quarta-feira, 30 de junho de 2010

Os ombros suportam o Mundo


Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.


Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.


Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espectáculo,
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.

Carlos Drummond de Andrade, in "Sentimento do Mundo", Irmãos Pongetti - Rio de Janeiro, 1940

terça-feira, 29 de junho de 2010

Le petit Prince

Celebra-se hoje o 110º aniversário do nascimento de Antoine de Saint Exupéry. Tendo escrito esse célebre e profundo livro, tornou-se ele próprio le prince intemporal. Cativou o Mundo pelo que a melhor homenagem a prestar-lhe, será sempre através das palavras que nos legou porque criaram laços.

domingo, 27 de junho de 2010

I Say A Little Prayer

A excelente musicalidade de Aretha Franklin em actuação no " Cliff Richard Show ", em 1970.

sábado, 26 de junho de 2010

Festival ao Largo 2010

O Festival ao Largo volta a animar Lisboa, realizando ao ar livre, no Largo do S. Carlos, 29 espectáculos de música sinfónica, coral-sinfónica e dança, entre 26 de Junho e 26 de Julho de 2010.
Os espectáculos realizam-se em dois horários diferentes - às 19h00 e às 22h00. A programação é muito rica, apresentando uma grande variedade em que se regista a participação da Companhia Nacional de Canto e Dança de Moçambique (CNCDM), as actuações de seis orquestras nacionais - Orquestra Sinfónica Portuguesa, a Orquestra Gulbenkian, a Orquestra Metropolitana de Lisboa, a Orquestra do Algarve, a Orquestra Divino Sospiro e a Orquestra Sinfónica Juvenil.As participações corais-sinfónicas são variadas tais como o Coro do TNSC, o Coro Gulbenkian, Camerata Vianna da Motta, Lusitania Ensemble, Jovens Vozes de Lisboa, etc..
«Em Moçambique o Sol Nasceu» de David Abílio é o espectáculo que abre hoje o Festival. Trata-se de uma rapsódia de danças tradicionais moçambicanas a cargo da Companhia Nacional de Canto e Dança de Moçambique.
Segundo o DN Artes "As propostas ilustram a vocação generalista do Festival, abrangendo desde as referidas dança e música tradicional moçambicanas até ao bailado contemporâneo, passando pela ópera italiana (Verdi, Donizetti, Mozart) e repertório erudito de concerto (p. ex. um programa Tchaikovsky dirigido por Joana Carneiro), opereta vienense e musical da Broadway, fado e tango, música brasileira e vilancicos do século XVII. E ainda uma homenagem à grande declamadora e encenadora Germana Tânger (hoje com 90 anos), com a participação da própria (dia 15 de Julho)."

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Dois Rumos


Mentir, eis o problema:
minto de vez em quando
ou sempre, por sistema?

Se mentir todo dia,
erguerei um castelo
em alta serrania

contra toda escalada,
e mais ninguém no mundo
me atira seta ervada?

Livre estarei, e dentro
de mim outra verdade
rebrilhará no centro?

Ou mentirei apenas
no varejo da vida,
sem alívio de penas,

sem suporte e armadura
ante o império dos grandes,
frágil, frágil criatura?

Pensarei ainda nisto.
Por enquanto não sei
se me exponho ou resisto,

se componho um casulo
e nele me agasalho,
tornando o resto nulo,

ou adiro à suposta
verdade contingente
que, de verdade, mente.

Carlos Drummond de Andrade, in 'Boitempo'

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Era assim há 140 anos

A multa municipal para o lirismo sentimental
por Eça de Queiroz
XI
No folhetim do Diário Popular de 24 de Junho lêem-se notáveis considerações de ordem moral. São em verso. O poeta dirige-se, na sua declamação solitária, a uma mulher.
Numa prosa anterior (prelúdio) escreve que a missão da arte é ensinar a amar (!) — e que na arte não entra realidade, justiça ou moral pública porque (acrescenta) a arte nada tem com os direitos civis. Colocado assim à larga, na anarquia da voluptuosidade e do lirismo, aí está o que o poeta expõe e ensina num jornal popular, com uma tiragem de 20.000 exemplares, que anda por cima das mesas e nos cestos de costura!
Começa por dizer:
— Que é bom amar no campo, à tarde e a sós!
Depois continua:
— Que prefere o campo, porque nas salas do mundo não lhe é dado beijar a mão dela às largas! Que o campo é livre e as sombras dão refúgio!....
Por fim acrescenta:
— Que queria que os raios cintilantes os cingissem a ele só com ela, erguidos em êxtase, longe de quanto é vil...
(Quanto é vil, na gíria da poesia lírica, é o mundo real, a família, o trabalho, as ocupações domésticas, etc.).
Dispensamo-nos de citar mais estrofes lascivas.
Aquelas bastam para legitimar as seguintes observações:
Nenhum jornal publicaria semelhantes teorias em prosa;
Nenhum homem que as escrevesse ousaria lê-las a sua filha, sem gaguejar, e sem comer palavras;
Nenhuma senhora que por acaso as tivesse lido ousaria citá-las.
Como se consente então a sua publicação em verso? A higiene não é só a regularização salutar das condições da vida física; nela devem também entrar os factos da moralidade. Se é proibido que um monturo imundo ou um cão morto corrompam o ar respirável das ruas — porque há-de ser permitido que um poeta, com as suas endechas podres, perturbe o pudor e a tranqüilidade virgem?
Há uma postura da Câmara que impõe uma multa a quem pronuncia palavras desonestas: porque não há-de ser igualmente proibido publicar idéias desonestas?
Um ébrio, um pobre homem a quem se não deu educação, a quem se não pode dar leitura, a quem quase se não dá trabalho, diz uma praga numa rua, ouvida apenas de três ou quatro pessoas, e vai para a cadeia ou paga uma multa de 3$000 réis. Um poeta lírico, esclarecido, aprovado nos seus exames, empregado nas secretarias, publica num jornal de cinqüenta mil leitores em letra impressa, permanente e indelével, uma série de desonestidades, e é apreciado, cumprimentado no Martinho, indigitado para uma candidatura!
Pedimos pois:
Ou que seja permitido livremente dizer na rua e no jornal pragas e desonestidades;
Ou que a multa da Câmara Municipal seja aplicada a todos — e que tanto o ébrio que não sabe o que diz à esquina de uma rua, como o poeta lírico que escreve, com reflexão e rascunho duma semana, ao canto dum jornal, paguem os 3$000 réis à Câmara, um pela sua praga, outro pela sua endecha.
Julho de 1871
Eça de Queiroz , in " Campanha Alegre ", Lello & Irmão - Editores , Porto, Volume I, Pags. 85-87

terça-feira, 22 de junho de 2010

O Verão de Vivaldi

O original e talentoso filme de Animação de Ferenc Cakó, tendo como fundo musical, " Verão" de Vivaldi, da obra " Quatro Estações".


segunda-feira, 21 de junho de 2010

Começou o Verão

Stonehenge reuniu esta madrugada cerca de 20 mil pessoas para ver o Sol nascer em perfeita exactidão sob a pedra principal . Celebra-se o solstício de Verão, o dia mais longo do ano e para que assim o seja, o Sol nasceu às 04h52 locais.
Por cá, o Verão também se iniciou sem espectadores noctívagos, sem festividade, apenas com a embriaguez do Futebol que vai embaciando a visibilidade do Futuro que nos espera.

domingo, 20 de junho de 2010

A poesia de Saramago



Espaço curvo e finito

Oculta consciência de não ser,
Ou de ser num estar que me transcende,
Numa rede de presenças e ausências,
Numa fuga para o ponto de partida:
Um perto que é tão longe, um longe aqui.
Uma ânsia de estar e de temer
A semente que de ser se surpreende,
As pedras que repetem as cadências
Da onda sempre nova e repetida
Que neste espaço curvo vem de ti.


Science-fiction I


Talvez o nosso mundo se convexe
Na matriz positiva doutra esfera.

Talvez no interspaço que medeia
Se permutem secretas migrações.

Talvez a cotovia, quando sobe,
Outros ninhos procure, ou outro sol.

Talvez a cerva branca do meu sonho
Do côncavo rebanho se perdesse.

Talvez do eco dum distante canto
Nascesse a poesia que fazemos.

Talvez só amor seja o que temos,
Talvez a nossa coroa, o nosso manto.

Julieta a Romeu

É tarde, amor, o vento se levanta,
A escura madrugada vem nascendo,
Só a noite foi nossa claridade.
Já não serei quem fui, o que seremos
Contra o mundo há-de ser, que nos rejeita,
Culpados de inventar a liberdade.


Romeu a Julieta

Eu vou, amor, mas deixo cá a vida,
No calor desta cama que abandono,
Areia dispersada que foi duna.
Se a noite se fez dia, e com a luz
O negro afastamento se interpõe,
A escuridão da morte nos reúna.

José Saramago, in "Os Poemas Possíveis", Lisboa - Editorial Caminho, 1981, 3ª edição

A leitura, um prazer supremo

Mario Vargas Llosa, numa entrevista ao jornal" El Pais", em 6/09/2007, confessou o seguinte: "La lectura para mí ha sido, y sigue siendo, el placer supremo"(...) «Una persona que lee, y que lee bien, disfruta muchísimo mejor de la vida, aunque también tiene más problemas frente al mundo.» "Las mejores cosas en la vida me han sucedido leyendo", continua. "Mi vocación no se habría despertado si no me hubiera fascinado hasta tal punto el universo de la fantasía literaria que descubrí a los cinco años, en Cochabamba (Bolivia), con mis primeros libros. Recuerdo cómo se enriqueció y creció la realidad gracias a las lecturas."
O escritor assegura que "la libertad humana es un producto de la imaginación y de los deseos atizados, inseminados por las buenas lecturas". "Somos mucho más libres cuanto más y mejor leemos", sentencia. "Por eso es imprescindible si se quiere tener una sociedad democrática, con ciudadanos activos, que participan, que intervienen no sólo en el debate público, sino en la marcha de lo que es la civilización. Y es la razón por la que la lectura no es un mero placer o entretenimiento sino un instrumento básico en la formación de un ciudadano libre, moderno, participante. La literatura es una expresión de todo ello."

sexta-feira, 18 de junho de 2010

José Saramago: A Consistência dos Sonhos

Morreu José Saramago

José Saramago morreu hoje com 87 anos, em Lanzarote, nas Ilhas Canárias. Nasceu em Azinhaga do Ribatejo, Golegã, em 16 de Novembro de 1922. Foi prémio Nobel da Literatura, em 1998.
De acordo com a sua biografia exerceu diversas profissões desde serralheiro mecânico que foi o seu primeiro emprego, a desenhador, funcionário da saúde e da previdência social, tradutor, editor, jornalista e finalmente escritor maior a tempo inteiro.
"Terra do Pecado" foi o primeiro romance que publicou, em 1947, mas foi com a publicação de "Memorial do Convento", em 1982, que a sua obra ganhou relevo e fama .
Utilizando Blimunda, personagem magicamente extraordinária desse grandioso romance "que vibra entre a elevação e a queda, entre a vida e a morte" repetem-se, aqui e agora, as suas profundas palavras, em jeito de homenagem ao seu autor: "(...) a morte vem antes da vida, morreu quem fomos, nasce quem somos, por isso é que não morremos de vez, (...)." Assim acontecerá com José Saramago. Até sempre.

Cousteau nasceu há cem anos


Jacques-Yves Cousteau nasceu em Saint André de Cubzac, no dia 11 de Junho de 1910 e faleceu em Paris, no dia 25 de Junho de 1997. Ao longo da sua vida converteu-se num meritoso oceanógrafo, admirado mundialmente, apresentando-nos sucessivamente inúmeros filmes realizados sobre o mundo subquático que explorava a bordo do seu barco Calypso. Revolucionou o material de mergulho , criando um equipamento leve que permitia aos mergulhadores flutuar e lhes concedia autonomia.
Foi com esse novo equipamento que realizou o filme "O Mundo do Silêncio" que lhe valeu a a Palma de Ouro do Festival de Cannes, em 1956.
As estantes de muitas casas como a minha, apresentam a sua valiosa obra, "O Mundo Submarino", que nos fez e faz conhecer às novas gerações esse prodigioso mundo que ele tão bem explorou. Jacques Yves Cousteau foi um grande ambientalista, profundo amante dos mares, que perdurará na memória colectiva como um dos maiores exploradores marítimos.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Hoje é o dia de Beckett e de Joyce no Festival do Silêncio


De 16 a 26 de Junho, os palcos do Musicbox Lisboa, do Instituto Franco-Português, do Goethe-Institut Portugal, do Teatro Maria Matos e do Cinema Nimas, irão receber inúmeros músicos, actores, jornalistas, realizadores e escritores portugueses e estrangeiros num festival que convida a descobrir talentos emergentes bem como nomes já consagrados de artistas que trabalham em torno da palavra dita. Lisboa, cidade candidata a Capital Mundial do Livro em 2013 e marcada pelo multilinguismo e pelo multiculturalismo, acolhe uma vez mais este evento internacional que divulga em terras lusas a literatura no seu cruzamento com as diferentes artes e se insere na rota dos grandes festivais literários contemporâneos.
Rodrigo Leão, José Luís Peixoto, Olivier Rolin, Adolfo Luxúria Canibal, Rogério Samora, JP Simões, Francisco José Viegas, Sam the Kid, Jorge Silva Melo, DJ Ride, Filipe Vargas, John Banzai, Mark-Uwe Kling, Maria João Seixas e Alex Beaupain são alguns dos participantes neste festival internacional — organizado em parceria pela editora 101 Noites, MusicBox, Goethe-Institut Portugal e Instituto Franco-Português.
Na programação encontram-se espectáculos, leituras, conversas, lançamentos de livros e muito mais. Hoje, os mundos de Beckett e James Joyce unem-se no recital apresentado por Graça Lobo, Virgílio Castelo e Jorge Silva Melo (Instituto Franco-Português, 21.30, entrada livre). Amanhã, a escritora e contadora de histórias francesa Muriel Bloch dará uma palestra na qual ensinará a contar histórias baseadas na sua experiência pessoal (anfiteatro II da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, 18.00). A noite pertence a JP Simões e Ursula Rucker (a partir das 23.00, no MusicBox).
No Sábado, o Largo de São Paulo irá ser palco de um campeonato de scrabble (17.00). Na programação, destaque ainda para as várias "Conversas do Silêncio", no Instituto Franco-Português. No dia 23, por exemplo, porão frente a frente Alberto Manguel e Francisco José Viegas (21.30), e no dia 24 Saul Williams, um dos precursores do movimento slam, não só dará uma master class (Faculdade de Letras, 18.00) com os portugueses Kalaf (Buraka Som Sistema) e José Luís Peixoto (21.30). A encerrar, há um concurso de poesia "à desgarrada" (poetry slam), no MusicBox. E depois o silêncio.

Informações recolhidas no Site do Festival e no DN de 16/06/10

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Ainda o ódio no mundo



Há trinta e oito anos, no dia 30 de Janeiro de 1972, soldados paraquedistas britânicos abriram fogo sobre uma multidão de católicos irlandeses, em Londonderry, que se manifestava contra a diminuição dos seus direitos cívicos. Foram mortas treze pessoas, vindo posteriormente a falecer uma outra no hospital. Esse trágico dia ficou conhecido como " Bloody Sunday".
A Irlanda do Norte foi durante imensos anos o campo de sangrentos incidentes por rivalidades de cariz religioso. O Governo britânico oficial e vincadamente protestante não promovia a paz, provocando pela redução de direitos aos católicos a animosidade e a guerrilha.
No dia em que o relatório sobre o "Bloody Sunday" foi concluido e divulgado, David Cameron declarou na Câmara dos Comuns que os soldados ingleses atacaram sem qualquer razão para o fazer. Não existiam armas entre os manifestantes como fora, então, divulgado para justificar o sangrento ataque. "O que se passou é injustificado e injustificável. Estou profundamente desolado. O que se passou não deveria nunca ter-se passado."- acrescentou ainda.
Os familiares das vítimas, que estavam em manifestação na Irlanda do Norte, regozijaram-se com o resultado do relatório e com as palavras do Primeiro Ministro britânico.
Tony Doherty, cujo pai faleceu nesse ataque, afirmou : " A partir de agora, pode-se proclamar ao mundo que os mortos e os feridos do " Bloody Sunday" estavam inocentes. Foram abatidos pelas balas dos soldados aos quais tinham feito acreditar que podiam matar impunemente."
O ódio no mundo sempre grassou ainda que por razões que nem o coração entende. Erradicá-lo e implantar a PAZ é apenas utopia.

terça-feira, 15 de junho de 2010

O ódio no mundo

Os conflitos étnicos no Quirquistão provocaram uma chocante crise humanitária que é deveras preocupante. Mais de 100.000 pessoas, na maioria mulheres , refugiaram-se no país vizinho, o Uzbequistão, que já encerrou as fronteiras por ser incapaz de acolher tantos refugiados.
António Guterres, o Alto Comissário das Nações Unidas para os Refugiados, declarou, hoje, em Berlim, que o século XXI "será o século das pessoas em fuga". O mundo actual tem tendências que "agudizam situações de conflito e obrigam as pessoas a abandonar as suas pátrias", avisou também.
O Quirquistão exemplifica de imediato esta afirmação. Estes refugiados foram vítimas de violência, ou tentando evitá-la, viram-se obrigados a fugir das suas casas, do seu país. Agora, os que são impossibilitados de fugir pelo encerramento das fronteiras, talvez sucumbam ao ódio étnico dos seus compatriotas. O nosso mundo continua a ser incompreensivelmente intolerante e cruel.

Águas de Março


É pau, é pedra, é o fim do caminho
É um resto de toco, é um pouco sozinho
É um caco de vidro, é a vida, é o sol
É a noite, é a morte, é o laço, é o anzol

É peroba do campo, é o nó da madeira
Caingá, candeia, é o MatitaPereira
É madeira de vento, tombo da ribanceira
É o mistério profundo, é o queira ou não queira

É o vento ventando, é o fim da ladeira

É a viga, é o vão, festa da cumeeira
É a chuva chovendo, é conversa ribeira
Das águas de março, é o fim da canseira

É o pé, é o chão, é a marcha estradeira
Passarinho na mão, pedra de atiradeira
É uma ave no céu, é uma ave no chão
É um regato, é uma fonte, é um pedaço de pão

É o fundo do poço, é o fim do caminho
No rosto o desgosto, é um pouco sozinho
É um estrepe, é um prego, é uma ponta, é um ponto
É um pingo pingando, é uma conta, é um conto

É um peixe, é um gesto, é uma prata brilhando
É a luz da manhã, é o tijolo chegando
É a lenha, é o dia, é o fim da picada
É a garrafa de cana, o estilhaço na estrada

É o projeto da casa, é o corpo na cama
É o carro enguiçado, é a lama, é a lama
É um passo, é uma ponte, é um sapo, é uma rã
É um resto de mato, na luz da manhã

São as águas de março fechando o verão
É a promessa de vida no teu coração

É uma cobra, é um pau, é João, é José
É um espinho na mão, é um corte no pé

São as águas de março fechando o verão,
É a promessa de vida no teu coração

É pau, é pedra, é o fim do caminho
É um resto de toco, é um pouco sozinho
É um passo, é uma ponte, é um sapo, é uma rã
É um belo horizonte, é uma febre terçã

São as águas de março fechando o verão
É a promessa de vida no teu coração
pau, pedra, fim, caminho
resto, toco, pouco, sozinho
caco, vidro, vida, sol, noite, morte, laço, anzol

São as águas de março fechando o verão
É a promessa de vida no teu coração.

Tom Jobim

A grande Elis Regina cantando e imortalizando a poesia e a música de Tom Jobim.

domingo, 13 de junho de 2010

A pobre realidade portuguesa em Cartoon

Cravo e Ferradura


Cartoon Bandeira , in" Diário de Notícias " de 10 de Junho de 2010

O que há em mim é sobretudo cansaço



O que há em mim é sobretudo cansaço
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.

A subtileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto em alguém,
Essas coisas todas —
Essas e o que falta nelas eternamente —;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.

Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada —
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...

E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço,
Íssimo, íssimo, íssimo,
Cansaço...

Álvaro de Campos, 9-10-1934, in "Poesias" de Álvaro de Campos, Fernando Pessoa, Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993)

sábado, 12 de junho de 2010

How am I supposed to live without you

Michael Bolton interpretando uma melodiosa canção no estilo inconfundível que lhe é peculiar.

O Acordo Ortográfico


O Ministério da Educação propõe-se implantar o Acordo Ortográfico nas Escolas Portuguesas em 2011. Que esperar dessa promoção? A correcção ortográfica ou o desnorte referencial da Língua? Enfim, muitos elefantes brancos têm saído do ME nestes últimos anos. Será mais um que marcará irremediavelmente o País ?
Recordemos algumas opiniões sobre esta matéria.
«O Acordo é uma penumbra que vai cair sobre a língua portuguesa.»
Paulo Gonçalves, Porto Editora, Público (Lusa) 21/4/2008.

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«Nunca foram meia dúzia de consoantes mudas — como nas formas lusitanas “adopção” e “óptimo” — que constituíram barreira à intercomunicabilidade entre leitores e escritores dos dois lados do Atlântico. [...] Se há empecilhos à boa compreensão entre falantes do Brasil, de Portugal e de países africanos e asiáticos (não nos esqueçamos de Timor Leste), eles estão na escolha do léxico e no uso de expressões locais, felizmente ao abrigo da sanha legiferante de dicionaristas e parlamentares.»
«Ao contrário, [a reforma] irá apenas criar o incômodo de exigir de alguns milhões de usuários que percam algum tempo para aprender as novas regras cuja arbitrariedade só não é superada pela inutilidade. Se há algo a ser eliminado, não são acentos e hifens, mas a estultícia de burocratas.»
Hélio Schwartsman, “Reforma estúpida”, 23/8/2007


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Reforma ortográfica: mais custos que benefícios
Artigo de Thaís Nicoletti de Camargo
Jornal Folha de S. Paulo, 22/04/2009

A reforma ortográfica apoia-se num documento lacunar e numa obra de referência marcada pela hesitação e pela inconstância de critérios.
MUITO JÁ se falou sobre o Novo Acordo Ortográfico. A frouxidão de argumentos que embasaram a sua implantação, como a suposta necessidade de unificar a grafia da língua portuguesa nos países em que é o idioma oficial, em favor do estímulo ao intercâmbio cultural entre as nações lusófonas e da simplificação de documentos oficiais, já foi suficientemente denunciada.
É certo que o intercâmbio cultural entre os países da chamada "lusofonia" é algo positivo, mas o que pode fomentá-lo são antes políticas de incentivo que a supressão de hifens ou de acentos, cujo resultado prático é apenas anular diferenças sutis que nunca impediram a compreensão dos textos escritos do lado de cá ou do lado de lá do Atlântico.
Se o uso do vocabulário e das estruturas sintáticas, os diferentes significados que alguns termos assumem em cada país, o leque de referências culturais que dão à língua sua feição local, para não falar na concorrência de outros idiomas (no caso das nações africanas e do Timor Leste), são obstáculos relativamente pequenos ao intercâmbio cultural, que dizer de pormenores como hifens e acentos?
A ideia de unificação, que produziu um discurso politicamente positivo em torno do assunto, além de não ter utilidade prática, gera vultoso gasto de energia e de recursos, que bem poderiam ser empregados no estimulo à educação e à cultura.
Não bastasse a inconsequência do projeto em si, o texto que o tornou oficial é tão lacunar e ambíguo que desafiou os estudiosos do idioma tanto no Brasil como em Portugal, fato que levou à produção de dicionários com grandes discrepâncias entre si.
Faltava uma obra de referência, que estabelecesse a grafia das palavras, regularizando os pontosobscuros do texto oficial. Esperava-se que essa obra fosse concebida em conjunto pelos países signatários do Acordo, como fruto de um debate no âmbito do propalado projeto de unificação.
No lugar disso, a ABL (Academia Brasileira de Letras) tomou a dianteira do empreendimento e confeccionou o "Volp" ("Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa"). Em lugar da solução dos pontos ambíguos do texto, o que se viu foi um misto de inobservância de princípios claramente propostos no documento oficial com hesitação entre o novo e o antigo, redundando, em muitos dos casos, em escolhas aparentemente aleatórias.
Se a ABL entendeu que poderia suprimir o hífen de formas como "co-herdar" e "co-herdeiro", em desacordo com o texto oficial, talvez em nome da simplificação, por que esse princípio não presidiu as demais escolhas?
Para ficar num exemplo gritante, por que transformar o verbo "sotopor" em "soto-pôr"? Está no texto oficial, mas isso não parece ser razão suficiente para a ABL. Pior que desmontar uma aglutinação, acrescendo-a de hífen e acento diferencial, talvez seja o fato de que as formas conjugadas do verbo não seguem a grafia do infinitivo (o "Volp" registra "sotoposto").
Ainda pior que isso é a hesitação: criaram-se grafias duplas ("sub-humano" e "subumano"; "ab-rupto" e "abrupto" e até "prerrequisito" e "pré-requisito", entre muitas outras) sem um critério seguro que as afiançasse. A interpretação do sexto artigo da Base XV do Acordo transformou substantivos compostos em locuções por obra da supressão sistemática dos hifens. As exceções, agrupadas sob a rubrica "consagradas pelo uso", são apenas sete no documento oficial, o que, por si só, já dá a medida do absurdo. O conceito é por demais vago, tanto que não garantiu a manutenção pura e simples da grafia "abrupto", esta sim consagrada pelo uso.
A supressão do hífen que separava a forma prefixal "não-" de substantivos e adjetivos não é um recurso facilitador. Diante dos substantivos, não havia dúvida quanto ao seu emprego ("não-índio", "não-agressão" etc.). A distinção entre "dia a dia" (locução adverbial) e "dia-a-dia" (substantivo composto) era útil, afinal, o sistema de distinções favorece a compreensão da gramática da língua.
Melhor trabalho teria sido a regularização do hífen com "bem" e "mal", nem sempre percebidos como prefixos. Louvável ainda teria sido o registro dos principais estrangeirismos em uso na língua, respeitando grafias consagradas em seu idioma de origem, dado que hoje não há tendência ao aportuguesamento.
Sem um objetivo claro e com severas implicações financeiras, a reforma ortográfica apoia-se num documento lacunar e numa obra de referência marcada pela hesitação e pela inconstância nos critérios de regularização. Fica a incômoda impressão de que os custos serão bem maiores que os supostos benefícios.

THAÍS NICOLETI DE CAMARGO , professora de português formada pela USP, é consultora de língua portuguesa do Grupo Folha-UOL. É autora dos livros "Redação Linha a Linha" (Publifolha) e "Uso da Vírgula" (Manole)

sexta-feira, 11 de junho de 2010

África


O entardecer africano é sempre um momento de fascínio. Luanda tem uma baía soberba que se insinua majestosamente com as cores do sol poente.

quinta-feira, 10 de junho de 2010

PORTUGAL dos portugueses

Existem 5 milhões de Portugueses espalhados por 132 países. Assim, onde quer que se vá, encontra-se sempre um português. Essa realidade entra-nos, agora, pela televisão por causa da realização do Mundial de Futebol.
A recepção à Selecção Nacional foi impressionante. Uma imensa multidão de portugueses esperava-a, rejubilando com a sua presença. Todas as imagens foram difundidas pelos canais televisivos, pelo que foi impossível não visionar esse acontecimento.
Diz-se que Ser Português é mais intenso quando se vive longe de Portugal. Neste dia das Comunidades Portuguesas, podemos recuar com toda a oportunidade e validade ao Discurso proferido por Jorge de Sena, em 10 de Junho de 1976, aquando das mesmas Celebrações, publicado no livro de que é autor, "Dedicácias", pela Editora Guerra e Paz porque evidencia com mestria esta característica do génio português espalhado pelo mundo. Atente-se, pois, nos seguintes excertos desse excelente Discurso: -"...Mas não sou exactamente um emigrante no estrangeiro, ainda que neste viva, e com os emigrantes me possa identificar - aqueles emigrantes que vi e tenho visto de perto, primeiro no Brasil e depois nos Estados Unidos, e também pelo mais largo mundo que tenho percorrido, e que, com a sua laboriosidade, a sua dignidade, a sua humanidade convivente, são em toda a parte , míseros e mesquinhos, ou ascendidos e triunfantes, muitas vezes , os embaixadores que Portugal não envia, ou os representantes da cultura que Portugal não exporta. Por dezassete anos, Camões foi apenas um deles, quando ninguém sabia ou podia saber o génio que ele era." (...)
"... a minha fidelidade a Portugal - e fidelidade é uma das palavras -chave da minha pessoa e da minha obra , como liberdade é outra - nunca me permitiu livrar-me de partilhar ( acrescentadas da dor da distância ) as dores e as alegrias , os desalentos e as esperanças de Portugal." (...)" Aceito falar, como eu mesmo, da importância e do significado de Camões hoje , e da necessidade de ter presente ao espírito esta ideia tão simples : um país não é só a terra com que se identifica e a gente que vive nela e nasce nela, porque um país é isso mais a irradiação secular da humanidade que exportou. E poucos países do mundo, ao longo dos tempos, terão exportado, proporcionalmente , tanta gente como este."
PORTUGAL é ainda, sempre e também ESSA IMENSIDÃO DE GENTE IRRADIADA QUE VIVE LONGE, MAS SENTE SER PORTUGUESA.

terça-feira, 8 de junho de 2010

People



People, people who need people
Are the luckiest people in the world
We're children needing other children
And yet letting our grown-up pride
Hide all the need inside
Acting more like children than children

Lovers are very special people
They're the luckiest people in the world
With one person, one very special person
A feeling deep in your soul
Says you WERE half now you're whole
No more hunger and thirst
But first be a person who needs people

People, people who need people
Are the luckiest people in the world.

With one person, one very special person
A feeling deep in your soul
Says you WERE half now you're whole
No more hunger and thirst
But first be a person who needs people
People, people who need people
Are the luckiest people in the world.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

When something is wrong with my baby

As vozes de Carla Thomas & Micheal McDonald num óptimo registo desta sempre actual canção.

O sexo dos anjos


Por Baptista Bastos
Nenhum dos dirigentes políticos portugueses faz o menor esforço intelectual para entender e decifrar os sinais do tempo. José Sócrates disse que o mundo mudara havia duas semanas. Não se sabe, mas parece, que foi a uma sexta-feira. O ridículo deixa de o ser para se transformar em tragédia. O desemprego subiu outra vez (10,8 por cento), os impostos são confiscos, a desorientação alastra como endemia. Numa passeata pelo Brasil e pela Venezuela, Sócrates quis conhecer Chico Buarque de Holanda, ídolo da sua juventude.
Nada de mal. O pior é que foi armada uma encenação de ópera-bufa. Noticiou-se ter sido o imenso criador poético a manifestar o desejo de conhecer tão admirável estadista. Mentira, facilmente provada e desmontada. Buarque, a solicitação de Lula da Silva, recebeu, no seu apartamento de Ipanema, o admirável estadista, ofereceu-lhe um cafezinho e, da conversa, nada transpirou. Faço uma pequena ideia do teor do espantoso diálogo. Fotografia, sorrisos, até sempre.
E andamos nestes quadros de revista, sem glória, nem altura nem grandeza. Nenhum político se nos dirige, olhos nos olhos, para revelar a verdadeira natureza do desastre português. Os habituais preopinantes dizem, nas televisões, que tudo vai de mal a pior, que o desemprego aumentará exponencialmente, que haverá "reajustamentos" mais pesados às decisões já tomadas, que são necessárias, imediatamente, regras de solução e de emergência, trezentas mil pessoas protestam nas ruas de Lisboa - e que acontece? Nada.
Não é bem assim. O povo quer é festas. E aí as tem, com o campeonato mundial de futebol (que não augura nada de favorável à curiosa selecção do "professor" Carlos Queirós); com as zaragatoas do Rio em Lisboa; com a transferência de Mourinho para o Real Madrid, que forneceu a medíocre dimensão do nosso jornalismo, particularmente o "televisivo", com todos os canais e mais alguns a transmitirem, em directo, durante imenso tempo, a conferência do "augusto" treinador.
O País está quase a pique e o pessoal quer sardinha assada. Medina Carreira é tido e havido como um "catastrofista", um "derrotista" sem remendo nem remédio. Apenas porque diz o que deve ser dito, e adverte-nos do que se nos dissimula ou oculta. Outros, mais ou menos preocupados com o rumo da caravela, são apontados como comunistas. Nada se critica que não seja apontado como manigância.
Como reage o Governo? Aumenta impostos e sorri ante a tempestade. As estatísticas marcam as evidências e projectam inquietantes indícios. Vem aquele secretário de Estado, que já foi da Educação, e agora é de não sei quê, aquele que ostenta uma testa curtíssima, e afirma, com inaudito descaramento, que as estatísticas não estão bem sopesadas, e que a pátria pode ir para a festa pois Sócrates vela e zela pelo nosso sossego.
A solução não consiste num "entendimento" entre o PSD e o PS, nada disso. Não duvido que Pedro Passos Coelho seja um homem sério, de mãos limpas e alma lavada. Não é isso que está em causa. O projecto do novo presidente social-democrata obedece a esse conceito de "social-democracia" que faz, dos políticos seus afins, hábeis gestores do capitalismo. Nada mais do que isso.
Ainda ninguém nos disse (a não ser Jerónimo e Louçã) como é que podemos sair da crise sem deixar um rasto de dor e de miséria no mundo dos mais desfavorecidos. Como não nos dizem que a democracia portuguesa corre perigo iminente devido às suas inúmeras fragilidades, e à indiferença como o povo em festa assiste a este desmoronar dos sonhos.
O caminho parece aberto para o aparecimento de um salvador mirífico e para o reforço das organizações de extrema-direita. Com uma subtileza que não disfarça a intenção, assiste-se, na comunicação social, ao reescrever da História, à defesa dos valores sem valor, ao "assear" dos crimes do salazarismo, e à ausência de críticas aos males do capitalismo. Há dias, "Le Monde", num texto estimulante pelas perspectivas que propunha, dizia que os novos empresários admitiam que o capitalismo terá de ser ético, ou não será. O vaticínio de que grandes e extensas convulsões sociais eram inevitáveis, se não fossem tomadas decisões rápidas, associavam-se às teses que começam a proliferar pela Imprensa europeia. Não esqueçamos que, na "União" (que raio de "união" é esta?), há já quinze milhões de desempregados, e que cresce a enunciação, tenazmente defendida pela Alemanha da senhora Merkel, de que é melhor o euro ser substituído pelas moedas que o antecederam.
Os bárbaros estão às portas de Bizâncio e discute-se o sexo dos anjos.
Artigo de opinião de Baptista Bastos, publicado no "Jornal de Negócios", em 4 de Junho de 2010

domingo, 6 de junho de 2010

O desastre ecológico

E o Homem tudo toma e tudo destrói. O petróleo tinge de negro o que aparece e sufoca quem lhe resiste.

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Morreu João Aguiar

O escritor João Aguiar, de 66 anos, morreu ontem, em Lisboa, vítima de cancro. Segundo o seu editor, ficou por publicar o livro em que o autor estava empenhado nos últimos tempos sobre a revolta popular de 1383, que levou o Mestre de Avis, futuro D. João I, ao trono, obra que não chegou a ser concluída.Desde criança que se dedicava à escrita, mas só aos 40 anos de idade publicou na extinta Editora Perspectivas & Realidades, o primeiro romance, “A Voz dos Deuses”, uma ficção histórica cuja personagem central é Viriato. João Aguiar cultivava o romance histórico. O último livro foi publicado em 2008, com o título "O Priorado do Cifrão”.
João Casimiro Namorado de Aguiar nasceu a 28 de Outubro de 1943 e viveu a infância entre Lisboa - a sua cidade-natal - e a Beira, em Moçambique. Licenciou-se em Jornalismo pela Universidade Livre de Bruxelas e iniciou-se na RTP, em 1963, tendo posteriormente trabalhado em diversos jornais. Teve uma produção literária abundante, mais de duas dezenas de romances e criou duas séries de televisão para o público mais jovem - «Sebastião e os Mundos Secretos» e o «Bando dos Quatro», no qual ele próprio figura como a personagem Tio João.
Numa autobiografia irónica que escreveu para o "Jornal de Letras" em 2005, João Aguiar concluía: “A minha vida não dava um livro, e ainda bem. Em compensação, o facto de os meus livros darem uma vida -- boa ou má, não importa para o caso - , esse facto devo-o, em grande parte, aos momentos de não-glória que acabo de relatar. E estou-lhes muito grato.”

As mãos que trago

A poesia quando cantada tem um som especial. Amália Rodrigues já o tinha feito magistralmente com este poema de Cecília Meireles, musicado por Alain Oulman. Dulce Pontes retomou-o e com a sua imensa voz recriou-o com uma nova e esplêndida sonoridade.




Foram montanhas, foram mares,
Foram os números, não sei
Por muitas coisas singulares
Não te encontrei, não te encontrei
E te esperava, te chamava
Entre os caminhos me perdi
Foi nuvem negra, maré brava
E era por ti, era por ti!

As mãos que trago, as mãos são estas
Elas sozinhas te dirão
Se vem de mortes ou de festas
Meu coração, meu coração
Tal como sou, não te convido
A ir esperar onde eu for
Tudo o que eu tenho é haver sofrido
Pelo meu sonho alto e perdido
E o encantamento arrependido
Do meu amor, do meu amor!


Cecília Meireles

quinta-feira, 3 de junho de 2010

A maré negra continua


Terça-Feira, 20 de Abril de 2010, ocorreu uma explosão brutal na plataforma perotlífera Deepwater Horizon, situada no Golfo do Mexico. Sem ainda ter sido encontrada solução para esse desastre, milhares de litros de petróleo continuam a invadir os mares da América Oriental constituindo a maior maré negra. As praias evidenciam já os efeitos nefastos da catástrofe, bem como a fauna e a flora costeiras.
O desacerto da intervenção da BP, empresa exploradora da Deepwatwer Horizon, bem como as infrutíferas medidas do Presidente dos Estados Unidos têm provocado uma forte polémica por não serem capazes de estancar o derrame e anular os respectivos efeitos. A Maré Negra aumenta todos os dias.
O mundo está realmente sobre um barril de pólvora.


O direito à INDIGNAÇÃO

Os portugueses não se conformam com os efeitos desastrosos das políticas governativas que levaram Portugal à derrocada e afundaram os trabalhadores num choque explosivo de impostos e desemprego. As vozes de mais de 300 mil manifestantes fizeram-se ouvir nas ruas de Lisboa.

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Prémio Camões 2010

O poeta e dramaturgo brasileiro Ferreira Gullar (1930) é o vencedor do Prémio Camões 2010. Este é o prémio de maior prestígio de língua portuguesa.
Ferreira Gullar é o escritor premiado que se segue ao cabo-verdiano Arménio Vieira e, nos anos anteriores, ao brasileiro João Ubaldo Ribeiro (2008) e ao português António Lobo Antunes (2007). Ferreira Gullar é o nono brasileiro a ganhar o Prémio Camões, depois de João Cabral de Mello Neto, Rachel de Queiroz, Jorge Amado, António Cândido, Autran Dourado, Rubem Fonseca, Lygia Fagundes Telles e João Ubaldo Ribeiro. Pseudónimo de José Ribamar Ferreira, Ferreira Gullar é poeta, crítico de arte, biógrafo, tradutor, argumentista de teatro e de televisão e ensaísta. Em 1949, publicou o seu primeiro livro, "Um pouco acima do chão". Integrou vários movimentos literários e artísticos, tendo sido nomeado, em 1961, Director da Fundação Cultural de Brasília, onde elaborou o projecto do Museu de Arte Popular. Esteve no exílio (Moscovo, Santiago do Chile, Lima e Buenos Aires), de 1971 a 1977. Ferreira Gullar já foi agraciado com vários prémios, entre os quais o Prémio Jabuti (em 1999 e em 2007), o Prémio Alphonsus de Guimarães, bem como o prémio Multicultural 2000, do jornal "O Estado de São Paulo". Em 2002, por indicação de nove académicos dos EUA, de Portugal e do Brasil, foi indicado para o Prémio Nobel de Literatura. Em Portugal, a sua obra está publicada pelas Quasi Edições.
O júri, presidido por Helena Buescu, professora da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, foi composto por José Carlos Seabra Pereira, professor associado da Universidade de Coimbra, Inocência Mata, professora santomense de Literaturas Africanas na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, e professora convidada em várias universidades brasileiras e norte-americanas, Luís Carlos Patraquim, escritor e jornalista moçambicano, António Carlos Secchin, escritor e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro e ainda a escritora brasileira Edla van Steen.

Notícia do IC em 31/05/2010

terça-feira, 1 de junho de 2010

Cativar

"Cativar" é uma das palavras mais belas que aparece no excepcional livro de Saint Exupery , " O Principezinho". Cativar é criar laços , um estímulo que todos nós devemos promover e que neste Dia Mundial da Criança poderá servir para reflectir.