticas canções francesas que  faz parte do duplo album  “Amour Anarchie” de  1970, um dos mais relevantes da carreira de Léo Ferré.