sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Aniversário de Miguel Torga


Terra , minha medida!
Com que ternura te encontro
Sempre inteira nos sentidos!
Sempre redonda nos olhos,
sempre a cheirar a fermento!
Terra amada!
Em qualquer sítio e momento,
enrugada ou descampada,
Nunca te desconheci!
Berço do meu sofrimento,
Cabes em mim, e eu em ti.
                           Miguel Torga, in " Diário XI"

Miguel Torga, pseudónimo de  Adolfo Correia da Rocha, nasceu a 12 de Agosto de 1907 em S. Martinho de Anta e faleceu em Coimbra, a 17 de Janeiro de 1995.  Assina uma extensa e notável obra com este nome literário  porque torga é a urze, planta humilde, brava e ignota do reino vegetal , que nasce livre e espontânea na agrura das terras, mas predominantemente  nas serras nortenhas, tal como ele , homem transmontano.
“ Inicialmente, ainda com o nome de Adolfo Rocha, Miguel Torga fez parte do grupo da Presença. Dirigiu, depois, com Branquinho da Fonseca, a revista Sinal (1930) e, mais tarde, a revista Manifesto. Mas , com a independência quase agressiva do seu temperamento, cedo se colocou à margem de todos os clãs literários. A sua posição, nas nossas letras, continua a ser a de um grande isolado - que , no entanto ( ou por isso mesmo), consubstancia e representa, da forma mais directa ou através de inevitáveis símbolos , quanto há de viril, vertical, insubornável , no homem português”(1)
“Nascemos sós, vivemos sós e morremos sós” -,escreveu Miguel Torga.
Hoje, dia em que se deve comemorar o  aniversário deste grande poeta, revisitamos o seu Diário e destacamos o que registou no dia em que atingiu os sessenta anos.
"Miramar, 12 de Agosto de 1967Sessenta anos. Felizmente que ninguém deu pela conta, e pude calmamente, secretamente, meditar na significação deste dia crucial. Até há pouco, ia contando. Trinta, quarenta, cinquenta… Não era a juventude , evidentemente, mas havia ainda pano para mangas. Mais vinte , mais quinze…Tempo de sobra, enfim. Agora é que toda a ilusão se desvaneceu. Nem quarteirão, nem dúzia. Inexorável, a razão apenas me promete a decadência e o desenlace, no molho amargo de que tudo está feito e por fazer. É essa, de resto, a grande lição de humildade que a vida nos dá , se a esclerose não lavrou de mais e consente ao espírito o resgate duma lúcida contrição. Vamos seguindo confiados pela estrada fora. De repente, olhamos para trás , e que terramoto de ilusões! O que parecia grande mede um palmo, o que julgávamos sólido abana, o que dava a impressão de voar, patinha. Incrédulos, esfregamos os olhos. Mas não há dúvida. Desacertos sobre desacertos, erros palmares, ingenuidades confrangedoras. O saco de viagem abarrotado de falências. E de nada vale perguntar se as coisas se poderiam passar de outra maneira. Os factos são irreversíveis. No meu caso, então, só por milagre. Comecei mal e tarde. Enquanto outros partiram do saber, eu parti do sofrimento. Nenhuma porta se me abriu sem eu a arrombar. Lutei contra a pobreza, lutei contra a ignorância , lutei contra a idade, lutei contra os homens, lutei contra Deus, lutei contra mim. Uma infância rolada, de bola à mercê dos pontapés do mundo, uma juventude esfalfada, de estafeta atrasado na maratona da cultura , uma maturidade crispada, de indesejável na pátria. A criança desaninhada e perplexa nas encruzilhadas do destino, o rapaz a tentar a ferro e fogo fazer-se gente , o homem cercado de incompreensões. De maneira que era praticamente impossível que a árvore desse outros frutos. Tudo se conjugou nela e fora dela para um Outono sáfaro, que verifico nesta singeleza despida de ilusões. E triste , mas não há voltas a dar-lhe. Resta-me apenas uma consolação: embora derrotado, consegui chegar ao fim da aventura na pureza com que a iniciei, e remir pela consciência dum velho poeta a sangrar a inocência dum jovem poeta de versos de pé quebrado."
Miguel Torga, in “ Diário X “, Círculo de Leitores
(1) in “ Dicionário de Literatura, Direcção de Jacinto Prado Coelho, 4º volume, Editora Figueirinhas /Porto, 1987

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