quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Alves Redol

Celebra-se este ano o centenário de Manuel da Fonseca e Alves Redol. Algumas comemorações  foram publicitadas, onde se destaca " A Mostra Bibliográfica no Ciclo histórico do Neo-realismo Português" promovida pela Biblioteca Nacional , conforme anunciámos neste espaço. Em 1972, Baptista-Bastos dedicou a Alves Redol um excelente texto no seu livro " Cidade Diária". É com a transcrição das palavras deste escritor que saudamos o autor de " Gaibéus", " Fanga", " Avieiros", " Olhos de Água", " Barranco dos Cegos" à "Historia da Sementinha", (etc.), enfim o obreiro de uma imensa e genial produção escrita que se estende por diversos géneros literários, onde evidencia  um profundo conhecimento do homem. Alves Redol, como intelectual comprometido do seu tempo, padecia de uma enorme inquietação social. Defendia e  sonhava uma sociedade mais fraterna e justa, pelo que também a  liberdade lhe foi roubada e sofreu a mágoa da injustiça, da incompreensão, do isolamento.
E porque  o texto de Baptista-Bastos retrata magistralmente esse homem singular , a sua leitura é de imediata prioridade.

UM AMIGO PARA SEMPRE

"Alves Redol figura na lista das minhas predilecções de homem-que-lê porque me ajudou a formar as mais justas das minhas ideias e porque acrescentou aos meus sonhos outros sonhos por ele próprio edificados. Há autores que cortejam a literatura para conseguirem prestígios grandes, adoçando razões pequenas, e há autores que são enamorados da literatura, servindo-a, para servirem outros homens. Creio que a amizade do espírito é fomentada e estimulada por esta segunda classe de escritores. As mágoas, as angústias, que muitas vezes julguei só minhas e grandes e insuportáveis, vi-as maiores e mais terríveis em livros que relatavam as evidências brutais da vida de outros homens, em livros que não se debruçavam sobre a vida, mas eram, sim, o documento da própria vida. O amor , por exemplo, o amor tornado mistério porque é o enigma de duas pessoas , vi-o finalmente desagrilhoado e decifrável na heroína da “ Fanga”, e voltei a localizá-lo, mais tarde , adulto, brando e perplexo no Pedro e na Jadwiga do “ Cavalo Espantado”. A amizade que nasce do sofrimento, entendia-a na “ Barca dos Sete lemes”, assim como compreendi o ódio e a possibilidade de construirmos o nosso próprio destino no “ Barranco dos Cegos ”.
Redol ensinou-me tudo isso e muito mais num diálogo discreto, que durou anos, desde que escreveu – “Do Alto Ribatejo e da Beira Baixa eles descem à lezíria pelas mondas e ceifas. Gaibéus lhes chamam “ – até ao prefácio a uma outra edição de “ Fanga”, onde fiz o reencontro com as meditações de um homem que se realizou escrevendo as realizações de outros homens.
“ A História é o reportório de tudo o que se passou na Terra. A Literatura, essa, é o testemunho de tudo o que se passou no coração dos homens”. As palavras são de Claude Roy e servem bem para explicar e definir a natureza essencial deste livro muito belo, que é uma admirável tentativa de crónica datada, o documento da existência de um homem, o Manuel Caixinha, igual a tantos homens que nunca tiveram cronista interessado nas suas vidas e assim: “…Escrevi este livro há vinte anos. Tem o ferrete do seu tempo. Também as obras se parecem mais com o seu tempo do que com os seus autores. Andava , então, o nazismo à solta pela Europa e pelo Mundo. Amigos meus, que nunca vi, morriam em campos de concentração ou em câmaras de gás.; outros escreviam as suas cartas de fuzilados e ainda outros lutavam para que a noite cedesse. “ Fanga “ partilha dessa luta contra as trevas. Representou uma esperança, viva num momento em que nos prometiam mil anos de servidão. Talvez por isso alguns o queimaram simbolicamente; talvez por isso também muitos homens o consideram o seu livro predilecto. Manuel Caixinha sou eu. Manuel Caixinha também morava na Golegã, ao mesmo tempo que escrevia poemas nos vários países da Resistência europeia – em toda a parte onde os homens resistiram, ele não faltou ao encontro marcado com a liberdade…”
A grandeza de Redol principiou onde terminaram as cobiças de outros escritores: numa renovação constante da visão do mundo, numa evolução natural das mais exactas perspectivas, numa luta permanente para não perder a pista do homem português, que é a grande verdade de toda a sua obra, e a realidade para que viveu e sofreu e acreditou.
Neste livro do reencontro relembrei as falas de há anos do meu primo Zé Deodato, cavador que tem biografia feita nas terras do amanho da Estremadura. Disse-me que mandara a filha à escola para que ela lesse livros, sobretudo um que começava assim: “ Para vocês , fangueiros dos campos da Golegã, escrevi este livro. Que algum dia o saibam ler e rectificar , pois o romance da vossa vida só vocês o saberão escrever.
Baptista –Bastos , in “ Cidade Diária”, Editorial Futura, Lisboa, 1972

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Festival Internacional de Edimburgo

O Festival Internacional de Edimburgo existe desde 1947. Celebra-se este ano a 64ª edição.De 12 de Agosto a 4 de Setembro,  a cidade levita entre o  sonho  da magia e a grandeza da Arte.  Em estranha simbiose, Cultura e Arte  misturam-se   com malabaristas, palhaços, contorcionistas  por vários inesquecíveis espectáculos . A diversidade e  a grandeza deste Festival faz acorrer  a  Edimbugo  cerca de um milhão de visitantes na senda  de um novo acontecimento, onde as diferentes formas de expressão se manifestam em excelência, guindando este Festival  ao topo dos  maiores do mundo.
Mike Myers, Robin Williams, Alan Cumming, Richard E Grant, Emma Thompson e Hugh Laurie... a lista continua . Estes são muitos dos  rostos familiares que começaram as suas carreiras nos Festivais de Edimburgo - pelo que se pode ver , aqui, uma pequena retrospectiva das suas representações onde e quando pela 1ª vez as iniciaram.

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Saiba mais:Festival de Edimburgo

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Do autor de "Cidade Diária"

 "...Cidade diária, como um jornal que todos liam..."  João Cabral de Melo Neto

"Cidade Diária" de Baptista-Bastos foi publicado pela Editorial Futura, em  1972. O autor apôs-lhe as seguintes dedicatórias: " Aos meus filhos - a dedicatória a favor : viva a Liberdade, meus filhos!
"Aos outros  - a dedicatória contra: porque não amam a Liberdade?Que se passa com vocês?"
Sobre este livro, Carlos de Oliveira escreveu: " Um livro como uma cidade; diária, espessamente; porque os livros desertos não interessam a este bebedor de quotidiano."
Ao ler a crónica que vamos transcrever, rememorámos essa escrita veloz e densa  do autor de  " Cidade Diária"  que tão primorosamente  cultiva. Lisboa continua a ser o centro , não o espaço da narrativa, mas antes a personagem principal rodeada de gente que vive, labuta , ama e existe. Baptista-Bastos conhece-a bem como sempre afirmou. "Um  amigo para sempre" (pag. 104) é uma crónica sobre Alves Redol que se pode ler nesse soberbo livro de 1972.  A amizade e a família permanecem em Baptista-Bastos.



Crónica da meia-noite
                por Baptista Bastos
Lojas de bairro fechadas, apartamentos para venda, uma soturnidade que nos tolhe, nos embaraça e entristece quando passamos pelas ruas de Lisboa.
Lojas de bairro fechadas, apartamentos para venda, uma soturnidade que nos tolhe, nos embaraça e entristece quando passamos pelas ruas de Lisboa. Parte da minha juventude decorreu aqui e ali, conheço a cidade como poucos. Até pelo cheiro eu sabia onde estava. Anos substanciais, que me marcaram definitivamente, passei-os neste bairro, outrora de jornais, agora de bares e de lojas de modas. Há algo de absurdo nestas alterações, algo que nos diz da dolorosa impressão que estoutro tempo nos causa. Perguntava, há dias, um leitor de jornal: "Mas as coisas estão melhores?" Digo sempre que o nosso tempo é aquele em que vivemos, mas não é bem assim; sorrio para mim próprio, mas não é bem assim.
Cá em casa, todos dormem. Escrevo na meia-noite e em minha frente estão os retratos dos que me são queridos e que, de uma forma ou de outra, iluminaram a minha vida. Agora, é o meu neto, o Francisco, que me olha com malícia e atenção. Digo-lhe, dizendo para mim: força, miúdo, isto é difícil, ah!, tão difícil, mas vale a pena. O dia foi a rotina vulgar: comprei os jornais, sentei-me na leitaria a lê-los, a leitaria possui uma enorme vitrine e vêem-se as pessoas caminhar para os seus destinos certos. Às vezes, escrevo nesta mesa. As pessoas olham-se, discretas, quando reparo cumprimentam-me com um gesto e sorriem.
Em tempos, o Augusto Abelaira vinha para aqui escrever. Já estava muito mal, perdera o cabelo quase todo, mas mantinha aquele ar decente e bondoso que o acompanhou até ao fim. "Fui apanhado de lado", disse-me certa tarde. Respondi-lhe que, de um modo ou de outro, todos somos apanhados de lado, e que a vida é, como diz a Isaura, um constante processo de reconstrução. A doença espreita-nos e todos padecemos de qualquer coisa que nos aflige.
Ontem, fui gravar um depoimento sobre o Alves Redol, que fez cem anos, como o Manuel da Fonseca, sobre a data do seu nascimento (A frase não está muito correcta, mas é assim que a quero, desculpem). O realizador do documentário marcara o Jardim da Estrela como local de encontro. Acabámos por filmar no terraço da casa de um amigo dele, uma beleza de casa, com uma panorâmica do Tejo como há muito não via. Fui de táxi. O homem do táxi, largos ombros, cabeça teutónica, falou das coisas do mundo. "Que idade tem o senhor?" Disse-lhe a minha idade. Ele sorriu todo feliz. "A idade do condor." Percebeu que eu não percebera. Esclareceu: "Com dor; com dor todo o dia e por todos os lados. Com dor." Rimos. O homem pusera-me quase jubiloso. Pensei: "um dia destes tenho de escrever o episódio."
Agora, é meia-noite e sinto o respirar pausado da minha gente. Doem-me um pouco as pernas. Nestes últimos tempos fatigo-me com irremediável facilidade. A idade do condor. Não é relevante. Fiz sempre o trabalho que quis fazer. Batuco prosa há um ror de anos, e creio, modestamente creio, que algumas vezes acertei. Acertei e fiquei muito feliz. Direi, mesmo, que sou um homem feliz. Casado, bem casado, três filhos, e há meses, este neto sorridente, rodeado de amor e de ternura. É muito bom ser avô. Você verá, quando o for.
Numa entrevista recente perguntaram-me se a morte me assustava, tendo em conta a minha idade. Não é pergunta que se faça; ou é? Não sei bem, mas a verdade é que não me molestou.
Respondi que não pensava nessas coisas porque sentia que iria viver muitos mais anos. E iria viver muitos mais anos porque trabalhava, trabalhei quase sempre, num trabalho de que gosto e que me preenche.
Por exemplo: se nunca me cansei com o que escrevo, nunca me cansei com o que leio. Sou um leitor permanentemente acicatado pela curiosidade. E aprecio indicar títulos de livros e nomes de autores que me estimulam. Porém, quando leio depoimentos nos jornais acho as pessoas que falam muito anchas de si mesmas, e dizem coisas absurdas e tolas, presumindo que são importantes. Depois, penso: sempre foi assim: os mais novos a pensar que descobriram o mundo. É assim e ainda bem que assim é e assim sempre será. As rotações são iguais à de sempre, as ideias de salvação do mundo animam os melhores de todas as juventudes, uma geração vai e uma geração vem, como ensina o Eclesiastes e A Isaura está postada no umbral:
"Vem deitar-te. É tarde."
Baptista-Bastos, in Artigo de Opinião publicado no Jornal de Negócios em 26 de Agosto de 2011

domingo, 28 de agosto de 2011

Faz uma dobra no mar



Faz uma dobra no mar
e deixa que a tua praia
venha ao encontro da minha.
Ficarás então mais perto,
será mais breve o deserto
que terás de atravessar.

Traz ao ombro uma gaivota
que eu te levo uma andorinha.
Dá-me conchas e corais
que eu te dou ramos de olaia.

Faz uma dobra no mar
e deixa que a tua praia
venha ao encontro da minha.

Fernanda de Castro, in “ 70 Anos de Poesia (1919-1989)”, Porto, Fundação Eng. António de Almeida, 1989

Música para um último Domingo de Agosto

"Hoje em dia pode-se roubar tudo a um homem - até a morte. Rouba-se-lhe a morte com a mesma facilidade com que se lhe rouba a vida, a face ou a palavra, que são coisas mais que tudo inestimáveis" - disse o contador de estórias à sua filha Ritinha.
                  José Cardoso Pires, in " Dinossauro Excelentissimo",Livraria Bertrand,Junho 1972

Na semana que findou, a morte rondou o mundo. Foram notícias e notícias de atentados(Paquistão, Afeganistão, México, Nigéria, Argélia) que roubaram vidas num segundo de estertor. E na Síria morreu-se na rua porque a força e o despotismo dos "impérios dos Dinossauros" continuam a abater aqueles que clamam em protesto. Na Líbia, sob os holofotes dos grandes, disputa-se um território que só aos Líbios deve pertencer. Entretanto, nos  hospitais, opera-se  sem anestesia e morre-se por falta de medicamentos. O alvo está na ocupação estratégica de um manancial que já levou a mesma ganância cínica dos poderosos, falsos humanistas,   à destruição do Iraque. Um novo pesadelo de horror está-se repetindo.
E a dor anda à solta na Somália. A fome dizima as crianças e o mundo expande-se crísico , promíscuo a tanta adversidade.
O balanço saiu. Portugal tem 675 mil desempregados. O país está em coma e Angela Merkel foi considerada a mulher mais poderosa do mundo. O medo bateu-me à porta com esta notícia. O "Reino do Mexilhão" de que José Cardoso Pires nos fala, levou à revolução de Abril. E esta Europa que faz? Inerte, afunda-se numa abulia perigosa, esquecendo-se de que a indiferença permitiu a barbárie.  É preciso recordar. É preciso  que não se apague a memória  impedindo que um novo Imperador  seja "um fio de peste a alastrar por todas as vilas do Império".
Há 48 anos , a 28 de Agosto de 1963, em Washington, Martin Luther King liderou uma grande marcha pacífica  pelos direitos humanos, em que participaram mais de 200 000 pessoas.   A frase mítica,"I have a dream", foi proferida nesse dia. O sonho da paz e da união entre brancos e negros, numa América livre de segregação racial, era a batalha da vida deste pastor nascido em Atlanta . Um sonho pelo qual lhe roubaram a morte.
"Mia Per Sempre" nas vozes maiores de  Marcelo Alvarez e Salvatore Licitra é a canção para este final de Agosto . Um hino que pretende contrariar a  sazonalidade fugaz dos amores de verão. E para que  a redenção se redesenhe no coração do mundo, o amor celebrado em linguagem universal é um excelente  leitmotiv para sonhar a vida.

sábado, 27 de agosto de 2011

O Museu da Rendição Incondicional


"A croata Dubravka Ugresic escreveu um brilhante exercício sobre a poética do exílio, com a memória como metáfora da possibilidade de reconstrução da vida e do passado. "O Museu da Rendição Incondicional", que acaba de sair em Portugal pela Cavalo de Ferro, é um dos mais importantes romances europeus das últimas décadas
Nomeada em 2009 para o International Man Booker Prize, a escritora e ensaísta Dubravka Ugresicć(n. 1949), nascida numa vila da antiga Jugoslávia (actualmente território croata), é uma das vozes mais originais e eruditas da literatura da Europa Central. Depois de muitos anos a ensinar literatura russa e as suas vanguardas na Universidade de Zagreb, deixou a Croácia em 1993, publicamente acusada pelo poder, no Parlamento e na imprensa, de "bruxa, traidora" devido às críticas assertivas e irónicas que fez ao regime autoritário e nacionalista do presidente Franjo Tudjman (1922-1999) e às causas da Guerra dos Balcãs. Viveu depois vários anos em Berlim, ensinando entretanto, por curtos períodos de tempo, em universidades alemãs e americanas, até que acabou por fixar-se em Amesterdão. "Quando se é um exilado voluntário e se viaja muito, chega um dia em que apetece pousar a mala e ficar ali. Aconteceu-me em Amesterdão. Ainda bem que não foi na Albânia", diz. Actualmente tem também a nacionalidade holandesa, mas continua a escrever em servo-croata. O Ípsilon entrevistou-a a propósito da recente publicação em Portugal, pela Cavalo de Ferro, de uma das suas obras mais traduzidas, muito provavelmente um dos romances mais importantes das últimas décadas do século XX escrito por um autor da Europa Central, "O Museu da Rendição Incondicional". Falou-se da Guerra dos Balcãs, dos nacionalismos, das memórias, do exílio, de Berlim, e de outras coisas. Assim como se segue."
In Ipsilón, 19/08/2011
Leia o artigo completo Dubravka Ugresic não se rende


"O Museu da Rendição Incondicional"
"No jardim Zoológico de Berlim, dentro de um expositor de vidro, estão exibidos todos os objectos encontrados no interior do estômago de Roland, a Morsa (que morreu em 1961). É com este catálogo insólito que Dubravka Ugrešić inicia o seu livro: também ele um mosaico de fragmentos narrativos, recordações e reflexões, descritos pela protagonista, uma quinquagenária croata exilada em Berlim. Fala-se de fotografias antigas, de cartas de tarot, de histórias de família, de amor (com passagem por Lisboa), de guerra e de exílio; pedaços de um puzzle que comporá, numa única imagem final, o retrato da cultura e identidade europeias. "O Museu da Rendição Incondicional" foi recebido pela crítica internacional como uma obra universal e um dos mais importantes romances contemporâneos europeus das últimas décadas." In " Cavalo de Ferro"
Leitura de um excerto, em PDF

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

O poema original


Original é o poeta
que se origina a si mesmo
que numa sílaba é seta
noutra pasmo ou cataclismo
o que se atira ao poema
como se fosse um abismo
e faz um filho às palavras
na cama do romantismo.
Original é o poeta
capaz de escrever em sismo.

Original é o poeta
de origem clara e comum
que sendo de toda a parte
não é de lugar algum.
O que gera a própria arte
na força de ser só um
por todos a quem a sorte
faz devorar um jejum.
Original é o poeta
que de todos for só um.

Original é o poeta
expulso do paraíso
por saber compreender
o que é o choro e o riso;
aquele que desce à rua
bebe copos quebra nozes
e ferra em quem tem juízo
versos brancos e ferozes.
Original é o poeta
que é gato de sete vozes.

Original é o poeta
que chegar ao despudor
de escrever todos os dias
como se fizesse amor.
Esse que despe a poesia
como se fosse mulher
e nela emprenha a alegria
de ser um homem qualquer.

José Carlos Ary dos Santos, «Resumo» in Obra Poética,Lisboa, Edições Avante, 1994, 4.ª ed.

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Leituras e Leitores



Leitores incomuns
O observador sabe que lá no alto , sentado num galho, alguém olha para um livro
Por Milton Hatoun*

Há tanta diferença entre a “atitude” de quem lê e a de quem escreve? Um dos problemas cruciais do leitor e do escritor é a falta de tempo, decorrente da pressão do dia-a-dia.
Os escritores que vivem de sua pena não podem escolher uma hora do dia ou da noite para trabalhar. Mesmo os que tiveram ou têm a sorte de não depender do trabalho da escrita, revelam-se compulsivos, ávidos para narrar. O que deve ser escrito é inadiável. Deixar para escrever mais tarde, amanhã ou outro dia qualquer só atrapalha o andamento da narrativa. Adiar um trabalho pode ser um alívio para um burocrata, não para um escritor. Ainda assim, há momentos de pausa e reflexão, de pesquisa e anotações, e, às vezes, de interrupções forçadas, um verdadeiro castigo para quem escreve. E há também pausas para leitura: a urgência de escrever não é menor nem menos intensa do que a urgência de ler.
“Escrevo porque leio”, afirmam alguns escritores. Mas um leitor poderia dizer: não escrevo nada, mas é como se a leitura fosse um modo de escrever, de imaginar situações, diálogos e cenas que a memória regista no acto da leitura.
O pior leitor é o passivo, resignado, que aceita tudo e lê o livro como uma receita ou bula para o bem viver. Este é o não-leitor. Porque o texto de auto-ajuda é um compêndio de trivialidades, palavras que não questionam, não intrigam nem fazem reflectir sobre o mundo e sobre nós mesmos.
Um bom leitor reescreve o livro com a imaginação de um escritor. Alguns vão mais longe. Com os olhos no texto e um lápis na mão, eles fazem anotações nas margens das páginas, sublinham frases, cravam aqui e ali pontos de interrogação. Há os que elaboram fichas com resumos ou esquemas do enredo, árvores genealógicas, comentários sobre o tempo da narrativa, posição do narrador, personagens, ideias, metáforas, ambiente político, social etc. Esse leitor incansável seria o leitor ideal, mencionado por Umberto Eco no ensaio “Seis passeios pelo bosque da ficção”.
“No Tempo redescoberto “– último volume do “Em busca do tempo perdido” –, o narrador de Proust faz uma reflexão sobre esse tema. Um livro, diz o narrador proustiano, pode ser sábio demais, obscuro demais para um leitor ingénuo. A imagem que Proust evoca é a de uma lente embaçada entre o olhar e as palavras: um anteparo à leitura. Mas o inverso também acontece quando o leitor astucioso revela capacidade e talento para ler bem. De acordo com o autor francês, “cada leitor é, quando está lendo, o leitor de si próprio”. Ou seja, uma obra literária permite ao leitor discernir tudo aquilo que, sem a leitura dessa obra, ele não teria visto ou percebido em sua própria vida.
No quarto capítulo de seu belo ensaio “O último leitor”, o argentino Ricardo Piglia lembra a figura de um leitor incomum: o revolucionário e guerrilheiro Ernesto Guevara. O comandante Che sonhava ser escritor, mas o compromisso político-social o conduziu a outras veredas. No entanto, ele escreveu diários de viagem, textos sobre técnicas e estratégias de guerrilha, relatos inspirados directamente em sua experiência revolucionária em Cuba, na África e na América do Sul. O que não falta em suas incansáveis viagens – inclusive a última, pouco antes de morrer – é o livro, a leitura.
A marcha, escreve Piglia, supõe leveza, agilidade, rapidez. É preciso desprender-se por completo, estar leve e andar. Mas Guevara mantém um certo peso. Na Bolívia, já sem forças, carregava livros. Ao ser detido em Ñancahuazu, quando é capturado depois da odisseia que conhecemos, uma odisseia que supõe a necessidade de movimento incessante e de fuga ao cerco, a única coisa que ele conserva (porque perdeu tudo, não tem nem sapatos) é uma pasta de couro, que leva amarrada ao cinturão, sobre a ilharga direita, onde guarda seu diário de campanha e seus livros. Todos se desfazem daquilo que dificulta a marcha e a fuga, mas Guevara continua mantendo seus livros, que pesam e são o oposto da leveza exigida pela marcha.” (pág. 103)
A capa do livro (da autoria de Angelo Venosa) foi inspirada numa fotografia de Ernesto Guevara lendo no alto de uma árvore. É uma imagem notável do guerrilheiro – homem de acção – que faz uma pausa para ler. Armas e letras, dois temas medievais explorados no Dom Quixote, parecem reviver nessa imagem em que o leitor, significativa e simbolicamente, situa-se no alto. Longe de ser uma posição de quem se sente elevado, a altura, aqui, é uma posição precária, que denota perigo e instabilidade. O inimigo pode estar por perto, pode surgir a qualquer hora e matar o guerrilheiro-leitor. Na fotografia é impossível reconhecer com nitidez a figura de Guevara, mas o observador sabe que lá no alto, sentado num galho, alguém olha para um livro. O fundo da fotografia é alaranjado, de uma tonalidade que evoca o fogo crepuscular: começo ou fim do dia. Ou luz que se esvai, anunciando a noite, o enigma do que vem por aí. Não sabemos se este livro é o último que Guevara leu. O último leitor é a metáfora de uma atitude diante da leitura: alguém que não pode viver sem livros.
Narrar para não morrer é a mensagem de Sherazade ao rei Shariar (e ao leitor) em cada conto do Livro das mil e uma noites. Ernesto Guevara lê para viver. Ou suportar a vida: fado de um homem que vivia perigosamente à beira da morte. Mas ler é também o destino de tantos outros seres que não se lançam à aventura utópica de transformar o mundo por meio da acção revolucionária. Esse leitor apaixonado forma o duplo do escritor. E ambos justificam a Literatura.
Milton Hatoun, in "EntreLivros"

*Milton Hatoum é escritor, autor de “Relato de um certo Oriente”, “Dois irmãos" , "Cinzas do Norte”, "Orfãos de Eldorado" . Foi galardoado com os prémios Jabuti e vencedor do Prémio Portugal Telecom com "Cinzas do Norte”. Em 2009 publicou o livro de contos "A Cidade Ilhada".

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

A Jorge Luis Borges

“Para mí, vivir sin odio es fácil, ya que nunca he sentido odio. Pero vivir sin amor creo que es imposible”
                                      Jorge Luis Borges


Jorge Francisco Luis Borges nasceu em Buenos Aires a 24 de Agosto de 1899. Morreu a 14 de Junho de 1986, na Suiça . Passaram 112 anos sobre o seu nascimento e continua a ser o nome maior da Literatura Argentina.
A sua obra é imensa e valiosa. Desde a Poesia ao Ensaio, Borges deu à palavra uma nova dimensão. Tive o privilégio de o  escutar em Colóquios  e de verificar, presencialmente, quão forte era nele a sedução da palavra.  
A Jorge Luis Borges apresentamos  a nossa homenagem, recordando-o através da sua escrita.
Até sempre.

O Presente não Existe

Não é extraordinário pensar que dos três tempos em que dividimos o tempo - o passado, o presente e o futuro -, o mais difícil, o mais inapreensível, seja o presente? O presente é tão incompreensível como o ponto, pois, se o imaginarmos em extensão, não existe; temos que imaginar que o presente aparente viria a ser um pouco o passado e um pouco o futuro. Ou seja, sentimos a passagem do tempo. Quando me refiro à passagem do tempo, falo de uma coisa que todos nós sentimos. Se falo do presente, pelo contrário, estarei falando de uma entidade abstracta. O presente não é um dado imediato da consciência.
Sentimo-nos deslizar pelo tempo, isto é, podemos pensar que passamos do futuro para o passado, ou do passado para o futuro, mas não há um momento em que possamos dizer ao tempo: «Detém-te! És tão belo...!», como dizia Goethe. O presente não se detém. Não poderíamos imaginar um presente puro; seria nulo. O presente contém sempre uma partícula de passado e uma partícula de futuro, e parece que isso é necessário ao tempo.

Jorge Luís Borges, in '” O Tempo”

Nostalgia do Presente

Naquele preciso momento o homem disse:
«O que eu daria pela felicidade
de estar ao teu lado na Islândia
sob o grande dia imóvel
e de repartir o agora
como se reparte a música
ou o sabor de um fruto.»
Naquele preciso momento
o homem estava junto dela na Islândia.

Jorge Luis Borges, in "A Cifra"

SON LOS RÍOS
Somos el tiempo. Somos la famosa
parábola de Heráclito el Oscuro.
Somos el agua, no el diamante duro,
la que se pierde, no la que reposa.
Somos el río y somos aquel griego
que se mira en el río. Su reflejo
cambia en el agua dei cambiante espejo,
en el cristal que cambia como el fuego.
Somos el vano rio prefijado,
rumbo a su mar. La sombra lo ha cercado.
Todo nos dijo adiós, todo se aleja.
La memória no acuna su moneda.
Y sin embargo hay algo que se queda
y sin embargo hay algo que se queja.

Jorge Luis Borges , in “ Os Conjurados” , Editora Três, 1985.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Vencedor do Prémio Zaffari & Bourbon

João Almino , escritor, ensaísta e diplomata brasileiro, foi o  vencedor do Prémio Zaffari & Bourbon  , Literatura 2011.  Ao prémio, no valor de 150 mil reais (cerca de 65 mil euros), concorreram 228 romances.“Cidade Livre”, de João Almino, foi considerado o melhor romance de língua portuguesa publicado no Brasil nos últimos dois anos, entre Junho de 2009 e Maio de 2011. O prémio foi atribuído esta noite na abertura da 14.ª Jornada Nacional de Literatura de Passo Fundo, a decorrer desde segunda-feira no Rio Grande do Sul (Brasil).
Hélder Macedo era um dos dez finalistas com o romance "Natália", publicado em 2009 em Portugal pela Editorial Presença, e editado no ano passado no Brasil pela Azougue Editorial
Os outros finalistas eram "Azul-corvo", de Adriana Lisboa, "Um Erro Emocional", de Cristovão Tezza, "Cidade Livre", de João Almino, "Rei do Cheiro", de João Silvério Trevisan, "Estive em Lisboa e Lembrei de Você", de Luiz Ruffato, "Diário da Queda", de Michel Laub, "O Planalto e a Estepe", de Pepetela, "Outra Vida", de Rodrigo Lacerda, e "Passageiro do Fim do Dia", de Rubens Figueiredo.
O português Gonçalo M. Tavares é o escritor convidado desta edição de Passo Fundo que conta também com a presença de Pierre Lévy, Alberto Manguel, Rodrigo Lacerda, Edney Silvestre e Ziraldo.
O anterior vencedor do Prémio Zaffari & Bourbon, que é bienal, foi o brasileiro Cristovão Tezza, com o livro "O filho eterno".
O Prémio Zaffari & Bourbon foi instituído em 1999, tendo sido Sinval Medina o primeiro distinguido com o romance "Tratado da altura das estrelas".

Os Desenhos de Kafka

"Mis dibujos no son imágenes, sino una escritura privada", Franz Kafka.
A editora espanhola Sexto Piso lançou em Espanha, no mês de Julho, "Dibujos de Kafka" que dão a conhecer uma outra faceta deste grande escritor checo , o desenho. Franz Kafka revela como concebia e definia as suas ilustrações e a sua vertente artística; aquela que o acompanhou desde criança, e para sempre, mas que preteriu em beneficio da literatura.O interesse e a paixão pela criação de imagens e pela Arte em geral eram tão intensos que dificultaram a escolha.  Desenhos dispersos, alguns mais ou menos conhecidos, que nunca tinham sido reunidos e vistos, surgem agora todos compilados numa edição especial.
El pensador
Os desenhos vêm associados a fragmentos ou obras escritas do próprio autor. Assim, "El pensador" convida , como tantas interpretacões dos seus escritos, a concebê-lo como um auto retrato. Outro excelente registo de seu traço é Tres corredores.
"Uma obra que brinda uma dupla leitura, cada desenho tem o texto original que o acompanhava, o local onde Kafka o desenhou, ou alguma passagem da sua obra literária ou pessoal escolhida pelo editor. O conjunto ilumina ainda mais o universo do grande autor checo. Mais mistério, mais enigma, mais arte. Uma espécie de retrospectiva artística de 40 ilustrações do criador de obras como " A metamorfose" e " O processo", romance onde se inclui o desenho "Dos que esperan" . Apesar de não se saber onde se encontra grande parte do espólio desenhado pelo escritor checo - suspeita-se que parte dele esteja em bancos de Zurique e Tel Aviv. Niels Bokhove e Marijke van Dorst reúnem a totalidade dos desenhos conhecidos e publicados por Kafka num só volume.

Dos que esperan

Os autores apresentam uma selecção heterogénea, associando os 41 exemplares desenhados que compõem o livro a fragmentos literários de obras escritas, cartas, diários, apontamentos em cadernos, postais ou outras notas soltas que o seu amigo e biógrafo Max Brod foi conservando.
Os desenhos aparentam ter sido feitos de forma espontânea, sem grande rigor perfeccionista, e revelam-se uma interessante forma de avaliar esteticamente o imaginário do autor. O facto de não se saberem as datas de cada um deles não nos permite avaliar a evolução de Kafka enquanto desenhador.
Kafka tinha interesse assumido em expressar-se desta forma, mas terá demonstrado a Max Brod o seu desejo de que todo este conjunto de desenhos fosse destruído logo após a sua morte. Pedido expresso que acabaria por ser (felizmente) desrespeitado.
"Babelia" através do blog "Papeles perdidos " e "EL PAÍS.com", ofereceram em 1ª mão esta novidade literária, que chegou às livrarias de Espanha,em Julho.
Três corredores

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

La vita è solo un sogno

“la vita è solo un sogno
è una partenza o un ritorno
non lo so
tanti anni in un secondo
un lampo e tutto torna con lo sconto”
Canta Andrea Bocelli numa voz inconfundível e profunda. A vida é apenas um sonho. Uma partida ou um retorno …tantos anos num segundo. A fatalidade ou a volatilidade do tempo. Passa e repassa incessante , irresistível. No princípio vai linear, no meio já curvilíneo e quando gasto e desgastado ziguezagueia indomável. Ora célere, ora lento, o tempo é o devir que se faz e nos leva. Arrasta, empurra, embala, acaricia, alegra ,ri,  bate, chora e não esmorece. Continua e resiste sempre porque o tempo comanda todo o  tempo do nosso tempo.

domingo, 21 de agosto de 2011

Ao Domingo há Música

"Há um Sol que não se vê
Brilhando intenso, sem saber porquê,
Vive em nosso olhar, no céu e no mar,
Todos somos um."
Dulce Pontes


"One World" ou " Todos somos um" é o nome da canção que Dulce Pontes compôs e que, juntamente com José Carreras, interpretou magistralmente, protagonizando a abertura oficial da eleição das Novas 7 Maravilhas do Mundo, num solene espectáculo televisivo, em 2007. 
Dulce Pontes é uma excepcional cantora, versátil, heterógenea e detentora de um talento singular. Neste registo, não cessa de voltar a  surpreender-nos   com a exuberante musicalidade e amplitude vocálica que tão transcendentemente domina e lhe possibilita derrubar  as fronteiras dos diferentes géneros musicais.
Hoje, também,  Há um Sol que não se vê, pelo que talvez  o Mundo fosse diferente se  num Domingo como este , a irredutível verdade fosse apenas:  Todos somos um.


sábado, 20 de agosto de 2011

Morreu Raúl Ruiz

O realizador chileno Raúl Ruiz morreu ontem,  anunciou a produtora cinematográfica Clap Filmes, responsável pela última obra do cineasta, rodada em Portugal, "Mistérios de Lisboa".
Raúl Ruiz, nascido no sul Chile, em 1941, filmou grande parte da sua obra, composta por mais de uma centena de filmes, na Europa. Vivia em França, onde procurou asilo político, após o golpe militar de 1973, liderado por Augusto Pinochet, que derrubou Salvador Allende.
Em Paris, Ruiz conheceu Paulo Branco, que produziu 15 dos filmes do cineasta. A relação entre ambos prolongou-se desde 1982 até aos nossos dias e levou a que Ruiz filmasse por 9 vezes em Portugal.
"Em 1983, Serge Toubiana escrevia no "Le cas Ruiz", o seu texto de apresentação dos Cahiers du Cinéma N°345, especial Raúl Ruiz: o cineasta mais prolífico da nossa época, aquele cuja filmografia é «quase» impossível de definir tal é a sua diversidade, esplendor e multiplicidade de formas de produção há mais de vinte anos (…).Desbravando o seu caminho através das suas características imagens e sons afiados, Ruiz, é um guerrilheiro que, descomprometidamente, assalta os préconceitos da arte cinematográfica. Esta quase assustadora prolífica figura fez mais de 100 filmes em 30 anos não aderiu ao estilo de filmar de ninguém. Tem trabalhado em 35mm, 16mm e vídeo, para estreias em cinema e para as televisões Europeias, e no documentário e obras de ficção.
A carreira de Ruiz começou no teatro da vanguarda, onde, de 1956 a 1962, escreveu mais de 100 peças. Em 68 acaba o seu primeiro filme – “Três Tristes Tigres” – que lhe valeu de imediato o Leopardo de Ouro em Locarno.
Ao apoiar o Governo de Salvador Allende, Ruiz foi forçado a abandonar o seu país durante o golpe fascista de 1973. Vivendo, em exílio, em Paris desde essa época, Ruiz passou, desde logo, a ser considerado o enfant terrible da vanguarda parisiense e, em 1983, a mítica revista «Cahiers du Cinema» dedicalhe um número especial, exclusivo, honra recebida por poucos cineastas na história do Cinema Mundial, elegendo o seu filme “L’hypothese du Tableau Volé” como um dos dez melhores do mundo, realizados na década de 70 e elegendoo a ele como o cineasta “francês” mais importante desde Rohmer, Bresson e Godard.
Ao trabalhar com directores de fotografia inovadores como Diego Bonancia, Sacha Vierny, Henri Alekan e Ricardo Aranovitch, trouxe, novamente, a magia da poesia realista francesa, ao explorar o mundo da manipulação, da impotência e da violência. A forma como utiliza a luz, jogando com filtros e espelhos, recria a realidade fílmica, numa espécie de caleidoscópio, que nos introduz no labirinto das suas representações e que nos familiariza com o seu exoterismo fantástico.
Raúl Ruíz é considerado um híbrido único na história do cinema, reconhecido como um dos principais cineastas, um defensor do cinema de ideias, em que ele é o protótipo do artesão que cria imagens em movimento. Para Ruiz o Cinema é uma invenção, uma alquimia em que o realizador reúne todos os elementos com que se depara e os constrói através dos planos que cria, das imagens que regista no momento, dos conceitos que reinventa. A estética de um projecto é inerente à própria obra, é conseguida através da realização. E a admiração pela obra deste Mestre do Cinema prendese também com a genialidade com que aceita e concretiza, com reconhecido mérito, desafios cinematográficos que pareciam impossíveis para muitos. Um dos exemplos mais significativos na carreira de Ruiz acontece em 1999, quando decide adaptar ao Cinema, no seu filme, quase de culto, “Le Temps Retrouvé”, a obra de Proust, uma das mais prestigiadas obras literárias mundiais, que já Joseph Losey e Visconti tinham tentado adaptar, mas sem sucesso. Ruiz rodeouse de actores como Catherine Deneuve, John Malkovich, Emmanuelle Béart, Chiara Mastroianni, e do produtor Paulo Branco, e fez uma das obras mais conhecidas do cinema mundial, tendo sido vendido para 22 países e passado, em primetime nas maiores televisões internacionais e tendo feito em sala mais de 670.000 espectadores.
Mas Ruiz sempre manifestou a sua intimidade com alguns dos maiores escritores/pensadores de sempre, levando, ao longo da sua carreira, aos ecrãs de cinema, e para além de PROUST, adaptações de Jean GIONO com “Les Ames Fortes”; P. Calderon DE LA BARCA com “La Vie est un Songe; Robert Louis STEVENSON com “l’Îlle au Trésor”; RACINE com “Berenice”; Pieree KLOSSOWSKI com “La Vocation Suspendue” e “L’Hypothese du Tableau Volé”e ainda KAFKA com “La Colónia Penal” – todos referências absolutas na história do Cinema. Ruiz é, assim, reconhecido e aclamado no mundo inteiro, tendo marcado presença, nos últimos 30 anos, nos maiores festivais de cinema do mundo nomeado 4 vezes para a PALMA DE OURO (Cannes), onde foi também júri em 2002, tendo arrecadado o LEOPARDO DE OURO (Locarno), o URSO DE PRATA (Berlim), o CÉSAR, sendo candidato ao LEÃO DE OURO (Veneza), ganhando 2 vezes o PRÉMIO FIPRESCI em Montréal, sendo homenageado em ROTERDÃO (2004) “Raul Ruiz: An Eternal Wanderer” e no Festival de ROMA (2007), com a exibição de 46 dos seus filmes." In Clap Filmes
Paulo Branco ficou associado aos melhores momentos da carreira de Ruiz, nomedamente através da produção de "Genealogias de Um Crime" (1997), premiado com o Urso de Ouro em Berlim, e "O Tempo Reencontrado", a ambiciosa adaptação da obra de Marcel Proust.
Ambos colaboraram em "Mistérios de Lisboa", o fresco romanesco de quatro horas e meia integralmente rodado em Portugal e que se tornou num dos maiores sucessos internacionais do cineasta.

O filme, baseado na obra de Camilo Castelo Branco e com argumento de Carlos Saboga, foi exibido em França (onde continua em exibição, tendo sido visto por 100 mil espectadores), Estados Unidos, Espanha, Taiwan, Suíça e Bélgica e tem estreia assegurada noutros países, como Japão, Brasil, Reino Unido, Austrália e Nova Zelândia.
"Mistérios de Lisboa" foi galardoado com a Concha de Prata no Festival de San Sebastian, em Espanha, com o Prémio Louis Delluc, com o Prémio da Crítica na Mostra de São Paulo e com três Globos de Ouro nacionais.
Paulo Branco lembra-o como "uma das pessoas mais extraordinárias com quem convivi durante estes mais de 30 anos. É das pessoas que, em termos não só pessoais mas artísticos, mais me surpreendeu".
Em declarações à Antena 1, Paulo Branco acrescentou que teve um "prazer enorme" em todas as colaborações com o cineasta, que totalizam 15 filmes.
O produtor português define Raoul Ruiz como "absolutamente surpreendente", uma pessoa "de uma humanidade e de um humor que raramente se conseguem encontrar".
Ruiz não resistiu a uma infecção pulmonar e o seu estado de saúde suscitava frequentes cuidados desde que lhe foi diagnosticado um tumor cancerígeno no decorrer das filmagens de "Mistérios de Lisboa".
Muitos especularam que esse seria o seu derradeiro filme. Mas depois de "Mistérios" concluiu, no decorrer deste ano, uma adaptação da novela "La Noche de Enfrente", do escritor francês Jean Giono, e tinha iniciado a pré produção de "As Linhas de Torres", cujas filmagens estão marcadas para começar em Setembro.
Paulo Branco já assumiu que pretende concretizar o filme histórico "As Linhas de Torres", uma produção com orçamento de 4,5 milhões de euros sobre a resistência anglo-portuguesa às invasões napoleónicas, com elenco internacional liderado por Mathieu Amalric e John Malkovich.
De acordo com a nota da produtora Clap Filmes, a cerimónia fúnebre realizar-se-á a 23 de agosto, às 10h30, na Igreja Saint-Paul, em Paris. O corpo do cineasta será sepultado no Chile.in Cinemax,RTP com Lusa e AFP - 20 agosto '11

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

As fotografias que correm Mundo

world press photo winners 09 World Press Photo 2011

World Press Photo 2011 é um acontecimento mundial que reúne imagens de fotógrafos de muitos países. Para assinalar o Dia Mundial da Fotografia é também uma óptima aposta visitar essa exposição. Este ano e citando a Revista Visão  «…foram distinguidos 56 fotógrafos, escolhidos entre 5.847 participantes e com o número recorde de 108.059 fotografias a concurso.»
A exposição está em Portugal e pode ser visitada em:
PORTIMÃO - Museu de Portimão: de 05-08-2011 a 28-08-2011
MAIA - Fórum da Maia: de 17-11-2011 a 13-12-2011

Saiba quais as fotografias distinguidas no World Press Photo 2011, clique aqui.

Dia Mundial da Fotografia

Para comemorar o Dia Mundial da Fotografia em 2011 o Instituto Português de Fotografia organizou um programa de 24 horas, com 8 eventos fotográficos na cidade do Porto, subordinados ao tema 1 cidade, 1000 imagens.
O Dia Mundial da Fotografia celebra-se a 19 de Agosto, dia em que foi apresentado em Paris, em reunião conjunta das Academias das Ciências e das Belas Artes, o processo "fotográfico" denominado daguerreotipia.
O programa do evento foi concebido a pensar em públicos diversificados: fotógrafos amadores e profissionais, críticos de arte, galeristas, produtores culturais, entusiastas e apaixonados pela Fotografia em geral.
As actividades previstas desenvolvem-se das 0h00 às 24h00 horas e incluem os seguintes eventos fotográficos:
00:00 Noite da fotografia, no Bar Plano B
04:00 Workshop Fotografar o Amanhecer, no IPF Porto
09:30 Workshop Fotografia em família - Atelier de Produção de Fotogramas, no IPF-Porto
09:30 Workshop de Fotografia de Arquitectura, no IPF Porto
14:00 Avaliação de portefólios, no IPF-Porto
14:00 Exposição de fotografia livre, na Av. dos Aliados (frente ao Guarani)
19:00 Cocktail no IPF Porto (entrada por convite)
21:00 Projecção de Rua, no Coreto do Jardim da Cordoaria
Assim, no dia 19 de Agosto a população da cidade do Porto é convidada a contribuir com a sua presença e as suas imagens para a comemoração do Dia Mundial da Fotografia criando convívios em ambiente de festa com a motivação comum do GOSTO PELA FOTOGRAFIA.

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

A Actualidade em Cartoon

Cartoon Elias o Sem Abrigo de R.Reimão e Aníbal F, in JN




In "The Independent"


In "The Independent"


Cartoon Elias o Sem Abrigo de R.Reimão e Aníbal F, in JN 


quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Aniversário de Jorge Amado

Jorge Amado nasceu a 10 de Agosto, em Ferradas, Município de Itabuna, Sul do Estado de Baía, Brasil. No mês em que completaria 99 anos, é com as palavras de outro escritor , registadas logo após a sua morte, ocorrida a 6 de Agosto de 2001, que lhe prestamos homenagem.  A grandeza e a extraordinária riqueza da sua obra têm merecido inúmeros estudos, reflexões, análises e variados artigos em múltiplas línguas. João Ubaldo Ribeiro relembra o homem , o amigo , o inconformado, o resistente, o génio que transformou a literatura brasileira em literatura universal.

               Jorge Amado e Eu
                                   por João Ubaldo Ribeiro

Em 60 anos de vida, fiquei órfão três vezes. A primeira foi quando Glauber Rocha, nem dois anos mais velho do que eu, morreu e me deixou desarvorado em Portugal, onde convivêramos em seus últimos dias. A segunda foi quando meu pai, Manoel Ribeiro, morreu e perdi de vez o tapinha nas costas dado por ele, nas raras ocasiões em que sua severidade lhe permitia agradar-se de algo que eu tinha feito.
A terceira vez foi na noite de segunda-feira passada, quando morreu Jorge Amado e estou aqui, desnorteado novamente, agora que nunca mais vou poder ouvir seu bom humor, às vezes brincalhonamente irónico, manifestar-se nas muitas lições que me deu, na paciência e generosidade que sempre foram marca de seu temperamento.
Com quem vou conversar agora, na mais desarmada confiança que se pode ter, a quem mais vou contar minhas dúvidas e hesitações, de quem mais vou ouvir macetes e perclços desta vida de contador de histórias, quem mais me olhará –como olhava para todos nós, os jovens de quem, sem o menor paternalismo, mas como uma espécie de irmão mais velho, se tornou amigo e infatigável incentivador — com o orgulho ancho e benevolente de um técnico de futebol, diante da equipe que conseguiu formar? Para quem vou telefonar e pedir juízo, conselhos e sensatez? Por que se vão todas as minhas referências, me deixando cada vez mais só neste mundo, onde tudo indica que ficarei mais um tempo?
Talvez pareça presunçoso eu querer falar no universo que foi e é Jorge Amado através de meu ponto de vista. Mas para falar na persona literária, política e social dele, haverá quem fale melhor do que eu. De especial no que tenho a dizer existe somente a amizade e o amor fraterno que nos uniu durante uns 40 anos e é disso que posso falar. Posso testemunhar sobre a grandeza e a generosidade de seu gênio. Pois o chamo de gênio, no sentido que esta palavra tinha antigamente, antes de enfraquecer-se pelo uso descomedido.
Quem mais, senão um gênio, teria criado toda uma nação, teria dado forma, expressão e identidade a uma terra e uma cultura como a Bahia, assim legando aos baianos e aos brasileiros em geral, pois a Bahia pertence a todos os brasileiros, um patrimônio inestimável? A Bahia não pode ser compreendida — e, por via de conseqüência, o Brasil não pode ser inteiramente compreendido — sem Jorge Amado e Dorival Caymmi, esse outro gênio de quem só podemos também ter orgulho. Dois fortíssimos pilares da cultura nacional residem na obra deles e, agora que eles já abriram caminho, tudo parece fácil e até óbvio. É como na história de um ignorante que foi assistir a uma apresentação de “Hamlet” e depois comentou, decepcionado, que não passava de um apanhado de lugares-comuns: ser ou não ser, eis a questão; o resto é silêncio; há algo de podre no Reino da Dinamarca; há mais coisas entre o céu e a terra do que supõe sua filosofia; e assim por diante. A Bahia desabrochou sob as mãos de artesãos amorosos e de insuperável sensibilidade, como Jorge e Caymmi. Pela primeira vez os negros, os pobres, os humildes, os marginalizados foram trazidos maciçamente, através de uma singularíssima empatia e uma riqueza narrativa incomparável, para o proscênio das nossas artes — e nunca mais a cultura nacional foi a mesma.
Nós aprendemos a nos menosprezar e vivemos treinando isso o tempo todo. Há quem não veja, quem não consiga quase glandularmente não ver, que Jorge Amado não foi um dos mais importantes escritores do Brasil, mas um dos maiores autores do século, sob todos os títulos, a começar pelo fato de que, para o mundo culto e, de certa forma, para o grande público de muitos países, praticamente encarnava o Brasil e bem poucos escritores podem aspirar a esse tipo de galardão. Ele, com altivez e dignidade, nos representava, era como um símbolo da afirmação nacional, era o nosso escritor.
Mas isso tudo é e será visto, pois o patrimônio que Jorge nos deixou é perene e indelével, entrou na nossa alma, e a perspectiva histórica ainda lhe dará o relevo que efetivamente merece e que alguns ainda lhe negam, estreitando e tentando apequenar a estatura indestrutível de sua obra e sua vida, cujos ideais o levaram a quatro prisões, ao exílio e à incompreensão. Sempre disse que seu personagem era o povo e por isso, com mal-disfarçado desdém, há quem o chame de populista. Mas vá lá que fosse, ele mesmo não dava nenhuma pelota para isso, até gostava. Eu estava na Bahia para sua despedida e vi o povo nas ruas, aplaudindo seu escritor com emoção. Muitos entre eles nem lêem, mas todos sabem que perderam algo de muito importante, que felizmente viverá sempre na obra que aí está.
Acabei me alongando mais do que queria, em seara que outros explorarão muito melhor do que eu. Queria mesmo falar sobre aquilo em que tenho autoridade: nossa amizade. Cacá Diegues disse à imprensa que nós todos somos produto do que ele inventou, queremos ser o projeto que sua obra representa para o Brasil. No avião em que voltávamos da Bahia, Caetano Veloso me disse a mesma coisa. Heródoto escreveu que o Egito é um dom do Nilo e nós somos um dom de Jorge. De minha parte, eu sei bem. Foi ele quem primeiro acreditou em mim, desde os meus 17 anos, foi ele que, me vendo registrar-me num hotel, olhou o item onde eu declarava timidamente que minha profissão era jornalista, pegou a ficha, rasgou-a e disse:
— Jornalista é muito bom, mas não é o que você é. Bote aí “escritor”, você é escritor.
Foi ele que me acompanhou durante todo esse tempo, enchendo minha bola onde quer que chegasse ou a que veículo de imprensa falasse. Foi ele quem me chamou a atenção, sempre carinhosamente, para meus erros, minhas decisões mal pensadas, até para meu descuido com a saúde. A sabedoria e o bem-querer com que sempre me orientou não me deixarão nunca, sou um privilegiado maiúsculo, com essa convivência acima de tudo enriquecedora e enobrecedora. Não posso avaliar tudo o que devo a Jorge, direta e indiretamente. Só sei que tenho saudades dele e das muitas horas que passamos juntos e sei que vou atravessar o resto da vida com estas saudades.
João Ubaldo Ribeiro em Artigo publicado no jornal "O Globo", em 12/08/2001.

Nota: A editora brasileira Companhia das Letras, que processa a reedição da obra completa de Jorge Amado, criou um site para este grande escritor brasileiro. Consulte-o aqui: http://www.jorgeamado.com.br/

terça-feira, 16 de agosto de 2011

"Pare, Escute, Olhe"


DOCUMENTÁRIO "PARE, ESCUTE, OLHE" VENCE GRAND PRIX
NO CERVINO CINE MOUNTAIN EM ITÁLIA
"Pare, Escute, Olhe" de Jorge Pelicano, recebeu o Grande Prémio XIV Cervino CineMountain Conseil de la Vallé, em Itália, o nono prémio da carreira deste documentário sobre o encerramento da linha ferroviária do Tua.
Neste festival, dedicado na sua maioria a filmes de montanha, estiveram a concurso 27 filmes de vários países. Durante a entrega de prémios, na noite de sábado, o júri referiu que a decisão "reuniu o consenso porque se trata de uma obra completa, apaixonante, delicada e subtil, que reune uma boa investigação, um trabalho jornalístico exaustivo na área social, ecomomica e política de uma território de montanha. O filme é ainda dotado de uma elevada qualidade artística, uma sólida dramaturgia, imagem cuidada da vida nas montanhas. Uma obra cinematográfica de óptima qualidade".
Apesar de reconhecer "sentir uma grande tristeza pelo facto de a barragem do Tua já estar a ser construída", o realizador adiantou que este prémio "prova que a causa do Tua é compreendida e sensibiliza além fronteiras. É sempre uma nova oportunidade para repensar não só o futuro da linha ferroviária mas também o futuro de Trás-os-Montes cada vez mais abandonado e isolado"
Depois do reconhecimento em Portugal (DOCLISBOA, CINE ECO e Caminhos do Cinema Português), este é o oitavo prémio para "Pare, Escute, Olhe", um documentário que pretende ser um grito de alerta na defesa da identidade de uma região transmontana.
SINOPSE :Dezembro de 91. Uma decisão política encerra metade da centenária linha ferroviária do Tua, entre Bragança e Mirandela. Quinze anos depois, o apito do comboio apenas ecoa na memória dos transmontanos. A sentença amputou o rumo de desenvolvimento e acentuou as assimetrias entre o litoral e o interior de Portugal, tornando-o no país mais centralista da Europa Ocidental.
Os velhos resistem nas aldeias quase desertificadas, sem crianças. A falta de emprego e vida na terra leva os jovens que restam a procurar oportunidades noutras fronteiras. Agora, o comboio que ainda serpenteia por entre fragas do idílico vale do Tua é ameaçado por uma barragem que inundará aquela que é considerada uma das três mais belas linhas ferroviárias da Europa.
PARE, ESCUTE, OLHE é uma viagem por um Portugal profundo e esquecido, conduzida pela voz soberana de um povo inconformado, maior vítima de promessas incumpridas dos que juraram defender a terra. Esses partiram com o comboio, impunes. O povo ficou, isolado, no único distrito do país sem um único quilómetro de auto-estrada."In e-Cultura.pt, 8/08/2011




"Pare, Escute, Olhe" de Jorge Pelicano, vencedor de 7 prémios nacionais, incluindo Melhor Documentário Português no DocLisboa 09, agora numa edição dupla de DVD. Mais de duas horas de extras, onde se inclui imagens antigas da linha ferroviária do Tua, mini-documentários sobre a ferrovia, making of, banda sonora original, fotos, entre outros.

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

A literatura em tempos de repressão

Identidade e memória em “Andamios” de Mario Benedetti
por Neiva Fernandes(1)
As especificidades de cada país latino-americanos leva-nos a reflectir sobre a manutenção da lembrança de factos traumáticos através da representação literária, como as ditaduras do Cone Sul, por exemplo. Ao contrário dos demais países, o Brasil tem-se ocupado de outras questões que não esta. Temos vivido sempre de costas a nós mesmos e aos nossos vizinhos quando se trata de um assunto tão pertinente quanto o é a repressão política. Revolver o passado não faz parte de nossa reflexão cultural, embora há que se dar mão a palmatória para eventos como o “V Fórum de Literatura Brasileira da UFRGS” que, segundos seus organizadores, buscam “avaliar com certo distanciamento o impacto do autoritarismo sobre a literatura”. A manutenção da memória e a consciência de que ela serve como um alerta para que tais regimes não se instalem nunca mais na América Latina, é algo que submete os escritores em geral, ao compromisso com a verdade e com o passado que não pode ser apagado tão facilmente. Portanto, obras como Andamios de Mario Benedetti não podem ser lidas como somente parte de sua história recente, nem como registos ficcionais inócuos à nossa condição de latino-americanos, mas sim como uma constante dessa mesma condição. E, não se trata aqui de nenhuma patologia individual ou social , mas simplesmente não se esquece porque não se quer esquecer. O presente trabalho visa a discussão a respeito da (re)construção do ‘eu’ mediante a memória como cumpridora de um papel fundamental no resgate de um ‘si mesmo’ e também de um ‘vir a ser’ como sujeito social. Lacan destaca a memória como reveladora de alguns espaços importantes da história deste sujeito, mesmo que isso venha a gerar-lhe conflitos internos. A personagem, Javier Montes, após a volta do exílio a sua cidade natal, Montevidéu, depara-se com um país que já não é mais o mesmo, nem no espaço geográfico — como não poderia deixar de ser —, nem no âmbito social, posto que a máquina repressora empenhou-se em manter silenciada uma identidade coletiva por meio de uma desmemória pretendida como voluntária, induzida, a princípio, pela ditadura e, depois, por uma memória seletiva levada a cabo pelo governo de Julio María Sanguinetti, cujo discurso convida os uruguaios ao esquecimento total. Cabe ressaltar que identidade e memória são inseparáveis, até porque, nesta última, as imagens atuam como co-autoras de uma identidade pessoal e intransferível; no entanto, na impossibilidade da rememoração, a memória opera no indivíduo como processo de desidentificação, posto que seu script não o conduz a lugar nenhum e nem o inscreve como ator principal de seu contexto. Nas palavras de Benedetti, “el olvido está lleno de memória” e, nesse caso, acrescento que quem esquece seu passado está, de uma certa forma, condenado a revivê-lo em outras esferas, como a literatura, por exemplo. Os anos 60 representaram, para a América Latina, uma nova consciência continental. O florescimento das letras hispano-americanas na segunda metade do século XX deveu-se, em parte, a um posicionamento sócio-político por parte de autores como Mario Benedetti, por exemplo, um dos representantes da generación de 48 que, entre tantos, compreendeu o que realmente queria dizer o termo latino-americano e suas relações com liberdade de expressão e comprometimento. Frente a uma literatura anterior que caracterizava-se pela dominação europeia, não havia como dissociar literatura e transformações sociais. À problemática do individualismo, somou-se a do coletivismo. Consequentemente, as obras revelam um pacto entre a nação e o escritor, entre diversidade e identidades e, por extensão, entre a obra, o leitor e o contexto social de seu país. Nas palavras de Benedetti, A América Latina continua sendo hoje um tema para seus artistas e intelectuais, porém ademais, constitui-se num problema. Problema para aqueles que o eludem; para aqueles que o afirmam e para aqueles que o negam; para aqueles que o assumem em seu ser mais íntimo e para aqueles que o examinam de longe; embora o binóculo seja parisiense, londrino ou romano, o olhar continua sendo inevitavelmente latino-americano. (1972, p. 366) Considerando esta inevitabilidade, vale lembrar que, em Andamios, o autor não contradiz seu ponto de vista. A angústia do exilado, o retorno ao seu país, o sentimento de busca pelo que já foi e a atuação da memória são elementos de um mesmo tema: a (re)construção de um eu que insiste em não ser mais o mesmo. O inevitável aparece quando, em determinadas partes do livro, o autor situa suas personagens no contexto espanhol embora com o olhar voltado para a América Latina, conferindo-lhes um caráter que, se, por um lado, os desestabiliza como sujeitos, por outro leva-os a procurar seu ponto de referência e o fazer parte de algo que está distante e momentaneamente inacessível.
Para quem conhece a obra de Mario Benedetti e está informado a respeito de sua vida, Andamios não surpreende por permanecer coerente com seu posicionamento como escritor latino-americano em termos do resgate da memória e das instabilidades identitárias decorrentes da própria formação e do processo histórico de nosso continente. Andamios trata do retorno de um exilado político ao seu país de origem, o Uruguai. Após a permanência de doze anos em Madri, Javier Montes volta a Montevidéu trazendo consigo uma bagagem de lembranças, solidão e esperança, retomando suas velhas amizades e tentando resgatar, através delas e da paisagem citadina, uma identidade que, a duras penas, percebe já não ser a mesma. Em Madri deixou a ex-mulher Raquel e a filha Camila com quem se corresponde regularmente. Depois de algum tempo, Javier revê seus irmãos que residem nos Estados Unidos, Gervasio e Fernanda e que, por sua vez, provocam-lhe um sentimento de tristeza, e repulsa pelo fato de tornarem-se cidadãos norte-americanos implicando, daí, na perda não só no sentido legal, mas também moral de sua condição de latino-americanos. Nesse ínterim, apaixona-se por Roccío, sua antiga companheira de clandestinidade e, mantém com ela, um relacionamento amoroso que só acaba com a morte desta personagem num trágico acidente de carro e do qual Javier sobrevive. Esta é uma história que narra o exílio e o desexílio de alguém que procura resgatar seus papéis sociais por meio da rememorização, e, consequentemente, retomar suas identidades. No entanto, o retorno é um processo difícil e doloroso pois, é inevitável o reencontro com uma Montevidéu, que por sua vez, não é mais a mesma cujas lembranças e imagens permaneceram em sua memória. A dicotomia com a qual Javier tenta conviver resulta num estado angustiante de conflitos internos. Afinal, quem foi ele, na época da ditadura? Que cidade é essa que não o reconhece mais como sujeito social, o que para ele, significa estar em permanente luta pelos direitos fundamentais do homem e pela liberdade de expressão? O que encontra é uma Montevidéu desmemoriada onde as pessoas silenciam dando-lhe a impressão de que simplesmente esqueceram do que passou? Portanto, quem é agora Javier Montes? O que lhe cabe cumprir como novo cidadão de um mundo estranho e ao mesmo tempo conhecido e permanente nas imagens rememoradas? O que vale a pena recordar que possa contribuir para um outro dasein? Como conciliar memória válida com os traumas da separação e da volta? Buscando evitar um choque frontal com a nova realidade, a personagem busca refúgio numa casa de praia e de lá, aos poucos, vai reconstruindo, através das visitas dos antigos companheiros de luta e dos fragmentos do passado, um Javier militante e uma Montevideu conhecida para, depois, no processo inverso, construir-se a si próprio neste novo mundo, andaime por andaime: "...tratar de asimilar un país que no es el mismo, y sobre todo comprender por qué yo tampoco soy el mismo." (p.15). Aos poucos, Javier vai recuperando a cidade através do seu país. Dá-se conta do distanciamento que ele mesmo se imputou, de que os antigos amigos ajudaram-no neste processo de reencontro e lentamente a construção se expande em direção a uma nova vida. Assim, “las voces del regreso y los rostros del regreso”(p. 47) estabelecem as pontes necessárias para as pazes consigo e com a cidade. Como o Angelus Novus de Klee, seu olhar volta-se para o passado, para a catástrofe desencadeada durante a ditadura, mas de uma certa forma o impulsiona a olhar para a frente, a um futuro que agora Javier está disposto e preparado a enfrentar. Benedetti, em seu prólogo, explica o significado do título. Andaimes e construção são indissociáveis porque sugerem compartilhamento; nesse sentido, a personagem valeu-se do passado e nele inscrevem-se os amigos, obviamente, para consolidar o processo de repatriação que lhe permitisse descobrir seu país pessoal. A narrativa surge como uma tentativa, por parte do autor, de retomar as origens de seu país e da América Latina face ao fenómeno globalização. Benedetti estabelece o diálogo que comporta a aceitação do outro, do estrangeiro fora e dentro do país. A personagem Javier experimenta a vivência de um novo estado de ‘vir a ser’ num país que agora se define como democrático; não sabe muito bem como conviver com a liberdade e, inclusive, na revisão que obriga-se a fazer ao reencontrar seu antigo torturador, o coronel Berenjano, depara-se com mais um dos fantasmas com os quais deve de exorcizar para, por fim, retomar a ação construtora. Segundo o autor, a democracia é um estado em construção contínua, cujo edifício jamais estará terminado. Um sistema sem um final possível. A inquietude em torno dos temas de identidades e de memória ressalta o pertencer a algum lugar, à manutenção de uma unidade, embora diversa, uma possibilidade de mudança e recriação e também, por que não dizer, de reação contra a anulação de si e dos referentes identitários. Participar dessa inquietude não deixa de ser uma maneira que Mario Benedetti encontrou para reafirmar seu comprometimento social com a América Latina. Toda a construção identitária por meio da memória implica na discussão preliminar do comprometimento. Portanto, Benedetti, com Andamios, resgata essa discussão. Assim, o retorno de Javier é o retorno interior e/ou geográfico de cada latino-americano quando tem em mente a necessidade de assumir seu lugar no continente ou fora dele.
Referências
BENEDETTI, Mario. Andamios. Madrid: Santillana, 1997.
Temas e problemas. In: MORENO, César Fernandes. América Latina em sua literatura. São Paulo: Perspectiva, UNESCO, 1972.
(1)Neiva Fernandes é professora de Língua e Literaturas de Língua Espanhola na UNIJUI. Também é tradutora e professora de tradução. Suas últimas publicações são: "El no-lugar del yo en Mario Benedetti y Eduardo Galeano" Estudos de literatura brasileira contemporânea, Brasília, n.22, Brasília, jul./dez. 2003; "Primavera con una esquina rota, de Mario Benedetti e o exílio de cada um". Expressão: Memória, literatura e identidade nos países do MERCOSUL, [Santa Maria], n.2, jul/dez. 2002.
Artigo publicado em “ Nau Literária” Vol. 01, N. 01 – Jul/Dez 2005