segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Da esmola esquecida à pobreza vivida


Crescemos num país onde pedir esmola fazia parte do quotidiano. A pobreza expunha-se e reservava  lugares próprios para mendigar. Espalhava-se nas ruas autodelimitando o  espaço de cada um, nas entradas dos mercados , dos cinemas, das igrejas e nos corredores do Metropolitano. Pedir e dar juntavam-se em reciprocidade convencionada e, por vezes, automatizada. Elevar a voz,  em compasso dorido, determinava  um baixar de olhar para a mão estendida, pronta para a recolha da dádiva. Parcas, reduzidas e insuficientes as moedas caíam descompassadamente. A miséria crescia, espalhava-se, multiplicava-se e o país aceitava.  Nas escolas aprendia-se a bem tratar os pobres . Nas igrejas invocava-se o reino dos pobres como sendo o reino de Deus. As famílias  promoviam  a poupança  contrapondo a existência de fome no país. E a miséria era uma da nossas  fatalidades , bem  portuguesa, tal qual  o tamanho e a localização do país. Para alguns era  um dos traços do génio português. Por esse mundo , ainda distante e não globalizado, nem sequer Portugal era designado por país periférico, já que a Europa, manta de retalhos, partilhava  apenas a mesma ancestral cultura multifacetada. O eixo da pobreza que nos atravessava,  fixava-nos no extremo ocidental de um continente onde  ambos, qual hóspede e hospedeiro, coabitavam   em  escuso e recíproco desconhecimento .
 Para Fernando Pessoa," recordar não é reviver, é apenas verificar com dor que fomos outra coisa cuja realidade essencial não nos é permitido recuperar. Vimos da sombra e vamos para a sombra. Só o presente é nosso, mas que é o presente senão a linha ideal que separa o passado do futuro? Assim toda a vida é fragmentária, a personalidade una é uma ilusão, não podemos apreender em nós uma constante que nos identifique."
A heteronímia pessoana produziu uma excelente obra literária que é portuguesa, mas o mesmo não aconteceu a  Portugal. Vimos da sombra , continuamos na sombra e vamos para a sombra? A pobreza continua em nós revestida de outras expressões em heteronímia actualizada. A visão condoída do pobre emergente de uma fatalidade lusitana não resistiu aos cravos de Abril. Contudo, o paradigma brutal da miséria apenas evoluiu  em direitos constitucionais previstos num estado social que nunca funcionou em plenitude. A incúria crescente dos governantes não estimulou a justiça social. A penúria tradicional  não foi extirpada, mas sim  reformulada porque passou a  atingir  diversas camadas sociais que, de crise em crise, foram engrossando a lista de novos pobres em tudo diferentes daqueles que piedosamente nos ensinaram  a respeitar. Portugal abriu-se ao mundo e  novos horizontes foram rasgados. A Europa recebeu-o, posicionando-o numa periferia subalterna que o agrilhoa. E ao colocar-se no mundo  a voracidade económica globalizou-o. E a escassez  foi massificada ,a falta de recursos implantada, o acesso ao trabalho restringido. A  mundialização fez da pobreza  a reificação dos excluídos, a maior indignidade banalizada.

domingo, 30 de janeiro de 2011

Música para um Domingo de Janeiro

Deixar entrar a melodia, no final deste turbulento Janeiro , é abrir  o sonho  à vida . " In The Arms Of The Angel",  o piano e a voz de Sarah McLachlan  em parceria com Josh Groban  ,  contém  a  "po(R)ção" necessária  para este Domingo.



In The Arms Of The Angel

Spend all your time waiting for that second chance
For the break that will make it ok
There's always some reason to feel not good enough
And it's hard at the end of the day
I need some distraction oh beautiful release
Memories seep from my veins
They may be empty and weightless and maybe
I'll find some peace tonight

In the arms of an Angel fly away from here
From this dark, cold hotel room, and the endlessness that you fear
You are pulled from the wreckage of your silent reverie
You're in the arms of an Angel; may you find some comfort here

So tired of the straight line, and everywhere you turn
There's vultures and thieves at your back
The storm keeps on twisting, you keep on building the lies
That you make up for all that you lack
It don't make no difference, escaping one last time
It's easier to believe
In this sweet madness, oh this glorious sadness
That brings me to my knees

In the arms of an Angel far away from here
From this dark, cold hotel room, and the endlessness that you fear
You are pulled from the wreckage of your silent reverie
In the arms of an Angel; may you find some comfort here

You're in the arms of an Angel; may you find some comfort here

sábado, 29 de janeiro de 2011

DESENCANTO DOS DIAS


Não era afinal isto que esperávamos
Não era este o dia
Que movimentos nos consente?
Ah ninguém sabe
como ainda és possível poesia
neste país onde nunca ninguém viu
aquele grande dia diferente

Ruy Belo ,  in “Despeço-me da Terra da Alegria”,1977

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Sobre a Poesia III

Sophia Andresen retratada por Eduardo Gageiro

O Colóquio Internacional sobre Sophia de Mello Breyner Andresen, promovido por sua filha, Maria Andresen de Sousa Tavares, e pelo Centro Nacional de Cultura  a decorrer na Fundação Calouste GulbenKian, em Lisboa, termina hoje.
 As "Artes Poéticas " I, II, III, IV e V de Sophia Andresen , conjunto de cinco sínteses meditativas sobre a arte poética, são consideradas  "fundamentais para uma mais completa compreensão do  seu  universo poético  e da sua evolução",  pelo que  fica validado , com oportuna mestria,  este espaço de reflexão Sobre a Poesia    ao transcrever-se o excelente texto da   "Arte Poética III ". 
O texto que compõe a  "Arte Poética III "  foi lido por Sophia de Mello Breyner Andresen, em 11 de Julho de 1964, no almoço de homenagem promovido pela Sociedade Portuguesa de Escritores, por ocasião da entrega do Grande Prémio de Poesia, atribuído ao seu "Livro Sexto".

ARTE POÉTICA III
«A coisa mais antiga de que me lembro é dum quarto em frente do mar dentro do qual estava poisada em cima duma mesa, uma maçã enorme e vermelha. Do brilho do mar e do vermelho da maçã erguia-se uma felicidade irrecusável, nua e inteira. Não era nada de fantástico, não era nada de imaginário: era a própria presença do real que eu descobria. Mais tarde a obra de outros artistas veio confirmar a objectividade do meu próprio olhar. Em Homero reconheci essa felicidade nua e inteira, esse esplendor da presença das coisas. E também a reconheci intensa, atenta e acesa na pintura de Amadeo de Sousa-Cardoso. Dizer que a obra de arte faz parte da cultura é uma coisa um pouco escolar e artificial. A obra de arte faz parte do real e é destino, realização, salvação e vida. Sempre a poesia foi para mim uma perseguição do real. Um poema foi sempre um círculo traçado à roda duma coisa, um círculo onde o pássaro do real fica preso. E se a minha poesia, tendo partido do ar, do mar e da luz, evoluiu, evoluiu sempre dentro dessa busca atenta. Quem procura uma relação justa com a pedra, com a árvore, com o rio, é necessariamente levado, pelo espírito de verdade que o anima, a procurar uma relação justa com o homem. Aquele que vê o espantoso esplendor do mundo é logicamente levado a ver o espantoso sofrimento do mundo. Aquele que vê o fenómeno quer ver todo o fenómeno. É apenas uma questão de atenção, de sequência e de rigor. E é por isso que a poesia é uma moral. E é por isso que o poeta é levado a buscar a justiça pela própria natureza da sua poesia. E a busca da justiça é desde sempre uma coordenada fundamental de toda a obra poética. Vemos que no teatro grego o tema da justiça é a própria respiração das palavras.
Diz o coro de Ésquilo: «Nenhuma muralha defenderá aquele que, embriagado com a sua riqueza, derruba o altar sagrado da justiça». Pois a justiça se confunde com aquele equilíbrio das coisas, com aquela ordem do mundo onde o poeta quer integrar o seu canto. Confunde-se com aquele amor que, segundo Dante, move o sol e os outros astros. Confunde-se com a nossa fé no universo. Se em frente do esplendor do mundo nos alegramos com paixão, também em frente do sofrimento do mundo nos revoltamos com paixão. Esta lógica é íntima, interior, consequente consigo própria,necessária, fiel a si mesma. O facto de sermos feitos de louvor e protesto testemunha a unidade da nossa consciência.
A moral do poema não depende de nenhum código, de nenhuma lei, de nenhum programa que lhe seja exterior, mas, porque é uma realidade vivida, integra-se no tempo vivido. E o tempo em que vivemos é o tempo duma profunda tomada de consciência. Depois de tantos séculos de pecado burguês a nossa época rejeita a herança do pecado organizado. Não aceitamos a fatalidade do mal. Como Antígona, a poesia do nosso tempo não aprendeu a ceder aos desastres. Há um desejo de rigor e de verdade que é intrínseco à íntima estrutura do poema e que não pode aceitar uma ordem falsa.
O artista não é, e nunca foi, um homem isolado que vive no alto duma torre de marfim. O artista,mesmo aquele que mais se coloca à margem da convivência, influenciará necessariamente, através da sua obra, a vida e o destino dos outros. Mesmo que o artista escolha o isolamento como melhor condição de trabalho e criação, pelo simples facto de fazer uma obra de rigor, de verdade e de consciência, ele está a contribuir para a formação duma consciência comum. Mesmo que fale somente de pedras ou de brisas a obra do artista vem sempre dizer-nos isto: Que não somos apenas animais acossados na luta pela sobrevivência mas que somos, por direito natural, herdeiros da liberdade e da dignidade do ser.
Eis-nos aqui reunidos, nós escritores portugueses, reunidos por uma língua comum. Mas acima de tudo estamos reunidos por aquilo a que o Padre Teilhard de Chardin chamou a nossa confiança no progresso das coisas. E tendo começado por saudar os amigos presentes quero, ao terminar, saudar os meus amigos ausentes: porque não há nada que possa separar aqueles que estão reunidos por uma fé e por uma esperança.»
Sophia de Mello Breyner Andresen, in "Arte poética III "

O poema
O poema me levará no tempo
Quando eu já não for eu
E passarei sozinha
Entre as mãos de quem lê

O poema alguém o dirá
Às searas

Sua passagem se confundirá
Como rumor do mar com o passar do vento

O poema habitará
O espaço mais concreto e mais atento

No ar claro nas tardes transparentes
Suas sílabas redondas

(Ó antigas ó longas
Eternas tardes lisas)

Mesmo que eu morra o poema encontrará
Uma praia onde quebrar as suas ondas

E entre quatro paredes densas
De funda e devorada solidão
Alguém seu próprio ser confundirá
Com o poema no tempo
Sophia de Mello Breyner Andresen, in "Livro Sexto"

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

O Homem e o devir do Universo

"Apertados sobre a sua pequena Terra, ameaçados pelo seu próprio poderio, os seres conscientes e curiosos levantam os olhos ao céu e perguntam, ansiosos, como irá continuar esta bela história do mundo ?"



Em 1994, o cientista Carl Sagan lançou o livro "Pálido Ponto Azul", baseado na imagem da Voyager, onde faz uma profunda reflexão sobre o planeta. O livro também foi lançado em formato "Audio Book".

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

O génio de Chopin por Chopin

Um estudo divulgado na publicação científica "Medical Humanities" mostra que o compositor Frédéric Chopin pode ter sofrido de epilepsia. Neste estudo elaborado por cientistas espanhóis concluiu-se  que o compositor Frédéric Chopin (1810- 1849), que sofreu de alucinações visuais durante toda a vida, tinha provavelmente epilepsia, assinala a BBC.  O género e frequência de alucinações que o compositor apresentava é muito frequente em doentes com epilepsia do lobo temporal.
Estudos anteriores atribuíram os surtos de melancolia do compositor a uma doença bipolar e depressão.
Uma das histórias envolvendo Chopin e as suas alucinações aconteceu durante uma apresentação  num salão privado em Inglaterra, no ano de 1848. O compositor  deixou o recinto, dizendo ter visto criaturas saindo do piano. O episódio é confirmado pelo crítico musical do "Manchester Guardian", nome anterior do jornal britânico "The Guardian".
Alucinações são comuns em muitas doenças psiquiátricas como a esquizofrenia, mas são compostas normalmente por vozes. No caso de Chopin, a associação com a epilepsia é comentada no artigo como difícil de ser feita pelos médicos à época do compositor, já que havia pouco conhecimento sobre a doença.
A saúde de Chopin não era forte. Uma doença crónica no pulmão teria levado o artista à morte com apenas 39 anos. Especialistas defendem a possibilidade do compositor ter desenvolvido fibrose cística, uma doença que afecta o sistema respiratório. O diagnóstico é baseado no histórico familiar do artista.
Chopin ficou conhecido como sendo um artista frágil e sensível e tornou-se um dos maiores símbolos do romantismo.( Imprensa escrita).
Mas o génio de Chopin apenas se define em Chopin. Comprovemo-lo, escutando a interpretação  talentosa de Maria João Pires ao piano, em "Nocturno n.º 1 em Si bemol menor, op. 9 n.º 1" desse grande  Frédéric Chopin.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Morreu Jaime Salinas, nome maior do mundo editorial espanhol

Faleceu  o editor espanhol Jaime Salinas(1926-2011) , filho do poeta Pedro Salinas(1891-1951). Jaime Salinas   passava meses retirado  numa pequena povoação de pescadores da Islândia  desde há várias décadas , acompanhado do seu grande amigo escritor islandês , Gudbergur Bergsson  . Foi um dos editores mais inovadores da Espanha moderna. Começou na Editorial catalã Seix y Barral em  1954, como responsável pelas secções  literárias, sob a  direcção  de Carlos Barral.  Uma das facetas que o fez destacar como editor foi   a sua  formação cosmopolita, o seu  excelente domínio de línguas, especialmente o francês e o  inglês, e a  sua enorme curiosidade  pelas  novas tendências literárias mundiais. Foi o promotor do  famoso Prémio Formentor, iniciativa fundamental no lançamento de uma nova literatura tanto em Espanha como em vários países europeus, desde 1961 . Em Barcelona, Salinas  promoveu um  imenso rol de novos autores espanhois  e hispanoamericanos com quem estabeleceu vínculos como   amigo e editor tal como o fez com  Julio Cortazar, Mario Vargas Llosa  e muitos  dos  membros do recém  inaugurado "boom latinoamericano". A par desse labor , desenvolveu  uma  excepcional aposta para que se divulgassem em  Espanha as novidades literárias da Europa contemporânea.
Na  década de 70, foi iniciada outra etapa da vida editorial de Jaime Salinas  ao assumir a direcção da Editorial Alfaguara que guindou ao sucesso através de novas  iniciativas, entre as quais são de salientar  as colecções  de livros infantis e juvenis, que permitiram  aos espanhois mais jovens   conhecer os  melhores textos literários mundiais, escritos especificamente para esse grupo etário. Paralelamente, lança a colecção de Clássicos de Alfaguara, onde se afirma Claudio Guillén, e que permitiu contar com as melhores traduções de uma série de obras fundamentais da literatura mundial.
Salinas não procurava gratidão . Como editor, era um  habitante exigente (consigo mesmo e com os outros)   desse lugar sem limites onde vigora  a sensibilidade de quem  entrega a sua energia para que os outros  sejam felizes. Leia mais em: uno de los últimos editores clásicos

Acontecimentos literários


Prémio Literário Casino da Póvoa
O Prémio Literário Casino da Póvoa, este ano atribuído à poesia, será anunciado dia 23 de Fevereiro, no âmbito da 12ª edição Correntes d’Escritas – Encontro de Escritores de Expressão Ibérica,  iniciativa da Câmara Municipal da Póvoa de Varzim, que decorrerá entre 23 e 26 de Fevereiro . A lista das obras finalistas  já é conhecida. No total concorreram 150 obras de autores de língua portuguesa, castelhana e hispânica, com obras em português, editadas em Portugal (1ª edição) entre Julho de 2008 e Junho de 2010. O júri, constituído por Almeida Faria, Carlos Vaz Marques, Fernando Pinto do Amaral, Patrícia Reis e valter hugo mãe, seleccionou os seguintes livros, por ordem alfabética: A Inexistência de Eva, Filipa Leal (Deriva), Anthero, Areia & Água, Armando da Silva Carvalho (Assírio & Alvim), Arado, A. M. Pires Cabral (Cotovia), Curso Intensivo de Jardinagem, Margarida Ferra, (& Etc), Guia de Conceitos Básicos, Nuno Júdice (Dom Quixote), Mais Espesso que a Água, Luís Quintais (Cotovia), Necrophilia, Jaime Rocha (Relógio D´Água), O Anel do Poço, Paulo Teixeira (Caminho), O Livro do Sapateiro, Pedro Tamen (Dom Quixote), O Viajante sem Sono, José Tolentino Mendonça (Assírio & Alvim). O valor pecuniário do  Prémio  é de 20 mil euros .
Correntes d’Escritas é um prestigiado festival literário realizado em Portugal que todos os anos, desde 2000, reúne, em Fevereiro, em torno da literatura e dos livros, escritores e poetas, editores e críticos, especialistas ou tão simplesmente o público leitor, dos diferentes países de língua portuguesa e espanhola. Correntes d’ Escritas é um espaço de diálogo entre escritas e escritores, línguas e linguagens, culturas e geografias, de ambos os lados do Atlântico.  Desde 2004, neste encontro são atribuidos dois importantes prémios (Prémio Literário Casino da Póvoa e Prémio Correntes d’Escritas/Papelaria Locus, para jovens escritores).Também este ano, como vem sucedendo desde 2005, as Correntes d’Escritas regressam a Lisboa para mais uma sessão no Instituto Cervantes, onde terá lugar uma mesa redonda com a participação de Kirmen Uribe (Espanha), Uberto Stabile (Espanha), David Toscana (México), Conceição Lima (São Tomé e Principe), Inês Pedrosa (Portugal).(fonte: CMPV)


Casa Fernando Pessoa programa ano de Portugal no Brasil 2012

A divulgação da literatura portuguesa com um ciclo de conferências e debates de autores em diferentes cidades brasileiras; a realização de um filme de curta duração em que se apresentam dez novos escritores portugueses e a criação de uma colecção de obras de referência da Literatura Portuguesa para ser distribuída no Brasil são algumas das iniciativas que já estão a ser pensadas para celebrar, em 2012, o ano Portugal-Brasil e Brasil-Portugal. Considerando que Fernando Pessoa é o maior embaixador da literatura portuguesa, a ministra da Cultura, Gabriela Canavilhas e o presidente da Câmara de Lisboa, António Costa, assinaram, em Lisboa, um protocolo entre o Ministério da Cultura e a Câmara Municipal. Numa primeira fase é atribuída pela tutela à Casa Fernando Pessoa a verba de 55 mil euros, para que, através da sua directora Inês Pedrosa, seja delineado e executado um programa de iniciativas da celebração de 2012 como o ano de Portugal no Brasil. “A Casa Fernando Pessoa" é o melhor parceiro que nós temos para desenvolver esta política de divulgação da literatura e da língua portuguesa no Brasil”, disse a Ministra da Cultura (fonte:Público)


"Babelia" celebra  MIL SEMANAS de CULTURA                                                                          
Em edição especial Babelia oferece um conjunto de artigos que vai do   “Diálogo Politeísta” entre Umberto Eco e Javier Marías  ao texto inédito de Mario Vargas Llosa sobre a civilização do espectáculo, passando por  Héctor Abad Faciolince a  reflectir sobre literatura, compromisso e moral, por Antonio Muñoz Molina  a explorar  a arte de ler   e a revelar  uma óptima selecção das obras fundamentais editadas ao longo dos vinte anos de Babelia, e por Angel S.Harguindey a fazer o balanço das duas décadas   de trabalho deste suplemento do El País.  Leia mais em : Mil semanas de cultura.



segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

A força do cartoon

 Nesta Segunda-feira invernosa, a nossa edição  restringe-se às  Palavras desenhadas   com rigor criativo  para legendar a actualidade .
Elias o sem abrigo, de R. Reimão e Aníbal F, JN 24/01/2011

Cartoon Bandeira , DN 24 Jan 2011



Cartoon Bandeira, DN Jan.2011


domingo, 23 de janeiro de 2011

"Insensatez" para este Domingo

Recordemos e deleitemo-nos  com os sons , os acordes  e as vozes de Tom Jobim e a sua Banda  na  admirável  canção "Insensatez".



Insensatez

A insensatez que você fez
Coração mais sem cuidado
Fez chorar de dor
O seu amor
Um amor tão delicado
Ah, porque você foi fraco assim
Assim tão desalmado
Ah, meu coração que nunca amou
Não merece ser amado

Vai meu coração ouve a razão
Usa só sinceridade
Quem semeia vento, diz a razão
Colhe sempre tempestade
Vai, meu coração pede perdão
Perdão apaixonado
Vai porque quem não
Pede perdão
Não é nunca perdoado

Composição de Antonio Carlos Jobim / Vinicius de Moraes

Exposição de Eduardo Gageiro

O fotógrafo Eduardo Gageiro tem uma exposição, em Lisboa, com três dezenas de fotografias de figuras públicas nacionais e internacionais dos anos 60 e 70 até ao dia 28 de Janeiro.




Eduardo Gageiro
Foi o fotógrafo português que deu a conhecer ao mundo os acontecimentos dos Jogos Olímpicos de 1972, em Munique e que soube registar momentos marcantes da Revolução de 25 de Abril, como aquele em que, na sede da PIDE, um soldado retira a fotografia de Salazar. Um dos melhores fotógrafos portugueses de sempre. Eduardo Gageiro já recebeu mais de 300 prémios em todo o mundo. Apesar de adepto da modernidade, não dispensa o rolo para preto-e-branco e o cheiro do laboratório. Aprecia paisagens mas gosta, sobretudo, de captar pessoas, o seu olhar e a sua alma.
É um gigante das lentes e um nome incontornável do fotojornalismo português. Eduardo Gageiro nasceu em 16 de Fevereiro de 1935 em Sacavém. Trabalhou na antiga Fábrica da Loiça e foi lá que aprendeu a fotografar. As imagens dos operários foram o mote para que o seu trabalho surgisse de forma humana, incisiva e crítica. Imagens captadas, à saída da fábrica, com uma pequena máquina fotográfica de plástico, emprestada pelo irmão, que ainda guarda de recordação. A primeira fotografia foi publicada no “Diário de Notícias” quando tinha apenas 12 anos.
Foi sempre um autodidacta. Desde cedo conseguiu registar os momentos certos, nas alturas certas, com evidente qualidade. “Alguns amigos emprestaram-me máquinas fotográficas melhores e, com a ajuda de alguns colegas que me iam dando dicas a nível estético e técnico, evoluí bastante”, conta Gageiro, em 2003, em entrevista à revista do Município de Loures. E, como sempre marcou a diferença e a ruptura com o socialmente instituído, alcançou reconhecimento nacional e internacional. O seu primeiro prémio foi conquistado num concurso do Sindicato dos Empregados de Escritório do Distrito de Lisboa, em 1955.
In " Os Grandes Portugueses", RTP
 Ler  mais:Eduardo Gageiro - Os Grandes Portugueses

sábado, 22 de janeiro de 2011

Dia de REFLEXÃO ou de CATARSE?

Circula pelos orgãos de comunicação social a regimentada e imposta ideia de que o dia de hoje é de reflexão por estabelecimento legal. Ora, se atentarmos nos pressupostos que determinam  esta regulação, constataremos que não se adequam aos propósitos daqueles que foram  atordoados durante uma longa jornada pelos ruídos invasores de uma campanha vazia mas agressiva, opaca mas incendiária, pobre mas fátua, torpe mas  virulenta , verborreica mas palavrosa, narcísica mas humilhante,  desagregadora mas redundante.
Que se poderá reflectir sobre esta panaceia imposta? Que a cidadania nos obriga ao  voto? Que para assim votar , teremos de  esquecer o objecto da nossa escolha? Que regressou   o tempo da venda nos olhos? O tempo de uma venda que não é  imposta, que  não é coerciva, mas acintosamente vinculativa porque germinada na ausência de um ideário. Para propalar a REFLEXÃO será  necessário antecipar a CATARSE deste tempo pervertido  em ruinoso  cirandar de figuras propensas ao verniz fulgoroso  do poder presidencial.
Segundo Eduardo Lourenço,  Senancour escreveu uma frase que Unamuno e , mais tarde Camus, consideraram como uma espécie de sésamo às avessas , aquela verdade manifesta e suficiente para fechar de vez a porta escancarada do nosso pânico diante da morte e que se apropria  ao também  actual  pânico perante  este  quadro eleitoral :" O homem é perecível. Admitamo-lo; mas morramos resistindo e se é o nada que nos está reservado, não aceitemos que isso seja justo".
E porque da ausência de ruído também nascem a  poesia  e o silêncio, companheiro expatriado, que ,  neste dia, pretendemos homenagear, transcreve-se um  extraordinário poema de Fernando Echebarria que será um excelente mote para a celebração de todo e qualquer tempo de interioridade .

ABSTRAI-SE O RUIDO, PARA QUE O SILÊNCO
da sua massa de insistência suba.
E arraste consigo o pensamento,
erguendo-os ambos à feliz altura,
de onde ficarmos vendo
não coincide só. Também acusa
fidelidade a quanto jaz. E é objecto
de um ímpeto pungido. Mas em cuja
punção subsiste e age e, até mesmo,
do mais ímo de si se desoculta.
E iça-se de si. Abre o deserto
da sua solidão que, à volta, pulsa
e o reduz a luto tenso
da existência liberta. Resoluta.
E reina, enfim, o pino do silêncio
e o mais feliz da escuta.
Fernando Echevarría, in "Lugar de Estudo",Poesia, Edições  Afrontamento, Porto ,Maio de 2009

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Jorge Amado em "A Morte e a Morte de Quincas Berro D´Agua"

Revisitar a obra de Jorge Amado é  um cerimonial imperfeito porque nunca se completa e requer sempre um recomeço. Tal é a  fecundidade que a atravessa que novas descobertas se propalam incessantemente:  um  texto que se lateralizou, um conto que se preteriu, uma novela que se devorou. Deixámos escapar na força    assombrosa  desta  escrita ímpar  de Jorge Amado,  muita da acuidade que concentramos noutras leituras.  O fascínio encantatório que nos  acomete retém quase muito, mas não tudo,  pelo que nos exige uma (re)visita feita  em recomeço aprazado e ilimitado.
Em  Abril de 1961, no Discurso de tomada de posse na Academia Brasileira , Jorge Amado já não se apresentava sozinho.Trazia consigo uma imensa obra onde pululava um rol de personagens que entrava, então,  pela porta grande partilhando com ele o mesmo fardão, aquele que vestem as   pessoas simples do povo.  Ouçamo-lo:
"Sr. Presidente, Senhores Académicos:
(...)Tenho a alegria de ter conservado jovem o coração, por não ter rompido jamais a unidade entre minha vida e minha obra, e por ter a certeza de que jamais a romperei.E quando aqui chego, chegam a esta casa, a esta tribuna, vestindo este fardão, pessoas simples do povo, aqueles meus personagens, pois é por suas mãos que aqui ingresso. Vêm mestres de saveiros e pescadores. Mestre Manuel, Maria Clara, Lívia e Guma, e sua ansiosa espera da morte no mar; vêm negros e mulatos, pai-de-santo Jubiabá e o negro Balduíno, Rosenha Rosedá e o Gordo, vêm as crianças abandonadas, os capitães da areia, trabalhadores dos campos de cacau e rudes coronéis de repetição em punho; vêm o rei das gafieiras da Bahia, Quincas Berro D'água, a mulata Gabriela feita de cravo e de canela, e o comandante Vasco Moscoso de Aragão, que amava sonhar e comandava os ventos. Gente simples do povo, não sou mais de que ele, e se os criei, eles me criaram também e aqui me trouxeram. Porque eles são o meu povo e a vida que tenho vivido ardentemente(...)". Jorge Amado, Abril de 1961
"A Morte e a Morte de Quincas Berro D´Agua" inclui-se nessa galeria onde se agita o povo porque com gente do povo foi construida. É uma das mais belas novelas de Jorge Amado . Conta a história fantástica da morte de Quincas Berro D' Água, antigo e respeitável Joaquim Soares da Cunha, de boa família, exemplar funcionário  da Mesa de Rendas Estadual , que abandonou um dia uma modelar e pacata existência  e se fez o rei das gafieiras da Bahia .  Foi considerada uma obra-prima por Vinicius de Moraes, como denotam as suas palavras: " Saí da leitura dessa extraordinária novela, eu, que andava no maior fastio da literatura, com a mesma sensação que tive, e que nunca mais se repetiu, ao ler os grandes romances e novelas dos mestres russos do século XIX, Pushkin, Dostoievski, Tolstoi, Gogol especialmente. Uma sensação de bem-estar físico e espiritual como só dão os prazeres do copo e da mesa quando se está com sede ou fome  e os da cama quando se ama. Ela representa, dentro da novelística brasileira, onde já há cimos consideráveis, um cume máximo."
Hoje é o  tal dia aprazado para  honrar  esta novela de Jorge Amado,  pelo que se transcreve  um pequeno  excerto:

"(...) Tantas testemunhas idóneas , entre as quais Mestre Manuel e Quitéria de Olho Arregalado , mulher de uma só palavra , e, apesar disso, há quem negue toda e qualquer  autenticidade  não só à admirada frase mas a todos os acontecimentos  daquela noite memorável , quando, em hora duvidosa  e em condições discutíveis , Quincas Berro D' Água  mergulhou no mar da Baía e viajou para sempre , para nunca mais voltar.
(...)  Suspenderam as velas do saveiro, puxaram a grande  pedra que servia de âncora. A Lua fizera do mar um caminho de prata, ao fundo recortava-se na montanha a cidade negra da Baía. O saveiro foi-se afastando devagar. A voz de Maria Clara elevou-se num canto marinheiro:
                                     No fundo do mar te achei
                                     toda vestida  de conchas...

(...)Mestre Manuel avisou:
 - Vai ser noite de temporal, é melhor voltar.
Pensava ele trazer o saveiro para o cais antes que caísse a tempestade. Era, porém , amável a cachaça, gostosa a conversa , havia ainda muita arraia no caldeirão, boiando no amarelo, do azeite de dendê, e a voz  de Maria Clara dava uma dolência , um desejo de demorar nas águas. Ao demais , como interromper o idílio de Quincas e Quitéria naquela noite de festa?
Foi assim que o temporal , o vento uivando, as águas encrespadas, os alcançou em viagem. As luzes da Baía brilhavam na distância , um raio rasgou a escuridão. A chuva começou  a cair. Pitando seu cachimbo, Mestre Manuel ia ao leme.
Ninguém sabe como Quincas se pôs de pé , encostado à vela menor. Quitéria não tirava os olhos apaixonados da figura do velho marinheiro, sorridente para as ondas a lavar o saveiro , para os raios  a iluminar o negrume. Mulheres e homens  se seguravam às cordas, agarravam-se às bordas do saveiro, o vento zunia, a pequena embarcação ameaçava soçobrar a cada momento. Silenciara a voz de  Maria Clara, ela estava junto do seu homem na barra do leme.
Pedaços de mar lavavam o barco, o vento tentava romper as velas. Só a luz do cachimbo de mestre Manuel persistia, e a figura de Quincas, de pé, cercado pela tempestade, impassível e majestoso, o velho marinheiro. Aproximava-se o saveiro lenta e deficilmente das águas mansas do quebra-mar. Mais um pouco e a festa recomeçaria.
Foi quando cinco raios sucederam-se no céu, a trovoada reboou num barulho de fim do mundo, uma onda sem tamanho levantou o saveiro. Gritos escaparam das mulheres e  dos homens, a gorda Margô exclamou:
- Valha-me Nossa Senhora!
No meio do ruído, do mar em fúria, do saveiro em perigo à luz dos raios, viram Quincas atirar-se e ouviram sua frase derradeira.
Penetrava o saveiro nas águas calmas do quebra-mar, mas Quincas ficara na tempestade, envolto num lençol de ondas e espuma, por sua própria vontade.
(...) Quanto à frase derradeira , há versões variadas. Mas quem poderia ouvir direito no meio daquele temporal? Segundo um trovador do Mercado passou-se assim:

                                      No meio da confusão
                                      ouviu-se Quincas dizer:
                                      " - Me enterro como entender
                                      na hora que resolver.
                                      Podem guardar seu caixão
                                      para melhor ocasião.
                                      Não vou deixar me prender
                                      em çova rasa no chão."
                                      E foi impossível saber
                                      o resto de sua oração.
                                                                            Rio, Abril de 1959"
Jorge Amado, in " A Morte e a Morte de Quincas Berro D' Água", Publicações Europa- América, Mira-Sintra, Mem Martins, Junho de 1978

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Brasil sofrido

A devastação e a dor tomaram conta do Brasil. Muito pouco ficou incólume  nas  zonas montanhosas do Rio de Janeiro, após a fúria imbatível das chuvas. Os aluimentos transformaram o que Deus e o Homem construiram num pedaço de destroços que fere os olhos e o coração de todos nós.
" Minha mãe fica chorando"- diz uma criança de 9 anos naquilo que resta de Campo Grande,onde subjazem mais de mil pessoas.



(Imagens dos Enviados da SIC que foram a Campo Grande, a localidade mais afectada pelas enxurradas no Brasil.)

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

PALAVRAS


Andam palavras na noite

Andam palavras na noite
Cansadas de me chamar.
Trago os meus lábios salgados
E algas no paladar.

Eu sou um grande oceano
Que só fala a voz do mar!
Mas já sinto o mar cansado
De pedir o luar ao céu
Que a noite não lhe quer dar!
Natália Correia

«Não só os sentimentos criam palavras, também as palavras criam sentimentos.(…) São a vida e quase toda a vida – a razão e a essência desta barafunda. É com palavras que construímos o mundo. (…) Mas agora  que os valores mudaram, de que nos servem estas palavras? É preciso criar outras, empregar outras, obscuras, terríveis, em carne viva, que traduzam a cólera, o instinto e o espanto.»
 Raul Brandão

«Ces mots durs et noirs,  je n’ en ai connu le sens que dix ou quinze ans plus tard et, même aujourd’hui, ils gardent leur opacité : c’est l’humus de ma mémoire. »
Jean Paul Sartre

“Não pode dizer-se de língua alguma que ela é uma invenção do povo que a fala. O contrário seria mais exacto. É ela que o inventa. A língua portuguesa é menos a língua que os Portugueses falam do que a voz que fala os Portugueses.”
“Uma língua não é de ninguém, mas nós não somos ninguém sem uma língua que fazemos nossa. É neste sentido, e unicamente neste sentido – longe das identificações narcisistas dos nacionalismos culturais -, que uma língua é, como pensava Pessoa, a nossa verdadeira pátria. A esse título, habitá-la, defendê-la, da única maneira criadora tolerável, o que a torna cúmplice dos nossos desejos e dos nossos sonhos de imortalidade humana, nem é mesmo um dever, mas a natural respiração de uma cultura que tem nela a sua matéria e a sua forma. Ou melhor, a alma da sua alma.” 
Eduardo Lourenço, in "A Nau de Ícaro seguido de Imagem e Miragem da Lusofonia", Editora Gradiva

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Caderno de Poesia


ESTO ES SENCILLO

Muda es la fuerza ( me dicen los árboles)
y la profundidad ( me dicen las raíces)
y la pureza ( me dice la harina).

Ningún árbol me dijo:
"Soy más alto que todos".

 Ninguna raíz me dijo:
" Yo vengo de más hondo".

Y nunca el pan ha dicho:
" No hay nada como el pan".

Pablo Neruda, " Las Manos del Día, 1968" in "Antologia Poética", Editora Sabiá Ltda., Rio de Janeiro, 1968

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Cesar Vallejo, poeta peruano

“Cesar Valejjo ,1892-1938, cuja poesia foi desprezada por seus contemporâneos, é tido hoje como o maior poeta peruano de todos os tempos e talvez a figura mais proeminente da poesia hispano-americana depois de Pablo Neruda, o qual declarou que a poesia de Vallejo era maior que sua própria poesia.(...) Em 1932 filia-se no Partido Comunista Espanhol e regressa a Paris onde vive na clandestinidade, organizando, posteriormente, com Neruda, a coleta de fundos para a causa republicana na guerra civil espanhola. Em 1937 volta pela última vez à Espanha para participar do Congresso Internacional de Escritores Antifascistas, e talvez porque sua precária saúde o impedisse de empunhar um fuzil para defendê-la, escreve seu grande poema político: España, aparta de mí este cáliz, que deu título ao livro de quinze poemas, publicado postumamente, em 1939, como um verdadeiro testamento poético, por sua viúva, Georgette Vallejo.” Manoel de Andrade, in “Cesar Vallejo:Um coração dividido"

PEDRA NEGRA SOBRE PEDRA BRANCA
Morrerei em Paris com aguaceiros
num dia de que já tenho a lembrança.
Morrerei em Paris - daqui não saio -
numa quinta-feira, como hoje, de outono.
Quinta-feira será, pois hoje, quinta-feira,
em que estes versos proso, dei os úmeros
à pouca sorte, e nunca como hoje
voltei,com todo o meu caminho, a ver-me só.
Morreu César Vallejo, espancavam-no
todos sem que lhes fizesse nada;
davam-lhe forte com um pau e forte
com uma corda também; são testemunhos
as quintas-feiras e os ossos úmeros,
a solidão, os caminhos, a chuva...

POEMA PARA SER LIDO E CANTADO
Sei que há uma pessoa
que, dia e noite, me busca em sua mão,
encontrando-me, a cada minuto, em seu calçado.
Ignora que a noite está enterrada
atrás da cozinha com esporas?
Sei que há uma pessoa composta de minhas partes,
que eu completo sempre que o meu vulto
cavalga sua exacta pedrazinha.
Ignora que ao seu cofre
não voltará nenhuma moeda que saiu com seu retrato?
Sei o dia,
mas o sol escapou-me;
sei o acto universal que fez na cama
com alheia coragem e essa água morna, cuja
superficial frequência é uma mina.
Tão pequena é, acaso, essa pessoa
que até seus próprios pés assim a pisam?
Um gato é a fronteira entre eu e ela,
mesmo ao lado de sua malga de água.
Vejo-a pelas esquinas, abre e fecha
sua veste, antes palmeira interrogante...
que poderá fazer senão mudar de pranto?
Mas ela busca-me, busca-me. É uma história!

UM HOMEM PASSA COM UM PÃO AO OMBRO
Um homem passa com um pão ao ombro
- Vou escrever, depois, sobre o meu duplo?
Outro senta-se, coça-se, tira um piolho do sovaco, mata-o
- Com que desplante falar da Psicanálise?
Outro entrou em meu peito com um pau na mão
- Falar, em seguida, de Sócrates ao médico?
Um coxo passa dando o braço a um menino
- Vou, depois, ler André Breton?
Outro treme de frio, tosse, cospe sangue
- Convirá não aludir jamais ao Eu profundo?
Outro busca no lodo ossos e cascas
- Como escrever, depois, sobre o infinito?
Um pereiro cai de um telhado, morre, já não almoça
- Inovar, em seguida, a metáfora, o tropo?
Um comerciante rouba um grama no peso a um freguês
- Falar, depois, da quarta dimensão?
Um banqueiro falsifica o seu balanço
- Com que cara chorar no teatro?
Um pária dorme com um pé às costas
- Falar, depois, a ninguém de Picasso?
Alguém vai num enterro a soluçar
- Como em seguida ingressar na Academia?
Alguém limpa uma espingarda na cozinha
- Com que desplante falar do mais além?
Alguém passa a contar pelos dedos
- Como falar do não-eu sem dar um grito?

César Vallejo,in “ Antologia Poética de César Vallejo” , Editora Relógio D´Água,Lisboa 1992

 ESPANHA, AFASTA DE MIM ESTE CÁLICE
España, aparta de mi este cáliz,  aparece em 1939 impresso por soldados do exército republicano)

Crianças do mundo,
se a Espanha cai – digo só por dizer –
se cai
do céu abaixo seu antebraço que amarrem
pelo cabresto duas lâminas terrestres;
crianças, que idade a das frontes côncavas!
Como é cedo no sol que vos dizia!
Que veloz o ruído antigo em vosso peito!
No caderno que velho é o vosso 2!

Crianças do mundo, está
a mãe Espanha com o seu ventre às costas;
está nossa mestra com suas palmatórias,
está mãe e mestra,
cruz e madeira, porque vos deu a altura,
vertigem e divisão e soma, crianças;
ela está com ela, pais processuais!

Se cai – digo só por dizer – se cai
a Espanha, da terra para abaixo,
crianças, como cessareis de crescer!
Como o ano vai castigar o mês!
Como os dentes se reduzirão a dez,
a garatujas o ditongo, o pranto a medalha.
Como vai o cordeirinho continuar
preso pela pata ao grande tinteiro!
Como descereis as grades do alfabeto
até a letra em que a pena nasceu!

Crianças
filhos dos guerreiros, entretanto,
baixai a voz, que a Espanha está neste momento repartindo
a energia entre o reino animal,
as florezinhas, os cometas e os homens.
Baixai a voz, que está
com o seu rigor, que é grande, sem saber
o que fazer, e está em sua mão
a caveira falando e fala e fala,
a caveira, aquela que tem tranças,
a caveira da vida.

Baixai a voz, vos digo:
baixai a voz, o canto das sílabas, o pranto
da matéria e o rumor menor das pirâmides, e ainda
o das frontes que andam com duas pedras!
Baixai a respiração, e se
o antebraço desce,
se as férulas soam, se é a noite,
se cabe o céu em dois limbos terrestres,
se há ruído no som das portas,
se eu tardo,
se não vedes ninguém, se vos assustam
os lápis sem ponta, se a mãe
Espanha cai – digo só por dizer –
crianças do mundo, andai, a procurá-la

Tradução de Gilfrancisco Santos

Leia mais em  CESAR VALLEJO: Um coração dividido (1) – por Manoel de Andrade