domingo, 30 de maio de 2010

Leitura Furiosa


A Leitura Furiosa é um acontecimento anual que dura três dias. Um momento privilegiado de encontro dos zangados com a leitura, a escrita e o mundo com os escritores. O momento único que permite a um não-leitor aproximar-se, com um escritor, da magia da escrita. Cada um faz ouvir a sua voz e segue um outro caminho.
Quem imaginou, há quase 20 anos, a Leitura Furiosa foi a associação Cardan, duma cidade do norte da França, Amiens, que trabalha para tornar o saber acessível àqueles que dele são excluídos, para quem o saber e a cultura devem nascer de uma ligação com o conjunto da sociedade, para quem a cultura pode e deve ser analisada por aqueles que não a praticam. Por aí passa a integração, a inserção.
Em 2000, a Leitura Furiosa chegou a Lisboa. Até 2004 foi a Abril em Maio, uma associação cultural, que a organizou. Em 2008 começou a acontecer no Porto, em Serralves. Em 2009, a Casa da Achada – Centro Mário Dionísio repegou na ideia, em Lisboa. Em 2010 continua, com mais grupos, mais escritores, mais desenhadores, mais actores e cantores.
A Leitura Furiosa destina-se aos que, sabendo ler, estão zangados com a leitura – crianças e adultos, homens e mulheres, empregados e desempregados, nacionais e estrangeiros.
Vários pequenos grupos de gente zangada com a leitura convivem durante um dia com um escritor, como entenderem fazê-lo. À noite, o escritor escreve um pequeno texto que oferecerá ao grupo quando, no dia seguinte, voltar a encontrar-se com ele. Passarão todos por uma livraria, por uma biblioteca. Os textos são ilustrados, paginados e os que vêm de França e Kinshasa traduzidos. No Domingo, terceiro dia do encontro, são tornados públicos numa sessão de leitura feita por actores e não-actores, alguns deles musicados e cantados, e publicados numa brochura. Posteriormente são editados em livro.
In "Notícias Magazine", Centro Mário Dionísio, Casa da Achada

Dennis Hopper


Dennis Hopper morreu aos 74 anos, no Sábado, 29 de Maio, na sua casa, em Venice, na Califórnia, vítima de um cancro. Era o símbolo de uma geração de realizadores e actores que lançaram os "road-movies".
"Easy Rider" foi o filme que lhe deu maior sucesso e se tornou um filme de culto. Ao lado de Peter Fonda e de Jack Nicholson desempenhou com perfeição o argumento que ele próprio escreveu, sendo também o realizador deste filme numa produção independente que lhe valeu o Prémio do Festival de Cannes, em 1969.

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Verdadeiro ou falso ?


" Os inteligentes construiram o mundo. Mas quem disfruta dele e triunfa são os imbecis."

Pino Aprile , in " Elogio do Imbecil " Dom Quixote Editores

quinta-feira, 27 de maio de 2010

A farsa das promessas eleitorais

Rousseau considerava que o único e autêntico sentido das nossas acções deveria ser o de buscar e proporcionar dignidade às condições da existência humana.
Como poderemos nós acreditar que os senhores que nos governam procuram esse bem comum. Se isso fosse verdade, Portugal não estaria a caminho da falência social e não seriam derrogados direitos promovidos em tempo de eleições.
As promessas eleitorais são vãs e falaciosas, são argumentos puros de promoção para quem as faz. A insensibilidade social passou a marcar esta governação que, dia após dia, vai dimuindo a capacidade de sobrevivência de milhares de portugueses remetidos ao desemprego, atordoados de impostos e manietados pela falência e encerramento contínuo dos postos de trabalho.
O pacote de medidas proposto pelo Governo para a dita recuperação da nova (mas muito endémica ) crise é direccionado para os mais fracos, aqueles que estão prestes a tudo perder, aqueles que serão os novos pobres deste país. Um governo, que fez enricar milagrosamente muita gente, faz, agora, empobrecer escandalosamente um país quase inteiro. Os senhores que se apresentaram a eleições limitaram-se a montar uma máquina fraudulenta de enganos para atingir o poder. O povo iludido sucumbiu à ardilosa encenação e, num ápice, a hecatombe cai-lhes rudemente numa aparatosa queda, cruel e traiçoeira.
Já Mac Intyre argumentava que a cultura moderna tornou ausente a concepção de pessoa humana, nos moldes concebidos por filósofos gregos e cristãos. E como é irónico ter um Presidente do Conselho que se faz assinar por José Sócrates e que se diz secretário geral de um Partido Socialista.

terça-feira, 25 de maio de 2010

Coro a bocca chiusa

Madama Butterfly é uma ópera em três actos (originalmente em dois actos) de Giacomo Puccini, com libreto de Luigi Illica e Giuseppe Giacosa, baseado no drama de David Belasco. Estreou no Teatro Scala de Milão a 17 de Fevereiro de 1904."Coro a bocca chiusa" faz parte do Acto II.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

O imenso desprezo


Por Baptista Bastos

Conheço, no nosso país, pouca gente viva que tenha tantos inimigos dissimulados ou manifestos, tantos adversários furiosos ou larvares, tantos opositores ressentidos ou cheios de verdete - como José Sócrates. O homem é, de certeza, um mau primeiro-ministro, mas possui uma pele de crocodilo e uma alma coriácea. Jornais, rádios, televisões, comissões disto e daquilo, comentadores do óbvio e articulistas assanhados, gente de meia-tijela e intelectuais briosos, todos, sem excepção, têm molhado a sopa no primeiro-ministro.
É claro que ele dá o flanco: é arrogante; diz uma coisa para alinhar outra, logo a seguir; não escuta ninguém; ignora conselhos; não cede às evidências; tem dado cabo, sistematicamente, do PS, e não esconde o furor quando se lhe opõem. O caso Manuel Alegre é um clássico, apenas um entre muitos.
Por vezes, Sócrates assemelha-se a José Mourinho. Este proclama-se o Número Um, irrita toda a gente, às vezes merecia um par de estalos - é tudo verdade; porém, onde toca, como Midas, faz ouro. Ganha campeonatos, tira clubes da desgraça, forja vencedores, enfrenta as armadilhas e a Imprensa lá de fora (cujas garras e métodos fazem com que a nossa pareça uma litografia pastoril) - mas não aldraba, não omite, dispõe de uma dignidade sem par.
Sócrates é o que se sabe, o que se vê, o que se lê e o que se ouve. O produto típico de uma era de vazio. Fala e não diz nada, à maneira dos antigos tribunos, sem ideias de seu, sem convicções, mas com um discurso fluido e escorreito, por alguns tido como produto de um bom utente da língua. O vocabulário é muito pobre, a estrutura verbal escassa de nuances, alguns conflitos com a preposição. Nada de mal adviria ao mundo, caso o palavreado de Sócrates não fosse, como é, um emaranhado de vícios semânticos e uma floresta de enganos que a todos nós atinge.
Provou-o, uma vez mais, na última entrevista à RTP. A habilidade retórica sobrepôs-se, de novo, à razão e à coerência. Judite de Sousa (de longe a maior entrevistadora portuguesa, homens e mulheres incluídos) e José Alberto Carvalho, digno e decente jornalista, não conseguiram enfrentar aquele turbilhão de frases. Eles bem tentaram abrir uma brecha no muro. Impossível.
Sobressaiu a descortesia para com Pedro Passos Coelho, com aquela de não ter de pedir desculpa, por estar a realizar a sua tarefa; mas devia pedi-la, exactamente por não a ter cumprido e haver mentido aos seus compatriotas. Acrescente-se a insana afirmação de que Portugal, e não ele, José Sócrates, está devedor ao PSD. Independentemente das grosserias, da fúria incontida nas expressões do rosto, o primeiro-ministro destina-se a si mesmo um futuro único, grandioso e exemplar.
Nesta fase de Sócrates chego a sentir compaixão pela notória desorientação mental, porque da moral já nem sequer aludo. Este homem presume-se o Mourinho da política; porém, faltam-lhe as vitórias e, sobretudo, faltam-lhe a majestade, a nobreza de carácter - para lhe sobrar a soberba sem sentido, a vaidade quase esquizofrénica, a egolatria desmesurada.
Ele sabe que não possui armas nem trunfos para governar sozinho. Devia saber que, para estabelecer coligações (sejam elas ou não criticáveis e absurdas) tem de proceder a cedências, de realizar compromissos. Ninguém conhece o teor dos compromissos; mas alguns devem ser - e provavelmente, com maiores transigências de Sócrates do que temporizações de Passos Coelho.
Tudo isto é muito triste porque tudo isto é muito pequeno, minúsculo, com a ausência de magnitude, desprovido de dimensão. Pode José Sócrates dizer o que disser, expor as máscaras que desejar, mas as conclusões serão dramáticas para a pessoa, para o político. Sobretudo, para o País, que tem sido posto à prova com uma violência arrepiante. Temos pago os erros, os despautérios, as malandrices, as incompetências e os disparates de uma "classe" política que nos despreza, embora seja ela que merece o nosso mais absoluto desdém.
Claro que esta coligação entre o PS e o PSD não leva a coisíssima nenhuma. É histórico. E a circunstância de Sócrates e os seus desígnios serem objecto da execração de múltiplos sectores da sociedade portuguesa, indicam que as coisas não são e não serão tão bondosas como seria desejável.
Artigo de Opinião de Baptista Bastos publicado no "Jornal de Negócios " de 21 de Maio de 2010

domingo, 23 de maio de 2010

Dia Mundial da TERRA


Se existimos, logo existe a Terra. A Greenpeace mostra-nos as imagens de uma terra devastada, ameaçada pela incúria e ganância do Homem que esquece a interdependência da sua relação e consequentemente da própria sobrevivência. Um alerta necessário e oportuno.

sábado, 22 de maio de 2010

A Poesia de Jorge de Sena por Jorge de Sena

A minha poesia nada tem de patriótica ou de nacionalista, e eu sempre me quis e me fiz um cidadão do mundo, no tempo e no espaço. É uma poesia que sabe de tudo e que se escreveu em toda a parte, desde a épica de Gilgamesh, até à falta de comunicação com que os poetas mais jovens de hoje fingem que não estão calados. É também a poesia de um homem que viveu muito, sofreu muito, partilhou a vida pelo mundo adiante, sempre exilado, e sempre presente com uma vontade de ferro. Mas é uma poesia que, sempre que se forma, não sabe nada, porque é precisamente a busca ansiosa e desesperada de um sentido que não há, se não formos nós mesmo a criá-los e a fazê-lo. Quis sempre que essa poesia fosse o testemunho fiel de mim mesmo neste mundo, e do mundo que me deram para viver. Mas uma testemunha que cria no mundo aquele sentido que eu disse, e, ao mesmo tempo, deseja lembrar aos outros que há uns valores essenciais, muito simples: honra, amor, camaradagem, lealdade, honestidade, sem os quais a vida não é possível, e toda a poesia, por mais sábia que seja , é falsa. Uma testemunha de que, sem justiça e sem liberdade, as sociedades humanas não dão ao homem a dignidade que é a sua, e que ao poeta cumpre afirmara. Não uma testemunha passiva: mas activa. Porque é esse o papel da poesia. Pode ela ser panfleto, ou ser visão mística ou ser sátira, porque ela pode ser tudo. Mas tem de ser activa, não só no sentido meramente panfletário, mas no de , herdando tudo o que a Antiguidade e o passado nos legaram, criarmos a língua do presente e a língua do futuro. Já um filósofo disse que os limites do nosso mundo são os limites da nossa linguagem. Apenas esse filósofo se esqueceu de acrescentar que à poesia cabe o papel de superar todos os limites, ampliando-os em extensão e em profundidade. Mas sem nunca perder-se esta noção fundamental: a linguagem existe para comunicarmos, humanos que somos, uns com os outros. E, se os deuses – esses deuses da Magna Grécia (…) – nos entendem. Pior: não nos perdoarão jamais. E sem o perdão dos deuses ( ainda que eles fossem tão desavergonhadamente humanos muitas vezes) como poderemos sobreviver, neste mundo moderno que perdeu por completo a noção do sagrado, que o mesmo é dizer do valor da vida humana enquanto tal, em face da morte eterna?

Do discurso de agradecimento do Prémio Internacional de Poesia Etna-Taormina (1977) de Jorge de Sena , in “Obras de Jorge de Sena, Antologia Poética”, Edições ASA

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Os vampiros


Para Karl Marx o capitalista é como o vampiro: "O capital é trabalho morto que, como um vampiro, vive somente de sugar o trabalho vivo e, quanto mais vive, mais trabalho suga (…) o prolongamento do dia de trabalho além dos limites do dia natural, pela noite, serve apenas como paliativo. Mal sacia a sede do vampiro por trabalho vivo (…) o contrato pelo qual o trabalhador vendeu ao capitalista a sua força de trabalho prova preto no branco, por assim dizer, de que dispôs livremente de si mesmo. Concluído o negócio, descobre-se que ele não era um 'agente livre', que o momento no qual vendeu a sua força de trabalho foi o momento no qual foi forçado a vendê-la, que de facto o vampiro não largará a presa ´enquanto houver um músculo, um nervo, uma gota de sangue a ser explorada' ".
Citação de um texto de 1845 de Friedrich Engels.

(...)Se alguém se engana Com seu ar sisudo
E lhe franqueia As portas à chegada
Eles comem tudo Eles comem tudo
Eles comem tudo E não deixam nada

Eles comem tudo Eles comem tudo
Eles comem tudo E não deixam nada

Zeca Afonso, in "Vampiros"

quarta-feira, 19 de maio de 2010

O Estado continua a esbanjar recursos

Saldanha Sanches deixou ao jornal Expresso uma última Crónica, acutilante e objectiva como sempre foi seu apanágio. Tece uma análise muito lúcida ao estado actual do país e aos nefastos efeitos desta governação.
Em jeito de homenagem ao lutador, ao fiscalista, ao professor e analista transcrevem-se alguns fragmentos dessa Crónica publicada no Expresso de 15 de Maio.

"Fala-se muito, nos últimos tempos, em medidas para reduzir o défice. Medidas fiscais, diz-se até de justiça fiscal.
(...) Em qualquer caso, a justiça fiscal é uma questão que não se coloca só do lado da receita pública. Receita e despesa são verso e anverso do problema da justiça fiscal. É também muito provável que o esforço financeiro venha a atingir a segurança social, as pensões, as reformas.
Ora, de nada serve aumentar o IVA, ou tributar mais-valias, se o Estado continua a esbanjar recursos.
No esbanjadouro são muito claros dois tipos de papa-reformas: as obras públicas desnecessárias e os papa-reformas em sentido próprio.
O Estado ( o Governo, o primeiro-ministro) vive agrilhoado a um conjunto de compromissos políticos, arranjinhos, promessas, vassalagens, dívidas que paga periodicamente em quilómetros de auto-estradas, túneis e, agora, em TGV com paragens em todas as estações e apeadeiros do poder local ( desenhado em cima do mapa da volta a Portugal em bicicleta.
Já todos sabemos que Portugal tem mais quilómetros de auto-estrada do que muitos países mais desenvolvidos, que não fazem sentido muitas dessas estradas e que é um absurdo havê-las sem custos.
O que é uma verdadeira esquizofrenia é que nada se faça neste momento de verdadeiro aperto de finanças públicas.
(...) Além das vassalagens, não podemos esquecer os outros papa-reformas, profissionais da acumulação de reformas públicas, semipúblicas e semiprivadas. Basta ver o caso do Banco de Portugal, ou outros menos imorais, que permitem que uma série de cidadãos - gente séria, acima de qualquer suspeita - se alimente vorazmente, em acumulações de pensões, reformas e complementos, que começam a receber em tenra idade. Muitas vezes até com carreiras contributivas virtuais, sem trabalho e com promoções ( dizem que para isto são muito boas a Emissora Nacional / RTP e a Carris).
Tudo isto, como sempre, é feito ao abrigo da lei. É que isso dos crimes contra a lei é para os sucateiros. O problema é que a lei que dá é refém dos beneficiários que tiram e da sua ética.
Saldanha Sanches, Fiscalista "

terça-feira, 18 de maio de 2010

Jorge de Sena cantado por Zeca Afonso



Epígrafe para a Arte de Furtar

Roubam-me Deus,
Outros o Diabo
- quem cantarei?

Roubam-me a Pátria;
e a Humanidade
outros ma roubam
-quem cantarei?

Sempre há quem roube
Quem eu deseje;
E de mim mesmo
todos me roubam
-quem cantarei?

Roubam-me a voz
quando me calo,
ou o silêncio
mesmo se falo
-aqui del-rei!

Jorge de Sena, in “Fidelidade” 1958 , Obras de Jorge de Sena, Antologia Poética , Edições ASA

segunda-feira, 17 de maio de 2010

O país de Sócrates não é o nosso

Convém ter energia e ser determinado na defesa da imagem de Portugal. A apologia dos "bicos de pés" não é digna e nunca aceitável , contudo é ainda mais indigno conduzir um país à falência, denegrir o seu bom nome e fingir que nada aconteceu.
Sócrates está em Espanha, na Cimeira UE/América Latina. Fala, discursa com gestos ensaiados, qual comediante de palco de cartão, afirmando que Portugal cresceu e que deve servir de exemplo em Ciência , Inovação etc. , numa litania estranha que choca os nossos ouvidos de tão absurda e inverosímil.
Confrange e envergonha ver o Presidente do Conselho falar do seu país como se não fosse o país de todos nós, - Portugal.
Portugal empurrado por uma política cega para a maior crise de sempre. Portugal que é o nosso país e que Sócrates esqueceu ser o dele também.
" Pátria magra - meu corpo figurado... / Meu pobre Portugal de pele e osso!"
Como são ilustres e sábias estas palavras de Miguel Torga no poema " Regresso".

Uma língua não é de ninguém

Não pode dizer-se de língua alguma que ela é uma invenção do povo que a fala. O contrário seria mais exacto. É ela que o inventa. A língua portuguesa é menos a língua que os Portugueses falam do que a voz que fala os Portugueses.”
“Uma língua não é de ninguém, mas nós não somos ninguém sem uma língua que fazemos nossa. É neste sentido, e unicamente neste sentido – longe das identificações narcisistas dos nacionalismos culturais -, que uma língua é, como pensava Pessoa, a nossa verdadeira pátria. A esse título, habitá-la, defendê-la, da única maneira criadora tolerável, o que a torna cúmplice dos nossos desejos e dos nossos sonhos de imortalidade humana, nem é mesmo um dever, mas a natural respiração de uma cultura que tem nela a sua matéria e a sua forma. Ou melhor, a alma da sua alma.”

Eduardo Lourenço in "A Nau de Ícaro seguido de Imagem e Miragem da Lusofonia", Gradiva

domingo, 16 de maio de 2010

E assim vai o nosso mundo


No terceiro dia de violência na capital da Tailândia morreram mais oito pessoas. Os confrontos já fizeram 54 mortos e 1600 feridos desde 10 de Abril. O centro de Bangkok continua a ser um campo de batalha entre os manifestantes " camisas vermelhas" e as forças policiais e militares que cercaram a zona comercial e financeira da capital por eles ocupada. Os disparos contra os manifestantes têm sido presenciados, pelo que um dos líderes dos "camisas vermelhas", Kokaew Pikulthong, pediu como mediador um representante das Nações Unidas para que obrigue o Governo a retirar as forças militares .
A morte está nas ruas de BangKok. Assim vai o nosso mundo.

A maior maré negra dos Estados Unidos

As estimativas dadas pelas autoridades americanas e pela BP são de 800.000 litros de petróleo invadindo os mares todos os dias.

Desde a explosão da Plataforma Deepwater Horizon, no Golfo do México, a 20 de Abril que o petróleo não cessa de invadir os mares da costa oriental dos Estados Unidos, constituindo grandes manchas negras à deriva por centenas de metros.
Steven Wereley, Professor de Engenharia Mecânica na Universidade Purdue, afirmou que a avaliação oficial é dez vezes inferior à realidade. Não se pode falar de uma fuga de petróleo para qualificar este desastre. É uma catástrofe. Trata-se da saída de 8,8 milhões a 13 milhões de litros de petróleo por dia.
Como o petróleo não coagulou estende-se em manchas dispersas pelos mares o que dificulta a avaliação da dimensão da catástrofe, pelo que apesar dos esforços conjuntos da BP e dos Estados Unidos este desastre petrolífero continua ser a maior ameaça ecológica registada nestes mares.

Assim vai o nosso mundo.

Artigo adaptado da Revista " Le Point"

sábado, 15 de maio de 2010

Os acordos


(...) "Deveremos, pois, submeter-nos aos novos senhores do mundo numa vistosa parceria global, cujas regras são ditadas bem longe e sem nosso conhecimento? Será que a luta de tantos milhões de homens e mulheres, bem como os sofrimentos por que passaram os nossos pais e avós vão ficar perdidos? "
(...)"O discurso de natureza económica e financeira, nos areópagos e nos 'media', ofuscou de tal modo os debates sobre o político e o social, que os obrigou a concentrarem-se no tema do uso e da aquisição dos recursos, desviando-os das suas áreas normais de intervenção: a gestão de conflitos e a negociação, a redistribuição da riqueza e a coesão. As grandes questões sociais foram 'desvalorizadas' pela proeminência dos interesses dos negócios."

" Para que serve a Esquerda?" de João Caraça , Artigo publicado no Jornal "Público", em 26 de Abril de 2010

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Prémio Literário Casa da América Latina 2010

"Somos o Esquecimento que Seremos", de Héctor Abad Faciolince, Série Américas, Quetzal Editores
«Um livro tremendo e necessário, de uma coragem e honestidade arrasadoras. Por vezes, perguntei-me como é que terá tido a valentia de o escrever.» Javier Cercas, El País

O Prémio Literário Casa da América Latina/Banif 2010, de Criação Literária, destinado a premiar a melhor obra de autor latino-americano editada em Portugal em 2008 e 2009, foi atribuído por unanimidade à obra "Somos o Esquecimento Que Seremos", do escritor colombiano Héctor Abad Faciolince, publicada em 2009 pela Quetzal Editores.
Ao Prémio concorreram 21 obras de autores argentinos, brasileiros, colombianos, cubanos e mexicanos, publicadas por 9 editoras portuguesas.
O Júri, constituído pela Profª Doutora Maria Fernanda de Abreu, presidente, pelo Prof. Doutor Fernando Pinto do Amaral e pelo Dr. José Manuel de Vasconcelos, em representação da Associação Portuguesa de Escritores, e secretariado pelo Dr. Mário Quartin Graça, em representação da Casa da América Latina, sem direito a voto, justificou a sua deliberação de atribuir o Prémio àquela narrativa, «por se tratar de uma obra portadora de uma escrita pessoal que implica, ao mesmo tempo, uma dimensão humana inalienável. Testemunho filial sobre uma figura representativa de uma época e de umas circunstâncias políticas, sociais e cívicas, que marcaram a vida recente da América Latina, o livro apresenta-se também como uma narrativa de aprendizagem, plena de memórias e de ressonâncias autobiográficas, que reconstitui a atmosfera de uma família colombiana na segunda metade do século XX, contada a partir do ponto de vista do menino, do adolescente e do jovem que o escritor adulto recupera, guiado pela ausência dolorosa do pai assassinado – personagem tutelar de toda a obra.» (…)
Do Comunicado enviado à imprensa pela Casa da América Latina e BANIF

quinta-feira, 13 de maio de 2010

E agora


A crise está declarada. O Governo foi obrigado a desnudá-la. Se o fez totalmente mais tarde saberemos, mas o que importa frisar é que já lhe é impossível escondê-la. E aí está ela. Fulgurante, devassa, avassaladora lançando de novo os seus enormes tentáculos para todos nós, presas fáceis porque pobres cidadãos somos deste país à mercê de quem mais o (in)governa irresponsavelmente.
Adiada andava a palavra na campanha, no programa, nas declarações, nas entrevistas deste governo que ironicamente é socialista e pragmatica e faustosamente adoptou uma política de desgaste económico e social, conduzindo o país a uma calamitosa e profunda situação deficitária. E a carga fiscal foi largada e ataca todos aqueles que desde sempre têm alimentado a inépcia dos sucessivos governos que jamais assumem e pagam os erros que cometem e vão reiterando escandalosamente.
Agora, é vê-los quais frágeis cordeirinhos inócuos tentando ainda minimizar o desastre que provocaram justificando-o com o contágio da crise mundial e situando as medidas adoptadas como emergentes do quadro comunitário.
Ser português numa comunidade europeia antiperiférica é uma contingência que não permite erros e muito menos uma sucessão de erros e enganos.
Num tempo de muita miséria, restringir de novo o parco orçamento familiar da grande maioria dos portugueses é deveras um atentado contra a sua dignidade.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Sócrates dixit

"Portugal é o campeão do crescimento no primeiro trimestre."
"Portugal registou o maior crescimento económico da Europa no primeiro trimestre deste ano."
"A economia recuperou e está a recuperar."
"Portugal foi o primeiro país a sair da condição de recessão técnica e o que melhor resistiu à crise."
E tudo isto disse Sócrates, hoje, em Portugal e espantosamente sobre Portugal.
Entre o Benfica e a visita do Papa , o Presidente do Conselho lá encontrou alguns momentos de glória mediática. E o povoléu distraído nem dá pelas impressionantes verdades que de tão autênticas até nos assustam.

domingo, 9 de maio de 2010

Eurovisão 1963

Alain Barrière canta a bela canção de amor, "Elle était si jolie" , no Festival da Eurovisão de 1963, quando a canção francesa ainda dominava o público europeu e o Eurofestival era um acontecimento musical importante.

Dia da Europa

2010
De crise em crise, a Europa como união celebra hoje o seu 60º aniversário. Foi a 9 de Maio de 1950 que, sob proposta de Jean Monnet , Rober Schuman , ministro dos Negócios Estrangeiros de França, pronunciou o discurso fundador da Europa, no Quai d'Orsay, em Paris. Robert Schuman enunciava os fundamentos para a fundação da Comunidade Europeia do Carvão e do Aço, defendidos inicialmente por quatro países.
Nessa altura, a Europa ainda tratava as feridas de uma Guerra Mundial , pelo que urgia criar defesas consistentes contra as vicissitudes da guerra. A actual União Europeia já nada tem a ver com a proposta de Jean Monnet, embora ele tenha declarado que cada crise é diferente e que a Europa avança na crise. Será que com esta crise ela avançará ? E quem perderá? Todos, alguns ou os mesmos de sempre?

sábado, 8 de maio de 2010

A precariedade da certeza


"... Essa fraqueza do Cogito estende-se muito longe: ela está ligada não só à imperfeição da dúvida, mas à própria precariedade da certeza que venceu a dúvida, essencialmente pela sua ausência de duração; entregue a si próprio o eu do Cogito é o Sísifo condenado a subir , a todo o instante, o rochedo da sua certeza na contra-encosta da dúvida. "

Paul Ricoeur

O PEC


Cartoon Bandeira, publicado no DN de 23 Abril 2010

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Tchaikovsky, 1812 Overture part 1

Piotr Ilitch Tchaikovsky nasceu a 7 de Maio de 1840 em São Petersburgo.
São passados 170 anos após o seu nascimento. Em jeito de homenagem a este grande compositor russo, fica o registo da Parte 1 da Abertura da 1812, na Gala do seu 150º aniversário com o Maestro Yuri Temirkanov regendo as Orquestras Filarmónica e Militar de Leninegrado, acompanhados com verdadeiros canhões no exterior da sala.

quinta-feira, 6 de maio de 2010

terça-feira, 4 de maio de 2010

E a Grécia


Eis o grito dos comunistas gregos lançado hoje, de manhã, na histórica Acrópole de Atenas para os Povos da Europa. É também um apelo à mobilização geral contra as medidas de austeridade que pesam sobre o povo grego, precedendo uma greve geral contra o plano de recuperação anunciado pelo Governo.
Vivem-se dias conturbados na Grécia. Em Portugal ainda se discute o programa do Governo e a irredutibilidade das suas opções. Lisboa não tem uma Acrópole, apenas um Castelo sobranceiro e orgulhoso.
E até Mao Tse Tung já dizia nos seus discursos « … a História da Humanidade é um movimento constante do reino da necessidade para o reino da liberdade..."

segunda-feira, 3 de maio de 2010

You Make Me Feel Brand New

Uma óptima interpretação de Mick Hucknall dos Simply Red no Album "Home" de 2003



My love
I’ll never find the words, my love
To tell you how I feel, my love
Mere words could not explain
Pre­cious love
You held my life within your hands
Cre­ated everything I am
Taught me how to live again

Only you
Cared when I needed a friend
Believed in me through thick and thin
This song is for you
Filled with grat­it­ude and love

God bless you
You make me feel brand new
For God blessed me with you
You make me feel brand new
I sing this song ’cause you
Make me feel brand new
My love
Whenever I was insec­ure
You built me up and made me sure
You gave my pride back to me
Pre­cious friend
With you I’ll always have a friend
You’re someone who I can depend
To walk a path that never ends

Without you
My life has no mean­ing or rhyme
Like notes to a song out of time
How can I repay
You for hav­ing faith in me

À volta da CRISE

Contra a humilhação que se nos prepara
Por Baptista Bastos

(...)Muito se tem falado, com grave assunção ou displicente verbo, das ameaças à democracia. Elas estão em toda a parte. Sabe-se que esta crise violenta do capitalismo não se conclui mantendo tudo na mesma. E é essa perspectiva de alteração e de mudança do sistema que preocupa quem dele vive: as transnacionais, cujo poder é muito superior ao dos Governos, e não estão dispostas a ceder, sem luta feroz, os seus privilégios, que aumentaram exponencialmente, com a globalização e a implosão do comunismo.

Portugal é outra experiência, como o foi no 25 de Abril e no que se seguiu ao processo revolucionário. Um laboratório de ensaios implacáveis, exactamente por ser o elo mais fraco. Medina Carreira, há meses, esclareceu, com a autoridade que se lhe reconhece e a coragem exemplar que demonstra, a natureza do que se preparava para o nosso país. Acrescido, obviamente, a torpe incompetência e da sobranceria sem par de quem tem dirigido Portugal nos últimos tempos. Foi taxado de pessimista. Ele só dizia a verdade que se nos ocultava. O resultado está à vista e tudo indica que as coisas vão ser muito piores. Sobretudo para as classes mais desfavorecidas.

Numa época e num País onde dominam os valores do consumismo, e onde "gestores" auferem vencimentos escandalosos e bónus obscenos, que respostas é possível dar, com a urgência e a proficiência necessárias? Não se trata, aqui, de manter ou de sustentar o Governo de Sócrates. Trata-se, isso sim, de recusar a humilhação que se nos prepara. Há que tocar a reunir.

Excerto do Artigo de Opinião de Baptista Bastos publicado no" Jornal de Negócios " de30/04/2010

domingo, 2 de maio de 2010

Maio de Mãe

Cantigas de Maio

Maio maduro Maio

Maio maduro Maio
Quem te pintou
Quem te quebrou o encanto
Nunca te amou
Raiava o Sol já no Sul
E uma falua vinha
Lá de Istambul

Sempre depois da sesta
Chamando as flores
Era o dia da festa
Maio de amores
Era o dia de cantar
E uma falua andava
Ao longe a varar

Maio com meu amigo
Quem dera já
Sempre depois do trigo
Se cantará
Qu'importa a fúria do mar
Que a voz não te esmoreça
Vamos lutar

Numa rua comprida
El-rei pastor
Vende o soro da vida
Que mata a dor
Venham ver, Maio nasceu
Que a voz não te esmoreça
A turba rompeu

Zeca Afonso em " Cantigas do Maio ". Este excepcional Album foi editado no Natal de 1971, com uma encenação musical vanguardista de José Mário.


sábado, 1 de maio de 2010

Agora


Abre-te , primavera!
Tenho um poema à espera
Do teu sorriso.
Um poema indeciso
Entre a coragem e a covardia.
Um poema de lírica alegria
Refreada,
A temer ser tardia
E ser antecipada.


Dantes , nascias
Quando eu te anunciava.
Cantava,
E no meu canto acontecias
Como o tempo depois te confirmava.
Cada verso era a flor que prometias
No futuro sonhado...
Agora, a lei é outra: principias,
E só então eu canto confiado.


Miguel Torga, in " Diário X " , 1968, Editora Círculo de Leitores